Deuses em poéticas: estudos de literatura e teologia

O Cristo da fé: fé teológica x fé poética

O Cristo da fé: fé teológica x fé

poética

 

Rafael Camorlinga

CAMORLINGA, Rafael

O Jesus amado pelos cristãos é uma personagem literária

(H. Bloom).

Resumo: À primeira vista o Jesus Cristo da Teologia e o da ficção literária parecem incompatíveis. Mas o fato de ambas as abordagens se utilizarem do arcabouço das palavras autoriza falar-se de aproximação entre si. Aliás, a fé teológica e a poética, ao invés de incompatíveis, podem ser complementares.

Palavras-chave: Literatura, Teologia, Teopoética.

Abstract: To associate the Jesus Christ of Theology with the one portrayed by Literature might seem an oxymoron. Yet, if one bears in mind that both are conveyed through the framework of words, the apparent paradox makes sense. Indeed, belief and the "suspension of disbelief " have more in common than one initially might have thought.

Key-words: Literature, Theology, Theological Literature, Literary Theology.

 

Introdução

O tema em questão remete à Bíblia, livro sacro para o Judaísmo, o Cristianismo e o Islã, "religiões do livro". Seja qual for o critério adotado para a compilação do Cânone Ocidental, a Bíblia não pode

faltar71. A importância do Livro por excelência extrapola o âmbito meramente sacro; ele permeia, não só o imaginário ocidental como também o universal. Porém, o seu valor como texto sacro não é o mesmo para as três religiões que o veneram como texto fundador. Para o Cristianismo o Novo Testamento (NT), apesar do exíguo tamanho relativamente ao Antigo Testamento (AT), tem um valor especial, pois contém os ditos e relata os fatos de Jesus Cristo (JC).

A onipresença do pensamento bíblico nas diversas culturas é inconteste, com preponderância na cultura ocidental. É isso que demonstra literariamente Borges em um dos contos: El Evangelio de Marcos. O personagem-eixo da narração, numa digressão, como que ao acaso, faz a seguinte constatação:

A lo largo del tiempo los hombres han repetido siempre dos

historias: la de un bajel perdido que busca por los mares

mediterráneos una isla querida, y la de un Dios que se hace

crucificar en el Gólgota (BORGES, 1989, p. 448, negrito

nosso)72.

Esse Deus crucificado, morto e ressuscitado, real ou simbolicamente, é o epicentro da doutrina que herdou seu nome: o Cristianismo. A dimensão épica, sobre-humana desse personagem que para muitos é divino, pode ser apreciada pelo fato de ter sido ele quem dividiu a história do Ocidente em um antes e um depois: antes de Cristo e depois de Cristo.

O Cristianismo, por sua vez, impregnou a Civilização do Ocidente de tal maneira que a mesma, além de ocidental, passou a chamar-se também cristã. Assim, a sua influência não se limita ao campo religioso; atinge também o cultural e artístico. Com efeito, "sem Jesus e sua Igreja que música Bach teria composto? O que teriam pintado Michelangelo, Rafael, El Greco?", pergunta Juan Arias no seu livro Jesus – Esse Grande Desconhecido p. 14. E no que tange ao campo literário, o mesmo autor volta a perguntar: "o que teriam escrito Dante ou San Juan de la Cruz e tantos outros escritores como por exemplo, José Saramago, autor do polêmico Evangelho segundo Jesus Cristo"? (Ibid.).

No concernente à produção literária lato sensu, Jesus Cristo deu origem a uma disciplina específica no âmbito da Teologia, a Cristologia. Conseqüentemente, as obras ensaísticas sobre JC são inúmeras, sendo uma das mais recentes a do atual Papa, intitulada Jesus de Nazaré (Ratzinger, 2007). Os escritos literários stricto sensu inspirados pela pessoa, os ditos e fatos de JC são também assaz numerosos. A seguir tentar-se-á indagar o rumo e a finalidade de cada uma das referidas abordagens. Ao final assinalaremos o que elas têm em comum, uma vez que ambas lançam mão do arcabouço das palavras.

