Dez coisas que eu amo em você

Julia Quinn · Capítulo 3 de 5 · parte 1/3

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Dez coisas que eu amo em você

Capítulo nove

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

Annabel tentou acompanhar a conversa, mas estava distraída demais com o pânico. E com a mão direita do Sr. Grey, que descansava levemente contra a perna dele. E com a curva maliciosa de sua boca, que ela se esforçava muito para não encarar, mas que de alguma forma era captada pelo seu campo de visão. Sem mencionar o som de sua voz, quando ele falou alguma coisa sobre… bem, alguma coisa.

Livros. Eles estavam conversando sobre livros.

Annabel permaneceu em silêncio. Não tinha lido os livros em questão e, além disso, achava melhor participar o mínimo possível da conversa. O Sr. Grey ainda lhe lançava olhares ocasionais, e parecia tolice lhe dar razão para fazê-lo tão abertamente.

É claro que foi justamente nessa hora que ele se virou para ela com aqueles olhos cinzentos maliciosos e perguntou: – E a senhorita, já leu algum dos livros de Sarah Gorely?

– Receio que não.

– Ah, pois deveria, Annabel! – exclamou Louisa, entusiasmada. – Você vai adorar. Hoje mesmo iremos à livraria. Eu poderia lhe emprestar os meus, mas estão todos em Fenniwick.

– A senhorita tem a coleção completa, lady Louisa? – perguntou o Sr. Grey.

– Ah, sim. Exceto por A Srta. Truesdale e o cavalheiro mudo, obviamente. Mas isso logo será corrigido – comentou ela, voltando-se para a prima. – O que temos agendado para hoje à

noite? Espero que seja algo que possamos desmarcar. Não quero nada além de uma xícara de chá e meu novo livro.

– Creio que temos uma ópera – respondeu Annabel.

A família de Louisa era proprietária de um dos melhores camarotes, e havia semanas Annabel estava ansiosa para assistir a uma apresentação.

– Jura? – disse Louisa, desanimada.

– Prefere ficar em casa lendo? – indagou o Sr. Grey.

– Ah, sem dúvida. O senhor não?

Annabel olhou para a prima com algo entre surpresa e descrença. Louisa era tão tímida e, no entanto, lá estava ela, falando animadamente sobre romances com um dos mais notórios solteiros de Londres.

– Acho que depende da ópera – comentou o Sr. Grey, pensativo. – E do livro.

– A flauta mágica – informou Louisa. – E A Srta. Truesdale.

– A flauta mágica? – indagou lady Olivia. – Eu perdi a apresentação do ano passado. Preciso dar um jeito de ir dessa vez.

– Eu prefiro A Srta. Truesdale a As bodas de Fígaro – disse o Sr. Grey –, mas talvez não a A flauta mágica. Há algo de fascinante em ver o coração de alguém ferver como o inferno.

– É de partir o coração – murmurou Annabel.

– O que disse, Srta. Winslow? – perguntou ele.

Annabel engoliu em seco. Ele estava sorrindo de maneira inofensiva, mas ela sentiu a cutucada no tom de sua voz, e isso a aterrorizava. Não seria capaz de entrar em uma batalha com aquele homem e sair vitoriosa. Disso tinha certeza.

– Nunca assisti a A flauta mágica – retrucou ela.

– Nunca? – indagou lady Olivia. – Como é possível?

– Creio que óperas não são muito frequentes em Gloucestershire.

– A senhorita precisa assistir – disse lady Olivia. – Precisa!

– Estava planejando ir esta noite – retrucou Annabel. – A família de lady Louisa me convidou.

– Mas não conseguirá ir se ela ficar em casa lendo um livro – completou lady Olivia astutamente; em seguida, virou-se para Louisa: – A senhorita terá que adiar A Srta. Truesdale e seu cavalheiro mudo até amanhã. Não pode permitir que a Srta. Winslow perca a ópera.

– Por que não se juntam a nós? – perguntou Louisa.

Annabel desejou matar a prima.

– A senhora mencionou que perdeu a apresentação no ano passado – continuou ela. – Temos um camarote grande. Nunca fica lotado.

O rosto de lady Olivia se iluminou de contentamento.

– É muito gentil de sua parte. Eu adoraria.

– É claro que o senhor também está convidado – falou Louisa para Sebastian Grey.

Annabel definitivamente iria matá-la. Pelos meios mais dolorosos que se pudesse imaginar.

– Seria um prazer – respondeu ele. – Em troca dessa honra, permita-me presenteá-la com um exemplar de A Srta. Truesdale e o cavalheiro mudo.

– Obrigada – disse Louisa, mas Annabel poderia jurar que ela parecia desapontada. – Isso seria…

– Pedirei que o entreguem em sua casa esta tarde – continuou ele com delicadeza –, para que possa começar a lê-lo imediatamente.

– O senhor está sendo extremamente gentil – murmurou Louisa.

E corou. Ela corou!

Annabel estava perplexa.

E sentia ciúme, mas preferiu não se afligir com isso.

– Haverá espaço para meu marido também? – indagou lady Olivia. – Ele vem se tornando um eremita, mas acho que podemos convencê-lo a sair da toca para ir à ópera. Eu sei que a ária da Rainha da Noite é uma das favoritas dele.

– Todo aquele inferno fervendo – comentou o Sr. Grey. – Quem seria capaz de resistir?

– É claro – respondeu Louisa a lady Olivia. – Eu ficaria honrada em conhecê-lo. O trabalho dele parece fascinante.

– Eu mesmo morro de inveja de Harry – murmurou o Sr. Grey.

– De Harry? – indagou lady Olivia, surpresa, virando-se para ele.

– Não consigo imaginar nada que me deixaria mais feliz do que ler livros o dia todo.

– Muito bons livros, na verdade – acrescentou Louisa.

Lady Olivia riu.

– Ele faz um pouco mais do que simplesmente ler – esclareceu ela. – Um pequeno trabalho de tradução.

– Pfff. – O Sr. Grey abanou a mão, menosprezando aquele fato. – Um trabalhinho de nada.

– Traduzir para o russo? – perguntou Annabel, confusa.

Ele a olhou com uma expressão que poderia ser de condescendência.

