Diários (1909-1912)
Diários 1909-1912
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
PRIMEIRO CADERNO
Os espectadores se paralisam quando passa o trem.
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“Se ele me perguntar.” O a, separado da frase, voou longe como uma bola pelo gramado.
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A seriedade dele me mata. A cabeça no colarinho, os cabelos imovelmente arrumados em torno do crânio, os músculos embaixo das bochechas tensos em seu lugar.
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O bosque ainda está aí? O bosque ainda estava mais ou menos aí. Porém, mal meu olhar tinha se afastado dez passos, cedi, novamente apanhado pela conversa tediosa.
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No bosque escuro, no chão completamente amolecido, só pude me orientar pela brancura de seu colarinho.
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Em sonhos, pedi à bailarina Eduardova1 para que dançasse a xarda mais uma vez. Ela tinha uma larga faixa de sombra ou luz no meio do rosto, entre a borda inferior da testa e o meio do queixo. Acabava de chegar alguém, com os movimentos asquerosos do intriguista inconsciente, para lhe dizer que o trem logo partiria. Pela maneira como ouvia a notícia, ficou terrivelmente claro para mim que ela não dançaria mais. “Sou uma mulher má, ruim, não é verdade?”, disse ela. Oh, não, eu disse, isso não, e me virei numa direção qualquer para ir embora.
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Antes a interroguei sobre as muitas flores que estavam enfiadas em seu cinto. “São de todos os príncipes da Europa”, disse ela. Refleti sobre o sentido que poderia ter o fato de essas flores, que estavam frescas enfiadas em seu cinto, terem sido presenteadas à bailarina Eduardova por todos os príncipes da Europa.
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A bailarina Eduardova, uma amante da música, também anda no bonde, como em toda parte, acompanhada por dois violinistas, a quem manda tocar com frequência. Pois não há qualquer proibição impedindo que se toque música no bonde se a execução for boa, agradável aos passageiros e não custar nada, isto é, se ninguém passar o chapéu depois. No começo, porém, é um pouco surpreendente e, por um breve momento, todos acham que é impróprio. Mas à plena velocidade, com uma forte corrente de ar e ruas silenciosas, soa bonito.
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A bailarina Eduardova não é tão bonita ao ar livre quanto é no palco. A cor pálida, esses zigomas que retesam a pele a tal ponto que mal há um movimento mais forte no rosto, o nariz grande – que se eleva como que de uma depressão –, com o qual não se pode fazer nenhuma brincadeira, como testar a dureza da ponta ou pegá-lo levemente pelo dorso e puxá-lo para cá e para lá dizendo “mas agora tu vens junto”, a figura larga de cintura alta com saias pregueadas demais, a quem agradará isso – ela quase se parece com uma de minhas tias, com uma senhora avelhantada, muitas tias mais velhas de muita gente são parecidas. Mas para essas desvantagens, não se acha na Eduardova ao ar livre, exceto pelos pés muito bons, propriamente qualquer substituto, não há realmente nada aí que fosse motivo de entusiasmo, espanto ou mesmo apenas consideração. E foi assim que também vi a Eduardova ser tratada muitas vezes com uma indiferença que mesmo senhores normalmente muito gentis e muito corretos não conseguiam esconder, embora, como é natural, se esforçassem muito nesse sentido diante de uma bailarina conhecida como era, de todo modo, a Eduardova.
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A concha de meu ouvido era fresca, áspera, fria e suculenta ao toque como uma folha.
Escrevo isso com toda certeza de desespero por meu corpo e pelo futuro com esse corpo.
Quando o desespero se dá com tanta certeza, quando está tão ligado ao
seu objeto, tão contido como o de um soldado que cobre a retirada e se deixa estraçalhar, então não é o verdadeiro desespero. O verdadeiro desespero ultrapassou seu alvo logo e sempre, (Essa vírgula mostra que só a primeira frase estava correta)
Estás desesperado?
Sim? Tu estás desesperado?
Estás fugindo? Queres te esconder?
Passei em frente ao bordel como se passasse em frente à casa de uma amante.
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Escritores falam fedor
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As costureiras de roupa-branca sob o aguaceiro.2
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Da janela do compartimento do trem
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Finalmente, depois de cinco meses de minha vida em que não consegui escrever nada que me satisfizesse e que poder algum irá me restituir, embora todos estivessem obrigados a isso, tenho a ideia de dirigir-me a palavra outra vez. Sempre me respondi quando de fato me perguntei, sempre havia algo em mim a ser extraído à base de golpes, de mim, esse monte de palha que sou há cinco meses e cujo destino parece que é ser incendiado no verão e queimar, mais rápido que o piscar de olhos do espectador. Quem dera isso acontecesse comigo! E que me acontecesse dez vezes, pois não lamento sequer a época desventurada. Meu estado não é infelicidade, mas tampouco é felicidade, não é indiferença, não é fraqueza, não é cansaço, não é outro interesse, o que é ele então? O fato de não o saber decerto está ligado à minha incapacidade de escrever. E acredito compreendê-la, sem conhecer sua razão. É que todas as coisas que me vêm à mente não me vêm à mente a partir da raiz, e sim apenas a partir de algum lugar próximo ao meio delas. Que alguém tente então segurá-las, que alguém tente segurar uma erva que começa a crescer somente no meio do talo, e a si mesmo nela. Alguns por certo conseguem fazê-lo, como os malabaristas japoneses, por exemplo, que sobem por uma escada que não se assenta no chão, mas sobre as plantas levantadas dos pés de alguém meio deitado, e que não se apoia na parede, mas apenas sobe pelos
ares.3 Não consigo fazê-lo, sem considerar que nem mesmo aquelas plantas dos pés estão à disposição de minha escada. Isso naturalmente não é tudo, e tal pergunta ainda não me faz falar. Mas cada dia pelo menos uma linha deve ser dirigida a mim, tal como agora as pessoas dirigem os telescópios ao cometa. E se então, por uma vez, eu aparecesse diante dessa frase, atraído por essa frase, como a pessoa que fui, por exemplo, nos últimos Natais, quando tinha ido tão longe que mal podia me segurar e quando realmente parecia estar sobre o último degrau de minha escada, que, no entanto, estava imovelmente apoiada no chão e encostada à parede. Mas que chão! Que parede! E, no entanto, aquela escada não caiu, tanto a pressionavam meus pés contra o chão, tanto a levantavam meus pés junto a parede.
