Contos Fluminenses
Capítulo V
Dizia por exemplo um deputado:
— O governo é reator; as províncias não podem mais suportá-lo. Os princípios estão todos preteridos, na minha província foram demitidos alguns subdelegados pela circunstância única de serem meus parentes; meu cunhado, que era diretor das rendas, foi posto fora do lugar, e este deu-se a um peralta contraparente dos Valadares. Eu confesso que vou romper amanhã a oposição.
Estêvão olhava para o deputado; mas no interior estava dizendo isto:
“Com efeito, Madalena é bela, é admiravelmente bela. Tem uns olhos de matar. Os cabelos são lindíssimos: tudo nela é fascinador. Se pudesse ser minha mulher, eu seria feliz; mas quem sabe?… Contudo sinto que vou amá-la. Já é irresistível; é preciso amá-la; e ela? que quer dizer aquele convite? Amar-me-á?”
Estêvão embebera-se tanto nesta contemplação ideal, que, acontecendo perguntar-lhe um deputado se não achava a situação negra e carrancuda, Estêvão entregue ao seu pensamento respondeu:
— É lindíssima!
— Ah! disse o deputado, vejo que o senhor é ministerialista.
Estêvão sorriu; mas Meneses franziu o sobrolho.
Compreendera tudo.
CAPÍTULO V
Quando saíram, o deputado disse ao médico:
— Meu amigo, você é desleal comigo…
— Por quê? perguntou Estêvão meio sério e meio risonho, não compreendendo a observação do deputado.
— Sim, continuou Meneses; você esconde-me um segredo…
— Eu?
— É verdade: e um segredo de amor.
— Ah!… disse Estêvão; por que diz isso?
— Reparei há pouco que, ao passo que os mais conversavam em política, você pensava em uma mulher, e mulher… lindíssima…