Deuses em poéticas: estudos de literatura e teologia
Perspectivas teológicas e literárias do texto apócrifo: Apocalipse de Baruch
Perspectivas teológicas e literárias do
texto apócrifo: Apocalipse de Baruch
Silvana de Gaspari; Diógenes Braga Ramos
GASPARI, Silvana de*
RAMOS, Diógenes Braga**
Resumo: Apócrifo significa literalmente secreto, oculto. Ao longo do tempo, passaram a ser chamados apócrifos os textos ou os fatos sem autenticidade ou que não tiveram esta autenticidade comprovada pelas igrejas cristãs. Por este motivo, os textos apócrifos foram muitas vezes marginalizados enquanto literatura. O Apocalipse de Baruch, ou 2 Baruch, composto provavelmente no final do século I d.C., em hebraico (versão desaparecida), chegou até nós em uma versão siríaca. O presente artigo procurará construir os personagens de Deus e de Baruch a partir dos diálogos apresentados ao longo da narrativa apócrifa. Ainda como ponto de reflexão dos autores do presente artigo, fica a questão: é comum que Deus se utilize de palavras para se comunicar com os homens, como o apresentado no texto em questão?
Palavras-chave: Apócrifo, Baruch, apocalipse.
Abstract: "Apocryphal" means literally secret, occult. Over time, texts or facts with no authenticity or that didn't have this authenticity attested by Christian churches, came to be called apocryphal. For that reason, apocryphal texts were often marginalized as literature. The Apocalypse of Baruch, or 2 Baruch, compounded probably in Hebrew (version disappeared) at the end of first century AD, came to us from a Syriac version. This paper will attempt to construct the characters of God and Baruch form the dialogues presented along the apocryphal narrative. As a reflection, the authors propose the question: is that common that God resort to words to communicate with men, as demonstrated in the text under consideration?
Keywords: Apocryphal, Baruch, apocalypse.
Os primeiros séculos do cristianismo foram caracterizados por uma amplíssima produção de textos apócrifos e, dentre eles, os apocalipses representam um filão de interesse singular. Uma rica literatura apocalíptica se desenvolveu nestes séculos e é apresentada através de escritos gregos, latinos, coptas, siríacos, etíopes, árabes, etc. Neste tipo de literatura, são comuns as visões paradisíacas e infernais do além e o anúncio do fim do mundo. São formas de expressar a fé e a fantasia de antigas comunidades cristãs e da alma medieval em torno do destino do homem e do cosmos. Estes escritos, quase que clandestinos, foram rejeitados pela Igreja, mas muito difundidos em nível popular e documentam o esforço da espiritualidade cristã de configurar, de modo acessível, à mente e ao coração do homem. São, de forma geral, respostas de fé às mais árduas perguntas humanas, como nos afirma Paulo Leminski em Jesus a. C:
Houve muitos apocalipses: era, entre os judeus, um dos
gêneros textuais mais praticados um pouco antes e um pouco
depois do advento de Jesus. Nestes livros do fim do mundo,
narrava-se, com abundância de detalhes fantásticos, a
catástrofe máxima da culminação dos tempos, quando a
história, a aventura humana, adquiria seu sentido último,
pesada e medida por um super-olhar vindo de fora (Leminski,
2003, p.96).
Vale ressaltar neste momento que, por causa deste fervilhar de escritos, ocorrido no início da era cristã, a Igreja vislumbrou a necessidade de esclarecer quais seriam as obras "verdadeiramente inspiradas" e quais as que procuravam imitá-las. Em torno do final do século IV, a Igreja, então, fixou o cânone, ou seja, os livros oficiais que seriam realmente inspirados por Deus. E o que seria feito de todos os outros? Eles passaram a ser definidos como apócrifos. Apócrifo tem o sentido de secreto, oculto e, em um primeiro momento, estes livros não eram vistos negativamente. O termo designava simplesmente os escritos que eram reservados a poucos e escolhidos destinatários, que deveriam mantê-los escondidos porque seu conteúdo era por demais sacro e misterioso. Mas, quando se percebeu que muitos eram atribuídos a autores cuja autoria era duvidosa, que seu conteúdo baseava-se em narrativas inventadas ou privadas de fundamentação histórica, ou pior, que estava cheios de heresias, segundo a Igreja, o termo apócrifo passou a significar o que era falsificado, e a Igreja passou a condenar estes textos.
