Diários (1909-1912)

Franz Kafka · Capítulo 1 de 7

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Diários (1909-1912)

Apresentação - A unidade essencial de Kafka

APRESENTAÇÃO

 

A unidade essencial de Kafka

Marcelo Backes*

 

KAFKA É SEMPRE O mesmo, e no melhor dos sentidos!

Não importa sequer o gênero, se romance, se conto, se diário, se carta, Kafka é sempre o mesmo. Independentemente até da feição que assume, Kafka é sempre ele.

Quando é Joseph K. ou um camundongo – inclusive quando é a cantora e rainha dos camundongos –, quando é Gregor Samsa ou quando é um cão, quando é um solteirão ou um pai de família, quando é um médico rural ou um professor de aldeia, quando é um comerciante ou um vizinho, quando é Ulisses ou as sereias que o encantam, quando é Sancho Pança ou Bucéfalo, quando é Prometeu ou Posídon, quando é um pião ou o filósofo que o persegue, até quando é um índio ou o campeão de natação que não sabe nadar, o herói de Kafka é sempre o mesmo, Kafka é sempre o mesmo.

No retrato resultante da elaboração que faz de si próprio nas notas de seus diários, percebemos que Kafka também não muda e continua igual a seus personagens. É marcado pelas mesmas vicissitudes, pela mesma ausência de perspectivas, a mesma impossibilidade de se adequar ao entorno. Ainda que pelo gênero as notas do diário devessem ter um cunho bem mais pessoal, percebe-se nelas mais uma vez como são aparentadas as criações ficcionais e as elaborações autorais-biográficas de Kafka.

Até num aforismo, e os diários de Kafka são também coleções de aforismos brilhantes, o autor se confunde de maneira lúdica e insinuante com seu personagem sempre igual, e diz de um certo e aparentemente indeterminado “ele”: “Há quem negue a existência das desgraças apontando para o sol; ele nega a existência do sol apontando para as desgraças”.

“Ele” também é sempre Kafka!

 

O DIÁRIO COMO GÊNERO LITERÁRIO

 

A discussão em torno da validade do diário como obra literária é imensa, continua existindo, mas cedeu em importância com o passar dos anos. A solução de muitos críticos para tangenciar o debate, e isso bem antes do nascimento da internet, dos blogs, do Facebook e do Instagram, era dizer que um diário como os diários de Goethe, de Friedrich Hebbel ou os diários de Kafka, que apresentam altas elaborações literárias, não é um diário, no fundo.

Em termos históricos, o diário começou a ser valorizado literariamente na Alemanha apenas durante o pietismo, movimento protestante do século XVII, surgido em oposição à teologia racionalista e ao dogmatismo que dominavam a igreja oficial alemã. A autoanálise literária, da qual Montaigne (1533-1592) é o primeiro grande representante moderno, deu ao diário o maior impulso universal. Não há referências precisas de que o diário tenha sido cultivado com regularidade antes disso como possibilidade literária de algum alcance. Casos como o do Diário de um burguês de Paris, escrito por um frade do século XV, são individuais e esporádicos.

Pouco mais tarde, os diários passaram a ser vistos com interesse literário cada vez maior, sobretudo entre os ingleses. No século XVII, o gênero era praticado na Inglaterra como em nenhum outro país, ainda que, em muitos casos, sem finalidade de publicação. Exemplo disso é o Diário (1660-1669) de Samuel Pepys, publicado em 1825, quase 150 anos após a morte do autor. A obra é um vasto painel da sociedade inglesa da época e sumamente penetrante na análise do país. Outra crônica inestimável dos acontecimentos de seu tempo foi o Diário de John Evelyn, que abrange o período entre 1641 e 1697 e foi publicado em 1818.

