Diários (1909-1912)

Franz Kafka · Capítulo 5 de 7 · parte 1/2

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Diários (1909-1912)

Terceiro caderno

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 2 partes.

 

26 de outubro de 1911, quinta-feira

Ontem, a tarde inteira, Löwy fez a leitura de Gott, Mensch und Teufel [Deus,

homem e Diabo], de Gordon146, e, em seguida, de trechos de seus próprios diários de Paris. Anteontem, estive na apresentação de Der wilde Mensch [O homem selvagem], de Gordon. – Gordon é melhor que Lateiner, Scharkansky, Feimann etc. porque tem mais detalhes, mais ordem e mais coerência nessa ordem; em compensação, aí não se encontra mais inteiramente o judaísmo direto das outras peças, como que improvisado de uma vez por todas; o ruído desse judaísmo soa mais abafado e, assim, por sua vez, menos detalhado. No entanto, fazem-se concessões ao público e às vezes acreditamos precisar nos esticar a fim de ver a peça por cima das cabeças do público de teatro judaico nova-iorquino (a figura do homem selvagem, toda a história da sra. Selde), mas o pior é que também se fazem concessões palpáveis a uma arte pressentida qualquer, que em Der wilde Mensch, por exemplo, a ação vacile durante um ato inteiro em consequência de escrúpulos, que o homem selvagem faça discursos humanamente ininteligíveis, mas literariamente tão toscos que preferimos fechar os olhos; é o mesmo caso da moça de mais idade em Gott, Mensch und Teufel. A ação de Der wilde Mensch é em parte bastante corajosa. Uma jovem viúva se casa com um velho que tem quatro filhos, levando logo o amante, Wladimir Worobeitschik, consigo para dentro do casamento. Os dois arruínam a família inteira; Schmut Leiblich (Pipes) precisa gastar todo seu dinheiro e fica doente, o filho mais velho, Simon (Klug), um estudante, abandona a casa, Alexander se torna jogador e beberrão, Lise (Tschisik) se torna prostituta e Lemech (Löwy), o idiota, é levado a uma loucura idiótica por ódio à sra. Selde, pois ela toma o lugar de sua mãe, e por amor, pois é a primeira mulher jovem próxima a ele. Levada a tal ponto, a ação termina com o assassinato de Selde por Lemech. Todos os outros ficam para o espectador numa lembrança incompleta e desamparada. A invenção dessa mulher e de seu amante, uma invenção que não pergunta a opinião de ninguém, deu-me uma autoconfiança variada e pouco clara.

A impressão discreta causada pelo programa. Ficamos sabendo não apenas os nomes, e sim algo mais, mas apenas aquilo que o público, e mesmo o mais benévolo e mais frio, precisa saber sobre uma família exposta a seu julgamento. Schmut Leiblich é “um rico comerciante”, mas não é dito que é velho e adoentado, que é um mulherengo ridículo, um péssimo pai e um viúvo desrespeitoso que se casa no aniversário da morte da mulher. E, contudo, todas essas definições seriam mais corretas que a do programa, pois ao final da peça ele não é mais rico, pois Selde roubou tudo dele, tampouco ainda mal é um comerciante, pois negligenciou seu negócio. No programa, Simon é um “estudante”, ou seja, algo bastante vago que, até onde sabemos, muitos filhos de nossos conhecidos mais remotos também são. Alexander, esse jovem sem caráter, é apenas “Alexander”; de Lise, a moça de vida caseira, também sabemos apenas que é “Lise”. Lemech, infelizmente, é “um idiota”, pois isso é algo que não se deixa ocultar. Wladimir Worobejtschik é apenas “o amante de Selde”, mas não o arruinador de uma família, não um beberrão, jogador, devasso, indolente, parasita. É verdade que a designação “amante de Selde” revela muita coisa, mas, considerando seu comportamento, isso é o mínimo que se pode dizer. Além disso, o lugar da ação é a Rússia; as pessoas, reunidas a custo, estão dispersas por um território imenso ou reunidas num pequeno ponto não revelado desse território; em suma, a peça se tornou impossível, o espectador não verá nada. / Apesar disso, a peça começa, as forças evidentemente grandes do autor trabalham, vêm à luz coisas que não atribuiríamos às pessoas do programa, mas que lhes dizem respeito com a maior segurança caso apenas queiramos acreditar nas chicotadas, nas coisas arrancadas à força, nas pancadas, nas batidas nos ombros, nos desmaios, nas decapitações, nas claudicâncias, nas danças com botas russas de cano virado, nas danças com vestidos levantados e nos volteios no canapé, pois afinal são coisas que não admitem réplica. No entanto, sequer se precisa do auge da excitação dos espectadores, vivenciado na memória, para reconhecer que a impressão discreta do programa é uma impressão falsa que pode se formar apenas depois da apresentação, mas que agora já é incorreta, até impossível, que só pode surgir em alguém à parte, cansado, pois para o julgador honesto não é mais possível ver qualquer relação lícita, após a representação, entre esta e o programa.

O que começa na barra 147 foi escrito com desespero, porque hoje estão

jogando cartas148 de maneira especialmente barulhenta, preciso ficar sentado à mesa comum, Ottla ri à boca plena, levanta-se, senta-se, pega algo por cima da mesa, fala comigo e eu, para completar a desgraça, escrevo tão mal e tenho de pensar nas boas lembranças parisienses de Löwy, escritas com um sentimento ininterrupto e oriundas de um fogo independente, enquanto eu, pelo menos agora, sobretudo porque tenho tão pouco tempo, estou quase inteiramente sob a influência de Max, o que às vezes, ainda por cima, também me estraga a alegria com seus trabalhos. Porque me consola, escrevo

aqui uma observação autobiográfica de Shaw149, embora na verdade contenha o contrário de consolo: quando garoto, ele era aprendiz no escritório de um corretor de imóveis em Dublin. Logo abandonou esse emprego, viajou a Londres e se tornou escritor. Nos primeiros nove anos, de 1876 a 1885, ganhou no total cento e quarenta coroas. “Mas, apesar de eu ser um homem jovem e forte e de minha família estar em má situação, não me lancei na luta pela vida; lancei nela minha mãe e me deixei sustentar por ela. Não fui um apoio para meu velho pai; ao contrário, pendurei-me nas abas de seu casaco.” No fim das contas, isso pouco me consola. Os anos que ele passou livremente em Londres já se foram para mim, a felicidade possível se torna cada vez mais impossível, levo uma terrível vida substitutiva e sou covarde e miserável o bastante para seguir Shaw apenas a ponto de ler o trecho a meus pais. Como essa vida possível relampeja diante de meus olhos abertos com cores de aço, com barras de aço estendidas e escuridão ventosa entre elas!

