Da produção ao consumo: impactos socioambientais no espaço urbano

5 Análise das mudanças climáticas nas metrópoles: o exemplo de São Paulo e Lisboa

5 Análise das mudanças climáticas

nas metrópoles: o exemplo de São

Paulo e Lisboa

 

Magda Adelaide Lombardo1

Introdução

A rápida urbanização ocorrida nos últimos cinquenta anos, em nível mundial, está associada à vulnerabilidade das cidades às alterações

climáticas. 2 Entretanto, a urbanização representa o avanço na organização territorial, considerando os desempenhos econômico, social e ambiental.

O ciclo da globalização vivido mais intensamente desde os anos 1980 corresponde a uma nova etapa no processo de urbanização. A cidade recupera o seu esplendor no contexto de uma nova cultura urbana que também se globaliza.

Esse novo modo de vida urbano-capitalista, considerando as relações sociais de produção, gera como produto a distribuição, troca, consumo e gestão. Nesse contexto, o espaço urbano representa a materialidade das relações sociais de produção e de consumo, produzindo fragmentação na paisagem, degradação ambiental, alterações climáticas em micro, meso e macroescala.

Em virtude das ameaças das alterações climáticas para que apontam as investigações mais credíveis, as cidades constituem a mais acelerada alteração ambiental, com intensa transformação da primeira natureza. Nesse contexto, a cidade também corresponde a um potencial único para a aplicação de medidas mitigadoras dos impactos indesejáveis dessas alterações.

Do mesmo modo que a cidade tem respondido a mudanças globais na esfera do humano (envelhecimento), do social (migrações globais, fome, enfermidades), do econômico (consumo) e do cultural (aproximando culturas), também, a partir da cidade, podem-se encontrar as melhores respostas para mitigar impactos ou para controlar e até eliminar algumas mudanças indesejáveis de ordem ambiental.

Nas áreas urbanas, os espaços verdes constituem uma importante forma de adaptação às alterações climáticas, pela sua contribuição para a melhoria das condições microclimáticas da área envolvente e para a mitigação da ilha de calor, e pelo seu papel potencial na assimilação de carbono e outros poluentes atmosféricos.

Deve-se destacar que os impactos previsíveis das alterações climáticas no contexto das cidades apontam para o aumento da assimetria das precipitações, potencializando riscos acrescidos de cheias e inundações de caráter repentino agravando a sua vulnerabilidade e periculosidade. Os riscos de inundações intensificam-se em áreas urbanas, devido às alterações induzidas nas condições da drenagem natural, quer pela diversidade de atividades e uso do solo, quer pela extensão dos prejuízos.

Um caráter preventivo e mitigador, por meio de intervenções institucionais, visa integrar procedimentos de ordenamento do uso do solo, por meio do zoneamento e regulamentação do uso do solo em áreas inundáveis.

As pequenas bacias hidrográficas são mais vulneráveis às condições de degradação devido às ações antrópicas, como no caso de ordenamento da ocupação urbana deficiente. Recentemente, tem sido estudado o desenvolvimento de medidas de caráter preventivo que visam mitigar os efeitos das cheias, inundações e poluições, integrando esses impactos no planejamento e desenho urbanos, visando a gestão integrada de águas pluviais em meio urbano, integrando o controle na origem das águas fluviais, promovendo a sua infi ltração, detenção e retenção, a reabilitação dos sistemas de drenagem pluvial, associando integradamente o controle da poluição com sistemas simplificados de tratamento.

No contexto das áreas urbanas-metropolitanas, as alterações climáticas são mais intensas e refletem seus efeitos na escala local e regional. Foram analisadas as alterações climáticas na área metropolitana de São Paulo (Brasil) e na área metropolitana de Lisboa (Portugal), tendo como base o conhecimento intermultidisciplinar com a utilização de geoprocessamento e sensoriamento remoto.

A presente pesquisa tem como objetivo desenvolver metodologia capaz de selecionar e propor possíveis indicadores que afiram os resultados das simulações de alterações climáticas, podendo auxiliar nas ações para minimizar problemas desse âmbito em áreas urbanas-metropolitanas. Este capítulo também se propõe a identificar a relação entre aquecimento e intensidade de fluxos de pessoas em ruas comerciais.

 

Base metodológica e teórica

As mudanças climáticas em escala planetária destacam o aumento de temperatura do ar como uma realidade inegável, independente da sua magnitude, causas e, sobretudo, da variabilidade regional e singularidades locais. Segundo o Intergovernmental Panel on Climate Change (IPCC, 2007), entre 1906 e 2005, a temperatura da superfície da Terra aumentou cerca de 0,7°C, embora as taxas de acréscimo variem em diferentes regiões. Todas as previsões apontam para a continuação do aquecimento do planeta.

Além da temperatura, a precipitação também pode ser afetada nos seus valores quantitativos, distribuição espacial e regime. A excepcionalidade climática poderá ocorrer com maior frequência e maior intensidade, dando-se em áreas expandidas. As mudanças climáticas podem interferir na subida do nível do mar, afetando assim as áreas litorâneas e estuarinas.

As mudanças climáticas e a subida do nível do mar interferem nos sistemas biofísicos e socioeconômicos. Deve-se destacar que os riscos associados às mudanças climáticas são significativos; entretanto, é importante salientar que o planejamento e ordenamento adequados podem contribuir para minimizar os efeitos negativos das mudanças climáticas.

Na escala de análise local, as mudanças climáticas no ambiente urbano são: modificação dos balanços radioativo e energético, aumento da temperatura das superfícies e do ar (Ilha de Calor – IC), diminuição da velocidade média do vento (embora com a ocorrência de acelerações e turbilhões em certas áreas), aumento da poluição atmosférica, diminuição da visibilidade e aumento da precipitação convectiva.

No contexto urbano, o excesso de carga térmica e de poluição atmosférica tem impactos sobre o conforto, a saúde e as atividades da população. Há uma relação complexa entre o aquecimento urbano e o aquecimento global. Por exemplo, a acumulação dos efeitos térmicos nas áreas urbanas é acelerada com a influência do aquecimento global.

