Dez coisas que eu amo em você
Capítulo vinte e dois
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
– Você o quê? O quê, Annabel?
Eu me casaria com Sebastian.
Só que ela não ousaria dizer isso em voz alta.
– Você precisa pensar na sua própria felicidade – aconselhou Louisa.
Annabel soltou um suspiro.
– Em que você acha que eu tenho pensado? Se eu não estivesse pensando na minha própria felicidade, provavelmente eu mesma teria pedido ao conde que se casasse comigo.
– Annabel, você não pode se casar com lorde Newbury!
Annabel olhou para a prima em choque. Foi a primeira vez que ouviu Louisa levantar a voz.
– Não vou permitir que você faça isso – rebateu Louisa, exaltada.
– Acha mesmo que eu quero me casar com ele?
– Então não se case.
Annabel cerrou os dentes, frustrada. Não com Louisa. Com a vida.
– Eu não tenho as mesmas condições que você – argumentou ela finalmente, tentando manter a voz calma e serena. – Eu não sou filha do duque de Fenniwick, não tenho um dote que possibilitaria a compra de um pequeno reino nos Alpes, não fui criada em um castelo, e…
Ela parou. A mágoa no rosto de Louisa foi suficiente.
– Não foi isso que eu quis dizer – murmurou ela.
Louisa ficou em silêncio por um momento.
– Eu sei – concordou ela. – Mas sabe de uma coisa? Eu também não tenho as suas condições.
Os homens nunca brigaram por mim no clube. Ninguém nunca flertou comigo na ópera, e eu nunca fui comparada a uma deusa da fertilidade.
Annabel deixou escapar um pequeno gemido.
– Você ouviu falarem disso também, não foi?
Louisa assentiu.
– Sinto muito.
– Não sinta. – Annabel balançou a cabeça. – É engraçado, eu acho.
– Não, não é – retrucou Louisa, que parecia estar tentando não sorrir.
Ela lançou um olhar para Annabel, viu que ela também estava segurando um sorriso e desistiu.
– Ah, é, sim.
E as duas caíram na gargalhada.
– Ah, Louisa – suspirou Annabel, depois que a risada se transformou em um sorriso melancólico –, eu amo você.
Louisa estendeu a mão e deu um tapinha na mão da prima.
– Eu também amo você, prima. – Então ela arrastou a cadeira para trás e se levantou. – Está na hora de descer.
Annabel se levantou e a seguiu até a porta.
Louisa saiu para o corredor.
– Lady Challis disse que haverá jogo de adivinhação após o jantar.
– Jogo de adivinhação – repetiu Annabel.
Aquilo parecia ridiculamente apropriado.
Lady Challis instruíra seus convidados a se reunirem na sala de estar antes do jantar. Annabel esperou até o último minuto para descer. Lorde Newbury não era idiota; ela o evitava havia dias e suspeitava que ele soubesse disso. Como era de esperar, assim que ela entrou na sala o viu aguardando na soleira da porta.
Sebastian, como ela pôde notar, também estava lá.
– Srta. Winslow – cumprimentou o conde, interceptando-a –, precisamos conversar.
– Jantar – respondeu Annabel enquanto fazia uma mesura. – Hã… Acho que está quase na hora de entrarmos.
– Temos tempo – retrucou Newbury num tom seco.
Pelo canto do olho, Annabel podia ver que Sebastian ia lentamente em sua direção.
– Conversei com seu avô – disse Newbury. – Está tudo arranjado.
Estava tudo arranjado? Annabel estava prestes a perguntar se ele sequer havia cogitado perguntar a ela. Mas se conteve. A última coisa que queria era fazer uma cena na sala de estar de lady Challis. Sem mencionar que lorde Newbury provavelmente consideraria aquilo um convite para pedi-la em casamento.
O que era a última coisa que ela queria.
– Definitivamente não é a melhor hora, milorde – argumentou ela.
Newbury fechou a cara. E Sebastian estava cada vez mais perto.
– Farei o anúncio após o jantar – avisou lorde Newbury.
Annabel engoliu em seco.
– O senhor não pode fazer isso!
A reação dela pareceu chamar a atenção dele.
– É mesmo?
– O senhor nem sequer me fez o pedido – protestou Annabel, quase mordendo a língua, de tão frustrada.
E com raiva por ter lhe dado abertura.
Newbury riu.
– Então é esse o problema? – Seu exíguo orgulho havia sido ferido. – Muito bem, após o jantar eu farei toda a encenação que a senhorita deseja. – Ele sorriu lascivamente, o lábio inferior tremendo por conta do esforço. – Talvez devesse me dar algo em troca.
O conde colocou a mão rechonchuda no braço dela e depois a deslizou até suas nádegas.
– Lorde Newbury!
Ele a beliscou.
Annabel pulou para longe, mas o homem já estava rindo para si mesmo enquanto se dirigia à sala de jantar. Ao observá-lo partir, ela teve uma sensação extremamente estranha.
Liberdade.
Porque, finalmente, depois de evitar e procrastinar e esperar que alguma coisa acontecesse para que não tivesse que dizer sim – ou não – ao homem cuja proposta de casamento resolveria todos os problemas de sua família, ela percebeu que simplesmente não poderia fazê-lo.
Talvez na semana anterior, talvez antes de Sebastian…
Não, ela pensou, por mais encantador e magnífico que ele fosse, por mais que o adorasse e tivesse esperanças de que ele a adorasse também, Sebastian não era o único motivo para ela não se casar com lorde Newbury. Era, no entanto, uma esplêndida alternativa.
– O que diabo acabou de acontecer? – indagou Sebastian, surgindo de repente ao seu lado.
– Nada – respondeu Annabel, esboçando um sorriso.
– Annabel…
– Não, de verdade. Não foi nada. Finalmente, não foi nada.
– O que você quer dizer?
Ela balançou a cabeça. Todo mundo estava indo jantar.
– Vou lhe contar mais tarde.
