Doce Tatuagem

Helena Hunting · Capítulo 2 de 3

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Doce Tatuagem

Hayden

 

 

As duas m eninas sentadas à m inha frente m arcavam o início oficial do que cham ávam os de “tem porada dos calouros” no Inked Arm or. Todo ano, por volta dessa época, havia um a enxurrada de universitários querendo se tatuar. Aquelas duas pareciam apavoradas, de queixo caído, em bora suas roupas fossem bem m ais escandalosas que m inhas tatuagens e m eus piercings j untos.

A da direita, de cabelo cor de berinj ela, era a porta-voz das duas. Eu j á sabia de onde eram , o que estudavam na Universidade de Chicago e que eram “m elhores am igas”, apesar de terem se visto pela prim eira vez, “tipo, na vida”, na sem ana anterior.

Vestida de preto, a de cabelo roxo tam bém usava um delineador azul cintilante e um batom da m esm a cor. Ela era um a m istura de frequentadora de rave com em o. A am iga quietinha tinha os olhos contornados por um delineador negro e seu cabelo preto-azulado era raspado de um lado. O esm alte nas unhas descascadas era de um tom de roxo m ais escuro que o de sua boca. Não havia piercings visíveis em nenhum a das duas, fora as caveiras cor-de-rosa fluorescente, iguais em suas orelhas. Ao m enos não eram aquelas patricinhas com que eu tinha que lidar de vez em quando naquela época do ano.

A m ais tím ida queria fazer um a tatuagem . Com o elas estavam olhando a parede com o catálogo das tatuagens que j á fizem os antes de virem conversar com igo, eu não esperava que aquilo fosse ser interessante. Apesar de ter enrolado com m eu últim o cliente, eu tinha term inado antes dos m eus colegas, então aquelas duas m aravilhas eram problem a m eu. O que significava que eu não poderia atravessar a rua para pegar um café, com o queria. Mas, se eu pudesse agilizar as coisas, talvez tivesse tem po de dar um pulo no Serendipity antes do m eu próxim o cliente.

— Tem algum desenho em m ente? — perguntei quando houve m eio segundo de pausa na falação constante da Lábios Cintilantes.

— Meu Deus! É claro que ela tem ! — gritou Lábios Cintilantes, anim ada. — Mostre para ele. — Em sua em polgação, quase derrubou a am iga da cadeira.

Fiquei positivam ente surpreso por ela ter um a ideia do que queria. Minha opinião sobre as duas m udou um pouco, e dei a ela um sorriso autêntico e encoraj ador.

A m enina vasculhou sua bolsa Hot Topic e puxou um fichário preto. Pegou um pedaço de papel com a ponta am assada, alisou-o e o colocou na m esa entre nós.

Olhei para a im agem e m ordi m eu piercing da língua para não rir alto. No papel pautado havia um a réplica de um a fam osa gata de desenho anim ado usando um a estranha fantasia de fetiche. Com um chicote. Apesar do conteúdo de m erda, era um esboço bastante razoável.

— Você que desenhou? — perguntei.

— Jenny está cursando artes. Ela adora anim e — respondeu Lábios Cintilantes.

— É m esm o?

Jenny assentiu.

Muito falante, essa m enina.

— Posso trabalhar com isso. Onde você vai querer fazer?

— Ela quer no quadril — introm eteu-se Lábios Cintilantes, de novo. — Sabe, para o chicote ficar... Você sabe.

— Michelle! — sibilou Jenny, suas bochechas ficando verm elhas.

— O que foi? É lá que você quer — retrucou Lábios Cintilantes, tam bém sussurrando. Com o se desse para eu não ouvir, com o m eio m etro que nos separava.

Apoiei um cotovelo na m esa e o queixo na m ão, em fascinação contem plativa.

— Não sei se entendi bem .

Jenny se aproxim ou, sua voz pouco m ais alta que um sussurro:

— Para fazer parecer que o chicote está... — Ela fez um m ovim ento de chicotada com o pulso e então apontou para as coxas.

— Ah, certo. — Assenti, m uito sério. — Para parecer que a gata está chicoteando sua gatinha. Entendi.

