Da produção ao consumo: impactos socioambientais no espaço urbano
3 Reestruturações produtivas e organizacionais na atividade industrial e gerenciamento ambiental
3 Reestruturações produtivas e
organizacionais na atividade
industrial e gerenciamento ambiental
Auro Aparecido Mendes1
Introdução
A reestruturação econômica da década de 1980 induziu várias estratégias reorganizacionais nas atividades industriais. Alguns analistas, especialmente Piore e Sabel, argumentam que a crise econômica da década de 1970 resultou da exaustão do sistema de produção em massa, constituindo um marco na atividade industrial na história do capitalismo. Para outros, como Harrison e Storper, a difusão de novas formas organizacionais foi resposta à crise de lucratividade do processo de acumulação de capital. Outros ainda, como Coriat, por exemplo, sugerem uma evolução de longo prazo do "fordismo" ao "pós-fordismo", como expressão de uma "grandiosa transição": a transformação histórica das relações entre, de um lado, produção e produtividade e, de outro, consumo e concorrência. Apesar da diversidade de abordagens, há algumas coincidências, tais como:
Quaisquer que sejam as causas e origens da transformação organizacional houve, em meados da década de 1970, uma divisão importante (industrial ou outra) na organização da produção e dos mercados na economia global. As transformações organizacionais interagiram com a difusão da tecnologia da informação.
O objetivo das transformações organizacionais em várias for-mas era diminuir a incerteza causada pelo ritmo veloz das mudanças no ambiente econômico, institucional e tecnológico,
aumentando a flexibilidade em produção, gerenciamento e marketing.
Muitas transformações organizacionais tinham por objetivo redefinir os processos de trabalho e práticas de emprego, introduzindo o modelo da "produção enxuta" com o fito de economizar mão de obra mediante a automação de trabalhos, eliminação de tarefas e supressão de camadas administrativas.
A própria empresa mudou seu modelo organizacional para adaptar-se às condições de imprevisibilidade engendrada pela rápida transformação econômica e tecnológica. Para operar na nova economia global, caracterizada pela onda de novos concorrentes que usam novas tecnologias e capacidade de redução de custos, as grandes empresas tiveram de tornar-se principalmente mais "flexíveis". Para conseguir absorver os benefícios da flexibilidade das redes produtivas, a própria empresa teve de tornar-se uma rede e dinamizar cada elemento de sua estrutura interna: este é na essência o significado e o objetivo do modelo da "empresa horizontal", frequentemente estendida na descentralização de suas unidades e na crescente autonomia dada a cada uma delas, até mesmo permitindo que concorram entre si, embora dentro de uma estratégia global comum (Castells, 1999).
O advento da indústria de alta tecnologia, ou seja, a indústria com base na microeletrônica e assistida por computadores, introduziu uma nova lógica de localização industrial. As empresas eletrônicas, produtoras dos novos dispositivos da tecnologia da informação, também foram as primeiras a utilizar a estratégia de localização possibilitada e exigida pelo processo produtivo baseado na informação. Esse espaço caracteriza-se pela capacidade organizacional e tecnológica de separar o processo produtivo em diferentes localizações, ao mesmo tempo em que reintegra sua unidade por meio de conexões de telecomunicações e da flexibilidade e precisão resultante da microeletrônica na fabricação de componentes. Além disso, devido à singularidade da força de trabalho necessária para cada estágio e às diferentes características sociais e ambientais próprias das condições de vida de segmentos profundamente distintos dessa força de trabalho, recomenda-se especificidade geográfica para cada fase do processo produtivo.
De acordo com Castells (idem), o novo espaço industrial não representa o fim das velhas áreas metropolitanas já estabelecidas e o início de novas regiões caracterizadas por alta tecnologia. O novo espaço industrial é organizado em torno de fluxos de informações que, ao mesmo tempo, reúnem e separam – dependendo do ciclo das empresas – seus componentes territoriais. E à medida que a lógica da fabricação da tecnologia da informação vai passando dos produtores de equipamentos de tecnologia da informação para os usuários desses dispositivos em toda a esfera da indústria, também a nova lógica espacial se expande criando uma multiplicidade de redes industriais globais, cujas intersecções e exclusões mudam o próprio conceito de localização industrial de fábricas para fluxos industriais.
A desintegração vertical de uma empresa ocorre quando as diferentes etapas da produção não se efetivam na mesma empresa. A tendência à desintegração vertical tornou-se muito comum, o que explica a multiplicação das pequenas e médias empresas. A organização da produção – integrada ou desintegrada – depende da economia realizável na gestão da produção.
Verifica-se que as mudanças geográficas dos espaços de produção coincidem com as mutações maiores da organização da produção, que são por sua vez provocadas pelas exigências do novo regime de acumulação.
Faz-se mister salientar que essa "nova ordem capitalista" é caracterizada no processo de reprodução do capital por uma série de imbricações de comando, de fazer, de obedecer e de dependências, entre outras, que acabam intensificando as relações entre o todo e as partes, entre o lugar e o global.
As relações produtivas na atividade industrial atualmente geram novos recortes territoriais, cujo domínio e poder fogem da esfera nacional. Consiste em uma reconstrução do espaço e de uma nova noção de tempo, que procura atender as demandas da própria sociedade.
Em meio a todas as transformações socioeconômicas e espaciais em curso, é necessário compreender que cada lugar é único, resultado da combinação e das relações de dominação, subordinação e interdependência e produzido historicamente.
O alcance espacial do sistema produtivo globalizou-se, fundamentando-se em vantagens comparativas dinâmicas ou competitivas, gerando novas relações de trabalho e de produção.