Já o gênero apocalíptico, ao qual pertencem muitos destes textos apócrifos, tem origem no âmbito judaico pré-cristão, a partir do século II a.C., e é representado por inúmeros manuscritos. Alguns fazem parte do Antigo Testamento, outros não. São os que são reconhecidos como apócrifos. O gênero apocalíptico evoluiu do profetismo, do qual se diferencia por seu caráter escatológico, ou seja, o desenho de Deus se completa além do tempo, com um juízo que conclui a história e lhe revela o sentido. É o olhar para a eternidade e para o infinito que desemboca e se conclui na história da salvação. Os apocalipses apócrifos têm, geralmente, uma intenção moral de dirigir o homem através do caminho do bem e livrá-lo do pecado, utilizando-se de sua imaginação. E, já que a intenção é atingir o homem comum, são textos construídos com imagens simples, descritas com vivacidade, com estilo repetitivo e linguagem teológica, geralmente, tida como pobre.
Mas, mesmo que cheguemos à conclusão de que os apócrifos são textos pobres do ponto de vista teológico, eles não deixam de ser um documento popular que apresenta as respostas sobre as questões da espiritualidade humana. Respostas estas que nos oferecem elementos importantes para entender os medos, os sentimentos e as convicções morais da época em que surgiram. As descrições do inferno e do paraíso, as representações de anjos e demônios, as correspondências entre culpa e punição nos trazem à memória, inclusive, a Divina Comédia, de Dante Alighieri, cujo autor, mesmo sem podermos afirmar que tenha lido as obras em questão, viveu em um ambiente saturado pelas idéias ali descritas. Assim, podemos dizer que, muito da arte produzida até a Idade Média, era impregnada pelas idéias representadas nos apocalipses apócrifos.
A literatura apocalíptica se caracteriza por alguns aspectos como:
1. elemento histórico: os escritos estão sempre muito ligados à
situação histórica do momento, que é geralmente representada
através de imagens e visões;
2. autor: o escritor se serve, geralmente, de um pseudônimo, ou
seja, utiliza-se do nome de um personagem ilustre do passado
para dar autenticidade a seu texto;
3. visões: a mensagem, que deve ser transmitida ao povo, é
apresentada através de visões;
4. previsões: a uma imagem angustiante do presente sempre
corresponde uma imagem melhor do futuro;
5. símbolos: outro aspecto muito importante desta literatura é o
elemento simbólico. Entre os autores deste gênero, havia um
alto e elaborado sistema de símbolos e de figuras para exprimir
idéias espirituais. Isto tornava a linguagem geralmente obscura
e incompreensível. Um dos sistemas simbólicos mais utilizados
nestes textos e que é estudado até hoje são os números;
6. elemento dramático: este seria talvez o instrumento de maior
efeito usado neste gênero literário. Os detalhes, geralmente,
aparecem com maior destaque com o propósito evidente de
gerar estupor e, assim, maravilhar o leitor.
Neste contexto é que situamos O Apocalipse de Baruch. O texto em questão é classificado como literatura apocalíptica, já que sua
abordagem relaciona-se com as questões da alma após a morte219. Esta característica pode ser observada no próprio texto do Apocalipse de Baruch, que encontramos no livro Apócrifos III – Os proscritos da Bíblia, organizado por Maria Helena de Oliveira Tricca.