O rosto de Jenny ficou ainda m ais verm elho. Por m ais divertido que fosse, eu não queria que elas pensassem que eu não levava a sério o desenho escolhido. Apesar de não ser particularm ente do m eu gosto, eu faria o m elhor possível para que ficasse bonito nela. Tam bém estava curioso para saber o que havia por trás daquela fachada silenciosa e despretensiosa da garota.

Desviei a atenção da coitada envergonhada da Jenny e fiz um a pergunta a Michelle:

— Nada de tinta em você hoj e?

Os olhos dela se arregalaram .

— De j eito nenhum , m eu pai m e m ataria se eu fizesse um a tatuagem .

Eu ouvia m uito isso, em geral pouco antes de a pessoa se sentar na m inha cadeira... ou de desistir da tatuagem . Não conseguiria nem com eçar a contar quantas vezes um cliente voltava, m eses depois, para fazer o desenho que tinha deixado de lado.

Baixei o tom de voz, com o se conspirasse com elas:

— Ele não precisa saber. Tem m uitos lugares para se esconder um a tatuagem .

Ela piscou e engoliu em seco audivelm ente, seus olhos descendo pelo m eu pescoço, onde um ram o de videira aparecia por baixo da gola da cam iseta.

— Quem sabe outra hora, então.

Eu m e voltei para Jenny, que roía as unhas, nervosa.

— Quer fazer isso hoj e? — perguntei. — Posso encaixar você.

Ela baixou a m ão para o colo e concordou com a cabeça.

Depois de ter definido os elem entos críticos, com o cor e localização (em bora, pela indicação de Jenny da própria virilha, eu soubesse bastante bem onde a tatuagem ia ficar), eu as m andei para o outro lado da rua, para o Serendipity. Assim elas podiam tom ar uns cafés e dar um a olhada em livros e artigos retrô enquanto eu adaptava o rascunho. Não precisava da tagarelice incessante de Lábios Cintilantes m e distraindo.

Elas saíram , e eu com ecei a trabalhar. Tinha acabado de passar das cinco. Meu próxim o cliente estava m arcado para as sete, m as o desenho de Jenny era pequeno e provavelm ente não dem oraria m uito, então eu esperava conseguir fazer um a pausa curta para um café. E dar m ais um a olhada na garota que m inha tia Cassie tinha contratado havia pouco tem po. Aquela m enina era gostosa, apesar de arisca.

Finalizei o desenho da gata chicoteadora e arrum ei a sala privativa. Jenny estava elétrica quando elas voltaram . Eu não sabia dizer se tinha sido nervosism o, anim ação ou cafeína dem ais o que a deixara tão agitada. Encam inhei as duas para a sala privativa e tentei acalm ar Jenny, explicando todo o processo. Difícil dizer se ela assim ilou algum a coisa do que falei, m as parecia um pouco m ais relaxada quando pedi que abaixasse o cós da saia.

Ela tirou o tecido do cam inho e expôs a calcinha sim ples, de algodão branco. Lábios Cintilantes se introm eteu e abaixou a calcinha de Jenny tam bém , deixando à m ostra m ais que o necessário. Tive um a confirm ação súbita de que Jenny era loira natural, nada perto do preto-azulado em sua cabeça. Mas não foi isso que cham ou m inha atenção. Debaixo daquela cam isa larga e da saia folgada, ela era dolorosam ente m agra, os ossos de seus quadris protuberantes. Um desses tipos m agricelas, que não têm nem um gram a de gordura corporal para am ortecer a picada da agulha. Isso seria péssim o para ela.

Apesar do que a tatuagem sugeria, ficou claro que Jenny se sentiu desconfortável pela m aneira abrupta com que sua am iga ultrazelosa arrancou sua calcinha. Agi com o se nada tivesse acontecido e continuei falando enquanto transferia o estêncil para a pele dela.

Jenny tinha um a resistência baixa à dor. Isso ficou notoriam ente óbvio quando com ecei o contorno — e essa era a parte fácil. Tive que parar quatro vezes e deixar que a am iga dela a confortasse para então continuar de onde tinha parado. O que deveria ter levado trinta m inutos acabou levando m ais de um a hora.

Quando, por fim , term inei o pós-tratam ento da tatuagem e m andei Jenny e a am iga tom arem seus rum os, j á tinha passado das seis e m eia.

Esfreguei a nuca e suspirei.

Lisa, responsável pelos piercings, estava em poleirada em um banco atrás do balcão do caixa, polindo um a bandej a de j oias de nariz. Ela m e lançou um olhar com em patia.