– Eu estava sendo irônico.

Ele falou baixinho, no entanto, e Annabel achou que Louisa ou lady Olivia não o tivessem escutado. As duas conversavam sobre frivolidades e se afastaram um pouco para a direita, deixando Annabel com o Sr. Grey. Não sozinha – nem remotamente sozinha –, mas, de alguma forma, ela se sentia assim.

– A senhorita tem um nome? – indagou ele suavemente.

– Annabel – respondeu ela, com voz firme e áspera, em um tom bastante contrariado.

– Annabel – repetiu ele. – Eu diria que combina com você, mas como eu poderia saber, não é mesmo?

Ela contraiu os lábios, mas os dedos dos pés estavam agitados dentro das botas.

Sebastian Grey sorriu como um lobo prestes a devorar sua presa.

– Já que nunca nos vimos antes.

Ainda assim ela manteve a boca fechada. Não confiava em si mesma para falar nada.

Sua reação só parecia diverti-lo mais. Ele inclinou a cabeça na direção dela, o perfeito cavalheiro inglês, educado.

– Ficaria feliz em vê-la novamente hoje à noite.

– Ficaria?

Ele riu.

– Que rabugenta! A senhorita é de fato muito azeda.

– Azeda – repetiu ela sem rodeios. – Realmente.

Ele se inclinou.

– Por que me odeia tanto?

Annabel lançou um olhar nervoso para a prima.

– Ela não pode me ouvir – avisou ele.

– O senhor não tem como garantir.

Ele olhou para Louisa e lady Olivia, que naquele momento estavam abaixadas ao lado de Frederick.

– Estão ocupadas demais com o cachorro. Embora… – interrompeu-se ele, franzindo o cenho

– eu não saiba como Olivia conseguirá se levantar em sua condição.

– Ela vai ficar bem – retrucou Annabel sem pensar.

O Sr. Grey se virou para ela com as sobrancelhas arqueadas.

– A gravidez não está tão avançada assim – explicou ela.

– Normalmente, eu presumiria que essa afirmação vem de alguém com experiência, mas como sei que a senhorita não é mais experiente do que eu…

– Sou a mais velha de oito filhos – disparou Annabel. – Minha mãe esteve grávida durante toda a minha infância.

– Uma explicação que eu não tinha cogitado – admitiu ele. – Odeio quando isso acontece.

Annabel queria odiá-lo. Queria de verdade. Só que ele dificultava o processo, com seu sorrisinho de lado e seu charme sutil.

– Por que aceitou o convite de Louisa para a ópera? – perguntou ela.

Ele a encarou sem expressão, embora ela soubesse que seu cérebro estava zunindo em alta velocidade.

– O camarote dos Fenniwicks – argumentou ele, como se não houvesse outra justificativa. –

Eu jamais conseguiria um lugar tão bom novamente.

Era verdade. A tia de Louisa exaltara bastante a localização.

– E, é claro, a senhorita parecia tão desolada… – acrescentou. – Foi difícil resistir.

Annabel lançou-lhe um olhar de reprovação.

– Honestidade sempre – brincou ele. – É o meu novo lema.

– Novo?

Ele deu de ombros.

– Desde hoje à tarde, pelo menos.

– E até hoje à noite?

– Certamente até eu chegar à ópera – disse ele com um sorriso malicioso. Como ela não retribuiu a gozação, ele falou: – Vamos lá, com certeza a senhorita tem algum senso de humor.

Annabel deu um leve gemido. Havia tantas razões pelas quais aquela conversa não tinha nenhuma graça que ela mal sabia por onde começar. Havia tantas razões pelas quais aquela conversa não tinha nenhuma graça que quase chegava a ser de fato engraçado.

– Não precisa se preocupar – falou ele calmamente.

Ela ergueu o olhar para ele. Estava sério. Não severo, nem ameaçador, apenas… sério.

– Não vou falar nada – comentou ele.

De alguma forma, ela sabia que ele estava dizendo a verdade.

– Obrigada.

Ele se inclinou e beijou a mão dela novamente.

– Acredito que hoje, terça-feira, seja um dia adorável para conhecer uma jovem dama.

– Hoje é quarta-feira – corrigiu ela.

– É mesmo? Eu sou péssimo com datas. É minha única falha.

Ela queria rir, mas não se atreveu a chamar atenção. Louisa e lady Olivia ainda estavam conversando, e quanto mais tempo elas ficassem distraídas, melhor.

– A senhorita está sorrindo – disse ele.

– Não estou, não.

– Mas quer sorrir. Os cantos da sua boca estão se franzindo.

– Não estão, não!

O Sr. Grey deu um sorriso malicioso.

– Agora estão.

Ele estava certo, aquele demônio. Dera um jeito de fazê-la rir – ou pelo menos de fazê-la sorrir na luta para não rir – em menos de um minuto.

Era de admirar que ela houvesse lhe pedido que a beijasse?

– Annabel!

Ela se virou, aliviada, ao som da voz de Louisa.

– Minha tia está nos chamando – comentou Louisa, e, de fato, lady Cosgrove vinha atravessando o gramado na direção delas, com um olhar bastante severo.

– Imagino que ela não aprove o fato de a senhorita conversar comigo – disse o Sr. Grey –, embora acredite que a presença de Olivia seria suficiente para me transformar em um sujeito respeitável.

– Não sou tão respeitável assim – disse lady Olivia.

O queixo de Annabel caiu, em choque.

– Ela é absolutamente respeitável – sussurrou Louisa para Annabel. – Ela está apenas… Ah, esqueça.

Mais uma vez, todo mundo sabia tudo sobre todo mundo. Exceto Annabel.

Annabel apenas suspirou. Ou, na verdade, não. Não podia suspirar em um encontro tão íntimo; seria irremediavelmente rude. Mas queria suspirar. Algo dentro dela parecia suspirar.

Quando as alcançou, lady Cosgrove imediatamente pegou o braço de Louisa.

– Lady Olivia – disse ela com um aceno de cabeça cordial. – Sr. Grey.

Eles devolveram a saudação, o Sr. Grey com uma reverência elegante e lady Olivia com uma mesura tão graciosa que deveria ser considerada um crime.

