Do que o fogo não queima

Jaime de Magalhães Lima · Capítulo 5 de 5

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Do que o fogo não queima

Capítulo II

Isto escrevi ha seis anos14, e, se agora tenho a indiscrição de o desenterrar, não é para fazer registo, em meu beneficio, de antecipações, mas sómente para lembrar como vinha de longe aquela corrente de reacção contra o desvario do ensino meramente scientifico, da qual nas minhas breves tarefas de jornalista fui um passageiro e modestissimo interprete. Quanto então dizia não era meu; era do tempo. Hoje o encontramos no seu natural desenvolvimento, esclarecido e animado por uma experiencia terrivel, envolvido e singularmente revelado no conflicto das nações armadas e em guerra sangrenta, representando a Alemanha, pelos acasos da sua sorte, um gráu maravilhoso de cultura e organisação scientifica, significando a França, com os povos que lhe estão aliados, aquela velha cultura classica que foi tida por insuficiente e ineficaz para realisar as aspirações modernas da civilização, e resultando da oposição destas duas correntes a necessidade de escolha e reforma dos principios fundamentais da educação.

Um artigo magnifico, publicado no Times em fevereiro de 1917 e assinado por Um oficial ferido, põe em termos de perfeita clareza, que convém registar, esta dualidade em conflicto.

São desse artigo estes periodos que vou transcrever:

«A guerra pôs em evidencia certas alternativas espirituais; tornou-as inteligiveis encorporando-as em personalidade. Fez que muitos mil homens, inteiramente isentos de odio contra a Alemanha, preguntem:—O que é que na atitude alemã perante a vida ha que no-la torna intoleravel? Porque é que nós sentimos que a causa da França e da Inglaterra é a causa da humanidade?

«Isto preguntam, e, se são francêses ou inglêses, (latinos ou latinisados, diremos nós), respondem que o que é intoleravel na Alemanha, o que pretere as multiplices excelencias do seu saber e espirito publico, é que ha nela qualquer cousa que grava sinais de morte naquilo que ela toca; qualquer cousa que é a antitese da individualidade, das aspirações pessoais e esforço e sacrificio espontaneo; um espirito que organisa os homens mas não os inspira, que os cultiva mas não os ama, que faz um estado poderoso mas não faz uma democracia nem uma igreja, e que, emquanto os pecados caracteristicos da França e da Inglaterra são os dos homens, fraqueza, paixão e leviandade, os pecados caracteristicos da Prussia, como ela é hoje, são os do demonio, a arrogancia intelectual, a frieza do coração, e o desprezo pelo que é digno de piedade e amor, e ridiculo em a natureza humana... Temos de reconhecer que a luta real, de que esta guerra é apenas um episodio, não é meramente entre o nosso país (a Inglaterra) e qualquer cousa tão instavel e transitoria como a Alemanha moderna, mas entre as exigencias permanentes e irreconciliaveis da alma dos homens, e que o que tornou perigoso o espirito germanico é que ele não é alheio mas horrivelmente identico ao de quase todo o mundo moderno. Porque o espirito do imperialismo germanico é com demasiada frequencia o espirito do industrialismo inglês e americano, com todo o seu culto do poder como um fim só por si, com os seus padrões materiais grosseiros, a sua subordinação da personalidade ao maquinismo, o seu culto de uma organisação complicada e mortal para a alma; e o materialismo, que na Prussia se revela na adoração do poder do estado, revela-se na Inglaterra na adoração do poder do dinheiro.

«Não é mais nobre este ultimo, é mais ignobil, porque é menos desinteressado que o primeiro. Não é tão violento, é mais maliciosamente corrupto, e, pelo que respeita á massa do genero humano, quase igualmente tiranico. Mas, ou tome a forma de violencia militar ou a de cobiça mercantil, o espirito do materialismo é um só, e é um só tambem o espirito que lhe resiste.»

«E, se nós sentimos que os direitos absolutos da personalidade, a conservação e desenvolvimento da liberdade espiritual, são dignos de sacrificio em tempo de guerra, igualmente sentiremos que são dignos de sacrificio em tempo de paz. Ora a esfera em que os direitos da personalidade mais claramente estão envolvidos, e onde o que os ameaça é mais evidentemente obra de motivos materialistas, é a esfera da educação.

