Da produção ao consumo: impactos socioambientais no espaço urbano

1 Da produção ao consumo: dinâmicas urbanas para um mercado mundial

1 Da produção ao consumo:

dinâmicas urbanas para um mercado

mundial

 

Silvia Aparecida Guarnieri Ortigoza1

A página tem o seu bem só quando é virada e há a vida por trás

que impulsiona e desordena todas as folhas do livro. A pena

corre empurrada pelo mesmo prazer que nos faz correr pelas

estradas. O capítulo que começamos e ainda não sabemos que

história vamos contar é como a encruzilhada que superamos ao

sair do convento e não sabemos se nos vai colocar diante de

um dragão, um exército bárbaro, uma ilha encantada, um novo

amor.

Italo Calvino, Cavaleiro inexistente, 1993

 

A economia global e as redes geográficas

Nas duas últimas décadas consolida-se uma nova economia, informacional e global. O conteúdo informacional é a principal característica porque nessa economia a produtividade e a competitividade das unidades produtivas dependem basicamente da capacidade de criar, processar e aproveitar com eficiência a informação gerada. Essa informação passa a estar abalizada em conhecimentos sistemáticos que representam ganho de produtividade.

Além de sua característica informacional, existe outro componente central, seu alcance, que passa a ser global. Ser global quer dizer que as principais atividades produtivas estão organizadas em escala global. Ser global significa estar diretamente ligada a uma rede planetária de conexões que liga diversos agentes econômicos.

Nessa dinâmica, a própria produtividade e também a concorrência respeitam a lógica de interação de uma rede geográfi ca global.

Entretanto, embora toda essa lógica respeite uma dinâmica global de desenvolvimento, as realizações dão-se no nível do lugar. Considerando a escala do lugar, dedicaremo-nos neste capítulo ao estudo do processo de produção do espaço urbano, pois é na materialidade espacial que conseguimos identificar a pressão do global no local. Neste percurso reflexivo serão considerados a produção, a circulação e o consumo, por constituírem fatores explicativos do mundo da mercadoria.

Os problemas na e da cidade, do e no urbano, do e no

ambiente são decorrentes do triunfo do modo industrial de

produzir mercadorias (ou da modernização) e não dos seus

fracassos. A realização humana, no seu devir e provir, cria a

reflexividade, seus problemas. Torna-se um tema para exame

que é preciso enfrentar sem parcelamento das análises

procurando relacionar a produção, circulação e consumo.

(Rodrigues, 2001, p.218)

Entretanto, embora o modelo produtivo esteja atrelado a um único sistema, cada um desses elementos (produção, circulação e consumo) é respaldado por arcabouços teóricos específicos e, portanto, requerem explicações diferenciadas.

Benko é um autor que tem uma vasta produção acadêmica-científica e que contribui essencialmente na reflexão sobre a economia global e as novas redes produtivas que estão se constituindo. Em seus estudos ele procura apontar as várias contradições que podem ser vistas no processo de reestruturação produtiva e os percursos para desfazer os conflitos inerentes à acumulação capitalista. O principal embate nesse processo que ele indica é a luta contra a rigidez. Ele afi rma:

Assim, a palavra-chave mobilidade, que resume o fundo comum

das estratégias da acumulação flexível, remete não à

dominação tendencial de uma modelo ideal-típico pós-fordista

que estaria plenamente delineado em seu programa e em seus

aspectos produtivos, mas antes às numerosas zonas de

incertezas que a acumulação contraditória e combinada em

escala internacional veicula. (2002, p.23)

E o mesmo autor continuando sua reflexão em torno da dinâmica da acumulação capitalista esclarece:

A dinâmica dessa acumulação não é controlada nem pelos

Estados capitalistas nacionais nem pelas formas institucionais

de concentração do capital (multinacionais, trustes etc.). Ela

exprime, quanto ao essencial, a refundição das modalidades de

valorização do capital, consecutiva aos novos imperativos de

coordenação mercantil efetiva. Isso não significa, de modo

nenhum, que as estratégias postas em prática sejam "cegas" ou

desprovidas de objetivos precisos: elas são, ao contrário, bem

precisas tanto em seus desígnios quanto nos meios

empregados. No entanto, são conflituais e executam

desigualmente os seus programas, tendo em vista seu lugar

respectivo no sistema de dominação capitalista e sobretudo o

diferencial de classe com que deparam. É por essa razão que

as mutações das figuras produtivas não são teleguiadas por um

gênio maligno capitalista, mas devem ser entendidas como

resultado de uma conflitualidade de classe, aberta ou latente.

(idem, p.23, 24)

A posição e a localização de uma empresa na sua rede geográfica são elementos que indicam suas reais condições de vantagem competitiva ou a falta delas. Assim o espaço geográfico passa a ser o conteúdo principal de uma estratégia administrativa bem-sucedida. A constituição das redes geográficas na economia global é resultante da produção e concorrência e caracteriza-se por suas dimensões organizacional, temporal e espacial, dimensões essas que permitem o desenho global, regional e local da rede, a interdependência, a diversificação dentro de cada escala espacial, a inclusão seletiva e portanto, excludente. Toda essa racionalidade da era das redes acaba desintegrando as "antigas" lógicas da geografia econômica.

