Do que o fogo não queima

Jaime de Magalhães Lima · Capítulo 4 de 5

Páginas do PDF

Do que o fogo não queima

Capítulo I

«Em breves anos, veremos renascidos e florescentes a educação e o ensino classicos. Não tenhamos duvidas. Os sinais de resurreição são manifestos, a germinação da nova ideia vigorosa; e nestes tempos em que toda a transformação é rapida e a circulação do pensamento tão activa como a propagação da electricidade, manda a experiencia e a lógica contar em curto prazo com uma profunda reforma dos programas escolares, subordinada á nova aspiração, orientando-se em rumo diverso daquele estreitamente positivo e scientifico em que com tanta incerteza e naufragio navegamos ha uns bons vinte e cinco anos. As humanidades e a cultura classica retomam seu logar e imperio. O clamor é geral. Será ouvido dos que o podem converter em uma força activa eficaz.

«Tem todos os modos de reclamação de verdade, justiça e necessidade pratica. Não pode encontrar resistencia que prevaleça sobre elementos de tamanha força e duma tal natureza.

«As sociedades teem destas crises que, uma vez lançadas, logo se lhes presente a solução e os triunfos.

«E a crise presente do ensino é dêsse género.

«Não é uma novidade, realmente. Não é uma aventura de ensaios e tentativas para inventar homens novos, de novas aptidões e estranhas tendencias psicológicas.

«É no fundo o desengano de uma aventura, empreendida com muito boas esperanças e rematada com muita desilusão, é a reposição das coisas do espirito e da ordem da vida concreta naquelas condições em que durante séculos se haviam mantido e prosperado.

«Ha cerca de vinte e cinco anos disseminou-se na Europa, na America, e por todo o mundo culto uma verdadeira mania de realidades, coisas praticas, utilidades, vaga e implicita negação de outras coisas, aéreas em semelhantes conceitos, com que os homens se haviam preocupado até então. E essas coisas não praticas, isso que se chamava beleza, ordem, justiça, aspirações do puro espirito, passou então á categoria de inutilidades, toleradas apenas como enfado e desfastio, adorno e deleite de curiosos e ociosos diletantismos.

«O ensino amoldou-se a essa preocupação. Pôr uma engrenagem onde estava uma ideia, uma ideia aritmetica onde havia um silogismo, uma fabrica onde estava uma estátua, e um apito de vapor onde se ouvia um canto de poeta, tornou-se imediatamente a quinta essencia da sabedoria das nações e dos seus estadistas, e o sonho de perfeição e grandeza dos pedagogos progressistas e progressivos, dos que iam na frente e se propunham ir muitissimo mais longe.

«O ensino classico pareceu então uma abominavel e esteril velharia; dessorava o cérebro, atrofiava os musculos, tinha por vezes um cheiro detestavel a côrte e sacristia. As famosas humanidades trocaram-se de bom grado por abundantes animalidades. No homem considerou-se quasi unicamente o animal e no mundo viu-se muito restritamente um processo de multiplicação de comodidades.

«Para isso se teriam criado a terra e as sociedades. Tudo o mais seria, na classificação mais benigna, pelo menos antiquado.

«Que olhassemos para a Alemanha, prégava-se. Lá é que se sabia. As suas vitórias e prosperidades eram uma questão de escola, e de sciencia, dessas muito faladas e desejadas e louvadas coisas práticas. Era o mestre escola que tinha vencido em Sadowa. O germanismo e as suas glórias teriam sido apenas questão de laboratorios, retortas, lentes, microscopios, raizes quadradas e taboas de logaritmos.

«Sciencia, muita sciencia, sempre sciencia. Estava aí o elixir da vida, a fortuna das nações e a felicidade dos homens. Latim, grego, Aristofanes e Cicero e Tito Livio respeitaveis massadores que tomavam o tempo á rapaziada e não lhes deixavam lucro que valesse um real. Abaixo as inutilidades. Passassem aos museus respectivos.

«Lá encontrariam conservadores habilitados que as guardassem no logar que lhes competia, para recreio de eruditos. Para o comum dos mortais não tinham nada de aproveitavel.

«Assim fomos andando, nesta fé, de reforma em reforma, a dar ar e luz aos nossos institutos e liceus, sempre á espera de vermos sair de lá os atletas que haviam de renovar as nações. Mas os atletas tardavam. Em seu logar, apareciam mesmo muitos enfermos. Começamos a desconfiar de que a sciencia não dava o que prometia, e a suspeitar de que tinhamos errado na escolha, passando ao deposito das inutilidades um arsenal de belas armas.