Annabel estava se divertindo demais com os próprios pensamentos para expressá-los, ainda que fosse a ele. Quem poderia pensar que um beliscão nas nádegas tornaria tudo tão claro? Nem tinha sido o beliscão, de fato, mas a expressão nos olhos do conde.
Como se ele fosse dono dela.
Naquele momento, ela percebeu que havia pelo menos dez razões pelas quais ela nunca poderia se casar com aquele homem.
Pelo menos dez, mas provavelmente havia uma centena.
Capítulo vinte e dois
Um, Annabel pensou alegremente ao se sentar à mesa, lorde Newbury era velho demais. Sem mencionar que dois: ele estava tão desesperado por um herdeiro que era bem provável que a machucasse durante o ato, e nenhuma mulher com o quadril quebrado poderia carregar um bebê por nove meses. E é claro que também havia o fato de…
– Por que você está sorrindo? – sussurrou Sebastian.
Ele estava de pé atrás dela, supostamente a caminho de seu lugar à mesa, que ficava na diagonal do dela, duas cadeiras mais próximas à cabeceira. Annabel não sabia por que o lugar dela estava no meio do caminho do dele, o que a levou a pensar que três: ela parecia ter chamado a atenção do homem mais charmoso e adorável da Inglaterra, então quem era ela para recusar um presente como aquele?
– Estou só feliz por estar na ponta da mesa com o restante dos plebeus – respondeu ela.
Lady Challis era uma defensora fervorosa das regras de etiqueta, e não haveria desvios na ordem apropriada de classificação quando se tratava dos lugares à mesa. O que significava que, com quase quarenta convidados entre Annabel e a cabeceira, lorde Newbury parecia a quilômetros de distância.
O que era ainda mais agradável, ela estava sentada ao lado do primo de Sebastian, Edward, cuja companhia ela tanto havia apreciado durante o almoço. Como seria rude permanecer perdida nos próprios pensamentos, Annabel decidiu listar seus irmãos nos números quatro a dez.
Certamente eles a amavam o suficiente para não querer que ela entrasse em uma união hedionda como aquela apenas por causa deles.
Annabel se virou para o Sr. Valentine, radiante. Exibia um sorriso tão largo, na verdade, que ele pareceu surpreso.
– Não é uma noite maravilhosa? – perguntou ela, porque de fato era.
– Hã… Sim.
Ele piscou algumas vezes, depois lançou um rápido olhar para Sebastian, quase como se buscasse aprovação. Ou talvez apenas para se certificar de ele estava vendo aquilo.
– Estou muito feliz que o senhor esteja aqui – continuou ela, olhando alegremente para a sopa.
Estava com fome. A felicidade sempre a deixava com fome. Ela olhou de novo para o Sr.
Valentine, para que ele não pensasse que ela estava contente só por causa da sopa (embora ela estivesse contente pela refeição também), e acrescentou: – Eu não tinha me dado conta de que o senhor viria.
Sua avó conseguira a lista de convidados de lady Challis, e Annabel tinha certeza de que não
havia nenhum membro dos Valentines.
– Eu fui convidado de última hora.
– Tenho certeza de que lady Challis ficou muito feliz com isso. – Ela sorriu novamente; parecia não conseguir evitar. – Agora, Sr. Valentine, precisamos falar de assuntos muito mais importantes. Acredito que o senhor deve conhecer muitas histórias terrivelmente constrangedoras sobre seu primo, o Sr. Grey.
Ela se inclinou um pouco para a frente, os olhos brilhando.
– Quero ouvir todas elas.
Sebastian não sabia se estava intrigado ou furioso.
Não, não era verdade. Ele ponderou sobre a raiva por cerca de dois segundos, depois se lembrou de que nunca se zangava e concluiu que ficar intrigado fazia mais sentido.
Ele quase intercedera quando Newbury encurralou Annabel na sala de estar e, na verdade, teve um desejo absurdo de beliscar a pálpebra do tio depois que ele beliscou as nádegas de Annabel. Mas, assim que se aproximou, Annabel havia passado por uma tremenda transformação. Por um instante, foi quase como se ela não estivesse lá, como se sua mente tivesse decolado para algum lugar distante e maravilhoso.
Ela parecia aliviada. Leve.
Sebastian não conseguia entender o que seu tio poderia ter dito para deixá-la tão feliz, mas não tentaria questioná-la quando todos seguiam para a sala de jantar.
Então, chegou à conclusão de que, se Annabel não ficara furiosa com o beliscão de Newbury, ele também não ficaria.
Durante o jantar, ela estava radiante, o que, diante do fato de eles estarem sentados em lados opostos e a duas pessoas de distância, era um tanto irritante. Ele não podia desfrutar de todo o esplendor dela, nem podia receber crédito por aquilo. Annabel parecia estar apreciando bastante a conversa com Edward, e Sebastian percebeu que, se ele se inclinasse um pouco para a esquerda, poderia ouvir parte do que eles estavam falando.
Até poderia ouvir mais, não fosse o fato de lady Millicent Farnsworth também estar à sua esquerda. Ela era praticamente surda.
Assim como ele com certeza estaria no fim da noite.
– ISTO É PATO? – gritou ela, apontando para uma fatia de ave que era, afinal, pato.
Sebastian engoliu em seco, como se isso pudesse de alguma forma desalojar a voz dela do ouvido dele, e comentou algo sobre o pato (que ele ainda não tinha provado) estar delicioso.
Ela balançou a cabeça.
– EU NÃO GOSTO DE PATO. – E então, para a sorte dele, em um sussurro, ela acrescentou: – Me dá urticária.
Sebastian chegou à conclusão de que, até ter idade suficiente para ser avô, aquilo era o máximo que ele gostaria de saber sobre qualquer mulher com mais de 70 anos.
Enquanto lady Farnsworth estava ocupada com seu boeuf bourguignon, Sebastian esticou o
pescoço apenas um pouco além do que seria considerado sutil, tentando ouvir o que Annabel e Edward estavam conversando.