Os estudos desenvolvidos por muitos geógrafos sobre redes geográficas têm sido guiados pela seguinte definição: rede geográfica é "um conjunto de localizações geográficas interconectadas ‘entre si’ por um certo número de ligações" (Correa, 1997, p.107).

Esse mesmo autor colabora diretamente nessa temática e a citação que segue coloca o papel das redes de cidades globais nessa realidade socioespacial:

As cidades mundiais ou globais, sedes das grandes

corporações multifuncionais e multilocalizadas, constituem, no

final do século XX, os epicentros de numerosas, complexas e

desiguais redes que tornaram a organização espacial

caleidoscopicamente fragmentada e globalizada. Desse modo o

estudo das diferentes redes que compõem a organização

espacial constitui-se em relevante tarefa para os geógrafos.

(idem, p.108)

Outro autor que contribui diretamente com os estudos das redes globais é Santos. Ele prefere denominá-las redes técnicas:

As redes são mistas, elas incluem materialidade e ação. A rede

técnica mundializada atual é instrumento da produção, da

circulação e da informação mundializadas. Nesse sentido, as

redes são globais e, desse modo, transportam o universal ao

local. É assim que, mediante a telecomunicação, criam-se

processos globais, unindo pontos distantes numa mesma lógica

produtiva. É o funcionamento vertical do espaço geográfico

contemporâneo. (2005, p.168)

Essa colocação contribui diretamente com a temática que estamos debatendo neste capítulo, pois coloca em debate as mudanças funcionais e estruturais da sociedade de consumo ao mesmo tempo em que discute a finalidade do próprio mercado global.

Neste outro trecho da mesma obra de Santos somos remetidos à abordagem da escala local nesta era das redes:

Mas as redes também são locais e, nessa condição, constituem

as condições técnicas do trabalho direto, do mesmo modo que

as redes globais asseguram a divisão do trabalho e a

cooperação, mediante as instâncias não-técnicas do trabalho –

a circulação, a distribuição e o consumo. (idem, ibidem)

O cenário apresentado pela dinâmica econômica global atrelada às políticas públicas dominantes nos dias atuais demonstra uma tendência irremediável de inserção das cidades numa rede global sob uma dinâmica de relações voltada a uma busca sistemática pelos investimentos de capital e tecnologia. Esses investimentos têm como meta a competição na atração de indústrias e negócios, atração de força de trabalho qualificada e principalmente a conquista de oferta de serviços de qualidade.

Nesse contexto, os estudos das cidades na atualidade revelam grandes desafios, pois existem grandes referenciais em nível mundial que incentivam mais investimentos em infraestrutura, na construção de avançados sistemas de informação e comunicação e na modernização urbanística.

As campanhas de promoção das cidades são uma das partes

de abrangentes processos de reestruturação que

compreendem: a renovação de infraestruturas de mobilidade e

de telecomunicações, a renovação de áreas para fins

residenciais e de lazer, o incentivo ao crescimento de atividades

de serviços, a promoção do turismo, o desenvolvimento de

atrações culturais, a realização de convenções e de grandes

eventos esportivos, culturais ou de negócios. São iniciativas

baseadas no consumo do espaço. (Sánchez, 2003, p.383-4)

É nesse sentido que os gestores públicos vêm sofrendo grande pressão dos agentes globais em prol da incorporação dos novos fluxos do mercado mundial e, assim, esforçam-se para tornar as cidades homogêneas do ponto de vista das necessidades do capital. Mediante as ricas contribuições dos autores citados, fica claro que abordar o processo econômico global e seus impactos territoriais não é uma tarefa simples; pelo contrário, requer atenção a vários aspectos que estão amplamente imbricados, como é o caso dos agentes (Estado, empresários, consumidores etc.) e das fases do processo (produção, circulação e consumo). No caso deste nosso livro, embora estejamos relacionando consecutivamente todos esses aspectos, deter-nos-emos mais na fase final do sistema de produção, ou seja, no consumo.

Nossa reflexão também ultrapassará a abordagem do consumo que se realiza no espaço, mas avançará na análise do consumo do próprio espaço. Esse percurso do pensamento que estamos traçando nos leva a esclarecer que a generalização da mercadoria é um dos pressupostos para que possamos entender o papel do consumo na sociedade atual e assim compreender sua maior obra: a cidade.

 

Produção, circulação e consumo na sociedade

urbana atual

Foi por meio do aumento da produção que foram redefinidas a estrutura e a dinâmica do sistema econômico globalizado. A produtividade aumenta, mas por um novo nexo que permite sua permanente expansão. A tecnologia da informação, telecomunicações e serviços financeiros exercem papéis fundamentais nesse processo, alcançando em grande parte a atividade industrial, exigindo novas lógicas de circulação, de comércio e de serviços.