Em Londres, nas noites de calor, a IC pode acrescentar de 5° a 6°C ao aquecimento esperado. Em certas cidades já se verificam incrementos térmicos semelhantes aos esperados em nível global para daqui a varias dezenas de anos (Grimmond, 2006).

Nesse sentido é de toda urgência avaliar as alterações do clima nas cidades, os impactos que poderão ocorrer e as medidas de adaptação a serem adotadas para minimizar os efeitos negativos.

Em 2005, nos países desenvolvidos, 74% da população concentrava-se em áreas urbanas sob influências das vulnerabilidades às mudanças climáticas e ambientais. Prevê-se que a população em megacidades represente, em 2015, 9% do total urbano (Krass, 2007).

No Brasil, as áreas urbanas em 2005 concentravam quase 70% da população. Em Portugal, em 2005, as áreas urbanas concentravam 57,6% da população.

O século XX corresponde a um período de aquecimento, com um aumento da temperatura médica global da atmosfera à superfície de 0,74°C. O aumento da temperatura que se verifica atualmente tem afetado mais as regiões continentais e as altas latitudes (IPCC, 2001, 2007) e acentuou-se nas últimas décadas do século XX e nos primeiros anos do século XXI: os anos mais quentes foram 1998 e 2005.

Também tem se verificado uma diminuição da amplitude térmica diurna devido ao aumento das temperaturas mínimas. O aumento da temperatura global tem sido atribuído sobretudo à ação antrópica, destacando-se as emissões de gases de efeito estufa (GEE) como o dióxido de carbono (CO2), o metano (CH4) e o oxido nitroso (N2O).

A intensificação do efeito estufa devido às emissões antrópicas de GEE associa-se sobretudo à queima de combustíveis fósseis e ao consumismo, mas também a atividades como a agricultura e a pecuária, que contribuem fortemente para as emissões de CH4 e N2O.

As previsões de aumento de temperatura e da subida do nível do mar estão associadas aos vários cenários futuros de acordo com diversos parâmetros: evolução da população, o tipo de energia utilizada e os indicadores de ordem econômica, social, ambiental, tecnológica e política.

O aquecimento urbano tem sido muitas vezes associado ao aquecimento global, muito embora os dois sejam de escalas e natureza diferentes. Entretanto, a acumulação dos efeitos térmicos, as diferentes escalas ocasionam efeitos graves nas áreas urbanas.

O aquecimento do planeta, segundo Oke (1987), é pouquíssimo afetado pelo calor urbano, dado que as cidades cobrem apenas 1% das terras emersas e o calor produzido pelo metabolismo urbano reflete a dinâmica do uso e ocupação do solo. A influência urbana direta estende-se, no máximo, poucos quilômetros para sotavento. No caso específico da região metropolitana de São Paulo, as diferenças de temperatura variam até 12ºC e refletem a variação espacial do índice de área construída, concentração de pavimentação, complexos industriais e poluição atmosférica. Em contrapartida, em áreas com maior concentração de vegetação arbórea e lâmina d’água as temperaturas registradas são menores.

Devido ao incremento no gasto de energia (para uso doméstico, transportes, para fins industriais, entre muitos outros, ditados por uma constante necessidade de reduzir as distâncias e elevar o nível de vida (Kann, 2006), as cidades são as fontes mais importantes de GEE, contribuindo com cerca de 85% para as emissões totais de CO2, CFCs e O3 troposférico (Oke, 1997). A elevada densidade dos poluentes na pluma urbana afeta a química da atmosfera e o clima em larga escala (Crutzen, 2004). Segundo alguns autores, o incremento da convecção, como resultado do aquecimento sobre as áreas urbanas, poderá contribuir para o transporte de água e de poluentes para a média e alta troposfera, com potenciais consequências em nível regional e global (Crutzen, 2004; Sherwood, 2002).

O clima de uma cidade depende de seu macroclima, com características regionais, dos aspectos locais e das particularidades do tecido urbano (Lowry, 1977). Assim, Lisboa tem um macroclima de tipo mediterrâneo, no contexto regional do centro litoral português, modificado localmente por sua topografia acidentada, proximidade com o oceano Atlântico e pela vizinhança com o rio Tejo, a que se juntam as modificações devidas à própria cidade. Para determinar a influência urbana, seria necessário dispor de dados "pré-urbanos", ou seja, de dados de um observatório meteorológico situado numa área hoje urbanizada, mas num período em que o local fosse ainda rural, o que permitiria calcular muito facilmente a modificação do clima induzida pela cidade. Na ausência de registros ‘"pré-urbanos", a influência climática da cidade é avaliada comparando dados de estações meteorológicas urbanas e outras nos arredores próximos não (ou menos) urbanizados. Nesse caso, e como é raro que as características do clima local (da cidade e dos arredores próximos) sejam idênticas, é mais difícil isolar o efeito urbano (Alcoforado et al., 2008).

A IC é mais frequente durante a noite e tem sua maior intensidade poucas horas após o por do sol (Oke, 1987); tipicamente, as condições mais favoráveis à formação ou intensificação da IC são situações com vento fraco ou calmaria, céu limpo ou pouco nublado. Contudo, a IC de Lisboa (Alcoforado, 1992; Alcoforado et al, 2007; Andrade, 2003) e de outras cidades portuguesas, como Coimbra (Ganho, 1998), afastam-se desse modelo geral, apresentando a sua intensidade máxima com velocidades moderadas de vento.

A intensidade da IC, segundo Alcoforado et al. (2008), é geralmente calculada como a diferença entre as temperaturas mais elevadas medidas no centro da cidade e as mais baixas na periferia.

