Doce Tatuagem
Tenley
Parei no estacionam ento atrás do m eu prédio e desliguei o m otor, aproveitando o ar-condicionado do carro por m ais um m om ento. Quando abri a porta, o calor atingiu m eu rosto com o um cobertor m olhado. Estava horrivelm ente quente e úm ido, clim a norm al para um final de agosto em Chicago. Eram quase nove da noite, o que deveria significar um a trégua do calor opressor, m as a previsão era de m ais do m esm o nos dias seguintes. Abri o porta-m alas e peguei tantas sacolas quanto consegui.
Tive que fazer várias viagens e, quando enfim consegui levar tudo para cim a, o suor escorria pelas m inhas têm poras e m inha cam iseta grudava no corpo. O ventilador — a com pra m ais im portante — fez um ruído seco quando o larguei no chão do corredor, do lado de fora do m eu apartam ento.
Não m e preocupei com o barulho. Com o o velho Toy ota Tercel da m inha vizinha não estava no estacionam ento, supus que não estivesse em casa. Eu ainda não tinha encontrado com ela, j á que m e m udara havia apenas um a sem ana, m as a proprietária do apartam ento, Cassie, disse que ela estudava na Northwestern. Assim com o eu, ela fazia m estrado.
Abri a porta com o om bro e em purrei as sacolas para dentro com o pé. Um a delas rasgou, esparram ando pacotes de pipoca de m icro-ondas pelo chão de m adeira. Suspirando, voltei ao corredor e arrastei o ventilador pelo chão. Era tão brutalm ente pesado que eu quase o derrubei enquanto subia as escadas. Minha única fonte de ar fresco era a j anela do quarto; o resto do apartam ento parecia um a sauna. Eu tinha deixado a porta do quarto aberta na esperança de que refrescasse a casa toda, m as, quando voltei, um calor noj ento ainda dom inava a sala e o quarto m al estava arej ado.
Guardei as com pras rapidam ente, j ogando os perecíveis na geladeira. Então peguei os pacotes de pipoca e os larguei no balcão, j unto com o restante dos alim entos preparo instantâneo, com o m ioj o, além dos ingredientes para bolos e afins. Precisei de um arm ário inteiro só para guardar todo o m eu equipam ento de confeitaria.
A tarefa seguinte era preparar um drinque. Meu aniversário de 21 anos era só dali a algum as sem anas, então eu ainda não podia com prar bebidas alcoólicas legalm ente, m as tinha sido esperta o bastante para colocar algum as garrafas na m ala antes de deixar Arden Hills.
Um a garrafa de vodca esperava por m im no freezer. Servi um a dose generosa e enchi o copo com cubos de gelo. Acrescentei suco de toranj a, m exi e dei um gole. Olhei para o relógio do m icro-ondas e vi que tinha passado um pouco das nove e m eia — perfeito. Peguei um a alm ofada no sofá, fui até a j anela, afastei as cortinas e levantei o vidro.
Sentei no parapeito largo, apoiando as costas na alm ofada. As luzes traseiras dos carros brilhavam na rua abaixo e buzinadas ocasionais pontuavam o ronco dos m otores. Eu nunca tinha m orado em um a rua tão m ovim entada, e a atividade constante era um a distração bem -vinda.
Nas prim eiras noites ali, eu tinha m e sentado na j anela para ouvir a conversa das pessoas que passavam na calçada, lá em baixo. De frente para o m eu apartam ento, no nível da rua, a placa do Inked Arm or brilhava em contraste com o cenário de som bras e postes de luz. Eu estava fascinada pela m ovim entação no estúdio de tatuagem . Isso m e distraía do vazio no m eu apartam ento, que era um eco do sentim ento em m eu peito. Eu tinha vindo para Chicago a fim de escapar das lem branças em Arden Hills; a fim de deixar para trás a m em ória do que eu tinha perdido e nunca poderia recuperar.
Ali, nada m e era fam iliar. Isso era tanto um a bênção quanto um a m aldição. A solidão intrínseca m e desgastava de um a m aneira m uito diferente. Eu sentia falta da sensação de proxim idade com as pessoas, ainda m ais depois dos m eses de isolam ento. Vê-las interagindo, do outro lado da rua, tinha se tornado um a m aneira segura de aliviar isso. Eu m e pegava observando-as até que o últim o cliente saísse do estúdio.
