Depressão: clínica, crítica e ética

Orlando Coser · Capítulo 7 de 9

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Depressão: clínica, crítica e ética

5 Clínica, afeto e ética

 

É desejável fazer-se da depressão uma unidade clínica, quaisquer que sejam as nuances semiológicas que apresente? As inconsistências sintomatológicas e a decorrente impossibilidade de se diferenciarem nitidamente através de seus aspectos sintomáticos, clínicos e evolutivos, as distintas formas clínicas de depressão, representam um questionamento da existência desses tipos clínicos, invalidando, portanto, qualquer razão nosológica? Toda resposta a esta questão será insuficiente, pois ela se depara com os limites da nosografia; de nada adiantará ficar buscando uma nosologia mais perfeita, um sistema classificatório aperfeiçoado, uma vez que é o método nosológico o limitado. A nosologia serve para nos movermos em contextos clínicos onde decisões diagnósticas são impositivas para definir o tratamento, não mais que isso. Sabendo-se desses limites, melhor se poderá franqueá-los, abrindo caminho rumo à experiência analítica. É preciso, então, indagar: a caracterização da depressão como categoria nosográfica ajuda neste caminho?

 

Preliminares ao tratamento psicanalítico do

paciente deprimido

O que caracteriza a demanda dos pacientes com queixa depressiva? Seu pedido gira em torno de um trabalho do luto por fazer: eles se dirigem ao analista portando uma queixa e, a partir dela, demandam uma medida que lhes poupe do trabalho do luto que os ameaça. Não constituem o lugar transferencial a partir do qual se poderia operar e obter efeitos propriamente analíticos, sendo, neste aspecto particular, muito diferentes de um paciente neurótico prototípico (se é que isso existe), no qual um sofrimento daria margem à emergência de uma suposição de saber no Outro a quem ele se dirige em busca de alívio e cura. Como se daria esse processo no paciente deprimido?

 

Perda e trabalho de simbolização

Um quadro aparentemente contraditório se revela. Uma parcela dos pacientes ordena seu sofrimento em torno a uma organização narcísica que, arranhada, mostra sua ferida. A demanda que então aparece é a de uma solução salvadora que os leve a recuperar seu status quo ante. Outros evidenciam o exato oposto, uma organização narcísica que, ameaçada, mostra, com grande força aliás, sua fragilidade. São pacientes que, habitando sem muita sustentação simbólica o universo da demanda, quando se vêem frente à irredutibilidade de uma perda, mostram por antecipação o dano que, supõem, ela lhes traria. A depressão aí aparece como tentativa de evitar uma perda, e o trabalho do luto que esta introduziria.

Idealmente, é apenas a partir do trabalho imposto pela vivência de perda que uma demanda de análise pode surgir. É exatamente o oposto do que se encontra nesses pacientes. Por essa razão, a constituição neles de uma demanda de análise implica a transformação da queixa de depressão numa exigência de trabalho, o que supõe, e exige, uma experiência de perda. Essa transformação em sua dimensão fenomênica se verifica com a mudança da tonalidade depressiva do sofrimento para a angústia, o que permite entrever um dos sérios problemas existentes no tratamento analítico destes pacientes: por que, afinal, haveriam de trocar sua depressão pela angústia? Principalmente considerando que eles freqüentemente revelam um abandono ao gozo de um superego implacável, e que a transferência é quase sempre insuficiente pela peculiar posição do sujeito na depressão, que ao mesmo tempo que abraça o gozo exclui o saber, por que haveria de abandoná-la? A construção desse raciocínio, portanto, gira em torno de dois eixos: o de perda e o de trabalho.

Como se dá o tratamento desses pacientes? O interesse desse exame não é o de estabelecer um protocolo a ser seguido e, muito menos, o de pretender uma comparação entre terapias diversas (a psicanálise incluída como mais uma), mas sim o de introduzir a peculiaridade da experiência analítica. Ora, em que se fundamenta a psicanálise em sendo uma prática clínica? Na existência do sujeito como desejante. Aí reside o problema que esses casos apresentam, na medida em que do desejo eles revelam sua negatividade, seu estancamento, o que fornece a dimensão do desafio que constituem para o analista.

Necessita de análise aquele que sofre, primeiro ponto a ser relembrado. Freud sempre deixou claro esse aspecto – o de que as pessoas procuram uma análise para aliviar seus males; querem tratamento. Se chegam até a análise, é porque outra alternativa não surgiu que as poupasse dessa empreitada. Lacan ensina o mesmo. Na clientela que atualmente se dirige à análise, essa procura freqüentemente surge como se fosse uma busca de alívio da depressão que padeceriam, o que revela a dimensão propriamente psicoterápica que reveste a psicanálise desses pacientes, que Pierre Fédida justamente sublinha (Fédida, 2002).

A demanda inicial é estritamente a de livrar-se do mal que o acomete. Esse sofrimento é o único elemento que pode abrir um flanco para que ele venha tratar-se, mas, se puder alcançar essa meta sem nada fazer, jamais chegará a uma análise. Mesmo chegando, não estará a priori garantido o que então se passará: existem pacientes que produzem uma cura para não se tratar. De nada esclareceria usar aqui o termo cura entre aspas; portanto, tarefa inicial do analista no tratamento desses pacientes é constituir uma demanda de análise ali onde vigora uma queixa. Evidentemente, esta só poderá existir num contexto onde a perda se apresenta, o que permite entrever a função crucial da transferência (e entender parte das dificuldades que a psicanálise encontra na sociedade contemporânea, que exclui a possibilidade de perda do seu horizonte afetivo).

Da queixa ao sintoma

No contexto histórico-cultural em que vivemos, com os meios de comunicação disseminando ofertas de curas rápidas e mirabolantes para qualquer mal-estar, o que pode a psicanálise? Minimamente, discutir a coerência dos argumentos que justificariam tais curas. O que as fundamenta? No caso das ditas curas químicas, por exemplo, a droga age para suprir o que falta quimicamente ao sujeito, tal como a insulina para um diabético? Ou em resposta ao seu anseio de preservação de uma integridade narcísica esboroada? É ilusório pensar que, perante esses discursos, a psicanálise seja mais um, um dos muitos discursos que abordam a questão do psiquismo e seu tratamento, o que representaria desconsiderar a especificidade que introduz nesse campo. A menos que a deixemos de lado e façamos um nivelamento geral de todas as disciplinas que lidam com a subjetividade, será obrigatório considerar essa diferença. Longe de ser apenas uma técnica terapêutica, um puro e simples artefato técnico para neutralizar os subprodutos que do mal-estar na cultura advêm, a psicanálise é, ela própria, um efeito histórico desse mal-estar. Sua matéria-prima seria ele próprio, e não quaisquer disfunções psíquicas. De modo mais simples, podem-se entender essas perturbações como evidenciando esse mal-estar, e não como expressão de alguma patologia.

Não é incomum que certos sujeitos metabolizem de forma depressiva esse mal-estar na cultura. As exigências superegóicas, que lhe cobram uma performance tal que faz com que sempre fique aquém, devem ser levadas em conta na avaliação da elevada ocorrência de queixas depressivas na clientela contemporânea de psiquiatras e psicanalistas, aspecto que contribui para a atualidade do tema, e diz respeito a um fator histórico, a incidência do tempo em que vivemos sobre a economia subjetiva. Isto é tomado por muitos como representativo de uma mudança que teria se passado na clínica. Freqüentemente se ouve dizer que 'a clínica mudou', 'não há mais uma clínica típica como a relatada por Freud em sua obra', 'as estruturas mudaram' etc., o que é evidente. Mas, muitas vezes, a razão para essas afirmações reside num equívoco referido tanto ao campo clínico (questão da classificação, do diagnóstico e da estrutura em psicanálise), quanto às incidências do contemporâneo sobre a subjetividade. Sem dúvida, a clínica mudou; resta saber que mudanças aconteceram e o que acarretam.

A idéia de que a clínica teria mudado decorre muito mais de uma confusão entre o que é o nível fenomenológico da apreensão de um dado problema clínico e o que seria sua fundamentação estrutural, distinção essencial na medida em que boa parte (talvez a grande maioria) dos pacientes que se queixam de estar deprimidos revelam-se histéricos ou obsessivos no decorrer de uma análise. Pode-se dizer, então, que a feição com a qual o paciente neurótico histérico ou obsessivo se apresenta hoje é distinta daquela com a qual se apresentavam a Freud; isso, porém, acontece sem que uma efetiva mudança estrutural tenha ocorrido. A imprecisão conceitual, no entanto, pode levar a que aí se veja um melancólico ou uma novidade, alguma das "novas doenças da alma" (Kristeva, 2002). Não nos detendo na exterioridade das roupagens dessas manifestações, será possível efetivar uma depuração desse revestimento imaginário, permitindo elucidar o que subjaz a ele, suas características íntimas, suas particularidades, seus determinantes talvez.