Contudo, é extremamente difícil a comparação e generalização dos processos obtidos para as diferentes cidades devido às diferenças nos processos de medição (diferentes tipos de estações meteorológicas ou medições itinerantes), nos parâmetros térmicos considerados (temperaturas máximas, médias, mínimas, valores diários, mensais ou anuais) e, em termos gerais, à falta de uniformidade nos métodos de tratamento e análise dos dados (Alcoforado & Andrade, 2008). A intensidade da IC em Lisboa situa-se entre 2°C e 3°C, embora possam ocorrer valores muito mais elevados.

As causas da IC são complexas, resultando da interação de vários processos em diferentes escalas. Indicam-se a seguir os principais (Oke, 1987):

modificações no balanço radioativo devido à geometria urbana, aos materiais de construção e às cores predominantes; emissão de calor de origem antrópica;

acumulação diurna de calor nos edifícios e materiais de construção, o qual é liberado durante a noite; modificações na composição da atmosfera urbana; redução da velocidade média do vento, devido às rugosidades; redução da evapotranspiração, devido à escassez de vegetação e ao predomínio de superfícies impermeabilizadas.

O aumento da rugosidade nas áreas urbanas leva à diminuição da velocidade média do vento regional (idem). Por exemplo, em Lisboa, devido à expansão urbana na década de 1980, ocorreu no verão uma redução na velocidade média do vento de 30% (»2m/s), abaixo dos 100m de altura (Lopes, 2003). Essa redução foi, contudo, muito desigual espacialmente; na Baixa, em que se associam o abrigo topográfico (em relação aos ventos dominantes de N e NW) e uma elevada rugosidade, a redução da velocidade do vento terá sido de cerca de 3m/s; no norte da cidade, com rugosidade e abrigo muito menores, a diminuição da velocidade do vento foi apenas de 0,5 a 2m/s. As condições no norte da cidade poderão vir a modificar-se em função do crescimento urbano que se observa na área (Lopes, 2003; Alcoforado et al., 2005).

Podem, contudo, ocorrer acelerações pontuais do vento, em função da sua morfologia urbana: por exemplo, as ruas podem canalizar o vento, aumentando a sua velocidade e originando situações de desconforto ou mesmo risco para os pedestres.

As atividades industriais e domésticas e o tráfego de automóveis podem gerar consideráveis emissões de poluentes atmosféricos (gases, partículas sólidas ou líquidas). Entre os poluentes gasosos com efeito sobre a saúde humana destacam-se o dióxido de enxofre (SO2), o monóxido de carbono (CO), os óxidos de azoto (NOx), sendo o mais importante o dióxido de azoto (NO2), diferentes compostos voláteis (COV) e, dentre os que já são responsáveis pelo efeito estufa, sobressaem o CO2, CH4, N2O, já referidos, e ainda os clorofluorcarbonetos (CFC) e os halofl uorcarbonetos (HFC).

É importante distinguir entre os poluentes primários, diretamente emitidos para a atmosfera pelas atividades humanas (como o CO ou o CH4) e os poluentes secundários, que resultam da modificação de compostos químicos preexistentes na atmosfera (precursores). O exemplo mais conhecido é o ozônio troposférico (O3), formado a partir do NO2, COV e os nitratos de peróxido de acetila (acyl peroxy nitrates – PAN) por meio de reações químicas na atmosfera, na presença de radiação solar. Em condições favoráveis (fortes concentrações de precursores e níveis elevados de radiação solar) pode formar-se o conhecido smog (smok + fog) fotoquímico (muito frequente na cidade de Los Angeles, por exemplo), com elevadas concentrações de O3 e de outros poluentes de origem fotoquímica (Oke, 1987; Stone, 2005). As temperaturas elevadas contribuem também para o incremento da concentração do O3 troposférico (Stone, 2007).

Além dos poluentes gasosos, as partículas com outros poluentes na baixa atmosfera urbana têm efeitos nocivos sobre a saúde (Curtis et al. 2006). Em situações de atmosfera noturna muito estável (sem vento e sem nebulosidade), a combinação de partículas com outros poluentes na baixa atmosfera urbana pode incrementar a morbidade e a mortalidade dos habitantes. A poluição mais ligada à atividade industrial (nomeadamente compostos de enxofre e determinados tipos de partículas) tem vindo a ser reduzida nas áreas urbanas dos países desenvolvidos, sobretudo devido às transformações econômicas e ao progresso tecnológico. Nos países menos desenvolvidos, contudo, essa evolução tem sido muito mais lenta. A poluição associada às emissões de tráfego (NO2, CO, O3, diferentes tipos de partículas) tem tido uma redução muito mais lenta, sendo menores as dissimetrias regionais.

Poucos estudos têm sido dedicados às relações entre aquecimento urbano e aquecimento global. Contribuem para isso a falta de uma base teórica conceitual para estabelecer as relações entre os dois fenômenos, as diferenças nas escalas espaciais e temporais, as diversas metodologias de estudo e os tipos de dados utilizados no seu estudo. Por um lado, a influência do aquecimento global (AG) sobre o clima urbano é mal conhecida e muitas vezes abordada de forma demasiado simplista. Por outro, a tomada de medidas de mitigação eficazes implica o conhecimento do papel desempenhado pelas áreas urbanas no AC (Alcoforado et al, 2008).

Embora muitas vezes se conclua que o aquecimento do planeta dará lugar a um incremento das IC, tal poderá também não ocorrer. A IC é calculada como a diferença de temperatura centro-periferia e essas diferenças podem permanecer constantes (Oke, 1997). A intensidade da IC pode mesmo decrescer, se ocorrer um incremento da instabilidade vertical da atmosfera, associado a temperaturas mais elevadas (Brázdil & Budíková, 1999). A evolução da IC dependerá igualmente das mudanças na frequência dos diferentes tipos de tempo que a condicionam (Oke, 1987; Morris & Simmonds, 2000).

O processo de urbanização é uma das principais interferências da mudança na natureza da superfície do solo e nas propriedades atmosféricas presentes na Camada Limite Urbana (UCL). Essa transformação resulta em mudanças dos ventos regionais, na geometria da radiação solar e da insolação e emissão de poluentes, propiciando as temperaturas mais elevadas nas zonas urbanas consolidadas em comparação com as zonas periféricas ou rurais.