Dessa forma, as economias locais devem ser entendidas como malhas de uma rede econômica global. Não se pode esquecer nem negligenciar os nexos que prendem o local ao global e vice-versa. Emergem, assim, novos espaços industriais cada vez mais seletivos, mais "inteligentes", constituindo o "meio técnico-científicoinformacional". Tais espaços, como os condomínios industriais, por exemplo, representam o poder das grandes empresas (verticalidades) no desenvolvimento territorial.
Segundo Lemos (2000), enormes esforços estão sendo empreendidos para tornar os novos conhecimentos apropriáveis. Isso se dá por meio de interações entre os diferentes agentes econômicos e sociais para difusão e geração de inovações. Essa interação pode ocorrer no nível de uma empresa, entre empresas ou entre empresas e distintas organizações de ensino e pesquisa.
Na era do conhecimento ou do aprendizado o grande desafio é também transformar as informações em conhecimento, conforme Lojkine, 1995; Castells, 1997; Foray & Lundvall, 1996, e Cassiolato & Lastres, 1999, entre outros.
Os conhecimentos empregados na geração de inovações podem ser tanto codificados como tácitos, públicos ou privados e tornam-se cada vez mais interrelacionados. O conhecimento codificado pode ser facilmente transferível por meio do uso de novas tecnologias, mas o conhecimento não-codifi cado ou tácito só se transfere por meio da interação social, face a face, que se dá de forma localizada em organizações e locais específicos.
É nesse contexto que emergem os condomínios industriais e empresariais dotados de infraestruturas adequadas para a geração de informações e apropriação de conhecimentos codificados no ambiente em que se encontram inseridos ou compartilhados por meio da interação e relações entre indivíduos e organizações.
Reestruturações organizacionais e produtivas
Nas décadas de 1960 e 1970, indústrias inteiras são instaladas em economias desenvolvidas ou em alguns países periféricos subdesenvolvidos ou emergentes em busca de vantagens comparativas tradicionais, tais como recursos naturais e mão de obra abundante, barata e pouco sindicalizada, entre outras. Essa transnacionalização foi levada a cabo pelas grandes empresas multinacionais e grupos oligopólicos.
Evidentemente, esse processo está relacionado à lógica de internacionalização do capital. As transformações em curso na economia mundial consistem no deslocamento e desintegração espacial da produção, na transferência do lugar de formação do valor, na ampliação dos horizontes de exploração da mais-valia e nas formas de reprodução do capital.
No capitalismo global, os fenômenos descritos aprofundam-se cada vez mais, exacerbando as desigualdades econômicas, tecnológicas e sociais já existentes. O fator mais relevante da globalização é a nova esfera produtiva apoiada na Terceira Revolução Industrial. Nessa metamorfose, o capitalismo global leva ao extremo a busca da eficiência e da racionalidade econômica. Esse modo de produção gera, dialeticamente, a globalização e a fragmentação. Os territórios adquirem novas funções e novos significados.
As mudanças trazidas pelas novas tecnologias no bojo do paradigma de "especialização flexível" (robôs, automação flexível, telecomunicações, informática, entre outras) tem ocasionado profundas e rápidas transformações no sistema produtivo e organizacional das indústrias e das empresas, principalmente no que tange ao conteúdo de conhecimento, informação, pesquisa e desenvolvimento (P&D) e aprendizagem, agregados aos processos
de produção e aos produtos (figura 1).
Figura 1 – A empresa e suas relações socioeconômicas e espaciais.
Organizador: Mendes, A., 2008.
Conforme Coutinho & Ferraz (1994), a intensificação da desintegração da produção, proporcionada pelo desenvolvimento de novas formas de articulação entre o conjunto de agentes econômicos atuantes nas cadeias produtivas, é outro traço marcante das configurações industriais competitivas. Essas novas formas de desintegração da produção abrem espaço para relações intersetoriais fortemente sinérgicas, articulando empresas por meio de linkages (relações interindustriais) e de relações com fornecedores (parceria) e clientes, criando condições estruturais adequadas para o incremento da competitividade de todos os agentes envolvidos.
De acordo com os autores citados, os horizontes alargam-se à medida que aumenta a intensidade da cooperação existente entre as empresas. Programas de qualificação de fornecedores e de assistência técnica a clientes, indutores de interações tecnológicas, podem propiciar a aceleração do ritmo de introdução de inovações no processo produtivo e nos produtos. Processos de terceirização ou subcontratações da produção, desde que tecnologicamente racionais, podem propiciar que a cadeia produtiva caminhe em direção a graus ótimos de especialização, que permitam significativas reduções de custos de produção e incrementos da qualidade em todos os seus elos, principalmente quando todos os agentes e atores envolvidos no processo produtivo estão próximos espacialmente.
A construção de amplas redes (networks) envolvendo produtores, clientes e fornecedores torna-se, em função das economias alcançadas, mais frequente em todos os elos e segmentos da atividade industrial.
A indústria tem sido o placo de um vigoroso processo de mudança estrutural, como resultado da crescente adaptação dos grupos empresariais e dos modelos de organização da produção a um novo cenário competitivo, mais intensivo em tecnologia, conhecimento e informação. Nesse mosaico de rápidas, constantes e permanentes mudanças, desmoronam-se as antigas formas de produção, tudo o que é antigo torna-se efêmero, "tudo o que era sólido desmancha no ar". O novo modo de produção e os novos espaços industriais, fundamentados em novos fatores locacionais, emergem como "meio técnico-científico-informacional" em busca de uma forma de produção cada vez mais "enxuta" e racional.