Três hom ens e um a m ulher trabalhavam ali, todos na casa dos vinte e tantos anos. Os hom ens eram tatuadores; eu os tinha visto tatuando m uitas vezes. E todos eles, inclusive a garota, tinham várias tatuagens e piercings, desafiando as convenções com as quais eu tinha crescido.
Um tatuador despertou m eu interesse m ais que os outros. Alto, de om bros largos e cabelo escuro, suas inúm eras tatuagens cham aram m inha atenção, tanto quanto os piercings faciais. Um desenho em tinta preta subia por seu braço direito e um a explosão vibrante de cor cobria o esquerdo, os desenhos indistinguíveis da distância da m inha j anela. Eu ficava pensando, com m ais frequência do que gostaria de adm itir, no que m ais teria debaixo da cam iseta dele. Com certeza alguém que tivesse os braços tatuados por com pleto não pararia por aí. E a extensão de suas costas e de seus braços definidos parecia servir com o um a tela linda e esculpida perfeitam ente para sua arte corporal.
Além do encanto das tatuagens e de sua beleza pouco convencional, algo nele m e atraía para a j anela todas as noites. Por m ais interessantes que todos no estúdio fossem — desde o cara enorm e com sorriso sim pático até o cara esguio de cavanhaque e a m enina de cabelo da cor de algodão-doce —, era para o hom em de cabelo escuro que eu não conseguia parar de olhar. Ele rondava, não andava. Tinha um a inquietude inerente; m esm o quando estava sentado, não parava de bater o pé no chão. Dos quatro, parecia ser o m ais sério e o m ais intim idador.
Ele ficava profundam ente focado enquanto fazia sua arte, os m ovim entos fluidos e experientes. Apesar de seu ar am eaçador, era atencioso no trabalho, e os clientes pareciam à vontade com ele. Observá-lo transferir os desenhos para a pele era quase sensual. Muitas vezes m e senti com o o pior tipo de voy eur, espiando um ato intrinsecam ente íntim o. Com ecei a im aginar com o seria estar na cadeira dele. Com o seria ter aquelas m ãos fazendo arte no m eu corpo.
Naquela noite, ele estava colorindo um desenho em um om bro. Eu invej ava a m ulher em sua cadeira — fazia quase duas horas que ele trabalhava nela. A essa altura eu j á tinha term inado três drinques, então estava ficando seriam ente tonta. O desenho, ganhando vida com a cor, se estendia da escápula até o m eio das costas. Ele era m etódico, aplicava a tinta e lim pava a tatuagem antes de trocar de cor. Volta e m eia parava e entregava a ela um a garrafa d’água ou um a bolinha para que apertasse enquanto ele trabalhava. Eu queria ver os detalhes do desenho. Cada vez m ais eu pensava em m e aproxim ar do estúdio. Além de ver a arte, eu queria olhá-lo de perto para confirm ar aquilo de que eu j á tinha certeza: que suas tatuagens eram tão lindas quanto ele.
Quando term inou a tatuagem , ele aj udou a m ulher a se levantar da cadeira e a levou para o outro lado do estúdio. Ela passou um bom tem po olhando para a tinta fresca enquanto ele aj ustava os espelhos para lhe dar o m elhor ângulo. Ele foi incrivelm ente gentil ao lim par o desenho e cobri-lo com film e plástico. Aquilo não com binava com sua aparência severa, o que o tornava ainda m ais fascinante.
Assim que a cliente foi em bora, o pessoal do estúdio se reuniu na recepção, com o parecia ser costum e deles. A garota, atrás do balcão, disse algo que o fez rir, o que não era típico dele. Havia um a cam aradagem entre eles que eu invej ava, que m e fazia querer aquele tipo descom plicado de am izade.