Essas variações térmicas observadas entre as zonas urbanas e rurais podem chegar até 10ºC, tendo como causas principais a substituição da vegetação natural pelo excesso de concreto e asfalto e o adensamento das edificações e ações antrópicas (Lombardo, 1985). Os principais efeitos nocivos apontados por vários autores (Rosenzweig et al., 2004; Givoni, 1998; Lombardo, 1985) são:

1. redução da evapotranspiração e evaporação, pela ausência de

vegetação e água disponível;

2. altas temperaturas que ocorrem nas áreas mais

impermeabilizadas, em decorrência dos efeitos combinados das várias características do sítio construído, provocam baixa pressão atmosférica nessas áreas, gerando uma circulação local da massa de ar;

3. ocorrência de inundações nessas áreas, pela presença

ocasional de chuvas intensas.

Parte da problemática relativa às alterações climáticas do meio ambiente urbano é proveniente da degradação dos recursos naturais causando grandes impactos na qualidade ambiental, com reflexos diretos aos habitantes. Atualmente essa problemática vem despertando a atenção de especialistas nacionais e internacionais, com enfoque intermultidisciplinar e de abrangência tanto global como regional e local.

Com a expansão das cidades, há geralmente uma diminuição das áreas verdes e de suas superfícies líquidas, que são substituídas pelo asfalto e pelo concreto, resultando em áreas impermeabilizadas e favorecendo a ocorrência do fenômeno típico do clima urbano conhecido por ilhas de calor. Sua intensidade depende das condições micro e mesoclimáticas locais das cidades (Monteiro, 2003). Esse fenômeno tem sua origem na transmissão de calor que se dá pela condutividade térmica dos materiais de revestimento que compõem a cidade, na inércia termal e na sua conversão em calor sensível, nas disfunções no albedo dos materiais de superfícies e na interação de gases poluentes (Assis, 2000).

A emissão de poluentes também tem forte influência nas elevadas temperaturas, principalmente em áreas com atividades comerciais e industriais devido ao elevado fluxo de veículos em horários de picos, pois a camada de poluentes pode reduzir a radiação solar direta por refletir parte dela, dificultando a dispersão do calor (Lombardo, 1985).

O conhecimento das variabilidades climáticas, espaço das chuvas, descargas dos rios, de fatores ambientais, socioculturais, condições de uso e conservação dos seus recursos naturais permite planejar, evitar ou atenuar os efeitos do excesso ou da falta de água. A Organização Mundial da Saúde (OMC) mostra que os recursos hídricos constituem um importante aliado para a implementação de ações de saúde e ambiente, haja vista a necessidade de água para a vida humana, agricultura e a geração de energia. É fundamental considerar o impacto da variabilidade climática e da mudança climática nos recursos hídricos, a fim de ter políticas e estratégias claras e mecanismos e ferramentas efetivos para proteger os recursos hídricos contra a poluição.

A Organização Meteorológica Mundial (World Meteorological Organization –WMO) tem alertado sobre as questões climáticas e o uso ineficiente das fontes de energia urbana e suas implicações na saúde da população. A WMO divulgou o documento Urban design in different climates, de autoria de Givoni Baruch, no qual se propõem algumas medidas principais relacionadas ao clima da cidade como, por exemplo, o uso de diferentes tipos e tamanhos de vegetação nos espaços públicos e privados.

A vegetação em suas diferentes formas influencia decisivamente no controle da qualidade ambiental. Os espaços urbanos com a presença da cobertura vegetal têm um efeito amenizador do aquecimento térmico gerado pelas edificações e superfícies pavimentadas, além de contribuir para a minimização do efeito estufa (Givoni, 1998).

A Região Metropolitana de São Paulo (RMSP), considerada a maior área urbana brasileira, com cerca de 18 milhões de habitantes, apresenta, hoje, um dos quadros mais críticos do país no que diz respeito à alteração da temperatura por causa do aumento do dióxido de carbono (CO2). Isso ocorre devido ao grande número de usuários de transporte individual, o que acaba produzindo mais da metade de toda a poluição atmosférica da cidade. Além disso, o CO2 gera o efeito estufa, o que agrava a situação ambiental, comprometendo a qualidade do meio ambiente para seus habitantes. A causa está na falta de organização espacial-territorial e na gestão dos recursos naturais ao longo de sua história.

No caso da metrópole de Lisboa a redução dos níveis de dióxido de carbono está na pauta de vários programas financiados pela União Europeia. A cidade de Lisboa estende-se pela margem direita do rio Tejo e está próxima ao oceano, mas, ao mesmo tempo, isolada dele pela Serra de Monsanto ao ocidente, pelas elevações que constituem a Serra da Carregueira a noroeste e pela Serra de Sintra, mais distante – isso confere características peculiares ao seu clima. Segundo Alcoforado (1993, p.303), foi verificada a grande influência do relevo movimentado da cidade e dos padrões variados de morfologia urbana nos contrastes térmicos espaciais.

No estudo da poluição em Lisboa, a autora afirma que a concentração de "fumos negros" é maior no período de inverno e na região da Baixa Lisboeta. Quando esses poluentes se apresentam em grandes concentrações ocorre a diminuição da radiação solar direta e dificulta-se a irradiação terrestre. Assim, Alcoforado analisou a formação frequente de ilhas de calor bem marcadas durante as noites de inverno (idem, p.305).

Todas essas questões implicam um planejamento do desenvolvimento urbano que se utilize de instrumentos e estratégias ambientais inseridas em políticas públicas com o objetivo de conservar o máximo do ambiente natural promovendo o desenvolvimento econômico e social sustentável. Qualidade de vida torna-se, portanto, a expressão de padrões de produção e reprodução social e transforma-se no mesmo ritmo de transformação desses padrões (Leite, 1994). A institucionalização da proteção do ambiente e da qualidade de vida pode ser definida como um processo de corporificação de certas práticas da sociedade em organizações, normas e procedimentos, legitimamente aceitos por um número sufi cientemente expressivo de pessoas, o que permite assegurar sua reprodução (Guay, 1991).