«A educação oferece, todavia, uma especie de experimentum crucis, uma conjuntura na qual se podem pôr em prova as causas pelas quais afirmamos ter pegado em armas. Pois, por fim, os meritos de uma guerra teem de ser julgados, não pela correspondencia diplomatica que a precedeu, não pelos esforços que se empregam para a ganhar, mas pela especie de civilização que dela deriva, pela habilidade do vencedor em estabelecer, não só sobre o inimigo mas sobre si mesmo, a autoridade dos principios pelos quais alega ter combatido.

«Se, como nós pretendemos, a causa da Inglaterra é a causa de todas as mais altas possibilidades do espirito humano, então teremos de perpetuar essa mesma causa em as nossas instituições sociais, cujo caracter depende do caracter da educação que dermos aos nossos filhos e filhas.»

Uma calamidade sem nome obrigou-nos a preguntar á nossa consciencia para que é que criamos os filhos. Da resposta que ela nos dér, esclarecida pela mais cruel das experiencias, dependerão os fins e processos dessa criação.

O que a experiencia nos diz, ao fim de quase meio seculo de educação impetuosamente scientifica, é que a vida imporia mais pelo que pensamos e sentimos, pelo repouso ou pela inquietação do nosso espirito, do que pelo que dominamos, compreendemos e possuimos, pelo que a nossa acção apreende e pelo que a nossa inteligencia alcança. É isto o que de todo temos trazido esquecido, naquela sujeição dos homens ás cousas que foi a paixão cega da educação scientifica moderna e da especie de cultura que ela produziu; e foi por muito evidente se haver tornado esta subalternisação dos valores morais perante as conquistas materiais que M. me Montessori, com uma penetração profetica, muito antes que a guerra o manifestasse pelas suas angustias, julgou que «o homem que tão maravilhosamente transforma o seu ambiente e curva o universo á sua vontade, não conseguiu transformar-se a si mesmo.»

Nem se imagine que este modo de vêr é o preconceito tradicional do latino e seus derivados e afins, todos impregnados de aspirações de nobreza e heroismo, facilmente trocando o dinheiro e toda a riqueza e a propria existencia fisica pela dignidade do caracter e pela gloria. Além do Reno, onde a força criou o seu imperio e o administrou e acrescentou em menoscabo de qualquer cousa eterea que teve por sentimentalismo e enfermidade, tambem o desengano encontrou os seus arautos. E Eucken, o filosofo cuja elevação de espirito e profundeza de inteligencia são de apreciar e respeitar em todo o mundo culto, sem embargo das paixões de patriotismo que o possam perturbar, não nega a falencia da utopia materialista. Discorrendo sobre as experiencias da guerra e as exigencias do futuro, confessou que a guerra revelou um predominio geral de egoismo, falsidade e cobiça entre todas as nações nela interessadas, mais largamente disseminado do que até aqui se suspeitára. Em seu conceito, a crença na bondade fundamental da humanidade recebeu golpes profundos. A Alemanha orgulhava-se do seu trabalho, mas este orgulho do trabalho, organisação e educação carecia talvez de cousas fundamentais da vida que ele preteriu; em vez de cultivar essas cousas mais profundas e imponderaveis, o alemão acrescentou ás ambições do trabalho as cobiças do prazer. Os desejos do corpo tomaram o logar dos desejos do espirito, e é essencial para uma nação a cultura do senso responsavel dos valores morais, o desenvolvimento de um sentimento que a habilite a distinguir entre o bem e o mal, entre o real e o ilusorio, entre a verdade e a falsidade, entre a grandeza e a mesquinhez. «Não hesitava em dizer que quanto mais cresceu a perfeição do trabalho, mais pequena se tornou a alma... Um homem tem de ser julgado unicamente pelo que de humanidade nele houver.» Quereria vêr a nação mais ardente no apreço daqueles altos e grandes valores da alma, sem os quais nação alguma póde ser verdadeiramente grande, sem os quais nação alguma pode cumprir a sua missão no mundo.