Depois de alguns m inutos de conversa, eles se dispersaram para arrum ar tudo. As coisas foram guardadas e lim pas antes de fecharem as cortinas e apagarem a luz. Então saíram em fila e trancaram a porta. Os quatro viraram à direita, passando por duas vitrines, até o lobby de um prédio residencial. Todos esperaram enquanto m eu obj eto de fascinação destrancava a porta. Depois eles desapareceram no saguão, m e deixando sozinha de novo.
Desde que aquele ritual noturno havia com eçado, eu tentava m e convencer de que m eu interesse era pela clientela. Não era verdade. Eu estava sem pre esperando conseguir algum vislum bre do hom em de cabelo escuro e braços cobertos de tatuagens. Mais de um a vez eu o vi atravessar a rua e entrar no Serendipity, o antiquário-livraria localizado no térreo do m eu prédio. Ele sem pre saía carregando bebidas da cafeteria ao lado. Nunca tínham os estado lá ao m esm o tem po. Não que eu quisesse que isso acontecesse.
Fiquei sentada na j anela até m eu drinque acabar. Então enchi o copo de novo e m ontei o ventilador industrial. Quando term inei, m inha cam iseta estava úm ida e grudenta outra vez. Pluguei o ventilador na tom ada e o liguei. Os papéis que eu tinha deixado na m esa de centro voaram e se espalharam pelo ar até atingirem a parede e caírem no chão. Parecia que um avião a j ato estava pousando na m inha sala de estar, o barulho incitando um a onda irracional de pânico. Respirei fundo e abafei m inha ansiedade. Era apenas um ventilador barulhento. Estava tudo bem . Recolhi os papéis; precisaria com eçar a gram pear as folhas.
Coloquei o ventilador na frente da j anela, torcendo para que puxasse o ar levem ente m ais fresco da noite e aj udasse a dim inuir a tem peratura ali dentro. Passando pelas caixas de livros que ainda não tinham sido abertas, apaguei todas as luzes, m enos a da cozinha. Grudenta de suor, eu precisava m uito de um banho. Liguei o chuveiro, tirei as roupas e nem m e preocupei em conferir a tem peratura da água antes de entrar. Estava gelada a ponto de m e fazer trem er, m as não m e im portei.
Quando não consegui m ais suportar o frio, deixei a água m orna e peguei o xam pu. Enquanto lavava o cabelo, m eu dedo passou pela trilha de argolas em m inha orelha. Cada adição havia sido um a pequena revolta. Pensei nos acontecim entos e nas pessoas que haviam provocado aqueles pequenos atos de rebeldia. Não havia m ais ninguém para brigar com igo por causa deles. Eu podia fazer o que quisesse agora, sem m e preocupar com as repercussões. Seria tão fácil ir até o Inked Arm or...
Balancei a cabeça e peguei um a esponj a, passando-a pelos braços e pela nuca, depois descendo. Aquilo era um a ideia colossalm ente ruim , por m ais que eu quisesse colocá-la em prática. Era m elhor m anter um a distância segura. Eu ainda estava tentando m e encontrar naquela nova cidade e naquela nova vida. Ainda não m e sentia pronta para fazer am igos. Quando term inei de m e lavar, m e enxaguei, fechei o chuveiro e peguei um a toalha. Minhas roupas descartadas ficaram no chão do banheiro, j á que não tinha ninguém por perto para se preocupar se eu ia pegá-las ou não.
Enrolada na toalha, voltei à cozinha para reabastecer o copo, dobrando a dose de vodca dessa vez. A onda de ar congelante da geladeira que m e recebeu fez os pelos da m inha pele úm ida se arrepiarem , e saboreei a m aravilha do frio industrializado. Eu j á tinha dificuldades para dorm ir, não precisava do calor com plicando as coisas.
Pendurei a toalha na cadeira no canto do quarto, para secar, e então vasculhei a côm oda em busca de algo para vestir. Tinha com prado aquela côm oda no Serendipity ; Cassie era a proprietária e a gerente do antiquário que havia no térreo do prédio. Era acoplado a um pequeno café especializado em com idinhas de forno. Desde que eu m e m udara, tinha ido ao Serendipity quase todos os dias. Se não ia procurar por peças para m obiliar m eu apartam ento, ia com prar cafés ou lanches, j á que eu ainda não tinha feito com pras.