«Coisa curiosa! A primeira vez que ha dois ou tres anos encontrei um escrito moderno atacando abertamente os abusos do ensino chamado scientifico e o abandono das letras classicas e das antigas humanidades, foi em um jornal socialista radical. Os que vão na frente do movimento politico, os que reclamam e exigem mais profundas reformas, as pedem em nome da justiça, e pelo seu radicalismo bota-abaixo pareceriam os mais propensos a banir todas as velharias das sociedades contemporaneas e futuras, seriam esses os primeiros a advogar a restauração de processos e intuitos da educação e ensino, postos de parte e condenados por empecilhos do progresso.

«A educação classica refugiando-se nas fortalezas do socialismo radical, que se poderia muito logicamente supôr todo impregnado de radicalismos scientificos, era fenómeno para estranhar; e, na minha ignorancia e despreocupação, de facto estranhei, no primeiro momento.

«Mas em poucas linhas me desvanecia a confusão aquele artigo que acabava de lêr.

«O quê?! dizia. As humanidades eram más? Onde se formaram os homens da Revolução Francêsa? Onde aprenderam os principios de liberdade, igualdade e justiça que proclamaram e por que se sacrificaram até ao martirio, para nolos transmitir triunfantes e para nos remir de aviltada condição?

«Donde brotou e onde firmava as suas raizes essa seara unica da literatura romantica?

«Não, as humanidades não eram más. Eram excelentes e suficientes. Os homens que nos deram foram bons, entre os melhores de que fala a historia, e nem outros de superior grandeza podemos desejar e sonhar.

«O discurso convencia-me. Desde o momento em que os homens se criam para os homens, os conhecimentos essenciais do seu espirito e os modos mais nobres do seu caracter hão-de ser humanidades. Preferir-lhes animalidades, reduzir o homem a um vulgar organismo sem diferença fundamental dos seus semelhantes nas espécies animais, ou mais simplesmente ainda passa-lo á categoria mecanica de motor e alavancas conjugadas, destinado a diversas operações de produção e consumo, era uma degradação. Evidentemente, tornava-se necessario ser homem antes de ser bicho ou maquina. Dependia disso a dignidade. Sempre assim se havia entendido.

«Depois, o ensino classico, se era classico, de sua natureza era essencial, partindo do principio que por classico se entende aquilo que em sucessivos séculos e sucessivas gerações se reputou invariavelmente bom ou belo. Abandonar o que de certeza assim era, para o trocar por vantagens incertas, teria sido insensatez.

«A mais passageira reflexão não poderia deixar de concluir pelo predominio do ensino classico. Admitiria que se acrescentasse. Que se eliminasse ou reduzisse, nunca.

«De que todavia agora se trata e o que provoca a campanha incipiente, não é de apreciações abstractas, é dos desenganos da experiencia.

«Não sou tão moço que não tivesse conhecido os homens educados puramente nas escolas classicas da primeira metade do século XIX. Conheci até alguns desses professores de latim espalhados a capricho pelo país, regendo cadeiras singulares dessa disciplina, ás quais as vilas, que as possuiam, atribuiam orgulhosamente o valor duma universidade. Ali se aprendia tudo, imaginavam; e quem de lá saia com louvor do mestre, tinha-se na conta de homem instruido e culto.

«Entre os meus proximos parentes os encontrei. Meu pai não teve outra escola nem outra educação literaria. Aprendeu o latim com o professor da vila em que nasceu, e com essa reduzida bagagem escolar foi para o Brazil, aos dezoito anos. Se mais tarde estudou a lingua francêsa e modernismos correlativos, de que careceu para se pôr a par do seu tempo, nunca lhes criou tanto amor que, quando entrou em maré de comprar livros, deixasse de se fazer forte em classicos portugueses, e dos modernos apreciasse sobretudo aqueles que de classicos tinham carregadas tintas.

«Conheci muitos dos seus amigos e companheiros, camaradas da escola e outros de educação identica, que todos conservavam vivas as tendencias que na mocidade haviam tomado.

«Possuo mesmo muitas cartas de discipulos dessas escolas, e incidentemente tenho tido ensejo de apreciar as ideias que revelam e os caracteres que traduzem.

«Sem matematicas e sem quimicas e fisicas e mais ferramenta dos apuros scientificos modernos, não descubro em que pontos e por que lados os antigos eram inferiores aos modernos como homens praticos, como conhecedores das coisas da terra e seus administradores, como capacidade de reger os homens e lhes tratar os bens.