– Convidei lady Olivia e o Sr. Grey para nos acompanharem à ópera hoje à noite – avisou Louisa.

– É claro – concordou lady Cosgrove, educadamente. – Lady Olivia, por favor, transmita meus cumprimentos à sua mãe. Eu não a vejo há algum tempo.

– Ela teve um resfriado – respondeu lady Olivia –, mas está quase recuperada. Estou certa de que ficaria encantada com uma visita sua.

– Talvez eu faça isso.

Annabel acompanhou o diálogo com interesse. Lady Cosgrove não excluíra o Sr. Grey da conversa, mas não lhe dirigiu uma só palavra depois de cumprimentá-lo. Era uma situação curiosa. Ela não fazia ideia de que ele era uma persona non grata. Afinal, era herdeiro do condado de Newbury, ainda que fosse apenas o herdeiro presuntivo.

Precisava perguntar a Louisa a respeito daquilo. Quando terminasse de matá-la por tê-lo convidado à ópera.

Outras gentilezas foram trocadas, mas era evidente que lady Cosgrove pretendia apenas resgatar as duas jovens e partir. Sem falar que Frederick parecia ansioso por fazer algo muito importante no meio dos arbustos.

– Até mais tarde, Srta. Winslow – despediu-se o Sr. Grey, pegando a mão dela e curvando-se mais uma vez.

Annabel tentou não reagir quando o toque dos lábios dele em sua mão fez seu braço formigar.

– Até mais tarde – repetiu ela.

E, enquanto o observava se afastar, não conseguia se lembrar da última vez que se sentira tão ansiosa.

Capítulo nove

Sebastian ficou surpreso ao notar que estava ansioso para ir à ópera naquela noite. Não que ele não fosse fã; ele era, e já tinha assistido a A flauta mágica tantas vezes que poderia recitar de cor as duas árias da Rainha da Noite.

Outro item a ser incluído em sua lista de talentos inúteis. Ele não sabia ao certo por que as companhias teatrais britânicas insistiam em encenar a mesma ópera. Acreditava que fosse para o bem dos inúmeros ingleses teimosos demais para aprender uma língua estrangeira. Era mais fácil, na opinião de Seb, acompanhar uma comédia do que uma tragédia. Ou, pelo menos, saber em que momentos rir.

No entanto, ainda que ele quisesse muito assistir à ópera da vista privilegiada do camarote dos Fenniwicks, o que mais queria era ver certa moça.

A Srta. Winslow.

Srta. Annabel Winslow.

Annabel.

Ele gostava daquele nome. Havia algo de bucólico, um aroma fresco, como grama.

Sebastian não conhecia muitas mulheres que achariam a comparação elogiosa, mas, por algum motivo, suspeitava que a Srta. Winslow fosse concordar com ele.

Fora isso, não sabia quase nada sobre ela, exceto que era amiga da filha de um duque. Era uma jogada inteligente para qualquer jovem que quisesse subir na escala social, mas a Srta.

Winslow e lady Louisa pareciam realmente gostar da companhia uma da outra.

Outro ponto a favor da Srta. Winslow. Sebastian era incapaz de tolerar pessoas que forjavam uma amizade por causa de status.

Ele também sabia que a Srta. Winslow tinha um pretendente indesejado. Isso não era incomum; a maioria das jovens de aparência e/ou fortuna aceitáveis tinha um ou mais pretendentes indesejados. O interessante era que ela fugira da festa para evitar o sujeito. O que poderia significar que ele era um ser abominável.

Ou que ela costumava agir de maneira leviana.

Ou que o pretendente fizera uma investida indesejada.

Ou que ela havia exagerado.

Sebastian avaliava suas opções enquanto se dirigia ao espetáculo. Se estivesse escrevendo aquela história (não descartava a possibilidade; parecia mesmo algo saído de um romance de Sarah Gorely), como ele a desenvolveria?

O pretendente seria pavoroso. Muito rico, talvez com um título – alguém que pudesse

pressionar a família pobre da jovem. Não que ele tivesse qualquer indício de que a família da Srta. Winslow fosse de fato pobre, mas isso contribuía para a trama.

Ele a teria atacado em um canto escuro, longe da festa. Não, isso não faria sentido. Seria cedo demais para tanto drama e provavelmente muito chocante para o público. Seus leitores não queriam, afinal de contas, ver a descrição de uma mulher repelindo uma investida indesejada; só queriam ler sobre as fofocas após o acontecimento.

Pelo menos tinha sido isso que seu editor lhe dissera.

Muito bem, se ela não fora atacada, talvez tivesse sido chantageada. Sebastian começou a ficar inspirado. Chantagem sempre era um bom elemento para a narrativa. Ele o usava com frequência.

– Senhor!

Sebastian piscou e olhou para cima. Não percebera que já havia chegado. Ele tinha contratado um serviço de carruagem, por mais desagradável que fosse. Não possuía uma, e dissera a Olivia que ela e Harry não precisavam buscá-lo. Melhor dar um tempo a sós para o casal não tão recém-casado assim.

Harry lhe agradeceria mais tarde, Seb tinha certeza.

Sebastian desceu da carruagem, pagou ao condutor e entrou. Chegara um pouco adiantado, mas já havia muitas pessoas circulando, vendo e sendo vistas em seus trajes refinados e reluzentes. Atravessou lentamente a multidão, conversando com conhecidos, sorrindo – como sempre fazia – para as jovens que menos esperavam por isso. A noite prometia todo tipo de prazer, e então, quando ele estava quase ao pé da escadaria…

Seu tio.

Sebastian ficou imóvel, mal sendo capaz de reprimir um grunhido. Não sabia o motivo de tanta surpresa; fazia todo o sentido que o conde de Newbury comparecesse à ópera, principalmente se estivesse à espreita de uma nova esposa. Ainda assim, Sebastian estava de tão bom humor… Parecia praticamente um crime que seu tio o arruinasse.

Normalmente, teria se desviado do caminho, para evitá-lo. Seb não era nenhum covarde, mas por que não se desviar do caminho de alguém para não ter que se deparar com sentimentos desagradáveis?

