Deuses em poéticas: estudos de literatura e teologia

Sobre o mistério cósmico: Deus e o diabo lidos no Grande Sertão: veredas de Guimarães Rosa

Sobre o mistério cósmico: Deus e o

diabo lidos no Grande Sertão:

veredas de Guimarães Rosa

 

Clademilson Fernandes Paulino da Silva

SILVA, Clademilson Fernandes Paulino da*

Resumo: O presente artigo, construído a partir do diálogo entre teologia e literatura, procura apresentar as imagens de Deus e do diabo encontradas no Grande Sertão: Veredas, romance de João Guimarães Rosa. É objetivo do mesmo, tomando como pontos de partida o dualismo maniqueísta cristão-católico e a dualidade-complementaridade taoísta, mostrar que o romance, reflexão religiosa de Riobaldo-Guimarães Rosa, caracteriza o diabo, uma das personagens mais significativas do romance, como um ser inexistente, mas profundamente atuante, e Deus, uma personagem aparentemente secundária, como um ser existente, contudo, passivamente inoperante. Dessa forma, o artigo, levando em conta seus próprios limites, delimita os espaços, papéis e atuações dessas duas significativas personagens do romance.

Palavras-chave: Deus, diabo, teologia, literatura, Guimarães Rosa

Abstract: Built on a dialogue between theology and literature, the article seeks to present the images of God and the devil in João Guimarães Rosa's Grande Sertão: Veredas. Analytically, the paper juxtaposes the Christian emphasis on a Manichean dualism to a Taoist emphasis on a complementary duality. This juxtaposition seeks to demonstrate that the novel – a joint religious meditation by the narrator, Riobaldo, and Rosa himself – typifies the devil as a nonexistent, but highly active, being; and God a radically existent, but inoperative one. Always acknowledging the limits of this approach, the article thereby delineates the fields, roles and performance of these two significant characters.

Key-words: God, devil, theology, literature, Guimarães Rosa

"Deus está debaixo da mesa; o diabo está atrás do armário;

Deus está atrás da porta; o diabo está no meio da sala; o que

há de errado com meu coração? o que há de errado? Deus está

lendo jornal; o diabo está dançando; o diabo está fazendo o

jantar; Deus está escrevendo uma carta; o que há de errado

com meu coração? O que há de errado? Deus está sonhando;

o diabo está fazendo discurso; Deus está lavando os pratos; o

diabo está tocando piano; Deus é o teto da casa; o diabo é a

porta dos fundos; o diabo é o chão da cozinha; Deus é o vão da

entrada; o que há de errado com meu coração? O que há de

errado?"

 

1. Água de todo o rio

Introduzo esse presente texto com essa música do Titãs, de au-tor

desconhecido, ou melhor, não encontrado 156, para tentar mostrar a relação existente entre Deus e o Diabo no Grande Sertão: Veredas de João Guimarães Rosa. É certo que a música não é de Rosa e nem expressa, literariamente, a grandeza do autor; contudo, o tema "Deus e o Diabo", lido a partir da música, aproxima-se de forma interessante da confusão existente entre a pessoa de Deus e a pessoa do diabo no Grande Sertão: Veredas, texto rosiano. No romance, assim como na música, o divino e o diabólico encontram-se numa constante confusão de lugares e ações, o que leva o autor a não compreender em quais dimensões se expressam, na sua mente e no seu coração, ou um ou o outro, já que ambos fazem parte da mesma realidade e, de forma confusa, habitam os mesmos lugares e os mesmos espaços da vivência humana, lugares de luta, onde "viver é um negócio muito perigoso".

Durante as aproximadas seiscentas páginas do livro, o narrador, Riobaldo ex-jagunço, conta-nos, a partir do narrar de sua história de vida, o seu drama existencial, a sua dor humana. Esse seu contar, que é feito de forma extraordinária num único e ininterrupto fôlego, é um narrar que procura, no próprio contar, resgatar as memórias mais significativas de sua existência e de sua dor; é também, como contar, uma procura por algo que seja mais do que apenas lembrar, é uma procura por significados e respostas de questões primordiais da vida (Cf. MORAIS, 2001. p. 155). O Riobaldo narrador, de forma

semelhante ao escritor157, procura, nos ambientes de fé, na religião ou nas religiões que fazem parte da sua realidade sertaneja, por elementos de organização e de significação da vida e da existência. É o próprio Riobaldo que diz: "bebo água de todo o rio" (ROSA, 2001. p. 32), referindo-se ao universo religioso do qual ele, personagem-narrador, e também ele, Guimarães Rosa – o

escritor158, fazem parte. A religião, para ambos – que também podem ser o mesmo – não é lugar de enfraquecimento do humano;

a religião não 159 afraca, ela, como mecanismo de defesa contra a loucura da vida, age de forma contrária, cria sentido, fortalece, desendoidece: "O que mais penso, testo e explico: todo-o-mundo é louco. O senhor, eu, nós, as pessoas todas. Por isso é que se carece principalmente de religião: para desendoidecer, desdoidar. Reza é que sara loucura" (ROSA, 2001. p. 32, negrito nosso).