Qual a nossa competência para realizar tal operação? Começa aqui uma influência importante do contemporâneo na questão. Vivemos uma dispersão de linhas de fuga e fluxos cujos efeitos de desencarnamento, desterritorialização e velocidade favorecem a produção de mutações subjetivas abertas a experiências – do espaço, do tempo, do corpo, do outro – outras que as possíveis a uma subjetividade identitária estanque. Mas é preciso também reconhecer que é uma "excelente época para sofrer" (Lacan, 1964:158) dada a profusão de terapias, medicamentos etc. Além disso, e talvez como decorrência dos fluxos desterritorializantes que impregnam a sociedade hoje em todas as suas dimensões, é uma ótima época para que o sofrimento encontre dificuldades para ser subjetivado e, a partir daí, tratado. Na atualidade ele é remetido a uma particularidade do funcionamento vital e delegado ao especialista.

É uma época também excelente para se continuar sofrendo, sofrer demais, mais, mais ainda. Os sujeitos, demissionários de si, se submetem aos imperativos da mídia, do mercado, da moda. No regime de servidão que então se instala, a figura do sofrimento depressivo pode perfeitamente se adequar, sintonicamente ajustada. Dois desdobramentos: instalada na sujeição às subjetividades demitidas do cuidado de si, busca um controle dos excessos que a servidão acarreta (por não apaziguar o superego não libera o sujeito do ressentimento, pânico, insônia, insatisfação, impotência, frustração). Demanda-se então um controle não mais limitado aos sofrimentos e inadequações do corpo e da alma, mas de todo o horizonte do viver. Qual o lugar certo de colocar o desejo para se obter a felicidade? Responder a essa questão, tarefa em Aristóteles tratada como incumbência da ética, nos tempos atuais é atribuição dos especialistas do bem-estar e do como ser. O cuidado de si torna-se controle (científico) de si. Segundo, se sofrer demais é a única justificativa da psicanálise como prática terapêutica, ante tais estratégias de controle de si – enaltecidas pela mídia que engrandece o discurso da genética e das neurociências, as versões do mal-estar considerado sofrimento que concerne a uma subjetividade, e não um sistema ou subsistema orgânico, sofrimento psíquico e não endorfínico, por exemplo –, as demandas de não sofrer não encontram onde germinar e, conseqüentemente, escasseiam. Só podem germinar quando aparece resistência à sujeição, o fazer frente à submissão, permitindo que outra modalidade de produção subjetiva possa então se instaurar.

No fim das contas, restará a cada um a possibilidade, e a incumbência, de esclarecer se nessas transformações que a clínica mostra existem verdadeiras mudanças, ou se nada mais seriam que "redescrições metafóricas da natureza" (Serpa, 1998:22), de uma mesma natureza que permanece, embora diferente na sua expressão fenomênica. Não se trata aqui de uma discussão filosófica. Na clínica, essa diferença estrutural tem seu correlato fenomênico, traduzindo-se em distintos modos de queixar-se, de sintomatizar e de estabelecer a relação transferencial com o analista. É comum encontrarem-se argumentos supostamente voltados a uma leitura estrutural da clínica que menosprezam uma apreciação mais acurada dos fenômenos que nela se apresentam.

A fenomenologia ficou desprestigiada com a avalanche estruturalista dos anos 50-60, mas não há razão para recusar o nível fenomênico; pelo contrário, na clínica, parte-se dele. Os fenômenos são o dado da experiência, ponto de partida. E possuem, sendo fenômenos, toda a sua importância. Isto significa que não estamos desobrigados de estudar minuciosamente os fenômenos que se apresentam na clínica. O problema da fenomenologia decorre do ponto onde ela pára, que passa a ser considerado como se fosse o todo, a totalidade, fazendo com que a indagação fenomenológica se detenha ao nível da articulação imaginária dos fenômenos estudados, ponto onde uma investigação psicanalítica apenas começaria. E o movimento da análise é o de, partindo do fenômeno (ou, se quiserem, do imaginário), chegar aos seus princípios organizadores, à articulação entre simbólico, imaginário e real que suporta o sintoma. No campo que aqui interessa, isso significa que, se na clínica partimos do que ela tem de mais básico, a demanda de análise, esta demanda se articula diferentemente, dependendo do modo pelo qual o sujeito construiu sua depressão.

 

Idealização, desperdício e perda

Que caracterização clínica fazer desses pacientes? Em primeiro lugar, temos aqueles com depressão queixosa. Seria o caso de fazer dessa caracterização um tipo nosológico ou entidade clínica? Não. Trata-se de situá-la em contraponto com a melancolia e em relação ao luto. Vimos que a melancolia é ligada ao narcisismo, existindo uma espécie de ferida na estruturação narcísica do sujeito melancólico. Já nesses estados de depressão não melancólica que apresenta o deprimido queixoso, cujo quadro clínico tem

ressonância tanto com a neurastenia de Beard (1881, 1884) 100 quanto com a psicastenia de Janet (1903), não se evidencia essa falha na estruturação do seu narcisismo. Esses sujeitos apresentam um traço, que denomino impossibilidade da perda, ligado à perda do ego ideal. O que está em jogo é a perda da onipotência narcísica primária, com o sujeito, por todos os meios, tentando manter-se no registro dessa onipotência, o que introduz algumas peculiaridades importantes nessas ocorrências clínicas. Em suas repetidas tentativas de obturar a unidade narcísica perdida, esses sujeitos são cotidianamente levados a não abrir mão da posição de idealidade que rege suas economias libidinais, o que os faz desperdiçar numerosas oportunidades de superar o estado inercial em que se encontram, aferrados que estão a essa ilusão de completude. Verifica-se, assim, uma curiosa diferença entre desperdício e perda: os pacientes desperdiçam grande parte de suas vidas exatamente por não suportarem a perda. Há aqui um importante detalhe a exigir cautela: é freqüente que essa dita perda seja tomada como factual, quando o que está em questão diz respeito a uma instância subjetiva. É o aparelho psíquico que está em questão, é essa perda subjetiva que eles não suportam.

Tal diferenciação me leva a insistir em um ponto já mencionado, e que se pode evidenciar na clínica cotidianamente – o que é considerado por muitos clínicos como depressão é a queixa que o sujeito enuncia. Trata-se, então, de fazer desse fenômeno um subtipo da depressão, que seria incluído na classificação, especificado como uma categoria diagnóstica? Dada sua elevada prevalência, até mesmo se poderia discutir essa possibilidade, mas o que me interessa é sublinhar como as categorias em torno das quais se ordena o processo de diagnóstico psicopatológico contêm em si mesmas essa possibilidade de engano. Não só o contêm, tal como um determinado conjunto matemático contém o seu oposto, mas o fomentam. É fácil perceber, pois, ao disseminar o diagnóstico de depressão, movida por razões da ordem de uma estratégia mercadológica, a clínica que se ordena em torno do medicamento alimenta o equívoco aqui apresentado. Toma-se a fala de um sujeito queixoso como se fosse depressão. Passa-se, em seguida, à estratégia de eliminação da queixa através de fármacos, e admite-se que a suspensão da queixa denota uma alteração na essência bioquímica que supostamente seria razão de ser e fundamento da clínica.

Não são poucas as ocasiões em que se interpreta como sendo depressão algo que dela se limita a uma queixa, e que se veiculem esses casos como se fossem de melancolia. Outras vezes, um quadro clínico que se enraíza no orgânico é diagnosticado como depressão. Aqui se encontra a razão dessas discussões nosológicas e das indagações acerca da peculiaridade estrutural da melancolia. Com vistas a depurar o uso desses conceitos, concluí que a utilização alargada do termo melancolia é favorecedora de equívocos. Aliás, acredito que, se partíssemos de uma formulação mais restritiva para sua utilização, poderíamos até mesmo perguntar se Freud teria tido a necessidade de inventar o conceito de neuroses narcísicas.

Caso Freud tivesse utilizado o diagnóstico melancolia restringindo-o aos casos onde existiria uma verdadeira melancolia, teria ele a situado num grupo nosológico específico, como o fez? Ou não seria a noção de neurose narcísica uma solução de compromisso destinada a resolver uma dificuldade acarretada pelo uso alargado de um termo diagnóstico marcado pela imprecisão? Existe aqui um ponto nodal que, amarrando distintos estratos de uma complexa discussão – estratos clínicos, nosológicos, conceituais, metapsicológicos, históricos –, permite, ao mesmo tempo que o revela necessário, um posicionamento. Se toda a elucidação freudiana mostra exatamente a peculiaridade do padecer melancólico, por que abrir mão desse esclarecimento? Devemos acompanhar Freud no uso mais vasto que faz desse termo? Estaríamos a isso autorizados? Mas por que fazê-lo, se considerarmos que implicaria deixar de lado um raciocínio clínico mais rigoroso que o próprio Freud introduz?