Mas dessa vez não haveria como escapar. Newbury vira o sobrinho, e Sebastian sabia que ele sabia que Sebastian também o tinha visto. Para falar a verdade, cerca de quatro outros cavalheiros testemunharam isso e, embora Seb não se considerasse um covarde por se desviar do caminho de Newbury, sabia que os outros poderiam pensar assim.

Não era tão iludido a ponto de achar que não se importava com a relevante opinião alheia.

Nunca permitiria que metade de Londres cochichasse por aí que ele tinha medo do tio.

Assim, uma vez que era impossível evitar o encontro, lembrou a si mesmo que os opostos se atraem e fez questão que seu trajeto levasse justamente a Newbury.

– Tio – disse ele, parando por um momento para cumprimentá-lo.

Newbury fez uma careta, mas ficou tão surpreso que nem teve tempo de pensar em uma resposta contundente. Fez um breve aceno com a cabeça, acompanhado de um grunhido, já que era incapaz de pronunciar o nome de Sebastian.

– Prazer em vê-lo, como sempre – continuou Sebastian, abrindo um largo sorriso. – Não sabia que o senhor gostava de música.

E então, antes que Newbury pudesse fazer qualquer coisa além de ranger os dentes, despediu-se e foi embora.

De modo geral, até que fora um encontro bem-sucedido, que se tornaria ainda melhor quando o conde percebesse que o sobrinho estava sentado no camarote dos Fenniwicks. Newbury era um esnobe detestável e fatalmente ficaria furioso ao ver Sebastian instalado em um lugar melhor do que o dele.

Não tinha sido essa a sua intenção ao aceitar o convite de lady Louisa, mas, no fundo, por que não aproveitar uma dádiva tão inesperada?

Quando Sebastian chegou ao camarote, lady Louisa e a Srta. Winslow já estavam ali, junto a lady Cosgrove e lady Wimbledon, que, se não lhe falhava a memória, eram irmãs do duque de Fenniwick. O lorde não estava presente, apesar de ter seu nome vinculado ao camarote.

Sebastian notou que lady Louisa estava sentada entre as tias. A Srta. Winslow, por outro lado, ficara exposta, sozinha, na primeira fileira. Sem dúvida, lady C. e lady W. agiam de modo a proteger a outra jovem da influência perniciosa dele.

Ele sorriu. Era até melhor influenciar a Srta. Winslow, que, como não pôde deixar de notar, estava extremamente deliciosa em seu vestido verde-claro.

– Sr. Grey! – gritou lady Louisa.

Ele fez uma mesura.

– Lady Louisa, lady Cosgrove, lady Wimbledon – falou, em seguida estampando um sorriso diferente e virando-se ligeiramente. – Srta. Winslow.

– Sr. Grey – cumprimentou ela.

Annabel enrubesceu um pouco, de modo quase imperceptível à luz das velas, mas o suficiente para fazê-lo sorrir por dentro.

Sebastian examinou os assentos disponíveis e ficou instantaneamente feliz por ter chegado cedo e sozinho. Suas alternativas eram acomodar-se na frente, junto à Srta. Winslow; no meio, ao lado da carrancuda lady Wimbledon; ou atrás, aguardando quem mais pudesse aparecer.

– Não posso permitir que a Srta. Winslow se sente sozinha – anunciou ele, e prontamente se acomodou ao lado dela.

– Sr. Grey, pensei que seus primos planejassem vir também.

– Eles vêm. Só não era conveniente para eles me buscarem no caminho – explicou ele, virando-se para incluir lady Louisa na conversa. – Até porque eu não estava propriamente no caminho.

– Foi muita gentileza sua – comentou lady Louisa.

– Não tem nada a ver com gentileza – mentiu ele. – Eles teriam insistido em mandar a carruagem até a minha casa, de modo que eu precisaria estar pronto uma hora antes.

Lady Louisa riu e, como se o pensamento lhe houvesse ocorrido de repente, disse: – Ah!

Preciso lhe agradecer pelo livro.

– Foi um prazer – murmurou ele.

– Que livro? – perguntou uma das tias.

– Eu poderia ter enviado um para a senhorita também – disse ele à Srta. Winslow, enquanto lady Louisa respondia à tia –, mas não sei o seu endereço.

Annabel engoliu em seco, desconfortável, e falou:

– Não há problema. Certamente posso ler o de lady Louisa quando ela terminar.

– Ah, não – retrucou lady Louisa, inclinando-se para a frente. – Jamais o emprestarei. Está autografado pela autora.

– Autografado pela autora? – exclamou lady Cosgrove. – Como o senhor conseguiu um exemplar autografado?

Seb deu de ombros.

– Esbarrei com ela no ano passado. Imaginei que lady Louisa fosse apreciar.

– Eu gostei muito – concordou ela, com sinceridade. – É sem dúvida um dos presentes mais delicados que já recebi.

– Você precisa me deixar vê-lo – pediu lady Wimbledon. – A Sra. Gorely é uma das minhas escritoras favoritas. Que imaginação ela tem!

Seb se perguntou quantas vezes ele poderia esbarrar com Sarah Gorely sem levantar suspeitas. De fato, o livro autografado era um presente melhor do que qualquer outra coisa pela qual pudesse pagar. Portanto, decidiu aproveitar a ocasião para plantar suas justificativas: –

Encontrei uma coleção completa autografada em uma livraria no outono passado – disse ele, bastante satisfeito com sua criatividade.

Agora ele tinha mais três oportunidades para dar presentes autografados. Nunca se sabia quando acabariam sendo úteis.

– Não posso, em hipótese alguma, permitir que o senhor desfaça a coleção – murmurou lady Louisa, obviamente esperando que ele lhe garantisse que não haveria problema.

– Não há problema algum – assegurou ele. – É o mínimo que posso fazer para agradecer o convite de hoje. – Ele aproveitou a oportunidade para envolver a Srta. Winslow na conversa: – A senhorita tem muita sorte de se sentar aqui em sua primeira ópera.

– Estou muito ansiosa por esse momento – disse ela.

– O suficiente para não se importar que eu me sente ao seu lado? – perguntou ele em voz baixa.

Ele notou que ela conteve um sorriso.