O território não fica imune a essas novas lógicas produtivas; pelo contrário, sua reprodução torna-se sistemática dando sustentação às novas necessidades da produção:

A sociedade que modela tudo o que a cerca construiu uma

técnica especial para agir sobre o que dá sustentação a essas

tarefas: o próprio território. O urbanismo é tomada de posse do

ambiente natural e humano pelo capitalismo que, ao

desenvolver sua lógica de dominação absoluta, pode e deve

agora refazer a totalidade do espaço como seu próprio cenário.

(Debord, 1997, p.112)

Em todos os setores o gerenciamento da tecnologia contribui para difundir ainda mais a produção. Mas a consolidação desse quadro econômico global não se realiza sem "altos e baixos" e as nações sofrem muito com isso – muitas vezes as tendências de crescimento revelam surpresas que colocam em xeque grandes regiões e Estados. A luta/concorrência que se trava no plano global é uma luta econômica que foge, muitas vezes, dos verdadeiros agentes do crescimento econômico e passa para as mãos dos governos.

A busca pela lucratividade leva à mobilização não só as empresas, mas as diversas nações. Essa competitividade acabou favorecendo novos e consecutivos arranjos regionais entre países, criando um traço típico dessa nova era do capitalismo informacional.

Diante dos diversos interesses econômicos e políticos, os Estados ficam diretamente ligados à competitividade, à produtividade e à tecnologia, voltando-se, muitas vezes, à promoção do desenvolvimento de estratégias em prol do poder econômico. Com a crescente imbricação entre política-economia-produtividade, o espaço geográfico sofre enormes interferências. Afinal, ser global envolve novas bases de infraestrutura, as quais devem propiciar o pleno desenvolvimento das novas tecnologias da informação e comunicação.

A velocidade é outro aspecto importante das novas tecnologias que faz com que o capital ganhe maior fluidez, conseguindo circular no menor tempo possível entre os países, unindo e excluindo as diversas economias. O capital precisa estar interconectado em todo o mundo para que de fato os fluxos se tornem globais.

A pressão do tempo é enorme em nossa sociedade, mas existem diversos lugares que não aderem à imposição do ritmo e da velocidade ditados pela técnica. Castells defende a ideia de que quanto mais ocorre a pressão do tempo, mais fica claro que é o espaço que modela o tempo em nossa sociedade, e acrescenta:

A tendência predominante de nossa sociedade mostra a

vingança histórica do espaço, estruturando a temporalidade em

lógicas diferentes e até contraditórias de acordo com a

dinâmica espacial. O espaço de fluxos (...) dissolve o tempo

desordenando a sequência dos eventos e tornando-os

simultâneos, dessa forma instalando a sociedade na

efemeridade eterna. O espaço de lugares múltiplos,

espalhados, fragmentados e desconectados exibe

temporalidades diversas, desde o domínio mais primitivo dos

ritmos naturais até a estrita tirania do tempo cronológico. (1999,

p.490)

Diante do exposto, observa-se a importância estratégica dos conteúdos do espaço. O tempo deve ser minimizado e o espaço passa a ser valorizado, haja vista que para que a circulação das mercadorias se torne real, espaços terão que ser percorridos. O espaço geográfico global e todos seus atributos físicos e de infraestrutura criada pelo homem deve conter benefícios para a também rápida circulação das matérias-primas e produtos. Nesse percurso do pensamento o espaço pode ser avaliado como condição para que as relações sociais de produção continuem a se desenvolver.

O espaço geográfico é o mais importante requisito para que haja de fato uma eficácia na produção, circulação e consumo e, portanto, tem que ser transformado para que a economia global continue a se desenvolver nos moldes que vêm sendo indicados nos últimos vinte anos.

Além das novas estratégias de locação das indústrias, ocorre também uma forte tendência de compressão do tempo. Essa compressão, diz Harvey, "tem sido um impacto desorientado e disruptivo sobre as práticas político-econômicas, sobre o equilíbrio do poder de classe, bem como sobre a vida social e cultural" (1989, p.257). Essa compressão deu-se com a transição do fordismo para a acumulação flexível, que fez com que os usos e significados do espaço e do tempo mudassem.

A aceleração do tempo no sistema produtivo teve como objetivo central a diminuição do tempo de giro, o que foi possível por meio da implementação de moldes mais flexíveis de produção e adoção das formas organizacionais integradas às novas tecnologias, e enfim pela superação da rigidez do fordismo. Trabalhando com essa transição, Harvey expõe o seguinte:

A aceleração na produção foi alcançada por mudanças

organizacionais na direção da desintegração vertical –

subcontratação, transferência de sede etc. – que reverteram a

tendência fordista de integração vertical e produziram um curso

cada vez mais indireto na produção, mesmo diante da

crescente centralização fi nanceira. Outras mudanças

organizacionais – tais como o sistema de entrega just-in-time,

que reduz os estoques – quando associadas a novas

tecnologias de controle eletrônico, de produção de pequenos

lotes etc., reduziram os tempos de giro em muitos setores da

produção (eletrônica, máquinas-ferramenta, automóveis,

construção, vestuário etc.). Para os trabalhadores, tudo isso

implicou uma intensificação dos processos de trabalho e uma

aceleração na desqualificação e requalificação necessárias ao

atendimento de novas necessidades de trabalho. (idem, ibidem)

A questão central para a compreensão dessa economia global é que essas posições, que se diferenciam dentro das redes geográficas, não coincidem com países. As diversas localidades produtivas são organizadas em redes e fluxos, utilizam a infraestrutura espacial, e são baseadas no componente tecnológico e centradas na economia informacional.

