Contos Fluminenses
Capítulo V
Dias depois, Andrade e Mendonça foram à casa d’e Margarida, e lá passaram meia hora em conversa cerimoniosa. As visitas repetiram-se; eram porém mais freqüentes da parte de Mendonça que de Andrade. D. Antônia mostrou-se mais familiar que Margarida; só depois de algum tempo Margarida desceu do Olimpo do silêncio em que habitualmente se encerrara.
Era difícil deixar de o fazer. Mendonça, conquanto não fosse dado à convivência das salas, era um cavalheiro próprio para entreter duas senhoras que pareciam mortalmente aborrecidas. O médico sabia piano e tocava agradavelmente; a sua conversa era animada; sabia esses mil nadas que entretêm geralmente as senhoras quando elas não gostam ou não podem entrar no terreno elevado da arte, da história e da filosofia. Não foi difícil ao rapaz estabelecer intimidade com a família.
Posteriormente às primeiras visitas, soube Mendonça, por via de Andrade, que Margarida era viúva. Mendonça não reprimiu o gesto de espanto.
— Mas tu falaste de um modo que parecias tratar de uma solteira, disse ele ao amigo.
— É verdade que não me expliquei bem; os casamentos recusados foram todos propostos depois da viuvez.
— Há que tempo está viúva?
— Há três anos.
— Tudo se explica, disse Mendonça depois de algum silêncio; quer ficar fiel à sepultura; é uma Artemisa do século.
Andrade era cético a respeito de Artemisas; sorriu à observação do amigo, e, como este insistisse, replicou:
— Mas se eu já te disse que ela amava apaixonadamente o primeiro pretendente e não era indiferente ao último.
— Então, não compreendo.
— Nem eu.