No século XVIII, os maiores escritores de diários ainda eram os ingleses: Daniel Defoe, Jonathan Swift e Henry Fielding, entre outros. Na França, o diário de Louis Petit de Bachaumont na primeira metade do século XVIII é uma obra valiosa, sobretudo do ponto de vista histórico. Já o diário dos irmãos Goncourt, intitulado Journal des Goncourts – imenso em seus 22 volumes, com publicação iniciada em 1851 –, é uma das obras mais importantes do gênero e talvez a única das obras dos célebres irmãos que ainda hoje guarda interesse. Na condição de documento de época, ela desnuda a vida social e literária da Paris do século XIX, num painel bem elaborado, de requintes impressionistas, que seria um dos pontos de partida, ainda superficial, para a análise profunda da sociedade empreendida por Marcel Proust da torre de sua solidão algumas décadas mais tarde.

Voltando à Alemanha – ou à língua alemã, para ser mais preciso –, o filósofo, teólogo, poeta e teórico do “magnetismo animal” Johann Kaspar Lavater praticou o diário em segredo, e Johann Gottfried von Herder o disfarçou em relatos de viagem; ambos na segunda metade do século XVIII. Em Goethe, que passou a fazer apontamentos diários a partir de 1775, o diário continua um testemunho privado, ainda que Poesia e verdade, uma de suas obras-primas, seja puramente autobiográfica e mantenha algumas características típicas do diário. Ademais, Goethe fortaleceu a literariedade do gênero ao conceder ao diário de Otília, no romance Afinidades eletivas, uma potência literária poucas vezes igualada. Depois de Goethe vieram o poeta Gustav von Platen e sua confissão absoluta, irremediável, total; e Franz Grillparzer, entre outros; e em seguida Friedrich Hebbel, que já registrou a vontade de que seus diários fossem publicados, mas apenas após sua morte. Os Diários de Hebbel são o registro de sua obra e atuação em seu tempo. Influenciaram escritores da estatura de Franz Kafka e de Thomas Mann, que mais tarde se desnudaria por inteiro na imensidão oceânica de seus diários, mostrando em registros feitos antes do quinze anos a convicção secreta e sutil de que as anotações pessoais seriam publicadas algum dia.

De grande valor poético, os Diários de Hebbel antecipam de modo mais direto aquilo que seriam os diários de Kafka. Eles são um testemunho da obra de arte literária total. Neles, o autor comenta sua vida pessoal e a do mundo que o rodeia, escreve e analisa cartas, relata viagens, anota leituras, glosa a respeito de suas obras, registra os seus e os sonhos de suas mulheres, entabula poesias, pratica a crítica (sobra para Goethe, inclusive, mas com respeito, Heine, Jean Paul e outros; ao passo em que Lessing, Lichtenberg e Moritz Saphir, o folhetinista vienense, são elogiados à exaustão) e até faz comentários metaliterários acerca da importância do diário.

 

OS DIÁRIOS DE KAFKA

 

Kafka começou a fazer registros em seus diários em 1909 e só parou em 1923, pouco antes de morrer. Publicados em várias coletâneas mais ou menos completas, eles hoje existem em sua completude, em edição crítica e comentada, na Alemanha. Além da grande coleção de aforismos geniais, os diários de Kafka apresentam fluxos narrativos quase acabados, como a história da bailarina russa Ievguênia Eduardova (1882-1960) logo no princípio do presente volume, todos marcados por um tom sempre bem kafkiano. Franz Kafka, assim como Friedrich Hebbel, registra tudo em seus diários em elaborações que atingem a profundidade de suas melhores obras. Como por exemplo quando fala do desespero que sente em relação ao próprio corpo, com o qual tem – Kafka descobre a existência do corpo, assim como todos nós, no descalabro em que o mesmo corpo se recusa a funcionar – uma relação tão próxima, íntima e inseparável, a ponto de às vezes sentir que é um soldado cobrindo a retirada de um companheiro, enquanto sente o corpo estraçalhado pelas balas do inimigo.