Esta breve introdução sobre os novos conteúdos econômicos globais serviu para que pudéssemos entender que a posição da divisão internacional do trabalho depende das características espaciais, de sua mão de obra e de sua capacidade de inserção na economia global.

Com a separação generalizada entre o trabalhador e o que ele

produz, perde-se todo ponto de vista unitário sobre a atividade

realizada, toda comunicação pessoal direta entre os produtores.

Seguindo o progresso da acumulação dos produtos separados,

e da concentração do processo produtivo, a unidade e a

comunicação tornam-se atributo exclusivo da direção do

sistema. A vitória do sistema econômico da separação é a

proletarização do mundo. (Debord, 1997, p.22)

A nova divisão internacional do trabalho vem se organizando tendo como base o trabalho e a tecnologia, e tem seu maior apoio nos governos e empreendedores locais.

O empresariamento das práticas de gestão caminha em direção

à transformação da cidade em mercadoria, baseada na lógica

mercantil da produção do espaço e na racionalidade

produtivista. A cidade aparece, no plano da imagem construída

para vendê-la num mercado mundial, como expressão material

dessa lógica, mas também, simultaneamente, como afirmação

ideológica da inexorabilidade dos caminhos a serem

perseguidos. (Sánchez, 2003, p.367)

O que foi exposto até aqui nos leva a valorizar a importância da escala local de desenvolvimento econômico, pois todas essas lógicas econômicas globais se realizam no local. E assim o "lugar" como categoria de análise geográfica pode ser considerado como a síntese do local e do global.

É no lugar que o "real" acontece, integrando o homogêneo/ global ao diferente/local, dando novos conteúdos ao que está posto como ideia e como virtualidade. Como ficam as cidades no contexto da economia global? Sánchez, ao denominar algumas cidades de "cidades-modelo", esclarece:

No plano analítico, as chamadas "cidades-modelo" são imagens

de marca construídas pela ação combinada de governos locais

junto a atores hegemônicos com interesses localizados,

agências multilaterais e redes mundiais de cidades. A partir de

centros de decisão e comunicação que, em fluxos e interações,

parecem conformar um campo político de alcance global, esses

atores realizam as leituras das cidades e constroem as

imagens, tornadas dominantes mediante estratégias

discursivas, meios e instrumentos para sua difusão e

legitimação em variadas escalas. (idem, p.263)

De fato, observa-se uma crescente importância do city marketing como instrumento das políticas urbanas, e assim o espaço da cidade toma uma forma globalizada com representações e imagens adequadas a uma nova retórica agora planetária.

Muitas mudanças estão ocorrendo na dinâmica das cidades e muitas outras estão por vir, talvez mais radicais e violentas e que alterarão a vida em sociedade.

Quando nos debruçamos sobre a cidade nos defrontamos com

a inexorabilidade de suas transformações, mas, sob o signo da

modernidade, o tempo das transformações se acelera. Nas

últimas décadas, as mudanças ocorrem num ritmo muito mais

rápido e tem sua explicação no modo como a globalização se

realiza redirecionando a vida sustentada no paradigma da

efemeridade do tempo que, acelerado pela técnica, produziu

sua própria abstração. Mas o processo não se reduz às

mudanças temporais, revela-se de forma signifi cativa no

espaço. Ao se expandir, o capitalismo produz, incessantemente,

um novo espaço-tempo. (Carlos, 2007, p.187)

 

A captura da vida cotidiana e a concretização da

sociedade de consumo

Lefèbvre é o autor que embasa toda a reflexão construída neste texto, pois mostra-nos que a crítica à vida cotidiana nos traz revelações de como as forças produtivas passam a produzir também um domínio sobre a sociedade atual, a qual ele denomina de "sociedade burocrática de consumo dirigido": "O cotidiano no mundo moderno deixou de ser ‘sujeito’ (rico de subjetividade possível) para se tornar ‘objeto’ (objeto da organização social)" (1991, p.68).

O processo de produção toma o urbano, provocando, por meio da normatização da vida cotidiana, a generalização da mercadoria. Nesse movimento as relações sociais passam a ser mediadas por mercadorias, pois o consumo é capturado e subjuga a vida em todos os seus momentos.

O domínio social está colocado como o maior precedente do novo modelo econômico global. Debord faz uma crítica contundente a esse respeito: "O espetáculo domina os homens vivos quando a economia já os dominou totalmente. Ele nada mais é que a economia desenvolvendo-se por si mesma. É o reflexo fiel da produção das coisas, e a objetivação infiel dos produtores" (1997, p.18).