O mundo praticamente encolhe, devido à eficácia das telecomunicações e dos transportes: os fios da teia global são computadores, satélites etc. – tecnologias criadas para atender às necessidades de uma sociedade ".com" – aproximando os lugares e agilizando as tomadas de decisões. O espaço torna-se fluido, volátil e comporta muitos fluxos de capitais, informações, conhecimento, serviços, que cruzam as fronteiras instantaneamente.
A globalização, segundo Santos (1994), constitui o estado supremo da internacionalização, a amplificação em Sistema Mundo de todos os lugares e de todos os indivíduos, embora em graus diversos.
Para Dollfus, o Sistema Mundo é:
[...] a Humanidade em movimento, cujos diferentes elementos
são ligados por redes, cada vez mais numerosas e mais
complexas. Ninguém agora escapa às impulsões do Sistema
Mundo, que se interioriza nos grupos bem como nos Estados, e
que diz respeito a todos os indivíduos da Terra. (1991, p.93)
Conforme Santos (op. cit.), as principais características desse Sistema Mundo, além de uma tendência à formação de um meio técnico-científi co científico-informacional informacional são:
a transformação dos territórios nacionais em espaços nacionais da economia internacional;
a exacerbação das especializações produtivas no nível do espaço;
a aceleração de todas as formas de circulação e seu papel crescente na regulação das atividades localizadas, com fortalecimento da divisão territorial e social do trabalho; a produtividade espacial como dado na escolha das localizações;
a tensão crescente entre localidade e globalidade à proporção que avança o processo de globalização.
Na medida em que se dá a globalização da economia, novas for-mas sociais do espaço e do tempo são reveladas. O local e o global, a homogeneidade e a diversidade, o presente e o passado, o anacrônico e
o moderno, a territorialização e a desterritorialização, o real e o virtual formam pares não-excludentes, compondo uma totalidade que aloja a fragmentação, a contradição, a singularidade e a universalidade.
A reestruturação econômica da década de 1980 induziu várias estratégias reorganizacionais nas atividades industriais. A crise da década de 1970 resultou da exaustão do sistema de produção em massa, constituindo um marco na atividade industrial na história do capitalismo.
Atualmente o alcance espacial do sistema produtivo globalizouse, fundamentando-se em importantes vantagens comparativas dinâmicas e em múltiplas estratégias produtivas e empresariais. Dentre elas destacam-se as seguintes:
Quaisquer que sejam as causas e origens da transformação organizacional houve, a partir de meados da década de 1970, uma divisão importante na organização da produção e dos mercados na economia global.
As transformações organizacionais interagiram com a difusão de novas tecnologias.
O escopo das transformações organizacionais em várias formas era diminuir a incerteza causada pelo ritmo veloz das mudanças no ambiente econômico, institucional e tecnológico, aumentando a flexibilidade em produção, gerenciamento e marketing.
Muitas transformações organizacionais tinham por objetivo redefinir os processos de trabalho e as práticas de emprego, introduzindo o modelo da "produção enxuta" com o objetivo de economizar mão de obra mediante a automação de trabalhos, eliminação de tarefas e supressão de camadas administrativas. A microeletrônica, a informática e a automação passam a impulsionar o desenvolvimento industrial.
A produção industrial muda completamente. Essa mudança atinge direta e indiretamente a empresa e a fábrica e, consequentemente, o mundo do trabalho. Em vez de linha de montagens, surgem processos automatizados, robotizados e flexíveis.
Desde a fase do projeto de produto até os testes finais, as mutações encontram-se ancoradas nos dispositivos
microeletrônicos, gerando dessa forma economias de escala e de escopo.
As novas tecnologias empregadas possibilitam atender a demanda de forma mais célere e diferenciada. A fábrica assemelha-se a uma "empresa vazia" cuja produção é subcontratada e os serviços terceirizados. A atual unidade produtiva torna-se capaz de "aprender" com mais facilidade para adaptar-se às mutações em curso. A busca por eficiência promove transformações nas estratégias empresariais desde a pesquisa até o marketing. Os mais competitivos são aqueles que apresentam melhor capacidade de inovação, integração e cooperação com clientes e fornecedores.
A própria empresa mudou seu modelo organizacional para adaptar-se às condições de imprevisibilidade do mercado, da competição e
da concorrência (figura 2).
Figura 2 – Responsabilidade social das indústrias, qualidade de vida
e gerenciamento ambiental. Organizador: Mendes, A., 2008.
As empresas passam a adotar novas estratégias que parecem apresentar as seguintes tendências: organização em torno do processo, não da tarefa; gerenciamento em equipe; preocupação com a satisfação dos clientes; maximização dos contatos com fornecedores e clientes; informação, treinamento e retreinamento de funcionários em todos os níveis. Para operar na economia global, as empresas tiveram de tornar-se principalmente mais "flexíveis". Trata-se, assim, de flexibilidade locacional, tecnológica, da mão de obra, entre outras.
O advento da indústria de alta tecnologia, ou seja, a indústria com base na microeletrônica e assistida por computadores, introduziu uma nova lógica de localização industrial. As empresas eletrônicas, produtoras dos novos dispositivos da tecnologia da informação, também foram as primeiras a utilizar a estratégia de localização possibilitada e exigida pelo processo produtivo baseado na informação. Esse espaço caracteriza-se pela capacidade organizacional e tecnológica de separar o processo produtivo em diferentes localizações, ao mesmo tempo em que reintegra a sua unidade por meio de conexões de telecomunicações e da flexibilidade e precisão resultante da microeletrônica na fabricação de componentes.