É esse imaginário de vida e de fé que fazem com que todo o Grande Sertão: Veredas seja uma reflexão para além da literatura, uma obra que quer, como objetivo central, tentar "rodear e devassar um pouquinho o mistério cósmico, esta coisa movente, impossível, perturbante, rebelde a qualquer lógica, que é chamada "realidade", que é a gente mesmo, o mundo, a vida" (BUSSOLOTTI, 2001. p.

38)160. Sua preocupação como escritor e como personagem-narrador é clara, é algo existencial e metafísico:

"Sempre sei, realmente. Só o que eu quis, todo o tempo, o que

eu pelejei para achar, era uma só coisa – a inteira – cujo

significado e vislumbrado dela eu vejo que sempre tive. A que

era: que existe uma receita, a norma dum caminho certo,

estreito, de cada uma pessoa viver – e essa pauta cada um tem

– mas a gente mesmo, no comum, não sabe encontrar; como é

que, sozinho, por si, alguém ia poder encontrar e saber? Mas,

esse norteado, tem. Tem que ter. Se não, a vida de todos ficava

sendo sempre o confuso dessa doideria que é. E que: para

cada dia, e cada hora, só uma ação possível da gente é que

consegue ser a certa. Aquilo está no encoberto; mas, fora

dessa conseqüência, tudo o que eu fizer, o que o senhor fizer, o

que o beltrano fizer, o que todo-o-mundo fizer, ou deixar de

fazer, fica sendo falso, e é o errado. Ah, porque aquela outra é

a lei, escondida e vivível mas não achável, do verdadeiro viver:

que para cada pessoa, sua continuação, já foi projetada, como

o que se põe, em teatro, para cada representador – sua parte,

que antes já foi inventada, num papel..." [...] "E procurar

encontrar aquele caminho certo, eu quis, forcejei; só que fui

demais, ou que cacei errado. Miséria em minha mão. Mas

minha alma tem de ser de Deus: se não, como é que ela podia

ser minha? O senhor reza comigo. A qualquer oração. Olhe:

tudo o que não é oração, é maluqueira... Então, não sei se

vendi? Digo ao senhor: meu medo é esse. Todos não vendem?

Digo ao senhor: o diabo não existe, não há, e a ele eu vendi a

alma... Meu medo é este. A quem vendi? Medo meu é este,

meu senhor: então, a alma, a gente vende, só, é sem nenhum

comprador..." (ROSA, 2001. p. 500-501, negrito nosso).

O romance, pela narrativa de Riobaldo, segue então um caminho de muitas reflexões sobre sua própria vida. Vida de um sertanejo, ex-jagunço, que pode muito bem ser a reflexão sobre a vida no comum de pessoas reais e de suas relações com a angústia e com o sofrimento; como também de suas perguntas existenciais e suas relações de fé, que são objeto de interesse do presente artigo, que, limitado pelo tema "Deus e o Diabo", procura analisar tal imaginário apresentado no romance.

 

2. Um dualismo bem definido

Em um primeiro momento, não pensado de forma cronológica – já que o texto possui uma forma diferente de trabalhar o tempo, é um tempo a partir da memória, fragmentado –, o romance carrega uma divisão bem dualista, definida e bem separada entre Deus e o diabo, entre o bem e o mal. As imagens que se processam de um e do outro, em alguns momentos do romance, têm ligações bem claras entre a pessoa e aquilo que se espera da pessoa: o bem ligado a Deus e o mal ligado ao diabo; além de uma clara distinção e divisão entre ambos. Deus e o diabo, em alguns momentos do texto, são entendidos como contrários entre si: "Deus é paciência. O contrário, é o diabo. Se gasteja" (ROSA, 2001. p. 33). Contudo, é importante salientar que aqui o imaginário é kardecista, já que a contrariedade entre um e o outro está na forma de castigo usada para a punição do humano reencarnado; porém, não deixa de haver no texto uma divisão bem dualista entre Deus e o diabo, mesmo que a questão

maniqueísta161 não esteja muito bem definida. Isto ocorre porque não se sabe, ou não fica claro, de quem vem o bem e de quem vem o mal, ou ainda, o que é o bem e o que é o mal. No entanto, o

elemento de dualidade está presente e mostra a oposição 162:

"E, outra coisa: o diabo, é às brutas; mas Deus é traiçoeiro! Ah,

uma beleza de traiçoeiro – dá gosto! A força dele, quando quer

– moço! – me dá medo pavor! Deus vem vindo: ninguém não

vê. Ele faz é na lei do mansinho – assim é o milagre. E Deus

ataca bonito, se divertindo, se economiza" (ROSA, 2001. p. 39,

negrito nosso).

