Dez coisas que eu amo em você
Capítulo dezesseis
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
– Nunca se sabe quando será necessário descrever algo.
Annabel achou aquela afirmação bastante estranha, mas não falou nada.
– Ademais – continuou ele, alegremente –, se não fossem os mal-entendidos, a boa literatura seria bem escassa.
Ela o encarou, curiosa.
– Onde estariam Romeu e Julieta? – disse ele.
– Vivos.
– É verdade, mas pense nas horas de entretenimento que nós teríamos perdido.
Annabel deu um sorriso. Não pôde evitar.
– Eu prefiro comédias.
– Mesmo? Acredito que sejam mais divertidas, de fato. Mas, se existissem apenas comédias, ninguém nunca experimentaria o sentido aguçado do drama proporcionado pelas tragédias.
Ele se voltou para ela com uma expressão com a qual ela estava começando se acostumar: a máscara educada que ele usava para a sociedade, a que o rotulava como bon vivant entediado, por mais paradoxal que isso fosse. Então deixou escapar um suspiro levemente afetado antes de dizer: – O que seria da vida sem a tristeza? – disse ele.
– Bastante feliz, creio eu.
Para Annabel, o momento mais triste pelo qual passara nos últimos tempos fora nas mãos (ou melhor, nas patas) de lorde Newbury. Ela teria ficado muito feliz se não tivesse experimentado isso.
– Hum – foi tudo o que ele disse, ou melhor, murmurou.
Annabel sentiu uma estranha necessidade de preencher o silêncio.
– Fui eleita a Winslow com Maior Probabilidade de Falar o que Pensa!
A declaração chamou a atenção dele.
– Jura? – Seus lábios se contraíram. – E quem fazia parte do eleitorado?
– Hã, os outros Winslows.
Ele riu.
– Somos oito – explicou ela. – Dez, contando com os meus pais. Aliás, nove, agora que meu pai faleceu, mas ainda assim é mais do que suficiente para uma votação satisfatória.
– Sinto muito pelo seu pai – disse ele.
Annabel assentiu, esperando o conhecido nó que se formaria na garganta. Mas não se
formou.
– Ele era um bom homem – comentou ela.
O Sr. Grey moveu a cabeça em reconhecimento e perguntou:
– Que outros títulos a senhorita ganhou?
Ela fez uma careta de culpa.
– A Winslow com Maior Probabilidade de Cochilar durante a Missa.
Ele riu alto.
– Está todo mundo olhando – sussurrou ela, nervosa.
– Não dê importância. É para o seu bem, no fim das contas.
Certo. Annabel sorriu sem jeito. Era tudo só uma encenação, não era mesmo?
– Mais algum? – perguntou ele. – Não que seja possível haver outro melhor que o último.
– Eu fiquei em terceiro lugar entre os Winslows Mais Aptos a Correr Mais Rápido do que um Peru.
Dessa vez ele não riu, o que pareceu lhe exigir um corajoso esforço.
– A senhorita é mesmo uma moça do campo.
Ela assentiu.
– É tão difícil assim correr mais rápido do que um peru? – perguntou ele.
– Não para mim.
– Prossiga – insistiu ele. – Estou achando fascinante.
– Claro. O senhor não tem irmãos.
– Isso nunca me fez tanta falta quanto hoje à noite. Pense nos títulos que eu poderia ter ganhado.
– O Grey com Maior Probabilidade de Embarcar num Navio Pirata?
– Corsário, por favor. Sou refinado demais para a pirataria.
Ela revirou os olhos e depois sugeriu:
– O Grey com Maior Probabilidade de se Perder num Bosque?
– A senhorita é cruel. Eu sabia onde estava o tempo todo. Pensei que eu poderia ser o Grey com Maior Probabilidade de Ganhar uma Fortuna nos Dardos.
– O Grey com Maior Probabilidade de Abrir uma Biblioteca? – sugeriu ela. Ele riu.
– O Grey com Maior Probabilidade de Arruinar uma Ópera.
Annabel ficou boquiaberta.
– O senhor canta?
– Já tentei. – Ele se aproximou dela como se fosse lhe contar um segredo. – Um momento que nunca mais se repetirá.
– Uma sábia decisão, provavelmente – murmurou ela –, considerando que deseja manter suas amizades.
– Ou, pelo menos, permitir que meus amigos não fiquem surdos.
Annabel sorriu, sentindo-se mais leve depois das brincadeiras.
– O Grey com Maior Probabilidade de Escrever um Livro!
Ele congelou.
– Por que diz isso?
– Eu… eu não sei – gaguejou ela, perplexa com a reação dele.
Ele não estava zangado, mas tinha assumido um ar extremamente sério.
– Talvez porque leve jeito com as palavras. Não falei uma vez que o senhor era um poeta?
– Falou?
– Antes de saber quem o senhor era – esclareceu ela. – No bosque.
– Ah, sim. – Ele apertou os lábios, pensativo.
– E o senhor mostrou grande interesse por Romeu e Julieta. A peça, claro, não os personagens. Quanto aos dois, o senhor foi bastante indiferente.
– Alguém precisa ser indiferente – concordou ele.
– Muito bem colocado – disse ela, e bufou em seguida.
– Eu me esforço.
Então ela se lembrou:
– Ah, e há ainda a Sra. Gorely!
– A Sra. Gorely?
– Sim, o senhor é um grande admirador dela. Eu deveria ler um de seus livros – refletiu Annabel.