De acordo com Castells (1999), o novo espaço industrial não representa o fim das antigas áreas metropolitanas já estabelecidas e o início de novas regiões caracterizadas por alta tecnologia. O novo espaço industrial é organizado em torno de fluxos de informações e de conhecimento que ao mesmo tempo reúnem e separam – dependendo do ciclo das empresas – seus componentes territoriais.
Verifica-se que as mudanças geográficas dos espaços de produção coincidem com as mutações da organização da produção, que são por sua vez provocadas pelas exigências do novo regime de acumulação.
As relações produtivas na atividade industrial atualmente geram novos recortes territoriais, agregando cada vez mais tecnologia, conhecimento e aprendizagem. Faz-se mister entender que cada lugar é único, resultado da combinação e da relação de múltiplos elementos produzidos historicamente.
Conforme o autor citado, o conhecimento e a informação são elementos fundamentais em todos os modos de produção, especialmente no informacional. A tecnologia da informação no processamento e na transmissão desse conteúdo técnico-científico-informacional constitui a base desse novo paradigma produtivo.
O informacionalismo, assim, contribui para a maximização da produção por meio do desenvolvimento tecnológico e da acumulação do conhecimento em níveis complexos de processamento da informação.
Essa forma de organizar o sistema produtivo conecta por diversas redes sofisticadas – facilitadas pela telemática, infovias, internet, e-mail, TV a cabo, fibras óticas etc. – a produção, a distribuição e o consumo entre clientes, fornecedores e unidades produtivas localizadas em diferentes lugares.
A acelerada difusão das novas tecnologias de informação e de comunicação (TICS) possibilitou, por assim dizer, uma ampliação de sistemas, canais, redes e organizações de geração, tratamento e difusão de informações entre os diversos atores envolvidos. Trata-se de uma verdadeira "revolução informacional" que caracteriza a atual economia do conhecimento ou do aprendizado.
Analisando a emergência de uma sociedade em rede, Castells (1999) destaca que o espaço não se uniformiza – pelo contrário, essa base informacional gera interdependências, assimetrias e segmentações que subordinam os lugares por uma metarrede.
Corroborando o "desenvolvimento desigual e articulado" mais sofisticado desta fase atual do modo de produção capitalista, Massey (1998) salienta que os lugares são específicos pela existência de sua herança histórica e de seus atributos imateriais que lhes atribuem singularidades.
Cada lugar é o resultado de múltiplas variáveis geográfi cas, históricas, econômicas, políticas, entre outras, que lhe atribuem especificidades e singularidades. No lugar existem, portanto, conteúdos materiais e imateriais difíceis de serem reproduzidos ou copiáveis. A esse conjunto de elementos locais, naturais, econômicos, sociais, culturais e políticos, complementares e sistêmicos Granoveter (1985) chamou de imersão social (embeddedness).
Enfatizando a importância desse ambiente no desenvolvimento regional ou local, Storper (1995) denominou os elementos que formam esse conjunto de "ativos relacionais" (relational assets).
O que diferencia o atual modo de produção dos precedentes é a morfologia das redes, a sua flexibilidade, a velocidade dos fluxos de capitais, conhecimento e informação, os crescentes investimentos em P&D (pesquisa e desenvolvimento) e C&T (ciência e tecnologia). Trata-se de vantagens competitivas produzidas historicamente e que acabam, por conseguinte, gerando um desenvolvimento desigual e articulado entre os lugares.
Tais redes devem estar imersas (embedded) em um ambiente local (milieu) que funcione como facilitador e estimulador das interações coletivas e que faça ligação entre um sistema de produção e uma cultura tecnológica particular (Santos et al., 2002).
Vale lembrar que a proximidade física das empresas não signifi ca que ocorra cooperação entre elas. Para que a cooperação exista faz-se necessário, também, a proximidade cognitiva.
Nas aglomerações inovativas do conhecimento e do aprendizado, nesse "espaço de ideias" que são trocadas e desenvolvidas, o conhecimento é compartilhado com o objetivo de melhorar a qualidade dos processos e dos produtos e aí espera-se que os problemas comuns sejam equacionados conjuntamente.
Segundo Santos et al. (op. cit.), toda aglomeração organizada tem o potencial de tornar-se uma aglomeração inovativa. Esses sistemas de produção organizados e inovativos, segundo os autores, podem estar integrados às cadeias produtivas.
A empresa âncora centraliza as funções estratégicas (design, marketing, P&D, entre outras) enquanto outras atividades produtivas são desintegradas e transferidas para empresas altamente especializadas que podem estar distantes, próximas ou até mesmo ocupando o mesmo espaço onde a empresa âncora encontra-se instalada.
Não são todos os lugares que dispõem desses novos fatores locacionais (mão de obra qualificada, existência de universidades e institutos de pesquisa, proximidade de aeroportos, entre outros) que geram uma nova paisagem empresarial e industrial completamente diferente dos antigos complexos fabris.
Nota-se que nessa nova dinâmica tecnológica o conhecimento, o aprendizado e a troca de informações tornam-se um ativo fundamental da competição, impondo novas formas de organização e de interação entre as empresas. Tais relações entre empresas ou interindústrias (linkages) podem ser tanto materiais ou tangíveis (matériasprimas naturais, mercadorias, por exemplo), quanto imateriais ou intangíveis (troca de informações ou conhecimento).
Lastres et al., tratando da ideia de um possível tecnoglobalismo, destaca que:
[...] o essencial da atividade de inovação continua sendo
desenvolvido no país de origem das empresas segundo
estratégias difundidas em tais espaços; e quando se
internacionalizam, objetivam, principalmente, realizar atividades
de monitoração e adaptações ao mercado local. (1998, p.8).