– Eu fui convidado de última hora – disse Edward.
Sebastian presumiu que ele estivesse falando sobre a lista de convidados.
Annabel dirigiu a ele – Edward, não Sebastian – outro de seus sorrisos exuberantes.
Sebastian resmungou consigo mesmo.
– O QUÊ?
Ele se encolheu. Foi um reflexo natural. Gostava bastante de sua orelha esquerda.
– O bourguignon não está maravilhoso? – perguntou ele a lady Farnsworth, apontando para o prato a fim de deixar claro a que se referia.
Ela assentiu, falou algo sobre o Parlamento e espetou uma batata.
Sebastian olhou para Annabel, que continuava conversando animadamente com o primo dele.
Olhe para mim, ele mentalizou.
Ela não olhou.
Olhe para mim.
Nada.
Olhe para…
– O QUE O SENHOR ESTÁ OLHANDO?
– Apenas admirando sua pele tão clara, lady Farnsworth – disse Seb delicadamente, sempre rápido no gatilho. – A senhora deve ser bastante cuidadosa em não se expor ao sol.
Ela assentiu e murmurou:
– Eu cuido do meu dinheiro.
Sebastian ficou estupefato, tentando entender. O que diabo ela pensava que ele tinha dito?
– COMA A CARNE. – Ela deu outra garfada. – É A MELHOR COISA DA MESA.
Ele comeu. Mas precisava de sal. Ou melhor, ele precisava do saleiro, que estava exatamente diante de Annabel.
– Edward – chamou ele –, poderia pedir o sal à Srta. Winslow?
Edward virou-se para Annabel e repetiu o pedido, embora, na opinião de Sebastian, não houvesse necessidade de seus olhos viajarem para qualquer lugar abaixo do rosto dela.
– É claro – murmurou Annabel, alcançando o saleiro.
Olhe para mim.
Ela o entregou a Edward.
Olhe para mim.
E então… finalmente. Ele lhe dirigiu seu sorriso mais encantador, do tipo que fazia promessas de segredos e prazer. Ela corou. As bochechas, os ouvidos e o colo, tão deliciosamente exposto acima do acabamento rendado do corpete. Sebastian se permitiu um suspiro de satisfação.
– Srta. Winslow? – chamou Edward. – Está se sentindo bem?
– Ótima – disse ela, abanando-se. – Está quente aqui, não acha?
– Talvez um pouco – mentiu ele, que vestia camisa, gravata, colete e paletó, e parecia fresco e confortável como uma lasca de gelo.
Enquanto isso, Annabel, cujo vestido era decotado o suficiente para expor metade do colo, acabara de tomar um longo gole de vinho.
– Acho que minha sopa estava quente demais – disse ela, lançando um rápido olhar para Sebastian.
Ele respondeu passando a língua discretamente pelos lábios.
– Srta. Winslow? – chamou Edward novamente, parecendo bastante preocupado.
– Eu estou bem – respondeu ela.
Sebastian riu.
– EXPERIMENTE O PEIXE.
– Farei isso – disse Seb, sorrindo para lady Farnsworth.
Ele pegou um pedaço do salmão, que de fato estava excelente. Pelo visto, a senhora entendia de peixes. Depois deu uma olhada em Annabel, que parecia desejar desesperadamente um copo d’água. Edward, por outro lado, tinha o olhar vidrado, o que o acometia toda vez que o jovem pensava em Annabel, em seus…
Sebastian o chutou.
Edward se virou para encará-lo.
– Está tudo bem, Sr. Valentine? – perguntou Annabel.
– Meu primo – disse ele entre dentes – tem pernas surpreendentemente longas.
– Ele chutou o senhor? – Ela se virou para Sebastian. – Você o chutou? – sussurrou ela, sem emitir qualquer som.
Sebastian deu outra garfada no peixe.
Ela se voltou para Edward.
– Por que ele faria tal coisa?
Edward corou até a ponta das orelhas. Sebastian decidiu deixar Annabel descobrir por si mesma. Ela se virou e fez uma careta para ele.
– Srta. Winslow, qual poderia ser o problema? – rebateu ele.
– ESTÁ FALANDO COMIGO?
– A Srta. Winslow estava querendo saber que espécie de peixe estamos comendo – mentiu Sebastian.
Lady Farnsworth olhou para Annabel como se ela fosse uma idiota, balançou a cabeça e murmurou algo que Sebastian não foi capaz de compreender. Ele pensou ter ouvido salmão.
Talvez carne, também. E poderia jurar que ela disse algo sobre um cachorro.
Isso o preocupou.
Ele olhou para o prato, certificando-se de identificar tudo o que parecia ser algum tipo de carne, e então, satisfeito por estar tudo dentro dos conformes, deu uma garfada no bourguignon.
– É bom – disse a velha senhora, dando uma leve cutucada nele.
Sebastian sorriu e assentiu, aliviado por ela ter baixado o tom de voz.
– O senhor deveria pegar um pouco mais. É a melhor coisa na mesa.
Sebastian não estava tão certo disso, mas…
– ONDE ESTÁ A CARNE?
E lá se foi seu ouvido.
Lady Farnsworth estava esticando o pescoço, olhando de um lado para outro. Quando ela abriu a boca para gritar outra vez, Sebastian levantou a mão num gesto que esperava ser capaz de fazê-la se calar e fez sinal para um lacaio.
– Mais carne para a senhora – pediu ele.
Franzindo o rosto, o lacaio explicou que não havia mais.
– Poderia conseguir alguma coisa que se pareça com carne?
– Temos pato em um molho semelhante.
– Por Deus, não.
Sebastian não fazia ideia de quão séria era a urticária de lady Farnsworth ou quanto tempo duraria, mas definitivamente não queria descobrir.
Com um gesto exagerado em direção à outra ponta da mesa, ele falou a respeito de um gato e, enquanto ela olhava naquela direção, Sebastian rapidamente despejou o que restava de seu bourguignon no prato dela.