Na pressa de m e m udar para Chicago, eu só tinha trazido o que coube no carro. Passei as duas prim eiras noites dorm indo em um colchão de ar, até testar algum as cam as e com prar um a. Eu tinha gastado boa parte da últim a sem ana ou procurando itens necessários, com o sofá e m esa de centro, ou m ontando prateleiras baratas, do tipo “faça você m esm o”, para m eus livros. Meu apartam ento estava, aos poucos, com eçando a parecer um lar.
Vesti um a calcinha e um a regata, abri o laptop e procurei algo divertido para assistir. Não gostava de terror — tinha passado por isso na vida real no últim o ano —, e com édias rom ânticas m e davam ânsia de vôm ito, então optei por um docum entário que poderia m e aj udar com a tese de m estrado. As aulas só com eçariam em algum as sem anas, m as eu estava ansiosa. Quanto m ais eu pesquisasse agora, m ais bem preparada estaria para a prim eira reunião com m eu orientador.
Eu m e acom odei nos travesseiros, pronta para ter um a aula sobre a arte da m odificação corporal contem porânea. Depois de um a hora e m eia, tinha várias anotações. Apaguei as luzes, puxei os lençóis, abracei um travesseiro m acio e coloquei o docum entário para rodar de novo. Na m etade, m eus olhos com eçaram a ficar pesados e pisquei, sonolenta, enquanto Jesse Jarrell m e explicava, com seu j eito calm o e tranquilo, sobre im plantes subcutâneos...
Eu estava recostada em uma cadeira de tatuador. O vinil vermelho era macio e tinha um leve cheiro de limão. Olhei em volta, confusa, até que percebi que estava no Inked Armor. Enquanto analisava ao meu redor, fiquei bastante consciente de que éramos só eu e ele no estúdio silencioso. Não havia mais ninguém. Nem a menina de cabelo rosa-claro, nem o cara alto e magro que com certeza era namorado dela, nem o esquisito com os braços cobertos de tatuagens em preto e branco. As cortinas estavam fechadas e a iluminação era tão fraca que eu não sabia como ele conseguia enxergar o desenho que fazia em minha pele. Apertei a beirada da cadeira; a tensão fazia meus músculos tremerem. Pisquei e pisquei outra vez, porém, por mais que eu tentasse, não conseguia fazer com que as tatuagens que cobriam o corpo dele, ou os traços de seu rosto, entrassem em foco.
Olhei para a tatuagem nova: penas chamuscadas e fumegantes em tons de carmesim e dourado flutuavam sobre meu quadril e desciam pela lateral externa da minha coxa. Era uma versão da tatuagem que eu andava desenhando nos últimos meses, estonteantemente detalhada. Mas estava no lugar errado.
Entre uma piscada e outra, a cena se alterou. O zumbido da máquina de tatuar cessou. A tensão ganhou vida quando percebi que estava apenas de regata e nada mais. Confusão e vergonha lutaram contra um desejo faminto, que eu tinha esquecido que existia, enquanto ele se acomodava entre minhas coxas. Tentei fechar as pernas, mas ele estava ali, me impedindo.
O rosto dele estava na sombra, os traços ainda obscuros, por mais que eu me esforçasse para vê-lo com clareza. Mãos quentes desceram acariciando minhas pernas e então senti o toque suave e acetinado dos lábios na parte interna da minha coxa. Ele moveu a boca mais para cima, os dentes mordiscando a pele. Então seus dedos estavam bem ali, macios e quentes, me tocando de um jeito que eu não era tocada havia muito tempo. Minhas mãos procuraram por ele, os dedos escorregando por aquelas mechas escuras e agarrando com força. Ele riu, aquele som denso deslizando sobre mim, dentro de mim. Arqueei o corpo sob ele, calor e desejo se unindo...
***
Acordei no ápice de um orgasm o, m eu corpo e os lençóis úm idos de suor. Fiquei ali, deitada no escuro, ofegando com o se tivesse acabado de correr um a m aratona. Eu não tinha um orgasm o fazia m ais de oito m eses. O desej o andara ausente por tanto tem po que eu tinha até esquecido com o era a sensação.