Lefèbvre defende a ideia de que toda a "racionalidade" capitalista em suas diferentes dimensões organiza o cotidiano, e é nesse sentido que ganha força. Essa racionalidade passa a explorar de forma mais organizada a sociedade inteira. O consumo passa a ser sistematicamente aperfeiçoado e consecutivamente estimulado. Ainda segundo Lefèbvre, passa-se a agir sobre o consumo e por meio do consumo, organizando e estruturando a vida cotidiana. A obsolescência foi estudada e transformada em técnica – é o que nos diz o autor, e esta ideia está complementada na sua citação que segue:

Aqueles que manipulam os objetos para torná-los efêmeros

manipulam também as motivações, e é talvez a elas, expressão

social do desejo, que eles atacam dissolvendo-as (...) é preciso

também que as necessidades envelheçam, que jovens

necessidades as substituam. É a estratégia do desejo! (1991,

p.91)

A sociedade de consumo tem sua base no modo de vida urbano e está apoiada num sistema capitalista produtor de mercadorias. O espetáculo, o efêmero, a moda e a obsolescência impõem novas e consecutivas necessidades. Vivemos um tempo em que a produção de mercadorias não visa só atender à demanda, mas também criar a necessidade.

 

O espaço do consumo e o consumo do espaço:

as formas e as normas espaciais

Primeiramente é preciso reconhecer que o consumo está também atrelado ao modo de vida e ao cotidiano da sociedade. É preciso então um ir e vir entre a produção e o consumo, isso porque com seu amadurecimento o sistema capitalista de produção tem provocado várias alterações na antiga lógica "produção-demanda", ou seja:

(...) com o desenvolvimento do capitalismo, passa a ocorrer

uma forte interdependência entre a indústria e o comércio. O

comércio deixa de ser uma etapa meramente distributiva dos

produtos, pois o processo de produção captura o consumo e

passa a determiná-lo, e o comércio passa a atender a novas e

consecutivas demandas. A satisfação das necessidades, que

era a principal característica da produção, muda de sentido, ou

seja, vai ocorrendo a expansão do valor de troca, que se

sobressai ao valor de uso. (Ortigoza, 2001)

A massificação do consumo foi criando ao longo do tempo uma demanda crescente de espaços adequados para a realização da mercadoria. Nesse complexo processo, novas contradições emergem e o próprio espaço é também tornado mercadoria. Bermam, quando analisa a metamorfose dos valores, ajuda-nos a aprofundar essas questões:

O primeiro ponto aqui é o imenso poder do mercado na vida

interior do homem moderno: este examina a lista de preços à

procura de respostas a questões não apenas econômicas, mas

metafísicas – questões sobre o que é mais valioso, o que é

mais honorável e até o que é real. Quando afirma que todos os

demais valores foram "transmudados" em valor de troca, Marx

aponta para o fato de que a sociedade burguesa não eliminou

as velhas estruturas de valor, mas absorveu-as, mudadas. As

velhas formas de honra e dignidade não morrem; são, antes,

incorporadas ao mercado, ganham etiquetas de preço, ganham

nova vida, enfim, como mercadorias. Com isso, qualquer

espécie de conduta humana se torna permissível no instante

em que se mostra economicamente viável, tornando-se

‘valiosa’; tudo o que pagar bem terá livre curso. (1986, p.108)

Essas relações que ocorrem na sociedade de consumo envolvem desde a produção até a circulação e o consumo e, portanto, acabam provocando modificações profundas no território. Milton Santos já advertia sobre essas complexidades que o mundo coloca no lugar: " (...) há combinações diferentes de normas e formas. No caso do mundo, a forma é sobretudo norma; no caso do lugar, a norma é sobretudo forma" (2005, p.169).

A problemática do consumo do espaço envolve também a pressão das formas e normas e tem sua base na reprodução das relações sociais de produção. E assim um dos desafios que se coloca é pensar na normatização do espaço na óptica do consumo do espaço. Carlos, ao analisar os espaços turísticos, colabora para o entendimento dessas novas relações:

Trata-se, portanto, de um momento em que o espaço torna-se

amplamente mercadoria; os espaços antes fora do universo do

mercado e da mercadoria, destinados exclusivamente ao uso,

se transformam em mercadoria entrando na esfera da

comercialização. Nesse contexto, o valor de troca – impresso

no espaço – mercadoria – se impõe ao uso do espaço, na

medida em que os modos de apropriação passam a ser

determinados pelo mercado. O consumo do espaço se analisa,

assim, no movimento da transformação do uso pela imposição

do valor de troca, acentuando o papel e a força da propriedade

do solo. Tal fato traz profundas mudanças nos modos de uso.

No plano local a consequência direta deste fato é o

aprofundamento da separação, na vida do habitante, entre Sem dúvida a gentrificação é um processo que se generaliza atingindo grande parte das cidades do mundo, o que nos faz refletir sobre o papel das políticas de reabilitação (de requalificação, de revitalização, de refuncionalização) de centros. Cabe ressaltar que dentro dessas políticas o foco de intervenção é a área central das cidades, preservando ou não o patrimônio histórico-cultural, pois o objetivo maior é adotar os novos modelos de cidades propostos pela economia globalizada.

espaço público/espaço privado. No plano mundial e regional, é

a mercantilização dos espaços voltados às atividades de

turismo e lazer. (2000, p.192).