Em contrapartida, trata-se de circunscrever com a categoria melancolia o mesmo universo clínico que no campo psiquiátrico ela abarcaria? Não, até porque o campo psiquiátrico a utiliza de modo assistemático. Acredito, porém, que um ganho advém da circunscrição desse termo diagnóstico aos casos que se enquadram no que anteriormente delimitei como uma verdadeira melancolia. Essa delimitação implicará decorrências diversas, a primeira das quais a de situar a melancolia no campo da psicose, questão espinhosa, uma vez que exigirá tomar uma posição que parece argumentar contra Freud.

A tarefa de decidir acerca dessa questão pode ser tática e momentaneamente deixada de lado já que minha ambição neste trabalho é repertoriar os desdobramentos que uma certa parcela de pacientes diagnosticados como deprimidos apresenta no seu percurso pelo dispositivo de tratamento psicanalítico, e esses são, exatamente, casos de depressão não melancólica. Mas, abstendo-me da comodidade que essa solução tática ofereceria, insistirei nessa delimitação, uma vez que independente e para além da decisão de saber se a melancolia é ou não uma psicose, o que pretendo elucidar – a posição clínica, nosológica, conceitual e metapsicológica desses transtornos que ocupam a terra de ninguém da indistinção clínica – pressupõe um lugar bem definido para a melancolia.

Desse modo, não se trata de decidir acerca da posição nosográfica da melancolia em si. De bom grado eu concordaria em manter aberta a discussão que essa questão classicamente suscita; contudo se a melancolia não estiver num lugar bem circunscrito, estarei taticamente fragilizado. A manutenção da indistinção clínica favorece que os posseiros da razão depressiva se apoderem desse terreno. Na contramão desta, existem na obra de Freud os elementos necessários para ordenar o campo clínico, e nos vermos livres desse tipo de conflito. Além do contraponto clínico e semiológico que realça a diferença de uma melancolia verdadeira para com tais casos, essa discussão serve para não nos atemorizarmos quando do seu enfrentamento. Ajuda, ainda, a compor um mosaico das diversas modalidades que a clínica exibe dos padecimentos depressivos. Seja como for, concluir que a melancolia seja uma psicose levanta numerosas questões que precisam ser examinadas.

 

Especificidade estrutural da melancolia

Seria a melancolia uma psicose? Essa pergunta não pode ser respondida sem alguns esclarecimentos acerca do estatuto conceitual dos termos utilizados em sua formulação. Há toda uma tradição que leva a se pensar na psicose com base na ocorrência de estados delirantes e/ou alucinatórios, que vigora mesmo entre profundos conhecedores do texto de Freud. A posição paradigmática que a paranóia ocupa no pensamento freudiano certamente contribui para essa tendência, mas pode-se e deve-se contrabalançá-la lembrando ser o delírio uma tentativa de cura, não se confundindo com o que seria, propriamente falando, a psicose.

Essas considerações ganham sentido ampliado no que diz respeito à melancolia. É de longa data conhecida sua forma delirante. Resta apenas que, primeiro, o delírio não é uma constante, e a maior parte dos casos, diga-se, não o apresenta. Segundo, o delírio é secundário ao problema do humor, fato bem conhecido desde o século XIX, detalhadamente estudado por Séglas (1895); mas os casos de 'melancolia simples', sem delírio, são mais comuns. Neles predominam os problemas cenestésicos, a dor moral, a inibição psíquica e a abulia, que constituem os sintomas primeiros,

fundamentais da doença.101 "É deles que procedem os problemas do conteúdo das idéias, o delírio, e é assim que este pode ser dito secundário" (Séglas, 1895:299). Da melancolia delirante Cotard (1891) agrupou um conjunto de sintomas que comporia o seu 'delírio de negações': ansiedade melancólica; idéia de danação, possessão; propensão ao suicídio e às mutilações voluntárias; analgesia; idéias hipocondríacas de não-existência ou de destruição de diversos órgãos, do corpo inteiro, da alma, de Deus etc.; idéia de não poder morrer jamais.

Afirmar que a melancolia seria uma psicose faria com que este diagnóstico fosse aplicado apenas aos pacientes que apresentam os sintomas de mortificação, característicos da melancolia simples, e aos pacientes que, em conjunto ou não com os sintomas anteriores, apresentam um quadro de delírio melancólico? É preciso demarcar a diferença que a elucidação aqui realizada tem para com o referencial psiquiátrico. Aqui, ela depende do estabelecimento da relação transferencial, e só pode ser pensada a partir desta, das suas possibilitações, dos seus impasses, e não simplesmente através de um dispositivo do olhar, voltado à ordenação do que observa. A ênfase, portanto, será posta na enunciação, e nossa tarefa, a de oferecer condições para que esta se torne possível.

Que decorrências a decisão de considerar a melancolia uma psicose traria com relação ao tratamento psicanalítico? Seria tratável pela psicanálise? Aqui é preciso especificar, e me remeterei a algumas considerações de Freud acerca da psicose. Em primeiro lugar, está sua inserção junto à histeria e neurose obsessiva como uma psiconeurose de defesa, o que supõe uma responsabilidade do sujeito, nas 'Novas observações sobre as neuropsicoses de defesa' (Freud, 1896). Em seguida, a afirmação feita em diversas ocasiões, da impossibilidade de transferência no psicótico. É preciso especificar que transferência seria essa que o psicótico não faz. É a neurose transferencial que Freud tem em mente ao fazer essa afirmação. Mas podemos também pensar na noção genérica de transferência como resultado do endereçamento significante, como demanda de cura por exemplo, o que um melancólico faz. E não só ele; tal endereçamento de um sujeito a outro vale para qualquer um, seja qual for a posição subjetiva. Resta apenas saber: isso sustentaria um tratamento?

Mais uma vez será preciso detalhar. Do que se está tratando? De um paciente em plena fase melancólica? Do mesmo paciente no intervalo entre as crises? Qual o estatuto clínico desses pacientes no período entre as crises? Com vistas ao tipo de eficácia que se pode pretender obter, a diferença é absoluta. Na crise, a presença maciça e não dialetizável do sentimento de culpa muitas vezes atua como impedimento até mesmo dessa transferência lato sensu. Talvez fossem pacientes nessas condições que Jacques-Alain Millertivesse em mente quando, numa conferência feita em São Paulo, afirmava que

a melancolia impõe a presença maciça, e quando é melancolia

verdadeira, a presença não dialetizável do sentimento de culpa.

Temos um sujeito que apresenta sua indignidade – que nada

vale a pena, que não vale para nada – de maneira

completamente fixa, não dialetizável. Não se pode tratar de

curar com a psicanálise um verdadeiro melancólico. (Miller,

1991:86)102

Seja como for, a experiência ensina que um melancólico (verdadeiro), capaz de estabelecer um laço transferencial e desde este transitar pelo que constitui a intimidade do seu sofrimento – o que nem todo paciente melancólico consegue, e nem todo analista suporta –, pode chegar a empreender a travessia de sua melancolia, livrando-se das crises. A especificidade do dispositivo psicanalítico e uma concepção não mecanicista e não determinística do processo psicanalítico fazem com que esse mesmo raciocínio seja válido (e, mais do que isso, necessário) para um histérico, um fóbico, um obsessivo etc.

Supor que um histérico consegue o que um melancólico não conseguiria pode ser nada mais que uma leitura mecanicista desses fatos. Para superar esse reducionismo, essencial tanto para pensarmos alguns impasses nas análises de certos pacientes neuróticos, quanto possibilitar o tratamento de um melancólico, é fundamental não conceber a subjetividade como uma essência, mas sim como processos de subjetivação. No que concerne ao tratamento, o obstáculo maior advém não da psicose propriamente, mas do delírio de perseguição, uma vez que pode impedir o laço transferencial; mas é também o que, paradoxalmente, o possibilita.

Voltando ao ponto principal, acredito que esta discussão faz sentido na medida em que, realçando a necessidade de distinguir os verdadeiros melancólicos dos queixosos de depressão ou dos pacientes neuróticos paralisados com o sentimento de culpa, ajude a pensar em formas e modos de tornar possível a análise para esses sujeitos. Sem endereçamento ao Outro, não há tratamento analítico; daí a importância do delírio, que é um tipo de endereçamento. E da queixa de depressão, igualmente um endereçamento, em que pese a dificuldade que também introduz.

 

Metapsicologia da depressão não melancólica

O importante é perceber que a existência de depressão num neurótico não funda uma neurose depressiva. Que existam sujeitos neuróticos queixosos de depressão, ou que representem sua impotência como depressão, nada mais comum. Que desse fato empírico se faça a base material para a produção da categoria clínico-conceitual de uma neurose depressiva, eis a questão. Há uma tendência a se fazer essa passagem e a concluir-se, a partir de um sujeito queixoso de depressão, pela existência de uma neurose depressiva, como se fosse algo natural.