Esfreguei as m ãos no rosto, tentando recuperar o fôlego. Meu corpo vibrava com um a energia estranha; eu ainda estava loucam ente excitada. Fechei os olhos e tentei relaxar, m as, assim que fiz isso, as im agens voltaram com um a clareza devastadora. Apesar de o rosto dele perm anecer em baçado, as sensações im aginárias eram nítidas. Aqueles braços tatuados segurando m inhas pernas, o roçar suave dos lábios e a boca quente e m olhada em m im .
Coloquei o travesseiro em cim a da cabeça na tentativa de afugentar as im agens, m as foi inútil. Depois de tantos m eses, m eu corpo tinha despertado de sua letargia sexual. Joguei o travesseiro longe e olhei para o relógio na m esa de cabeceira. Eram cinco e m eia da m anhã; eu não ia conseguir pegar no sono de novo de j eito nenhum . Era m elhor levantar de um a vez.
***
Mais tarde, naquele m esm o dia, m e peguei parada no m eio da sala, tentando não ceder ao im pulso de ir à j anela. Eu j á tinha trocado os lençóis, tom ado banho e bebido um bule inteiro de café. Durante a m aratona de café, reorganizei a m obília da sala de estar três vezes. Eu fazia m eu m elhor para m anter a cabeça longe do tatuador do outro lado da rua. Até então, estava falhando m iseravelm ente.
Olhei para as caixas ao lado das prateleiras. Eu evitava algum as delas de propósito. A caixa com os álbuns de fotos tinha sido relegada ao arm ário do quarto. Nos álbuns havia m om entos da m inha vida e todas as pessoas que passaram por ela. Mas eu não estava pronta para lhes dar um lugar nas prateleiras. Em vez disso, enchi-as de livros; textos da faculdade, rom ances que eu am ava. Livros que m inha m ãe tinha m e dado ao longo dos anos.
Quando term inei, olhei para o espaço vazio onde os álbuns deveriam ficar. Em algum m om ento eu reuniria coragem para colocá-los no lugar certo. Todo o m eu apartam ento parecia refletir aquela sensação de vazio, não im portava com quantas coisas eu o preenchesse. Aquilo m e deixava ansiosa. Eu estava sozinha ali, sem nada nem ninguém — era o que eu achava que queria. Mas a dor interna era tão esm agadora que às vezes m e assustava. Eu tinha m uitas coisas das quais sentir falta, m as lá em Arden Hills os lem bretes constantes eram um a espécie de tortura.
Dei as costas para as prateleiras e m e larguei no sofá. O ventilador novo estava cum prindo sua função; a circulação de ar definitivam ente aj udava a am enizar o calor. Abri o laptop e entrei no m eu e-m ail da Northwestern. As únicas m ensagens eram do Departam ento de Assuntos Estudantis, m e convidando para um a palestra inform ativa que ocorreria dali a duas sem anas. O tem po livre estava m e m atando. Agora que m eu apartam ento tinha sido m obiliado, m inhas únicas distrações eram escrever m inha tese e observar pessoas, o que vinha se tornando um problem a, ainda m ais depois do sonho da últim a noite. Apesar de ficar feliz por passar algum as horas, todos os dias, fazendo pesquisas, eu passaria ao m enos m ais um a sem ana sem m e encontrar com m eu orientador, o que lim itava o quanto podia avançar.
Eu precisava encontrar algum a coisa para ocupar m eu tem po além de ficar sentada na j anela desej ando um a vida que não era a m inha.
***
Um a sem ana depois, lá estava eu, no porão do Serendipity. Cassie tinha gentilm ente deixado que eu procurasse lá qualquer coisa de que viesse a precisar. Ali em baixo era com o o paraíso dos acum uladores, quase im possível de se locom over. Eu queria para m inha cozinha o j ogo de m esa de j antar que estava do outro lado do côm odo, m as o labirinto de m óveis e caixas não m e perm itia chegar até ele. Desisti e, em vez disso, levei um a caixa de livros para cim a, depois desci de novo para pegar outra, na esperança de abrir cam inho até a m esa.