Quando não localizou o gato (ou sapo, ou rato, ou pato) próximo à cabeceira da mesa, a mulher se virou com uma expressão um tanto irritada, mas Sebastian rapidamente a refreou.
– Eles encontraram uma última porção.
Lady Farnsworth soltou um grunhido de prazer e voltou a comer. Seb arriscou um olhar na direção de Annabel, que parecia ter assistido à conversa toda.
Ela estava sorrindo de orelha a orelha.
Seb pensou em todas as mulheres que havia conhecido em Londres, que teriam olhado horrorizadas ou enojadas, ou, se tivessem algum senso de humor, teriam reprimido o sorriso ou tentado escondê-lo com a mão.
Mas não Annabel. Ela sorria como se gargalhasse, magnífica e grandiosa. Seus olhos verde-acinzentados se tornavam prateados à luz da noite, brilhantes diante daquelas travessuras.
E Sebastian percebeu, bem ali à mesa de jantar de lady Challis, que jamais seria capaz de viver sem ela. Ela era tão bonita, tão feminina, que ele literalmente perdia o ar. O rosto dela, em formato de coração, com aquela boca que sempre parecia esconder um sorriso; a pele não tão pálida quanto a moda exigia, mas absolutamente perfeita para ela. Ela parecia saudável, beijada pelo sol.
Annabel era o tipo de mulher para quem um homem desejava voltar. Não, ela era a mulher para a qual ele queria voltar. Ele a pedira em casamento… mas por quê? Mal conseguia se lembrar do motivo. Gostava dela, sentia desejo por ela e, Deus era testemunha, sempre havia adorado salvar mulheres que precisavam ser salvas. Mas nunca havia pedido nenhuma delas em casamento.
Será que seu coração fora capaz de compreender algo que seu cérebro não havia conseguido?
Ele a amava.
Ele a venerava.
Sebastian queria se deitar na cama ao lado dela todas as noites, fazer amor como se não houvesse amanhã e depois acordar em seus braços na manhã seguinte, descansado e saciado, pronto para se dedicar à única tarefa de fazê-la sorrir.
Ele levou a taça aos lábios, sorrindo para o vinho. A luz tremulante das velas dançava do
outro lado da mesa e Sebastian Grey estava feliz.
Após a refeição, as damas deixaram a sala de jantar para que os cavalheiros pudessem desfrutar do vinho do Porto. Annabel encontrou Louisa (que, infelizmente, ficara presa ao lado de lorde Newbury na cabeceira da mesa) e as duas se dirigiram de braços dados à sala de estar.
– Lady Challis diz que devemos ler, escrever e bordar até que os cavalheiros se juntem a nós
– avisou Louisa.
– Você trouxe seu material de bordado?
Louisa fez uma careta.
– Acho que ela falou algo sobre disponibilizar algum.
– O verdadeiro objetivo da festa acaba de ficar claro – disse Annabel secamente. – Quando retornarmos a Londres, lady Challis terá um novo conjunto de fronhas.
Louisa deu uma risadinha.
– Vou pedir que alguém vá buscar meu livro – comentou ela. – Quer que tragam o seu também?
Annabel assentiu e esperou enquanto a prima falava com uma aia. Quando ela terminou, as duas entraram na sala, sentando-se o mais afastadas possível do centro. Poucos minutos depois, uma aia chegou carregando dois livros. Ela estendeu os exemplares de A Srta. Sainsbury e o coronel misterioso, e as duas damas os pegaram.
– Ah, que engraçado, estamos lendo o mesmo livro! – exclamou Louisa, vendo que os dois tinham o mesmo título.
Annabel olhou, surpresa, para a prima.
– Você já não leu esse?
Louisa deu de ombros.
– Gostei tanto de A Srta. Truesdale e o cavalheiro mudo que pensei em reler os outros três. –
Ela olhou para o exemplar de Annabel. – Em que parte você está?
– Hum. – Annabel abriu o livro e encontrou a página. – Acho que a Srta. Sainsbury acabou de se jogar sobre uma cerca viva. Ou talvez dentro da cerca.
– Ah, a cabra – murmurou Louisa, esbaforida. – Eu amei esse trecho. – Ela ergueu seu exemplar. – Ainda estou no começo.
Elas se acomodaram com seus livros, mas, antes que pudessem virar uma única página, lady Challis apareceu.
– O que está lendo? – perguntou ela.
– A Srta. Sainsbury e o coronel misterioso – respondeu Louisa educadamente.
– E a senhorita? – indagou, virando-se para Annabel.
– Ah, o mesmo livro, na verdade.
– Estão lendo o mesmo livro? Que graça! – Lady Challis acenou para uma amiga do outro lado da sala. – Rebecca, venha ver isso. Elas estão lendo o mesmo livro.
Annabel não sabia por que aquilo era tão surpreendente, mas ficou quieta e esperou que lady
Westfield se aproximasse.
– Primas – disse lady Challis. – Lendo o mesmo livro.
– Na verdade eu já o li – mencionou Louisa.
– Que livro é esse? – perguntou lady Westfield.
– A Srta. Sainsbury e o coronel misterioso – repetiu Annabel.
– Ah, sim. Da Sra. Gorely. Eu gostei muitíssimo dessa história. Principalmente quando o pirata revelou ser…
– Não diga nada! – exclamou Louisa. – Annabel ainda não terminou.
– Ah, sim, claro.
Annabel franziu a testa, folheando as páginas.
– Pensei que ele fosse um corsário.
– É um dos meus favoritos – apontou a prima.
Lady Westfield voltou-se para Annabel:
– E a senhorita, está gostando?
Annabel limpou a garganta. Não sabia se estava gostando tanto assim do livro, mas não desgostava. E havia algo bastante reconfortante na leitura. O texto a fazia se lembrar de Sebastian, na verdade. A Sra. Gorely era uma das autoras favoritas dele, e Annabel conseguia entender o porquê. Havia trechos em que a romancista quase soava como ele.