Ele falou-me: 'Escuta, Baruch, as seguintes palavras, e escreve
no íntimo do teu coração o que estás a ouvir! Com certeza, a
terra devolverá os seus mortos, aqueles que ela recebeu sob
sua guarda, sem em nada mudar-lhes a aparência. Da forma
como os recebeu, assim os restituirá; como eu lhos entreguei,
assim os deixará reaparecer. Então será necessário revelar aos
vivos que esses mortos foram reavivados e que retornaram
aqueles que outrora haviam partido. E os que se reconhecerem
é porque já se haviam conhecido antes, de sorte que será
grandioso o julgamento, realizando-se o que fora prenunciado
(Tricca, 1995, p.327).
O texto de Baruch foi originalmente escrito em hebraico e traduzido posteriormente para o grego e o siríaco, não existindo muitas pesquisas que façam referência a esta narrativa apócrifa, ao menos
no Brasil.220 Conforme nos informa o livro canônico de Jeremias: "Baruch foi encarregado por Jeremias de cuidar dos hebreus no cativeiro; também foi incumbido de devolver ao Templo os objetos sacros que haviam sido saqueados pelos caldeus." (Ibidem, 1995, p.297). Aqui, gostaríamos de ressaltar que nosso objeto de estudo é o livro apocalíptico de Baruch, e não o texto canônico de Baruch, que faz parte do cânon católico romano, nem um outro apócrifo de pouca envergadura, de tradução grega, que se perdeu e possui o mesmo nome: Apocalipse de Baruch. Estes esclarecimentos se fazem necessários, pois, como estes são textos muito antigos e encontrados, na maioria das vezes, em péssimas condições de conservação, é preciso ter clara a referência do texto, ou versão, escolhida para ser trabalhada.
O Apocalise de Baruch ou 2 Baruch, foi provavelmente compilado em fins do primeiro século d.C. Como salientamos acima, a versão que nos chega às mãos é uma versão em siríaco. Cronologicamente, é difícil classificar o texto, mesmo quando ele mesmo faz referência de que se constrói: "Ao vigésimo quinto ano do rei de Judá, Jeconias, foi anunciada a palavra de Deus a Baruch, filho de Nérias" (Ibidem, 1995, p.303, I, "Anúncio da Ruína de Jerusalém"). Este relato tem problemas de fundamentação histórica, pois Jeconias subiu ao trono com dezoito anos e reinou somente por
três meses, passando o resto de sua vida na Babilônia.221
Sabemos que a situação do povo judeu sempre foi de muita insegurança. Após a destruição de Jerusalém, em 587 a.C., alguns judeus foram deportados para a Babilônia e outros se estabeleceram no Egito. Estes judeus eram conhecidos como de
Diáspora. 222 Muitos destes judeus tinham uma formação cultural e religiosa bem estruturada. Assim, se reuniam nas sinagogas, liam e estudavam a lei e os profetas, criando inclusive seus próprios livros
inspirados, como os de 223 Tobit, Ester, Judite, Sabedoria e Baruch .
Somente como um breve esclarecimento, o texto canônico de Baruch narra situações do fim do exílio, tendo uma relação com os escritos do Dêutero-Isaías (550-540 a.C.). Baruch foi secretário de Jeremias (Jr. 36) e conhecia a situação do exílio e, conseqüentemente, a dos exilados (Jr. 29). Contudo, a autoria do texto não possui características de que ele tenha sido o mesmo redigido por Baruch. "Aos redatores dos livros proféticos do século III, deve ter parecido apropriado atribuir a Baruc, famoso secretário de Jeremias, essa coleção de escritos que tratam da situação e dos desafios dos exilados" (Ellis, 1999, p.455). Partindo destas observações é que alguns estudiosos caracterizam Baruch como um texto pseudepígrafo. Esta literatura teria sido conservada somente por uma parte limitada da Igreja Ocidental da Idade Média, ou de regiões periféricas do cristianismo, segundo Leonard Rost em Introdução aos livros apócrifos e pseudepígrafos do Antigo Testamento e aos Manuscritos de Qumran:
Se partirmos do significado do termo "pseudepígrafo", incluímos
aí aqueles escritos que eram postos em circulação sob o nome
de um autor fictício. O mais das vezes tratavam-se de célebres
varões piedosos da antigüidade, tais como Adão, Henoc,
Moisés, Elias, Jeremias, Baruc ou Salomão, sob cujo nome um
autor de época tardia esperava encontrar audiência (Rost,
2004, p.24).