A angústia da escrita, mais que a da página em branco, a agonia de achar que tudo aquilo que registra não corresponde à essência e não chega ao âmago, é manifestada um sem-número de vezes. Em determinado momento chega a dizer que não conseguiu escrever nada de essencial há mais de um ano. As fantasias de morte, a invenção até de uma incineração aniquiladora e repetida por dez vezes como garantia à eficácia do processo também é registrada. E o “eu” que se manifesta nos diários é sempre o mesmo dos contos, dos romances, tanto que não foi por acaso que se chegou a dizer que Kafka é mais autobiográfico em A metamorfose do que em Carta ao pai.*

A diferença é que Kafka, do ponto de vista da forma, apenas faz em seus diários uma tentativa de se entender de um modo mais diretamente autoral, na medida em que o texto registrado no diário se pressupõe, como gênero, mais próximo da realidade do que um texto ficcional. Mas em Kafka essa diferenciação é sempre diluída. Nos diários, ele busca se compreender inclusive a partir da análise da educação à qual foi submetido, buscando decifrar de onde vem sua inadequação, sua impossibilidade de se adaptar com alguma naturalidade ao mundo à sua volta. Numa passagem, ele fala de seu corpo, e, essa é a surpresa, caracteriza-o como “relativamente pequeno e um tanto gordo”; logo em seguida, Kafka diz que mesmo assim agrada a muitos, inclusive às moças; e fala de uma que lhe manifestou ao ouvido o desejo de vê-lo nu e lhe dar beijos, ao que elabora: “Mas se aqui me faltasse o lábio superior, ali a concha do ouvido, aqui uma costela e ali um dedo, se tivesse manchas sem cabelo na cabeça e cicatrizes de varíola no rosto, isso ainda não seria uma contraparte satisfatória de minha imperfeição interior.” Quase entendemos, diante do ensejo, a necessidade que faz Gregor Samsa amanhecer transformado num inseto monstruoso: só a feição externa de inseto monstruoso dá contornos realistas ao descalabro interno. Em outro momento Kafka diz que seu corpo é certamente um obstáculo capital ao seu progresso, que com um corpo desses não se consegue nada, que seu corpo é longo demais para sua fraqueza, que esse corpo não tem, conforme agora diz, a mínima gordura para produzir um calor propício, para conservar o fogo interno, uma gordura da qual o espírito pudesse se nutrir; além de falar repetidamente de seu coração fraco, dizendo que ele é incapaz de impelir o sangue por todo o comprimento imenso de suas pernas.

Kafka aborda sua relação cheia de conflitos com o mundo do trabalho, que o impedia de cultivar literariamente em tempo integral seu atormentado eu. Percebe-se como Kafka era solitário, que tinha poucos amigos, mas que levava uma vida cultural até intensa, fazendo muitas visitas à casa de Max Brod, indo ao teatro, fazendo comentários críticos a peças e romances publicados, acompanhando a vida literária e mundana, frequentando conferências de palestrantes mais ou menos conhecidos. Muitas coisas surpreendem, como um materialismo que se manifesta de maneira avassaladora quando analisa determinado costume judaico: “O costume de, logo após o despertar, mergulhar os dedos três vezes na água, pois durante a noite os maus espíritos se sentam sobre a segunda e a terceira falanges. Explicação racionalista: cabe evitar que os dedos passem logo pelo rosto, pois durante o sono e o sonho, afinal, podem ter tocado, sem controle, todas as partes possíveis do corpo, as axilas, o traseiro, os genitais”.

Kafka fala da relação com a antroposofia de Rudolf Steiner em piadas às vezes engraçadas: “– A senhora Fanta: tenho memória ruim. Dr. Steiner: não coma ovos”. Menciona Charles Dickens, George Sand, o amigo Max Brod, e admite que odeia Franz Werfel e que o inveja, mas diz que não o odeia porque o inveja, apesar de Werfel ser saudável, jovem e rico. Kafka também fala de Knut Hamsun, que ele admirava, e de Alfred Kubin, que em certo sentido é seu precursor.