– Sem dúvida.

– Costumam dizer que sou bastante encantador.

– É verdade?

– Que eu sou encantador?

– Não – respondeu ela, novamente contendo um sorriso. – Que costumam dizer isso.

– Ah. Às vezes. Não a minha família, é claro.

Dessa vez ela sorriu. Sebastian ficou extremamente satisfeito.

– É claro que eu vivo para incomodá-los – brincou ele.

Ela riu.

– O senhor não deve ser o filho mais velho, então.

– Por que diz isso?

– Porque nós odiamos incomodar.

– É mesmo?

Ela ficou surpresa.

– O senhor é o mais velho?

– Sou filho único, na verdade. Uma decepção para os meus pais.

– Ah, bem, isso explica tudo.

Sebastian não resistiu a se manter na defensiva.

– Por favor, prossiga.

Ela se virou para ele, claramente empolgada com a conversa. Sua expressão tinha talvez um quê de arrogância, mas ele descobriu que gostava da astúcia no olhar dela.

– Bem – começou Annabel, com autoridade suficiente para que, se ele antes não soubesse que ela era a filha mais velha, agora tivesse certeza –, como filho único, o senhor deve ter crescido desprovido de companhia, portanto não teve a oportunidade de aprender a interagir adequadamente com seus semelhantes.

– Eu frequentei a escola – comentou ele, com delicadeza.

Ela desdenhou.

– Ainda assim.

Ele esperou um momento e depois repetiu:

– Ainda assim?

Ela piscou.

– Com certeza há algo mais por trás do seu argumento – disse Sebastian.

A Srta. Winslow refletiu por um instante.

– Não.

Novamente ele aguardou. Então Annabel acrescentou:

– Precisa haver?

– Aparentemente, não, se a senhorita é a mais velha e grande o suficiente para bater em seus irmãos.

Os olhos dela se arregalaram e então Annabel começou a rir, um som adorável e gutural que não era nem um pouco musical. A Srta. Winslow não ria delicadamente.

Sebastian adorou aquilo.

– Nunca bati em ninguém que não merecesse – retrucou ela, depois de recuperar a compostura.

Ele começou a rir junto dela.

– Mas, Srta. Winslow – disse ele, tentando fazer uma expressão séria –, acabamos de nos conhecer. Como posso confiar em seu julgamento nesse assunto?

Ela deu um sorriso perverso.

– Não pode.

O coração de Sebastian acelerou brutal e perigosamente. Ele não conseguia tirar os olhos do canto daquela boca, o ponto em que a pele fazia uma covinha. Ela possuía lábios maravilhosos, rosados e carnudos, e ele pensou que gostaria de beijá-los novamente, agora que tivera a

oportunidade de vê-la à luz do dia. Será que seria diferente, tendo em mente uma imagem colorida dela enquanto a beijava?

Imaginou se seria diferente agora que sabia o nome dela.

Ele inclinou a cabeça, tentando observá-la com mais nitidez. Então percebeu que, sim, seria diferente.

Seria melhor.

A entrada de seus primos o salvou de ter que refletir a respeito do que aquilo representava.

Harry e Olivia chegaram com bochechas rosadas e os cabelos levemente despenteados e, depois de trocarem cumprimentos com os presentes, os não tão recém-casados se sentaram na última fila.

Sebastian acomodou-se alegremente em seu assento. Não era como se estivesse com a Srta.

Winslow a sós; havia outras cinco pessoas no camarote, sem contar as centenas abaixo deles na casa de ópera. Mas eles estavam sozinhos naquela fileira, o que, por enquanto, parecia suficiente.

Ele se virou para olhar para ela. Ela espiava o movimento por cima da sacada, os olhos brilhando de entusiasmo. Sebastian tentou se lembrar da última vez que tivera tanta expectativa.

Ele estava em Londres desde que retornara da guerra, e todos aqueles eventos – as festas, as óperas, os contatos – haviam se tornado rotina. Gostava de tudo aquilo, é claro, mas não era exatamente algo pelo qual tivesse expectativa.

Ela se virou de repente. Olhou para ele e sorriu.

Até aquele momento.

Capítulo dez

Quando as luzes da Royal Opera House baixaram, Annabel perdeu o fôlego. Ansiava por aquela noite desde que chegara à capital e mal podia esperar para relatar às irmãs todos os detalhes. Naquele instante, quando as cortinas se abriram para revelar um cenário estranhamente árido, ela percebeu que não apenas queria que aquela apresentação fosse espetacular – precisava que fosse.

Porque, se não fosse incrível, se não fosse tudo com que sonhara, não conseguiria desviar sua atenção do cavalheiro ao seu lado, cujos movimentos pareciam perturbar o ar o suficiente para lhe causar arrepios. Ele nem precisava tocá-la para que ela se arrepiasse. Era um péssimo, péssimo sinal.

– A senhorita está familiarizada com a história? – perguntou uma voz afetuosa ao seu ouvido.

Annabel assentiu, embora a conhecesse apenas superficialmente, pelo que havia lido no libreto. O programa continha uma sinopse, que Louisa lhe dissera ser essencial para quem não compreendia alemão, mas Annabel não tivera tempo de estudá-la direito antes da chegada do Sr.

Grey.

– Sei algumas coisas – sussurrou ela. – Apenas algumas.

– Aquele é Tamino – comentou ele, apontando para o jovem que entrara no palco. – Nosso herói.

Annabel começou a assentir, depois arfou quando apareceu uma serpente monstruosa, se contorcendo e sibilando.

– Como eles fizeram isso? – Annabel não pôde deixar de murmurar.

Antes que o Sr. Grey pudesse responder, Tamino desmaiou, apavorado.

– Nunca o considerei muito corajoso – disse o Sr. Grey.

Ela lançou um olhar para ele.

Ele deu de ombros.

– Um herói não deveria desmaiar logo na primeira página.

– Na primeira página?

– Na primeira cena – corrigiu-se ele.

Annabel sentiu-se inclinada a concordar. Estava muito mais interessada no estranho homem coberto de penas que surgira no palco, junto de três senhoras que prontamente mataram a cobra.

– Elas não são nada covardes – murmurou para si mesma.