 

3. O bem e o mal: explicações insuficientes

Já num segundo momento, de forma mais clara e abundante do que no primeiro, encontramos uma crise no simplismo explicativo do dualismo e do maniqueísmo. Para Riobaldo, um sertanejo, explicar o mundo a partir de dois conceitos básicos e opostos é insuficiente como explicação para os conflitos da vida vividos na realidade do sertão. Esta realidade que nos proíbe de entender tudo de forma rápida e simples, o bem e o mal, o bom e o ruim, o belo e o feio, tudo muito bem separado e nos seus devidos lugares:

"Eu queria decifrar as coisas que são importantes. E estou

contando não é uma vida de sertanejo, seja se for jagunço, mas

a matéria vertente. Que-ria entender do medo e da coragem, e

da gã que empurra a gente para fazer tantos atos, dar corpo ao

suceder. O que induz a gente para más ações estranhas, é que

a gente está pertinho do que é nosso, por direito, e não sabe,

não sabe, não sabe! [...] Lhe falo do sertão. Do que não sei. Um

grande sertão! Não sei. Ninguém não sabe. Só umas raríssimas

pessoas – e só poucas veredas, veredazinhas" (ROSA, 2001.

p.116).

Mesmo a explicação do compadre Quelemém, grande amigo de Riobaldo, de que a dor, o sofrimento e o próprio diabo (ou espíritos desencarnados) são instrumentos para a lapidação da alma humana, uma forma de transformar o que é ruim em bom a partir de um castigo dado por um pecado anteriormente cometido, numa vida passada, não serve como resposta. Duas histórias contadas por Riobaldo, casos acontecidos na sua vizinhança, servem de contestação para tal explicação: A primeira é a de um senhor chamado Aleixo, homem que segundo o narrador era das

"maiores ruindades calmas que já se viu. [...] Um dia, só por

graça rústica, ele matou um velhinho que por lá passou,

desvalido rogando esmola. [...] vem pão, vem mão, vem são,

vem cão. [...] um ano passado, de se matar o velhinho pobre, e

os meninos do Aleixo aí adoeceram [...] – eles restavam cegos.

O Aleixo [movido pelo sofrimento dos meninos] agora vive da

banda de Deus" (ROSA, 2001.p. 29).

A segunda história é a de Pedro Píndo, "homem de bem por tudo em tudo, ele e a mulher dele, sempre sidos bons, de bem". Todavia, mesmo sendo bons, possuíam um filho de nome Valtêi que era a imagem da ruindade, "uma vez (conta Riobaldo) encontrou uma crioula benta-bêbada dormindo, arranjou um caco de garrafa, lanhou em três pontos a popa da perna dela". O seu desejo era sempre meio escuro: "eu gosto é de matar..." numa ocasião disse a Riobaldo. Mas, diferente da história anterior, onde o mal passou a ser bem quando o lado inocente do bem foi castigado – o que já aparenta ser uma incoerência da vida –, nessa outra história, a do Pedro Píndo, de sua esposa e de filho, o Valtêi, foi o bem que passou a ser mal quando o mal foi castigado, já que o pai e mãe, gente tida como "sempre sidos bons, de bem", passaram a ser maus, extremamente violentos com o filho. Além disso, sabendo que idéia é de que o menino pagava por um crime cometido no passado – imaginário kardecista, há ainda o fato de que quando o mal dele e

de outra suposta vida era nele castigado 163, no meio do castigo, no processo das constantes surras, passou a assemelhar-se, no seu sofrimento, ao bem: "Ah, mas, acontece, quando está chorando e penando, ele sofre igual que se fosse um menino bonzinho..." (ROSA, 2001. pp. 29-30). As histórias revelam a insuficiência das explicações diante da realidade vivida que se apresenta, mesmo sendo essas explicações dadas por seu mentor espírita, o compadre Quelemém, por quem ele nutre profundo respeito.