– Posso lhe dar um dos meus exemplares autografados.
– Ah, não, não precisa. Reserve-os para os verdadeiros fãs. Nem sei se vou gostar. Lady Olivia parece não apreciar muito.
– Sua prima gosta – ressaltou ele.
– Verdade. Só que Louisa também gosta daqueles romances horrorosos da Sra. Radcliffe, que, sinceramente, eu não suporto.
– A Sra. Gorely é muito superior à Sra. Radcliffe – defendeu ele com firmeza.
– Já leu as duas?
– Claro. Não tem comparação.
– Hum. Bem, eu deveria tentar. Julgar por mim mesma.
– Então vou lhe dar um dos meus exemplares não autografados.
– O senhor tem várias edições?
Meu Deus, ela não tinha percebido quão longe ia a admiração dele.
Ele deu de ombros.
– Eu já tinha todos antes de encontrar a coleção autografada.
– Ah, claro. Não considerei essa hipótese. Muito bem, qual é o seu preferido? Vou começar por ele.
O Sr. Grey refletiu por um momento e balançou a cabeça.
– Eu não seria capaz de escolher um. Gosto de aspectos diferentes de cada um deles.
Annabel sorriu.
– O senhor parece os meus pais sempre que queríamos saber quem de nós eles amavam mais.
– É quase isso, creio eu – murmurou ele.
– Se o senhor tivesse dado à luz um livro – respondeu ela, apertando os lábios para não rir.
Mas ele não estava. Rindo, no caso.
Ela ficou surpresa.
E então ele riu. Foi mais uma gargalhada, ela pensou, mas tinha sido estranho porque parecia que ele estava cinco segundos atrasado em relação à piada, o que não era comum acontecer. Ou era?
– Posso falar abertamente, Srta. Winslow? – perguntou ele, um sorriso seco transformando sua entonação em algo carinhoso.
– Sempre – respondeu ela alegremente.
– Acho que a senhorita poderia…
Mas ele parou.
– O quê? – Ela estava sorrindo enquanto dizia isso, então percebeu que ele estava olhando por cima da cabeça dela, em direção à porta. E tinha uma expressão soturna.
Annabel passou a língua pelos lábios nervosamente e engoliu em seco. E se virou. Lorde Newbury tinha acabado de entrar no salão.
– Ele parece zangado – sussurrou ela.
– Ele não tem nenhum direito sobre a senhorita – argumentou o Sr. Grey entre dentes.
– O senhor também não – retrucou ela gentilmente.
Ela olhou para a porta lateral, a que levava ao toalete feminino. Mas o Sr. Grey a segurou com firmeza pelo pulso.
– Não pode fugir – aconselhou ele. – Se fizer isso, todos vão presumir que a senhorita fez algo errado.
– Ou – rebateu ela, detestando a onda de pânico que a inundava – talvez deem uma boa olhada nele e pensem que qualquer jovem em sã consciência gostaria de se manter bem longe.
Só que ninguém pensaria assim. E ela sabia disso. Lorde Newbury caminhava na direção deles, frio e resoluto, e a multidão se abria depressa para permitir sua passagem. É claro, se abria e se fechava novamente, virando-se para Annabel. Caso houvesse uma cena, ninguém estava disposto a perdê-la.
– Ficarei bem aqui ao seu lado – disse o Sr. Grey, baixinho.
Annabel assentiu. Era incrível (e aterrorizante) quanto conforto aquilo lhe dava.
Capítulo dezesseis
– Tio – começou Sebastian jovialmente, visto que aprendera havia muito que aquele era o tom mais eficaz a empregar –, é um prazer revê-lo.
Embora, eu deva dizer, tudo pareça diferente com apenas um olho. – Ele deu um sorriso amarelo. – Até mesmo o senhor.
Newbury lançou um olhar irritado ao sobrinho, depois se virou para Annabel: – Srta.
Winslow.
– Lorde Newbury – cumprimentou ela, fazendo uma mesura.
– Devemos dançar a próxima música.
Era uma ordem, não um pedido. Sebastian se empertigou, na expectativa de que Annabel desse uma resposta ríspida, mas ela apenas engoliu em seco e assentiu. Sebastian compreendeu.
Ela não tinha muito poder contra um conde, e Newbury sempre fora uma presença imponente e arrogante. Annabel também devia uma satisfação aos avós. Eles eram próximos de Newbury; ela não podia envergonhá-los recusando uma mera dança.
– Não deixe de trazê-la de volta para o meu lado – avisou Sebastian, dando ao tio um sorriso inteiramente falso, sem mostrar os dentes.
Newbury respondeu com um olhar frio, e naquele instante Sebastian soube que havia cometido um erro terrível. Ele jamais deveria ter tentado restituir a posição de Annabel na sociedade. Ela teria se saído muito melhor como uma pária. Poderia ter retornado à sua vida no campo, encontrado um escudeiro que falasse tão abertamente quanto ela e vivido feliz para sempre.
A ironia ia quase além do suportável. Todos achavam que Sebastian tinha ido atrás dela porque o tio a queria, mas a verdade era justamente o oposto.
Newbury tinha desistido dela. Até achar que Sebastian poderia, de fato, estar falando sério.
Então passou a desejar a jovem mais do que nunca.
Sebastian supôs que devia haver um limite para o ódio que seu tio sentia dele, mas aparentemente não havia.
– A Srta. Winslow e eu temos um acordo – disse Newbury.