— Achei que essa fosse ser rápida.

— E era para ser. Baixa resistência à dor.

— Dava para perceber. A m enina era só osso — respondeu ela.

Bufei, m as não fiz nenhum com entário. Havia um a pilha de livros na beirada do balcão de vidro. Dei um a olhada neles.

— São para você. Tenley trouxe.

— Quem ? — perguntei. Aquele era um nom e exótico.

— Tenley. A garota que a sua tia contratou.

— Ela esteve aqui? Ela trouxe isso para m im ? — Ergui os livros. — Por que você não foi m e cham ar?

— Você estava no m eio de um a tatuagem . — O tom de voz dela condenava a estupidez da m inha pergunta.

— Quanto tem po ela ficou aqui? — Eu não conseguia acreditar que tinha perdido a visita dela.

— Uns cinco m inutos, talvez m ais. Ela deixou os livros, eu m ostrei alguns piercings, a apresentei ao Chris e ao Jam ie e ela voltou para o trabalho.

— Você a apresentou ao Chris? — perguntei.

Eu não m e preocupava com Jam ie. Ele e Lisa estavam j untos desde sem pre. Já Chris, m eu outro sócio e a terceira parte da nossa tríade de tatuadores, dava em cim a de qualquer coisa viva. Geralm ente se com portava bem com as clientes, m as nem sem pre.

Lisa m e olhou com o se eu estivesse m aluco.

— Ele estava bem ao m eu lado quando ela chegou. É claro que eu apresentei.

— Ele deu em cim a dela?

— Não. Ele não deu em cim a dela. — Lisa m e olhou de um j eito estranho.

Olhei ao redor. Chris não estava em sua estação de trabalho.

— E onde é que ele está?

— Saiu para com prar o j antar no restaurante tailandês aqui da rua. O que deu em você? Por que está tão estranho?

— Não estou estranho. — Passei a m ão pelo cabelo, tentando pensar no que eu queria dizer. Eu estava agindo de um j eito totalm ente estranho, sem fazer ideia do m otivo. — Aquela m enina é... sei lá...

— Gostosa? — perguntou Lisa, olhando fixam ente para m im .

Hesitei por um segundo antes de dar um a risada irônica.

— Esquece. Ela trabalha para Cassie. Só não quero Chris todo anim adinho.

— Não acho que ela sej a o tipo do Chris. Não é loira — disse Lisa, guardando a bandej a de piercings de volta no lugar.

— É. Mas m esm o assim .

Eu não queria que aquela garota fosse a exceção do Chris.

Desconfortável com a m aneira com o Lisa estava m e olhando, fiquei rem exendo os livros. Eram todos obras de filosofia, m as não a específica que eu tinha pedido.

— Sabe, Hay den...

O tilintar da porta a interrom peu. Chris entrou, gritando:

— Jantar!

Ele largou os sacos de com ida no balcão e com eçou a tirar o conteúdo. Eu só tinha vinte m inutos antes do cliente seguinte, o tem po exato para com er sem ter que apenas engolir a com ida. Se eu tentasse ir ao Serendipity, Lisa com eçaria a fazer perguntas. Não precisava atiçar o radar dela ainda m ais. Além disso, aquela Tenley estava no Serendipity quase todos os dias. Eu podia dar um pulo lá no dia seguinte.

 

Na tarde seguinte, tive um intervalo entre dois clientes, então corri até o Serendipity. A nova funcionária de Cassie estava lá. Eu não precisava vê-la para saber disso; senti seu perfum e, ou hidratante, ou o que quer que ela usasse que tinha um cheiro tão bom . Com o cupcakes. Que eu adorava.

Tentei bravam ente ignorar a bagunça enquanto olhava ao redor, procurando por ela no antiquário. Ela estava escondida. De novo. A últim a vez que eu a vira de perto tinha sido quando ela derrubara café com leite em um livro e saíra correndo. Ela estava lendo sobre m odificação corporal, o que eu achei legal.

Uns dias antes, eu tinha com prado um café para Tenley, para com pensar, pensando que aquilo m e daria um a chance para m e apresentar ou algo assim . Aquele plano tinha ido por água abaixo quando Cassie pegou o café e se ofereceu para entregá-lo por m im . Disse isso abrindo um daqueles sorrisos em que eu não confiava. Apesar de eu ter visto Tenley de longe, desde então m inhas tentativas de chegar perto dela tinham sido m alsucedidas. Ela parecia estar sem pre no porão quando eu passava por ali, e isso era irritante.