Os estudos das alterações climáticas têm sido cada vez mais considerados pelos urbanistas nos processos de planejamento urbano, surgindo daí a necessidade de estabelecer critérios que estejam voltados para a questão da poluição do ar e do comportamento térmico, por meio da descrição qualitativa em sua variação espacial.

As alterações climáticas no contexto das áreas urbanas podem contribuir como um indicador para a interpretação do desenho do fluxo de pessoas com deslocamento de consumidores, as interações interindustriais e de tráfego urbano. Nesse sentido

o espaço urbano é reflexo tanto de ações que se realizam no

presente como também daquelas que se efetivaram no

passado, deixando suas marcas impressas nas formas

espaciais atuais. Por ser reflexo da sociedade o espaço urbano

configura-se desigual, mutável e complexo. (Ortigoza, 2009)

Entretanto, para que ocorra a adequada aplicação de instrumentos e diretrizes estratégicas visando à qualidade físico-ambiental é necessário compreender primeiramente a interrelação do ambiente urbanizado por meio da identificação de indicadores ambientais. O objetivo principal na identificação dos indicadores ambientais é agregar e quantificar as informações do ambiente urbano de maneira que sua significância fique mais aparente (Bellen, 2005).

É importante avaliar o impacto do homem sobre o meio ambiente e considerar a capacidade dos ecossistemas para absorver choques violentos e sentir a saturação dos recursos naturais e a carga das atividades econômicas e sua relevância na organização do espaço. É nas metrópoles que os problemas ambientais geralmente atingem maior amplitude, notando-se concentração de poluentes no ar e na água, e a degradação do solo e subsolo, em consequência do uso intensivo do território pelas atividades urbanas (Lombardo, 1995).

Lombardo (idem) ainda enfatiza que na análise da qualidade ambiental urbana, é necessário, ainda, considerar o espaço tridimensional (planos horizontais e verticais), incluindo o espaço aéreo, o solo e o subsolo. Os problemas ambientais precisam ser tratados em diferentes escalas.

A importância dos indicadores ambientais está associada à sua utilização como instrumento de planejamento e gestão dos espaços urbanos, servindo para o melhor aproveitamento dos recursos naturais e também como medida preventiva contra a degradação ambiental (Tolmasquim, 2001).

A ideia básica que inspira a metodologia de cenários é que o futuro é moldado no presente pela ação dos indivíduos, organizações e instituições. A elaboração de cenários ambientais tem sido uma metodologia cada vez mais utilizada como instrumento do planejamento ambiental, objetivando indicar alternativas futuras para contribuir na tomada de decisões. Ele permite uma atitude ativa e criativa em relação ao futuro, já que é construído pelos atores a partir de sua ação no presente. O futuro deve ser estudado com vistas a iluminar as ações no presente (Lucas, 2006). O conceito de desenvolvimento sustentável presidirá esse processo e exigirá, para garantir a qualidade ambiental e a qualidade de vida da população, a manutenção das áreas preservadas e o tratamento das áreas degradadas e da paisagem urbana.

O estabelecimento e quantificação de indicadores para definir prioridades de investimentos para a melhoria da qualidade de vida da população urbana são os grandes desafios dos gestores urbanos que lidam com uma grande variedade de demandas e necessitam de ferramentas eficientes para a tomada de decisões.

Para a integração interdisciplinar desses conhecimentos, será importante elaborar uma metodologia sob o enfoque sistêmico da relação qualidade ambiental e mudanças climáticas, na qual o modelo é visualizado pela representação gráfica. Dessa forma, propõe-se uma metodologia de procedimentos para a representação espacial.

A visão global das áreas metropolitanas só é possível com a utilização de dados obtidos por sensoriamento remoto em nível orbital. Sua repetição constante possibilita detectar não somente as tendências de expansão das áreas urbanas, como também o registro permanente das relações entre os fenômenos urbanos e o todo ambiente regional (Foresti, 1986).

O uso de geotecnologias nos estudos de vulnerabilidade ambiental a mudanças climáticas globais em áreas urbanas constitui um procedimento de aplicação dos recursos tecnológicos atuais (como é o caso do sensoriamento remoto) na análise da dimensão humana na vulnerabilidade ambiental às mudanças globais, por meio de métodos qualitativos e quantitativos.

Segundo Almeida et al (2006) o sensoriamento remoto pode ser entendido como o conjunto de atividades que tratam da obtenção de informação relativa aos recursos naturais da Terra ou seu meio ambiente, obtida por sensores instalados a bordo de plataformas em altitude (tais como balões, foguetes, aviões e satélites), os quais coletam a radiação eletromagnética emitida ou refletida por um alvo, convertendo-a em um sinal que é posteriormente processado em terra, com fins à geração de imagens (Slater, 1980).

Assim, não somente as imagens de satélite, mas também as originadas por plataformas aerotransportadas (aerofotogrametria analógica e digital) constituem a matéria de trabalho do sensoriamento remoto.

No início da década de 1970 foram desenvolvidas atividades de processamento digital de imagens de satélite para fins de estudos urbanos. Em vista da baixa resolução espacial (79 x 79m) da primeira geração de satélites da época, os estudos eram tímidos, limitando-se: a) à classificação de áreas urbanas e não-urbanas (Dueker & Horton, 1972; Foresti et al., 1973); b) ao monitoramento do crescimento urbano por meio de imagens multitemporais (Lindgren, 1975; Foresti et al., 1980, Niero et al.; 1982); c) a análises de impacto ambiental da ocupação urbana, por meio do cruzamento das áreas urbanizáveis com mapas de caracterização do sítio físico (Paul et al., 1975; Foresti et al.; 1978); e d) a inferências populacionais a partir de análises de regressão simples entre área ocupada e densidade populacional média (Foresti, 1977).