Outro elemento não resolvido pelo texto, não resolvido na mente de Riobaldo, já levantada anteriormente, é a questão do bem e do mal,

questão de definição e de origem164. Na narrativa não é o bem que vence o mal, e não é o mal que vence o bem, os dois coexistem em lugares comuns, ora em união, ora em conflito; ora com a origem certa, ora com a origem errada ou, para ser mais exato: confusa. O que é o bem e o que é o mal? Qual é a origem de ambos? Onde está o lugar onde eles se separam? Essa confusão, não muito maniqueísta, se evidencia de forma mais plena na relação de amor mesmo amor de Riobaldo por Diadorim: "Mas o mal de mim, doendo e vindo, é que tive de compensar, numa mão e noutra, amor com amor (Otacília e Diadorim). [...] se aquele amor (Otacília) veio de Deus, como veio, então – o outro (Diadorim)?", "[...] o amor assim pode vir do demo? Poderá?!" (ROSA, 2001. p.155-156). O seu amor por Diadorim era "de amor mesmo amor, mal encoberto em amizade" (p. 305), mas era amor de origem desconhecida, já que um bem, o amor, não poderia vir do mal, o diabo; mas esse amor não era bem-amor, era mal, era um amor de um homem por outro homem: "de que jeito eu podia amar um homem, meu de natureza igual, macho em suas roupas e armas, espalhado rústico em suas ações?! Me franzi. Ele tinha culpa? Eu tinha culpa?" (ROSA, 2001. p. 511); e por ser mal-amor não poderia também vir do bem, não poderia vir de Deus. De onde então viria tal amor?

"Estou contando ao senhor, que carece de um explicado.

Pensar mal é fácil, porque esta vida é embrejada. A gente vive,

eu acho, é mesmo para se desiludir e desmisturar. A

senvergonhice reina, tão leve e leve pertencidamente, que por

primeiro não se crê no sincero sem maldade. Está certo, sei.

Mas ponho minha fiança: homem muito homem que fui, e

homem por mulheres! [...] Então – o senhor me perguntará – o

que era aquilo? Ah, lei ladra, o poder da vida. [...] Era ele estar

perto de mim, e nada me faltava. Era ele fechar a cara e estar

tristonho, e eu perdia meu sossego. Era ele estar longe, e eu só

nele pensava. E eu mesmo não entendia o que aquilo era? Sei

que sim. Mas não. E eu mesmo entender não queria. Acho que.

Aquela meiguice, desigual que ele sabia esconder o mais de

sempre. E em mim a vontade de chegar todo próximo, quase

uma ânsia de sentir o cheiro do corpo dele, dos braços, que às

vezes adivinhei insensatamente – tentação dessa eu

espairecia, aí rijo comigo renegava. Muitos momentos.

Conforme, por exemplo, quando eu me lembrava daquelas

mãos, do jeito como se encostavam em meu rosto, quando ele

cortou meu cabelo. Sempre. Do demo: Digo? Com que

entendimento eu entendia, com que olhos era que eu olhava?

Eu conto, O senhor vá ouvindo. Outras artes vieram depois"

(ROSA, 2001. pp.165-166).

Além dessa relação com o Dia... Diadorim, "o Dia + adora + im = Diá (diabo) + dor" (CAMPOS, s/d. p. 60), que carrega esses elementos de confusão entre o bem e o mal, entre aquilo que é bom e aquilo que é mau no próprio nome, existem também outras relações de ambigüidade que podem ser analisadas a partir do texto, o

Hermogénes, por exemplo, homem de tão grandes 165 feiuras e ruindades, poderia, eventualmente, ter também um aspecto de bondade:

"Ái-de-vai, meu pensamento constante querendo entender a

natureza dele, virada diferente de todas, a inocência daquela

maldade. A qual me aluava. O Hermógenes, numa casa, em

certo lugar, com sua mulher, ele fazia festas em suas crianças

pequenas, dava conselho, dava ensino. Daí, saía. Feito

lobisomem? Adiante de quem, atrás de quem, atrás de que? A

cruz o senhor faça, meu senhor!" (ROSA, 2001. pp.250-251).

Nessa mesma relação de dualismo e ambigüidade está também um bem, lado entendido sempre como o vitorioso, que não obtém a vitória sobre o mal nos combates narrados no romance, pelo contrário, é vencido pelo mal. Deus, na realidade do sertão, não consegue vencer o diabo nessa luta maniqueísta. Quando chega o momento da vingança do bem sobre o mal, da justiça sobre a injustiça, o bem acaba não podendo mais do que o mal, Deus não pode mais do que o diabo:

"Saímos, sobre, fomos. Mas descemos no canudo das

desgraças, ei, saiba o senhor. Desarma do tempo, hora da paga

e perdas, e o mais, que a gente tinha de purgar, segundo se

diz. Tudo o melhor fizemos, e tudo no fim desandava. Deus não

devia de ajudar a quem vai por santas vinganças?! Devia. Nós

não estávamos forte em frente, com coragem esporeada?