De volta à escada, ouvi a porta da frente tilintar e o som de coturnos se m ovendo piso acim a. Quando cheguei ao patam ar superior, apoiei a caixa no quadril e espiei pela fresta da porta aberta. Eu o reconheci na m esm a hora, assim com o, aparentem ente, todo o m eu corpo. Fiquei verm elha da cabeça aos pés.
Ele conversava com Cassie, a m ão apoiada em um a pequena pilha de livros. Estava perto o suficiente para que eu conseguisse ver a linha forte de seu m axilar e os desenhos coloridos e intrincados em seu braço. Lem bravam videiras e algo que podia ser flores, m as eram escuros dem ais para eu ter certeza. Ele se inclinou e beij ou o rosto dela, o que m e surpreendeu, tanto pelo carinho do gesto quanto pelo fato de ele parecer estar m ais perto da m inha idade do que da de Cassie. Eles conversaram por alguns m inutos, e depois ele seguiu para o café. Quando ele saiu, passei pela porta e coloquei a caixa em cim a das outras duas.
— Tenley ! — Cassie saiu de trás do balcão. — Você deveria ter pedido aj uda. Meu sobrinho estava aqui agora m esm o, ele podia ter carregado isso para você.
Ai, m eu Deus, eu estava tendo sonhos eróticos com o sobrinho dela. Eu não tinha com o ficar m ais envergonhada.
— Tudo bem — respondi, m inha voz m ais aguda que o norm al. — Dei um a olhada nas caixas antes de trazer para cim a, e parece que tem alguns clássicos aí dentro. Percebi que você tem algum as prateleiras vazias nos fundos, onde põe os livros... — Deixei a frase m orrer, tentando esconder m inha vergonha enquanto divagava. Eu não tinha socializado m uito nos últim os m eses e m inhas habilidades de conversação não estavam m uito boas. — Desculpe. Posso levar de volta lá para baixo se estiverem atrapalhando.
Ela m e deu um sorriso tranquilizador.
— Nem um pouco. Eu queria m esm o fazer isso, m as fica difícil, j á que sou só eu aqui.
— Posso pôr os livros nas prateleiras se você quiser. Não vai ser nenhum incôm odo — ofereci, m esm o sem saber se estava passando dos lim ites.
Naquele m om ento, o sobrinho dela voltou com um a bandej a cheia de cafés na m ão.
— Quase m e esqueci deles — disse ele, colocando debaixo do braço os livros que estavam no balcão. — Tenho um cliente em cinco m inutos, m as vou dar um pulo aqui am anhã para a gente pôr o papo em dia. Para você m e contar as novidades e tal, ok?
— Quando você tiver tem po — respondeu Cassie, aceitando o copo que ele lhe entregou.
Ele foi até a porta e a abriu com o cotovelo. Seus olhos se ergueram e encontraram os m eus enquanto eu tentava m e m isturar à paisagem . Vi um relance prateado no canto de sua boca, antes de desviar o olhar; não queria ser pega o encarando. Eu tinha certeza de que as pessoas faziam aquilo com ele o tem po todo.
Houve um a longa pausa antes de eu finalm ente ouvir:
— Até m ais, Cass.
A porta tilintou ao se fechar.
Soltei o ar que estava prendendo, m eu estôm ago revirando com a lem brança do sonho. Eu m e afastei da parede e sorri para Cassie de um j eito que torci para ter saído natural, apesar do rubor em m inhas bochechas.
— Vou só guardar esses aqui para você, ok?
— Seria ótim o. — O sorriso dela era genuíno.
Peguei um a caixa e fui em direção aos fundos da loj a. O que tinha com eçado com o um a sim ples oferta de colocar alguns livros em um a prateleira se tornou um proj eto de um dia inteiro. Tudo estava organizado por tam anho e assunto geral, em vez de gênero e autor. Tirei tudo e com ecei a reorganizar.
Algum tem po depois, Cassie m e encontrou no m eio da bagunça.
— Eu nem percebi que você ainda estava aqui!
Olhei para as pilhas de livros que se erguiam ao m eu redor e, depois, para ela.
— Acho que m e em polguei.
Ela riu.
— Eles não estavam m uito bem -organizados, não é?
Franzi o nariz.
— Não m uito — respondi, m e desculpando.