 

1. O Cristo da teologia – fé teológica

Aqui delineiam-se claramente duas vertentes, com seus respectivos desdobramentos: a teológica, com a derivação dogmática, e a da piedade popular, que assume múltiplas modalidades. Esses diferentes níveis não são estanques, mas interdependentes. O Jesus petrificado das fórmulas dogmáticas ganha vitalidade nas discussões teológicas e assume múltiplas formas na piedade dos cristãos.

1. 1 A Cristologia

A pesquisa visando indagar sobre JC, principalmente no âmbito da Igreja Católica, deve levar em séria consideração o dogma, sob pena de incorrer em alguma das sanções previstas pela legislação eclesiástica. Vale lembrar que dogma, segundo o Catecismo da Igreja Católica (CIC), é "forma que obriga o povo cristão a uma adesão irrevogável de fé" (CIC, n. 88). No concernente a JC, o dogma reza: "Crer que Jesus Cristo é filho de Deus é necessário para ser cristão" (CIC, n. 454).

A elaboração do dogma cristológico levou séculos e ensejou lutas que nem sempre foram apenas teológicas, nos primeiros tempos do Cristianismo. Na época o Império Romano estava na fase do declínio. E já então se perfilava o surgimento de um novo "Império", o Cristão. Este, à bagagem ético-moral do judaísmo, acrescentaria o raciocínio filosófico dos gregos e o "corpus juridicum" dos

romanos73. São esses os principais ingredientes do que se conhece como Igreja Católica, única representante do Cristianismo durante o primeiro milênio, missão que teve que compartilhar, a partir do s. XI com a Igreja greco-ortodoxa e, no s. XVI, com o movimento Protestante.

A hegemonia incontestada da Igreja Católica durante tanto tempo propiciou o surgimento de um monopólio doutrinal que culminou com a criação da Inquisição no século XIII e com a declaração da infalibilidade pontifícia, no XIX. O teólogo ex-franciscano Leonardo Boff observa a respeito, no escrito Inqusição: um espírito que continua a existir:

O Magistério, portanto, é portador exclusivo de uma verdade

absoluta (...) face à qual não cabem dúvidas e indagações da

razão ou do coração. (...) A Igreja detém o monopólio dos

meios que abrem o caminho para a eternidade (BOFF, apud

Eymerich, 1993, p. 10, negrito nosso).

Uma conseqüência dessa prerrogativa que o magistério eclesiástico se arroga, é a intolerância. Assim, o mesmo teólogo acrescenta, com uma pitada de ironia: "Só os que não possuem a verdade podem ser tolerantes" (Id., ibid., p. 11).

Face aos pronunciamentos da Igreja a respeito de JC já nos quatro primeiros séculos do Cristianismo e face à intransigência do Magistério, qualquer tentativa de se aprofundar no conhecimento de Jesus de Nazaré pareceria desnecessária e até arriscada. Por outra parte, reduzir o Cristo à estreiteza das fórmulas dogmáticas seria o mesmo que reduzir um belo corpo humano ao puro esqueleto, sem forma, sem vida. A necessidade de torná-lo acessível a todo tipo de pessoas deu origem a múltiplos escritos. No âmbito teológico surgiu a Cristologia. Derivada desta, mas sem formar uma disciplina à parte, encontra-se a hagiografia. Esta última abrange o conjunto de obras de caráter piedoso que visam incentivar e alimentar a vida espiritual dos cristãos.

Com a proliferação dos escritos sobre JC e o Cristianismo tornou-se inevitável o surgimento de diversas tendências e enfoques. Fala-se, então, não de uma, mas de muitas "Cristologias" (Sobrino, 1997, p. 12). No entanto, contrariamente à auto-suficiência dogmática do Magistério, o teólogo, ou melhor, o cristólogo, aborda o mistério de JC com plena consciência de suas limitações relativamente ao empreendimento. Eis o porquê da necessidade de "compaginar

siempre palabra y silencio, verdad y provisionalidad" 74 (Ibid., p. 13)