O exame crítico aqui empreendido previne esse risco. Mas a importância dessa questão não está em resolver se um determinado quadro depressivo é de natureza endógena ou psicogênica, e sim em jogar esse debate por terra. Para o que vale recordar Lacan (1955-1956): "O grande segredo da psicanálise é que não há psicogênese". Resta apenas que, como o problema clínico a que esse conceito se refere é de enorme importância e não pode ser desconsiderado, descartado o conceito, persiste o problema, e o que criticamos deve servir para abrir caminho para novos conceitos, uma vez superado o obstáculo epistemológico (Bachelard, 1976) representado pela oposição endógeno/psicogênico.

Assimilar a dita neurose depressiva a uma depressão reativa é o passo mais curto para que em seguida se tome a esta como psicogenética, e ao seu tratamento como psicológico. Nessa manobra, a psicanálise se vê reduzida a um tratamento psicológico para problemas psicogenéticos, contrariando tudo o que Freud ensina (Freud, 1891). Estando livres do obstáculo representado por essa oposição equivocada, como entender os transtornos depressivos? Seria o caso de propor um mecanismo unitário para seu estudo, equivalente no campo psicanalítico ao continuum da psiquiatria? Ao contrário, o detalhamento conceitual aqui realizado autoriza (e obriga) a questionar esse nivelamento de um campo polimorfo através de um termo comum.

Os diversos tipos de padecimentos depressivos examinados ao longo deste livro não apenas apresentam mais diferenças ao nível metapsicológico que a eventual uniformidade de sua feição fenomênica levaria a pensar, como há que atentar para as distintas inserções que essas ocorrências têm em cada autor e em cada subgrupo, das diversas especialidades que se dedicam a este campo. Evidentemente, há pontos de contato e possibilidades de intercâmbio entre autores e grupos diversos, mas é imperioso indagar: é de um mesmo objeto que aí se fala? Por exemplo, o que nesses experimentos farmacológicos se chama de depressão tem o mesmo estatuto que a depressão esperada ocorrer num final de análise, como fala Lacan? A depressão que Aubrey Lewis estudou é a mesma que apresentavam os melancólicos que Abraham tratou, ou da que operacionaliza os estudos farmacológicos, sempre pródigos em descobrir novas eficácias ou novas patologias para os medicamentos?

É aqui que o apelo à clínica clássica mostrará seus frutos, ajudando a ordenar a apreensão nosográfica da melancolia e do campo do padecimento depressivo. Com base no que foi examinado, minha opção será, primeiro, a de resolutamente restringir o uso do termo depressão como categoria diagnóstica; segundo, circunscrever o uso da categoria melancolia aos casos caracterizados como uma verdadeira melancolia nos termos anteriormente discutidos; terceiro, situar, na distinção freudiana entre luto, luto patológico e melancolia e na tríade inibição, sintoma e angústia, o ajuste, a sintonia fina, que trará elementos para decidir acerca de como proceder quando uma sintomatologia menos intensa ou atípica despertar dúvida. Examinemos cada um desses pontos.

A decisão de restringir a utilização do termo depressão (ou abandoná-lo) é a decorrência natural do que até aqui foi examinado. Sua utilização, além de grandemente favorecedora de uma medicamentação indiscriminada, amparada na ilusão de especificidade que o vocábulo 'anti' mediatiza, favorece também uma posição de acomodação ao paciente, dificultando-lhe o trabalho

associativo e, ao analista, a escuta. 103

Evidentemente, isso não é suficiente para esclarecer e resolver a problemática clínica para a qual o termo é usado, mas sua não-utilização ajuda a afastar o referente para o qual aponta, e permite que o sofrimento que convida a sua utilização seja abordado desde outra perspectiva, e contribui para reintroduzir o enigma que representam, que entendo ser suficiente para respaldar essa medida. Que ela encontre aval em teóricos que primam pelo rigor, Colette Soler, por exemplo, que a formula com todas as letras, parece-me uma decorrência do bem fundado de seus pressupostos

(Soler, 1989). 104

Acerca do segundo ponto, restringir o uso da categoria melancolia aos casos para os quais em 'Luto e melancolia' Freud as emprega, e não utilizando-a da forma alargada, abarcante do conjunto dos acidentes depressivos, como Freud faz em outras ocasiões ao longo de sua obra, acredito ser coerente com a restrição ou abandono do uso do termo depressão. Afinal, de que valeria abandonar um para abraçar o outro mantendo a mesma elasticidade de critérios a reger sua utilização? O que pretendo é exatamente alcançar um pouco de rigor. Como alcançá-lo se designarmos qualquer sujeito melancolizado como um verdadeiro melancólico? Ante a restrição que essas decisões implicam, atribuo à oposição entre luto, luto patológico e melancolia a tarefa de elucidar o rumo a seguir nos casos onde houver dúvida. Agora, restituída e levada a sua radicalidade essa oposição freudiana, restará algo a ser preservado a título de depressão? Evidentemente, esta pergunta só tem interesse na medida em que a desconstrução do conceito de depressão sirva para descentrar a nosologia. A verdadeira subversão que a psicanálise opera reside no descentramento radical que produz. Tirar da depressão uma razão bioquímica para a ela conferir uma razão psicológica seria tão revolucionário quanto destituir Deus do centro do universo para, em seu lugar, colocar o Rei Sol.

O que pudemos aprender com Freud é que, no universo infinito do sujeito, o centro é ocupado por um buraco, o famoso objeto perdido. Diante dessa falta, que é constitutiva e não contingente, o neurótico, tentando recobri-la, oscila entre culpa e depressão. Cem anos de psicanálise permitiram conhecer a intimidade desse fenômeno, instruindo-nos a ver que, desde essa posição, se dá a produção de subjetividade, em crise certamente, dividida na relação entre o objeto e o Outro.

Concluindo, então, como diagnosticar a melancolia? Já não estamos mais na época tranqüila em que o aforismo hipocrático respondia: "Quando o temor e a tristeza duram muito, é um estado

melancólico". 105 Os tempos que vivemos impõem um certo desencanto para com os arranjos sindrômicos, obrigando a reconhecer que os signos clínicos são equívocos e a clínica, obscura. A clínica não possui a transparência de um livro aberto – anseio que inspirou os ideais da anatomoclínica – nem a rigorosa arrumação de quadros e formas que encanta aos botânicos e aos estudiosos da natureza. Frente a esses casos, o importante é manter as referências freudianas como balizas para o entendimento. Elas ensinam a ver as diferentes manifestações afetivas que ocorrem nas diversas estruturas clínicas como advindas das relações conflitivas existentes entre as instâncias psíquicas.

A experiência psicanalítica permite relacionar algumas dessas ocorrências clínicas a uma certa urgência de gozo fálico e a uma catarse do superego, o que permite entender a ocorrência do afeto depressivo em qualquer estrutura. A depressão, assim, aparece não sob forma de uma entidade nosológica, mas como um afeto transestrutural, devendo ser, caso a caso, verificado, o que permitirá esclarecer o que o suscitou.

Fora do campo das psicoses, o trabalho analítico permite ainda verificar a ocorrência de depressões bastante importantes em sua severidade em sujeitos que, tendo uma história de (e vocação para) passagens ao ato incontroláveis, começam, pelo próprio avanço do tratamento, a ter medo disso. O afeto depressivo que aí se produz é diferente da tristeza, bem como da melancolia stricto sensu. São manifestações depressivas em sujeitos com estrutura neurótica produzidas sob transferência, e que não se resumem às oscilações maníaco-depressivas próprias ao tratamento, possuindo por vezes uma densidade que se torna mais fácil de ser enfrentada quando são bem mais entendidos. Outro tipo de padecimento se funda quando o objeto perdido era a caução da castração no sujeito, o que permite estabelecer uma diferença entre eventuais dificuldades observadas na realização de um trabalho do luto e a melancolia. Com a finalidade de esclarecer esses distintos regimes de funcionamento psíquico no que diz respeito ao padecimento depressivo, parece-me imprescindível ter presente a distinção entre sintoma, inibição e angústia e a indagação acerca do estatuto do sujeito na sua relação com o desejo do Outro.

Sabemos que o mundo fantasmático se constrói entre inibição, sintoma e angústia. O que mais apresentariam os pacientes que variações dessa tríade freudiana? Curiosamente, existem sujeitos que, quando aparece uma insegurança na sua relação ao desejo do Outro, se queixam de depressão, e não de angústia, como seríamos levados a esperar a partir do esclarecimento freudiano. Seria a depressão um sintoma? Psiquiatricamente sim, entendendo sintoma como o sofrimento de que um indivíduo se queixa. Mas, psicanaliticamente, não, posto que um sintoma pressupõe um trabalho de metaforização que não se encontra na depressão. Seria, então, o que se apresenta como depressão da ordem da inibição? Seriam as depressões que se apresentam em estruturas neuróticas um paradigma clínico do que Freud formula como inibição? Essa é uma idéia interessante que deve ser tomada não para realçar a hesitação, o empobrecimento, a contenção, o não ir à luta, mas sim para grifar a idéia de que se há algo a ser contido é precisamente porque existe um excesso. Adiante retomarei esse ponto.