Observa-se que o valor do espaço pode ser entendido pela própria espacialidade contida e articulada no processo capitalista de produção, em que o próprio espaço torna-se objeto de troca. O espaço, nesse caso, define a troca, e o seu valor passa a ser atribuído segundo a lógica da circulação. O modo como o espaço é apropriado também é relevante nesse processo, pois é uma condição prévia e necessária à sua valorização.

O atual padrão de investimento, gestão e produção do espaço

urbano encontra-se determinado pelo padrão contemporâneo

de produção da riqueza, cuja lógica expansiva atinge

seletivamente alguns fragmentos das cidades, onde são

promovidos os projetos de renovação. Desse modo, a

reestruturação econômica faz-se, necessariamente, por meio

da reestruturação do espaço, assim como por meio de uma

reestruturação da gestão da cidade. (Sánchez, 2003, p.364)

Para entender o processo de produção e reprodução da cidade como espaço do consumo, devemos levar em conta: a) os proprietários fundiários; os produtores fundiários, imobiliários, incorporadores; b) os detentores de capital que investem na produção imobiliária; c) os cidadãos e os consumidores (entre eles os compradores de terrenos e de habitação); d) o comportamento social (valores, necessidades, desejos); e) o Estado (como regulador, incentivador e/ou proibidor dos mecanismos do uso do solo urbano); f) as instituições transnacionais; g) outros agentes que por ventura possam surgir.

Corrêa (1997) já nos advertia que cada um desses agentes tem estratégias e propósitos próprios; são ativos na estrutura urbana e nas dinâmicas socioespaciais e, portanto, passam a alterar o mercado de terras valorizando determinadas partes da cidade e desvalorizando outras.

Uma cidade não é um simples produto ou uma mercadoria

qualquer, que se possa descrever objetivamente por meio de

suas propriedades; uma cidade é um complexo socioespacial

onde várias leituras e interpretações coexistem, competindo

entre si e refletindo interesses divergentes. (Souza, 2003.

p.302)

A cidade passa então a ser entendida como uma mercadoria que contempla em seu conteúdo uma dinâmica complexa e muito maior que é combinar nexos de muitas outras mercadorias, ou seja, "cidade: mercadoria-síntese". Por essa observação nota-se o extremo nível de complexidade que envolve os estudos urbanos na atualidade.

Existe uma grande tendência em requalificar centros das cidades readaptando-os às novas necessidades da economia global. O processo de "gentrificação" entra nesse sentido. Segundo Smith, a gentrificação foi um processo que se propagou por toda a hierarquia de cidades; ela não ocorre somente nas maiores, mas também nos centros mais improváveis. Toda essa tendência de gentrifi cação contribui para a abordagem de cidade-mercadoria, pois esse processo se realiza para gerar condições das cidades se prepararem para o grande mercado de cidades em nível global. Smith, ao analisar diferentes cidades que passaram pelo processo de gentrificação, esclarece que:

É claro que essas experiências de gentrificação são bastante

diferentes e desiguais, e muito mais diversificadas que nos

primeiros casos europeus ou norte-americanos. Elas fazem

parte de contextos culturais e econômicos de nível muito local e

se conectam de maneira muito mais complexa com as

economias nacionais e globais. Entretanto, o que se deve

sublinhar aqui é a rapidez da evolução de um processo urbano

particular ainda tão marginal, primeiramente identificado nos

anos 60 e sua transformação em uma dimensão marcante do

urbanismo contemporâneo. (2006, p.62)

Analisando o caso da gentrificação da Cidade do México, Hiernaux-Nicolas nos revela que:

Integrar-se no sistema global era visto como uma abdicação

necessária da mexicanidade, seja da língua, do modo de se

vestir, dos hábitos alimentares, dos carros, e também do modo

de morar. (...) No entanto, nós identificamos uma ruptura

posterior que estabeleceu um novo paradigma: para ser global,

é preciso também contar com um capital simbólico, de base

cultural, fortemente fixado no território. A burguesia mexicana

que se tinha americanizado compreendeu que suas "vantagens

competitivas" eram bem menores que as dos seus pares que

estavam ancorados em uma cultura bem definida. (2006, p.248)

Sob o prisma estratégico, as cidades, muitas vezes, pela força dos governos locais, são como as empresas que competem à procura de atração de investimentos: as localizações mais vantajosas são colocadas no mercado atraindo as indústrias, o comércio e os estabelecimentos ligados ao setor de serviços.

Desse modo, para refletir sobre a cidade torna-se muito importante compreender as formas industriais, comerciais e de serviços especializadas que acabam por emitir uma visão de como as classes sociais se organizam nesse espaço do consumo. Elementos como atração, alcance, economias de aglomeração, apesar de clássicos dentro dos estudos urbanos, hoje ganham novas conotações, pois seus papéis alteram-se no mundo do consumo, mas não perdem a importância.