– Srta. Winslow? – chamou lady Westfield. – Está gostando do livro? Annabel se assustou, depois percebeu que não havia respondido à pergunta da senhora.
– Acho que sim. A história é bastante divertida, ainda que um pouco implausível.
– Um pouco? – retrucou Louisa, rindo. – É totalmente implausível. Mas é isso que a torna tão maravilhosa.
– Acredito que sim – concordou Annabel. – Eu só gostaria que a escrita fosse um pouco menos floreada. Às vezes acho meio entediante o excesso de adjetivos.
– Ah, acabei de ter uma ideia maravilhosa! – exclamou lady Challis, batendo palmas. –
Vamos guardar as adivinhações para outra noite.
Annabel soltou um enorme suspiro de alívio. Odiava adivinhações.
– Em vez disso, faremos uma leitura!
Annabel a encarou abruptamente.
– O quê?
– Uma leitura. Já temos dois exemplares aqui. Tenho certeza de que tenho outro em nossa biblioteca. Deve ser mais que suficiente.
– A senhora pretende ler A Srta. Sainsbury? – indagou Louisa.
– Ah, não, eu não – retrucou lady Challis, levando a mão ao peito. – A anfitriã jamais participa.
Annabel tinha certeza de que aquilo não era verdade, mas não havia muito que pudesse fazer a respeito.
– Poderia ser uma de nossas intérpretes, Srta. Winslow? – sugeriu lady Challis. – A senhorita tem uma aparência teatral.
Esta era mais uma entre todas as coisas de que Annabel tinha certeza: não era um elogio. Mas
ela concordou em ler porque, novamente, não havia muito que pudesse fazer a respeito.
– A senhora deveria pedir que o Sr. Grey participasse – sugeriu Louisa.
Annabel decidiu chutá-la mais tarde, já que não conseguiria alcançar a prima naquele momento.
– Ele é um grande fã da Sra. Gorely – prosseguiu Louisa.
– É mesmo? – murmurou lady Challis.
– Sim, ele é – confirmou Louisa. – Conversamos recentemente sobre nossa admiração pela autora.
– Muito bem, então – decidiu lady Challis. – Será o Sr. Grey. E acho que a senhorita também, lady Louisa.
– Ah. Não. – A jovem corou violentamente, o que, no caso de Louisa, significava que ela tinha pensamentos igualmente violentos. – Eu não conseguiria. Sou… Sou péssima nessas coisas.
– Não há momento melhor do que este para praticar, não acha?
Annabel estava ansiosa para se vingar da prima, mas até ela achou que isso seria cruel demais.
– Lady Challis, tenho certeza de que podemos encontrar outra pessoa que gostaria de participar. Ou talvez Louisa possa ser nossa diretora!
– Precisam de uma?
– Hã… sim. Quero dizer, é claro que devemos ter uma. Toda peça de teatro exige um diretor, não é? E o que é uma leitura senão teatro?
– Muito bem – concordou lady Challis, abanando a mão num gesto de desdém. – Resolvam isso entre vocês. Se me dão licença, vou ver por que os cavalheiros estão demorando tanto.
– Obrigada – disse Louisa, assim que lady Challis se retirou. – Eu nunca seria capaz de ler diante de todas essas pessoas.
– Eu sei – disse Annabel.
Também não estava particularmente ansiosa por ler A Srta. Sainsbury na frente de todos os convidados, mas pelo menos já tinha alguma prática. Ela e seus irmãos costumavam fazer leituras e encenações em casa.
– Que trecho deveríamos ler? – perguntou Louisa, folheando o livro.
– Não sei. Ainda nem cheguei à metade. Só não me dê o papel da cabra – pediu Annabel em tom ríspido.
Louisa riu.
– Não, não, você deveria ser a Srta. Sainsbury, é claro. O Sr. Grey será o coronel. Ah, meu Deus, precisamos de um narrador. Talvez o primo do Sr. Grey?
– Acho que seria muito mais engraçado se o Sr. Grey interpretasse a Srta. Sainsbury – disse Annabel, totalmente indiferente.
Louisa deu um suspiro.
– Annabel, você é má.
Annabel deu de ombros.
– Eu posso ser a narradora.
– Ah, não. Se quer que o Sr. Grey interprete a Srta. Sainsbury, você precisa ser o coronel. O
Sr. Valentine será o narrador. – Louisa franziu o cenho. – Talvez devêssemos perguntar ao Sr.
Valentine se ele deseja participar antes de lhe atribuir um papel.
– Eu não tive escolha – lembrou Annabel.
Louisa refletiu.
– Verdade. Muito bem, deixe-me encontrar uma passagem apropriada. Quanto tempo acha que deveria durar a leitura?
– O mínimo possível – respondeu Annabel, com firmeza.
Louisa abriu seu livro e passou várias páginas.
– Isso pode ser difícil, se estivermos evitando a cabra.
– Louisa…
– Presumo que sua proibição também se estenda às ovelhas.
– A todas as criaturas de quatro patas.
Louisa balançou a cabeça.
– Você está tornando isso muito difícil. Terei que eliminar todas as cenas a bordo.
Annabel inclinou-se por cima do ombro da prima, murmurando:
– Ainda não cheguei a essa parte.
– De ordenha de cabras – confirmou Louisa.
– O que as senhoritas estão procurando?
Annabel ergueu os olhos e derreteu um pouco por dentro: Sebastian estava de pé diante delas, vendo nada além do que o topo de suas cabeças enquanto as duas examinavam o livro.
– Vamos encenar um trecho do livro – disse ela, com um sorriso aflito. – A Srta. Sainsbury e o coronel misterioso.
– É mesmo? – Ele imediatamente se sentou ao lado delas. – Qual trecho?
– Estou tentando decidir – respondeu Louisa, olhando para ele. – Ah, a propósito, o senhor vai ser a Srta. Sainsbury.