A psicanálise e a droga

O tratamento desses pacientes geralmente põe o clínico perante a questão do uso de uma medicação. Nem sempre é fácil diferenciar quando o uso dessas substâncias estará contribuindo para que se ande na direção do estabelecimento do dispositivo analítico, quando não. Há uma fala, muito difundida, da medicação atuando e sendo usada como facilitadora do processo psicoterápico, freqüentemente lembrada como favorecedora de um tratamento integrado. Em contradição a esta, no entanto, verifica-se uma forte tendência em certos profissionais de utilizar medicamentos para que nada se altere.

Há que estar atento, em particular, na metáfora fácil de ligar o paciente com medicamentos para que ele comece a andar na psicoterapia. O fato de que, em algumas ocasiões, certos pacientes possam se beneficiar desse tipo de 'empurrão' não deveria impedir de ver que mais freqüentemente esse argumento serve para que se permaneça na mesma posição.

Evidentemente, aqui é preciso regular a sintonia fina, para não cair numa generalização que desconhece a efetividade de certos fármacos em alguns casos – o que existe. Determinados pacientes, nomeadamente deprimidos endógenos com elevado grau de inibição psicomotora ou sintomatologia delirante, mostram uma resposta à medicação que representa uma mudança decisiva para o estabelecimento de um tratamento. Já outros – e estes são a maior parte da clientela que se serve dessas drogas – obtêm com esses fármacos efeito análogo ao de uma defesa maníaca. A droga instrumentaliza, para esses sujeitos, um efeito protético que, iludindo a incompletude, traduz-se clinicamente como remoção da queixa, bem-estar. É isto que é confundido com a metáfora de ligar o paciente para que ele ande, ante a qual há que ter particular cuidado.

Portanto, a discussão dessas questões exige não esquecer certas referências que devem funcionar como balizadoras para o nosso entendimento, incluindo não somente as categorias conceituais com as quais se organiza o que vemos na clínica, como também referências históricas, a primeira das quais nos recorda que o próprio Freud acreditava que 'no futuro' a química encontraria formas de influir diretamente sobre as quantidades de energia e sua distribuição no aparelho psíquico (Freud, 1938). São exatamente os conceitos produzidos por Freud que permitem à psicanálise a liberdade de se desatrelar dessas explicações que consideram o organismo a causa do funcionamento psíquico, podendo pensar que é o fenômeno psíquico que em última instância sobredetermina e regula o corpo; ou melhor, a rigor, essas discussões sobre mente/corpo, essas diferenciações entre uma base fisiológica e outra psicológica, foram superadas pelo avanço da indagação freudiana e, portanto, não são inteiramente procedentes, tendo que ser reconfiguradas conceitualmente para que a indagação possa avançar.

Como brinca Lacan (1964, grifo do autor) no Seminário XI,

à análise não cabe encontrar, num caso, o traço diferencial da

teoria e querer explicar, com ele, por que sua filha é muda –

pois, o de que se trata é de fazê-la falar, e este efeito procede

de um tipo de intervenção que não tem nada a ver com a

referência ao traço diferencial.

De qualquer modo, o mandato terapêutico que recebemos de cada paciente impõe que, ante a questão da elucidação de uma causalidade biológica de qualquer fenômeno mental, sejamos levados a uma escolha, a qual pode ser pensada em dois patamares.

Antes de tudo, há que afastar a possibilidade de que a síndrome em tela esteja referida ao orgânico (no sentido da síndrome psicoorgânica de Bleuler, ou de uma patologia orgânica qualquer

cujos sintomas mimetizam um quadro psíquico), 106 tarefa por vezes deixada de lado, mas fundamental quando atendemos pacientes graves ou muito comprometidos, ou que apresentam síndromes que favorecem tais ocorrências, suscitando, portanto, sérias questões de diagnóstico diferencial.

A dificuldade que esses casos podem introduzir não deve nos fazer perder de vista que o fundamental é o estabelecimento do processo terapêutico, e não a pura e simples elucidação diagnóstica. Afinal, é na transferência que o diagnóstico se faz. E, portanto, essa questão preliminar funda-se num raciocínio por exclusão (destinado basicamente a afastar organicidade) e visa possibilitar um caminhar seguro em direção ao estabelecimento do dispositivo analítico. Surge aqui o segundo patamar, dado que esse caminho não é o mesmo, e não é empreendido desde a mesma posição, sendo o paciente neurótico ou psicótico. Do mesmo modo, a posição do analista nesses casos é diferenciada; logo, é fundamental que essa distinção nosológica seja levada em conta, na medida em que pode informar dos passos que serão necessários para se chegar com segurança ao que a psicanálise exige como condição para se colherem os frutos que o processo analítico pode propiciar.

As questões relacionadas à depressão partilham o mesmo "temível privilégio" da melancolia em sua capacidade "de situar a interrogação do analista na encruzilhada do biológico e do simbólico" (Kristeva, 1989:16), privilégio temível porque encontra dois tópicos longamente recalcados pela psicanálise: exatamente a questão do corpo – até 1920, Freud entendia a psique como sendo puramente representacional – e a do afeto. A discussão dessas questões, para ser fecunda, não nos pode levar a uma perspectiva maniqueísta de tomar partido de uma contra a outra. Também não deveria levar-nos a um ecletismo complacente e pouco rigoroso. Portanto, não se deve entender essas diversas suposições etiológicas como cumulativas, no sentido, por exemplo, de um estado psíquico que teria uma base genética, sua vertente bioquímica, suas peculiaridades neurofisiológicas, sua dinâmica psicológica e aspectos culturais.

O que aqui existe são divergentes concepções em disputa. Quando se fala em integração, o que é comum, mais freqüentemente se está caminhando no sentido de escamotear o fato de que não há ponto de junção entre esses diversos e heterogêneos discursos. Na própria base da idéia de um tratamento integrado, está a suposição de que somando-se Res cogitans e Res extensa se comporia uma totalidade sem furo, o que é uma idéia metodologicamente furada. Quando se busca empreender essas junções, observa-se que o que é considerado como aspectos psicológicos ou psicoterapia costuma ser alguma atividade empreendida a título de adaptação, que torne o sujeito bem adaptado aos regimes da droga. Nas publicações psiquiátricas, a combinação 'psicoterapia mais medicação' é sempre cotada como superando em eficácia a qualquer dos dois

instrumentos em separado.107 Agora, seria suficiente para restituir à psiquiatria a clínica que ela perdeu?

A clínica sem teoria põe a prática em crise. Por isso, fica-se afobado, apressado, sem critérios. Em contradição com essas promessas terapêuticas sempre mais exuberantes e 'eficazes', assiste-se a uma proliferação de trabalhos dedicados aos casos ditos refratários, os quais se tornam mais prevalentes, como que esnobando a promessa farmacêutica, sinal de que ela não é

suficiente para dar conta do problema.108

A questão que a depressão levanta, mais do que a um efeito do organismo (no sentido de uma entidade kraepeliniana), diz respeito ao sujeito daquela experiência. A aparição de efeitos-sujeito anda na direção contrária à da química. Não se trata aqui de conferir significações à depressão de um determinado sujeito, o que restará sempre um exercício a ele exterior, e, portanto ineficiente para dar conta do que verdadeiramente se trata na clínica psicanalítica, embora não desprovido de resultados: uma vestimenta imaginária é muitas vezes fecunda na produção de efeitos imediatos, filão explorado com grande desenvoltura pela literatura de auto-ajuda e pelo misticismo esotérico.

Um importante mecanismo de ação dos fármacos, sempre ignorado pelos que patrocinam experimentos medicamentosos, pode-se aqui entrever. Eles oferecem para esses pacientes uma infusão de ego ideal, que os poupa de trabalhar psiquicamente para dar conta da irredutibilidade da perda que os atormenta, agindo como um tampão. Note-se que isso não tem necessariamente a ver com o famoso efeito placebo, mas com a produção de uma totalidade gozosa. O sujeito obtém através da droga uma prótese ideal egóica que o faz sentir-se completo, e o satisfaz.

É evidente, porém, que entre uma substância inativa quimicamente e as drogas ditas antidepressivas existe uma poderosa diferença, que reside na capacidade que possuem as segundas de produzirem o gozo. Ou seja, longe de serem um talquinho inocente (como o placebo padrão), o que esses produtos introduzem na corrente sangüínea dos sujeitos fornece aos seus corpos algo que os faz

gozar. 109 Essa noção pode permitir dimensionar o lugar especificamente psicanalítico que o uso dessas medicações poderá ocupar. Isso, evidentemente, não pode ser desconsiderado, uma vez que o tratamento psicanalítico desses pacientes tem como primeira tarefa instituir uma experiência de perda, a qual, tornando o trabalho psíquico imperioso, possibilite as condições mínimas para que uma análise se dê. Isso não ocorre de forma automática ou natural, dependendo tanto do analista, quanto do analisando.