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27/10/11. Relatos e diários de Löwy: como o assusta Notre-Dame, como o comove o tigre no Jardin des Plantes, qual uma representação do desesperado e do esperançoso que sacia o desespero e a esperança com comida, como seu pai devoto lhe pergunta em imaginação se agora ele pode passear no sábado, se agora tem tempo para ler livros modernos, se lhe é permitido comer nos dias de jejum, enquanto ele, no fim das contas, precisa trabalhar no sábado, absolutamente não tem tempo e jejua mais do que qualquer religião alguma vez prescreveu. Quando ele passeia pelas ruas mastigando seu pão preto, parece de longe que come chocolate. O trabalho na fábrica de gorros e seu amigo, o socialista, que toma por burguês todo mundo que não trabalha exatamente como ele – Löwy, por exemplo, com suas mãos finas –, que se entedia aos domingos, despreza a leitura como algo luxuoso, não sabe ler e pede a Löwy com ironia para ler-lhe uma carta que recebeu.

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A água purificadora judaica, presente em toda comunidade judaica da Rússia, que imagino como uma cabine dotada de uma pia com formato precisamente estipulado, com instalações prescritas e supervisionadas pelo rabino, que apenas tem de lavar a sujeira terrena da alma, cujo feitio exterior é por isso indiferente e que, por ser um símbolo, pode estar, e também está, suja e fedorenta, mas ainda assim cumpre sua finalidade. A mulher vem para se purificar da menstruação; o escriba da Torá, para se purificar de todos os pensamentos pecaminosos antes de escrever a última frase de um capítulo da Torá.

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O costume de, logo após o despertar, mergulhar os dedos três vezes na água, pois durante a noite os maus espíritos se sentam sobre a segunda e a terceira falanges. Explicação racionalista: cabe evitar que os dedos passem logo pelo rosto, pois durante o sono e o sonho, afinal, podem ter tocado, sem controle, todas as partes possíveis do corpo, as axilas, o traseiro, os genitais.

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O camarim atrás do palco deles é tão estreito que se alguém por acaso estiver diante do espelho, atrás do reposteiro do palco, e uma segunda pessoa quiser passar, aquela precisa levantar esse reposteiro e, contra sua vontade, expor-se ao público por um momento.

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Superstição: quando se toma água de um copo defeituoso, os maus espíritos entram no ser humano.

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Como os artistas me pareceram feridos após a apresentação, como temi tocá-los de leve com uma palavra. Como preferi, após um ligeiro aperto de mão, ir embora depressa, como se estivesse irritado e descontente, pois era tão impossível expressar a verdade de minha impressão. Todos me pareceram falsos, exceto Max, que, calmamente, disse alguma futilidade. Falso, porém, foi aquele que pediu informações sobre um detalhe desavergonhado; falso, aquele que deu uma resposta brincalhona a uma observação do ator; falso, o irônico; falso, aquele que começou a decompor sua impressão variada – uma gentalha só, que, devidamente apertada nas profundezas da sala de espetáculos, levantou-se agora, tarde da noite, e voltou a perceber seu valor. (Muito longe das pessoas corretas)

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28 [de outubro de 1911]. É verdade que tive um sentimento parecido, mas tanto a peça quanto a encenação nem de longe me pareceram perfeitas nessa

noite.150 Mas, precisamente por isso, me via obrigado a ter um respeito especial pelos atores. Quem saberá de quem é a culpa pelas pequenas, embora muitas, lacunas da impressão. A sra. Tschissik pisou em dado momento na bainha de seu vestido e oscilou por um instante, nesse vestido aprincesado de prostituta, como uma coluna maciça; noutro momento, enganou-se na fala e, para acalmar a língua, virou-se com um movimento enérgico na direção da parede dos fundos, embora isso não correspondesse de forma alguma às palavras; isso me desconcertou, mas não me impediu de ter o acesso de arrepios que sempre sinto na parte superior dos zigomas ao ouvir sua voz. Mas, por terem recebido uma impressão muito mais impura que a minha, os outros conhecidos pareciam-me obrigados a um respeito ainda maior que o meu, também pelo fato de que, segundo minha opinião, o respeito deles teria sido muito mais efetivo que o meu, de maneira que tive uma razão dupla para amaldiçoar sua conduta.

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“Axiome über das Drama” [Axiomas sobre o drama], de Max, na revista Die

Schaubühne 151 . Tem todo o caráter de uma verdade onírica, ao que também se ajusta a expressão “axiomas”. Quanto mais oniricamente ela se infla, mais friamente é preciso tocá-la. Os seguintes princípios são expressos:

A essência do drama está numa deficiência, eis a tese.

O drama (no palco) é mais abrangente que o romance, pois vemos tudo acerca do que normalmente apenas lemos.

Isso é apenas aparente, pois no romance o autor pode nos mostrar apenas o que é importante; no drama, em compensação, vemos tudo, o ator, o cenário e, por isso, não apenas o que é importante, ou seja, menos. Assim, segundo o espírito do romance, o melhor drama seria um drama inteiramente sem incitações – um drama filosófico, por exemplo –, lido por atores sentados num ambiente com um cenário qualquer.

E, no entanto, o melhor drama é aquele que dá a maior parte dos estímulos no tempo e no espaço, livra-se de todas as exigências da vida, limita-se apenas às falas, aos pensamentos em monólogos, aos pontos capitais da ação, comanda todo o resto por estímulos e, elevado sobre um escudo carregado por atores, pintores e diretores, segue apenas suas próprias inspirações mais extremas.

Defeito dessa conclusão: ela muda o ponto de vista sem avisar, ora vê as coisas a partir do gabinete do escritor, ora a partir do público. Admitindo-se que o público não veja tudo segundo os propósitos do autor, que a encenação surpreenda o próprio autor,

29/10/11, domingo

este, não obstante, teve a peça dentro de si em todos os detalhes, avançou de detalhe em detalhe e, apenas porque reuniu todos esses detalhes nas falas, deu-lhes a força e o peso dramáticos. Graças a isso, em seu maior desenvolvimento o drama cai numa humanização insuportável, sendo tarefa do ator puxá-la para baixo, torná-la suportável, ator que veste como uma roupa frouxa, desfiada, esvoaçando ao seu redor, o papel que lhe foi prescrito. Portanto, o drama paira no ar, mas não como um telhado carregado pelo temporal, e sim como uma construção inteira cujos fundamentos foram arrancados da terra com uma força que hoje, no entanto, é muito próxima da loucura.

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Às vezes, parece que a peça repousa lá no alto das bambolinas, que os atores arrancaram delas faixas cujas pontas seguram nas mãos ou enrolaram em volta do corpo para atuar, e que apenas aqui e ali uma faixa difícil de desprender leva um ator às alturas, para o espanto do público.