Hoje, por exemplo, cometi três insolências, contra um cobrador de bonde, contra um de meus superiores, foram portanto apenas duas, mas elas me doem como dores de estômago. Seriam insolências da parte de qualquer pessoa, quanto mais da minha. Saí, portanto, de mim, lutei nos ares, em meio à nevoa, e o pior é que ninguém percebeu que também frente a meus acompanhantes cometi a insolência como uma insolência, tive de cometê-la, tive de ostentar a cara certa, tive de arcar com a responsabilidade; mas o mais grave foi quando um de meus conhecidos não tomou essa insolência nem sequer como sinal de um caráter, e sim como o próprio caráter, chamou-me a atenção para minha insolência e a admirou. Por que não fico em mim? Agora me digo, contudo: veja, o mundo se deixa espancar por ti, o cobrador de bonde e o superior permaneceram quietos quando foste embora, o último inclusive te cumprimentou. Mas isso não significa nada. Nada podes alcançar quando te abandonas, mas o que perdes, além disso, em teu círculo? A essa pergunta, respondo apenas: também preferiria que me surrassem dentro do círculo do que eu mesmo surrar alguém fora dele, mas onde diabos está esse círculo? Por algum tempo, vi-o no chão, como se tivesse sido salpicado com cal, mas agora ele paira por aí, nem sequer paira.
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17/18 de maio
Noite do cometa
Estive com Blei4, sua mulher e seu filho, ouvi-me por um momento a partir de mim mesmo, como o choramingar de um filhote de gato, mas pelo menos isso.
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Quantos dias já se passaram mudamente outra vez; hoje é 29 de maio. Não tenho nem mesmo a firmeza de tomar na mão todo dia essa caneta, esse pedaço de madeira. Já acredito que não a tenho. Remo, cavalgo, nado, fico deitado ao sol. Por isso as panturrilhas estão boas, as coxas não estão mal, a barriga ainda é passável, já o peito, porém, é bem fajuto, e quando a cabeça, na nuca, me
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Domingo, 19 de junho de 1910, dormi, acordei, dormi, acordei, vida miserável.
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Quando reflito a respeito, tenho de dizer que minha educação me prejudicou bastante em vários sentidos. Afinal, não fui educado em algum lugar à parte, talvez numa ruína nas montanhas, contra o que não poderia pronunciar nenhuma palavra de censura. Com o risco de que toda a série de meus antigos professores não possa compreendê-lo, eu teria sido de bom grado e de preferência aquele pequeno habitante das ruínas, queimado de sol, que lá, entre os escombros, teria me iluminado de todos os lados sobre a hera tépida, ainda que no início eu tivesse sido fraco sob a pressão de minhas boas qualidades, que teriam crescido em mim com a força das ervas daninhas.
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Quando reflito a respeito, tenho de dizer que minha educação me prejudicou bastante em vários sentidos. Essa censura atinge um grande número de pessoas, a saber, meus pais, alguns parentes, algumas visitas de nossa casa, vários escritores, uma cozinheira bem específica que, por um ano, levava-me à escola, um monte de professores (que em minha memória tenho de apertar compactamente, caso contrário escapa-me um aqui e ali, mas, visto que os comprimi tanto, o todo se despedaça em alguns lugares), um inspetor escolar, passantes andando lentamente, em suma, essa censura serpenteia como um punhal pela sociedade. Não quero ouvir protesto algum contra essa censura, pois já ouvi protestos demais, e, visto que na maioria dos protestos também fui refutado, incluo esses protestos em minha censura e declaro agora que minha educação e essa refutação me prejudicaram bastante em vários sentidos.
Reflito com frequência a respeito e então sempre tenho de dizer que minha educação me prejudicou bastante em muitas coisas. Essa censura se dirige a um grande número de pessoas, mas aqui elas estão reunidas, não sabem, como em antigas fotografias de grupo, o que fazer umas com as outras, não lhes ocorre baixar os olhos e, devido à expectativa, não se atrevem a sorrir. Aí estão meus pais, alguns parentes, alguns professores, uma cozinheira bem específica, algumas moças das aulas de dança, algumas visitas de nossa casa de tempos antigos, alguns escritores, um professor de natação, um bilheteiro, um inspetor de escola, também alguns que só encontrei uma vez na rua e outros de quem neste exato momento não consigo me lembrar e aqueles de quem nunca mais me lembrarei e, por fim, aqueles de cujas lições, distraído de alguma maneira na época, nem sequer me dei conta, em suma, são tantos que é necessário prestar atenção para não mencionar alguém duas vezes. E contra todos eles pronuncio minha censura, apresento-os desse modo uns aos outros, mas não tolero qualquer protesto. Pois, na verdade, já suportei protestos suficientes e, visto que na maioria deles fui refutado, não posso fazer outra coisa senão incluir também esses protestos em minha censura e dizer que, além de minha educação, também essas refutações me prejudicaram bastante em muitas coisas.