– O senhor não acha que cabe à Srta. Winslow decidir? – perguntou Sebastian gentilmente.
Os olhos de seu tio flamejaram e, por um momento, Sebastian pensou que ele o atacaria novamente. Só que dessa vez Newbury não foi pego de surpresa, e deve ter conseguido controlar melhor seus nervos, porque apenas cuspiu: – Você é muito inconveniente.
– Estou apenas tentando reintegrá-la ao seio da sociedade – explicou Sebastian em um tom suave.
E incriminador. Se de fato Newbury tivesse um acordo com ela, jamais devia tê-la deixado
para os lobos.
Ao ouvir aquilo, Newbury olhou imediatamente para os seios de Annabel.
Sebastian se sentiu enojado.
Newbury ergueu os olhos novamente, ostentando um brilho que só poderia ser descrito como
“orgulho de propriedade”.
– Você não é obrigada a dançar com ele – sussurrou Sebastian.
Que se danassem os avós dela, que se danassem todas as expectativas da sociedade.
Nenhuma dama deveria dançar com um homem que a olhava daquele jeito em público.
Mas Annabel apenas o encarou com o olhar mais triste do mundo e respondeu: – Eu acho que sou.
Newbury deu um sorriso triunfante, pegou-a pelo braço e se afastou.
Sebastian assistiu, queimando por dentro, odiando aquele sentimento, odiando que todo mundo estivesse olhando para ele, à espera de uma reação.
Ele tinha perdido. De alguma forma, tinha perdido.
E se sentia perdido, também.
Na tarde seguinte
Visitas. Annabel era atormentada pelas visitas.
Agora que tanto lorde Newbury quanto o Sr. Grey pareciam interessados nela, a sociedade sentia a necessidade de vê-la com os próprios olhos. Não importava que aquelas mesmas pessoas a tivessem visto alguns dias antes, no começo da semana, quando ela se tornara objeto de pena.
No início da tarde, Annabel estava desesperada para sair dali, portanto inventou uma história ridícula sobre precisar de um chapéu da cor exata de seu novo vestido lilás. Sua avó finalmente a dispensou com um gesto e gritou: – Então vá! Não aguento ouvir essas tolices por nem mais um minuto.
O fato de Annabel jamais ter demonstrado tanto entusiasmo pela moda parecia não ter chamado a atenção da velha senhora. A avó também não estranhou que, para quem estava tão obcecada por encontrar o tom de lilás com tanta precisão, Annabel não tenha achado necessário levar o vestido junto.
Mais uma vez, lady Vickers estava absorta em seu jogo de Paciência, e mais absorta ainda em sua garrafa de conhaque. Annabel poderia muito bem ter amarrado um cocar indígena na cabeça que ela não teria dito uma única palavra.
Annabel e sua aia, Nettie, partiram em direção à Bond Street pegando as ruas menos movimentadas. Ela teria vagado por essas ruas, se pudesse, mas de jeito algum poderia voltar sem um chapéu novo, por isso seguiu em frente, na esperança de que um pouco de ar fresco a ajudasse a pôr as ideias em ordem.
Não ajudou, é claro, e a multidão na Bond Street na verdade só deixou tudo pior. Parecia que todo mundo decidira sair de casa naquele dia, e Annabel levava esbarrões e empurrões, distraída pelo zumbido das conversas e pelos relinchos dos cavalos na rua. Além do mais, fazia calor e parecia não haver ar suficiente circulando.
Ela se encontrava numa enrascada. Lorde Newbury deixara claro na noite anterior que ainda pretendia se casar com ela. Era apenas uma questão de tempo até que ele oficializasse suas intenções.
Annabel tinha ficado tão aliviada quando parecera que ele havia desistido… Sabia que sua família necessitava do dinheiro, mas, se ele não pedisse sua mão, ela não precisaria dizer sim.
Nem não.
Ela não teria que se comprometer com um homem que considerava repulsivo. Nem teria que rejeitá-lo e viver para sempre com a sensação de culpa por ter sido egoísta.
Para piorar a situação, ela recebera uma carta da irmã naquela manhã. Mary era a segunda mais velha, depois de Annabel, e as duas sempre foram próximas. Na verdade, se Mary não tivesse sido acometida por uma doença pulmonar naquela primavera, também teria ido a Londres. “Duas pelo preço de uma”, dissera lady Vickers ao se oferecer para cuidar da apresentação das meninas. “Fica tudo mais barato dessa forma.” A carta de Mary era alegre e otimista, cheia de notícias de casa, sobre o vilarejo, a assembleia local e um melro que, de
alguma forma, entrara na igreja e não conseguia sair, se debateu de um lado para outro e, por fim, acabou pousando na cabeça do vigário.
Era uma carta adorável, e Annabel sentiu tantas saudades de casa que mal conseguia suportar. Mas não era só isso que havia na carta da irmã. Havia informações sobre contenção de despesas, a governanta que a mãe teve que dispensar e o embaraçoso jantar duas semanas antes, quando o baronete local e sua esposa apareceram sem avisar… e havia apenas um tipo de carne à mesa.
O dinheiro estava acabando. Mary não tinha dito isso com todas as letras, mas a mensagem estava lá, clara como o dia. Annabel deu um suspiro profundo e triste ao pensar na irmã. Mary provavelmente estava em casa imaginando que Annabel devia estar atraindo a atenção de um nobre absurdamente bonito e inacreditavelmente rico. Ela o levaria para casa, brilhando de felicidade, e ele encheria a família de dinheiro até que todos os problemas estivessem resolvidos.