Goethe e os diários de Goethe são comentados e lidos com atenção. Kafka ousa dizer que há trechos falhos em Ifigênia em Táuride, mas louva a língua límpida e pura de Goethe. Num encontro com Alfred Kubin, discute a prisão de ventre que acossa a ambos, e fala da despedida dos encontros em que a última palavra de Kubin é sempre: “Regulin!”, o remédio que ele fazia questão de recomendar para o referido mal. De Friedrich Hebbel, Kafka fala com intimidade, especulando sobre um parentesco que aliás vai muito além dos diários que o autor também cultivou. Intimidade e parentesco que só são mais intensos com Kleist. A importância da visão de mundo de Heinrich von Kleist na obra de Kafka – sobretudo na relação entre sistema avassalador e indivíduo acossado – já foi vislumbrada por Kurt Tucholsky, que chamou o escritor tcheco de “neto de Kleist”. O próprio Kafka admitia que a novela Michael Kohlhaas, de Heinrich von Kleist* – ele chegou a ver no personagem um “parente consanguíneo” –, era uma de suas obras preferidas. A grande admiração e o parentesco visível – afinidades não eletivas, afinidades fatais – com Kleist são registrados em várias notas do diário. Em dado momento, ao serem lembrados os cem anos do suicídio precoce do autor que também jamais conseguiu se adequar ao mundo à sua volta, Kafka se limita a dizer, com a ironia mais séria deste mundo, que a família de Kleist mandou botar em seu túmulo uma inscrição que dizia: “Ao melhor de sua estirpe”.

Kafka também fala de suas visitas ao bordel, de sua insônia, da questão judaica, das experiências extensivas com o teatro iídiche, que ecoaria de modo importante, ainda que sutil, em sua obra. O interesse pela história e pela cultura judaicas é grande. Em dado momento, Kafka se debruça extensivamente sobre a circuncisão, analisando-a em diversos aspectos.

Vários sonhos, que também estão muito próximos de suas narrativas, são contados. Kafka menciona suas refeições vegetarianas, seus gases, assim como a fantasia, ao se sentir saudável, de engolir com os olhos todo o tipo de embutidos e doces. A imagem é extraordinária e mostra que seriam procedentes as especulações acerca de um distúrbio alimentar: “Se vejo uma salsicha com um cartaz indicando que é uma salsicha caseira, velha e dura, mordo-a, em imaginação, com todos os meus dentes e a engulo rápida, regular e impensadamente como uma máquina. O desespero, que, mesmo em imaginação, é a consequência imediata desse ato, aumenta minha pressa. Enfio na boca longos pedaços de costeleta, sem mastigá-los, e depois os puxo para fora por trás, rasgando o estômago e os intestinos. Esvazio, comendo, mercearias imundas inteiras. Encho-me com arenques, pepinos e todo tipo de comidas estragadas, velhas e picantes. Bombons são derramados de suas latas dentro de mim como granizo. Assim não gozo apenas meu estado saudável, e sim também um sofrimento, que é sem dor e logo pode passar”.

Sua relação suave com a mãe também é dissecada. Ele diz em determinando momento não a ter amado mais desde o princípio porque a chamava de Mutter, que era a mãe por excelência em alemão – e nada tinha a ver com a sua mãe judia –, com um contorno linguístico no qual se mostrava não apenas esquisita, mas inclusive estranha em sua entonação carregada de cristianismo; e que até se salvaria chamando-a de Mama, se mesmo assim não imaginasse o Mutter por trás do conceito.

O significado de ser solteiro, tematizado em tantos contos como “Blumfeld, um solteirão de mais idade”*, é analisado extensivamente em diversos registros do diário. Em determinado momento, no registro de 15 de novembro de 1911, Kafka diz de modo impressionante, mostrando mais uma vez a relação íntima existente entre ele e seus personagens: “Não me deixarei ficar cansado. Saltarei para dentro de minha novela, mesmo que isso corte meu rosto”.

Às vezes, parece claro que Kafka já coqueteia com uma publicação de seus diários, quando por exemplo diz: “Minha irmã casada acaba de chegar para nos visitar pela primeira vez”. Alguém que escreve para si mesmo não escreve desse jeito, e Kafka na verdade parece estar apresentando sua irmã Elli aos leitores. Em um momento de alta voltagem poética, o escritor tcheco conta como uma brisa de Paris pode soprar em seu rosto na praça central de Praga logo depois de passar um automóvel com cheiro de gasolina.