O desprezo a que chegaram esses «altos e grandes valores da alma», que são a medida da dignidade do homem, todos o sabemos e magoadamente o sentimos nas relações quotidianas ordinarias. De facto, a experiencia da guerra, embora de uma eloquencia suprema, era desnecessaria para reconhecer a miseria moral a que haviamos baixado; no comercio moral das sociedades ha muito se acumulavam os sinais de depressão. Visitassemos nós um liceu ou uma universidade, preguntassemos pelas suas aspirações aos rapazes que lá andassem, e este queria ser engenheiro, aquele queria ser medico, aqueloutro advogado, e ainda alguem preferiria ser comerciante, mas todos sonhavam proventos de muitos contos de reis e a isso referiam o valor da carreira. Nem um só nos responderia que a sua ambição era viver de pouco, honestamente, engrandecendo o espirito e servindo o proximo. Nenhum se dedicaria a professar naquela «classe de homens», de que Platão falou, onde disse que «é pequena, rara por sua natureza e o produto de uma educação ideal aquela classe de homens que voltam a face firmemente para a moderação, quando sentem uma necessidade ou um desejo, que são sobrios quando teem ensejo de fazer uma larga fortuna, que preferem os lucros moderados aos grandes.» Mais uma vez podiamos dizer com o filosofo grego que «a massa do genero humano é exactamente o contrario, desmedida nas suas necessidades e insaciavel no desejo de arranjar dinheiro, quando tem ao seu alcance um proveito moderado.» Muito poucos encontrariamos nas escolas, se alguns tinhamos de achar, que estivessem inclinados a adoptar o preceito antigo que, «para sermos ricos, queria não que acrescentassemos as riquezas mas que diminuissemos as necessidades»; e muito menos tinhamos possibilidades de descobrir quem estivesse disposto a considerar o desengano do Evangelho e a preguntar «que utilidade ha para um ser humano em possuir o mundo inteiro se perdeu a alma.» (S. Mateus, c. 16, v. 26). As riquezas da terra constituiram-se em finalidade humana; não distinguindo mais o que se deve aos bens do mundo e o que devemos ás pessoas, as pessoas mudaram-se em instrumento da conquista dos bens do mundo, em vez de serem morada da beleza divina e do seu culto. A educação toda se enlevava no poder de servir a bolsa ou a vaidade, na arte eficaz de captar as cousas ou de possuir as almas.

Não, não era a moderação platonica, nem a nobreza romana, nem o desprendimento, o que iamos buscar ás escolas. As vitorias alemãs de 1870, corroborando impulsos de uma filosofia materialista florescente, lançaram o mundo, a exemplo da Alemanha, na superstição ignominiosa e aviltante da riqueza, da força e da cobiça.

Assistimos agora á demonstração tremenda da inanidade dessa ambição. Vinha, porêm, de longe a desconfiança, e até a aversão, da cegueira da brutalidade divinisada, metodica e intencionalmente aprendida e cultivada. Desde o seu inicio, ainda quando ela imperava e crescia, de tal modo agravava, não direi já a tradição humanitaria, mas sobretudo o nosso modo de ser psicologico que, revendo a historia do seu nascimento e progressos, enxameiam as lembranças da primeira hora, quando Mathew Arnold—e basta para testemunho este agouro de um alto e sereno espirito—escrevia, em 1871, que «o imperio alemão seria apenas um despotismo doirado, politicamente fraco apesar do seu poder militar, barbaro apesar das suas escolas e universidades.»

E vinha de longe a ameaça da preterição da civilização de qualidade pela civilização de quantidade. Com que clareza pressentiu a calamidade esse extraordinario espirito, que tanto engrandeceu o genio da França e que teve neste mundo o nome de J. Joubert!