Hoje sonhei com um asno que tinha feitio de galgo e era bastante reservado em seus movimentos. Observei-o minuciosamente, pois estava consciente da raridade do fenômeno, mas retive apenas a lembrança de que seus estreitos pés humanos não me agradavam devido a seu comprimento e uniformidade. Ofereci-lhe tufos de cipreste frescos, verde-escuros, que eu tinha acabado de receber de uma velha senhora zuriquense (tudo se passava em Zurique) e que ele não quis, apenas farejou um pouco; porém, quando os deixei sobre uma mesa, ele os devorou tão completamente que sobrou apenas um caroço, parecido com uma castanha, que mal se reconhecia. Mais tarde, alguém disse que esse asno nunca tinha caminhado sobre quatro patas, mas que sempre se mantinha humanamente ereto, mostrando seu peito de brilho prateado e sua barriguinha. Mas isso, na verdade, não era correto.

Além disso, sonhei com um inglês que conheci numa reunião parecida

com aquela do Exército da Salvação em Zurique.152 Havia bancos como na escola e, sob o tampo, ainda havia uma gaveta aberta; quando, em dado momento, coloquei a mão dentro dela para arrumar alguma coisa, fiquei admirado com a facilidade com que travamos amizades em viagem. Era uma referência evidente ao inglês, que pouco depois se dirigiu a mim. Ele tinha roupas claras, soltas, em excelente estado, só que atrás, acima dos cotovelos, em vez do tecido da peça, ou pelo menos costurado sobre ele, havia um tecido cinzento, amarrotado, um pouco pendente, rasgado em faixas, como que ponteado por aranhas, que lembrava tanto os reforços de couro das calças de equitação como também as proteções nas mangas de costureiras, balconistas e secretárias. Seu rosto estava igualmente coberto por um tecido cinzento, que tinha recortes muito úteis para a boca, os olhos e, provavelmente, também para o nariz. Mas esse tecido era novo, cardado, ou antes, aflanelado, muito flexível e macio, de excelente fabricação inglesa. Tudo isso me agradou tanto que eu estava ansioso por conhecer o homem. Ele também queria me convidar à sua casa; mas, como eu já precisava viajar depois de amanhã, esse plano foi frustrado. Antes de deixar a reunião, ele ainda vestiu algumas peças aparentemente muito práticas que, depois de abotoadas, davam-lhe uma aparência completamente discreta. Embora ele não pudesse me convidar a visitá-lo, convidou-me a sair com ele à rua. Segui-o, ficamos parados em frente ao lugar da reunião no canto de uma calçada, eu embaixo, ele em cima, e mais uma vez nos demos conta, após alguma conversa, de que o convite não poderia dar em nada.

Em seguida, sonhei que Max, Otto e eu tínhamos o hábito de fazer nossas malas apenas na estação. Levávamos nossas camisas, por exemplo, atravessando o saguão principal até nossas malas distantes. Embora parecesse ser um costume generalizado, não funcionou conosco, especialmente porque tínhamos começado a fazer as malas apenas pouco antes da chegada do trem. Então naturalmente ficamos alvoroçados e mal tínhamos esperança de chegar a tempo de pegá-lo, muito menos de conseguir bons lugares.

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Embora os frequentadores assíduos e os funcionários do café 153 gostem dos atores, eles não conseguem conservar o respeito em meio às impressões abaladoras e os desprezam, considerando-os pobretões, andarilhos e

camaradas judeus154, exatamente como em épocas históricas. Assim, o chefe dos garçons quis jogar Löwy para fora do recinto, o porteiro, um ex-funcionário de bordel e atual cafetão, gritou com a pequena Tschissik quando esta, agitada por sua compaixão em Der wilde Mensch [O homem selvagem], quis que dessem algo aos atores, e quando anteontem acompanhei Löwy de volta ao café, depois que ele me lera no café City o primeiro ato de Elieser ben Schevia, de Gordon, o dito sujeito lhe gritou (ele é vesgo e, entre o nariz torto e pontudo e a boca, tem um afundamento, do qual se eriça um pequeno bigode): “Venha logo, idiota. (Alusão ao papel em Der wilde Mensch.) Estão esperando. Hoje há um público como realmente não mereces. Está presente inclusive um voluntário da artilharia, dê uma olhada”. E aponta para uma das vidraças cobertas do café, por trás da qual esse voluntário supostamente está sentado. Löwy passa a mão pela testa: “De Elieser ben Schevia a isto”.

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A visão de degraus me comove tanto hoje. Já cedo, e várias vezes desde então, alegrei-me com o recorte triangular, visível de minha janela, da

balaustrada de pedra daquela escada que, à direita da ponte Čech155, leva à plataforma do cais. Bastante inclinada, como se desse apenas uma rápida indicação. E agora vejo, na outra margem do rio, uma escada na ribanceira que vai até a água. Esteve ali desde sempre, mas é revelada apenas no outono e no inverno graças à retirada da escola de natação, usualmente diante dela, e está ali na grama escura, sob as árvores castanhas, no jogo da perspectiva.

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Löwy: quatro amigos tornaram-se na velhice grandes estudiosos do Talmude. Porém, cada um deles teve um destino particular. Um deles enlouqueceu, o outro morreu, o rabino Elieser tornou-se livre-pensador aos quarenta anos e apenas o mais velho deles, Akiba, que começou a estudar somente aos quarenta, chegou ao conhecimento pleno. O discípulo de Elieser foi o rabino Maier, um homem devoto, cuja devoção era tão grande que a instrução do livre-pensador não o prejudicou. Ele comeu o miolo da noz, como disse, e jogou a casca fora. Certa vez, Elieser fez um passeio a cavalo no sábado, o rabino Maier o seguiu a pé, o Talmude na mão, porém apenas por dois mil passos, pois no sábado não se deve andar mais que isso. E do passeio surgiu um diálogo simbólico. Retorne a teu povo, disse o rabino

Maier. Com um jogo de palavras, o rabino Elieser recusou-se a fazê-lo.156

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30 [de outubro de 1911]. Esse desejo, que tenho quase sempre que sinto meu estômago saudável, de acumular dentro de mim imagens de terríveis façanhas com alimentos. Satisfaço esse desejo em especial diante das salsicharias. Se vejo uma salsicha com um cartaz indicando que é uma salsicha caseira, velha e dura, mordo-a, em imaginação, com todos os meus dentes e a engulo rápida, regular e impensadamente como uma máquina. O desespero, que, mesmo em imaginação, é a consequência imediata desse ato, aumenta minha pressa. Enfio na boca longos pedaços de costeleta, sem mastigá-los, e depois os puxo para fora por trás, rasgando o estômago e os intestinos. Esvazio, comendo, mercearias imundas inteiras. Encho-me com arenques, pepinos e todo tipo de comidas estragadas, velhas e picantes. Bombons são derramados de suas latas dentro de mim como granizo. Assim não gozo apenas meu estado saudável, e sim também um sofrimento, que é sem dor e logo pode passar.