1. 2 Um Cristo Latino-americano

Durante os séculos transcorridos a partir do decantado descobrimento da América, a Igreja latino-americana viveu da teologia européia. Mas nas últimas décadas do século XX, a partir do Concílio Vaticano II, começou a fazer sua própria reflexão teológica, enraizada na realidade do Continente. O resultado foi a "Teologia da Libertação". A Cristologia dela derivada vê em Jesus Cristo, na sua doutrina e principalmente no seu exemplo uma clara preferência pelos pobres e um envolvimento na libertação, não só espiritual, mas também socioeconômica. Este novo enfoque assinala a insuficiência, a omissão das Cristologias precedentes:

Recordemos que nuestro continente cristiano ha vivido siglos

de opresión inhumana y anticristiana sin que la cristología, al

parecer, se diera por enterada y sin que supusiera una

denuncia profética en nombre de Jesucristo 75 (Id. Ibid.).

Um grupo de teólogos latino-americanos, dentre os quais o próprio J. Sobrino e o brasileiro L. Boff tentaram preencher essa lacuna secular no Cristianismo, principalmente na Cristologia da nossa América. Os progressos alcançados na esteira do Concílio Vaticano II e sob o pontificado do papa Montini foram notáveis. Já com os dois últimos Papas o processo foi revertido. O apoio outorgado ao Papa polonês para derrotar o socialismo na sua terra natal teve um preço (Bernstein, 1996, p. 368s). A Teologia da Libertação foi desautorizada e até estigmatizada. Os teólogos liberacionistas sofreram sanções de vários tipos. Os silêncios "diplomáticos" e o trato amigável dispensado a regimes violadores dos direitos humanos (Ibid., p. 467ss) mostram às claras a política de João Paulo II, retomada por Bento XVI.

"Roma locuta, causa finita?" – vulgo: Roma tem a última palavra? A incipiente Cristologia latino-americana sofreu um sério revés. A teologia "européia" não vê com bons olhos o surgimento da homônima "terceiro-mundista", teologia que não se limita à ortodoxia, se ela não se valida na "ortopraxe". Porém, enquanto existir situações de injustiça e opressão, existirão anseios de liberdade; e com eles os de uma Cristologia libertadora – com ou sem o placet de Roma. E quando o cânone eclesiástico tente sufocar o Espírito, que "sopra onde quer" (Jo 3, 8), fica o recurso da Literatura.

 

2. O Cristo da literatura – fé poética

ELE nasce de mulher, mas concebido sem o concurso de homem. Declara-se o Prometido aos Patriarcas, o Anunciado pelos Profetas, o Esperado durante séculos pelo seu Povo, Israel.

Prega a fraternidade universal, sob a paternidade de Deus, pai de todos. Acolhe os marginalizados, sara enfermos, ressuscita mortos. Sua atividade e sua doutrina o tornam suspeito aos olhos dos poderosos. Ameaçado de morte, não desiste; antes parece provocar o trágico desfecho. No entanto, a vida que lhe é tirada, a recupera, resplandecente, no terceiro dia.

Promete o mesmo triunfo àqueles que praticam seus ensinamentos, cultuam sua memória e difundem a sua doutrina.

Na Parusia, consumado o atual período, presidirá a um julgamento cósmico. A partir de então terá início a etapa definitiva do seu reino, reino de verdade e de justiça, de paz e de amor.

Mito incomparável que aglutina os anseios da Humanidade – dizem uns. Utopia ao alcance dos seguidores de JC – sustentam outros. Fonte inesgotável de inspiração para todo tipo de criação artística – podemos nós afirmar, sem entrar necessariamente em colisão nem com os primeiros nem com os segundos.

2. 1 O Jesus histórico e o Jesus mítico

A estreita vinculação entre mito e literatura é geralmente sustentada pelos estudiosos do assunto (Frye,1957; 1992; Eliade, 1963; Monneyron, 2004). "Every human society possesses a mithology which is inherited, transmited and diversified by literature", afirma

Frye. 76 Segundo este mesmo autor, mitologia e literatura se nutrem reciprocamente (Id., ibid.).