Em 1809, apreciando uma Memoria sobre a Instrução Publica na Holanda, já ele afoitamente exprimia apreensões que hoje se tornaram caso julgado por uma experiencia rematada em demonstrações dolorosissimamente irrefragaveis. «Aquela boa gente» que havia escrito a Memoria, dizia então esse notabilissimo pensador francês, «pensava que o fim da educação literaria é e deve ser, não tornar o espirito mais belo, o gosto mais puro, a percepção mais justa, a lingua mais adornada, a alma mais delicada e a memoria mais feliz, mas sómente dar ao espirito «um maior numero de aptidões para toda a especie de conhecimentos.» Choravam o estado do seu país a este respeito: «Os estudos das matematicas, da fisica, da historia natural andavam ali muito desprezados. Os auditorios em que estas sciencias se ensinavam, eram pouco frequentados, mesmo quase desertos, em alguns logares. Disso coravam, e «não é isso, diziam, «o que o estado actual das luzes e da sociedade exige.» Para se porem pois de nivel com o estado actual das luzes e da sociedade, grande cavalo de batalha daqueles que, não encontrando nunca as suas razões no interior das cousas, porque têm o espirito pouco penetrante, procuram-nas sempre externamente, porque emfim têm olhos, desejariam eles que se ensinasse tudo á mocidade, mesmo á

infancia, para a tornar capaz de saber tudo.»15

O conflicto das diversas aspirações da educação, sentiam-no aproximar-se os homens superiores de ha cem anos. O que seria esse desapego da beleza do espirito e da delicadeza da alma, trocadas pela multiplicidade de aptidões tecnicas e pela abundancia do conhecimento da exterioridade das cousas, sabemo-lo nós agora. Despejadamente no-lo disse o prussianismo cultivado com esmero e consciencia durante cincoenta anos e terminando por dar ao mundo o espectaculo de todas as desolações de uma brutalidade, no fundo da qual se distingue uma apostasia clamorosa e contente na sua soberba, a negação altiva do helenismo e do cristianismo que fundaram a civilização, foram o seu leite e são o seu sustento, a sua substancia.

Em todo o acanhamento das minhas faculdades, mas em pleno vigor da sensibilidade, eu, que não posso gabar-me de haver sido educado no latinismo, porque não é educação que se tome em conta a arrastada e desordenada negligencia com que usamos passar pelas escolas, mas que fui nascido no latinismo, o que para a constituição psicologica sobrepuja a educação, não escapei ás apreensões de M. Arnold relativamente ao germanismo tumido de sciencia e tão minguado de humanidade. Em 1888, algum demonio me seduzia quando, passando por Berlim, escrevi nas minhas notas: «Sobre a cidade pesa um braço de ferro, a multidão abdicou nas mãos de uma vontade; só ela a move. A graça e a elegancia, a vivacidade e o riso foram banidos; o povo vai taciturno e lento.» «A Alemanha, que Berlim nos mostra, afigura-se-me um elefante, a inteligencia e a força em um corpo informe. Toda a sua alma cristalisou nesta aspiração—ser forte, invencivel.» «Conseguiu ser forte. As doutrinas dos filosofos, de mãos dadas com o genio militar, alcançaram emfim dar-lhe uma rara força. Póde viver-se assim? É esta a ultima palavra da civilização, ou simplesmente uma gloria efemera, saida da coincidencia das aptidões de um povo com as necessidades do momento historico? A Revolução Francesa, iniciando-nos no conhecimento dos direitos individuais, simultaneamente deu aos estados constituições que conduzem á fraqueza e impotencia politicas; a Alemanha mostrou-nos novas vias conduzindo ao pólo oposto. Assim como só nós pudemos vêr os povos educados nas instituições derivadas da Revolução, só os nossos filhos poderão saber o que é um país educado na admiração da força. Todas as profecias serão prematuras, embora vagamente pressintamos que a civilização é mais alguma cousa do que a força.»

Isto preguntei e era de preguntar ha vinte e nove anos. Hoje, porêm, toda a duvida cessou. Convencemos-nos de que a civilização tem de ser mais alguma cousa do que a força, e de que, por maior força de remexer a terra e dominar os seus elementos que ela atinja, negou a sua aspiração e atraiçoou-a, se com a força não coincidiu o desenvolvimento moral do homem e das sociedades, naquelas bases de amor, respeito, liberdade, desprendimento e generosidade que o genio greco-latino concebeu e fundou de uma vez para sempre. Guiados pelo passado e alvoroçados pelo presente, logo sabemos, sem a menor duvida ou hesitação, onde e como aquela aspiração de outrora rediviva ha-de realisar-se, por que meios hão-de criar-se e educar-se os homens que a hão-de servir e manter em corpo e acção.