Assim, os autores mencionados chamam a atenção para o fato de que essa globalização tecnológica, em vez de permitir um maior acesso dos países emergentes ou menos desenvolvidos ao conhecimento e particularmente às tecnologias de ponta, acentua e dificulta a possibilidade de criação e uma capacidade endógena de progresso técnico e de um sistema de informação local.
Ainda segundo Lastres et al. (op. cit.), a produção, a transferência e a difusão de conhecimentos nos países periféricos é sempre parcial pelas seguintes razões:
A participação de países menos desenvolvidos na realização de pesquisa e desenvolvimento em nível mundial é muito pequena. Além da diminuição do licenciamento de tecnologias para países em desenvolvimento, os países mais avançados estão mais interessados em estabelecer acordos de cooperação tecnológica, tornando a participação dos países periféricos apenas marginal.
As novas formas de investimentos externos são feitas por meio de tecnologias consideradas "maduras" nos países avançados, não disponibilizando tecnologias de ponta que constituem ativos estratégicos.
Nesse contexto emergem os novos espaços industriais, dentre os quais ganham destaque os polos tecnológicos, os consórcios modulares e os condomínios industriais especialmente. Eles serão analisados detidamente nos próximos capítulos.
Nessa onda de inovações tecnológicas, presenciam-se mudanças radicais em várias esferas que vão desde o refinamento tecnológico dos equipamentos empregados, per se, até a qualificação da mão de obra e os princípios ordenadores da organização do trabalho e da produção. A nova ordem geoeconômica global impõe novas necessidades, novos desafios e novas posturas para uma inserção soberana e competitiva.
Diniz (2001), analisando o papel da inovação no desenvolvimento regional ou local, ressalta que na sociedade atual dominada pelo conhecimento as vantagens comparativas estáticas ou ricardianas perdem importância e emergem novas vantagens construídas e criadas no conhecimento e na inovação.
A competitividade torna-se, assim, mais acirrada, e o processo de inovação, de conhecimento e de aprendizagem abrem no território "janelas de oportunidade" (Dosi, 1984) que são "janelas locacionais" (Storper & Walker, 1989). Nessa perspectiva, o sucesso econômico de cada empresa dependerá da sua capacidade de especializar-se e de assimilar os processos de inovação em curso. O processo inovativo, segundo Diniz (2001), dependerá de duas dimensões:
Da capacidade empresarial em promover pesquisa e desenvolvimento e identificar novos produtos ou processos que assegurem o sucesso econômico.
Da capacidade local de aprender que, por conseguinte, cria uma "atmosfera regional" de aprendizado coletivo.
Entretanto, a existência de um "ambiente inovador" (milieux innovateurs) não assegura que todos os agentes e atores envolvidos na construção desse território tenham acesso às inovações produzidas. Muitos são os fatores e elementos que atuam na propagação das informações e das inovações. A simples proximidade geográfi ca não será suficiente para explicar o acesso às inovações se não forem considerados, também, fatores econômicos e culturais.
Asheim e Cooke (1997) identificam a relevância dos seguintes aspectos facilitadores do processo de inovação na dimensão local:
presença de capital humano e interações entre firmas, escolas, universidades, centros de treinamento;
redes formais e informais de negócios e troca de informações; sinergia e ambiente inovativo de cultura compartilhada; presença de instituições de suporte empresarial.
Para os autores mencionados o processo de aprendizagem é predominantemente interativo e socialmente imerso no contexto institucional e cultural.
Diniz (2001), citando vários autores, explica que:
[...] o processo de aprendizado é fortemente localizado, em
função da forma que interagem pesquisa, experiência prática e
ação, através de processos de aprender fazendo, usando,
interagindo e aprendendo (learning by doing, learning by using,
learning by interacting e learning by learning) que sintetizam a
economia do aprendizado (Cooke, 1998; Lundvall & Johnson,
1994). O processo de aprendizagem assume o centro da
sociedade, por isso é chamado de economia ou sociedade do
conhecimento (Spolidoro, 1997). Assim, a vantagem que um
país, região ou localidade adquire está relacionada com sua
capacidade de aprendizado e inovação (Porter, 1990). E à
medida que a velocidade do aprendizado e da inovação
aumenta, encurta-se o ciclo de vida dos produtos, exigindo uma
crescente capacidade de resposta e reacelerando o processo
de pesquisa e inovação. (2001, p.12).
Se, por um lado, ocorrem céleres avanços nas descobertas e na transmissão de dados, informações e conhecimento, por outro existem conhecimentos que não são facilmente transferíveis espacialmente. Daí as tentativas de empresas, instituições e diferentes atores de tornarem os novos conhecimentos apropriáveis, compartilhados e interativos. Esse território impregnado de conhecimento e de inovação acaba se revelando uma vantagem competitiva que permite uma inserção positiva dos lugares e regiões no cenário global competitivo e concorrencial.
Contudo, a empresa não inova sozinha, faz-se mister uma série de interações imbricadas por diferentes fontes de informações, conhecimento e inovações internas e externas, envolvendo diversos departamentos da mesma empresa ou de outras e instituições de ensino e de pesquisa. É nesse contexto que informações transformam-se em conhecimento.