Entre mitologia e religião pode-se estabelecer uma relação análoga à existente entre mitologia e literatura, embora neste caso não haja a mesma unanimidade. As grandes religiões monoteístas, Judaísmo, Cristianismo e Islã recusam a pecha de "mitológicas", visto que elas se consideram históricas. No entanto, convém lembrar que mito, neste caso, não tem a conotação negativa que antes lhe fora atribuída; pelo contrário, "exprime a experiência mais profunda da humanidade". Portanto, aplicado a Deus e a Jesus Cristo, "não envolve absolutamente um pré-julgamento da atitude religiosa de quem quer que seja" (Debezies, 1997, p. 517).

As interpretações fundamentalistas da Bíblia, em vigor até época recente, recusavam todo tipo de aproximação com o mito. Acreditavase que qualquer concessão à fábula e à poesia iria comprometer a verdade. Essa atitude ignorava o fato de a Bíblia, com insignificantes exceções, ter sido escrita na linguagem literária de mito e metáfora (Frye, 1992, p. XIV-XV). Posteriormente a rigidez inicial foi atenuada. Hoje em dia ninguém, em sã consciência, negaria a imbricação de mito e religião, análoga à existente entre mito e literatura. Em suma, é difícil conceber uma religião sem literatura, nem uma literatura totalmente alheia ao fenômeno

religioso77.

Em vista da onipresença do Cristianismo no Ocidente, o binômio literatura e religião equivale a literatura e cristianismo. Ao lado do Jesus do dogma e do Jesus da teologia (Cristologia) temos o da literatura. Reparemos desde já que a imagem transmitida pelos evangelhos canônicos, elaborada pela especulação teológica e pela piedade popular é a de um JC ficcionalizado. Com razão o crítico literário H. Bloom afirma: "A adoração ocidental de Deus [...], é adoração de uma persona-gem literária; o Jesus amado pelos cristãos é uma personagem literária" (Bloom, 1995, p. 15).

Olhando agora para o Cristo da Literatura convém salientar que os primeiros escritos sobre JC são os evangelhos apócrifos, excluídos do cânone justamente pelo aspecto lendário e fantástico (Arias, 2001, p. 144-5). O gesto daqueles "contadores de histórias" tem sido imitado por inúmeros narradores ao longo dos séculos.

A necessidade de "contar" o que fez Jesus e de torná-lo mais

imaginável, insistindo no detalhe concreto, também provocou,

desde as primeiras gerações cristãs uma floração de relatos

ditos "apócrifos", em que a anedota triunfa pelo prazer da

imaginação, em que avultam as paráfrases de todo tipo"

(Debezies, 1997, p. 518).

Nem por isso o tema Jesus Cristo dá sinal de esgotar-se. Segundo Fernando Sabino, "consta que somente no século XIX foram publicados mais de sessenta mil livros a seu respeito" (1995, p. 15). Face ao ingente volume de obras inspiradas pelo Fenômeno-Cristo a afirmativa de Jo 21, 25 – "se fosse escrito tudo o que Jesus Cristo fez o mundo inteiro não poderia conter os livros" – perde o seu aspecto hiperbólico.

É graças à arte em geral e à literatura em particular que a figura de Cristo não permaneceu um simples monumento do passado, mas continua cativando as novas gerações (Küng, 1976, p. 132). O Jesus da Literatura é certamente mais empolgante que o da Teologia. Segundo o referido teólogo, isso se deve à sensibilidade dos literatos. A abordagem literária "autoriza a projetar no personagem, liberado dos limites impostos pela fé, todos os sonhos, todas as obsessões, todos os valores e todas as experiências" (Debezies, 1997, p. 519). Em outras palavras, o ficcionista cujo compromisso é apenas com a arte, usufrui de uma liberdade que o teólogo desconhece. O cânone literário é diferente do teológico, assim como são as respectivas disciplinas. Por outro lado,

tampouco há incompatibilidade 78. Jack Miles, "biógrafo de Deus", afirma: "O conhecimento de Deus como personagem literário não impede nem exige a crença em Deus" (Miles, 1995, p. 14).

2. 2 Cânone teológico x cânone literário

A figura de JC é complexa e rica demais para ficar emoldurada nos esquemas do dogma. O próprio pensamento teológico, conquanto mais abrangente que o dogmático, fica aquém do que um "Filho de Deus feito homem" pode suscitar na imaginação dos seus seguidores e até dos seus detratores. A mitologia judeu-cristã pode equiparar-se à greco-romana no que concerne à fecundidade literária. As obras inspiradas pelo evento cristão são inúmeras, conforme foi assinalado (Brunel, 1997, p. 523; Küng, 1974, p. 138; Kuschel, 1978). Aborda-se agora, à guisa de amostra, uma delas.