«Foram esses, os classicos, os discipulos das humanidades tão desprezadas pelos seus filhos, que iniciaram a renovação economica da Europa (e por sinal que com muita coisa excelente iniciaram muita coisa tragica); foram eles que organizaram a fábrica e traçaram a via férrea, que deificaram a maquina a vapor e os teares mecanicos, e tudo isso fizeram não só com uma percepção clarissima dos fins e meios e consequencias, mas com uma fé e um entusiasmo que a prodigalidade de invenções e as maravilhas da industria da nossa era jámais encontraram em igual grau entre os contemporaneos. Não tiveram nem sombra de educação scientifica; nas suas escolas, as declinações dos verbos e nomes tinham uma importancia suprema sobre as quatro operações aritmeticas. Não foi isso, porêm, impedimento a que calculassem com precisão e justeza, quando isso se lhes tornou necessario. Meu pai, latinista apaixonado e aferindo todos os valores literarios pelo classicismo, não deixou por essa qualidade de ser um comerciante previdente, habil e seguro e um belo administrador das instituições economicas em que serviu. Deu boas provas disso. Pois em matéria de literatura dessa especialidade não cansou a vista, quando aliás muito costumava lêr. No seu espolio, entre algumas centenas de volumes, sómente um peregrino «codigo comercial», ali perdido, lembrava o comerciante.

«É que a gente do seu tempo tinha uma concepção muito diferente das necessidades da vida pratica. Julgava-a muito mais acessivel do que hoje a julgamos; parecia-lhe que era questão de simples bom senso, a que todo o homem medianamente educado póde chegar, e muita ferramenta e metralha que nós supomos apuradissima sciencia, deixava-a puramente a cargo da oficina. Guardava-se para aproveitar ou desprezar os inventos que as oficinas lhe ofereciam, segundo as relações de conveniencia ou inconveniencia que lhes encontrasse com os muitos e variadissimos elementos sociais que iam tocar.

«Para êste ultimo papel se destinava. E, como êle era uma coisa essencialmente humana, como a humanidade era o ponto ultimo de referencia de todos os progressos e invenções, o ensino das humanidades lhe bastava, o conhecimento do passado dos homens a inspirava, sempre confiando em que o melhor mestre da vida era a experiencia e da experiencia rezavam abundantissimamente os alfarrabios gregos e latinos.

«Não direi que a gente saída das escolas classicas pensasse isto tão nitidamente, como hoje se nos apresenta. Mas sentia-o e punha-o em pratica, o que foi sem dúvida muito melhor e mais útil. Da sua utilidade colhemos nós os frutos, nós que, cheios de prosapia, emendamos, corrigimos e em grande parte abandonamos por supérfluo o ensino dos nossos pais—esse mesmo ensino que foi tanto ou tão pouco mesquinho, estreito e infecundo que deu de si uma transformação politica como a Revolução Francêsa, uma revolução literaria como o romantismo, e uma revolução industrial como a fábrica moderna.

«O que todos nós poderemos verificar passando os olhos pela correspondencia vulgar dos homens daqueles tempos e daquelas escolas, é o primor de linguagem. Qualquer morgado das selvas mandava um recado ao feitor em termos mais concisos, mais claros e mais belos do que aqueles que hoje usa muitas vezes um professor dirigindo-se ao reitor da sua universidade. Os documentos oficiais, a correspondencia entre as autoridades e a exposição de suas narrações e reflexões são pedra talhada e polida, duma finura de arestas em que não ha linha tremida ou apagada; as ambiguidades, as confusões, os pleonasmos, a arrastada negligencia de quem não sabe ao certo o que diz, eram provavelmente pecados tão graves que um fino instinto adquirido no correr dos séculos os evitara sem mais esforço. Escrevia-se bem; escrevia-se com clareza.

«Adivinha-se a resposta da «sciencia». Virá clamar que o importante é saber, não é dizer. Cheira-lhe a rapé, a alfazema, a côrte e a convento esse cuidado na expressão. Aborrece-o por artificial, pretencioso e vão. Mas outros pretenderão que, se o bem pensar deve preceder o bem dizer, nem por isso deixa de ser certo que para bem dizer é necessario pensar bem, e emquanto apuramos a linguagem e procuramos os melhores termos e a melhor ordem, submetemos o pensamento a um minucioso exame, de caminho o corrigimos, acabando bastas vezes por lhe descobrir erros e faltas de logica que afinal o alteram profundamente e subvertem.

«Por mais que o modernismo scientifico me pregue e fale das suas glórias, eu sempre me sentirei envergonhado das minhas desordenadas prosas perante o falar correntio e limpido dêsses velhotes fradêscos que em duas linhas sabiam dizer o que queriam dizer e por nenhuma outra forma se podia traduzir mais lucidamente. E verificado o milagre e desejando repeti-lo, e convencido dos seus beneficios, não sei que haja modo de o reproduzir sem beber das mesmas aguas que o criaram.

«Sómente me palpita que, por muito que nos apressemos na jornada, quando chegarmos á fonte já lá encontramos uma multidão. Tudo o anuncia. Felizes os que forem na frente.»