Entre a educação classica e a aspiração da dignidade sobrelevando a pura aspiração da força, ha uma relação intima e imediata. Aquele mesmo Mathew Arnold que cedo nos acautelava contra a barbaria da Alemanha, prevalecendo «apesar das suas escolas e universidades», esse, distinguindo entre o estudo das letras, que «é o estudo da acção da força humana, da actividade e da liberdade humana», e o estudo da natureza, «que é o estudo das forças não-humanas, da restricção e da passividade humana», julgou que «o fim e cargo da instrucção... é habilitar o homem a conhecer-se a si e ao mundo.»

Imagino mesmo que só isto a que vagamente chamamos letras, e que afinal compreende toda a filosofia e toda a moral e estetica, imagino que só isto demandará cultura e é rigorosamente objecto de educação. A outra educação, a que na essencia é aprendizagem scientifica, essa, como a sciencia importa de ordinario alteração da condição material das cousas, depressa entra na categoria do facto quotidiano, e desse modo, por efeito de contacto e presença fisica, se torna de conhecimento inevitavel. As leis e progressos da fisica, da quimica e de toda a mecanica correlativa são faceis de conhecer desde que têm como resultado imediato e patente o para-raios, a maquina a vapor e o telegrafo e o telefone e os submarinos e os aeroplanos e toda a infinita mudança correlativa ou afim. São cousas que se vêem e não podem deixar de ser vistas e consideradas pelo seu volume e pressão continua. Os estados da alma é que não são assim palpaveis; a mais pequena obra de arte demanda, para ser compreendida e sentida, uma susceptibilidade fisica e mental que, a não ser em aptidões de excepção, só por educação, só por uma insinuação persistente e adequada se alcança. E daí a diversissima natureza do ensino scientifico e da educação classica, senão o facto capital que faz que a educação seja propriamente aquela cultura literaria, moral e estetica que constitue a aspiração classica. O resto, com o rotulo espaventoso de sciencia, será porventura questão de conhecimento e ensino a acrescentar á educação, que é uma só, onde as exigencias profissionais o exigirem.

Ora nós por demais estudamos a natureza e os modos e termos de a sujeitar e aproveitar em beneficio da força, e simultaneamente, e por demais tambem, desaprendemos as letras e os modos e termos de as converter em instrumento do conhecimento e disciplina da nossa alma. Entre agonias o verificamos. O desengano é profundo. E, ao senti-lo e na ansia de rehaver o perdido, de pronto a logica nas sugere os meios de resgate e nos manda voltar aquela antiga e segura estrada pela qual a Renascença caminhou, confundindo com boas razões em um só estudo o Humanismo, a cultura do homem, e a antiguidade classica, na qual essa cultura atingira uma beleza sem precedentes.

Por certo, «não podemos reviver aquele mundo grêgo em que os poetas eram soldados, os politicos generais e cada homem um membro do parlamento. Nem o deveremos desejar. Mas podemos experimentar a apreensão de uma parte do seu espirito. Essa existencia, fossem quais fossem as suas faltas, não tinha a especialisação dissolvente do mundo moderno. Ali ninguem era absorvido pelo seu comercio e pelo seu ganha-pão; um homem conservava-se em primeiro logar um ser humano e exercia as faculdades e experimentava os prazeres proprios da natureza humana. O artifice não se tornava uma maquina, nem o lavrador um vilão. O soldado, o mercador, o homem de letras não resvalavam no profissionalismo estreito. O historiador derivava das horas passadas nas assembleias e no campo o seu conhecimento da politica e da guerra. O poeta e o filosofo haviam estado em contacto com aquela