Cassie estava sentada ao balcão, a caneta parada no ar.

— Procurando algum a coisa, Hay den?

— Só a m inha tia favorita.

— Mentiroso.

Merda. Talvez ela tivesse m e sacado.

— Por que m entiroso? Só queria dizer um “oi” antes do m eu próxim o cliente.

— Aham .

Ela parou de olhar para a tela do com putador, anotou algum a coisa no bloco de papel à sua frente e m e lançou um olhar desconfiado.

Ignorei, preferindo acreditar que eu não era nem de perto tão transparente quanto com eçava a m e sentir.

— Obrigado por m e m andar aqueles livros ontem .

— Ouvi dizer que você estava ocupado com um a cliente.

— Sim . — Fiquei surpreso por ela saber isso. — Eu, é... Vou dar um a olhada na seção de filosofia para ver se você tem algum a coisa nova.

— É claro.

Ela fez um aceno com a m ão, sorrindo daquele j eito gentil até dem ais. Eu tom ei a direção dos fundos da loj a, torcendo para encontrar sua nova funcionária.

— Tenley está no porão.

Parei. E m e virei.

— O quê? — perguntei, m e fazendo de desentendido.

— A m enina que eu contratei. Aquela que você fica vindo ver, sabe? — As sobrancelhas dela se ergueram , desafiadoras. Com o eu não disse nada, ela continuou: — Ela está no porão, arrum ando alguns produtos novos.

— Certo. — Ignorei a provocação sobre m inhas visitas frequentes e o m otivo delas. — Ela está se saindo bem ?

— Ela aj uda bastante. Mas provavelm ente vai ter que reduzir a carga horária quando o período com eçar.

— Ela é estudante?

— Aham . Faz m estrado na Northwestern. Acho que é um a bolsa de estudos.

A m ensalidade de lá é cara, então um a bolsa não era pouca coisa. Significava que ela, além de gostosa, era inteligente.

— Ah. Ela m ora aqui por perto?

Cassie largou a caneta e m e lançou um olhar especulativo.

— Você está fazendo m uitas perguntas hoj e.

Dei de om bros.

— Você nunca contratou nenhum aj udante. Fiquei curioso.

Cassie apontou para o teto.

— Aluguei o apartam ento aqui de cim a para Tenley. Ela se m udou faz poucas sem anas.

Pisquei.

— Sério?

Que conveniente, j á que eu m orava do outro lado da rua, em um apartam ento em cim a do Inked Arm or.

— Ela é de Minnesota — contou Cassie, divulgando m ais um a inform ação.

Era com o se ela estivesse balançando cupcakes na m inha frente; não tinha com o eu não querer m ais.

— Cidade pequena?

— Algum lugar nos arredores de Minneapolis, eu acho. Sabe, Hay den, você podia sim plesm ente conversar com ela e conseguir todos esses detalhes.

Eu m e lem brei da prim eira reação dela a m im : o café derram ado, a fuga rápida. Se ela vinha de algum a cidadezinha desconhecida, eu provavelm ente a assustava pra caram ba.

— É. Não sei não.

— Ela não conhece m uitas pessoas aqui. Seria bom para ela, ter um am igo.

Eu tinha bastante certeza de que não daria um bom am igo, considerando que j á estava tendo um a sem iereção só de falar nela.

— Ela tem conversado com Lisa — falei.

Lisa era um a boa pessoa para Tenley conhecer. Além de Cassie, era a única m ulher que eu considerava um a am iga próxim a. Ela era com o um a irm ã para m im .

Meu celular vibrou no bolso. Dei um a olhada no núm ero.

— Parece que m eu cliente chegou m ais cedo. Preciso pegar o café da Lisa e voltar ao trabalho. Vej o você depois.

Atravessei o Serendipity até o café, pedi as bebidas e voltei, passando pela loj a para o caso de haver algum a chance de Tenley ter aparecido m agicam ente enquanto eu estava fora.

Quando passei por Cassie, ela ergueu os olhos da papelada no balcão para m e lançar um olhar.