Cabe, entretanto, explicar que a informação e o conhecimento codificados (públicos ou privados) podem ser facilmente transferíveis por meio dos modernos meios de comunicação, atingindo os mais longínquos lugares. Todavia, as informações e os conhecimentos tácitos, não-codificados, resultam de interações socioculturais "enraizadas" localmente, cuja apropriação requer contatos diretos, vis-à-vis, face a face, entre os sujeitos envolvidos. Mesmo em meio a todos os avanços tecnológicos em curso, a geração e a assimilação de certos conhecimentos, com segurança e confiabilidade, dá-se de maneira presencial e compartilhada. De nada adiantará haver conhecimento, se não ocorrer aprendizagem. A vantagem competitiva das empresas, nesse sentido, está em adquirir novos conhecimentos e habilidades e transformá-los em aprendizado.
Tanto um conhecimento quanto o outro são complementares e específicos na composição de muitas empresas e territórios. O entendimento, a compreensão de como circulam tais conhecimentos na cadeia produtiva, a fertilização cruzada de ideias, suas sinergias, suas interações internas (entre os diferentes departamentos da empresa e seus fornecedores e parceiros próximos) e externas (com universidades, institutos de pesquisa, consultores, clientes e usuários, entre outros) consistem, portanto, no objeto de estudo do presente capítulo.
Nesse ambiente marcado por profundas interações e articulações produtivas e organizacionais, as redes desempenham um papel crucial na troca, transmissão e mobilização das informações, do conhecimento explícito ou tácito e das competências. Tais redes podem ser bem desenvolvidas promovendo interações, cooperações e "transbordamentos" de conhecimento, competências e inovações à distância; contudo, não podemos esquecer a importância das interações locais face a face entre pessoas proporcionadas pela proximidade geográfica.
Analisando a relevância do contato face a face (FaF), Storper (2005) destaca importantes aspectos daquilo que ele denomina de "burburinho", como, por exemplo:
comunicação eficiente em condições de incertezas, especialmente quanto a conhecimento tácito; capacidade de confiar e ligar-se, quando as mensagens e seus conteúdos são inerentemente incertos;
vantagens no processo de inovação e de aprendizagem;
produtividade, criatividade, inventividade e energia. Ainda nas palavras de Storper:
O burburinho é altamente motivante, nos sentidos psicológico e
biofísico; leva à formação de desejos e à mobilização de
esforços para realizá-lo. O burburinho produz um rush, ímpeto.
Não é de surpreender que muito poucos locais de trabalho
desapareceram, como centros de contato FaF, mesmo com o
hoje sofi sticado monitoramento do desempenho do funcionário,
feito por computador. (idem, p.34).
A presença é sempre motivadora e contagiante, e seus efeitos dificilmente seriam alcançados à distância. Storper também comenta que fornecedores somente se mostram motivados a manter a qualidade se não forem anônimos, para que possam manter boa reputação junto a seus clientes. Ou seja, o contato humano, face a face, desempenha um papel fundamental. O autor argumenta, ainda, que os seres humanos são eficientes na percepção de mensagens não-verbais trocadas entre si, especialmente as de caráter emotivo, cooperativo e de confiabilidade.
O burburinho e o contato FaF geram aglomerações urbanas e econômicas. No entanto, segundo o mesmo autor, nem todas as aglomerações urbanas especializadas contêm burburinho, ou seja, possuem poucas interações funcionais.
O burburinho reforça na aglomeração e no desenvolvimento econômico dos lugares importantes elementos da atual fase do capitalismo: inventividade, criatividade, poder e influência etc. Na combinação e na sinergia entre todos esses elementos, o burburinho sempre está presente e emerge como uma importante vantagem competitiva.
Diniz & Gonçalves (2005) destacam que o processo de aprendizado é fortemente localizado em função da forma como interagem pesquisa, experiência prática e ação por meio dos processos de aprender fazendo, aprender usando, aprender interagindo e aprender aprendendo que são os princípios da economia do aprendizado (Malecki, 1991; Lundvall & Johnson, 1994; Cooke, 1998). Dessa maneira, segundo Porter (1989), a vantagem de um território está vinculada à sua capacidade de aprendizagem e inovação.
Ainda conforme Diniz e Gonçalves:
Compartilhar os mesmos valores culturais, as mesmas rotinas,
as mesmas organizações, a mesma comunidade, a mesma vida
social faz gerar uma atmosfera de relações sociais e um
conjunto de conhecimentos tácitos, os quais não podem ser
transferidos por códigos formais. O compartilhamento e a
absorção destas características comuns exigem contato face a
face, o que só é possível pela proximidade. A interação local e
o contato face a face geram externalidades, realimentam os
fluxos de conhecimento, aprendizado e inovação, reduzem os
custos de circulação e coleta de informações, socializando o
aprendizado, a cooperação e os riscos.
Em uma sociedade do conhecimento e do aprendizado, a
capacidade de gerar novos conhecimentos, transmiti-los e
assimilá-los, tornam-se trunfos importantes no desenvolvimento
territorial. (2005, p.137-8)
O espaço em si não é gerador de coordenação; esta é o resultado da existência de formas de proximidades dos atores e dos agentes, assim como a proximidade de atores num espaço dado sem articulação e coordenação não gera desenvolvimento territorial.
Para Pecqueur e Zimmermann (2005) a proximidade geográfi ca concorre para a produção de externalidades favorecendo a inovação. Conforme os autores, o face a face alimenta-se da história comum do conjunto de atores. Essa especificidade da coordenação de proximidade espacial gera laços de confiança nas relações face a face e funciona como um elemento facilitador na ancoragem territorial.
A proximidade geográfica enseja um processo de aprendizado que necessita para a sua materialização e sustentação instituições que possibilitem um upgrading de suas capacidades produtivas, inovativas, habilidades e competências.
O espaço impregnado pelas informações, conhecimentos e inovações cria uma "atmosfera empresarial e industrial" em que todos os atores envolvidos passam a desfrutar da eficiência coletiva gerada.