Já o Apocalipse de Baruch, que é o nosso objeto de análise, mesmo possuindo características semelhantes ao texto canônico de Baruch, nos chama a atenção pelo fato do diálogo que Deus mantém com Baruch. Neste diálogo, Deus descreve a situação das tribos de Israel que não estavam na Diáspora. Aqui, passamos a observar o texto a partir de suas características literárias pois, como apresentado por Antonio Carlos Magalhães na revista Estudos da Religião, Nº 24:
A construção literária em seus aspectos estéticos e
sistemáticos apresenta duas dimensões fundamentais: de um
lado, ela é acervo de memórias e experiências religiosas de
uma cultura; por outro, ela é intérprete dos aspectos simbólicos,
míticos e estruturais da religião. Enquanto acervo ela preserva
narrativas, guarda memórias, arquiva falas, extratos culturais,
formas de uma cultura articular a religião no cotidiano, mesmo
que em meio a um processo complexo de ressignificação, visto
que a literatura ao preservar e manter, ressignifica e esta é uma
de suas marcas na incidência sobre a realidade. Enquanto
intérprete da religião, a literatura surge como hermenêutica da
religião e do seu significado na cultura. Não nos esqueçamos
que boa parte de famosos textos literários pressupõe uma
discussão com as teorias literárias e com aspectos
interpretativos fundamentais da cultura (Magalhães, 2003,
pp.84-85).
Diante das possibilidades de entendimento do texto, gostaríamos de observar, então, como já colocamos anteriormente, a perspectiva dos diálogos do texto apócrifo de Baruch, a partir de uma leitura literária, salientando a intertextualidade que se apresenta no mesmo, que é expressa nas características culturais do texto, tanto direta como indiretamente. Sob este aspecto, o diálogo no texto, da forma como gostaríamos de enxergá-lo, é subjetividade e comunicatividade, e são estes elementos que nos aludem a verificar
os anseios do homem frente suas lutas.224
A narrativa se inicia já com o esclarecimento de que a palavra de Deus foi anunciada a Baruch no vigésimo quinto ano do reinado de Jeconias e que ela assim rezava:
Tu presenciaste tudo o que esse povo cometeu contra mim; os
pecados das duas tribos, que ainda sobraram, são mais
numerosos do que os das dez que já foram para o cativeiro. As
tribos anteriores foram coagidas por seus reis ao pecado;
porém, estas duas forçaram os seus reis nos caminhos do mal.
Por isso, eu determinei a desgraça para esta cidade e os seus
cidadãos; por algum tempo, ela deverá ser repudiada por mim,
e eu dispersarei este povo entre os pagãos. Os pagãos hão de
viver em prosperidade, mas o meu povo deverá ser castigado.
Virá então o tempo em que eles ansiarão pelas suas épocas de
paz. Digo-te o quanto segue, e transmite-o a Jeremias e a todos
os vossos pares: Abandonai esta cidade, pois o vosso
comportamento a bem dela é como uma coluna firme e vossas
orações são como uma muralha forte! (Tricca, 2003, p.303).