— Ela trabalha am anhã às quatro. Caso você estej a pensando em dar outro pulo aqui.

Apenas acenei e abri a porta.

 

Term inei com o últim o cliente pouco depois das dez. Chris estava querendo curtir a noite e eu estava agitado o suficiente para acom panhá-lo. Eu não era m ais m uito fã da cena noturna, m as precisava relaxar. Com a tem porada de calouros com eçando, o fluxo constante de gente que aparecia sem m arcar horário não acabaria tão cedo. Sair era um a boa m aneira de desviar m eus pensam entos dos desenhos sem graça que estavam por vir.

Trancam os o estúdio e andam os os três quarteirões até o bar. Era um a noite m ovim entada, os universitários estavam am ontoados feito sardinhas. Chris guiou o cam inho pelo m eio da m ultidão, abrindo espaço por entre pessoas com o se fosse o m ar Verm elho. Chris era um cara grande. Apesar de term os m ais ou m enos a m esm a altura, ele era m ais largo e m ais m usculoso, o que era m uito, j á que eu não sou exatam ente m agricelo. Ele não curtia m uito piercings, m as era coberto de tatuagens. Quando não estava sorrindo, o que fazia a m aior parte do tem po, ele era assustador pra caralho.

Chris procurou algum atendente. Do outro lado estava um cara seboso com cara de bebê; com certeza teríam os que esperar uns cinco m inutos para serm os atendidos por ele. A apenas alguns m etros, um a loira falsa plastificada e com peitos duvidosam ente verdadeiros acenou para Chris. Ele se aproxim ou, os olhos descendo para o peito m ontanhoso dela enquanto pedia duas rodadas de cervej as. Com o ele era previsível. Brindam os a prim eira e viram os de um a vez. A segunda, tom am os m ais devagar. Mesm o assim , não dem orou m uito para eu cham ar a bartender de novo e pedir m ais um a rodada. Com a cervej a na m ão, m e virei para olhar a pista de dança. Um hardcore agressivo explodia pelas caixas de som , tornando im possível conversar. Não que Chris quisesse conversar; estava ali para conferir a m ulherada. Eu estava ali para m anter m inha m ente longe de outras coisas. Mas não estava funcionando m uito bem .

— Você está bem , Hay den? — gritou Chris por cim a da m úsica.

— Sim , tudo bem . — Bati a cervej a na dele e dei um gole.

Agora que estava ali, eu não sabia se queria ficar. A princípio, o plano era evitar ir para casa. Em geral eu ficava ansioso para m e ver sozinho, m as a ideia de voltar para aquele espaço vazio não tinha m e atraído naquela noite, então ali estava eu.

Um a garota de cabelo escuro e com prido atravessava a m ultidão. Quando a luz bateu em seu rosto, senti um a estranha pontada de decepção. Eu reparava em todas as m ulheres que se encaixavam rem otam ente na descrição de Tenley, para o caso de ela estar ali. O que era idiota, considerando o núm ero de boates, pubs e bares no centro de Chicago. Mas isso não m e im pedia de olhar.

Caram ba, eu realm ente precisava de um hobby.

— O que você tem ultim am ente? Tem algum a coisa acontecendo que você não está m e contando?

— Não. Só estou entediado — respondi, tom ando um grande gole de cervej a.

— Então fique com alguém . Isso deve aj udar. — Chris sorriu.

Eu duvidava m uito, m as não expressei essa opinião.

Ele conversou com algum as garotas enquanto bebia cervej a, procurando pela eleita daquela noite. Já tinha recusado duas. A garota com quem Chris estava agora era um a dessas j á alcançando a m eia-idade, que caçam hom ens m ais novos, m as isso não im portava para ele.

Ela colou nele e ficou babando em suas tatuagens. Ouvi quando a garota perguntou se havia m ais debaixo da cam iseta. O convite inevitável — Chris se oferecendo para levá-la ao apartam ento dele, para um a exploração m ais detalhada — veio em seguida. Ele teria sorte se conseguisse chegar até lá; a m ulher estava praticam ente m ontando nele bem ali no bar. A provável fornecedora de orgasm os de Chris não era alguém que eu consideraria levar para casa. Seu cabelo oxigenado e seus lábios cheios de colágeno lem bravam dem ais alguém com quem eu tinha m e envolvido.