Em vez disso, Annabel tinha um nobre absurdamente rico e assustadoramente pavoroso, e um rebelde provavelmente pobre e inacreditavelmente bonito. Que a fazia se sentir…
Não. Ela não podia pensar naquilo. Não importava como o Sr. Grey a fazia se sentir, porque o Sr. Grey não planejava pedi-la em casamento. E mesmo que planejasse, ele estava longe de ter os meios que a ajudariam a sustentar sua família. Annabel não costumava dar crédito a esse tipo de fofoca, mas pelo menos doze dos dezoito visitantes que ela recebera naquela manhã acharam oportuno comentar que o Sr. Grey levava uma vida frugal. Isso sem falar nos tantos visitantes que apareceram após o incidente no clube.
Todos tinham uma opinião própria sobre o Sr. Grey, ao que parecia, mas a única coisa com a qual concordavam era que ele não possuía uma grande riqueza. Ou qualquer riqueza, na verdade.
E, de uma forma ou de outra, ele não a pedira em casamento. Nem pretendia pedir.
Com o coração pesado, Annabel virou a esquina que dava para a Brook Street, permitindo que Nettie começasse a falar sobre as extravagantes toucas emplumadas que tinham visto numa vitrine da Bond Street. Ela estava a cerca de seis casas de distância da de seus avós quando viu se aproximar uma carruagem que vinha da direção oposta.
– Espere – pediu ela, estendendo a mão para deter Nettie.
A aia olhou para ela com desconfiança, mas parou. E parou de falar.
Annabel assistiu apavorada enquanto lorde Newbury descia para a calçada e subia a escada.
Não havia dúvidas do porquê de ele estar ali.
– Ai! Senhorita…
Annabel se virou para Nettie e percebeu que estava apertando o braço da pobre garota como se fosse um torno.
– Sinto muito – disse ela imediatamente, soltando o braço da aia. – Não posso voltar para casa. Não ainda.
– A senhorita quer um chapéu diferente? – Nettie olhou para o pacote que estava carregando.
– Havia aquele com as uvas, mas acho que era escuro demais.
– Não. Eu apenas… eu apenas… não posso voltar para casa. Agora não.
Completamente em pânico, Annabel agarrou a mão de Nettie e a arrastou de volta pelo
caminho de onde tinham vindo, sem nem mesmo parar para respirar, até estarem fora da vista da casa dos Vickers.
– O que foi isso? – indagou a aia, sem fôlego.
– Por favor – implorou Annabel. – Por favor, não pergunte.
Ela observou em volta. Era uma rua residencial. As duas não poderiam ficar ali a tarde toda.
– Bem, nós vamos… – Annabel engoliu em seco. Para onde poderiam ir? Ela não queria voltar para a Bond Street. Tinham acabado de voltar, e certamente alguém que a vira ainda estaria lá para notar seu reaparecimento. – Vamos comer um doce! – disse ela, alto demais. – É
isso. Não está com fome? Eu estou faminta. Você não?
Nettie a olhou como se Annabel tivesse enlouquecido. E talvez ela tivesse mesmo. Annabel sabia o que precisava fazer. Sabia disso havia mais de uma semana. Mas não queria fazê-lo naquela tarde. Era pedir demais?
– Venha – chamou Annabel com urgência. – Há uma confeitaria logo ali…
Onde?
– Na Clifford Street? – sugeriu Nettie.
– Sim! Sim, acho que sim.
Annabel saiu correndo, mal prestando atenção aonde ia, tentando conter as lágrimas que ardiam em seus olhos. Precisava se controlar. Não podia entrar em um estabelecimento, nem mesmo em uma humilde confeitaria, naquele estado. Precisava respirar fundo, se acalmar e…
– Ah, Srta. Winslow!
Annabel congelou. Deus do céu, ela não queria falar com ninguém. Por favor, não naquela hora.
– Srta. Winslow!
Annabel respirou fundo e se virou. Era lady Olivia Valentine, sorrindo para ela enquanto entregava algo à própria aia e seguia na direção de Annabel.
– Que prazer em vê-la – cumprimentou Olivia, animada. – Ouvi dizer… Ah, Srta. Winslow, há algo errado?
– Não é nada – mentiu Annabel. – Eu apenas…
– Não, houve alguma coisa, sim – disse Olivia com firmeza. – Venha comigo. – Ela deu o braço a Annabel e a guiou alguns passos para trás. – Esta é minha casa – informou ela. – A senhorita pode descansar aqui.
Annabel não discutiu, grata por ter um lugar aonde ir, grata por ter alguém para lhe dizer o que fazer.
– A senhorita precisa de um chá – afirmou Olivia, acomodando a jovem em uma sala de estar. – Eu preciso de um chá só de olhá-la.
Ela tocou o sino para chamar uma criada e pediu um serviço de chá, depois se sentou ao lado de Annabel, pegando uma de suas mãos.
– Annabel – disse ela. – Posso chamá-la de Annabel?
Annabel assentiu.
– Há algo que eu possa fazer por você?
Annabel balançou a cabeça.
– Bem que eu gostaria.
Olivia mordeu o lábio, apreensiva, então perguntou, num tom de voz atencioso: – Foi meu primo? Sebastian fez alguma coisa?