Deus apresenta-se aqui como um ser vingativo, que deseja punir seu povo pelos pecados cometidos. Baruch é seu mensageiro, ao qual ele se dirige de forma direta, e ao qual dá ordens que devem ser cumpridas imediatamente. Já Baruch, na seqüência do texto, demonstra-se, não como mensageiro, mas como intercessor que deseja aplacar a ira divina. Parece ser ele não um simples reprodutor da palavra de Deus, mas alguém que está ali para trazer Deus à realidade e diz:
Uma coisa, porém, Senhor, eu digo na tua presença: Que irá
acontecer depois? Porque, se Tu deixas a tua cidade cair na
desgraça e entregas tua herança aos inimigos que nos odeiam,
como poderá ainda ser lembrado o nome de Israel? (Ibidem,
p.304)
Não sabemos como o diálogo ocorre, se em forma de oração, visão, ou outra forma qualquer, mas sabemos que Baruch se apresenta como muito íntimo de Deus, tratando-Lhe inclusive na segunda pessoa e permitindo-se adverti-Lo sobre o grande erro que pode estar cometendo. Deus explica, então, a seu servo, que o mundo não acabará, que o castigo será temporário. O diálogo prossegue, sendo-nos apresentado como um discurso direto, introduzido da forma mais clássica que conhecemos, exemplo: Eu disse, falou-me então o Senhor, etc.
A narrativa segue seu curso e, mais à frente, o diálogo se estabelece com um anjo enviado por Deus a Baruch. O anjo desce dos céus e conversa com nosso personagem/autor. No próximo trecho de diálogo com o Senhor, Baruch diz somente que a palavra de Deus lhe chegou. Como? Não sabemos. Mas é novamente uma mensagem que deve ser transmitida a Jeremias, que nos parece não ser tão íntimo de Deus assim como Baruch. O recado é dado a Jeremias, que parte, e Baruch permanece em Sião a lamentar sua destruição. É, então, que ele ouve uma voz que vem do alto do céu. A voz, que é de Deus, lhe diz que ele será poupado até o final dos tempos para servir de testemunho sobre os feitos do Senhor:
Se as cidades agora tão florescentes perguntarem: 'Por que o
Deus Todo-Poderoso fez cair seus castigos sobre nós?', dizei-
lhes então, tu e os teus pares que experimentastes a presente
desgraça: 'Esta é a desgraça e o castigo que agora sobrevêm a
vós e ao vosso povo, no tempo que foi determinado, para que
os povos sem exceção sejam punidos, e nessa punição
permaneçam (Ibidem, p.308).
Mas, mesmo recebendo a graça divina e sendo poupado de perecer junto com o povo de Sião, Baruch contesta as decisões de Deus e se põe a interceder por aqueles que viveram em ordenança à palavra do Senhor e estão sobre a terra e também por aqueles que já morreram. E diz mais:
Quem pode entender tua justiça, ou escrutar a profundidade
dos teus desígnios, ou imaginar a fadiga de teus caminhos?
Quem? Quem é que pode compreender tua decisão
inconcebível, ou quem dentre os nascidos do pó pode perceber
o princípio e o fim da tua Sabedoria? Nós somos como um
sopro de vento. Pois como o sopro do vento, que sem causa
própria surge e vai, assim é também com os filhos dos homens:
não caminham pela sua própria vontade e ignoram qual será o
seu destino final (Ibidem, p.309).
Deus ouve com atenção as reclamações de Baruch e, ao responder, assume uma postura didática, passando a esclarecer todas as questões que afligem seu servo. Deus admite que Baruch tem razão em alguns pontos e passa a explicar-lhe o porquê de suas ações ao longo dos tempos. No final da fala de Deus, Baruch diz ter se afastado do lugar em que conversava com Deus e foi sentar-se em uma caverna. Lá, começa a conversar novamente com o Senhor, mas nos esclarece que é em forma de meditação. É, então, que Baruch é admoestado por Deus. Baruch aceita a advertência divina e Deus continua a esclarecer-lhe sobre seus objetivos. Neste momento, Deus se apresenta de forma paciente e tolerante, dizendo ter esperado demais para punir os pecadores. E assim prossegue o diálogo entre Baruch e o Senhor: Baruch pergunta e Deus responde, esclarecendo todas as dúvidas de seu interlocutor. São muitos os assuntos comentados por eles como: o julgamento do mundo, o tempo que durará a tribulação, a vinda do Messias, a ressurreição dos mortos. No final da meditação, Baruch se dirige ao povo, dizendo: "Que os mais velhos se reúnam ao meu redor! Muitas coisas quero dizer-lhes" (Ibidem, p.317). A partir deste instante, Baruch assume o papel que lhe foi designado por Deus, o de testemunho, e começa a advertir os povos sobre o que há de vir.