natureza humana sobre a qual moralisavam e escreviam.» 16 Evidentemente, uma nova constituição economica das sociedades e o seu proprio desenvolvimento mental determinaram adaptações e sujeições que nos forçam a ser diferentes do que fomos no mundo grego. Mas dentro dessa nova constituição subsiste qualquer cousa essencial que só a Grecia e Roma souberam penetrar, definir e fundar; subsiste aquela aspiração de perfazermos um tipo humano que atravez de todos os cataclismos humanos e cosmicos se mostrou eterno, intangivel, não susceptivel de melhoria ou correcção. Percorreu a Grecia toda a extensão do pensamento humano que até hoje nos tem sido acessivel, enquanto Roma experimentou—e essa foi a sua inexcedivel fortaleza—toda a extensão da disciplina moral até hoje concebivel e realisada; e essas duas civilizações, conjugadas e ungidas pelo idealismo judaico, fundiram-se e completaram toda a forma superior da actividade humana em espirito e acção, deram o homem na sua integridade, e assim se tornaram a aspiração daquilo que chamamos civilização, ou melhor, a medida da civilização. O que se seguiu é apenas o processo do seu desenvolvimento, ora tumultuoso, ora coerente, regrado e continuo, ora crescendo, ora quebrando-se em depressões passageiras, mas jamais se desligando do seu impulso inicial e razão de ser, isto é, conservando em toda a contingencia, propicia ou adversa, a imutabilidade do seu fim e vontade. Nem mesmo cessa quando nos aterra um conflicto como esse que pôs o mundo todo em guerra. Pelo contrario, se temos serenidade de animo bastante para em meio da angustia apreciarmos os erros que a suscitaram, acharemos, como Eucken achou julgando o seu país e não obstante o fervor com que o ama, que todo o mal proveio de uma exagerada adoração da força fisica e de uma inadmissivel preponderancia das cobiças de uma animalidade insaciavel, ofendendo aquela integridade do homem na sua ponderação fisico-moral de que a Grecia e Roma nos legaram os exemplos sublimados.

Por esta lição crudelissima voltaremos á educação classica, por ela seremos levados mais uma vez áquelas fontes de pureza de espirito de cujas aguas uma obcecada dissipação nos tornou tão indigentes como sequiosos. Seja qual fôr a sorte das armas e o ajuste maquiavelico das chancelarias, ao fim encontraremos que a vitoria foi unicamente da civilização, dessa força constante que nos anima e é superior a todas as raças e a todas as nações, quer lhes julgue a prosperidade transitoria, quer as alente entre a decadencia a mais profunda. Porque os estados, seja qual fôr a sua capacidade politica, poderão disciplinar os povos, arregimenta-los para qualquer empreza de construcção ou demolição, mas não criam a civilização, que é uma aspiração psicologica etnica, prevalecendo sobre toda a contingencia e ressurgindo de todo o abatimento. Os povos servem a civilização conforme as suas aptidões, não a inventam; e serão nobres ou vís, vencedores ou vencidos, conforme a serviram bem ou mal, fiel ou deslealmente.

Baptizar-nos nas fontes da vida que a antiguidade classica descobriu e onde miraculosamente se fortaleceu e engrandeceu— eis o verdadeiro inicio da civilização. E essa iniciação tornou-se tanto mais urgente quanto é certo que, chegados a um momento de vitorias esplendidas da democracia, o futuro das sociedades mais do que nunca deixou de depender da vontade e do caracter dos que governam, mais do que nunca se acha confiado á liberdade dos homens, e, por conseguinte, mais do que nunca tambem fica absolutamente dependente da capacidade moral desses mesmos homens. Esse futuro será ou uma orgia mansa, quando fôr regrado, em que o zelo da boa distribuição e nivelamento das meras comodidades, tornando-se absorvente, só por essa absorpção avilta a nossa alma e a expõe ás degradações proprias da animalidade estreme, para as quais o alcoolismo é o sumo pontifice e o mais activo carrasco; ou um culto da beleza e da dignidade humana na sua integridade e gloria, para o qual a unica habitação conveniente são o templo em que Platão orou, e os logares em que o estoicismo se ouviu, e aqueles outros, altissimos, que a graça cristã ilumina. Fóra disto, o futuro das sociedades, por mais abundante e generoso que ele seja das diversas fortunas materiais que as constituições democraticas possam outorgar-lhes, não passará na essencia de uma brutalidade, mais ou menos feliz e duradoura, mas a breve trecho condenada a afundar-se na decrepitude, apodrecimento, vergonha e ruina que são o termo inevitavel de todas as brutalidades.