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É um velho costume meu não deixar impressões puras, sejam elas

dolorosas ou alegres, dispersarem-se beneficamente por todo meu ser tão logo tenham atingido sua pureza máxima, mas sim turvá-las e afugentá-las através de impressões novas, inesperadas e fracas. Não se trata de uma má intenção de prejudicar a mim mesmo, mas de fraqueza para suportar a pureza dessa impressão, fraqueza que no entanto não é confessada, mas que prefere buscar uma saída, sob o silêncio interior, ao invocar a nova impressão de modo aparentemente arbitrário, em vez de, o que seria a única coisa correta, revelar-se e chamar outras forças para apoiá-la. Assim, por exemplo, sábado à

noite, depois de ouvir a boa novela da srta. T.157, que no entanto pertence mais a Max, pelo menos em maior extensão e com maior afinidade do que se fosse dele, e então, depois de ouvir a excelente peça Konkurrenz [Concorrência], de Baum, na qual a força dramática pode ser vista trabalhando e agindo de modo exatamente tão ininterrupto como na produção de um artesão vivo, depois de ouvir essas duas obras eu estava tão abatido e, meu interior, já bastante vazio por vários dias, preenchido de modo bastante imprevisto por uma tristeza tão pesada, que declarei a Max, no caminho de volta para casa, que Robert und Samuel [Robert e Samuel] não daria em nada. Naquele momento, não necessitei sequer a mínima coragem, nem frente a mim mesmo nem frente a Max, para fazer tal declaração. O diálogo que se seguiu me desconcertou um pouco, visto que então Robert und Samuel não era nem de longe minha preocupação principal e que, por isso, não achei as respostas adequadas às objeções de Max. Mas quando então fiquei sozinho e tinha escapado não apenas à perturbação de minha tristeza causada pelo diálogo, mas também ao consolo, quase sempre eficaz, da presença de Max, minha desesperança se manifestou de tal modo que começou a dissolver meu pensamento (nesse instante, enquanto faço uma pausa para o jantar, Löwy vem ao apartamento e me perturba e me alegra das sete às dez). No entanto, em vez de aguardar em casa pelo que aconteceria, li desordenadamente dois

números da revista 158 Die Aktion, um pouco de Die Missgeschickten [Os

desafortunados]159 e, por fim, também de minhas anotações parisienses, deitando-me na cama verdadeiramente mais contente que antes, porém obstinado. Foi parecido há alguns dias, quando voltei de um passeio imitando Löwy claramente, com a força exterior de seu entusiasmo dirigida à minha meta. Também nessa ocasião, li e falei em casa muitas coisas misturadas e sucumbi.

31 [de outubro de 1911]. Embora tenha lido hoje trechos do catálogo da editora Fischer, do almanaque da editora Insel e da revista Die Neue Rundschau, estou agora bastante consciente de que ou absorvi tudo firmemente ou na verdade fugazmente, mas rechaçando qualquer dano. E, se não precisasse sair outra vez com Löwy, julgar-me-ia capaz de muita coisa hoje à noite.

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Diante de uma casamenteira que esteve em nossa casa hoje ao meio-dia por causa de uma de minhas irmãs senti um constrangimento que me fez baixar os olhos, motivado por algumas razões que se confundem. A mulher tinha um vestido ao qual a idade, o desgaste e a sujeira davam um brilho cinza-claro. Ao levantar, conservava as mãos no colo. Era vesga, o que aparentemente aumentava a dificuldade em deixá-la de lado quando eu precisava olhar para meu pai, que me perguntou algumas coisas sobre o jovem que ela estava oferecendo. Em compensação, meu constrangimento diminuiu porque tinha meu almoço diante de mim e, mesmo sem o constrangimento, estaria suficientemente ocupado misturando o conteúdo dos meus três pratos. Ela tinha no rosto, conforme vi de início apenas parcialmente, rugas tão profundas que eu pensava no espanto despojado de compreensão com que os animais deveriam ver tais rostos humanos. O pequeno nariz, anguloso em especial na ponta um tanto levantada, despontava do rosto de modo chamativamente corpóreo.

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Quando entrei na casa de Max domingo à tarde, mal tendo ultrapassado três mulheres, pensei: ainda existem uma ou duas casas nas quais tenho algo a fazer; mulheres que caminham atrás de mim ainda podem me ver, num domingo à tarde, entrar devida e apressadamente pelo portão de uma casa a fim de realizar um trabalho, ter uma conversa, apenas de modo excepcional avaliando as coisas a partir desse ângulo. Isso não deve durar muito tempo mais.

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Leio as novelas de Wilhelm Schäfer, especialmente quando o faço em voz alta, com o mesmo deleite atento com que passaria um barbante sobre a língua. Ontem à tarde, não pude tolerar Valli no início, mas quando tinha lhe emprestado Die Missgeschickten [Os desafortunados], ela já tinha lido por algum tempo e já devia estar consideravelmente sob a influência da história, amei-a por causa dessa influência e a afaguei.

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A fim de não o esquecer, para o caso de meu pai me chamar outra vez de

mau filho, anoto que ele chamou Max de 160 meschuggenen ritoch diante de alguns parentes, sem motivo especial, seja para simplesmente me oprimir, seja para supostamente me salvar, e que ontem, quando Löwy estava em meu quarto, ele falou com irônicas sacudidas do corpo e contrações da boca sobre pessoas estranhas que são admitidas no apartamento, sobre o que poderia haver de interessante numa pessoa estranha, sobre por que alguém trava relações tão inúteis etc. – Não deveria ter escrito isso, no entanto, pois o escrevi realmente com ódio de meu pai, ódio ao qual, porém, ele não deu hoje qualquer ensejo e que, pelo menos quanto a Löwy, é desproporcionalmente grande em comparação ao que registrei como expressões de meu pai, ódio que ainda aumenta pelo fato de não conseguir me lembrar do que havia de

propriamente malvado no comportamento de meu pai ontem.161

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1o/11/11. Hoje comecei a ler ávida e contentemente a Geschichte des

Judentums 162 [História do judaísmo], de Grätz. Como meu desejo de lê-lo tinha ultrapassado em muito a própria leitura, o livro foi-me, de início, mais estranho do que pensei, e tive de parar aqui e ali para, por meio do repouso, deixar meu judaísmo se concentrar. Porém, próximo ao final, já me comoveu a imperfeição das primeiras colônias na recém-conquistada Canaã e a transmissão fiel da imperfeição dos homens do povo (Josué, os juízes, Eli).