Quando vi a m ão dela m igrar para o sul e apalpá-lo abaixo do cinto, decidi que era hora de ir em bora. Não pretendia levar ninguém para m inha casa, nem ir para a casa de ninguém . Eu costum ava aproveitar aquelas oportunidades quando apareciam , o que era frequente, m as no últim o ano tinha passado a achar a ideia cada vez m enos atraente. Realm ente não conseguia m e lem brar da últim a vez que tinha ido para casa com alguém só para transar. Mesm o antes, quando fazia isso, eu nunca tinha passado a noite na casa de um a garota. Era só um a questão de fazer a m ulher gozar, entrar, gozar, e ir em bora. Sem trocar telefones. Sem prom eter ligar.

Cutuquei Chris.

— Estou indo.

Ele olhou para m im franzindo a testa, tornando os traços fortes de seu rosto quase sinistros.

— Tem certeza? Ela tem um as am igas, caso você queira ficar.

Ele inclinou a cabeça na direção de outras duas m ulheres, am bas nos observavam , conversando entre si. Nenhum a delas parecia m uito preocupada com a am iga.

— Obrigado, m as estou tranquilo. — Virei o restante da cervej a. — Vej o você am anhã.

Abrindo cam inho por entre corpos suados e dançantes, acabei com um a bunda pressionada no m eu pau. A m enina estava bêbada dem ais para saber o que estava acontecendo. Ela olhou por cim a do om bro, olhos se arregalando em choque enquanto assim ilava m inha aparência. Então se virou, e o que ainda restava em seu copo de plástico foi derram ado no m eu braço e na m inha cam iseta. Ela balbuciou um pedido de desculpas e lim pou m eu braço com a m ão, com o se isso fosse aj udar. Eu m e afastei, sem querer que ela m e tocasse, e continuei rum o à saída.

Não fui abordado de novo no cam inho, o que foi bom , porque m inha paciência estava se esgotando. O ar do lado de fora da boate estava tão úm ido quanto antes, m as um pouco m enos opressor. Minha cam iseta estava m olhada da bebida derram ada e, apesar de m eu braço estar quase seco, a pele estava grudenta do coquetel de frutas.

Levei apenas 15 m inutos para chegar em casa a pé, m as não foi o bastante. Eu estava tenso naquela noite, e m inha pele parecia apertada. Era tarde dem ais para ir correr, e, com o eu tinha tom ado quatro cervej as, não teria coordenação suficiente para encarar a esteira da academ ia do prédio. Com provei esse fato ao parar na frente do edifício e m e atrapalhar com o chaveiro, deixando-o cair na calçada.

Quando levantei, m eus olhos passaram pelos apartam entos acim a do Serendipity. O da direita estava ocupado havia algum tem po, m as o da esquerda só estava ocupado havia algum as sem anas. Agora, graças à m inha tia, eu sabia quem m orava lá.

Algum as luzes do apartam ento estavam acesas, as j anelas totalm ente abertas. Música escapava por elas, baixa dem ais para que eu conseguisse reconhecê-la. As cortinas balançaram com um a raj ada de vento e grudaram o tecido contra a tela antes de inflá-lo de novo. Ia chover naquela noite. Eu sentia isso pelo ar pesado e denso do verão.

Peguei o chaveiro e abri a porta, entrando no saguão com ar-condicionado. Subi as escadas até o segundo andar em vez de pegar o elevador. Quando cheguei ao apartam ento, tranquei a porta e guardei os sapatos no arm ário. Então acendi as luzes e dei um a geral em tudo: cozinha, sala, corredor, banheiro, quarto de hóspedes, suíte. Depois que todos os côm odos tinham passado pela m inha inspeção visual, voltei à cozinha e m e servi um copo d’água. Tudo estava com o eu tinha deixado: lim po, organizado, nada fora do lugar. Após beber toda a água em um gole só, enchi o copo de novo e o levei para o quarto. Coloquei-o sobre um porta-copos para evitar que a superfície de m adeira da m esa de cabeceira ficasse m arcada, porque eu sou paranoico com esse tipo de m erda.

Fui até a j anela, planej ando fechar as cortinas antes de ir tom ar banho. O Serendipity era do outro lado da rua, à direita, um a casa de dois andares reform ada, esprem ida entre um edifício residencial baixo e um prédio com ercial de três andares.