Estávamos. Mas, então? Ah, então: mas tem o Outro – o figura,

o morcegão, o tunes, o cramulhão, o dêbo, o carôcho, do pé-

de-pato, o malencarado, aquele – o-que-não-existe! Que não

existe, que não, que não, é o que minha alma soletra. E da

existência desse me defendo, em pedras pontudas ajoelhados,

beijando a barra do manto de minha Nossa Senhora Abadia!

Ah, só me vale; mas vale por um mar sem fim... Sertão. [...]

Contra o demo se podia? Quem a quem? Milagres tristes

desses também se dão. Como eles conseguiram fugir das

unhas da gente, se escaparam – o Ricardão e o Hermógenes –

os Judas" (ROSA, 2001. pp.317-318, negrito nosso).

É então que Riobaldo, por ver que Deus não podia mais do que o demo, fez seu pacto, para que talvez assim, sendo pactário como era o inimigo Hermógenes, pudesse alcançar a vitória e a vingança, dando a entender que só o mal é que pode vencer o mal.

 

4. Deus e o diabo: inoperância e inexistência

No terceiro e último momento, já nas reflexões de Riobaldo como velho ex-jagunço, depois da vingança concluída, da morte de Ricardão e Hermógenes, e da triste revelação de que Diadorim era mulher, nosso narrador conclui, ou melhor, conclui, mas sem deixar de fazer questionamentos, de que o diabo não existe. Na realidade o texto tem início com essa declaração do narrador, que é também a mesma declaração que está na última frase do livro, o que imagino seja também uma forma de costurar o texto em uma única reflexão: "O diabo não há! É o que eu digo, se for... Existe é homem humano. Travessia" (ROSA, 2001. p. 624). Reflexão que nos leva a entender que no sertão, na luta entre o bem e o mal, não há derrotas e vitórias, há sim, e tão somente, perdas e ganhos de uma vida vivida sem Deus (bem) e sem o diabo (mal), uma total liberdade. É possível entender que Riobaldo, mais amadurecido, chega à conclusão de aquilo que mais existe, na realidade da vida, é o que não existe; e que aquilo que menos existe ou não existe, na vida vivida, é o que mais existe: "Deus existe mesmo quando não há. Mas o demônio não precisa de existir para haver – a gente sabendo que ele não existe, aí ele toma conta de tudo" (ROSA, 2001. p. 76, negrito nos-so). Aquilo que não existe, o diabo, por ser diabo, precisa ser negado, mesmo que haja a impossibilidade de sua negação, pois ele, mesmo não existindo existe naquilo que o figura como diabo, o diabólico, o que é, sem sombra de dúvidas, o que mais existe na vivência humana:

"O diabo não existe? [...] O senhor vê: existe cachoeira; e pois?

Mas cachoeira é barranco de chão, e água se caindo por ele,

retombando; o senhor consome essa água, ou desfaz o

barranco, sobra cachoeira alguma? [...] Explico ao senhor: o

diabo vige dentro do homem, os crespos do homem – ou é o

homem arruinado, ou o homem dos avessos. [...] Tem diabo

nenhum. Nem espírito. Nunca vi. [...] Bem, o diabo regula seu

estado preto, nas criaturas, nas mulheres, nos homens. Até:

nas crianças – eu digo. Pois não é ditado: "menino – trem do

diabo"? E nos usos, nas plantas, nas águas, na terra, no

vento... Estrumes... O diabo na rua, no meio do redemunho..."

(ROSA, 2001. pp.26-27, negrito nosso).

Por outro lado, Deus não pode deixar de existir, pois é Ele, mesmo não agindo e não havendo, que cria sentido para a vida:

"Como não ter Deus?! Com Deus existindo, tudo dá esperança:

sempre um milagre é possível, o mundo se resolve. Mas, se

não tem Deus, há-de a gente perdidos no vai-vem, e a vida é

burra. É o aberto perigo de grandes e pequenas horas, não se

podendo facilitar – é todos contra os acasos. Tendo Deus, é

menos grave se descuidar um pouquinho, pois, no fim dá certo.