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Ontem à noite, despedida da sra. Klug.163 Nós (eu e Löwy) corremos ao longo do trem e vimos a sra. Klug por trás de uma janela fechada do último vagão olhando para fora, no escuro. Rapidamente, ela estendeu a mão em nossa direção ainda dentro do compartimento, levantou-se, abriu a janela, junto à qual ficou parada por um instante com o sobretudo aberto, até que, diante dela, ergueu-se o obscuro sr. Klug, que só consegue abrir a boca imensa e amarguradamente e fechá-la com firmeza como que para sempre. Durante aqueles quinze minutos, dirigi a palavra ao sr. Klug apenas poucas vezes e talvez o tenha olhado apenas por dois momentos; no restante do tempo, em meio a uma conversa fraca e intermitente, não pude desviar os olhos da sra. Klug. Ela estava completamente dominada pela minha presença, porém mais em sua imaginação que na realidade. Quando se dirigia a Löwy com a introdução recorrente “tu, Löwy”, ela falava para mim, quando se apertava contra o marido, que às vezes só lhe dava espaço para chegar à janela com o ombro direito e apertava-lhe o vestido e o sobretudo avolumado, ela se esforçava por me enviar desse modo um sinal vazio. A primeira impressão que tive durante as apresentações, de que eu não lhe era especialmente agradável, era provavelmente a correta; raras vezes ela me convidava a cantar junto e, quando o fazia, era sem entusiasmo; quando me perguntava alguma coisa, eu infelizmente dava a resposta errada (“o senhor compreende isso?”; eu respondia “sim”, mas ela queria um “não” para responder “eu também não”); ela não me ofereceu seu cartão de visitas pela segunda vez; eu preferia a sra. Tschissik, a quem eu queria dar flores em detrimento da sra. Klug. A essa aversão, porém, juntava-se o respeito pelo meu doutorado, respeito que não pôde ser atrapalhado por minha aparência pueril e até aumentou por isso. Esse respeito era tão grande que ressoava de tal maneira de sua forma de me dirigir a palavra, “sabe, senhor doutor” – ela o fazia com frequência, é verdade, mas sem ênfase especial –, que eu me lamentava, de modo meio inconsciente, por merecê-lo tão pouco e me perguntava se não teria direito de ser abordado por todos exatamente da mesma maneira. Porém, visto que eu era tão respeitado por ela como ser humano, muito mais o fui como espectador. Eu resplandecia quando ela cantava, eu ria e a olhava durante todo o tempo em que ela estava no palco, eu cantava junto as melodias e, mais tarde, as palavras, eu a agradeci depois de algumas apresentações; por isso, ela naturalmente passou a gostar de mim. Porém, quando ela me dirigia a palavra a partir desse sentimento, eu ficava constrangido, não tinha nada a dizer e a constrangia, de modo que certamente, com o coração, ela retornava à sua primeira aversão e nela se detinha. Tanto mais ela teve de se esforçar por me recompensar como espectador, e ela o fez com gosto, pois é uma atriz vaidosa e uma mulher benévola. Em especial quando se calou lá no alto, na janela do compartimento, olhou-me com uma boca extasiada de constrangimento e astúcia e olhos pestanejantes que flutuavam sobre as rugas que vinham da boca. Ela precisava acreditar que era amada por mim, o que também era verdade, e, com esses olhares, dava-me a única satisfação que, como mulher experiente mas jovem, boa esposa e mãe, podia dar a um doutor de sua imaginação. Esses olhares eram tão insistentes e apoiados por expressões como “havia espectadores tão amáveis aqui, em especial alguns” que eu me defendia, e esses foram os momentos em que olhei para seu marido. Ao comparar os dois, tive uma admiração infundada pelo fato de viajarem juntos para longe de nós e, no entanto, só se preocuparem conosco e sequer trocarem um olhar entre si. Löwy perguntou se eles tinham bons lugares; sim, se ficar tão vazio, respondeu a sra. Klug e olhou fugazmente para o interior do compartimento, cujo ar quente o marido arruinará com seu cigarro. Falamos de seus filhos, em razão dos quais partiam; eles têm quatro filhos, dos quais três meninos, o mais velho com nove anos, e já fazia dezoito meses que não os viam. Quando um senhor ali perto embarcou depressa, o trem parecia querer partir, despedimo-nos apressados, apertamo-nos as mãos, levantei o chapéu e então o segurei junto ao peito, retrocedemos, como se faz quando partem os trens, gesto que pretende mostrar que tudo passou e que nos resignamos com isso. Mas o trem ainda não partiu, aproximamo-nos outra vez, eu estava plenamente contente com isso, ela perguntou como estavam passando minhas irmãs. Surpreendentemente, o trem começou a andar devagarinho, a sra. Klug preparou seu lenço para acenar, ainda gritou que eu poderia escrever-lhe, perguntou se eu sabia o endereço dela, ela já estava longe demais para que pudesse responder-lhe com palavras, apontei para Löwy, com quem eu poderia pegar o endereço, está bem, ela assentiu com a cabeça para mim e para ele rapidamente e agitou o lenço, levantei o chapéu, primeiro sem jeito, logo com liberdade tanto maior quanto mais longe ela estava. Mais tarde, lembrei-me que tive a impressão de que o trem não partia propriamente, mas andava apenas o curto trecho da estação para nos dar um espetáculo e então afundava. No semissono, na mesma noite, a sra. Klug me parecia inaturalmente pequena, quase sem pernas, e estava de mãos postas com o rosto contorcido, como se lhe tivesse acontecido uma grande desgraça.

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Hoje à tarde, a dor acerca de meu abandono sobreveio de maneira tão penetrante e intensa que percebi que dessa maneira se consome a força obtida através desta escrita e que realmente não destinei a esse fim

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Tão logo o sr. Klug chega a uma nova cidade, percebe-se como suas joias e as de sua mulher desaparecem na casa de penhores. Quando a partida se aproxima, ele as resgata lentamente

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Frase preferida da mulher do filósofo Mendelssohn: “Como me sinto mal

com 164 tout l’univers! ”.

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Uma das impressões mais importantes na despedida da sra. Klug foi que sempre tive de acreditar que, na condição de simples mulher burguesa, ela se continha com força abaixo do nível de seu verdadeiro destino humano, necessitando apenas de um salto, de uma abertura brusca de porta, de uma luz acesa, para ser atriz e me subjugar. E, de fato, ela estava no alto e eu embaixo, como no teatro. – Ela se casou aos dezesseis anos, tem vinte e seis.

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2/11/11. Hoje cedo, pela primeira vez desde muito tempo, outra vez a alegria com a ideia de uma faca sendo torcida em meu coração.