Não são outras em materia de educação as conclusões da guerra. Nem a Alemanha escapa á sua evidencia e acção, embora por um instante se tivesse arvorado em apostolo da força. Não só os sinais de renovação são ali tão claros como em qualquer outra parte do mundo, mas o seu passado é garantia, aliás magnifica, da robustez do seu idealismo. «Um vento de loucura fez perder a cabeça a um povo forte, e julgou-se deus... não imaginando, posto que muito sabio seja, que esta infatuação da sua pessoa é precisamente o sinal de uma moralidade inferior, de uma mentalidade de primitivos.» (A. Loisy). A Alemanha, que foi um lar sagrado da espiritualidade no seculo XVIII e ainda em grande parte do seculo XIX, tornou-se por uma fatalidade armazem de meras ideias, invenções e munições; os seus valores de alma, os que se davam e recebiam por amor, foram trocados por valores mundanos comerciaveis, pelos que se transmudam por dinheiro, ou se negoceiam por astucia e odio, ou se arrebatam por conquista. Mas cousa alguma induz a crêr no caracter incuravel da doença, nenhum sintoma póde em boa fé apontar-se que demonstre a corrupção insanavel daquela excelente materia prima, da qual foi feita, em tempos não remotos, a gloria espiritual da sua gente, e da qual tambem vieram á humanidade bens preciosos e inolvidaveis.

Para as gerações que nos sucederem, nem sequer poderá ser surpreza uma reconciliação da Alemanha com uma parte daqueles que impetuosamente ela tem combatido, e uma reconciliação tão completa que lhe dê ingresso na união latina. As afinidades espirituais e historicas da Alemanha são muito mais proximas do mundo latino do que de qualquer outra especie de mentalidade, particularmente daquela que domina nas civilizações orientais e nas que com elas têm parentesco; a sua paixão presente da força, onde conciliação possa ter e não seja puramente uma rebeldia cega contra toda a insinuação de idealismo, mais de pronto encontrará termos de identidade na simpatia humanitaria activa, propria do latinismo ocidental, do que no quietismo mistico e no desprendimento passivo que o Oriente infundiu e alimenta no slavo. De facto, mais de vinte e cinco seculos de historia demonstraram que não ha senão duas civilizações—a que cristalisou na sobriedade atica, na austeridade moral romana e na graça cristã, fundidas e disciplinadas, e a que vagueia nos arrebatamentos do Oriente, tão de pronto erguidos em extasis de desprendimento como inflamados na opulencia insondavel da sensualidade. É mesmo esta oposição de temperamentos e a diuturnidade dos conflitos que ela causa na ansia mutua de absorpção, na paixão violenta de transmudar o antagonismo em uma unidade politica e mental estavel, que de continuo esperamos e nunca chega, é esta atracção reciproca do Ocidente europeu e do Oriente, protelando-se em guerras infinitas e conquistas efemeras sem jámais lograrem unir e fundir suas aspirações originarias, é esta incompatibilidade até agora irredutivel, quer seja por amor, quer seja por despotismo, tudo o que tem experimentado e por muitos modos, é este confronto, de ordinario penoso e raro contente, que, mais do que as vicissitudes do desenvolvimento interno proprio dessas duas civilizações, constitue o drama supremo da historia da humanidade e suas epopêas. Até mesmo perante esse dualismo tragico, o que nestes ultimos quatro anos se tem passado no mundo e que nos seus males nos parece tamanho, não passará talvez de um acidente do desenvolvimento interno da civilização ocidental, porventura uma simples desproporção entre a civilização de quantidade, por demais avolumada, e a civilização de qualidade, a necessidade de reduzir essa desproporção a termos de equilibrio consentaneo com os nossos fins, tradições e vontade.

Não havendo idealismo de consequencias praticas fóra destas duas almas e não se concebendo a vida fóra de qualquer idealismo imanente, a Alemanha terá por fatalidade logica de se consubstanciar com uma dessas duas almas, e adivinha-se sem maior esforço para onde se inclinará, tanto mais que se sabe donde veio, onde foi buscar a trama da sua civilização.