Se abordarmos o consumo do espaço pela indústria é possível observar pela própria reestruturação produtiva a promoção do abandono de antigas áreas industriais e a migração para outras. Na dinâmica locacional da indústria, o setor produtivo vai demonstrando tendências de valorização e desvalorização dos lugares. Existe uma forte "racionalidade" logística na construção de novas unidades produtivas que se desenvolve a partir das lógicas locacionais baseadas nos novos padrões das atividades econômicas:

A realização prática de um dos momentos da produção supõe

um local próprio, diferente para cada processo ou fração do

processo; o local torna-se assim, a cada momento histórico,

dotado de uma significação particular. A localização num dado

sítio e num dado momento das frações da totalidade social

depende tanto das necessidades concretas de realização da

formação social quanto das características próprias do sítio. O

uso produtivo de um segmento de espaço num momento é, em

grande parte, função das condições existentes no momento

inicial. De fato, o espaço não é uma simples tela de fundo inerte

e neutro. (Santos, 2005, p.30-1)

A cidade é por excelência o espaço do consumo. Na direção desse pensamento pode-se ainda complementar dizendo que o urbano, como modo de vida, é o conteúdo desse espaço do consumo. Esse modo de pensar a cidade e o urbano leva-nos a considerar a dinâmica do comércio urbano, suas formas e suas funções. É claro que todo o conteúdo da forma do comércio, como, por exemplo, o shopping center, o hipermercado, entre outros, está vinculado no seu objetivo central que é ampliar as vendas e consequentemente aumentar os lucros.

Mudam os costumes, os valores, as ideias, os fluxos e os ritmos e com isso mudam as fachadas, as arcadas, a forma. Vão ficando cada vez mais visíveis essas mudanças do lugar – muito dos antigos usos, muito do local, muito da história de vida vai se transformando e o lugar torna-se normatizado, com um uso dirigido pela mercadoria, altamente globalizada.

Perdemos o senso do monumental, do pesado, do estático, e

enriquecemos a nossa sensibilidade com o gosto leve, com o

prático, com o efêmero e o veloz. Sentimos que não somos

mais os homens das catedrais, dos palácios... mas sim dos

grandes hotéis e das estações ferroviárias. É uma oposição de

metáforas que deve nos fazer refletir, e não por razões

dessacralizantes. O que empolga são os edifícios de

passagem, que possibilitam o movimento, que multiplicam a

velocidade. Que desenraízam. Devemos inventar e refabricar a

cidade futurista, como se fosse um imenso canteiro de obras,

tumultuoso, ágil, móvel, dinâmico e cada uma de suas partes, e

a casa futurista como se fosse uma gigantesca máquina. Para

isto, antecipando todas as formas arquitetônicas pós-modernas,

os elevadores não devem encartuchar-se como vermes

solitários nos vãos das escadas; mas sim encarapitar-se, como

serpentes de vidro e ferro, ao longo das fachadas. (Canevacci,

1993, p.69-70)

Essa exposição de Canevacci remete-nos à sociedade do espetáculo. A principal mudança que ocorre na transformação do uso do espaço é o ritual das relações sociais que serão, cada vez mais, mediatizadas pelas mercadorias.

Nessa dinâmica, o comércio, cada vez mais, passa a dar o ritmo do consumo nas cidades, pois por meio de sua reprodução sistemática de signos, modas, ideias e valores acaba reproduzindo o espaço urbano segundo suas lógicas e necessidades.

Canclini, ao analisar a sociedade de consumo, expõe o seguinte problema:

Hoje vemos os processos de consumo como algo mais

complexo do que a relação entre meios manipuladores e dóceis

audiências. Sabe-se que um bom número de estudos sobre

comunicação de massa tem mostrado que a hegemonia cultural

não se realiza mediante ações verticais, onde os dominadores

capturariam os receptores: entre uns e outros se reconhecem

mediadores como a família, o bairro e o grupo de trabalho.

Nessas análises deixou-se também de conceber os vínculos

entre aqueles que emitem as mensagens e aqueles que as

recebem como relações, unicamente, de dominação. A

comunicação não é eficaz se não inclui também interações de

colaboração e transação entre uns e outros. (1995, p.51-2)

A cidade também vai se reproduzindo nessa mesma perspectiva, pois tem como conteúdo uma sociedade que, embora amplamente desigual, tem suas bases arraigadas num tipo específico de sociedade. Essa sociedade é denominada por Lefèbvre de "sociedade burocrática de consumo dirigido" (1991), por Baudrillard de "sociedade de consumo" (1991), por Debord de "sociedade do espetáculo" (1995).

Embora essas denominações sejam diferentes, a crítica colocada por esses autores contribui diretamente com a análise que estamos procurando estabelecer. Diversos elementos foram sendo introduzidos sistematicamente no mundo do consumo, os quais trazem novos desafios para as pesquisas sobre o consumo no urbano. Entre esses desafios está aquele de considerarmos a passagem de um consumo de massa para um consumo de tribos e também a superação do atendimento das necessidades para a manipulação dos desejos.