Mas, se não tem Deus, então, a gente não tem licença de coisa

nenhuma! Porque existe dôr" (ROSA, 2001. p. 76, negrito

nosso).

Para Riobaldo, Deus não pode deixar de existir, pois é o único que pode criar ordem na existência humana e, de certa forma, também o único que pode gerar esperança no coração sofrido do sertanejo, mesmo e apesar de ser um Deus que só age por intermédio das

pessoas166. Deus na realidade do sertão, na realidade sertaneja, é

uma figura inconstante em suas ações 167 – às vezes totalmente inoperante –, e ainda, de só ser visível aos homens por meio daquele que lhe é o contrário:

"[...] quem-sabe, a gente criatura ainda é tão, que Deus só pode

às vezes manobrar com os homens é mandando por intermédio

do diá? Ou que Deus – quando o projeto que ele começa é para

muito adiante, a ruindade nativa do homem só é capaz de ver

aproximo de Deus é em figura do Outro?" (ROSA, 2001. p. 56,

negrito nosso).

Mesmo desejando que as coisas fossem bem definidas, fáceis de serem observadas e identificadas, e bem separadas, como enxergava seu amigo dos tempos de jagunço, o Jõe, em quem, no sentir de sua natureza, "não reinava misturas nenhuma nesse mundo – as coisas eram bem divididas, separadas" (ROSA, 2001. p.237). Mesmo assim, desejoso disso, Riobaldo não conseguiu chegar a outra conclusão que não fosse a de que não existe

diabo 168 e de que Deus, mesmo existindo, entregou-nos às angústias da vida e a solidão:

"Deus está em tudo – conforme a crença? Mas tudo está

vivendo demais, se remexendo. Deus está mesmo

vislumbrando era se tudo se esbarrasse, por uma vez. Como é

que se pode pensar toda hora nos novíssimos, a gente estando

ocupado com estes negócios gerais? Tudo o que já foi, é o

começo do que vai vir, toda a hora a gente está num cômpito.

Eu penso é assim na paridade. O demônio na rua... Viver é

muito perigoso; e não é não. Nem sei explicar estas coisas. Um

sentir é o do sentente, mas outro é o do sentidor" (ROSA, 2001.

p.328).

 

5. Esperança e desespero

Desse modo, no Sertão SerTAO de Rosa, nada se explica – mas tudo se diz – sobre essa existência inoperante e sobre essa inexistência em ação e acontecimento, de um que existe mesmo quando não há e do outro que não precisa existir para haver. Não há conclusões, não é para haver, há apenas reflexões de uma narrativa mítica, com tons de sacralidade teológica, que procura por respostas para aquilo que não se responde, a existência humana e seu sofrimento, a vida do homem humano, travessia.

Deus e o diabo lidos no Grande Sertão: Veredas são assim, personagens, atores principais, mas, ao mesmo tempo, secundários, importantes, no entanto, apenas como reflexão daquilo que diz respeito à única realidade existente, a travessia do homem humano. É assim que Riobaldo lê a vida. É assim que Guimarães Rosa escreve a vida: "a vida é ingrata no macio de si; mas transtraz a esperança mesmo do meio do fel do desespero. Ao que, este mundo é muito misturado" (ROSA, 2001. p. 237).

 

Referências

BUSSOLOTTI, Maria Aparecida Faria Marcondes (org). João Guimarães Rosa: Correspondência com seu tradutor alemão Curt Meyer-Clason. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2003, 447p.

CAMPOS, Augusto de. Um lance de "dês" do Grande Sertão. In: CAMPOS, Augusto de, CAMPOS, Haroldo de e XISTO, Pedro. Guimarães Rosa em três dimensões.São Paulo: Conselho Estadual de Cultura; Comissão de Literatura, s/d. pp.41-70. (Coleção Ensaio).

MARTINS, Nilce Sant'anna. O léxico de Guimarães Rosa. São Paulo: Edusp, 2001, 536p.

MORAIS, Márcia Marques de. A travessia dos fantasmas: literatura e psicanálise em Grande Sertão: Veredas. Belo Horizonte: Autêntica, 2001, 176p.

MORAIS, Márcia Marques de. Riobaldo e suas más devassas no con-tar. In: DUARTE, Lélia Parreira e ALVEZ, Maria Theresa (organizadoras). Outras margens: estudos na obra de Guimarães Rosa. Belo Horizonte: Autêntica, 2001, pp.151-172.

ROSA, João Guimarães e BIZZARRI, Edoardo. João Guimarães Rosa: correspondência com seu tradutor Italiano Edoardo Bizzarri. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2003, 207p.