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Nos jornais, nas conversas e no escritório frequentemente seduz o temperamento da linguagem, depois a esperança, nascida de uma fraqueza atual, de uma iluminação já no momento seguinte, tão mais forte quanto súbita, ou unicamente uma intensa autoconfiança, ou a mera negligência, ou uma forte impressão atual que se quer empurrar para o futuro a qualquer preço, ou a opinião de que o entusiasmo verdadeiro atual justifica qualquer desatenção no futuro, ou a alegria com frases que são levantadas no meio por um ou dois golpes e fazem a boca se abrir pouco a pouco até alcançar todo o seu tamanho, ainda que a façam fechar-se rápida e retorcidamente demais, ou o indício da possibilidade de um juízo resolutamente empenhado por clareza, ou o esforço de ainda manter fluindo a fala na verdade já terminada, ou o desejo de abandonar depressa o tema, ainda que rastejando, ou o desespero que busca uma saída para sua respiração difícil, ou a ânsia por uma luz sem sombras – tudo isso pode seduzir a frases como: “O livro que acabei há pouco é o mais belo que li até hoje” ou “é tão belo como nunca li outro igual”.

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Para provar que tudo o que escrevo e penso sobre eles está errado, os atores (exceto o sr. e a sra. Klug) ficaram aqui, segundo Löwy, que encontrei ontem à noite, me contou; quem sabe se pelo mesmo motivo não partiram hoje, pois Löwy não apareceu na loja, embora tivesse prometido fazê-lo.

Ontem também partiu o filho de Hermann165, o dono do café – 3/11/11. Para provar que as duas coisas que escrevi estão erradas, uma prova que parece quase impossível, o próprio Löwy veio ontem à noite e me interrompeu em minha escrita

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O hábito de Karl166 de repetir tudo com a mesma entonação. Ele conta a alguém uma história de seu negócio, não com tantos detalhes, é verdade, a ponto de estes liquidarem-na definitivamente por si mesmos, mas, ainda assim, de uma maneira lenta e, apenas por isso, minuciosa, como uma comunicação que não pretende ser outra coisa e que, por isso, também está terminada com sua conclusão. Transcorre um momento com outro assunto, ele encontra inesperadamente uma transição para a sua história e a traz novamente à frente em sua velha forma, quase sem complemento, mas também quase sem omissão, com a inofensividade de uma pessoa que leva pelo recinto uma fita que lhe fixaram traiçoeiramente nas costas. Mas meus pais gostam dele de modo especial, por isso sentem de maneira mais forte seus hábitos do que os percebem – e assim sucede que lhe deem de forma inconsciente, sobretudo minha mãe, ocasião para repetições. Quando, numa noite, o momento da repetição de uma história não surge devidamente, eis que aí está minha mãe fazendo perguntas, e isso com uma curiosidade que não cessa mesmo depois de feita a pergunta, como seria de esperar. E, com suas perguntas, ela como que persegue, mesmo noites depois, histórias que já foram repetidas e não poderiam mais surgir por força própria. Porém, o hábito de Karl é tão imperioso que muitas vezes ele tem força para se justificar plenamente. Não há pessoa que consiga com uma frequência tão regular contar a cada membro da família uma história que no fundo diz respeito a todos. Então, a história precisa ser contada ao círculo familiar quase tantas vezes quantas forem as pessoas presentes, círculo que, em tais casos, aumenta lentamente em intervalos, apenas uma pessoa por vez. E como sou o único que reconheceu o hábito de Karl, também sou, na maioria das vezes, o primeiro a ouvir a história, e a quem as repetições apenas dão a pequena alegria de confirmar uma observação.

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Inveja de um suposto sucesso de Baum167, de quem, contudo, gosto muito. A propósito disso, a sensação de ter no meio do corpo um novelo que se enrola rapidamente com um número infinito de fios que ele puxa para si da borda de meu corpo.

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Löwy – meu pai sobre ele: quem vai para a cama com cães acorda com pulgas. Não pude me segurar e disse algo descontrolado. A isso, meu pai, de modo especialmente tranquilo (porém após uma grande pausa preenchida com outra coisa): “Sabes que não devo me perturbar e preciso ser poupado. E ainda me vens com tais assuntos. Estou farto de perturbações, completamente farto. Portanto me deixe em paz com essas conversas”. Eu digo: “Esforço-me por me conter” e sinto em meu pai, como sempre em tais momentos extremos, a existência de uma sabedoria da qual só consigo apanhar um sopro.

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Morte do avô de Löwy, um homem de mãos abertas, que conhecia várias línguas, tinha feito longas viagens pelas profundezas da Rússia e que, certo sábado, recusara-se a comer na casa de um rabino milagreiro em Iekaterinoslav porque o cabelo comprido e um lenço de pescoço colorido do filho desse rabino tornavam suspeita a devoção da casa. – A cama fora colocada no meio do quarto, os castiçais dos amigos e parentes foram emprestados, o quarto estava portanto cheio de luz e fumaça de velas. Cerca de quarenta homens ficaram o dia inteiro em torno de sua cama a fim de haurir novas forças da morte de um homem devoto. Ele estivera consciente até o fim e começara a recitar no momento correto, a mão no peito, as orações determinadas para essa ocasião. Durante seu sofrimento e após sua morte, a avó, que estava com as mulheres reunidas no quarto ao lado, chorou sem parar, mas, durante a agonia, estivera inteiramente quieta, pois é um mandamento aliviar na medida do possível a morte do agonizante. Ele faleceu fazendo suas próprias orações. Após uma vida tão devota, foi muito invejado por essa morte.

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Festa do 168 pessach . Uma associação de judeus ricos aluga uma padaria, seus

membros assumem todos os afazeres na produção dos chamados 169 matzás de

dezoito minutos para os chefes das famílias: a busca da água, a purificação, o amassar, o cortar, o perfurar.

5/11/11. Dormi ontem depois de 170 Bar-Kochba . A partir das sete com Löwy, que me leu uma carta de seu pai. À noite, na casa de Baum.