– Não! – exclamou Annabel. – Não. Não. Não, por favor, ele não fez nada. Ele tem sido extremamente gentil e generoso. Se não fosse por ele… – Ela balançou a cabeça novamente, mas dessa vez muito rápido, e isso a desorientou tanto que ela teve que colocar a mão na testa. – Se não fosse pelo Sr. Grey – recomeçou ela, assim que se sentiu suficientemente preparada para falar sem gaguejar –, eu teria me tornado uma pária.
Olivia assentiu lentamente.
– Só me resta presumir que tem a ver com lorde Newbury.
Annabel meneou a cabeça discretamente. Olhou para o colo, para as mãos, uma delas ainda agarrada às de Olivia, a outra fechada com força.
– Estou sendo muito boba e muito egoísta. – Ela respirou fundo e tentou limpar a garganta, mas o que saiu foi um som terrível, como se estivesse sufocando. O som que alguém emite logo antes de chorar. – Eu apenas não… não quero…
Ela não terminou a frase. Não precisava. Viu a piedade nos olhos de Olivia.
– Ele a pediu em casamento, então? – perguntou Olivia delicadamente.
– Não. Ainda não. Mas ele está na casa dos meus avós neste instante. Eu vi a carruagem dele.
Eu o vi entrar. – Ela ergueu os olhos. Não queria nem pensar no que Olivia seria capaz de enxergar em seu rosto, em seu olhar, mas sabia que não poderia continuar fitando seu colo para sempre. – Sou uma covarde. Eu o vi e saí correndo. Apenas pensei: “Se eu não for para casa, ele não poderá me pedir em casamento, e eu não terei que aceitar.”
– Você não pode recusar?
Annabel balançou a cabeça, totalmente derrotada.
– Não – respondeu ela, perguntando-se por que parecia tão exausta. – Minha família… Nós precisamos… – Ela engoliu em seco, fechando os olhos para lutar contra a dor de tudo aquilo. –
Depois que meu pai morreu, a situação ficou muito difícil e…
– Está tudo bem – disse Olivia, apertando suavemente sua mão. – Eu compreendo.
Annabel sorriu por entre as lágrimas, um tanto agradecida pela bondade daquela mulher. Não parava de pensar que Olivia jamais conseguiria entender. Não lady Valentine, com seu marido amoroso e seus pais ricos e nobres. Ela jamais entenderia a pressão que recaía sobre os ombros de Annabel, por saber que tinha o poder de salvar a família, e tudo que ela precisava fazer era abrir mão de si mesma.
Olivia deixou escapar um longo suspiro.
– Bem – começou ela –, podemos adiar tudo isso por um dia, pelo menos. Você pode ficar aqui pelo resto da tarde. Eu adoraria sua companhia.
– Obrigada – respondeu Annabel.
Olivia acariciou a mão de Annabel e depois se levantou. Foi até a janela e olhou para fora.
– Não dá para ver a casa dos meus avós daqui.
Olivia se virou, sorrindo.
– Eu sei. Eu estava apenas pensando. Algumas das minhas melhores ideias me vêm quando
estou à janela. Talvez eu saia para dar um passeio daqui a uma hora, mais ou menos. Para ver se a carruagem do conde ainda está diante da residência dos Vickers.
– A senhora não deveria – intercedeu Annabel. – Sua condição…
– Não me impede de caminhar – disse Olivia com uma expressão atrevida. – Preciso aproveitar o ar puro. Fiquei muito melancólica nos primeiros três meses e, de acordo com minha mãe, provavelmente ficarei melancólica nos últimos três, então é melhor aproveitar este intervalo.
– É o melhor período da gravidez – confirmou Annabel.
Olivia inclinou a cabeça, lançando um olhar interrogativo à jovem.
– Eu sou a mais velha de oito irmãos – explicou Annabel. – Minha mãe esteve grávida por quase toda a minha infância.
– Oito? Deus do céu! Eu sou apenas uma de três.
– É por isso que lorde Newbury deseja se casar comigo – revelou Annabel categoricamente.
– Minha mãe teve seis irmãos. Meu pai, nove. Sem mencionar que, segundo as fofocas, sou tão fértil que os pássaros cantam quando eu me aproximo.
Olivia estremeceu.
– Chegou aos seus ouvidos – falou.
Annabel revirou os olhos.
– Eu achei até engraçado.
– Que bom que você encara isso com bom humor.
– É preciso – disse Annabel, dando de ombros, resignada. – Se não podemos encarar tudo com bom humor, aí… – Ela suspirou, incapaz de terminar a frase. Era triste demais.
Annabel cedeu ao peso do corpo, fixando o olhar na curva ornamentada do pé de uma mesinha. Ficou olhando até a vista embaçar e duplicar. Devia estar ficando vesga. Ou cega.
Talvez, se ela ficasse cega, lorde Newbury não a quisesse mais. Será que era possível ficar cega mantendo os olhos vesgos durante dias? Talvez. Valia a pena tentar. Ela deixou a cabeça cair de lado.
– Annabel? Srta. Winslow? Você está bem?
– Tudo bem – respondeu Annabel, de forma automática, ainda fitando a mesinha.
– Ah, o chá chegou! – exclamou Olivia, aliviada por quebrar o silêncio constrangedor. –
Aqui está. – Ela se sentou e colocou uma xícara em um pires. – Como você gosta do seu?
Annabel desviou o olhar da mesa com relutância e piscou, permitindo que os olhos voltassem ao normal.
– Com leite, por favor. Sem açúcar.