Chama poderosamente à atenção a figura de Jesus Cristo de Dostoievski (1968) em Os Irmãos Karamazov; concretamente, em "O Grande Inquisidor", poema de Ivan, um dos três irmãos. Jesus aparece em Sevilha, Espanha, quando a Inquisição está em plena atividade, queimando hereges em espetaculares autos de fé. O povo vai atrás dele, como outrora em Israel. No entanto, o Inquisidor mor, investido com a dignidade cardinalícia, manda prendê-lo e jogá-lo na cadeia. É no calabouço onde tem lugar o seguinte diálogo, ou antes, monólogo, uma vez que o Cardeal é o único que fala.

Es Tu? Tu? – mas, não recebendo resposta, acrescenta

apressadamente: não respondas, mantém-te calado. O que

poderias dizer? Sei tudo isto muito bem. Tu não tens o direito

de acrescentar coisa alguma ao que já disseste outrora.

Por que vieste incomodar-nos? Sabias que a tua presença

nos estorvaria e, no entanto, vieste. Mas tu sabes também o

que vai suceder amanhã? [...] amanhã mesmo te julgarei e

serás queimado como o pior dos hereges (vol. I, p. 195, negrito

nosso).

O Cristo que aparece na Espanha medieval encaixa nos temas recorrentes na produção romanesca cristã: o retorno de Jesus Cristo. Entretanto, o Cristo recriado pela ficção dostoievskiana não é o da Parusia, aparecimento apoteótico. É, pelo contrário, uma presença semelhante à primeira: a do humilde Jesus de Nazaré. Mesmo assim, ou justamente por isso, a sua presença é incômoda, subversiva. Curiosamente, incomoda o poder que se diz constituído e exercido em seu nome. A propósito do trecho citado, o teólogo e precursor da "teopoética", Romano Guardini, comenta:

La Iglesia romana pone sus manos sobre Jesucristo. Él ya no

tiene la libertad de venir a los hombres. Debe permanecer con

lo suyo dentro de los límites y fronteras que la jerarquía le ha

prescrito. Su figura ya está fijada, elaborada, definitivamente.79

Todavia, o Jesus recriado pela ficção literária nem sempre é o pacifista de "o Grande Inquisidor", nem a figura franzina e alquebrada da literatura piedosa. A literatura moderna sobre JC, segundo Debezies (1997), tende para a reconstituição, preocupação com a verossimilhança, ou, ao contrário, para a transposição, apresentando um Cristo mais afim com a nossa realidade. É este segundo viés o mais condizente com um Jesus latino-americano. É com ele que nos deparamos nos escritos ensaísticos de L. Boff e de J. Sobrino, bem como nos poemas do bispo Pedro Casaldáliga. É ele o Cristo libertador esboçado no romance La Cruz Invertida, do argentino Marcos Aguinis.

Por outro lado, tampouco parece descabido associar o Cristo "literário" com os líderes revolucionários Che Guevara e Camilo

Torres.80 Talvez haja quem prefira associar a figura do Redentor com os mártires Oscar A. Romero de El Salvador, e com o Padre Bosco, auxiliar de Don Pedro Casaldáliga, do Brasil, assassinado durante a ditadura.

Antes de terminar, ao menos, mencionemos o Jesus de O Evangelho segundo Jesus Cristo, de José Saramago. Alguns leitores lamentam não poder reviver o tempo da Inquisição, para queimar o livro e junto com ele o autor. O delito do romancista português é apresentar um Cristo tão humano que beira ao divino.