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Quero escrever com um constante tremor na testa. Estou sentado em meu quarto, o quartel-general do barulho de todo o apartamento. Ouço todas as portas batendo, seu barulho apenas me poupa os passos de quem corre entre elas, também ouço a batida da porta do fogão sendo fechada na cozinha. Meu pai irrompe pelas portas de meu quarto e passa arrastando o roupão, alguém raspa as cinzas da estufa no quarto ao lado, Valli pergunta através do vestíbulo, gritando para um lugar indeterminado como se fosse por uma ruela parisiense, se afinal o chapéu do pai já foi limpo, um assobio que tem a intenção de ser amigável comigo aumenta a gritaria de uma voz que responde. A porta do apartamento é aberta e faz um ruído que parece provir de uma garganta catarrenta, então continua se abrindo com o canto breve de uma voz de mulher, fechando-se com um surdo puxão masculino, uma das coisas mais desprovidas de consideração que se possa ouvir. O pai se foi, agora começa o barulho mais suave, mais distraído, mais desesperador, conduzido pelas vozes dos dois canários. Já pensei nisso antes, mas os canários fazem vir outra vez à minha mente se eu não deveria abrir um pouquinho a porta, rastejar feito cobra até o quarto ao lado e assim, no chão,

implorar por silêncio a minhas irmãs e à empregada delas.171

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A amargura que senti ontem à noite quando Max leu minha pequena

história automobilística na casa de Baum.172 Eu estava fechado para todos e realmente apertei o queixo contra o peito frente à história. As frases desordenadas dessa história, com lacunas nas quais se poderia enfiar as duas mãos; uma frase soa aguda, uma frase soa grave, conforme o caso; uma frase se esfrega na outra como a língua num dente cariado ou postiço; uma frase chega marchando com um começo tão grosseiro que toda a história cai num espanto mal-humorado; uma imitação sonolenta de Max (reprimendas

abafadas... incitadas173) entra bamboleando, às vezes isso parece uma aula de dança em seu primeiro quarto de hora. Esclareço a mim mesmo que tenho muito pouco tempo e sossego para extrair de mim em sua totalidade as possibilidades de meu talento. Por isso, sempre vêm à luz apenas começos interrompidos, começos interrompidos, por exemplo, ao longo de toda a história automobilística. Se alguma vez pudesse escrever um todo maior, bem formado do início ao fim, a história jamais poderia se separar definitivamente de mim, e eu poderia, calmamente e com olhos abertos, como parente consanguíneo, ouvir a leitura de uma história sã, mas, assim, cada pedacinho da história corre por aí sem pátria e me impele na direção contrária. – Apesar disso, ainda posso estar contente se essa explicação estiver correta.

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Apresentação de Bar-Kochba, de Goldfaden. Avaliação equivocada da peça em todo o salão e no palco. Eu trouxera um buquê para a sra. Tschissik com um cartão de visitas pendurado nele com a inscrição “Em agradecimento”, e esperava pelo momento em que poderia mandar entregá-lo. Mas a apresentação começou tarde, a cena principal da sra. Tschissik me fora prometida apenas para o quarto ato, de impaciência e de medo que as flores pudessem murchar mandei o garçom desembrulhá-las já durante o terceiro ato (eram onze horas), então elas ficaram largadas ao meu lado sobre uma mesa, os empregados da cozinha e alguns imundos frequentadores assíduos as passavam de mão em mão e as cheiravam, eu só pude olhar com preocupação e raiva, nada mais, amei a sra. Tschissik durante sua cena principal na prisão e, no entanto, a obrigava interiormente a terminá-la, finalmente o ato acabou sem que eu o percebesse em minha distração, o chefe dos garçons entregou as flores, a sra. Tschissik as pegou entre as cortinas que se fechavam, fez uma reverência numa pequena brecha da cortina e não voltou mais. Ninguém percebeu meu amor e eu quisera mostrá-lo a todos e assim torná-lo valioso para a sra. Tschissik, o buquê mal foi percebido. Nisso já passava das doze, todos estavam cansados, alguns espectadores já tinham ido embora mais cedo, tive vontade de jogar meu

copo contra eles. – Comigo estava o inspetor Pokorny174, de nossa agência, um cristão. Ele, de quem geralmente gosto, me incomodava. Minha preocupação eram as flores, não seus assuntos. Ao mesmo tempo, eu sabia que ele compreendia mal a peça, enquanto eu não tinha tempo, vontade e capacidade de lhe impingir uma ajuda que ele acreditava não precisar. Por fim, senti vergonha diante dele pelo fato de eu mesmo prestar tão pouca atenção. Ele também me atrapalhou na relação com Max, e até mesmo pela lembrança de que antes eu gostava dele, de que depois voltarei a gostar e que ele poderia levar a mal meu comportamento de hoje. – Mas não só eu estava tão incomodado. Max sentia-se responsável por seu artigo elogioso no

jornal.175 176 Para os judeus em companhia de Bergmann era tarde demais. Os membros da Associação Bar-Kochba tinham vindo por causa do nome da peça e deviam estar decepcionados. Como conheço Bar-Kochba apenas dessa peça, não teria dado tal nome a uma associação. No fundo da sala havia duas balconistas em seus vestidos de noite, acompanhadas pelos amantes, que tiveram de ser silenciadas durante as cenas de morte por meio de gritos estrepitosos. Por fim, pessoas da rua bateram contra as grandes vidraças por irritação com o fato de verem tão pouco do palco.

No palco faltavam os Klug. Figurantes ridículos. “Judeus toscos”, como

dizia Löwy. Caixeiros-viajantes, que, aliás, também não recebiam cachê. Na maior parte do tempo, só tinham de esconder ou apreciar o próprio riso, ainda que, de resto, suas intenções fossem boas. Um bochechudo com barba loira, diante de quem mal se conseguia conter o riso, riu de maneira especialmente engraçada devido à falta de naturalidade da barba cheia colada em seu rosto, barba que balançava e contornava no lugar errado suas bochechas durante o riso, por certo não previsto. Um segundo só ria quando queria, mas então ria muito. Quando Löwy morreu cantando, contorcendo-se nos braços desses dois anciãos e deslizando lentamente ao solo com o canto que esmorecia, eles juntaram suas cabeças por trás das costas dele para finalmente poderem se fartar de rir sem serem vistos pelo público (segundo achavam). Ainda ontem, ao me lembrar disso durante o almoço, tive de rir. – Na prisão, a sra. Tschissik deve tirar o elmo do governador romano, bêbado, que a visita (o jovem Pipes), e colocá-lo na própria cabeça. Ao tirá-lo, cai para fora um lenço amassado, que Pipes evidentemente tinha enfiado lá dentro porque o elmo lhe apertava muito. Embora devesse saber que o elmo lhe seria tirado no palco, ele olha com reprovação para a sra. Tschissik, esquecendo-se de sua bebedeira. – Algo belo: como a sra. Tschissik se contorcia sob as mãos dos soldados romanos (que ela, no entanto, teve primeiro de puxar para si, pois evidentemente temiam tocá-la), enquanto os movimentos dos três homens, graças ao cuidado e à arte dela, quase, apenas quase, seguiam o ritmo do canto; a canção em que ela anuncia a chegada do Messias e, sem que isso atrapalhe, apenas devido à sua capacidade, representa o som da harpa com movimentos de arco de violino; na prisão, onde interrompe seu canto fúnebre devido às frequentes aproximações de passos, ela corre até o moinho a pedal e gira-o cantando uma canção de trabalhadores, então sai correndo outra vez para entoar sua canção fúnebre e volta de novo ao moinho; como ela canta dormindo quando Papus a visita e sua boca está aberta como um olho pestanejante; como em geral as comissuras dos lábios, ao se abrirem, lembram as comissuras das pálpebras. – Estava bela tanto de véu branco como de véu preto. – Movimentos novos reconhecidos nela: apertar a mão nas profundezas do espartilho não muito bom, breve tremor dos ombros e quadris ao zombar, especialmente quando dá as costas à pessoa zombada. – Ela dirigiu toda a apresentação como uma mãe de família. Sussurrou para todos, mas ela mesma nunca estacou; instruiu os figurantes, rogou-lhes e por fim os empurrou quando necessário; sua voz clara se misturou, quando não estava em cena, ao débil canto coral do palco; ela segurou o biombo (que no último ato representava uma cidadela) que os figurantes teriam derrubado dez vezes. – Eu esperava que o buquê satisfizesse um pouco meu amor por ela; foi inteiramente inútil. Isto só é possível através da literatura ou do coito. Não escrevo isso por não o saber, e sim porque talvez seja bom anotar advertências muitas vezes.