A geração seguinte de sensores orbitais, que se estendeu da metade da década de 1980 até o final da década de 1990, oferece resolução espacial mais refinada (5m a 10m na banda pancromática e 20m a 30m nas bandas multiespectrais), veio acompanhada por estudos mais sofisticados, que passam a explorar o espaço intraurbano, tanto do ponto de vista físico (Nellis et al., 1997) quanto do social-demográfico (Henderson & Xia, 1997). Isso foi possibilitado não apenas pelo avanço tecnológico na resolução espacial dos sensores, mas também, e sobretudo, por avanços paralelos nas técnicas de processamento digital de imagens (Howarth & Boasson, 1983; Moller-Jensen, 1990; Solberg et al., 1990). Datam dessa época estudos pioneiros sobre o mapeamento de vazios urbanos e identificação de equipamentos urbanos (Tanaka et al., 1999) e classificação de usos do solo urbano como residencial, comercial, industrial etc. (Barnsley & Bar, 1996).

Nos últimos dez anos, conforme Almeida et al (2006) a segunda geração se vê suplantada pela subsequente, com avanços na resolução espacial da ordem de 0,67m a 1m na banda pancromática e 4m nas bandas multiespectrais, compreendendo os sensores de alta e altíssima resolução espacial, os quais migraram do setor militar para a pesquisa civil.

Nesta fase recente de experimentações, os estudos passam a detalhar com maior profundidade os alvos urbanos (Donnay et al., 2001; Benz et al., 2004), categorizando as coberturas do solo urbano em nível de materiais (asfalto, cobertura cerâmica, metálica ou de concreto etc.), além de discriminar a vegetação de acordo com o porte (arbórea ou rasteira) e forma (conífera, perenifolia etc.). Para extrair informações sobre o ambiente urbano, as técnicas de processamento digital de imagens deixam de focar características do pixel de forma isolada, passando a abordar a imagem de forma contextual, enfocando um conjunto de pixels, isto é, o pixel mais a sua vizinhança imediata. Além do maior detalhamento sobre a categorização dos alvos urbanos, a nova geração de sensores

permite a reconstrução tridimensional da volumetria urbana (figura

2), seja por meio de pares estereoscópicos obtidos a partir de imagens ópticas, seja por sensores ativos como os de raio laser (LIDAR) (Haala & Brenner, 1999; Jochen & Manfred, 2005).

Esta nova geração representa uma revolução em termos de métodos de processamento de imagens bem como no nível de detalhamento do cenário urbano a ser extraído a partir das mesmas, possibilitando formas promissoras de exploração do universo intraurbano e ampliando os horizontes de aplicações do sensoriamento remoto com fins ao planejamento físico-territorial e ambiental.

De acordo com Pereira et al. (2006) os ambientes urbanos são compostos por diversos materiais, que possuem características específicas de condutividade térmica, calor específico, densidade, taxa de difusão térmica e capacidade de calor. Esses parâmetros físicos influenciarão de maneira direta a radiância obtida pelo sensor, seja pela reflexão da radiação eletromagnética ou pela emissão dos corpos terrestres.

Com a falta de planejamento urbano adequado e com a ausência de grandes áreas verdes no interior das cidades, modifica-se o balanço de energia havendo uma maior emissão de ondas longas pelas superfícies urbanas e, consequentemente, a formação de ilhas de calor. A emissão de radiação de ondas longas ocorre na faixa do infravermelho termal, na qual o comprimento de onda de máxima exitância radiante de um corpo, a uma dada temperatura, pode ser descrita pela lei de Wien. É nessa faixa do espectro eletromagnético, correspondente a 10,4 e 12,5µm, que os sensores captam a radiância dos corpos terrestres e permitem ao usuário de dados provenientes de satélites a obtenção da temperatura da superfície.

O software de geoprocessamento utilizado para este capítulo foi o Sistema de Processamento de Informações Georeferenciadas (Spring, 1996), desenvolvido pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). A etapa de processamento de dados utilizou a Linguagem Espacial para Geoprocessamento Algébrico (Legal) implementada no Spring.

As imagens utilizadas aqui são provenientes do satélite Landsat 7 sensor Enhanced Thematic Mapper Plus (ETM+) que possui oito bandas, sendo uma banda pancromática (banda 8), seis bandas multiespectrais (bandas 1, 2, 3, 4, 5 e 7) e uma banda no termal (banda 6), com resoluções espaciais nominais de 15m, 30m e 60m respectivamente. Essas imagens foram georeferenciadas e corrigidas atmosfericamente (com exceção da banda no termal) pelo Second Simulation of the satellite signal in the solar spectrum – 6S (Vermote, 1997).

Para a obtenção da temperatura da superfície foi necessária a transformação do sinal digital proveniente do satélite em radiância, a qual foi convertida em temperatura como descrito no Landsat 7 User’s Handbook pelas fórmulas a seguir:

L = {[(L – L )/(NC – NC )]*(NC – NC )}+L max min max min minmin

Temp(°C) = {(1282.71)/1n[(666.09/L) + 1]} – 273.15

Onde Lmax e Lmin representam o valor de máxima e mínima radiância escalonados pelo sensor (encontrado geralmente no arquivo descritor das imagens), NCmax representa o nível de cinza máximo, NCmin representa o nível de cinza mínimo, NC representa o nível de cinza de cada pixel da imagem e 1282.71 (K1) e 666.09 (K2) são constantes de calibração para a banda referente ao termal encontradas no Landsat 7 User’s Handbook.

 

O clima urbano da região metropolitana de São

Paulo

Com base nessas informações, procedeu-se com a distinção do uso e ocupação do solo na região metropolitana de São Paulo, classificados supervisionadamente e aplicado o método Máxima Verossimilhança (Maxver), obtendo-se total de área para cada classe de floresta (3381.10km²), herbáceos (2093.11km²), hidrografia (174.03km²), solo exposto (14.46km²) e urbano (1899.32km²). Isso é demonstrado na figura a seguir:

Figura 1 – Mapa do uso e ocupação do solo na Região

Metropolitana de São Paulo (25/05/2003).