Ao seu lado, ouviu o Sr. Grey sorrir. Ela o ouviu sorrir. Não sabia como isso era possível, mas, quando olhou de relance para o perfil dele, constatou que era verdade. Ele estava olhando

para os cantores, o queixo ligeiramente proeminente enquanto observava a multidão lá embaixo, e seus lábios estavam curvados em um pequeno sorriso de cumplicidade.

Annabel respirou fundo. Ali no teatro, à meia-luz, ela se lembrou de quando o vira pela primeira vez, na escuridão do bosque. Tudo acontecera na noite anterior? Parecia estranho que tivessem se passado apenas 24 horas desde aquele encontro casual. Ela se sentia diferente, algo dentro de si havia mudado muito mais do que esperava que pudesse acontecer em um dia.

Baixou o olhar até os lábios dele. O sorriso havia desaparecido, e agora ele parecia atento, concentrado no drama que se desenrolava. E então…

Ele se virou para ela.

Annabel quase desviou o olhar, mas não o fez. Sorriu. Só um pouco.

Ele sorriu de volta.

Ela pousou as mãos na barriga, pois o estômago se revirava. Não deveria estar flertando com aquele homem. Era um jogo perigoso que poderia não levar a lugar algum, e ela sabia muito bem disso, sabia mesmo. Só que Annabel não conseguia se conter. Ele era tão cativante, tão contagiante… Era o seu próprio Flautista de Hamelin. E, quando estava perto dele, Annabel se sentia…

Ela se sentia diferente. Especial. Como se houvesse alguma razão para sua existência – uma razão que não fosse encontrar um marido, gerar um filho e fazer tudo isso exatamente nessa ordem, com o homem adequado, escolhido pelos seus avós, e…

Voltou os olhos para o palco. Não queria pensar nisso. Aquela deveria ser uma noite agradável. Uma noite maravilhosa.

– Agora ele vai se apaixonar – sussurrou o Sr. Grey no ouvido dela.

Ela não o encarou. Não confiava em si mesma para fazê-lo.

– Tamino? – murmurou ela.

– As três senhoras vão mostrar a ele um retrato de Pamina, a filha da Rainha da Noite. Ele se apaixonará instantaneamente.

Annabel se inclinou para a frente, ainda que não conseguisse enxergar o retrato do alto do camarote. Sabia que o conto era apenas uma fantasia, mas o retratista devia ser de fato notável.

– Eu sempre me admiro com a ideia do retratista – disse o Sr. Grey. – Ele deve ser absurdamente talentoso.

Annabel virou-se de forma brusca.

– O que houve? – indagou ele.

– Nada – respondeu ela, sentindo-se um pouco atordoada. – Eu apenas… estava pensando a mesma coisa.

O Sr. Grey sorriu novamente, mas dessa vez foi diferente. Quase como se… Não, não podia ser. Ele não podia estar sorrindo para ela como se tivesse encontrado sua alma gêmea. Porque eles não podiam ser almas gêmeas. Annabel não permitiria. Seria intolerável.

Determinada a apreciar a ópera mais do que apreciava a narração intermitente do Sr. Grey, ela voltou sua atenção para o palco, deixando-se levar pela história. Era uma trama incongruente, na verdade, mas a música era tão maravilhosa que ela não se importava.

A cada poucos minutos o Sr. Grey tecia uma nova observação, o que, Annabel tinha que

admitir, a ajudava imensamente. Ora ele narrava, ora comentava, e ela de fato estava se divertindo. Ouvia o farfalhar das roupas dele quando ele se inclinava, depois sentia o calor de sua pele quando seus lábios se aproximavam da orelha dela. Então Annabel ouvia suas palavras, sempre perspicazes e divertidas, que faziam cócegas em seu ouvido, deixando seu coração aos saltos.

Que maneira maravilhosa de se assistir a uma ópera!

– Esta é a última cena – sussurrou ele quando teve início no palco algum tipo de procedimento judicial.

– Da ópera? – perguntou ela, surpresa, já que o herói e a heroína ainda nem tinham se conhecido.

– Do primeiro ato – respondeu o Sr. Grey.

– Ah, claro. – Ela se virou para a frente de novo, e em alguns minutos Tamino e Pamina trocaram um olhar e se abraçaram…

… e foram separados.

– Bem – disse Annabel quando a cortina se fechou –, suponho que não haveria muito que acontecer no segundo ato se eles não tivessem sido separados no final da cena.

– A senhorita parece estar desconfiada do romance – comentou o Sr. Grey.

– Admita, é um pouco de exagero que ele se apaixone pelo retrato dela e que ela se apaixone pelo dele… – retrucou Annabel, franzindo a testa. – Por que ela se apaixonou por ele?

– Porque Papageno falou que ele estava indo salvá-la – respondeu Louisa, inclinando-se para a frente.

– Ah, claro – disse Annabel, revirando os olhos. – Ela se apaixonou porque um homem coberto de penas falou que ela seria salva por outro homem que ela nunca tinha visto na vida.

– Não acredita em amor à primeira vista, Srta. Winslow? – indagou o Sr. Grey.

– Eu não disse isso.

– Então acredita?

– Não acredito nem duvido – defendeu-se Annabel, sem dar confiança para o brilho que via nos olhos dele. – Eu mesma nunca passei por tal situação, mas isso não significa que não exista.

E, no caso deles, não foi amor à primeira vista. Como pode ter sido amor à primeira vista se ela não o tinha visto?

– É difícil rebater esse argumento – murmurou ele.

– Assim espero.

Ele riu daquilo, depois franziu o cenho ao olhar para a última fileira.

– Parece que Harry e Olivia sumiram.

Annabel olhou por cima do ombro.

– Espero que não tenha acontecido nada de errado.

– Ah, posso garantir que não aconteceu nada de errado – disse o Sr. Grey, enigmático.

Ela corou, sem saber direito o que ele queria dizer, mas mesmo assim certa de que não era algo apropriado.

O Sr. Grey deve tê-la visto corar, pois riu e se aproximou com um brilho malicioso nos olhos.