Ele estranhou.
– Jura?
Ela apontou com a cabeça para Annabel.
– Annabel vai ser o coronel.
– Um pouco revolucionário, não acha?
– Será mais divertido assim – argumentou Louisa. – Foi ideia dela.
Sebastian voltou toda a força de seu olhar para Annabel.
– Por que não estou surpreso? – murmurou ele secamente.
Ele se sentou muito perto dela. Sem tocá-la; nunca seria indiscreto a ponto de fazer isso em um lugar tão público. Mas parecia que eles estavam se tocando. O ar entre os dois se aqueceu e a pele dela começou a formigar e a tremer.
Em um segundo, Annabel estava de volta ao lago, as mãos dele na pele dela, os lábios por todo o seu corpo. Seu coração começou a disparar, e ela desejava mesmo, mesmo, que tivesse se lembrado de levar um leque. Ou que tivesse um copo de ponche na mão.
– Seu primo poderia ser o narrador – anunciou Louisa, completamente alheia à
hiperventilação de Annabel.
– Edward? – disse Sebastian, sentando-se como se estivesse completamente indiferente. – Ele vai gostar disso.
– Sério? – Louisa sorriu e ergueu os olhos. – Eu só preciso encontrar a cena certa.
– Algo dramático, eu espero.
Ela assentiu.
– Annabel insistiu que não incluíssemos as cabras.
Annabel queria fazer um comentário conciso, mas não estava sendo capaz de manter o controle sobre a própria respiração.
– Não sei se lady Challis apreciaria ter cabras em sua sala de estar – concordou Sebastian.
Annabel enfim conseguiu respirar normalmente, mas o restante de seu corpo se comportava de forma muito estranha. Ela tremia, como se seus membros estivessem desesperados para se mover, e sentia um aperto forte no peito.
– Nem sequer pensei em trazer uma cabra de verdade – disse Louisa com uma risada.
– A senhorita pode tentar escalar o Sr. Hammond-Betts – sugeriu Sebastian. – O cabelo dele é bem macio.
Annabel tentou fixar os olhos em um ponto bem à sua frente. Eles estavam conversando ao lado dela, sobre cabras, pelo amor de Deus, e ela sentia como se fosse entrar em combustão a qualquer momento. Como os dois ainda não haviam notado?
– Acho que ele não aceitaria – brincou Louisa, com uma risadinha.
– Que pena – murmurou Sebastian. – Ele se parece mesmo com o personagem.
Annabel respirou fundo mais uma vez. Toda vez que Sebastian baixava a voz e falava assim, suave e rouco, todo o corpo dela se contorcia por dentro.
– Ah, aqui está – disse Louisa animadamente. – O que acham deste trecho?
Ela passou o braço por Annabel para entregar o livro a Sebastian. Isso, é claro, significava que ele também precisava esticar o braço sobre ela.
A mão dele roçou na manga de seu vestido. A coxa dele encostou na dela.
Annabel ficou de pé, arrancando o livro da mão de quem quer que fosse. Não sabia exatamente quem estava segurando o exemplar – e não se importava com isso.
– Com licença – grunhiu ela.
– Está tudo bem? – perguntou Louisa.
– Sim, eu, hã, eu apenas… – Ela limpou a garganta. – Já volto. – Então completou: – Com sua licença. – E depois: – Só um instante. – E depois: – Eu…
– Apenas vá – ordenou Louisa.
Ela foi. Ou melhor, tentou. Tinha tanta pressa que não estava prestando atenção aonde estava indo e, quando chegou à porta, por pouco não colidiu com o cavalheiro que entrava na sala.
O conde de Newbury.
A vertigem que borbulhava dentro de Annabel morreu em um segundo.
– Lorde Newbury – murmurou ela, fazendo uma mesura respeitosa.
Não queria hostilizá-lo; apenas desejava não se casar com ele.
– Srta. Winslow.
Os olhos dele varreram a sala antes de voltarem para os dela. Annabel notou que seu maxilar se contraíra ao ver o sobrinho, mas, fora isso, a única expressão em seu rosto era de satisfação.
O que a deixou bastante nervosa.
– Farei o anúncio agora – disse ele.
– O quê? – De alguma forma ela conseguiu fazer a frase sair sem um grito. – Milorde – disse ela, tentando parecer apaziguadora ou, se não isso, pelo menos razoável –, este sem dúvida não é o momento.
– Bobagem – retrucou ele com desdém. – Acredito que estamos todos aqui presentes.
– Eu não disse “sim” – disparou Annabel.
Ele se virou para ela com um olhar fulminante. E não falou mais nada, como se nada mais fosse necessário.
Annabel ficou furiosa. O homem nem sequer a achou digna de resposta.
– Lorde Newbury – chamou ela com firmeza, colocando a mão no braço dele –, eu o proíbo de anunciar esse casamento.
O rosto dele, já rosado, ficou quase roxo, e uma veia começou a inchar em seu pescoço.
Annabel soltou o braço dele e deu um passo cauteloso para trás. Achava que ele não a atacaria em um local público, embora o conde tivesse dado um soco em Sebastian na frente de todo o clube. Parecia sensato se distanciar.
– Eu não disse “sim” – repetiu ela, já que ele não lhe respondera.
Newbury olhava para ela com uma expressão furiosa e por um momento ela temeu que ele fosse ter um derrame. Nunca em sua vida ela testemunhara um ser humano sentir tanta raiva.
Saliva se acumulava nos cantos da boca dele e os olhos estavam arregalados como os de um sapo. Aquilo era pavoroso. Ele era pavoroso.
– Não cabe à senhorita dizer “sim” – cuspiu ele por fim, ainda soando como um sussurro ríspido. – Nem “não”. A senhorita foi comprada e vendida e, na semana que vem, terá apenas que abrir as pernas e cumprir as suas malditas obrigações de esposa. E fará isso repetidamente até produzir um menino saudável. Estamos entendidos?