Fonte: Pereira et al (2006)

Nota-se que grande parte da região metropolitana pertence à classe urbana (25,11% do total da área). Atualmente a região metropolitana de São Paulo conta com mais de 17 milhões de habitantes. Na área urbana criam-se condições específicas na atmosfera, responsáveis pela mudança no clima. Essas especificidades como, por exemplo, as construções, a orientação das ruas, a circulação de veículos, os tipos de materiais urbanos e as atividades humanas alteram o balanço de radiação, interferindo na absorção, reflexão e emissão da radiação.

O efeito "ilha de calor" pode ser considerado como um dos atributos básicos do clima urbano (Monteiro, 1990). Caracterizado como uma anomalia térmica, que possui dimensões horizontais (extensão), verticais e temporais, esse efeito está intimamente relacionado com o tamanho da cidade, a quantidade de construções, o uso do solo, com o clima e com as condições meteorológicas daquele dado lugar (Oke, 1982). Assim, a ilha de calor configura-se como um "fenômeno que associa os condicionantes derivados das ações antrópicas sobre o meio ambiente urbano, em termos de uso do solo e os condicionantes do meio físico e seus atributos geoecológicos" (Lombardo, 1985).

No dia da passagem do satélite Landsat 7 (25 de maio de 2003), as condições meteorológicas demonstravam grande estabilidade atmosférica, céu sem nebulosidade e a circulação atmosférica em mesoescala dominada pela massa de ar polar atlântica (mPa), que ocasiona à superfície uma temperatura amena.

 

Figura 2 – Mapa do Campo Térmico para a Região Metropolitana de

São Paulo para o dia 25/05/2004 às 09hrs e 53 min.

Fonte: Pereira et al (2006)

Na figura acima fica caracterizado o acentuado contraste de temperatura entre áreas de vegetação e áreas urbanas. Em alguns casos, enquanto que a temperatura na vegetação mais densa (no caso das florestas) chegava a 16ºC, a temperatura no centro de São Paulo atingia até 28ºC. Isso acarreta aos moradores certo desconforto térmico, interferindo na qualidade do ar e prejudicando a qualidade de vida da população. Com auxílio de trabalho de campo, foi identificada uma elevação de 2°C a 3°C na rua Vinte e cinco de março, considerada um dos maiores centros de comércio varejista da região metropolitana de São Paulo. Nessa rua, o fluxo diário de pessoas varia entre 800 e 1.500, em aproximadamente 1km de extensão. Em épocas pré-festivas o fluxo de pessoas aumenta e a variação de temperatura pode atingir até 4°C.

Nesse sentido, as diferenças térmicas refletem as complexas interações da sociedade com o meio ambiente. Essas constatações podem contribuir para subsidiar o planejamento urbano, no qual as intervenções humanas (apropriações do espaço) sejam orientadas levando em conta a capacidade de suporte desse meio. Torna-se indispensável a adoção de uma postura que considere o desenvolvimento econômico social indissociável do desenvolvimento ecológico ambiental. (Ortigoza, 2009, p.165)

 

Clima urbano na região metropolitana de Lisboa

No que diz respeito à área metropolitana de Lisboa (AML), segundo Alcoforado et al. (2005), a mesma encontra-se em franco desenvolvimento urbano, mostrando sinais de maior vitalidade demográfica do que outras regiões no país, sobretudo após o decênio da emigração nos anos 60 do século XX (Barata Salgueiro, 1992, 2001). Criada em 1991, a AML é uma extensa "cidade metrópole/conturbação" com 2.962,6km 2 e mais de 2,5 milhões de habitantes, que agrega 18 municípios. As grandes áreas em expansão encontram-se no norte e noroeste da cidade, prolongando-se pelos concelhos limítrofes. No entanto tudo parece apontar para o aumento dos índices de construção, sobretudo devido ao aumento da altura dos prédios (Barata Salgueiro, 1992).

Mapa de localização

 

(Alcoforado et al., 2005)

Se for mantido o forte crescimento urbano verificado nos últimos anos no norte e noroeste da cidade, as urbanizações, implantadas segundo um modelo "caótico", criarão uma barreira à progressão dos ventos dominantes e simultaneamente um problema ambiental grave na cidade. Na falta de eixos estruturantes largos e "arejados" (de que o eixo norte/sul é apenas uma exceção) que constituam corredores de ventilação que permitem que o vento dominante de norte "limpe" a cidade, as condições de ventilação no sul da cidade poderão piorar, o que contribuirá para aumentar os picos de poluição em certos locais e o desconforto térmico estival, ou ainda para incrementar a intensidade das vagas de calor, com as conhecidas consequências na saúde da população (Alcoforado et al, 2005).

A cidade de Lisboa tem um clima de tipo mediterrâneo, caracterizado por um verão quente e seco e pela concentração da maior parte da precipitação no período entre outubro e abril. As características do clima da região de Lisboa, estudadas nomeadamente em Alcoforado (1992), dependem de fatores geográficos regionais como a latitude e a proximidade do Oceano Atlântico, o qual lhe confere certa amenidade térmica (temperatura máxima média de julho, 27.4°C em Lisboa/ Gago Coutinho; mínima média de janeiro, 8.2°C) e um regime de ventos marcado por uma elevada frequência de ventos de norte e noroeste. Dois outros fatores condicionam, na escala mesoclimática e local, o clima de Lisboa: a topografia acidentada da cidade e a sua posição à beira-Tejo (Alcoforado, 1987; Alcoforado, 1992b; Andrade, 2003).

A IC tem uma forma tentacular, prolongando-se ao longo dos principais eixos de crescimento da cidade.

 

Ilha de calor noturna de Lisboa: Temperaturas normalizadas da

atmosfera referentes a noites com vento norte moderado (Andrade,

2003).