Havia algo perigosamente íntimo em sua expressão, como se ele a conhecesse, ou como se fosse conhecê-la, ou como se quisesse conhecê-la, ou…

– Annabel – chamou Louisa –, você vem comigo ao toalete?

– Claro.

Annabel não estava exatamente com vontade de ir, mas se havia algo que tinha aprendido em Londres era que nunca se recusava o convite de outra dama para acompanhá-la ao toalete. Ela não entendia direito o porquê disso, mas se recusara uma vez e fora informada de que isso não era bem-visto.

– Aguardarei o retorno da senhorita – disse o Sr. Grey, de pé.

Ela assentiu e seguiu a prima. As duas mal tinham colocado o pé fora do camarote quando Louisa agarrou seu braço e sussurrou, impaciente: – O que você estava falando?

– Com o Sr. Grey?

– É claro que era com o Sr. Grey. Vocês dois passaram praticamente toda a apresentação cochichando de rosto quase colado.

– Isso não é verdade.

– Pode ter certeza disso. E estavam sentados na frente. Todo mundo percebeu.

Annabel começou a ficar nervosa.

– O que você quer dizer com “todo mundo”?

Louisa olhou furtivamente ao redor. Uma multidão começou a sair dos camarotes, todos vestidos com suas melhores roupas para a ópera.

– Não sei se lorde Newbury está presente – sussurrou ela. – Se não estiver, pode apostar que logo ficará sabendo disso.

Annabel engoliu em seco, preocupada. Não queria pôr em risco seu compromisso iminente com o conde, mas ao mesmo tempo…

Queria isso desesperadamente.

– Não é com lorde Newbury que estou preocupada – continuou Louisa, dando o braço a Annabel para se aproximar dela. – Você sabe que eu rezo para que esse casamento não aconteça.

– Então…

– Vovó Vickers – interrompeu Louisa. – E lorde Vickers. Eles ficarão lívidos se desconfiarem que você acabou de propósito com a chance de casamento.

– Mas eu…

– Que mais eles poderiam pensar? – Louisa engoliu em seco e baixou a voz quando viu um curioso virar a cabeça na direção delas. – Sebastian Grey, Annabel.

– Eu sei! – respondeu a prima, grata por finalmente ter conseguido dizer algo. – Olhe só quem está falando. Você flertou com ele a noite toda.

Louisa pareceu magoada, mas só por um momento.

– Ah, meu Deus – retrucou ela. – Você está com ciúmes.

– Não estou, não.

– Está, sim. – Os olhos dela se iluminaram. – Isso é maravilhoso… e uma tragédia –

acrescentou Louisa, como se tivesse acabado de se dar conta. – É uma maravilhosa tragédia.

– Louisa.

Annabel queria esfregar os olhos. De repente, se sentiu exausta. E não tinha mais certeza se aquela astuta senhorita diante dela era mesmo sua prima, geralmente tão tímida.

– Pare com isso. Escute. – Louisa olhou em volta e soltou um suspiro frustrado. Puxou Annabel para uma alcova e fechou uma cortina de veludo ao redor delas para garantir alguma privacidade. – Você precisa ir para casa.

– O quê? Por quê?

– Você precisa ir para casa agora. Já vai ser um escândalo considerável o que aconteceu até aqui.

– Tudo o que fiz foi conversar com ele!

Louisa colocou as mãos nos ombros de Annabel e olhou nos olhos da prima com um ar severo.

– É o suficiente. Confie em mim.

Annabel observou a expressão séria da prima e assentiu. Se Louisa estava dizendo que ela deveria ir para casa, então iria para casa. Louisa conhecia aquele mundo melhor que Annabel.

Sabia como navegar nas águas turvas da alta sociedade londrina.

– Com sorte, alguém fará uma cena durante o segundo ato e todos a esquecerão. Vou explicar que você se sentiu mal e…

Os olhos de Louisa estavam cheios de preocupação.

– O quê?

Ela balançou a cabeça.

– Preciso apenas garantir que o Sr. Grey fique até o final da apresentação. Se ele também for embora mais cedo, todos vão presumir que vocês dois saíram juntos.

O sangue se esvaiu do rosto de Annabel. Louisa assentiu.

– Vou conseguir. Não se preocupe.

– Tem certeza? – perguntou Annabel, porque ela mesma não tinha.

Assertividade não era o forte de Louisa.

– Tenho, e vou conseguir – rebateu a prima, como se tentasse convencer a si mesma tanto quanto a Annabel. – É muito mais fácil conversar com ele do que com a maioria dos homens.

– Eu percebi – comentou Annabel com sinceridade.

Louisa deu um suspiro.

– Sim, espero mesmo que você tenha percebido. Muito bem, você precisa ir para casa, e eu vou…

Annabel esperou.

– Eu vou com você – concluiu Louisa, decidida. – É uma ideia muito melhor.

Annabel não conseguia falar nada.

– Se eu for com você, ninguém suspeitará de nada, mesmo que o Sr. Grey também vá embora. – Louisa deu de ombros timidamente. – Esta é a vantagem de se ter uma excelente reputação.

Antes que Annabel pudesse perguntar se isso dizia algo a respeito da reputação dela, Louisa continuou: – Você é uma incógnita. Mas de mim… ninguém nunca suspeita.

– Está dizendo que deveriam suspeitar? – indagou Annabel com cautela.

 

– Não – respondeu Louisa, balançando a cabeça quase melancolicamente. – Eu nunca faço nada de errado.

Ao abrirem as cortinas e deixarem o esconderijo, Annabel podia jurar ter ouvido Louisa sussurrar: “Infelizmente.”

Três horas depois, Sebastian chegou ao clube, ainda um pouco irritado com o desfecho da noite.

A Srta. Winslow, segundo lhe contaram, passara mal durante o intervalo da peça e deixara o teatro ao lado de lady Louisa, que insistira em acompanhá-la.

Não que Sebastian acreditasse em uma palavra dessa história. A Srta. Winslow parecia muitíssimo saudável, e não poderia ter ficado doente de repente a não ser que tivesse sido atacada por um leproso na escada.