Novas linguagens são criadas para acelerar o contato imediato entre as pessoas dos mais diferentes lugares do mundo. É a gestação da sociedade em rede. Essas redes são seletivas e passam a organizar a sociedade segundo perfis e interesses também diversos. Sobre essa tendência de novos relacionamentos sociais, com a grande valorização do componente virtual, escreve Castells:

(...) um novo sistema de comunicação que fala cada vez mais

uma língua universal digital tanto está promovendo a integração

global da produção e distribuição de palavras, sons e imagens

de nossa cultura como personalizando-os ao gosto das

identidades e humores dos indivíduos. As redes interativas de

comutadores estão crescendo exponencialmente, cirando

novas formas e canais de comunicação, moldando a vida e, ao

mesmo tempo, sendo moldadas por ela. (1999, p.22)

Essas passagens revelam momentos de apreensão do conteúdo da sociedade de consumo e do espaço urbano, pois é por meio dele que a Geografia enxerga as manifestações sociais.

A construção da problemática urbana nos obriga, inicialmente, a

considerar o fato de que ela não diz respeito somente à cidade,

mas nos coloca diante do desafio de pensarmos o urbano, não

só enquanto realidade real e concreta mas, também, enquanto

virtualidade. A estratégia reúne teoria e prática. Esse

encaminhamento nos alerta para a atomização das pesquisas

que pensam a cidade isoladamente, ora como quadro físico, ora

como ambiente urbano. Em muitos casos, a cidade aparece em

si, como objeto independente, isolado, palco da ação humana

vista enquanto caótica. (Carlos, 2005, p.15)

A cidade como forma material do modo de vida urbano revela muitas contradições que precisam ser decompostas. Ela é a materialidade das expressões sociais do consumo. E nesse contexto, procurando esclarecer melhor o papel da "forma", lembramos do que nos diz Santos (1985): forma é o aspecto visível ou arranjo ordenado dos objetos, ou seja, uma estrutura revelada, como, por exemplo, uma casa, um shopping center, um bairro, uma cidade, uma rede urbana. A acumulação da técnica no processo de produção espacial, especificamente das formas comerciais, gera espaços normatizados e globalizados.

Entretanto, a forma só se torna relevante quando a sociedade lhe confere um valor social. Granou contribui com essa constatação na seguinte citação: "(...) não basta produzir este modo de vida de uma maneira material, é preciso também produzi-lo ‘em ideia’, enquanto novo ritual e nova moral, enquanto ordem social" (1975,p.57).

Nesse contexto do capitalismo e modo de vida, podemos dizer que a cidade seria a materialidade do modo de vida urbano e capitalista, enquanto o urbano seria o ritual, o modo de vida, a nova moral, a ordem social. Necessitamos, então, ir além do entendimento da forma, ou seja, precisamos entender a função das diferentes formas, e o uso e apropriação dos diferentes espaços.

Para Santos (1985) a função sugere uma tarefa ou atividade esperada de uma forma, ou seja, é a atividade elementar de que a forma se reveste, por exemplo, a residencial, de trabalho, de compras, de lazer.

Esses pressupostos levam-nos a abordar o espaço-mercadoria e o consumo do espaço. Em estudo anterior sobre o comércio e consumo de alimentação, revelamos que:

Hoje, para entender as relações de consumo de alimentação

que se estabelecem na metrópole não basta a pergunta: o que

consumir? Mas também: onde consumir? Pois, na sociedade de

consumo atual, tão importante quanto a mercadoria que se

consome, é o lugar onde se consome. Esta escolha pode

muitas vezes se atrelar ao signo da forma comercial, como é o

caso do fast food, (...). O signo pode então estar se tornando

um sinal de identidade entre os consumidores. (Ortigoza, 2001)

Lefèbvre, em toda sua vasta obra, constrói metodologicamente uma análise do espaço urbano pelo seu sentido mais amplo, ou seja, por meio do processo da reprodução das relações sociais de produção, e por isso corrobora diretamente com essa análise quando nos diz que "não é apenas a sociedade que se torna o lugar da reprodução, mas o próprio espaço" (1991).

Assim a análise do espaço-mercadoria traz como revelação a constatação de que a lógica capitalista invade a vida social em todos os seus momentos, e isso se dá por meio da captura do cotidiano. Ao sermos capturados em nossa vida pessoal, a mercadoria encontra um ambiente que propicia a sua generalização.

Estamos vivendo, portanto, a generalização da mercadoria, e assim, tanto a sociedade quanto o espaço são vulneráveis à reprodução do capital. Nessa concepção de sociedade e de espaço é possível avaliar que a sociedade segue produzindo novos espaços e numa onda contínua também acaba sendo reproduzida por eles.

Neste mundo da mercadoria, o próprio espaço é tornado mercadoria, e entra no circuito da troca. Assim observa-se uma dinâmica contraditória no uso e no valor das partes da cidade.

 

Referências bibliográficas

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1 Professora-assistente doutora do Departamento de Geografia, IGCE/Unesp, Rio Claro.