— Hay den m e diz isso o tem po todo. Diz que isso o deixa com pletam ente louco.
Hayden. Com binava com ele. Um nom e diferente, com o o m eu.
— Posso voltar am anhã e arrum ar o resto se você quiser — ofereci. — Ah, e tem um a m esa e um as cadeiras no porão que eu queria com prar, m as não consigo chegar até elas. Quando term inar com os livros, posso dar um a m exida nas outras caixas tam bém ?
Seria a distração perfeita do vazio do m eu apartam ento. Ficar sozinha o tem po todo estava m e afetando, e aquele era o tipo de interação segura que eu conseguiria tolerar.
— O que acha de um em prego de m eio período? — propôs Cassie.
— Não precisa m e pagar. Fui eu que tirei todos os livros das prateleiras.
— Mas a aj uda seria bem -vinda, e eu ficaria feliz de ter com panhia.
Hesitei. Poderia ser bom ter um em prego de m eio período, um a m aneira de interagir com algum propósito.
— Tudo bem . Eu adoraria.
***
Alguns dias depois, eu estava sentada ao caixa do Serendipity. Era m eu terceiro turno oficial em três dias. Eu tinha term inado de colocar os livros nas prateleiras; agora estava catalogando todos no com putador de Cassie. Era um trabalho lento, m as que tornaria as coisas m uito m ais fáceis no futuro. Coloquei um livro antigo na m esa à m inha frente. Havia um capítulo interessante, apesar de desatualizado, sobre práticas de m odificação corporal em várias culturas. Abordava escolas de pensam ento antiquadas sobre “com portam entos m arginais” que agora tinham se tornado quase com uns.
Com pletam ente absorta, não ouvi o sininho da porta tocar, encoberto pelos acordes de j azz que vinham do café adj acente. Quando um a som bra passou sobre m eu livro, olhei para cim a, assustada, e dei de cara com Hay den bem na m inha frente, um sorriso curioso brincando em seus lábios grossos.
Além do piercing na sobrancelha e das argolas no canto esquerdo do lábio inferior, a prim eira coisa que notei foram seus olhos. Eram incrivelm ente azuis. Não um azul cor de m ar ou cor de céu, nem m esm o um azul-acinzentado. Eram claríssim os e pálidos, de um a intensidade chocante em contraste com o cabelo e os grossos cílios escuros. Ele era lindo de doer, de um a m aneira severa, atípica. Exatam ente com o eu im aginava que fosse. E não era apenas o rosto.
O sonho voltou com tudo, e eu gaguej ei um cum prim ento enquanto im agens do rosto e das m ãos dele entre m inhas coxas passavam pela m inha cabeça. Ele era m ais alto do que eu tinha im aginado, assom ando sobre m im . Usava um a calça j eans escura e um a cam iseta de m angas curtas com a logo do Inked Arm or. A cam iseta estava j usta no peito, destacando os m úsculos definidos e dando à m inha im aginação um a visão m ais precisa do que havia por baixo.
Nos braços dele via-se tinta, tinta e m ais tinta, m as eu estava nervosa dem ais para conseguir focar naquilo. Acabei m e atrapalhando com o livro à m inha frente, que caiu, batendo no balcão com um ruído. Meu café com leite e caram elo tom bou, derram ando o líquido pegaj oso em todas as páginas.
Apavorada, lim pei depressa a bagunça com um a pilha de guardanapos. Não consegui olhar para ele quando se aproxim ou para m e aj udar, nem quando se desculpou por ter m e assustado. Ainda bem que Cassie m e poupou de m ais hum ilhação, voltando para a loj a. Saí de trás do balcão e passei correndo pela porta que levava ao porão, parando no patam ar da escada por alguns m inutos para acalm ar m eu coração acelerado. Eu ouvia o tim bre grave da voz dele, que conversava com Cassie.
Agora que eu tinha um a im agem clara de seu rosto e seu corpo e conhecia o tom de sua voz, fiquei preocupada com o que m inha m ente ia fazer com aquilo. Perm aneci na segurança do porão até encontrar o abaj ur que Cassie andava procurando.