Olivia esperou o chá infusionar, conversando sobre amenidades. Annabel estava feliz – não, agradecida – por poder apenas ficar sentada, escutando. Ela soubera da cunhada de Olivia, que não gostava muito de ir à cidade, e do irmão gêmeo, que era (nos dias ímpares) um filhote do demônio. Nos dias pares, Olivia tinha dito, com os olhos voltados para o céu: “Eu acho que o amo.”
Enquanto Annabel bebericava o chá quente, Olivia lhe contou sobre o trabalho do marido.
– Ele costumava traduzir documentos pavorosos. Textos terrivelmente chatos. As pessoas
acham que os documentos do Departamento de Guerra são cheios de intrigas, mas, acredite, não é verdade.
Annabel dava um gole e assentia, dava outro gole e assentia.
– Ele reclama dos livros da Gorely o tempo todo – continuou Olivia. – A escrita é mesmo terrível. Mas acho que, no fundo, ele adora traduzi-los. – Ela ergueu os olhos, como se tivesse acabado de concluir algo. – Na verdade, ele tem que agradecer a Sebastian por esse trabalho.
– É mesmo? Por quê?
A boca de Olivia se abriu, mas foram necessários alguns segundos até que saíssem as palavras: – Sinceramente, não sei bem como explicar. Sebastian fez uma leitura para o príncipe Alexei. A quem, eu suponho, você deve ter sido apresentada ontem à noite.
Annabel assentiu. Depois franziu a testa, estranhando.
– Fez uma leitura?
Olivia parecia incrédula.
– Foi notável. – Ela balançou a cabeça. – Ainda não consigo acreditar. As aias ficaram aos prantos.
– Meu Deus.
Annabel precisava mesmo ler um livro da tal Gorely.
– De alguma forma, o príncipe Alexei se apaixonou pela história. A Srta. Butterworth e o barão louco. Ele pediu que Harry a traduzisse para que seus compatriotas também pudessem lê-la.
– Deve ser uma história e tanto.
– Ah, é, sim. Começa com uma morte por pombos.
Annabel engasgou com o chá.
– Está brincando.
– Não. Juro. Pombos bicam a mãe da Srta. Butterworth até a morte. E a pobre mulher passa por isso depois de ser o único membro de sua família, além da Srta. Butterworth, é claro, a sobreviver à peste.
– Bubônica? – indagou Annabel, de olhos arregalados.
– Ah, não, desculpe, foi varíola. Bem que eu gostaria que tivesse sido a peste bubônica.
– Preciso ler um desses livros – concluiu Annabel.
– Posso lhe dar um exemplar. – Olivia pousou a xícara, se levantou e cruzou a sala. – Temos muitos aqui. Harry às vezes marca as páginas, então tivemos que comprar um monte. – Ela abriu um pequeno armário e se curvou para olhar dentro dele. – Ah, Deus, esqueci que estou um pouco pesada.
Annabel fez menção de se levantar.
– Quer ajuda?
– Não, não. – Olivia deu um pequeno gemido enquanto se endireitava. – Aqui está. A Srta.
Sainsbury e o coronel misterioso. Acho que este foi o livro de estreia da Sra. Gorely.
– Obrigada – disse Annabel pegando o livro.
Ela admirou a capa, passando os dedos pelas letras douradas. Abriu na primeira página e leu a abertura.
Os raios oblíquos da luz da alvorada ondulavam através da vidraça e a Srta. Anne Sainsbury estava encolhida debaixo de seu cobertor fino, imaginando, como era de costume, onde conseguiria dinheiro para sua próxima refeição. Ela olhou para sua fiel collie, deitada em silêncio no tapete ao lado da cama, e soube que havia chegado a hora de tomar uma decisão crucial. A vida de seus irmãos e irmãs dependia daquilo.
Ela fechou o livro com força.
– Alguma coisa errada? – perguntou Olivia.
– Não, é só que… Não foi nada. – Annabel tomou mais um gole de chá. Não sabia se, naquele momento, queria ler sobre uma garota tomando decisões importantes. Principalmente sobre uma que tinha irmãos e irmãs que dependiam dela. – Acho que vou ler mais tarde.
– Se quiser ler agora, fico mais do que feliz em deixá-la em paz – comentou Olivia. – Ou eu poderia me juntar a você. Ainda estou na metade do jornal de hoje.
– Não, não. Vou começar à noite. – Annabel sorriu com tristeza. – Será uma distração bem-vinda.
Olivia ia começar a dizer alguma coisa, mas naquele exato momento as duas ouviram alguém chegando.
– Harry? – chamou Olivia.
– Sou só eu, infelizmente.
Annabel congelou. Era o Sr. Grey.
– Sebastian! – gritou Olivia, lançando um olhar tenso para Annabel.
Annabel balançou a cabeça freneticamente. Não queria vê-lo. Não naquele momento, quando se sentia tão frágil.
– Sebastian, eu não estava esperando você – avisou Olivia, correndo em direção à porta da sala de visitas.
Ele entrou, inclinando-se para beijá-la no rosto.
– Desde quando você me espera ou deixa de me esperar?
Annabel se esparramou em seu assento. Talvez ele não a visse. O vestido dela era quase do mesmo tom de azul do sofá. Talvez ela pudesse se camuflar. Talvez ele tivesse ficado cego por ter ficado vesgo durante vários dias. Talvez…
– Annabel? Srta. Winslow?
Ela deu um sorriso amarelo.
– O que está fazendo aqui? – Ele cruzou rapidamente a sala, a testa franzida de preocupação.