Muitos analistas não conseguem (ou não se dispõem a) suportar a escuta de um deprimido, trabalho em geral árduo e lento. Algum tempo será necessário para que surjam as condições transferenciais básicas necessárias para que o analista possa funcionar como um agenciador da perda.

Da parte do analisando a questão será saber se ele vai se dispor a essa empreitada. Ela lhe oferece a cura, o que pode seduzir, mas nenhuma garantia de que sairá totalizado, integrado. Pelo contrário, o analista sabe que a psicanálise opera uma destituição subjetiva, estremecendo e derrubando o edifício egóico, o que muitos nem de longe suportam. Se recordarmos que a cura é o que o ego mais teme, poderemos entender que muitos deprimidos prefiram conservar sua depressão a cair na promessa do tratamento, fenômeno que se verifica cotidianamente.

Acaso necessito evocar [diz Lacan a uma platéia de médicos

em 1966] minha experiência mais recente? Um formidável

estado de depressão ansiosa permanente, que dura há mais de

vinte anos, o enfermo vinha a buscar-me aterrorizado ante a

idéia de que eu lhe fizesse o mais mínimo. À proposição de que

voltasse a me ver 48 horas mais tarde, a mãe temível, que

durante esse tempo havia acampado em minha sala de espera,

já havia logrado tomar disposições para que nada disso

ocorresse. (Lacan, 1966b)

A ética da psicanálise, oposta a um exercício de mestria, não tende nem a um franqueamento naturalista do desejo, nem a um aprisionamento do gozo perverso, mas a afrontar aquele que a empreende com o que seria a realidade da condição humana, isto é, a finitude. O descentramento dessa inércia depressiva operando como exigência de trabalho psíquico pode suscitar grande angústia, sendo preciso que, para se deparar com essa ocorrência, o analista esteja preparado. A perspectiva do tratamento é a retomada em outro plano do que no sujeito lhe sufoca ou aparece como

impossível.110 Para esse fim é conveniente ter à mão conceitos que instruam o caminho. A intenção de fazer o bem, longe de ser suficiente, produz o inverso do que pretende. A razão para isso, simples de se constatar qual seja, aparece na continuação desta fala de Lacan:

Esta é uma experiência banal, só a evoco para recordar-lhes a

significação da demanda, dimensão onde se exerce, falando

estritamente, a função médica, e para introduzir ... a estrutura

da falha que existe entre a demanda e o desejo. ... Não é

necessário ser psicanalista, nem sequer médico, para saber

que quando alguém, nosso melhor amigo, seja homem ou

mulher, nos pede algo, isto não é em nada idêntico, e inclusive

às vezes diametralmente oposto, àquilo que deseja. (Lacan,

1959-1960)

Um paciente histérico chega à análise portando a insatisfação do seu desejo e queixando-se de depressão. O que ele não sabe, e a análise pode lhe ensinar, é que, seja qual for a satisfação, o desejo 'é'insatisfeito: é a insatisfação do desejo o que o viabiliza. Da impotência ao impossível, e de sua possibilitação na transferência, é o percurso que a psicanálise pode efetivar. No que concerne ao tratamento do paciente deprimido, podemos formular como uma meta que ali onde estava a depressão advenha o sujeito. Em algumas situações, isso também poderia ser dito Wo Es war, soll Ich werden, uma vez que ali onde reside o desamparo imposto pela força pulsional (tematizado por alguns como afeto depressivo) Eu como sujeito devo advir.

 

Psicoterapia psicanalítica: uma prática

farmacêutica?

A importância desta discussão está na disjunção que opera entre o fármaco e a química. Ao permitir verificar que uma droga que tem ação de fármaco não necessariamente encontra na química a razão de ser desta ação, abre o campo para, pelo menos, uma conseqüência importante – afastar o maniqueísmo simplista – e dois desdobramentos fundamentais:

o de permitir pensar um uso da droga que possa ser feito com vistas a instrumentalizar a análise, a droga podendo ser para o analista em certos casos algo equivalente ao pano vermelho do toureiro, o que, evidentemente, depende mais do analista que da droga. Os melancólicos são aqueles a quem esta estratégia mais se aplicaria, devendo ser evitada nos deprimidos queixosos, mas esta não é uma decisão a estar calcada apenas na nosologia;

o de permitir pensar a psicanálise como fármaco. Para que possamos chegar a um correto entendimento de como a

psicanálise pode ser uma prática farmacêutica, 111 examinemos a questão mais genérica da relação da análise com a droga. Existem diversos registros que permitiriam este exame, e, sem nos determos em cada um, detalharemos apenas o que interessar para o avanço do tema.

Freud poderia ser considerado um íntimo da droga, uma vez que sua chegada ao campo psicanalítico inclui uma passagem da qual

faz parte a cocaína.112

Um segundo aspecto diz respeito à suposição por ele formulada em alguns momentos, de que a química, interferindo na fonte da pulsão, curaria a neurose, o que deve ser tomado como um sintoma freudiano, e não como um argumento de verdade ou de autoridade. Um sintoma a ser interpretado. Diante dele não se trata de se colocar em acordo ou desacordo, mas de encontrar seu núcleo de verdade, e um modo em que possa bem dizer-se.

O núcleo de verdade dessa suposição freudiana me parece estar na exigência de que, para que a psicanálise opere e efetivamente funcione, ela tenha que intervir na química do sujeito. A análise não

é uma terapia cognitiva e muito menos de adaptação social. 113 Sua ação, quando efetiva, incide na economia libidinal do sujeito, intervindo em sua química, naquilo que Freud define como o efeito químico do fantasma. Essa noção nos permite entender tanto o efeito tóxico da neurose quanto o efeito farmacêutico da psicanálise.

A ação 'contradepressora' da psicanálise, 114 portanto, encontra-se tanto na melhora instantânea que a produção de significantes opera (o que não é uma peculiaridade da psicanálise, qualquer 'terapia pela palavra' provoca este efeito) quanto na transformação do quimismo fantasmático do sujeito, o que não pode ser estabelecido

sem os conceitos psicanalíticos. 115

Com base nisso, podemos de novo indagar: o fármaco é o objeto que falta ao paciente? Digamos que o fármaco faz as vezes de objeto, o que possibilita entender de onde advém boa parte do seu poder. Mas o fármaco não é o objeto. O acesso do sujeito ao objeto necessariamente passa pela linguagem, o que significa que, com fármaco ou sem fármaco, um acesso direto ao objeto está excluído do horizonte de possibilidades daquele que para se constituir teve que pagar o preço do que Freud formulou como o 'complexo de castração'. Isso permite, desbancando a razão depressiva, esclarecer que não há felicidade pronta, à qual o sujeito naturalmente acederia, nem felicidade produzida pela via da química (havendo, no entanto, próteses passíveis de serem produzidas

através da química, da religião,116 da droga etc.).

O que a razão depressiva tenta fazer – encontrar na química a razão universal que funcione como o referente fisiológico do problema clínico estudado – ela o consegue através das manipulações metodológicas que empreende. Isso, no entanto, tem seu preço. Fundada sobre a quebra dos parâmetros clínicos, amparada na destruição das barreiras organizadoras do território da clínica, ela encontra a falta de limites para sua aplicação, o que determina que sua utilização sistemática produza a depressão da razão, pelo menos da razão clínica. Seus próprios adeptos percebem isso. É o caso de Klein (1993), por exemplo, que, 30 anos após ter implantado o método, reconhece a necessidade de que a pesquisa farmacológica se ampare numa base clínica segura, admitindo sua falta. Como, no entanto, perdeu-se a clínica, persiste o método e o continuado uso do cachimbo deixa a boca torta, esse anseio cai no vazio, e Klein, juntamente com toda a psiquiatria que se ampara na resposta ao fármaco como método para validação da clínica, continua atuando do mesmo modo, isto é, com a mesma falta de limites que constitui o essencial da sua base

metodológica. 117

Conseqüentemente, o caminho percorrido nessas pesquisas é oposto ao da psicanálise, cuja ambição não desconhece que o acesso do sujeito ao seu bem e à sua felicidade passa necessariamente pela capacidade de inscrever a pulsão, dizendo respeito a essa capacidade singular, e não ao universal do seu organismo.