A experiencia da vida é, em uma larguissima extensão, a reducção ao absurdo de uma grande parte da propria vida; é um fabrico incessante de rebutalho de aspirações. O que na infancia se nos afigurou grande, não raro se mostra mesquinho na virilidade e detestavel na velhice; o que a creança cobiçou e achou belo, achou-o indiferente a adolescencia e despresou-o a idade da razão. Esta constante e progressiva revisão e eliminação de valores, que praticamente conduz á simplicidade e psicologicamente acrescenta e engrandece a espiritualidade,—isto constitue a civilização, se o consideramos na historia dos povos, e é por igual uma parte, e muito grande, da educação, se o observamos no desenvolvimento individual. A cultura e a educação do homem e das sociedades não são outra cousa senão o processo e a acção dessa revisão de valores iniciais, que teve o seu primeiro padrão em Esparta e a sua ultima medida, e a mais alta, em Jerusalem, no Calvario.

Perante esta lei de sucessão de valores, verificada na historia e de continuo renovada em nossa consciencia, aquilo que se passou no mundo nestes ultimos cincoenta anos, e de que a Alemanha foi o mais perfeito exemplo e o mais retumbante porta-voz, esta paixão de materialidades e a crença em suas virtudes, que para suprema eficacia deu a escravidão do homem perante o estado, a abdicação na abstracção perigosa e despotica que se chama o governo; essa ambição de força fisica, em cujos fundamentos alguem entreviu uma supersticiosa mitologia, não teria sido mais do que a expressão de um momento infantil do desenvolvimento dos povos civilizados, que o tempo ha-de corrigir pelos proprios impulsos do crescimento, tal qual está demonstrado na historia das nações latinas. Direi mesmo que quem observar com simpatia e serenidade o conflito de opiniões que a guerra inflamou, terá repetidas vezes encontrado entre os homens mais exaltados na admiração da Alemanha e dos seus feitos, até a defesa das crueldades da sua «cultura», caracteres da mais profunda pureza e da mais cativante ingenuidade. São crianças grandes, crianças excelentes, preciosa materia prima da bondade e da justiça, apenas e passageiramente dominadas pelo que melhor corresponde á pujança da sua juventude, naturalmente turbulenta, ainda avida de dominio, como é proprio da sua força, aprestando-se entretanto para aquelas eliminações que lhe hão de transformar os impetos em anseios de liberdade e de desprendimento, visto que esta é a qualidade humana por excelencia.

Demos pois ao tempo o que é do tempo, e, enquanto esperamos por dias menos agrestes, invoquemo-los pelo nosso esforço, por essa arte divina que as gerações glorificaram sob o titulo de educação classica.

FIM

 

 

1 A Guerra. Depoimentos de Herejes. (F. França Amado; Coimbra, 1915).

2 The European Anarcky, (Allen & Unwin).

3 N.º 2843, de 16 de abril de 1916.

4 J. Bryce. The American Commonwealth, 3.ª edição, vol. II, pag 788.

5 The World in Conflict e Questions of War and Peace. (T. Fisher Unwin;

Londres, 1915 e 1916).

6 L. F. Hobhouse, The World in Conflict. Pag. 98.

7 The Ultimate Belief. (Constable & Company; Londres, 1916).

8 Clutton Brock. L. c. Pag. 105 e 106.

9 G. Lansbury. Your Part in Poverty. (G. Allen & Unwin; Londres). Pag. 48.

10 Pierre Hamp. Le Travail invencible. (Edition de La Nouvelle Revue

Française; Paris, 1916).

11 L. Tolstoi. Journal intime, 1895-1910. (Paris: E. Flammarion, 1917), Pag.

17.

12The Herald, 28 outubro de 1816.

13The War and Democracy. (Macmillan & C.ª; Londres, 1915). Pag. 1 e 2 da

Introducção, por A. Zimmern.

14 os Na Educação Nacional , 2.ª serie, n. 49 e 57, de 15 e 24 de junho de

1911.

15 e J. Joubert. Correspondance. (Perrin & C.; Paris, 1914.) Pag. 190 e 191.

16 R. W. Livingstone. A Defence of classical Education. (Macmillan; Londres,

1916.) Pag. 77.

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