Espera-se, talvez, que eu tenha sido educado em algum lugar à parte? Não, fui educado em plena cidade, em plena cidade. Não, por exemplo, numa ruína nas montanhas ou às margens de um lago. Meus pais e seu séquito ficaram até agora encobertos e cinzentos pela minha censura; agora a empurram facilmente para o lado e sorriem, porque tirei minhas mãos deles e as levei à testa e penso: eu deveria ter sido o pequeno habitante das ruínas, ouvindo a gritaria das gralhas, sobrevoado por suas sombras, refrescando-me sob a lua, queimado pelo sol, que, passando entre os escombros, me iluminaria de todos os lados em meu leito de hera, ainda que no início eu tivesse sido um pouco fraco sob a pressão de minhas boas qualidades, que teriam de crescer em mim com a força das ervas daninhas. Reflito com frequência a respeito e deixo os pensamentos seguirem seu curso sem me intrometer, e sempre, não importa de que ângulo veja o assunto, acabo por concluir que minha educação me prejudicou terrivelmente em muitas coisas. Nessa percepção há uma censura que se dirige a um grande número de pessoas. Aí estão meus pais, com os parentes, uma cozinheira bem específica, os professores, alguns escritores, famílias amigas, um professor de natação, nativos de lugares de veraneio, algumas senhoras no parque municipal, de quem jamais se suspeitaria algo assim, um barbeiro, uma mendiga, um timoneiro, o médico da família e ainda muitos outros, e seriam ainda mais numerosos se eu quisesse e pudesse indicar todos pelos nomes, em suma, são tantos que é necessário prestar atenção para não mencionar um deles duas vezes no monte. Alguém poderia achar que já devido a esse grande número uma censura perde a solidez, e simplesmente tem de perdê-la, pois uma censura não é um general, ela só anda em linha reta e não sabe se dispersar. Especialmente nesse caso, quando se dirige a pessoas de outro tempo. Tais pessoas podem ser conservadas na memória com uma energia esquecida, mas mal ainda terão um assoalho sob os pés e mesmo suas pernas já serão fumaça. E pessoas em tal estado devem ser agora censuradas com algum proveito pelos erros que certa vez cometeram em épocas remotas na educação de um menino que agora lhes é tão incompreensível quanto elas nos são. Mas nem sequer as levamos a recordar aqueles tempos, elas não conseguem se recordar de nada, e, se insistimos com elas, empurram-nos mudamente para o lado, homem algum pode obrigá-las a tanto, mas, evidentemente, não se pode falar de forma alguma em obrigar, pois com grande probabilidade nem sequer ouvem as palavras. Ficam aí paradas como cachorros cansados, pois gastam toda sua força para se manterem em pé na memória. Mas se realmente as levássemos a ouvir e a falar, zuniriam contracensuras em nossos ouvidos sem parar, pois as pessoas levam a convicção da respeitabilidade dos mortos junto consigo para o além, e de lá a defendem dez vezes mais. E se talvez essa opinião não estivesse correta e os mortos tivessem um respeito particularmente grande pelos vivos, então abraçariam ainda mais o seu passado vivo, que afinal lhes é a coisa mais próxima, e nossos ouvidos zuniriam outra vez. E se também essa opinião não estivesse correta e os mortos fossem bastante imparciais, mesmo assim jamais poderiam aprovar que os perturbássemos com censuras indemonstráveis. Pois tais censuras já são indemonstráveis de pessoa para pessoa. Não se pode provar a existência de erros de educação no passado, quanto mais sua autoria. E que alguém mostre a censura que, em tal situação, não se transformasse num suspiro.
Essa é a censura que tenho a apresentar. Ela tem um âmago saudável, a teoria a sustenta. Mas aquilo que realmente foi arruinado em mim, esqueço-o por ora ou o perdoo e não faço barulho com isso. Em compensação, posso provar a qualquer momento que minha educação quis fazer de mim outro homem que não aquele que me tornei. Censuro meus educadores, portanto, pelo dano que, segundo sua intenção, poderiam ter me causado, exijo de suas mãos o homem que agora sou e, como não me podem dá-lo, faço-lhes, com censuras e risadas, um rufar de tambores que vai até o além-mundo. Mas tudo isso serve apenas a outro fim. A censura por terem arruinado uma parte de mim, por terem arruinado uma boa e bela parte – às vezes ela me aparece em sonhos, como a outros a noiva morta –, essa censura, que está sempre na iminência de se transformar num suspiro, deve sobretudo passar incólume ao outro lado como a censura honesta que de fato é. Ocorre assim que a censura grande, à qual nada pode acontecer, toma a pequena pela mão, anda a grande, saltita a pequena, mas, uma vez que a pequena tenha chegado ao outro lado, ainda se distingue, sempre o esperamos, e toca a trombeta para acompanhar o tambor.