Após esta conversa com o povo, Baruch, cansado, adormece e tem uma visão com uma floresta, videiras, fontes e cedros. É mais uma forma de contato que o Senhor estabelece com seu servo. Mas ele não entende a mensagem e suplica para que Deus lhe esclareça sobre o que quis dizer com a visão. Agora, Deus é intérprete e explica a Baruch sobre o que ele viu.
O último contato que Baruch faz com Deus é através de uma súplica, a partir da qual ele intercede novamente pelos homens que estão sendo vítimas da ira divina. Novamente o diálogo é longo e o esquema de perguntas e respostas se repete. Este é o último momento relatado no texto no qual Baruch faz contato direto com Deus. Daqui por diante ele tem mais uma visão, que novamente não é entendida por ele, mas é agora o Anjo Ramiel, orientador veraz das visões, quem lhe esclarece sobre os fatos vistos por ele. O texto termina com Baruch cumprindo seu papel de anunciador e exortando o povo sobre as palavras do Senhor.
Este é, em síntese, o texto do Apocalipse de Baruch. Seu conteúdo é simples, suas imagens são claras e as respostas que ele apresenta parecem dar conta de esclarecer as dúvidas mais comuns do povo da época. Ainda verificamos que todos os elementos que caracterizam a literatura apocalíptica estão representados no texto.
O que mais nos chama a atenção nesta narrativa é a intimidade que parece existir entre Deus e Baruch. Os diálogos, mesmo quando não sabemos em que condições ocorreram, demonstram que os personagens são próximos e que já se conhecem há muito. Muito interessante é também o fato de que Baruch se sente tão à vontade na presença de Deus que até o repreende quando acredita ter Ele excedido em suas medidas punitivas em relação a seu povo. Este é, sem dúvida, um texto que nos apresenta um Deus bem diferente do que estamos acostumados a ver e conhecer pela maioria dos textos canônicos, observadas algumas exceções como Gênesis 18:16-33. Mas esta é uma construção literária não observada no Novo Testamento canônico. O Deus representado em Baruch literariamente é quase humano e sua divindade parece restringir-se ao papel de pai que ele exerce para com a comunidade.
Assim, pela literatura apócrifa de Baruch, conseguimos entender porque Rubem Alves classifica a literatura como um processo de transformação alquímica. Pois, pelas palavras apresentadas no texto apócrifo, conseguimos desmistificar a construção de um Deus distante e punitivo que é incorporado pelos dogmas e cânones cristãos. Desta forma, o texto literário não canônico nos reporta à perspectiva da literatura que nos eleva a transcender todos os dogmas pré-estabelecidos, como quando nos deparamos com os textos literários de São João da Cruz.