– Não – retrucou Annabel, certificando-se de que sua voz, pelo menos, soasse perfeitamente clara –, não estamos.
Capítulo vinte e três
– Vamos ver, lady Louisa, que trecho a senhorita escolheu?
Sebastian sorriu quando pegou o exemplar de A Srta. Sainsbury que caíra no tapete depois que Annabel o derrubou de suas mãos. Era divertido estar prestes a fazer uma leitura de seu próprio trabalho. Um tanto absurdo o fato de ele interpretar a Srta. Sainsbury, mas ele confiava o suficiente em sua masculinidade para ter certeza de que o faria com desenvoltura.
Além disso, ele era bastante bom naquele tipo de coisa, se a opinião dele valia de algo. Não importava se da última vez que lera em público havia caído da mesa e deslocado o ombro. Não se arrependia nem um pouco. Tinha levado as aias às lágrimas. Lágrimas!
Fora um momento belíssimo.
Sebastian pegou o livro, endireitando-o para devolvê-lo a Louisa a fim de que ela pudesse encontrar a página novamente. No entanto, ao notar a expressão preocupada da moça, parou.
Então se virou, seguindo o olhar dela.
Annabel estava perto da porta. O tio dele também.
– Eu odeio esse homem – sussurrou Louisa veementemente.
– Eu também não gosto muito dele.
Louisa agarrou o braço de Sebastian com uma força que ele não imaginava que ela possuía.
Quando ele se virou para encará-la, ficou surpreso com a ferocidade nos olhos da moça. Ela era sempre tão insossa e, no entanto, naquele momento, estava em chamas.
– O senhor não pode permitir que ela se case com ele – afirmou ela.
Sebastian voltou-se para a porta, estreitando os olhos.
– Não pretendo.
Ele esperou, no entanto, para ver se a situação se resolveria sozinha. Não queria fazer uma cena, pelo bem de Annabel. Sabia que lady Challis havia planejado a festa em sua casa tendo o triângulo amoroso Grey-Winslow-Newbury como sua principal fonte de entretenimento.
Qualquer indício de escândalo estaria na boca de todos os fofoqueiros de Londres em questão de dias. Como era de esperar, os olhos de todos os presentes na sala se voltavam fixamente para Annabel e lorde Newbury.
Quando não, olhavam de relance para Sebastian.
Na verdade, ele tinha toda a intenção de ficar parado. Mas, quando o tio começou a se agitar e a espumar de raiva, sua pele enrubescida de fúria enquanto ele sibilava algo para Annabel entre dentes, Sebastian teve que reagir.
– Algum problema? – perguntou ele com uma voz fria e suave, um pouco atrás e ao lado de Annabel.
– Não é da sua conta – vociferou o conde.
– Eu ouso discordar – disse Sebastian calmamente. – Uma senhorita precisando de ajuda é sempre da minha conta.
– A senhorita em questão é minha noiva – retrucou Newbury. – Portanto, ela jamais será da sua conta.
– Isso é verdade? – perguntou Sebastian a Annabel.
Não porque ele acreditasse que pudesse ser, mas porque queria lhe dar a oportunidade de negar publicamente.
Ela balançou a cabeça.
Sebastian voltou-se para o tio.
– A Srta. Winslow parece dar a impressão de que não é sua noiva.
– A Srta. Winslow é uma idiota.
Sebastian sentiu o estômago revirar e experimentou uma sensação estranha nos dedos, cerrando as mãos. Ainda assim, manteve a calma, apenas erguendo uma sobrancelha enquanto comentava secamente: – E ainda assim o senhor deseja se casar com ela.
– Fique fora disso – avisou o tio.
– Eu poderia – murmurou Seb –, mas me sentiria terrivelmente culpado pela manhã se permitisse que uma jovem tão adorável tivesse um fim tão terrível.
Os olhos de Newbury se estreitaram.
– Você não muda, não é?
Sebastian se manteve impassível.
– Se o senhor se refere ao fato de eu ser muitíssimo encantador…
Newbury trincou o maxilar, quase a ponto de tremer.
– Envolvente, até, diriam alguns.
Sebastian sabia que estava provocando o tio, mas era difícil resistir. Havia uma sensação de déjà-vu naquelas discussões. Eles agiam sempre da mesma maneira: o tio prosseguia dizendo que ele era um patético projeto de ser humano, enquanto Sebastian permanecia entediado, até que ele terminasse. Foi por isso que, quando Newbury começou a esbravejar seu último discurso, Sebastian apenas cruzou os braços, empertigou-se e se preparou para o que viria.
– Por toda a sua vida – enfureceu-se Newbury – você foi indolente e sem rumo, agindo como um libertino, sendo reprovado na escola…
– Bem, vejamos, isso não é verdade – interveio Seb, sentindo a necessidade de defender sua reputação diante de um público tão grande.
Ele nunca estivera entre os melhores da turma, mas também não era dos piores.
Mas seu tio não tinha a intenção de interromper o discurso.
– Quem você acha que pagou pela sua maldita educação? Seu pai? – O conde riu com desdém. – Ele nunca teve um xelim furado. Eu paguei as contas dele a vida toda.
Por um momento, Sebastian ficou surpreso.
– Bem, então acho que devo lhe agradecer – disse ele tranquilamente. – Eu não sabia disso.
– Claro que não sabia – respondeu o tio. – Você não presta atenção em nada. Nunca prestou.
Fica apenas vagando por aí, dormindo com as esposas de outros homens, fugindo, deixando o país, e o resto de nós tem que assumir a responsabilidade por todas as suas palhaçadas.
Aquilo já era demais. Quando Sebastian se enfurecia, ficava insolente. E impertinente. E
definitivamente muito engraçado. Ele se virou para Annabel e abriu os braços como se dissesse
“Como assim?”.
– E eu que pensava que estava servindo o Exército. Rei, pátria e todas essas coisas.