Reflito com frequência a respeito e deixo os pensamentos seguirem seu curso, sem me intrometer, mas sempre acabo por concluir que minha educação me arruinou mais do que consigo compreender. Em meu exterior, sou um homem como outros, pois a educação de meu corpo se ateve ao comum, tal como meu corpo também era comum, e ainda que eu seja relativamente pequeno e um tanto gordo, agrado a muitos, também às moças. Não há nada a dizer sobre isso. Ainda recentemente, uma delas disse algo bastante razoável: “Ah, se uma vez pudesse vê-lo nu, o senhor deve ser realmente bonito e merecer uns beijos”, disse ela. Mas se aqui me faltasse o lábio superior, ali a concha do ouvido, aqui uma costela e ali um dedo, se tivesse manchas sem cabelo na cabeça e cicatrizes de varíola no rosto, isso ainda não seria uma contraparte satisfatória de minha imperfeição interior. Essa imperfeição não é inata e, por isso, é ainda mais dolorosa de carregar. Pois, como qualquer pessoa, desde o nascimento também tenho meu centro de gravidade em mim, que mesmo a mais louca educação não pôde deslocar. Ainda tenho esse bom centro de gravidade, mas, de certa maneira, não tenho mais o corpo correspondente. E um centro de gravidade que não tem nada a fazer se transforma em chumbo e fica no corpo como uma bala de espingarda. Mas essa imperfeição tampouco é merecida, sofri seu aparecimento sem ter culpa. Por isso também não posso achar remorso dentro de mim em parte alguma, por mais que o procure. Pois o remorso seria bom para mim, afinal ele se desfaz em lágrimas dentro de si mesmo; ele coloca a dor de lado e resolve cada coisa individualmente como uma questão de honra; mantemo-nos de pé enquanto ele nos alivia.
Minha imperfeição, como disse, não é inata, não é merecida, apesar disso a suporto melhor do que outros suportam, mediante um grande trabalho da imaginação, com meios excepcionais, uma infelicidade muito menor, como por exemplo uma esposa abominável, uma situação de pobreza ou empregos miseráveis, e nisso meu rosto não fica de forma alguma negro de desespero, e sim branco e vermelho
Ele não ficaria assim se minha educação tivesse penetrado tão longe em mim quanto pretendia. Talvez minha juventude tenha sido muito breve para isso, e então louvo sua brevidade ainda agora, em meus quarenta anos, a plenos pulmões. Apenas assim foi possível que ainda me restassem forças para me dar conta das perdas de minha juventude e, além disso, para aguentar essas perdas e, além disso, para apresentar censuras ao passado em todas as direções e, por fim, para conservar um resto de força para mim mesmo. Mas todas essas forças, por sua vez, são apenas um resto daquelas que eu possuía quando criança e que me expuseram mais do que os outros aos corruptores da juventude, até um bom carro de corrida é perseguido e ultrapassado sobretudo pela poeira e pelo vento, e os obstáculos voam ao encontro de suas rodas de tal maneira que quase se deveria acreditar em amor.
O que ainda sou agora me fica claríssimo na força com que as censuras querem sair de mim. Houve épocas em que nada tinha em mim senão censuras impelidas pela raiva, a ponto de, em condições de bem-estar físico, me segurar em pessoas estranhas na rua, pois as censuras se jogavam de um lado para o outro em mim, como a água numa vasilha que se carrega depressa.
Esses tempos se foram. As censuras estão jogadas por aí dentro de mim, como ferramentas alheias que mal ainda tenho ânimo de pegar e ajuntar. Ao mesmo tempo, a corrupção de minha antiga educação parece agir novamente em mim cada vez mais, a mania de recordar, talvez uma característica geral dos solteirões da minha idade, abre outra vez meu coração àquelas pessoas a quem minhas censuras deveriam golpear, e um acontecimento como o de ontem, antes tão frequente quanto comer, é tão raro agora que o anoto.
Mas, indo além disso, talvez eu mesmo, que agora coloquei a pena de lado para abrir a janela, seja o melhor ajudante de meus agressores. É que me subestimo, e isso já significa uma superestimação dos outros, mas, além disso, ainda os superestimo e, sem considerar isso, ainda me prejudico
diretamente. Se me sobrevém o gosto por censuras, olho pela janela.5 Quem negará que os pescadores estão ali sentados em seus barcos como estudantes que foram levados da escola para o rio; bem, sua quietude é com frequência incompreensível como aquela das moscas nas vidraças. E, sobre a ponte, passam naturalmente os bondes como sempre, com um ruído embrutecido de vento e tocando suas campainhas como se fossem relógios danificados; não há dúvida de que o policial, negro da cabeça aos pés, com a luz amarela da medalha no peito, não lembra outra coisa senão o inferno, e agora, com pensamentos semelhantes aos meus, contempla um pescador que, subitamente – ele chora, tem uma visão ou é a cortiça que estremece? –, se curva em direção à borda do barco. Tudo isso está correto, mas, em seu momento, agora, apenas as censuras estão corretas.
Elas se dirigem contra um grande número de pessoas, o que pode mesmo assustar, e não só eu, também qualquer outro preferiria olhar o rio pela janela aberta. Aí estão os pais e os parentes, e o fato de terem me prejudicado por amor torna sua culpa ainda maior, pois o quanto poderiam ter-me sido úteis por amor; além disso, famílias amigas com olhar maléfico que, por consciência de culpa, se fazem pesadas e não querem ascender à consciência; além disso, os montes de babás, professores e escritores, e, no meio deles, uma cozinheira bem específica; além disso, confundindo-se uns com os outros por castigo, um médico de família, um barbeiro, um timoneiro, uma mendiga, um vendedor de papel, um guarda de parque e um professor de natação; além disso, senhoras desconhecidas do parque municipal, em quem de forma alguma suspeitaríamos disso, nativos dos lugares de veraneio, como escárnio da natureza inocente, e muitos outros; mas eles seriam ainda mais numerosos se eu quisesse e pudesse chamar todos pelo nome, em suma, são tantos que é necessário prestar atenção para não mencionar um deles duas vezes.
Reflito a respeito com frequência e deixo os pensamentos seguirem seu curso sem me intrometer, mas sempre concluo que a educação me arruinou mais do que a todas as pessoas que conheço e mais do que compreendo. Mas só posso abordar isso de tempos em tempos, pois quando me perguntam: “Verdade? Isso é possível? Pode-se acreditar nisso?”, já busco limitar o assunto devido a um sobressalto nervoso.