O aprendizado é, então, um processo fundamental para a construção de novas competências e vantagens competitivas, o qual, pela repetição, experimentação, busca de novas fontes de informação e outros mecanismos, capacita tecnologicamente as firmas e estimula as suas capacidades inovativas e produtivas (Campos et al., 2003).
Fica evidenciado, assim, que para qualquer forma de organização produtiva (distritos industriais marshalllianos, clusters e arranjos produtivos, por exemplo) o suporte institucional é essencial para o bom funcionamento do sistema produtivo e, consequentemente, do desenvolvimento local.
Um entorno inovador, representado por agentes econômicos, sociais, políticos e institucionais possibilita um incremento na troca de conhecimento, difusão das inovações e aumento da competitividade das empresas envolvidas. "Dessa forma, os entornos urbanos (assim como os entornos de produção) formam uma rede em que os atores locais se relacionam entre si e trocam bens, serviços e savoir-faire segundo regras específicas" (Vasques Barquero, 2002, p.145).
A presença de instituições, de capital social e humano e de políticas públicas que respaldem o sistema produtivo valoriza o espaço e o torna atraente para investimento de novos capitais.
Meyer- Stamer (2001) salienta características de um entorno inovador:
fortalecimento de empresas locais (promoção de terceirização, spin-off, suporte na sucessão empresarial etc.); atração de novas empresas (fornecedores, empresas complementares, serviços etc.);
promoção de novos empreendimentos (novas oportunidades na indústria, comércio e serviços).
O entorno inovador exerce um poder de atração por meio das economias de aglomeração encontradas pelos diferentes segmentos produtivos estabelecidos territorialmente.
Fica evidenciado que no território onde a produção acontece as interações entre os diferentes atores favorecem o processo de geração e difusão de inovações. Esse território vivificado pela presença ativa de agentes e instituições articuladas, produzido historicamente, favorece o estreitamento das relações produtivas e organizacionais e também permite o estabelecimento de outros contatos diretos, de confiança e de segurança, por exemplo, igualmente importantes.
Contudo, cabe explicar que diferentes arranjos produtivos, com suas especificidades locais, terão processos inovativos diferenciados. O processo inovativo confere, dessa maneira, uma especificidade às diversas relações que ocorrem no território e que tem na proximidade geográfica, como foi analisado, uma vantagem competitiva.
Não investir no sistema técnico, não se modernizar, poderá desencadear efeitos perversos como o fechamento de muitas fábricas e a perda de competitividade. Paradoxalmente, tais investimentos não garantem a manutenção do estoque de postos de trabalho.
No que tange às empresas brasileiras, verifica-se que o paradigma de "especialização flexível" não é o predominante. Alguns ramos industriais mais intensivos em capital, tecnologia, conhecimento e informação já ingressaram nesse sistema produtivo. Outros gêneros fabris continuam funcionando no tradicional paradigma taylorista/ fordista de produção. Entretanto, merece salientar que todos os ramos industriais intensivos ou não em pesquisa e desenvolvimento e conhecimento possuem capacidades para implementar mudanças e possibilidades de aprendizagem.
Assim, num mesmo espaço é possível encontrar diferentes modos de produção. Esse é o perfil de um parque industrial tecnologicamente heterogêneo, num país de profundas desigualdades sociais e de acentuados desequilíbrios regionais.
Cabe salientar que não basta informatizar fábrica, não adianta investir em novas tecnologias agregadas aos processos produtivos e aos produtos, dar assistências técnicas ("do berço ao túmulo" do que está sendo produzido), agilizar as relações entre clientes e fornecedores, tornar a "empresa mais enxuta", empregar modernas estratégias organizacionais etc., se não forem contempladas, também, formas mais seguras de transmitir o conhecimento codificado e aquilo que diferentes autores denominam de conhecimento intangível, "conhecimento tácito" ou, ainda, "bacia de trabalho imaterial".
Por meio das redes são difundidos não apenas os conhecimentos codificados, mas, também, conhecimentos imateriais e tácitos. A proximidade geográfica dos empresários e de funcionários possibilita o contato face a face. O "burburinho" é fundamental na geração de interações e de "eficiências coletivas". Nesse sentido, o condomínio industrial apresenta-se como um espaço ideal para tais interações coletivas.
A circulação da informação e a formação de uma "atmosfera de relações" geram um espaço integrado que organiza as atividades produtivas, possibilitando um aumento de suas rentabilidades. O espaço assume o papel de gerador de coordenação e de normatizador das atividades econômicas.
No passado, as indústrias eram integradas e os empresários procuravam, individualmente, a "localização ótima" para o seu empreendimento. Posteriormente, com os avanços tecnológicos nos meios de transportes e de comunicação, ocorreu a disjunção espacial das atividades produtivas e a busca por aglomerações industriais. A cadeia produtiva integrada passa a ser a representação da grande indústria do passado.
Atualmente, os espaços, sob a forma de condomínios industriais e consórcios modulares, são exemplos de espaços cooperativos que, dotados de infraestruturas logísticas, permitem o funcionamento racional das empresas e a redução dos custos de transação. O espaço torna-se integrado. Trata-se de um novo formato espacial produtivo, construído e administrado por incorporadores imobiliários, no qual as empresas e as indústrias instaladas desfrutam de todas as comodidades, facilidades e "eficiências coletivas" que somente um condomínio industrial tem condições de proporcionar.