Os embriões do que seriam contos, futuramente, como acontece com a narrativa “Unglücklichsein” [Infelicidade], no início do segundo caderno, que depois faria parte do primeiro livro de Kafka, Betrachtung [Contemplação], publicado em 1912, também são registrados. As tentativas de emendar a novela Beschreibung eines Kampfes [Descrição de uma luta] em vários trechos reelaborados, em vários novos recortes e versões, aparecem igualmente. Há esboços inclusive de contos que jamais seriam publicados, um fragmento de romance [Richard e Samuel] escrito a quatro mãos com Max Brod e, ao final do segundo caderno, um trecho até bem longo de “O foguista”, que depois faria parte do romance O desaparecido (rebatizado por Max Brod com o título de América).

São vários os comentários sobre uma viagem a Paris com Max Brod. Mas Kafka também fala da agitação que sentiu no dia em que a governanta lhe leu Sonata a Kreutzer de Tolstói em voz alta. Quando descreve o conhecido desenho de Schiller feito por Gottfried Schadow, Kafka é tão peculiar e profundo que não conseguimos deixar de contemplar o referido esboço com atenção mais uma vez.

Os aforismos já pululam a cada página. A presença deles se tornaria ainda mais constante nos diários entre setembro de 1917 e abril de 1918, a ponto de Max Brod reunir 109 aos quais deu o título de “Considerações sobre pecado, esperança, sofrimento e o verdadeiro caminho” (1931), também conhecidos como Aforismos de Zürau, o lugarejo em que Kafka foi tratar de sua tuberculose, na casa da irmã Ottla, sua preferida. Apesar do amargor contínuo dos aforismos (“O caminho verdadeiro segue sobre uma corda estendida não no alto, mas pouco acima do chão. Ela parece estar destinada antes a fazer tropeçar do que a ser percorrida.”), Kafka caracterizaria a época como “talvez” a melhor de sua vida, também porque estava livre de todas as responsabilidades do trabalho, da pressão dos pais e das mulheres.

Os diários do período de formação, entre 1909 e 1912, mostram que não há nada mais silencioso do que um canhão antes do tiro. Logo em seguida viria A metamorfose e toda a obra madura do autor. Capaz de fantasiar em relação às ilusões da realidade mais palpável, Kafka chega a falar dos quarenta anos que tem, quando na verdade nasceu em 1883 e poderia, portanto, ter no máximo 28 anos à época em que faz o registro. Em 1911, Kafka já prevê também que dificilmente chegará aos quarenta anos, e nesse momento não aventa o suicídio, mas as vicissitudes do próprio corpo, parecendo situar seus maiores problemas no coração. Mas a relatividade do tempo, kafkiano ou proustiano, ensina que a idade também não é medida pelos relógios. E não há, ademais, nada mais desesperadamente kafkiano do que anotações lapidares como: “Hoje nem sequer ouso me fazer recriminações. Chamado a entrar nesse dia vazio, isso teria um eco asqueroso”. Profundidade dolorosa que volta a se manifestar alguns meses depois: “Hoje cedo, pela primeira vez desde muito tempo, outra vez a alegria com a ideia de uma faca sendo torcida em meu coração”.

Os diários de Kafka mostram Kafka sendo autenticamente Kafka mais uma vez.

 

* Marcelo Backes é escritor, tradutor e professor da Casa do Saber. Doutor em germanística e romanística pela Universidade de Freiburg, na Alemanha, é autor dos romances A casa cai e O último minuto, ambos pela Companhia das Letras, entre outras obras. (N.E.)

* Ambas as obras foram publicadas em tradução minha na Coleção L&PM POCKET. Na apresentação de Carta ao pai, detalho ainda mais a tese. * A tradução da novela para a coleção Fanfarrões, Libertinas & Outros Heróis recebeu o Prêmio Paulo Rónai da Academia Brasileira de Letras. * A narrativa dá título à coletânea de contos de Kafka Blumfeld, um solteirão de mais idade e outras histórias (Civilização Brasileira, 2018), em cujo posfácio também falo dos diários de Kafka e desenvolvo ainda mais extensivamente a tese da unicidade de sua obra.