 

Conclusão

O teólogo H. Küng, citado ao longo do presente artigo, lista os muitos "Cristos" aparecidos na história do Cristianismo: o Cristo cantado nos hinos em todas as línguas do mundo, o Cristo pintado e esculpido já nos primórdios da era cristã, e daí em diante na Idade Média, no Renascimento e na época moderna, o Cristo dos debates teológicos da Escolástica, da Reforma e Contra-reforma, o Cristo de Romano Guardini, de Karl Barth, Teilhard de Chardin e Billy Graham, aos quais podemos acrescentar os inúmeros Cristos da ficção literária, romance, teatro e poesia (Kuschel 1978; Langenhorst, 2005). Afinal da listagem conclui o mencionado teólogo (p. 129): "parece haver tantas imagens de Cristo quantas são as mentes que as concebem". Qual delas é a certa? A do Cristo real, responde o próprio Küng. E para explicar qual é esse Cristo dedica as restantes 500 páginas do seu livro "Ser Cristão".

Felizmente à Literatura não cabe empreender a árdua tarefa de determinar os limites entre verdade e erro, bondade e maldade, nem mesmo entre ficção e realidade. Sem negligenciar o homo sapiens, dirige-se principalmente ao homo ludens, do qual exige apenas a "suspensão da descrença", a fé poética. Esta, diferente da teológica, não implica qualquer sanção em caso de recusa. Oferece a todos, já no aquém, uma epifania, encontro que a fé teológica reserva para alguns, no além.

Referências

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* É Professor Associado na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC); mestre em teologia e doutor em literatura. Atua na linha de Teologia e Literatura, no Curso de Pós-Graduação da UFSC. É membro da Alalite (Associação Latino-americana de Literatura e Teologia) e sub-coordenador do Nutel (Núcleo de teologia e literatura) cuja coordenadora é a Professora Salma Ferraz.

71 Embora a Bíblia não figure no corpus de O Cânone Ocidental de H. Boom (1995), ganha especial menção no prefácio da obra.

72 "Ao longo dos tempos, os homens têm repetido sempre duas histórias: a de uma embarcação perdida que procura, nos mares mediterrâneos, uma ilha amada, e a de um Deus que se faz crucificar no Gólgota". Esta tradução é de minha autoria, bem como as demais, enquanto não constar outra observação.

73 É essa a idéia de Bertrand Russel no ensaio Civilización Occidental (1956, p. 394), na versão espanhola: "Cuando Roma cayó la Iglesia conservó en una síntesis singular lo que había resultado ser más vital en las civilizaciones judía, griega y romana. Del fervor moral de los judíos vinieron los preceptos éticos del cristianismo; del amor griego al razonamiento deductivo, la teología; del ejemplo romano de imperialismo, el gobierno centralizado de la Iglesia y el cuerpo de leyes canónicas".

74 ... necessidade de "compatibilizar sempre palavra e silêncio, verdade e provisoriedade".

75 "É preciso lembrar que nosso continente viveu séculos de opressão desumana e anticristã; a Cristologia, no entanto, parecia não perceber, menos ainda, lançar uma denúncia profética em nome de Jesus Cristo".

76 Cada sociedade humana possui a sua mitologia, que é herdada, transmitida e diversificada pela literatura (Words with Power, 1992, p. XIII).

77 O encontro entre ambas as disciplinas e o surgimento de uma terceira está bem representado no termo Teopoética, por Franz-Joseph Kuschel (Kuschel, 1978; 1991). Debezies (1997, p. 522), por sua vez, fala de uma Cristologia Poética.

78 É isso que insinua o Papa no livro supracitado. Ao desaprovar a opinião dos que consideram o batismo de Cristo como o momento em que surgiu sua vocação messiânica, assinala que, adentrar na consciência de Jesus é mais condizente com a literatura do que com a teologia (Ratzinger, 2007, p. 38).

79 A Igreja romana prende Jesus Cristo. Ele não tem mais a liberdade de vir aos homens. Deve ficar na sua, sem ultrapassar os limites e fronteiras que a hierarquia determinou. A sua figura tem sido fixada, determinada para todo o sempre (Guardini, El universo religioso de Dostoyevski, 1954, p. 126).

80 Segundo H. Küng, um Cristo subversivo seria mais condizente com o do Evangelho. "É claro que o Jesus dos Evangelhos não é a figura doce e gentil do romantismo, nem a de um bitolado personagem eclesiástico. Tampouco sugere o diplomata de cintura e costas flexíveis..." (Küng, 1976, p. 186).