Na sem ana seguinte, Hay den apareceu todos os dias em que trabalhei. Em algum as oportunidades, m ais de um a vez. Em várias ocasiões eu estava entocada no porão, lutando contra a bagunça. Aquilo era tanto bom quanto ruim ; ao m enos não tive nenhum a chance de passar vergonha de novo. Infelizm ente, aquilo tam bém significava que eu não tinha conseguido saciar o desej o insistente de dar um a olhada m elhor na arte dos braços dele. Ou em seu rosto m aravilhoso.
Eu sem pre sabia quando ele estava na loj a. Hay den andava de um j eito peculiar, as solas de seus coturnos batiam pesadam ente no piso desgastado, sua rota era previsível. Ele sem pre parava no caixa prim eiro, para conversar com Cassie, depois ia até o café. Após pegar bebidas, voltava para papear com Cassie de novo. Às vezes trazia café ou chá para ela.
Hoj e tive um a trégua do porão. Cassie havia arrum ado algum as caixas de livros em um leilão. Escondida atrás das pilhas, fiquei sentada entre os livros, organizando-os por assunto. Era um trabalho relativam ente bobo, o que perm itia que m eus pensam entos vagueassem em direção ao Inked Arm or e a Hay den. O sonho com ele ficava ressurgindo durante o dia, principalm ente quando eu não estava ocupada, perturbadoram ente vívido em detalhes visuais e lem branças sensoriais.
Quando o tilintar do sino acim a da porta m e avisou que alguém estava entrando na loj a, eu congelei, procurando ouvir o som dos coturnos dele. Com o não escutei nada além dos acordes suaves de j azz, continuei separando os livros. Às vezes, Lisa, a m enina de cabelo rosa do Inked Arm or, vinha ao Serendipity. Gentil e sim pática, sem pre parava para conversar.
Ela havia m e convidado para ir até o estúdio dar um a olhada nos piercings, depois que eu expressara m eu interesse em colocar um no nariz. Enquanto estava sentada ali, pensando nessa ideia, ouvi o m urm úrio baixo de vozes.
Eu m e levantei, abafando um gem ido quando m eu quadril com eçou a doer. Eu tinha ficado sentada na m esm a posição por tem po dem ais. A dor eclipsou tudo por um m om ento, e m e segurei à prateleira para m e apoiar. Enquanto esperava a sensação dim inuir, espiei por um a fresta entre os livros. Hay den estava na loj a. Ele olhou na direção das pilhas de livros e eu dei um passo para trás, apesar de estar bem escondida. Meu coração bateu forte no peito e fechei os olhos para evitar o m edo e a vergonha de ter cogitado a possibilidade de ele estar m e procurando.
O que eu estava fazendo era ridículo; m e escondendo de alguém que eu nem conhecia, só porque tinha sonhado com ele. Im agens de Hay den totalm ente vestido entre m inhas coxas surgiram no interior das m inhas pálpebras. Suprim i aquilo e m e virei para conferir se ele ainda conversava com Cassie e vi que não.
Com um m isto de decepção e alívio, voltei a organizar os livros, m ovendo-m e pelo corredor para ter um a visão m elhor da porta.
Com o eu esperava, Hay den voltou à loj a alguns m inutos depois, parando para conversar com Cassie antes de ir em bora. Ao sair, ele usou o quadril para abrir a porta, as m ãos ocupadas com a bandej a de cafés e um a sacola de petiscos. Abriu um sorriso lentam ente quando seu olhar m e encontrou. Apertei os livros contra o peito, congelada em seu olhar azul claríssim o.
— Vej o você am anhã — disse ele, olhando para m im .
Alguns m inutos depois, Cassie apareceu e m e entregou um café.
— Obrigada.
Inspirei profundam ente. Era um café com leite e caram elo.
— Não m e agradeça. Foi Hay den quem trouxe para você. Ele disse que era para com pensar pela últim a vez.
Tom ei um gole para esconder o sorriso.
Aquela noite, sonhei com ele de novo. Dessa vez vi cada linha de tinta, senti aquelas argolas do lábio dele contra m inha pele enquanto ele passeava a boca pelo m eu corpo. Quando gozei, dessa vez, não estava dorm indo.