Por fora, pareço-me com qualquer outra pessoa; tenho pernas, tronco e cabeça, calças, casaco e chapéu; fizeram-me praticar ginástica a valer, e se, apesar disso, fiquei relativamente pequeno e fraco, foi porque era inevitável. De resto, agrado a muitos, mesmo a moças jovens, e aqueles a quem não agrado me acham, contudo, suportável.
Conta-se, e estamos dispostos a acreditar, que homens em perigo não têm qualquer respeito mesmo por mulheres desconhecidas e bonitas; jogam-nas contra a parede, golpeiam-nas com a cabeça e as mãos, os joelhos e os cotovelos quando são atrapalhados por essas mulheres na fuga do teatro em chamas. Então nossas mulheres tagarelas se calam, seu falar interminável
recebe verbo6 e ponto, as sobrancelhas se levantam de sua posição de repouso, cessa o movimento respiratório das coxas e dos quadris, na boca apenas frouxamente fechada de medo circula mais ar do que o normal e as
bochechas parecem um pouco inchadas.7
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Sand8: os franceses são todos comediantes; no entanto, só os mais fracos dentre eles atuam em comédias
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A claque nos teatros franceses: comandantes na plateia. Ha-ha para os mais próximos, deixam cair um jornal para os homens da galeria ___________________________________________________
Um martelo de madeira indica o início
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19/2/11
Quando quis levantar-me hoje da cama, simplesmente tive um colapso. A razão é muito simples, estou completamente esgotado pelo trabalho. Não devido ao escritório, mas devido ao meu outro trabalho. O escritório só tem uma participação inocente nisso, pois, se eu não precisasse ir até lá, poderia viver tranquilamente para o meu trabalho e não precisaria passar lá todo dia essas seis horas, que, em especial sexta e sábado, porque eu estava cheio das minhas coisas, me torturaram de uma maneira que o senhor é incapaz de imaginar. Por fim, sei-o realmente, isso é apenas tagarelice, a culpa é minha e o escritório tem as mais claras e mais justificadas exigências em relação a mim. Só que precisamente para mim isso é uma apavorante vida dupla, para qual é provável que só reste a saída da loucura. Escrevo isso a uma excelente luz matinal e por certo não o escreveria se não fosse tão verdadeiro e se não o amasse tanto como a um filho.
De resto, amanhã certamente minhas forças já estarão restauradas outra vez e irei ao escritório, onde a primeira coisa que ouvirei é que o senhor me
quer longe de seu departamento.9
19/2/11
A índole particular de minha inspiração, em que eu, felicíssimo e infelicíssimo, vou dormir agora, por volta das duas horas da madrugada (talvez ela permaneça, caso eu suporte a ideia disso, pois é mais elevada que todas as anteriores), é o fato de eu poder tudo, e não apenas com vista a um trabalho determinado. Se escrevo uma frase ao acaso, por exemplo, “Ele olhava pela janela”, ela já é perfeita.
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– Ainda ficarás aqui por muito tempo? – perguntei. – Na fala repentina, voou de minha boca, como um mau sinal, um pouco de saliva.
– Incomoda-te? Se te incomoda ou talvez te impede de subir, irei logo,
caso contrário, ainda ficaria de bom grado, pois estou cansado.10
28/3/11. O pintor Pollak-Karlin, sua mulher11 com dois incisivos superiores grandes e largos, que afilam o rosto grande, mais para achatado, a esposa de
Bittner12, conselheiro da corte, mãe do compositor, a quem a idade ressalta tanto seu forte esqueleto que ela, pelo menos quando sentada, parece um
homem: – os discípulos ausentes do dr. Steiner13 ocupam tanto o seu tempo. – Durante a conferência, os mortos se apinham ao seu redor. Curiosidade? Mas eles precisam mesmo disso? Parece que sim. – Dorme duas horas. Desde que uma vez lhe cortaram a energia elétrica, sempre tem uma vela consigo. – Esteve muito próximo de Cristo. – Levou sua peça teatral ao palco em Munique. (“Podes estudá-la durante um ano e não a compreendes.”) Desenhou os figurinos, escreveu a música. – Deu lições a um químico. –
Löwy Simon14, negociante de sedas em Paris, no Quai Moncey, recebeu dele os melhores conselhos comerciais. Ele traduziu as obras de Steiner ao francês. Por isso consta no caderno de anotações da esposa do conselheiro da corte: “Como se obtém o conhecimento dos mundos superiores? Com S.
Löwy, em Paris”.15 – Na loja de Viena há um teósofo de 65 anos, extraordinariamente forte, outrora um grande beberrão cabeça-dura, que acredita continuamente e tem dúvidas continuamente. Dizem que foi muito engraçado quando, certa vez, num congresso em Budapeste, por ocasião de um jantar no monte Blocksberg, numa noite enluarada, ele se escondeu de susto, com sua caneca, atrás de um barril de cerveja quando o dr. Steiner apareceu inesperadamente no grupo (embora este não tivesse se irritado com isso). – Talvez ele não seja o maior investigador espiritual da atualidade, mas só ele recebeu a tarefa de unificar a teosofia com a ciência. Por isso, também sabe tudo. –
Certa vez, chegou a seu povoado natal um botânico, um grande mestre ocultista. Esse mestre o iluminou. – O fato de que visitarei o dr. Steiner foi interpretado pela senhora como uma reminiscência incipiente. – O médico da senhora, quando se mostraram nela os princípios de uma gripe, perguntou ao dr. Steiner sobre um remédio, prescreveu-o à senhora e assim a curou de imediato. – Uma francesa despediu-se dele com “Au revoir”. Ele abanou a mão atrás dela. Dois meses depois ela morreu. Outro caso parecido em Munique. – Um médico muniquense cura com o uso de cores, determinadas pelo dr. Steiner. Também manda doentes à pinacoteca com a prescrição de se concentrar diante de determinado quadro durante uma meia hora ou mais. – O
fim do mundo de Atlântida16 17 , o declínio de Lemúria e agora o declínio causado pelo egoísmo. – Vivemos numa época decisiva. O experimento do
dr. Steiner será bem-sucedido desde que as forças de Arimã18 não se tornem preponderantes. – Alimenta-se com dois litros de leite de amêndoas e frutas que crescem nas alturas. – Relaciona-se com seus discípulos ausentes mediante formas mentais que lhes envia, sem se ocupar mais delas após sua geração. Mas elas logo se desgastam e ele tem de produzi-las novamente. – A
sra. Fanta19: tenho memória ruim. Dr. Steiner: não coma ovos.