– Aconteceu alguma coisa?
Annabel balançou a cabeça, incapaz de falar. Achou que tivesse se controlado. Estava rindo com Olivia, pelo amor de Deus. Mas bastou um olhar para o Sr. Grey e tudo o que ela tinha tentado conter voltou na mesma hora, como uma pressão no fundo dos olhos, um aperto na garganta.
– Annabel? – perguntou ele, ajoelhando-se diante dela.
Ela explodiu em lágrimas.
Capítulo dezessete
Depois que Annabel dançara com seu tio na noite anterior, Sebastian a vira apenas uma vez.
Ela havia fechado os olhos e parecia estar ali à força, mas não tinha como prever aquilo. Estava chorando como se o mundo fosse desabar sobre ela.
Seb sentiu como se tivesse levado um soco no estômago.
– Bom Deus – exclamou ele, virando-se para Olivia. – O que aconteceu?
Olivia mordeu o lábio e não respondeu. Apenas inclinou a cabeça na direção de Annabel. Seb teve a impressão de que estava sendo repreendido.
– Não foi nada – comentou Annabel aos soluços.
– Não é verdade – rebateu ele.
Ele encarou Olivia mais uma vez, com uma expressão de impaciência e irritação.
– Não é verdade – confirmou Olivia.
Seb praguejou baixinho.
– O que Newbury fez?
– Nada – respondeu Annabel, balançando a cabeça. – Ele não fez nada, porque… porque…
Sebastian engoliu em seco, desconfortável com o enjoo que começava a sentir. Seu tio não tinha reputação de ser vil nem cruel, mas nenhuma mulher tinha motivos para considerá-lo gentil. Newbury era do tipo que provocava dor por descuido ou, mais precisamente, por egoísmo.
Pegava tudo o que queria, porque achava que merecia. Se as necessidades dele entrassem em conflito com as de outra pessoa, ele, francamente, não se importava.
– Annabel – disse Sebastian –, precisa me contar o que aconteceu.
Mas ela ainda estava chorando, hiperventilando, com o nariz…
Ele estendeu seu lenço a ela.
– Obrigada – disse ela, e o usou. Duas vezes.
– Olivia, pode me contar que diabo está acontecendo? – perguntou ele, virando-se para a prima.
Olivia se aproximou e cruzou os braços, parecendo virtuosa como só uma mulher é capaz.
– A Srta. Winslow acredita que seu tio está prestes a pedi-la em casamento.
Ele deixou escapar um longo suspiro. Não estava surpreso. Annabel era tudo o que seu tio queria em uma noiva, ainda mais agora, quando achava que Sebastian também a desejava.
– Vamos pensar com calma – disse ele, tentando soar reconfortante. Ele pegou uma das mãos dela e a apertou. – Vai dar tudo certo. Eu também estaria chorando se ele viesse a me pedir em casamento.
Ela deu a impressão de que ia rir, mas logo voltou a chorar.
– Você não pode dizer não? – perguntou ele a Annabel. – Ela não pode dizer não? – indagou ele a Olivia.
Olivia cruzou os braços.
– O que você acha?
– Se eu achasse alguma coisa, não teria perguntado, certo? – disparou ele, ficando de pé.
– Ela é a mais velha de oito filhos, Sebastian. Oito!
– Pelo amor de Deus! – explodiu ele. – Você não consegue ser mais clara? Annabel ergueu os olhos, momentaneamente em silêncio.
– Agora entendo como você se sente – brincou ele.
– Não temos mais dinheiro – explicou Annabel em voz baixa. – Minha mãe teve que dispensar a governanta. A escola vai mandar meus irmãos de volta para casa.
– E seus avós?
Sem dúvida lorde Vickers tinha dinheiro suficiente para pagar algumas contas.
– Meu avô não fala com minha mãe há vinte anos. Ele nunca a perdoou por ter se casado com meu pai. – Ela hesitou por um momento, respirando fundo e depois assoando o nariz. – Só me recebeu aqui porque minha avó insistiu. E ela só fez isso porque… bem, não sei por quê. Ela deve ter achado que seria divertido.
Seb olhou para Olivia. Ela ainda estava de pé, com os braços cruzados, parecendo uma mamãe ganso defendendo o ninho.
– Com licença – pediu ele a Annabel, e então agarrou o pulso de Olivia e a arrastou cômodo afora. – O que você quer que eu faça? – sibilou ele entre dentes.
– Não sei do que você está falando.
– Pare de joguinhos. Você está me encarando desde que eu cheguei.
– Ela está chateada!
– Eu percebi – retrucou ele.
Ela o cutucou no peito.
– Bem, então faça alguma coisa.
– Não é minha culpa!
E não era mesmo. Newbury já queria Annabel muito antes de Sebastian aparecer na história.
Ela provavelmente estaria na mesma situação se Seb nunca a tivesse conhecido.
– Ela precisa se casar, Sebastian.
Ah, pelo amor de Deus!
– Você está sugerindo que eu a peça em casamento? – indagou ele, sabendo muito bem o que ela estava sugerindo. – Eu a conheço há apenas uma semana.
Olivia o encarou como se ele fosse um completo canalha. Que diabo, ele se sentia como um.
Annabel estava sentada do outro lado da sala, choramingando no lenço dele. Só um homem com um coração de pedra não iria querer ajudá-la.