ROSA, João Guimarães. Grande Sertão: Veredas. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001, 624p.

ROSA, Vilma Guimarães. Relembramentos: João Guimarães Rosa, meu pai. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1983, 457p.

SILVA, Clademilson Fernandes Paulino da. Liberdade e sofrimento: o "Grande Sertão: Veredas" de João Guimarães Rosa em diálogo com a teologia de Juan Luis Segundo. São Bernardo do Campo: UMESP, 2005, 133p. (Dissertação de Mestrado).

UTEZA, Francis. João Guimarães Rosa: metafísica no Grande Sertão. (tradução: José Carlos Garbuglio). São Paulo: EDUSP, 1994, 459p.

XISTO, Pedro. À busca da poesia. In: CAMPOS, Augusto de, CAMPOS, Haroldo de e XISTO, Pedro. Guimarães Rosa em três dimensões.São Paulo: Conselho Estadual de Cultura; Comissão de Literatura, s/d. pp.07-39. (Coleção Ensaio).

* É Bacharel em Teologia pela Faculdade Teologia Batista de Campinas – FTBC, Mestre e Doutorando em Ciências da Religião pelo Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião da Faculdade de Filosofia e Ciências da Religião da Universidade Metodista de São Paulo – UMESP, com apoio da CAPES. E-mail

para contato: clademilson@uol.com.br.

156 O CD UM: 84/94 dá apenas a indicação de Paulo Miklos, Sérgio Britto e Nando Reis. Em outros lugares pesquisados a indicação é a de autor desconhecido ou indisponível, por essa razão preferi colocar a explicação: "desconhecido, ou melhor, não encontrado".

157 "Até hoje, não chego, a respeito de tais itens, as idéias nítidas, definidas. E quanto mais leio e vivo e medito, mais perplexo a vida, a leitura e a meditação me põem. Tudo é mistério. A vida é só mistério. Tudo é e não é. Ou: às vezes é, às vezes não é. (Todos os meus livros só dizem isso). Tudo é muito impuro, misturado confuso. [...] Deixo de pensar em tudo o que é de César. Fujo das formulações, das definições, das conceituações mais ou menos rígidas e esqueléticas, das conclusões gerais. Rezo, escrevo, amo, cumpro, suporto, vivo, mas só me interessando pela eternidade. Só acredito na solução religiosa para o homem; para o indivíduo [...]" (ROSA, 1983. pp. 344-345).

158 "[...] apenas, posso dizer a Você o que Você já sabe: que sou profundamente, essencialmente religioso, ainda que fora do rótulo estricto e das fileiras de qualquer confissão ou seita; antes, talvez, como o Riobaldo do "G.S: V.", pertença a todas. E especulativo, demais. Daí, todas as minhas, constantes, preocupações religiosas, metafísicas, embeberem os meus livros. Talvez meio-existencialista-cristão (alguns me classificam assim), meio neo-platônico (outros me carimbam disto), e sempre impregnado de hinduísmo (conforme terceiros). Os livros são como eu sou. [...] Ora, Você já notou, decerto, que, como eu, os meus livros, em essência, são "anti-intelectuais" – defendem o altíssimo primado de intuição, de revelação, de inspiração sobre o bruxolear presunçoso da inteligência reflexiva, da razão, a megera cartesiana. Quero ficar com o Tão, com os Vedas e Upanixades, com os Evangelistas e São Paulo, com Platão, com Plotino, com Berson, com Berdieff – com Cristo, principalmente" (ROSA e BIZZARRI, 2003. p.90. Carta de 25 de novembro de 1963).

159 "[...] não ache que a religião afraca" (ROSA, 2001. p. 39).

160 "Todos os meus livros são simples tentativas de rodear e devassar um pouquinho o mistério cósmico, esta coisa movente, impossível, perturbante, rebelde a qualquer lógica, que é chamada "realidade", que é a gente mesmo, o mundo, a vida. Antes o obscuro que o óbvio, que o frouxo. Toda lógica contém inevitável dose de mistificação. Toda mistificação contém boa dose de inevitável verdade. Precisamos também do obscuro" (BUSSOLOTTI, 2003. p. 238. Carta de João Guimarães Rosa de 09 de fevereiro de 1965).

161 Uso essa expressão por não encontrar outra melhor.

162 "[..] Deus é definitivamente; o demo é o contrário Dele..." (Rosa, 2001. p.58).