Lady Cosgrove e lady Wimbledon, livres da obrigação de servirem de acompanhantes, também foram embora, deixando seus convidados sozinhos no camarote. Olivia transferiu-se imediatamente para a primeira fileira, colocando o programa na cadeira a seu lado para guardar o lugar para Harry, que estava no saguão.

Sebastian permaneceu para o segundo ato, mais porque Olivia insistiu. Já estava prestes a ir para casa escrever (o leproso na escada lhe dera todo tipo de ideia), mas ela o puxou tenazmente para o assento ao seu lado e sussurrou: – Se você for embora, todo mundo vai pensar que saiu daqui com a Srta. Winslow. Eu não vou permitir que você arruíne a vida da pobre garota logo em sua primeira temporada.

– Ela foi embora com lady Louisa – protestou ele. – Acha que eu sou tão inconsequente a ponto de me envolver em um ménage a trois com aquilo?

– Aquilo?

– Você entendeu o que eu quis dizer – retrucou ele com uma careta.

– Todo mundo vai achar que foi um ardil – explicou Olivia. – A reputação de lady Louisa pode ser impecável, mas a sua não é, e a maneira como você estava conduzindo as coisas com a Srta. Winslow durante o primeiro ato…

– Eu estava conversando com ela.

– De que vocês estão falando? – perguntou Harry, passando por eles a fim de chegar ao seu lugar.

– Nada – dispararam os dois ao mesmo tempo, recolhendo as pernas para deixá-lo se sentar.

As sobrancelhas de Harry se ergueram, mas ele apenas bocejou.

– Aonde foi todo mundo? – indagou ele.

– A Srta. Winslow se sentiu mal – disse Olivia – e lady Louisa a acompanhou de volta para casa. As tias também partiram.

Harry deu de ombros, já que no fundo estava mais interessado na ópera do que nas fofocas, e pegou seu programa.

Sebastian se virou para Olivia, que havia retomado seu olhar.

– Ainda está me repreendendo?

– Você já deveria saber disso – comentou Olivia em voz baixa.

Sebastian olhou para Harry. O primo estava imerso no libreto, aparentemente alheio à conversa.

O que, conhecendo Harry, significava que ele prestava atenção em cada palavra.

Sebastian decidiu ignorar esse fato.

– Desde quando você se tornou a protetora da Srta. Winslow? – questionou ele.

– Eu não sou a protetora de ninguém – argumentou ela, elegantemente, dando de ombros. –

Mas é evidente que ela é nova na cidade e precisa de alguma orientação. Admiro a atitude de lady Louisa de levá-la para casa.

– Como sabe que lady Louisa a levou para casa?

– Ah, Sebastian! – Ela suspirou, dirigindo-lhe um olhar impaciente. – Como pode ser capaz de perguntar?

Assim se encerrou o assunto. Até ele chegar ao clube.

E foi aí que toda a confusão começou.

Capítulo onze

– Seu desgraçado!

Sebastian era um sujeito perspicaz, abençoado por reflexos rápidos e um saudável senso de autopreservação, mas sua mente tinha se fixado em um único assunto (os lábios da Srta.

Winslow), e ele não conseguiu prestar atenção no ambiente quando pôs os pés no clube.

Por isso não tinha visto o tio. Nem o punho fechado do tio.

– Que diabo…?

A força do golpe atirou Sebastian contra a parede, o que fez seu ombro doer apenas um pouco menos que seu olho, o qual provavelmente já estava ficando roxo.

– Desde o momento em que nasceu – seu tio fervia de raiva –, eu soube que você era desprovido de moral ou respeito, mas isso…

Isso? Isso o quê?

– Isso – continuou o tio, a voz tremendo de fúria – é muito baixo até mesmo para você.

Desde o momento em que nasci, pensou Seb, um pouco frustrado. Desde o momento em que nasci. Bem, seu tio estava certo nesse ponto, pelo menos. As primeiras lembranças que tinha dele eram de um homem irritado e rigoroso, sempre grosseiro, sempre encontrando novas maneiras de fazer o garoto se sentir insignificante. Sebastian percebeu mais tarde que o rancor era inevitável.

Newbury nunca gostara do pai de Sebastian, seu irmão apenas onze meses mais jovem. Adolphus Grey era mais alto, mais atlético e mais bonito. Provavelmente mais inteligente também, embora, Sebastian tinha que admitir, seu pai não fosse muito de ler.

Quanto à mãe de Seb, lorde Newbury a achava terrivelmente inferior.

Portanto, considerava Sebastian o filho do demônio. Seb aprendera a viver com aquilo. E, de vez em quando, a fazer jus à fama. Na verdade, ele não se importava. Seu tio era um estorvo, mais ou menos como um inseto irritante, embora grande. Sua estratégia era sempre a mesma: evitá-lo e, caso fosse impossível, golpeá-lo.

Mas ele não se defendeu. Porque, francamente, de que adiantaria? Em vez disso, ficou de pé, cambaleando, sem se dar conta de que uma plateia se formava ali.

– De que diabo o senhor está falando?

– Da Srta. Vickers – respondeu lorde Newbury entre dentes.

– Quem? – perguntou Seb distraidamente.

Ele deveria prestar mais atenção no que seu tio estava falando, mas, caramba, seu olho estava doendo demais.

O hematoma provavelmente ficaria ali por uma semana. Quem diria que o velho nojento era capaz de fazer aquilo?

– O nome dela não é Vickers – comentou alguém.

Sebastian tirou a mão do olho, piscando com cuidado. Maldição. Sua visão ainda estava embaçada. O que seu tio não tinha em músculo compensava em volume, e era bem capaz de ter colocado todo o peso do corpo no soco que lhe dera.

Diversos cavalheiros estavam de pé ao redor deles, esperando que a briga começasse, o que evidentemente não aconteceria. Sebastian jamais bateria no tio, por mais que ele merecesse. Se batesse, com certeza se sentiria bem demais para conseguir parar, e então acabaria machucando Newbury seriamente. E isso seria bastante reprovável.

Além do mais, ele nunca perdia a cabeça. Nunca. Todos sabiam disso e, se não sabiam, deveriam saber.

– Por gentileza, poderia me esclarecer quem é a Srta. Vickers? – perguntou Sebastian, adotando uma postura insolente.

Continuar: parte 2 de 3