Lopes & Vieira (2001) elaboraram um mapa em que foram agrupadas áreas com características físicas semelhantes do ponto de vista da morfologia urbana, por meio de uma classificação assistida a partir de uma imagem Landsat 5 (TM) de fevereiro de 1992. Esse mapa foi posteriormente atualizado. O processo de classifi cação iniciouse com a seleção de um conjunto de "áreas amostra" escolhidas de modo a representarem as várias classes de rugosidade aerodinâmica presentes na cidade. Com base nas respostas espectrais típicas dessas áreas, nos vários canais Landsat do visível e infravermelho próximo, obtiveram-se classes de ocupação do solo (utilizando um algoritmo de máxima verossimilhança – maximum likelihood). As classes obtidas foram posteriormente agrupadas em três grandes conjuntos:

Ocupação urbana de baixa densidade – espaços em que as áreas edificadas ocupam menos de 10% do total. Ocupação urbana de média densidade – espaços urbanos em que as áreas edificadas ocupam em média 15% a 30 % do total.

Ocupação urbana de elevada densidade – espaços urbanos em que as áreas edificadas ocupam cerca de 50 % do total. O mapa da morfologia urbana foi completado com informações cedidas pela Câmara Municipal de Lisboa, referentes aos espaços verdes existentes em 31 de janeiro de 2005, tendo-se excluído os espaços verdes potenciais:

Classificação da morfologia urbana de Lisboa para fins

climáticos

 

No mapa da figura acima, pode observar-se a ocupação urbana de elevada densidade e dominante nas áreas centrais e do sul de Lisboa, como a Baixa Pombalina, as Avenidas Novas, mas também em locais como Benfica e, na frente ribeirinha, entre a Baixa e o Oriente. As áreas urbanas de média densidade encontram-se sobretudo no norte de Lisboa, como Carnide, parte de Telheiras e do Lumiar, assim como no setor oriental (Olivais e Chelas) e sudoeste da cidade (Belém, Ajuda e Restelo). A classe de baixa densidade tem uma expressão reduzida na área central da cidade, encontrando-se em manchas dispersas, predominantemente no norte e oriente de Lisboa. Dentre os espaços verdes, salientam-se, pela sua dimensão, Monsanto, Parque Eduardo VII, Cidade Universitária e a Bela Vista.

Com base em imagens TM/Landsat 7 foram elaborados mapas temáticos de variação de temperatura na área metropolitana de Lisboa.

Org. Lombardo (2008) – Temperatura – Lisboa

A análise do NVDI pode auxiliar na detecção de áreas verdes na área metropolitana de Lisboa.

Org. Lombardo (2008) – NVDI – Lisboa

Em Lisboa, como em São Paulo, os espaços verdes deverão ser mantidos e alargados com um adequado planejamento com vista a potencializar a sua utilização, reduzindo assim possíveis aspectos negativos que ocorrem no tecido urbano.

A priorização da implantação da vegetação nas diversas áreas da cidade demanda um critério de avaliação para áreas mais carentes, oferecendo assim possibilidades de atividades de lazer à população dessas áreas.

 

Considerações finais

O presente capítulo apresenta resultados que podem auxiliar na identificação de algumas alterações que ocorrem nos espaços metropolitanos de São Paulo e Lisboa no que concerne à modificação do balanço de energia devido às atividades humanas. Em consequência, a subsuperfície, a superfície e o ar circundante registram temperaturas mais elevadas nas cidades do que nas áreas circundantes. As cidades são as maiores fontes de gases de efeito estufa e, assim, contribuem indiretamente para o aquecimento global. Os impactos das mudanças climáticas globais, considerando-se aqueles relacionados à degradação de ecossistemas, problemas de saúde, consumo de energia e água, são exacerbados em áreas urbanas. As consequências de mudanças globais nas cidades devem ser analisadas, incluindo-se as variabilidades regionais que dependem da dinâmica climática e das situações sinópticas e tipos de tempos.

Os processos de adaptação às alterações climáticas são fundamentais para que se possa minimizar os efeitos negativos que se começa a sentir e que podem vir a agravar-se. Desse modo, a participação ativa de agentes públicos e privados é fundamental. Uma estratégia de adaptação passa por um conjunto de medidas e políticas pensadas para minimizar um risco ou um conjunto de riscos resultantes dos impactos das alterações climáticas.

Um processo de avaliação dos impactos é multissetorial e integrado, uma vez que envolve o estudo da dinâmica interna das interações que se registram entre os diversos agentes expostos à mudança. A avaliação dos impactos das alterações climáticas em diferentes escalas são um importante meio de informação e sensibilização do público, bem como dos agentes envolvidos para os problemas das alterações climáticas.

Visando ao estudo da vulnerabilidade às alterações climáticas em áreas urbanas, a análise e o diagnóstico da região metropolitana de São Paulo e Lisboa podem ser delineados com base no conhecimento intermultidisciplinar com utilização de geoprocessamento e sensoriamento remoto.

A escala urbana e metropolitana da vulnerabilidade e adaptação às alterações climáticas é pouco conhecida, muito embora o clima em escala urbana esteja sendo bastante estudado. Contudo, os reflexos das mudanças climáticas globais no clima urbano estão por estabelecer o que é fundamental para propor políticas de adaptação que permitam diminuir a vulnerabilidade dos sistemas naturais e sociais dessas áreas, e que constitui o objeto do projeto.

O clima urbano, além de apresentar alterações dos elementos climáticos, pode ser considerado um indicador das alterações da qualidade ambiental e de vida. O desenho da ilha de calor sinaliza o contexto do espaço urbano fragmentado e articulado, e indiretamente representa uma expressão espacial dos processos sociais que ocorrem na área urbana.

 

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1 Professora titular do departamento de Planejamento, IGCE/Unesp, Rio Claro.

2 Este artigo foi elaborado a partir do projeto de pesquisa realizado junto ao Centro de Estudos Geográficos da Universidade de Lisboa, sob a supervisão da Profa. Dra. Maria João Alcoforado.

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