Evidentemente, isso não nos alça a uma posição triunfante, pois tal possibilidade depende, para ser concretizada, do trabalho que for possível ao sujeito efetuar na transferência. Ao efetivar uma prática que respeita a singularidade a psicanálise se posta como a representante atual desta exigência de singularização em que se constitui a clínica. O saber sobre o singular se funda numa exigência de subjetivação, que o dispositivo analítico, ao mesmo tempo em que exige, torna possível. Se isto se concretizará, ou não, só saberemos baseados em uma aposta transferencial.

 

O afeto depressivo

O termo depressão denota uma ambigüidade: de um lado, seu uso como substantivo designa algo que teria suporte numa essência ou numa entidade clínica definida a título de Depressão, grafada em maiúscula. Como adjetivo, aponta para algo de que o sujeito com Depressão padeceria. O quê? Um estado afetivo? Um sentimento? Um humor? As concepções psicanalíticas acerca do afeto depressivo e seus correlatos – que por um lado, caminham rumo à melancolia; por outro, em direção à tristeza, nostalgia e luto de um objeto perdido – privilegiam a perda de um objeto amado. Essa perda – de um objeto primordial – representa a ruptura de uma suposta completude original, que seria inerente à condição humana, e, em alguns outros momentos, uma perda objetal.

Examinarei agora o que está em questão no horizonte afetivo da depressão. Seria a tristeza o eixo em torno do qual ela se organiza? Não exatamente. Pelo menos na melancolia, em que, curiosamente, o paciente não se queixa de tristeza, o que é um traço distintivo importante para o diagnóstico, sempre destacado pela clínica

clássica. 118 O que existe na depressão melancólica é uma tristeza inteiramente peculiar, caracterizada como 'tristeza vital' com base na classificação proposta por Scheler, que distingue quatro tipos de

sentimentos: 'sensoriais', 'vitais', 'psíquicos' e 'espirituais'. 119

Quando se fala em tristeza vital, sempre se assinala não ser uma tristeza da qual o paciente se queixe – ou é uma inibição psicomotora de ordem tal que o impede dos gestos mais simples, e, às vezes, de dirigir sua fala a um outro, ou ele se queixa de que é o responsável pela ruína do mundo, da falência de sua família, da indignidade de sua vida... Mas de depressão o paciente melancólico da clínica clássica não se queixa. Quem diz que ali há depressão é quem faz o diagnóstico. É preciso, no entanto, que não se desconheça, o que comumente acontece, que nessa depressão "o ponto geometral do quadro é constituído por uma tristeza sem fim nem fundo" (Godino Cabas, 1988:92).

Essa distinção é importante ser assinalada para que se possa perceber uma sutil mudança que o princípio da razão depressiva opera. Pois, se no ponto de partida do tema aqui estudado, o termo depressão quer dizer do conceito mecanicista que aponta para uma menor pressão nas vias neuronais ou para um afundamento de um terreno, a partir da metamorfose que sofre, passa a designar o estado de espírito suposto no melancólico. Há que sublinhar o fato de que ele seja suposto, pois, como frisei, deste, o melancólico, em geral, não se queixa. É mais comum, inclusive, que reclame da impossibilidade de experimentar qualquer sentimento; portanto, uma modificação duplamente importante. De um conceito mecanicista para um estado da alma, primeiro, e, segundo, de algo constatável e evidenciável diretamente (um afundamento de um terreno, por

exemplo) para um estado suposto. 120

 

Depressão: grau zero do desejo?

É comum que certos pacientes se expressem como se a depressão fosse o ponto zero do desejo, como se tivessem sido abandonados pelo desejo; ou ainda, como se fosse a expressão de um não-desejo. Mais freqüentemente, foi o objeto do seu desejo que os abandonou, eventualidade tantas vezes cantada pela música popular. Agora, ao ser abandonado pelo objeto do desejo, é a capacidade de desejar que se perde? O que seria um não-desejo?

A psicanálise ensina que um não-desejo só pode ter expressão como desejo de não desejar, quer dizer, um desejo reativo (ao modo nietzschiano, e não mais jasperiano, de entender o reativo). Habitualmente o desejo de não desejar surge como proteção narcísica para um sujeito ameaçado pela hemorragia libidinal que o abandono de seu objeto de amor desperta. Nesse sentido, pode-se considerar que este abandono ao Outro que se foi tem função defensiva. Mas trata-se de uma defesa no sentido que este termo tem na formulação freudiana? Não. E isso detalharei adiante. Mas não chega a constituir uma inconveniência que o utilizemos, descritiva e momentaneamente, para designar o amparo acolhedor que nesse estado o sujeito pode encontrar, posto que essa depressão de certo modo o protege. Não constitui uma defesa no sentido freudiano do termo, no entanto protege o sujeito. Apenas, isso não nos permite entender positivamente o que de fato ocorre; temos que indagar 'do que' ela o protege.

Defesa, ensina Freud (1894), é um processo por intermédio do qual o sujeito se vê livre de representações intoleráveis. Dentre suas diversas modalidades, destaca-se o recalcamento, pedra angular do edifício psicanalítico (Freud, 1915a). A neurose é concebida como a expressão distorcida do recalcado, evidenciando, num primeiro momento, o sucesso (recalque bem-sucedido), e, em seguida, o

insucesso dessa operação.121 Podemos considerar a depressão como uma defesa nesse sentido estrito do recalcamento? É certo que não. Mas retomando a argumentação etimológica e filológica acerca do termo depressão, podemos entendê-lo não só como uma baixa na tensão, mas também num sentido ativo, o que envia à idéia de uma ação, não à de um estado – a uma ação ou conjunto de operações que consiste em exercer uma pressão sobre alguma coisa no sentido de a abaixar, para fazê-la descer de nível, diminuí-la (o que revela o peso do prefixo 'de').

Relacionando esse movimento de baixa com o que na concepção psicanalítica faz força, articularíamos a depressão com a pulsão. E aí, mesmo que a etimologia nos autorize a entender a baixa energética que a depressão evidencia como uma negativização da drang pulsional, uma Ver-drang, em português uma de(pressão), isto não permitiria, caso quiséssemos obter comprovação de que na depressão vigora o processo freudiano da defesa, ir além de um jogo de palavras – pois a neurose não é apenas uma reação de defesa de um sujeito diante de algo que lhe transtorna, mas implica uma resposta sua frente a esse impacto traumático, o que supõe um trabalho de metaforização, que é fundamental. Mas esse processo é ilustrativo do que Freud formula como inibição. Não se trata de definir o deprimido como um inibido, embora Lacan considere

Hamlet como tal,122 mas de pensar que se inibição há, é exatamente porque existe esse excesso que tem que ser contido, que se origina precisamente da pressão pulsional. A depressão, assim, opera uma contenção, um rebaixamento, do que faz pressão, a drang pulsional.

Além disso, tenho que assinalar que, somente forçando muito, pode-se considerar o de que se queixam esses pacientes como um afeto no sentido do deslocamento simbólico que esse termo adquire na produção freudiana desde seus primeiros passos. Aqui surge o interesse dessa linha de raciocínio, ao revelar a depressão na sua dimensão de paixão, e não como um sentimento. Na realidade, melhor seria conceber a depressão como o resultado de um despovoamento simbólico, um desinvestimento do mundo exterior, e não como um afeto. É o que Freud faz com seu conceito de luto: o estado depressivo que se evidencia no paciente enlutado tem exatamente essa razão de ser. E no paciente depressivo não melancólico e não enlutado? Por que esse desprezo pelos vivos? Puramente fomentado por desejos reativos? Já que nada se sustenta como reatividade, há que perguntar qual a verdade desse sentimento. Que possibilidade o conceito de inibição fornece para se pensar nos fenômenos depressivos? Existem autores que dele fazem o eixo que organiza seu entendimento de todo o campo depressivo-melancólico (Widlöcher, 1986, 1983); mas essa categoria nos restringiria a um enfoque puramente econômico, não permitindo avançar no entendimento do que na clínica se revela como autopunição e mortificação, nem do gozo extraído pelo sujeito destas cavilações auto-acusatórias.

Considerar a depressão melancólica apenas pela via da inibição, como o faz Widlöcher, seria escamotear a resposta do sujeito à foraclusão. As modificações libidinais incluídas na categoria da mortificação e no delírio de indignidade estão coordenadas no plano estrutural, devendo ser concebidas como 'efeito de' e 'resposta' à foraclusão. Além disso, a inibição não dá conta de uma verdade do sujeito. É aqui que aparece como essencial o conceito de superego.

Apoiado no equívoco que a língua francesa lhe permitia, e na perícia no manejo com a palavra que lhe era habitual, Lacan desarticula de modo rápido e elegante essa questão, estabelecendo ao mesmo tempo, de forma seca e pontiaguda um novo patamar no seu enfrentamento: Le senti-ment, o sentimento/o sentido, mente. O sentimento é um modo de recobrir, através do sentido, a questão do afeto, um modo de fazer sentido. Ora, se o sentimento mente, onde residiria sua verdade? Pode-se entender aqui que a posição do analista ante o afeto não seja a de refutá-lo, endossá-lo ou extirpá-lo, mas de indagar onde encontra sua verdade. Aos afetos, não se deve tratá-los como signos, embora pareçam sê-lo. Mas também não são significantes. Diante deles, deve-se verificá-los, o que não significa um desdém pelos afetos, e muito menos ênfase na intelectualização, desdobramentos que o campo lacaniano (e antilacaniano) assistiu.