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Minha visita ao dr. Steiner.
Uma mulher já se encontra à espera (em cima, no segundo andar do hotel Viktoria, na Jungmannsstrasse), mas me pede insistentemente para entrar antes dela. Esperamos. A secretária vem e nos pede para ter paciência. Ao dar uma olhada pelo corredor, vejo-o. Logo depois, ele vem em nossa direção com os braços meio estendidos. A mulher declara que eu estava ali primeiro.
Então o sigo enquanto ele me conduz ao seu quarto. Seu casaco imperial20 preto, como que lustrado nas noites de conferência (não lustrado, mas apenas brilhante devido ao seu negror puro), é agora, à luz do dia (três da tarde), poeirento e até manchado, especialmente nas costas e nos ombros. Em seu quarto, procuro demonstrar minha humildade, que não consigo sentir, ao buscar um lugar ridículo para meu chapéu; coloco-o sobre um pequeno cavalete de madeira para amarrar as botas. A mesa no meio, sento-me com o olhar para a janela, ele, ao lado esquerdo da mesa. Sobre a mesa, uns tantos papéis com alguns desenhos, que lembram aqueles das conferências sobre fisiologia ocultista. Um número dos Annalen für Naturphilosophie [Anais de filosofia natural] cobre uma pequena pilha de livros, que também parecem estar espalhados pelo lugar. Só que não se pode olhar em torno, já que ele sempre tenta segurar a pessoa com seu olhar. Mas se alguma vez não o faz, é preciso estar atento para o retorno do olhar. Ele começa com algumas frases soltas: “Então o senhor é o dr. Kafka? O senhor já se ocupou detidamente da teosofia?”. Mas me adianto com meu discurso preparado: “Sinto como uma grande parte de meu ser anseia pela teosofia, mas ao mesmo tempo tenho dela o maior medo. É que receio dela uma nova confusão, que para mim seria muito grave, visto que minha infelicidade atual já consiste apenas em confusão. Essa confusão está no seguinte: minha felicidade, minhas capacidades e toda possibilidade de ser útil de alguma maneira encontram-se desde sempre no âmbito literário. E nele certamente vivenciei estados (não muitos) que, segundo minha opinião, estão muito próximos dos estados clarividentes descritos pelo senhor, nos quais eu morava completamente em cada ideia, mas também realizei cada ideia, e nos quais não apenas me senti nos meus limites, mas nos limites do humano em geral. No entanto, faltou a esses estados, ainda que não inteiramente, apenas a quietude do entusiasmo tal como ela provavelmente é peculiar ao clarividente. Deduzo isso do fato de não ter escrito meus melhores trabalhos nesses estados. – Bem, mas não posso me dedicar inteiramente a esse âmbito literário como deveria, e isso por diversas razões. Sem considerar minhas relações familiares, não poderia viver da literatura já devido ao lento surgimento de meus trabalhos e ao seu caráter peculiar; além disso, minha saúde e meu caráter também me impedem de me dedicar a uma vida no melhor dos casos incerta. Por isso me tornei funcionário numa agência social de seguros. Porém, esses dois ofícios jamais podem ser compatíveis entre si e admitir uma felicidade comum a ambos. A menor felicidade num deles se transforma numa grande infelicidade no outro. Se numa noite escrevi algo bom, no dia seguinte queimo por dentro no escritório e não consigo terminar nada. Esse vai e vem fica cada vez pior. No escritório, cumpro exteriormente meus deveres, mas não cumpro meus deveres interiores, e cada dever interior não cumprido se transforma numa infelicidade que não sai mais de mim. E, além desses dois esforços que jamais podem ser conciliados, devo agora praticar um terceiro, a teosofia? Será que não perturbará os dois lados e não será ela mesma perturbada pelos dois? Será que eu, um homem atualmente já tão infeliz, conseguirei levar as três a um termo? Vim para perguntar isso ao senhor, doutor, pois presumo que se o senhor me julgar capaz de fazê-lo também poderei realmente tomá-lo a meu cargo”.
Ele ouviu com extrema atenção, sem aparentemente me observar sequer o mínimo, por inteiro entregue às minhas palavras. Ele assentia com a cabeça de vez em quando, o que aparentemente considera um auxílio para uma concentração intensa. No início, perturbou-o um resfriado silencioso, seu nariz escorria e ele lidava sem parar com o lenço, metendo-o fundo no nariz, um dedo em cada orifício nasal.