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7/11/11, terça-feira. Ontem os atores partiram definitivamente junto com a sra. Tschissik. Acompanhei Löwy até o café, à noite, mas esperei do lado de fora, não quis entrar, não quis ver a sra. Tschissik. Mas, ao caminhar para cima e para baixo, vi-a abrir a porta e sair com Löwy, fui na direção deles, cumprimentando-os, e os encontrei no meio da rua. A sra. Tschissik agradeceu-me pelo buquê com as vogais grandes mas naturais de sua pronúncia, só agora ficara sabendo que era meu. Löwy, esse mentiroso, portanto não lhe dissera nada. Eu receava por ela, pois vestia apenas uma blusa leve, escura, com mangas curtas, e pedi-lhe – por pouco não a toquei a fim de fazê-la andar – que entrasse no café para não se resfriar. Não, disse ela, ela não se resfriaria, afinal tinha um xale, e o levantou um pouco para mostrá-lo e então o apertou mais firmemente em volta do peito. Não pude lhe dizer que não tinha propriamente receio por ela, mas que apenas estava contente por ter encontrado um sentimento em que podia gozar meu amor e, por isso, disse-lhe mais uma vez que tinha receio. Nesse meio-tempo também tinham saído seu marido, sua filhinha e o sr. Pipes, e verificou-se que de

forma alguma estava definido que viajariam para Brünn177 conforme Löwy me fizera acreditar, mas, ao contrário, Pipes estava até resolvido a viajar a Nuremberg. Isso, segundo ele, seria o melhor, era fácil obter uma sala, a comunidade judaica era grande e, além disso, a viagem a Leipzig e Berlim era muito cômoda. Aliás, continuou, eles tinham deliberado o dia todo, e Löwy, que tinha dormido até as quatro, simplesmente os fizera esperar e perder o trem das sete e trinta para Brünn. Em meio a esses argumentos, entramos no café e nos sentamos a uma mesa, eu diante da sra. Tschissik. Teria gostado tanto de me destacar, no fundo isso não era difícil, apenas precisaria conhecer algumas conexões ferroviárias, diferenciar as estações, levar à decisão entre Nuremberg ou Brünn, mas, sobretudo, à base de gritos calar Pipes, que se comportava como o seu Bar-Kochba, e a cuja gritaria Löwy contrapôs, muito sensatamente, ainda que sem intenção, uma tagarelice de força mediana, muito rápida, impossível de interromper e que para mim, pelo menos até outro dia, era bastante incompreensível. Em vez de me destacar, fiquei sentado em minha cadeira, abatido, olhava de Pipes para Löwy e, por essa via, apenas aqui e ali encontrava os olhos da sra. Tschissik; porém, quando ela me respondia com um olhar (ela só precisava, por exemplo, sorrir para mim por causa da exaltação de Pipes), eu afastava os olhos. Isso não era desprovido de sentido. Entre nós não podia haver qualquer sorriso acerca da exaltação de Pipes. Além disso, eu estava muito sério frente ao rosto dela e completamente cansado dessa seriedade. Se quisesse rir de alguma coisa, podia olhar por cima do ombro dela para a mulher gorda que fizera o papel da mulher do governador em Bar-Kochba. Mas, na verdade, eu também não podia olhar para a sra. Tschissik com seriedade. Pois isso significaria que a amo. Até o jovem Pipes, atrás de mim, em toda sua inocência, precisaria reconhecê-lo. E isso teria sido realmente inédito. Eu, um homem jovem, que as pessoas em geral consideram ter dezoito anos, declara, diante dos frequentadores noturnos do café Savoy, no círculo dos garçons parados em volta, frente a uma mesa de atores, seu amor a uma mulher de trinta anos, que quase ninguém sequer considera bonita, que tem dois filhos, de dez e oito anos, cujo marido está sentado a seu lado, mulher que é um modelo de honestidade e parcimônia – esse homem, eu, declara seu amor a essa mulher, por quem está completamente apaixonado e – agora vem o que é realmente o mais notável, e que, no entanto, ninguém mais teria percebido – renuncia imediatamente a ela, assim como renunciaria mesmo se ela fosse jovem e solteira. Devo estar grato ou devo proferir maldições pelo fato de, apesar de toda a infelicidade, ainda poder sentir amor, um amor não terreno, contudo, por objetos terrenos? Estava bela, ontem, a sra. Tschissik. A beleza, na verdade normal, das mãos pequenas, dos dedos leves, dos antebraços roliços, que em si mesmos são tão perfeitos que inclusive a visão insólita dessa nudez não faz pensar no resto do corpo. O cabelo dividido em duas ondas, vividamente iluminado pela luz a gás. A pele um pouco suja em volta da comissura direita dos lábios. Sua boca se abre como se fosse fazer uma queixa infantil, formando enseadas delicadamente modeladas em cima e embaixo, pensa-se que a bela formação das palavras, que difunde nestas a luz das vogais e, com a ponta da língua, assegura o contorno puro delas, só pode ser bem-sucedida uma vez, e fica-se admirado com sua constância. Testa baixa, branca. Detesto o pó de arroz cujo uso vi até agora, mas se essa cor branca, esse véu pairando baixo sobre a pele, de cor leitosa um tanto turva, provém do pó de arroz, então que todas se empoem. Ela gosta de ficar com dois dedos na comissura do lábio direito, talvez também tenha colocado as pontas dos dedos na boca, talvez tenha até mesmo levado um palito à boca; não olhei atentamente esses dedos, mas quase pareceu que ela levou um palito até um dente cariado e lá o deixou descansar por um quarto de hora.

Continuar: parte 2 de 2