Nesse espaço, todas as atividades que fogem do core business das empresas instaladas são de responsabilidade dos administradores do condomínio. Entre as vantagens desses novos espaços produtivos destacam-se as seguintes:
redução do tempo e do trabalho no processo produtivo; melhoramento da qualidade do produto e do espaço físico; redução do retrabalho e dos níveis de estoques; redução dos custos diretos e indiretos com mão de obra; compartilhamento das informações e do conhecimento (informação = negócios);
proximidade geográfica dos principais fornecedores; rapidez nas entregas e na tomada de decisões; segurança e confiabilidade em todos os elos da cadeia produtiva integrada;
produção "enxuta";
eficiência que promove transformações nas estratégias empresariais desde a pesquisa até o marketing;
O espaço articulado e integrado tornou-se, logisticamente, inteligente, ágil, seletivo e ambientalmente exigente e correto. Produção e gestão ambiental
Considerando a sociedade de consumo em que vivemos, o sistema econômico vigente tem por meta inventar sempre novas necessidades, criar a compra, fabricar produtos descartáveis e não-duráveis, enfim, criar desperdício. Há, por assim dizer, um "culto" às necessidades crescentes e um fetiche que se renova a cada novo produto consumido.
O espaço revela-se, assim, como uma condição de produção e de reprodução da sociedade. Por meio do crescimento infinito da produção de mercadorias, ocorre, concomitantemente, o crescimento infinito do consumo e vice-versa. Observa-se a mercadorização da satisfação da necessidade atrelada a uma cultura consumista que a legitima.
O marketing torna-se instrumento fundamental na expansão dos negócios e na conquista de novos mercados, levando a um pensamento criativo e comportamentos proativos em termos de comerciais, longe das nostalgias, por exemplo: de "camisaria" para uma empresa que "cria a emoção de vestir e sentir-se bem", de "cadeiras para jardim" para " criação de ambientes refinados e belos", de "caixas de papelão" para "serviços de expedição e de engenharia de embalagem", de "estruturas pré-moldadas" para "solução construtiva rápida". Faz-se necessário mergulhar na experiência do cliente para identificar suas necessidades e desejos, pois, assim, serão descobertas oportunidades extraconcorrentes.
Não basta apenas perguntar aos clientes o que eles desejam; a verdadeira vantagem de uma empresa está na sua capacidade de ler e traduzir o ambiente para tomar decisões de longo prazo. É óbvio que isso está implícito na aprendizagem coletiva e não em manuais e planos estratégicos longos e detalhados.
Constata-se que o consumo de massa, principalmente quando desequilibrado em termos quantitativos e das tecnologias empregadas, provoca o desperdício e impactos ambientais. O lixo produzido passa a ser um bom indicador das relações entre o homem e o meio ambiente no processo produtivo.
A busca de um novo relacionamento entre as atividades econômicas com o meio ambiente passa pela questão da reestruturação produtiva e organizacional das empresas e, por conseguinte, por
mudanças de posturas e de ênfases (figura 3).
Figura 3 – Mudança de postura das indústrias em relação ao meio
ambiente. Organizador: Mendes, A., 2008.
Por exemplo, a reciclagem reduz o consumo de energia em processos industriais, diminui a emissão de gases responsáveis pelo aquecimento global e evita a derrubada de árvores. Materiais como serragem de madeira, bagaço de cana, folhas de abacaxi, embalagens de leite longa vida, tecidos etc. devidamente reaproveitados podem substituir matérias plásticas. Folhas de bananeira e de cana-deaçúcar, entre outros resíduos agrícolas, estão sendo utilizados na produção de castiçais, porta-retratos e tapetes. Chinelos podem ser produzidos a partir de folha de bananeiras. O lodo descartado pelas indústrias de papel e celulose pode ser utilizado na fabricação de divisórias, placas de forro e vedação interna em moradias de baixa renda. O gesso usado e descartado na construção civil pode ser reciclado como matéria-prima. São inúmeros os exemplos do que pode ser feito em termos de economia solidária.
Não se trata apenas de produzir novas peças, novos produtos, mas de melhorar com muita criatividade e com novos designs produtos já existentes, promovendo, sobretudo, a geração de emprego e renda. Algumas medidas importantes (entre outras) no que tange à produção e ao consumo podem ser elencadas, tais como:
Produção limpa: inclui mudanças nas matérias-primas, nas tecnologias de processamento e produtos existentes. Desmaterialização da sociedade: implica mudanças de atitudes e valores humanos que criam a demanda para o consumo dos produtos já existentes e de novos produtos. Consumo verde: promover o consumo de produtos "pró-Terra", fabricados por empresas que adotam realmente uma ética ambiental não apenas na manipulação da imagem e do marketing, mas, principalmente, na prática. Legislação e fiscalização: os custos repassados ao consumidor devem ser contrabalançados com a exigência de que aqueles que criaram um problema ou impacto ambiental devem ser os principais responsabilizados.
Enfim, a produção, a circulação e o consumo de bens e de mercadorias exigem não apenas reestruturações produtivas e organizacionais das empresas, mas uma mudança de mentalidade, de postura de toda a sociedade. Tal mudança efetivamente acontecerá pela tomada de consciência de cada cidadão. Nesse sentido, a educação ambiental tem um papel relevante a desempenhar.
Figura 4 – Produção industrial e gerenciamento ambiental.
Organizador: Mendes, A., 2008.
O desenvolvimento de novas tecnologias e a capacitação educacional são os dois lados de uma mesma moeda. Promover mudanças e reestruturações demanda tempo. Portanto, não é possível ficar parado aguardando que decisões venham de fora, de longe da realidade local. Não se pode, também, ficar sentado, esperando os alquimistas chegarem.
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1 Professor adjunto do Departamento de Geografia, IGCE/Unesp, Rio Claro.