Meu apartam ento no segundo andar m e dava um a visão perfeita do apartam ento de Tenley. As cortinas ainda estavam abertas, perm itindo ver tudo lá dentro. Ela tinha um as porcarias de m óveis, o que fazia sentido, j á que era estudante. Havia um sofá e um a poltrona com um a m esa de centro, m esinhas de apoio de cada lado do sofá, com pequenos abaj ures dando um brilho suave à sala. Prateleiras cobriam a parede dos fundos. Um a TV de tela plana estava pendurada na parede oposta.

Eu estava prestes a fechar a cortina quando ela apareceu, vindo do corredor. Eu conhecia aquele apartam ento, j á tinha estado lá, quando m eu tio Nate o com prara. Era um a pocilga habitada por viciados. Nate tinha m elhorado substancialm ente o bairro ao se livrar daqueles m aloqueiros e com eçar as reform as. Eu aj udei a lim par a casa. Naquela época, estava lutando com m eus próprios dem ônios, e ver com o era o fundo do poço foi um puta de um alerta.

Tenley foi até a geladeira e abriu o congelador. Pegou um a form a de gelo e um a garrafa, m as foi a roupa dela que cham ou m inha atenção. Ela usava um short bem curto e j usto, revelando um a bela visão do contorno de sua bunda. A regata branca não dava m uito espaço para a im aginação, com alças tão finas que eram quase invisíveis dali. Se eu apertasse os olhos, ela parecia quase pelada. Mas todas as partes im portantes estavam cobertas, especialm ente aquelas em que boa parte das garotinhas inocentes esconde sua arte corporal. Tenley podia ser um a dessas, m as eu preferia a ideia de que ela não tinha nenhum a tatuagem . Não pensei por que aquilo im portaria.

Em vez disso, com o um pervertido, fiquei observando-a preparar um drinque.

Um a hora ela abriu a porta da geladeira e a luz interna acentuou cada linha e cada curva de seu corpo esbelto. Ela ficou ali um bom tem po, depois se curvou para a frente. Por um segundo desej ei ter binóculos; então percebi que im becil eu seria de fazer aquilo.

Mas isso não m e im pediu de ficar duro ou de esperar que ela term inasse de preparar o drinque e desaparecesse pelo corredor antes de fechar a cortina. Mesm o então, continuei na j anela, esperando que ela tivesse esquecido algum a coisa e reaparecesse. Quando pingos de chuva com eçaram a respingar na vidraça, finalm ente m e virei.

Tirei as roupas e as j oguei nos cestos organizados por cores, no closet. Então fui para o banheiro. Queria tom ar um banho antes de ir para a cam a. Regulei a luz para que ficasse em um ponto am eno antes de ligar o chuveiro. Enquanto esperava esquentar, escovei os dentes. O banheiro j á estava tom ado pelo vapor quando entrei debaixo da água quente.

Fiquei olhando para m eu pau, que estava em pé e alerta sem nenhum a intenção im ediata de sossegar. Eu atribuía aquilo parcialm ente à roupa de Tenley, em bora tam bém se tratasse de um condicionam ento pavloviano, parte da m inha rotina diária: acordar, tom ar banho, bater um a, ir trabalhar, voltar para casa, tom ar banho, bater um a, ir para a cam a. Era com o com er: às vezes, por m era form alidade; às vezes, por prazer; sem pre por necessidade. Andar por aí com um a sem iereção o dia todo não era apenas desconfortável, era antiprofissional e constrangedor.

Não dei um j eito na m inha ereção logo de cara, apesar de querer. Prim eiro lavei o cabelo e m e ensaboei. Enquanto isso, fiquei repassando os acontecim entos do dia: das sessões de tatuagem à conversa com Cassie sobre sua nova funcionária até a porcaria da ida ao bar, finalm ente parando na im agem de Tenley em frente à geladeira com sua roupa quase nula.

Tinha passado o dia todo agitado pra caralho, ainda m ais depois da ida ao Serendipity. Aquilo m e lem brava da época anterior à m inha recuperação, quando eu não conseguia sossegar porque estava atrás de um a dose. Só que agora não era um a dose do tipo quím ico que eu queria, m as um corpo quente e nu de um a m ulher. Olhei para m eu pau de novo. Agora ao m enos ele tinha um m otivo válido para estar tão duro quanto um a barra de titânio. Aquela fixação com Tenley era ridícula, e eu só a tinha piorado ao espionar a garota na privacidade da própria casa.