A idéia de verificar o afeto permite que paciente e analista não fiquem paralisados na depressão, o que pode abrir para o paciente, caso ele avance no trabalho de análise, todo o leque dos afetos existentes: vergonha, medo, desgosto, culpa, tristeza, morosidade, tédio, embaraço, ódio, amor, felicidade, angústia, irritação, inquietude, desespero, pavor, covardia, coragem, pusilanimidade, vacilação, mal-estar, bem-estar. Que a angústia seja o principal dos afetos, não significa que deva ser o único. Sua possibilidade de abrir passagem aos outros afetos estará na dependência de como o sujeito modaliza sua relação ao Outro, e, portanto, a posição do analista está em relação direta com a transformação dos afetos que será possível ao paciente empreender. Inaugurar essa possibilidade será uma das suas funções fundamentais.

Afirmei anteriormente que não se pode fazer da magnitude dos estados afetivos um índice para o diagnóstico; mas também não há por que desprezá-los. A clínica mostra que saber dosar a angústia e avaliar a força e a desesperança depressivas são de absoluta importância para a condução do tratamento. Sem angústia, ele não anda; com angústia em demasia, também não. O problema está em definir onde se localiza esse ponto ideal, evidentemente variável para cada paciente e cada analista. Mas não se deve tratar os afetos como signos. Os estados afetivos não são discriminativos no que tange ao diagnóstico. A clínica clássica buscou fazer de uma tonalidade peculiar da tristeza do melancólico endógeno um traço distintivo, importante para o diagnóstico, mas trata-se de uma operação a ser evitada uma vez que favorecedora de equívocos. O vivido depressivo, por sua vez, não deve ser tomado como encontrando num estado do organismo seu referente fisiológico. Que ele possa, tal como a angústia, ser testemunhado no corpo, não o torna menos uma experiência que diz respeito ao particular de um sujeito, e não ao universal do organismo. Verificar o afeto é indagar o inconsciente do sujeito afetado, para que diga onde ele encontraria sua verdade, o que implica uma estratégia terapêutica de responsabilização do sujeito

 

100 Esclarecedores comentários sobre a neurastenia podem ser encontrados em FREUD (1895b, 1908).

101 Que são os sintomas ditos endógenos: retardo psicomotor, insônia terminal, piora matinal dos sintomas, agitação psicomotora e culpa, sem distúrbio de personalidade prévio. Supõe-se que sejam preditivos de boa resposta aos tricíclicos e ao ECT.

102 Observe-se, incidentalmente, a confirmação involuntária que esta fala oferece à necessidade de separar do campo dos padecimentos depressivos uma síndrome que seria delimitada enquanto uma verdadeira melancolia.

103 "A regra e o princípio da abstinência na psicanálise ganhariam aqui ao serem reformulados em função do pharmakon. Pois se assim se encontra recomendado que se evite – por parte do paciente assim como do analista – toda produção de satisfação substitutiva que vem apagar o sintoma por recobrimento ou que vem obstaculizar o 'trabalho psíquico'; o que é claramente objetivado é a produção de um pharmakon, qualquer que seja sua forma (compensação alimentar, passagens ao ato sexual, fala ou gesto de apaziguamento e, logicamente, absorção de medicamento). Pois o pharmakon é não apenas esta substância acrescentada, mas, sobretudo a intervenção de um terceiro – podendo ser inclusive a própria pessoa do analista" (FÉDIDA, 1998:39). Ou a categoria diagnóstica depressão.

104 Ver LEGUIL (1984), COTTET (1985) e LAURENT (1989b). Ver também POMMIER (1983) e CALLIGARIS (1989).

105 Hipócrates. Aforismos, VI, 23, apud STAROBINSKI (1960:12).

106 As patologias da tireóide são o alvo preferido da investigação dos clínicos quando o paciente se apresenta com sintomatologia depressiva. GEWIRTZ et al. (1988). O abatimento ocasionado por hipovitaminoses, anemias e viroses inespecíficas é igualmente confundido com depressão.

107 A formulação típica revela-se neste trecho de um estudo, escolhido ao acaso, que investiga a relação entre depressão e o dito DOC, com base no princípio da razão depressiva, movido pela suposição básica de "uma possível ligação biológica entre DOC e doença afetiva": "Vale salientar a importância da psicoterapia associada a terapia medicamentosa nos pacientes com DOC. Ultimamente, tem-se preconizado muito o uso de terapia cognitiva e comportamental, pois é muito comum a existência de uma postura depressiva e sentimentos de impotência e desmoralização nesses pacientes" (VALENÇA & DEL PORTO, 1984).

108 Vide KAPLAN & SADOCK (1999); GUPTA, GHALY & DEWAN (1992:281) e também KRAMLINGER (1989:794).

109 "Este corpo não se caracteriza simplesmente pela dimensão da extensão: um corpo é algo que está feito para gozar, gozar de si mesmo" (LACAN, 1966:92b).

110 Questões bem trabalhadas por Lacan no seu seminário sobre a ética da psicanálise (LACAN, 1959-1960).

111 No sentido da Farmácia de Platão, de Derrida, ou no sentido sofístico, pré-socrático, da 'Helena' de Homero. Odisséia, livro IV. Comentários esclarecedores serão encontrados em CASSIN (1990), particularmente o capítulo IV, 'O Retorno do Recalcado'.

112 Ver nos biógrafos de Freud (JONES, 1953; GAY, 1988 e CLARK, 1980) a descrição e o sentido dessa experiência, que nos parece distante do que lhe pretende atribuir VOM SCHEIDT (1975). Encontra-se aí, de qualquer modo, uma boa documentação.

113 Os que fazem da clínica psiquiátrica um dinamismo farmacêutico gostam de sempre reservar um lugar para o que chamam de 'psicoterapia'. Dentro desse recorte, cabe a esta o papel da adaptação do sujeito: "A psicanálise é uma auxiliar preciosa no processo de readaptação do indivíduo à sociedade, em sua busca de uma identidade pessoal capaz de responder às suas dúvidas existenciais ..." (BUENO, 1994), SmithKline Beecham S.A. Esta fala indica, além do desconhecimento para com a psicanálise, a saudade que certos psiquiatras têm do 'tratamento moral'. Isso reflete bem a dimensão do que é preciso abrir mão para se poder alcançar a riqueza da obra freudiana.

114 Expressão utilizada por KRISTEVA (1989).

115 Acerca do efeito tóxico da neurose, consultar FREUD (1925).

116 Deus protético, diz Freud em 'O mal-estar na cultura' (FREUD, 1930).

117 Que pode ser comprovada pelo que se busca atualmente fazer caber nos seus preceitos metodológicos. Vale tudo: da síndrome pré-menstrual como "precursora de distúrbios afetivos maiores" (CHENIAUX JÚNIOR, LAKS & CHALUB, 1994), à síndrome da angústia como falha no sistema respiratório.

118 O que, de relance, permite ver a inadequação do termo depressão para designar o sofrimento do melancólico, termo que de modo algum é suficiente para indicar o que ele experimenta. Os autores espanhóis falam "en la pesadumbre moral del melancólico", o que é muito mais evocativo (ALONSO FERNANDEZ, 1968).

119 Vitais: compreendem o que se experimenta como mal-estar, bem-estar, animação, desanimação, etc. – afetos corporais pronunciados, mas que, não estando ligados a excitações advindas de nenhuma parte do corpo são distintos dos Sensoriais: que implicam os sentidos do corpo; a dor, por exemplo. Psíquicos: simpatia, amor, ódio; o corpo participacomo acessório. Espirituais: acrescentam valor moral, que os sentimentos psíquicos não têm. Vide NOBRE DE MELO (1979), particularmenteo capítulo XIII, 'Psicologia e psicopatologia da afetividade' e também SCHNEIDER (1968) 'Anexo: Esboço de uma patopsicologia dos sentimentos e impulsos'.

120 A mudança que essesalto metodológico opera legitima que se possaconstruir a categoria nosológica de uma 'depressão sem depressão', sem que se veja nisso um contra-senso. Consulte-se a respeito a vasta bibliografia coletada no volume editado por KIELHOLZ (1973), relativo ao simpósio internacional patrocinado pela indústria farmacêutica em 1973, dedicado a essa categoria.

121 A noção de recalque bem-sucedido, contraditória metapsicologicamente, é essencial na clínica. Ver LACAN (1953-1954).

122 No Seminário sobre a Angústia (LACAN, 1963).