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Visto que nas narrativas judaicas contemporâneas da Europa ocidental o leitor se acostumou a buscar e a encontrar logo abaixo ou acima da narrativa
também a solução da questão judaica, mas que em 21 Jüdinnen [Judias] não se apresenta e nem sequer se conjectura tal solução, é possível que o leitor reconheça nisso, sem vacilar, uma deficiência em Jüdinnen, vendo apenas de mau grado que judeus andem por aí à luz do dia sem encorajamentos políticos do passado ou do futuro. A propósito disso, tem de dizer a si mesmo que, em especial desde o aparecimento do sionismo, as possibilidades de solução se encontram tão claramente organizadas em torno do problema judaico que, por fim, o escritor apenas precisa virar o corpo para encontrar uma determinada solução, adequada à parte do problema que estiver sendo tratada.
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Ao vê-lo, suspeitei dos esforços que tinha assumido por minha causa e que agora – talvez apenas porque estivesse cansado – lhe davam essa segurança. Não teria bastado mais um pequeno esforço e a trapaça teria dado certo, talvez ainda desse agora? Eu estava me defendendo? É verdade que estava obstinadamente parado aqui diante do prédio, mas, com a mesma obstinação, hesitava em subir. Será que eu esperava até que os convidados
viessem me buscar com canções?22
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15 de agosto de 1911. O tempo transcorrido até agora, e em que não escrevi palavra alguma, foi importante para mim porque deixei de sentir vergonha de
meu corpo nas escolas de natação23 de Praga, Königssaal e Czernoschitz. Com que atraso recupero agora, aos vinte e oito anos, minha educação; numa corrida, chamariam de largada retardada. E o dano de tal desgraça não consiste, talvez, no fato de não vencer; esta última, afinal, é apenas o cerne ainda visível, claro e saudável da desgraça que continua se desvanecendo, tornando-se ilimitada, que empurra a pessoa, que deveria correr ao redor do círculo, para o interior dele. De resto, também observei muitas outras coisas em mim nesse período, também feliz em pequena parte, e tentarei anotá-las nos próximos dias.
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20/8/11
Tenho a crença infeliz de que não tenho tempo nem para o mais insignificante bom trabalho, pois realmente não tenho tempo, para uma história, de me desdobrar em todas as direções do mundo como deveria. Mas
então volto a acreditar que minha viagem24 será melhor, que minha compreensão será melhor se eu tiver me soltado através de um pouco de escrita e, assim, faço nova tentativa.
Ao vê-lo, suspeitei dos esforços que tinha assumido por minha causa e que agora, talvez apenas porque estivesse cansado, davam-lhe essa segurança. Não teria bastado mais um pequeno esforço e a trapaça teria dado certo, talvez ainda desse agora? Eu estava me defendendo? É verdade que estava obstinadamente parado aqui diante do prédio, mas, com a mesma obstinação, hesitava em subir. Será que eu esperava até os convidados virem me buscar
com canções?25
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Li a respeito de Dickens. Será tão difícil, e poderá alguém de fora compreender, que se viva uma história dentro de si desde o seu começo, do ponto distante até a locomotiva de aço, carvão e vapor que chega, mas sem abandoná-la mesmo agora, e sim querendo ser perseguido por ela e com tempo para tanto, ou seja, ser perseguido por ela e correr à sua frente por impulso próprio, para onde quer que ela empurre e para onde quer que se a atraia?
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Não posso compreendê-lo e nem sequer acreditá-lo. Vivo apenas aqui e ali numa pequena palavra, em cuja metafonia (stösst, acima), por exemplo,
perco por um instante minha cabeça inútil.26 A primeira e a última letra são o começo e o fim de meu sentimento com feitio de peixe. 24 de agosto de 1911
Estar sentado ao ar livre à mesa de um café com conhecidos e observar na mesa vizinha uma mulher que acabou de chegar, respira pesadamente sob os seios grandes e se senta com o rosto afogueado, brilhando castanhamente. Ela inclina a cabeça para trás, um abundante laivo de barba se torna visível, vira os olhos para cima, quase como às vezes, talvez, olha para o marido, que agora lê uma revista ilustrada ao seu lado. Se fosse possível convencê-la de que um homem jamais deve ler uma revista ao lado de sua mulher no café, no máximo um jornal. Por um momento, ela se torna consciente de sua corpulência e se afasta um pouco da mesa.
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26 de agosto. Amanhã partirei para a Itália. Agora à noite meu pai27 não pôde pegar no sono de agitação, pois estava inteiramente tomado pela preocupação com a loja e por sua doença despertada em razão disso. Um pano molhado sobre o coração, ânsia de vômito, falta de ar, caminhar suspirando de um lado para o outro. A mãe encontra novo consolo em seu medo. Ele sempre foi tão enérgico, diz ela, conseguiu superar tudo, e agora... Digo que essa miséria com a loja só poderá durar mais um trimestre, então tudo deverá ficar bem. Ele caminha para cima e para baixo, suspirando e balançando a cabeça. Está claro que, de seu ponto de vista, suas preocupações não são diminuídas por nós e nem sequer aliviadas, mas nem mesmo de nosso ponto de vista, mesmo na melhor de nossas intenções ainda há algo dessa convicção tão triste de que ele tem de cuidar da família. – Mais tarde, pensei que ele estava deitado com minha mãe; pois que se aperte contra ela, a carne próxima e aparentada deve acalmar. – Com o seu frequente bocejar ou o seu gesto, aliás não repugnante, de colocar a mão no nariz, meu pai produz um pequeno apaziguamento, que mal chega à consciência, sobre o seu estado, embora em geral ele não o faça
quando está saudável. Ottla28 confirmou. – Minha pobre mãe pretende ir amanhã suplicar ao senhorio.