Mas casamento? Que tipo de homem se casaria com uma mulher que conhecia… havia quanto tempo? Oito dias? A sociedade podia considerá-lo tolo e insensato, mas apenas porque ele gostava que fosse assim. Sebastian cultivava essa imagem porque… porque… Bem, diabo, ele não sabia por quê. Talvez porque fosse divertido.
Mas ele imaginava que Olivia o conhecesse melhor.
– Eu gosto da Srta. Winslow – sussurrou ele. – De verdade. E lamento que ela esteja nessa situação terrível. Deus sabe, e eu mais ainda, a existência miserável que deve ser conviver com Newbury. Só que não fui eu que causei isso. Não é problema meu.
Os olhos de Olivia se fixaram nos dele, repletos de decepção.
– Você se casou por amor – lembrou ele a ela.
Ela ficou de queixo caído, e ele soube que tinha acertado em cheio. No entanto, não sabia por que se sentia tão culpado por isso. De qualquer modo, agora ele não podia mais parar de provocá-la.
– Você me negaria esse mesmo direito? – perguntou ele.
Exceto pelo fato de que…
Ele observou Annabel. Ela estava olhando pela janela, desolada. Seus cabelos escuros tinham começado a se soltar das presilhas, e um cacho descia-lhe pelas costas, revelando o comprimento alguns centímetros abaixo dos ombros.
Devia ser mais longo quando estivesse molhado, pensou ele.
Mas ele jamais o veria molhado.
Sebastian engoliu em seco.
– Você está certo – disse Olivia, de repente.
– O quê? – Ele olhou para ela, piscando.
– Você está certo – repetiu ela. – Seria injusto da minha parte esperar que você se metesse nisso para salvá-la. Duvido que ela seja a primeira garota em Londres a ter que se casar com alguém de quem não gosta.
– Não é.
Ele encarou Olivia, desconfiado. Será que ela estava tramando alguma coisa? Podia ser. Ou podia não ser. Droga. Ele odiava quando não conseguia decifrar uma mulher.
– Não é como se você pudesse salvar todas elas.
Ele assentiu, mas sem muita convicção.
– Muito bem – disse Olivia rapidamente. – Podemos salvá-la por esta tarde, pelo menos. Eu falei que ela poderia ficar aqui até anoitecer. Sem dúvida, Newbury perderá a paciência antes disso e voltará para casa.
– Ele está na casa dela agora?
Olivia fez que sim.
– Ela estava voltando para casa, vindo de… bem, não sei de onde. Foi fazer compras, suponho. Então o viu descer da carruagem.
– E ela tem certeza de que ele estava lá para pedi-la em casamento?
– Não acredito que ela quisesse ficar tempo suficiente para descobrir – respondeu Olivia com acidez.
Sebastian assentiu, lentamente. Era difícil se colocar no lugar de Annabel, mas ele imaginou que teria feito o mesmo.
Olivia olhou para o relógio sobre a lareira.
– Eu tenho um compromisso.
Ele não acreditou nela nem por um segundo, mas mesmo assim disse: – Eu fico aqui com ela.
Olivia deu um longo suspiro.
– Suponho que precisamos enviar um recado aos Vickers. Eles vão sentir falta dela em algum momento. Se bem que, conhecendo a avó, talvez não.
– Diga que você a convidou para uma visita – sugeriu ele. – Eles não poderiam se opor.
Olivia era uma das jovens matronas mais populares de Londres; qualquer um ficaria encantado se ela acolhesse uma filha ou neta debaixo de sua asa. Ela assentiu e se aproximou de Annabel. Sebastian se serviu de uma bebida e, depois de virá-la em um gole só, serviu mais uma dose. E serviu uma para Annabel também. Quando chegou com os copos, Olivia se despediu e se dirigiu à porta.
Ele lhe estendeu o copo.
– Ela tem um compromisso – avisou Annabel.
Sebastian assentiu.
– Pegue – disse ele. – A senhorita pode não querer. Mas pode querer também.
Ela pegou o copo, tomou um pequeno gole e o pousou.
– Minha avó bebe demais – comentou ela, com uma voz tão fraca que partia o coração.
Sebastian não falou nada, apenas se acomodou na cadeira mais próxima do sofá e fez um muxoxo, como quem concordava. Não lidava bem com mulheres tristes. Não sabia o que dizer.
Nem fazer.
– Ela não fica bêbada. Só meio abobalhada.
– E carinhosa? – perguntou ele, dando um sorriso malicioso.
Era um comentário altamente inapropriado, mas ele não conseguia suportar a tristeza nos olhos dela. Se pudesse fazê-la sorrir, valeria a pena.
E ela sorriu! Apenas um pouco. Ainda assim, a sensação foi de vitória.
– Ah, sim. – Ela cobriu a boca com a mão e balançou a cabeça. – Sinto muito – disse ela com pesar. – Sinceramente, acho que nunca me senti tão envergonhada. Eu nunca a vi fazer aquilo antes.
– Deve ter sido meu rostinho bonito.
Annabel olhou para ele, com ar debochado.
– A senhorita não vai falar nada sobre minha modéstia e minha discrição? – indagou ele.
Ela balançou a cabeça, o brilho começando a retornar aos seus olhos.
– Eu nunca fui muito boa em mentir.
Ele riu.
Ela tomou outro gole da bebida e baixou novamente o copo. Mas não o soltou. Seus dedos ficaram tamborilando no vidro, traçando pequenas linhas rápidas ao redor da borda. Não parava quieta, sua Annabel.