Suspirei, peguei o condicionador e coloquei um pouco na m ão. Segurando m inha ereção com firm eza, cobri m eu pau com a substância escorregadia. Baixei a cabeça ao apoiar a outra m ão na parede e com eçar a m e tocar. O alívio foi instantâneo.

Tentei desligar m eu cérebro, m e focar apenas na sensação, m as não conseguia tirar a im agem de Tenley da m inha cabeça. A luz interna da geladeira tinha criado um a aura em torno do corpo curvilíneo e esbelto, fazendo-a parecer um anj o sem inu. Ou um a pin-up. Deixei m inha m ente levar a fantasia para onde ela quisesse ir. O short se transform ou em um a calcinha de renda, m as m antive a regata porque era branca e eu tinha planos para ela.

Na m inha im aginação, ela tirava um a garrafa d’água da geladeira. Fechei os olhos com força e continuei m e m asturbando, acelerando à m edida que Tenley destam pava a garrafa, a levava à boca e bebia a água. Um a trilha fina escorria por seu queixo, pingando em seu peito e entre seus seios, que na m inha m ente eram em pinados, com m am ilos pequenos e delicados. Os pingos se transform avam em um a corrente, que virava um a cascata — um a cachoeira encharcando aquela regata branca e aquela calcinha de renda, m e m ostrando exatam ente o que havia por baixo.

Gozei com tanta intensidade que m inhas pernas quase cederam .

Fiquei parado ali por um tem pão, ofegando, o rosto contra o azulej o, sem saber ao certo o que tinha acabado de acontecer. Eu m al tinha coordenação para desligar o chuveiro. Quando finalm ente consegui m e m exer, saí do boxe e m e sequei de qualquer j eito, ainda m e recuperando da cena que m eu cérebro tinha criado.

Apaguei as luzes, cheguei à cam a e m e larguei no colchão, torcendo para pegar no sono de im ediato. Mas não consegui. Fiquei deitado ali por uns dez m inutos antes de perceber que a névoa do sono pós-orgasm o tinha se esvaído. Então m e virei de barriga para cim a e olhei para baixo, perplexo ao notar que a barraca ainda estava arm ada por baixo dos lençóis. Eu queria que ela baixasse, m as não baixou. Talvez eu não devesse ter prolongado a espera antes. Talvez fosse com o um a reserva ou algo assim . Mas eu não ia ceder. Podia esperar até de m anhã.

Vinte m inutos depois, eu ainda estava acordado, m as ao m enos m inha ereção tinha ido em bora. Quase. Eu sabia qual era o problem a, m esm o que não quisesse adm itir. De algum a form a, aquela garota tinha m ontado acam pam ento no fundo da m inha m ente e eu não conseguia tirá-la de lá.

Só que agora eu não estava pensando nela nua. Estava apenas pensando nela; em sua expressão quando estava concentrada, no seu cheiro incrível. O que era incom um , porque eu nunca tinha ficado a fim de alguém desse j eito antes. Geralm ente, quando eu batia punheta, era pensando em corpos sem nom e e sem rosto.

Mas eu podia resolver aquela obsessão idiota rapidinho. Era só conversar com ela. Na próxim a vez que eu fosse ao Serendipity, ia descobrir que ela era apenas m ais um a pirralha universitária insípida e pretensiosa e esqueceria aquela fantasia. Só que eu j á sabia que ela era inteligente. Não sabia se era arrogante, m as Cassie dificilm ente contrataria alguém assim . Enfim . Tenley ia trabalhar no dia seguinte. Eu poderia observá-la m elhor.

O fato de eu saber os horários dela deveria ser um indício de que m eu plano era furado. Mas a negação é um a coisa engraçada. Perm itia que eu j ustificasse as im agens que andavam pela m inha cabeça, nem todas vívidas, m as sem pre envolvendo Tenley. E, se eu fosse realm ente honesto com igo m esm o, coisa que eu raram ente era, adm itiria que não queria que a ilusão se desfizesse.

Porque, de repente, m eu exílio controlado e autoim posto não parecia m ais tão atraente.

Pela prim eira vez em anos, eu queria... algum a coisa. Qualquer coisa. Desde que fosse real.