163 "Pois, o senhor vigie: o pai, Pedro Pindó, modo de corrigir isso, e a mãe, dão nele, de miséria e mastro – botam o menino sem comer, amarram em árvores no terreiro, ele nu nuelo, mesmo em junho frio, lavram o corpinho dele na peia e na taca, depois limpam a pele do sangue, com cuia de salmoura. [...] O menino já rebaixou de magreza, os olhos entrando, carinha de ossos, encaveirada, e entisicou, o tempo todo tosse, tossura da que puxa secos peitos. Arre, que agora, visível, o Pindó e a mulher se habituaram de nele bater, de pouquinho em pouquinho foram criando nisso um prazer feio de diversão – como regulam as sovas em horas certas confortáveis, até chamam gente para ver o exemplo bom." (Rosa, 2001. pp.29-30).

164 "Mal haja-me! Sofro pena de contar não... Melhor, se arrepare: pois, num chão, e com igual formato de ramos e folhas, não dá a mandioca mansa, que se come comum, e a mandioca-brava, que mata? Agora, o senhor já viu uma estranhez? A mandioca doce pode de repente virar azangada – motivos não sei; às vezes se diz que é por replantada no terreno sempre, com mudas seguidas, de manaíbas – vai em amargando, de tanto em tanto, de si mesma toma peçonhas. E, ora veja: a outra, a mandioca-brava, também é que às vezes pode ficar mansa, a esmo, de se comer sem nenhum mal." (Rosa, 2001. p.27).

165 "Como era o Hermogénes? Como vou dizer ao senhor...? Bem, em bró de fantasia: ele grosso misturado – dum cavalo e duma jibóia... Ou um cachorro grande." "[...] o Hermogénes era fel dormindo, flagelo com frieza." [...] "Eu não queria olhar para ele, encarar aquele carangonço; me perturbava. Então olhava o pé dele – um pé enorme, descalço, cheio de coceiras, frieiras de remeio de rio, pé-pubo. Olhava as mãos. Eu acabava achando que tanta ruindade só conseguia estar naquelas mãos, olhava para elas, mais, com asco. Com aquela mão ele comia, aquela mão ele dava à gente." [...] O Hermogénes, homem que tirava seu prazer do medo dos outros, do sofrimento dos outros. Aí, arre, foi de verdade que eu acreditei que o inferno é mesmo possível. Só o possível o que em homem se vê, o que por homem se passa. Longe é, o Sem-olho. E aquele inferno estava próximo de mim, vinha por sobre mim. Em escuro, vi, sonhei coisas muito duras. Nas larguezas do sono da gente." (Rosa, 2001. pp.186; 187 e 197).

166 "Que Deus existe, sim, devagarinho, depressa. Ele existe – mas quase só por intermédio da ação das pessoas: de bons e maus. Coisas imensas no mundo. O grande-sertão é a forte arma. Deus é um gatinho? [...] Então, onde é que está a verdadeira lâmpada de Deus, a lisa e real verdade?" (ROSA, 2001, p. 359).

167 "Deus, para qualquer um jagunço, sendo inconstante patrão, que às vezes regia ajuda, mas outras horas, sem espécie nenhuma, desandava de lá – proteção se acabou, e – pronto: marretava! Que rezavam" (ROSA, 2001. p.250).

168 "[…] o Cujo, o Oculto, o Tal, o Que-Diga, o Não-sei-que-diga, o Que-Não-Fala, o Que-Não-Ri, o que-nunca-se-ri, o Sem-Gracejos, o Tristonho, o Muito-Sério, o Sempre-Sério, o Austero, o Severo-Mor, o Galhardo, o romãozinho – um diabo menino, o Rapaz, o Homem, o Indivíduo, Dião, Dianho, Diogo, o Pai-da-Mentira, o Pai-do-Mal, o Maligno, o Coisa-Ruim, o Tendeiro, o Mafarro, o Manfarro, o Canho, o Côxo, o Capeta, o Capiroto, o Das-Trevas, o Tisnado, o Pé-Prêto, o Pé-de-Pato, o Bode-Prêto, o Cão, o Morcegão, o Gramulhão, o Xú, o Temba, o Duba-Dubá, o Azarape, o Dê, o Dado, o Danado, o Danador, o Arrenegado, o Diá, o Diacho, o Diabo, o Rei-Diabo, o Demo, o Demônio, o Drão, o Demonião, Barzabú, Lúcifer, Satanás, Satanazim, Satanão, Sujo [...], S... Sertão, o Dos-Fins, o Sôlto-Eu, o Outro, o Ele, o O..." [...] "Ele não existe, [...]". [...] "não tem diabo nenhum, não existe, não pode" (XISTO, S/D. p.29 e ROSA, 2001. p.438 e p.31).