Resgatar os textos apócrifos é entender um pouco mais por que Wittgenstein chama a linguagem de "formas de vida". Com isso, buscamos alcançar um lugar de destaque na literatura apócrifa, pois, parecenos mais que coerente já que são escritos que nos remetem a um momento sobre o qual pouco sabemos e que retratam a forma de agir e pensar de todo um povo, nos permitindo desmistificar algumas formas de aproximação ao texto religioso de qualquer espécie. São textos que estão na fronteira, no limite, utilizando uma expressão do filósofo italiano Massimo Cacciari, nos
permitindo ser acolhidos ou eliminados. 225 Isentos do julgamento de eles terem valor teológico ou não, concluímos, levando em consideração as palavras de Antonio Manzatto, que nos diz em seu livro Teologia e literatura. Reflexão teológica a partir da antropologia contida nos romances de Jorge Amado:
Uma compreensão inadequada da literatura é aquela que diz
que ela só fala de coisas que não são verdade. A verdade da
literatura não pertence ao domínio do real histórico de sua
trama. Ela faz apelo à hermenêutica, à interpretação: o artista
mostra, por sua obra simbólica, uma certa compreensão ou
interpretação da vida, do homem, do mundo (Manzatto, 1994,
p.21).
Referências
ELLIS, Peter F. Introdução à Bíblia. São Paulo: Loyola, 1999.
MAGALHÃES, Melo Antonio Carlos de. Representações do bem e do mal em perspectiva teológica-literária: Reflexões a partir de diálogo com Grande Sertão: Veredas de João Guimarães Rosa. In: Revista Estudos da Religião 24 – Ano XVIII, Nº24, junho de 2003. São Bernardo do Campo: Umesp.
MANZATTO, Antonio. Teologia e literatura. Reflexão teológica a partir da antropologia contida nos romances de Jorge Amado. São Paulo: Edições Loyola, 1994.
LEMINSKI, Paulo. Jesus a.C. São Paulo: Brasiliense:2003.
ROST, Leonard. Introdução aos livros apócrifos e pseudepígrafos do Antigo Testamento e aos Manuscritos de Qumran. São Paulo: Paulus, 2004.
TRICCA, Maria Helena de Oliveira. Apócrifos III – Os proscritos da Bíblia. São Paulo: Mercuryo, 2003.
* Professora da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) Departamento de Língua e Literatura Estrangeiras. email:
gaspari@cce.ufsc.br
** Doutorando em Literatura, Área de Pesquisa - Teologia e Literatura da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Pós-Graduação em Literatura - Departamento de Língua e Literatura
Vernáculas diogenesramos@terra.com.br
219 "Textos apocalípticos são, de maneira geral, de dois tipos. De um lado há os apocalipses historicamente orientados, tais como o livro de Daniel, que sintetiza a extensão da história e descreve um julgamento de proporções cósmicas. Por outro lado, existem as viagens celestiais, como encontramos em 2 Enoch e 3 Baruch, que prestam pouca ou nenhuma atenção à escatologia cósmica e se focalizam no destino da alma depois da morte. (COLLINS, John J. Temporalidade, Apocalíptica e Política na Literatura Apocalíptica Judaica. Orácula, São Bernardo do Campo, v.1, n.2, 2005, acessado em 13 de Abril de 2008).
220 Quando utilizamos a expressão apócrifo, é porque o texto do Apocalipse de Baruch não pertence nem ao cânon do cristianismo católico romano nem ao cânon protestante evangélico.
221 Apócrifos III: os proscritos da Bíblia / tradução de Maria Helena de Oliveira Tricca. São Paulo: Mercuryo, 1995, p.298.
222 "Diáspora – os judeus da dispersão ou exílio permanente que nunca mais voltaram à terra natal, mas permaneceram em colônias situadas, na maioria dos casos, na Mesopotâmia e no Egito" (ELLIS, Peter F. Introdução à Bíblia. Trad. Bárbara Theoto Lambert. São Paulo: Loyola, 1999, p. 455).
223 Ibidem, 1999, p. 455.
224 KRISTEVA, Julia. Introdução à Semanálise. São Paulo: Perspectiva, 1974.
225 CACCIARI, Massimo. Nomês de lugar, Confim.
http://www.fclar.unesp.br/seer/index.php?
journal=letras&page=article&op=viewFile&path[]=56&path[]=48, acessado em 15 de junho de 2008.
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Salma Ferraz