26 de setembro de 1911. O desenhista Kubin29 recomenda Regulin como laxante, uma alga triturada que se intumesce no intestino e o faz vibrar, ou seja, age mecanicamente, à diferença do efeito químico malsão de outros laxantes, que apenas rasgam os excrementos, ou seja, deixam-nos pendurados
nas paredes do intestino. – Ele se encontrou com Hamsun30 na casa de Langen. Hamsun sorri sarcasticamente sem motivo. Durante a conversa, sem interrompê-la, levantou o pé sobre o joelho, pegou da mesa uma grande tesoura de papel e cortou os fiapos de sua calça fazendo toda a volta. Vestido andrajosamente, mas com algum detalhe valioso, por exemplo, a gravata. – Histórias de uma pensão de artistas em Munique onde moravam pintores e médicos veterinários (a escola destes ficava nas proximidades) e onde as coisas se passavam tão dissolutamente que as janelas da casa em frente, de onde se tinha uma boa vista, foram alugadas. Para contentar esses espectadores, um pensionista subia às vezes ao parapeito e, em posição de macaco, esvaziava às colheradas sua tigela de sopa. – Um fabricante de antiguidades falsas, que produzia a corrosão do tempo com descargas de chumbo e que disse de uma mesa: agora ainda precisamos tomar café sobre ela três vezes e então pode ser mandada ao museu de Innsbruck. – O próprio Kubin: muito forte, mas um rosto de movimentos um tanto uniformes, ele descreve as coisas mais diversas com a mesma tensão dos músculos. Parece diversamente velho, grande e forte conforme estiver sentado, em pé, com um mero casaco ou de sobretudo.
Quinta-feira, 27/09/11. Ontem, na Wenzelsplatz, passei por duas moças, detive o olhar numa delas por muito tempo, enquanto era justamente a outra, como se verificou tarde demais, que usava um casaco caseiramente macio, marrom, pregueado, amplo, um pouco aberto na frente e tinha um pescoço e um nariz delicados. O cabelo era bonito de uma maneira já esquecida. –
Homem velho com calças frouxamente pendentes no belvedere.31 Assobia; quando olho para ele, ele para; afasto o olhar, ele recomeça; por fim, também assobia quando estou olhando. – O botão bonito e grande, belamente preso embaixo, na manga do vestido de uma moça. O vestido também lhe ficava bonito, flutuando sobre botas americanas. Como é raro que eu tenha êxito em algo bonito, e esse botão despercebido e sua costureira insciente têm. – A narradora no caminho ao belvedere, cujos olhos vivazes, independentemente das palavras do momento, abrangem contentes sua história até o final. – Vigoroso semigiro do pescoço de uma moça forte,
29/9/11. Os diários de Goethe: um homem que não tem diário se encontra numa posição equivocada em relação a um diário. Quando ele lê nos diários de Goethe, por exemplo: “11/1/1797, o dia todo em casa ocupado com diversas disposições”, parece-lhe que ele próprio jamais fez tão pouco num dia. – As observações de viagem de Goethe são diferentes das atuais, pois, feitas de uma mala-posta, desenrolam-se de modo mais simples com as lentas mudanças do terreno e podem ser acompanhadas muito mais facilmente mesmo por aquele que não conhece essas regiões. Tem início um pensar tranquilo, realmente paisagístico. Visto que a região se apresenta intacta em seu caráter nativo ao ocupante da carruagem e que as estradas cortam o campo de modo muito mais natural do que as linhas ferroviárias, com as quais talvez se encontrem na mesma relação dos rios com os canais, o observador tampouco precisa de quaisquer violências e pode ver sistematicamente sem grande esforço. Por isso, há poucas observações momentâneas, na maioria das vezes apenas em espaços interiores onde pessoas determinadas irrompem logo sem limites diante dos olhos, por exemplo, oficiais austríacos em Heidelberg; em compensação, o trecho sobre os homens de Wiesenheim se aproxima mais da paisagem: “Usam casacos azuis e coletes brancos enfeitados com flores bordadas” (citado de memória). Ele escreveu muito sobre as cataratas do Reno em Schaffhausen; em meio às anotações, em letras maiores, “ideias excitadas”.
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Cabaré Lucerna. Lucie König expõe fotografias com penteados antigos. Rosto gasto. Às vezes consegue algo com o nariz levantado, com o braço erguido e um giro de todos os dedos. Rosto acovardado. – As piadas mímicas
de Longhen (o pintor Pittermann32). Uma atuação que evidentemente não tem alegria e, no entanto, não pode ser pensada com tanta falta de alegria, pois então não poderia ser realizada toda noite, especialmente porque, mesmo quando de sua invenção, era tão sem alegria que não se apresentou qualquer esquema satisfatório que poupasse a entrada em cena, bastante frequente, do homem inteiro. Bonito salto de palhaço sobre uma cadeira rumo ao vazio dos bastidores laterais. O todo lembra uma apresentação numa festa privada em que por necessidade social se aplaude de modo especial uma atuação trabalhosa e insignificante a fim de obter, considerando a insuficiência da atuação, algo lisamente arredondado mediante a abundância do aplauso. – O cantor Vašata. Tão ruim que nos perdemos ao olhá-lo. Mas, por ser um homem forte, mantém a atenção do público razoavelmente concentrada com uma força animalesca da qual por certo só eu me dou conta. – Grünbaum produz efeito com a desolação, supostamente apenas aparente, de sua existência. Odys, bailarina. Quadris rígidos. Uma verdadeira ausência de carnes. A meu ver, joelhos vermelhos combinam com a dança Frühlingsstimmung [Espírito primaveril].
30/9/1911
A moça do quarto ao lado, anteontem (Helli Haas). Estava deitado no canapé e, à beira do semissono, ouvi sua voz. Pareceu-me vestida de maneira particularmente pesada, não só com suas roupas, mas também com todo o quarto ao lado, apenas seu ombro modelado, nu, roliço, forte e escuro, que vi