Uma pequena multidão havia se reunido ao redor deles. Aparentemente, lady Challis e seus convidados desistiram de tentar parecer discretos.
– Espero mesmo não estar enganado – acrescentou, voltando-se para os espectadores com uma expressão de incredulidade cuidadosamente elaborada. – Eu matei muitas pessoas na França.
Alguém riu. Outra pessoa disfarçou uma risada com a mão. Só que ninguém, Sebastian percebeu, fez menção de intervir. Ele se perguntou se teria feito isso, se fosse um espectador.
Provavelmente não. A cena era divertida demais. O conde espumando de ódio, o sobrinho zombando dele. Era o que esperavam dele, imaginava Sebastian. Sua perspicácia era mordaz; seu charme, lendário, e ele nunca perdia a paciência.
O rosto de Newbury adquiriu um tom ainda mais surpreendente de magenta. Ele sabia que, se Sebastian mantivesse o bom humor, teria o apreço da multidão. No fim, a maioria permaneceria do lado da posição social e da riqueza, mas, naquele momento, o conde era um bufão. E
Sebastian sabia que ele odiava isso.
– Não meta o nariz onde não foi chamado – vociferou o tio, apontando um dedo grosso como uma salsicha para Sebastian, a alguns centímetros do peito dele. – Você nem se importava com a Srta. Winslow até saber que eu planejava me casar com ela.
– Isso não é verdade – defendeu-se Sebastian, quase afável. – E, na realidade, eu diria que o senhor é que decidira que não queria mais nada com ela até saber que eu poderia estar interessado.
– A última coisa que eu iria querer é uma de suas vagabundas. O que ela – Newbury acenou com a cabeça para Annabel, que assistia à discussão, horrorizada e boquiaberta – corre o risco de se tornar.
O estômago de Sebastian revirou mais uma vez.
– Cuidado – avisou ele, numa voz perigosamente suave. – O senhor está insultando uma dama.
Lorde Newbury revirou os olhos injetados.
– Estou insultando uma vagabunda.
E foi isso. Sebastian Grey, o homem que fugia de confrontos; o homem que passara a guerra inteira longe do front, matando os inimigos um por um; o homem que considerava a raiva uma emoção absolutamente entediante…
Ficou louco de ódio.
Ele não pensou, apenas sentiu, e perdeu a noção do que estava acontecendo ao seu redor.
Todo o seu ser se encolheu e se contorceu, e um grito hediondo e primitivo saiu de sua garganta
– Sebastian teve tanto controle sobre isso quanto sobre o resto de seu corpo, que se lançou para a frente, praticamente voando até derrubar o tio no chão.
Os dois colidiram com uma mesa, o peso de lorde Newbury partindo a madeira, e dois candelabros, ambos acesos, desabaram.
Ouviu-se um grito agudo, e Sebastian teve a leve impressão de ver alguém apagando as chamas, mas toda a maldita casa poderia estar pegando fogo que nada o impediria de seu único objetivo.
Pôr as mãos no pescoço do tio.
– Peça desculpas à senhorita – vociferou ele, dando uma joelhada exatamente onde doeria mais.
Newbury soltou um uivo com aquele golpe ofensivo. Os polegares de Sebastian repousavam ansiosamente na traqueia do tio.
– Isso não soou como um pedido de desculpas.
Newbury o encarou e cuspiu em seu rosto.
Sebastian não vacilou nem por um segundo.
– Peça desculpas – repetiu, pausada e severamente.
Ao redor de Sebastian, as pessoas estavam gritando, e alguém até agarrou um dos braços dele, tentando tirá-lo de cima do tio antes que ele o matasse. Mas Sebastian não ouvia nada do que diziam. Não conseguia escutar nada além do zunido ardente do ódio que dominava sua mente. Ele havia servido o Exército. Atirara em dezenas de soldados franceses na posição de franco-atirador, mas nunca desejara tanto ver um homem morto.
Ah, pelo bom Deus, era exatamente isso que ele desejava naquele momento.
– Peça desculpas ou, que Deus me perdoe, vou matar você! – vociferou ele.
Sebastian apertou as mãos, sentindo-se quase contente quando os olhos do tio se arregalaram e o rosto dele ficou roxo, e…
E então Sebastian foi arrancado de cima do conde e contido. Ouviu Edward grunhindo com o esforço enquanto dizia entre dentes: – Controle-se!
– Peça desculpas à Srta. Winslow! – gritou Sebastian para o tio, tentando se soltar, mas Edward e lorde Challis o seguravam firme.
Dois outros cavalheiros ajudaram lorde Newbury a se sentar, ainda no chão, entre os escombros da mesa que havia sido quebrada. Ele estava sem ar, ofegante, e sua pele ainda tinha um terrível tom rosado, mas sentia ódio suficiente para tentar cuspir em Annabel, xingando: –
Vagabunda!
Sebastian soltou outro rugido e se jogou em cima do tio, arrastando Edward e lorde Challis consigo. Todos avançaram alguns passos, mas Sebastian foi contido antes que conseguisse alcançar o conde.
– Peça desculpas à senhorita – disparou ele.
– Não.
– Peça desculpas! – berrou Sebastian.
– Não tem problema – disse Annabel… ou pelo menos pensou ter dito isso.
Nem ela conseguia interromper o zunido ardente do ódio que percorria o corpo de Sebastian.
Ele deu um puxão para a frente, tentando mais uma vez alcançar o tio. Seu sangue fervia, seu pulso estava acelerado, e seu corpo inteiro ansiava por uma briga. Sebastian queria machucá-lo.
Queria desfigurá-lo. Mas foi impedido por Edward e lorde Challis. Então, em vez disso, recuperou o fôlego e disse: – Peça desculpas à Srta. Winslow ou então, Deus me perdoe, você terá o troco.
Várias cabeças se viraram para encará-lo. Ele havia acabado de sugerir um duelo? Nem mesmo Sebastian sabia ao certo.
Lorde Newbury ficou de pé e disse: