Doce Tatuagem

Helena Hunting · Capítulo 3 de 3

Páginas do PDF

Doce Tatuagem

À Flor da Pele

Vá para a outra página para dar um a espiadinha em com o

tudo com eçou para Hay den e Tenley

1

 

HAYDEN

 

Minha cabeça doía. Um a noite m al dorm ida pra caram ba tinha transform ado o que era levem ente irritante em insuportável. Entre os bandos de calouros que passavam pelo estúdio nos últim os tem pos e a donzela que estava em m inha cadeira naquele m om ento, para m im não dava m ais.

Massageei a têm pora para aliviar as m arteladas chatas que tinham surgido ao longo do dia. Mais dez m inutos e eu term inaria o desenho, se conseguisse m anter a concentração. Era difícil vencer essa batalha, j á que estava preocupado. Depois da tatuagem de unicórnio não havia nenhum a outra sessão m arcada, e ainda restaria m ais de um a hora até fecharm os. Se eu desse azar, ficaria preso ali com outro desses pirralhos universitários que não m arcam horário e querem um personagem de desenho estam pado na pele.

Eu preferia term inar com m inha cliente para poder dar um pulo do outro lado da rua, no sebo e café da m inha tia Cassie. Escapadinhas para um café no Serendipity haviam se tornado m eu passatem po preferido nas últim as quatro sem anas, desde que Cassie contratara a garota nova. Ela era a razão de eu estar tão distraído. Não a tinha visto nos últim os dias, m esm o com o aum ento de m eu consum o de cafeína, e estava tentando dar um j eito nisso o m ais depressa possível.

Passei um pano úm ido sobre a tinta fresca. A garota em m inha cadeira estava relativam ente quieta desde que eu com eçara a som brear o contorno, o que era ótim o. Eu não estava com paciência para papo furado. Então, m e concentrei no barulho da m áquina de tatuar. Aquele som nunca m e incom odava. Era calm ante, com o um a boa m úsica.

Eram os outros ruídos que enchiam o saco: as conversinhas idiotas dos adolescentes, o bater de um pé nervoso no chão de m adeira e, no rádio, o zum bido alto de um repórter que tagarelava as desgraças do dia. O tim bre anasalado da voz dele m e irritava pra cacete. Mesm o assim , eu não conseguia parar de ouvir, seduzido pelo desej o de saber que as vidas de outras pessoas estavam piores do que a m inha.

— Dá para abaixar o volum e? — pedi a Lisa, nossa contadora e colocadora de piercings.

— Já vai. — Ela m e dispensou com um aceno, m as pegou o controle rem oto.

Os outros artistas do estúdio tam bém estavam trabalhando, concentradíssim os nos clientes. Eu parecia ser o único com dificuldade para focar. O sino da porta tilintou, m e poupando de ficar ainda m ais irritado. Lisa m udou o rádio de estação e batidas pesadas de rock tom aram conta do lugar, o baixo fazendo o chão vibrar. Então ela colocou a m úsica em um volum e aceitável.

Parei e dei um a olhada para a porta, rezando para que não fosse outra universitária sem sal querendo dar um a de rebelde. O cliente seguinte seria m eu. Desse j eito, eu j am ais conseguiria ir ao Serendipity antes de fechar.

Qualquer preocupação evaporou assim que vi a nova funcionária de Cassie. Ela segurava um a pilha de livros na altura do peito, com o um escudo, o cabelo com prido esvoaçando ao redor do rosto. Seus olhos desviaram quando ela percebeu que eu estava olhando.

O nom e dela era Tenley. Eu não sabia disso porque havíam os sido form alm ente apresentados — em bora eu tivesse falado com ela algum as vezes —, m as porque Cassie m e dera essa inform ação quando pedi. Com o um a verdadeira fonte, Cassie m e contou tam bém que Tenley era de Arden Hills, em Minnesota, e que estava fazendo m estrado na Universidade Northwestern. Mas ela não agia com o um a daquelas esnobes sabe-tudo típicas das grandes universidades. Parecia bastante pé no chão, pelo pouco que tínham os conversado. O que, verdade sej a dita, não tinha sido lá m uita coisa.

A prim eira vez que a vi foi quase um m ês atrás. Fui até o Serendipity visitar m inha tia e com prar café, o que não era incom um . Já a nova aquisição da loj a da Cassie... essa era. Ela estava entocada atrás do balcão com um livro sobre com portam entos m arginais erguido à frente, de m odo que só dava para ver seus olhos. Estava tão im ersa na leitura que não ouviu o sino da porta tilintar, alertando sobre m inha entrada.

Eu a assustei quando perguntei se Cassie estava por ali, com o um a desculpa para observá-la m ais de perto. O livro dela caiu, e, com ele, o copo de café pela m etade, m anchando a página com o líquido m arrom . Quando m e ofereci para aj udá-la a lim par, ela balbuciou um m onte de coisas sem sentido e quase caiu do banco. Ela era m aravilhosa, m esm o com o rosto ganhando um tom de verm elho vibrante. Cassie apareceu dos fundos da loj a para ver que confusão era aquela. Aquilo pôs um fim à interação núm ero um .

Todas as vezes seguintes em que fui até lá, ela estava ou enfurnada no porão, exam inando as incontáveis caixas de aquisições para a loj a, ou escondida entre as estantes, organizando os livros. Cassie não tentou m e im pedir quando fui até a seção de filosofia para ver se tinha algo de interessante por lá, além da garota Tenley. Encontrei-a sentada no chão com um a pilha de livros apoiados no j oelho, organizando-os em ordem alfabética antes de guardá-los nas prateleiras. Eu j á estava apaixonado pelas habilidades organizacionais dela.

Fiz questão de pigarrear para evitar surpreendê-la dessa vez. Não adiantou. Ela ofegou, levando a m ão trêm ula ao pescoço quando olhou para m im . Tenley era estonteante: seu cabelo preto quase encostava no chão de tão com prido, seus traços eram delicados, os olhos eram cinza-esverdeados, em oldurados por cílios grossos. O nariz era perfeitam ente reto; os lábios, cheios e rosados. Ela não parecia estar usando m aquiagem .

— Não quis assustar você — falei, porque era verdade. Eu tam bém olhava fixam ente para ela. — Sou o sobrinho da Cassie, Hay den.

Os olhos dela m e exam inaram dos pés à cabeça, pausando nas tatuagens à m ostra em m eus braços para assim ilá-las antes de continuar seu traj eto. Ela descruzou as pernas longas e esguias e se apoiou na prateleira para se levantar. Retraiu-se de leve no processo, com o se estivesse sentada por m uito tem po e tivesse ficado travada. Era bem m ais baixa que eu, m agra e com curvas suaves.

— Você é o dono do estúdio de tatuagem do outro lado da rua — com entou ela.

— Isso. — Indiquei as prateleiras. — Estou procurando O nascimento da tragédia.

Ela m e olhou com curiosidade e passou o dedo pelas lom badas dos livros enquanto as analisava.

— Não vi nenhum Nietzsche por esses dias, m as, se encontrar algum a coisa, posso levar para você... Para o Inked Arm or, digo.

Sorri, gostando da ideia de tê-la em m eu estúdio.

— Claro. Pode dar um a passada lá m esm o que não encontre um exem plar.

— Hum ... Eu não... Talvez. — Ela olhou para baixo e se agachou para pegar o restante dos livros no chão. — Melhor eu guardar isso aqui.

O cabelo de Tenley esvoaçou quando ela se virou. O arom a de baunilha se dispersou quando ela sum iu de vista, deixando um cheiro de cupcakes no ar. A interação núm ero dois foi um tanto m elhor do que a interação núm ero um . Eu estava intrigado, o que era raro para m im . Não havia m uitas coisas que cativassem m inha atenção.

Levou um tem po até eu encontrar Tenley de novo. Dessa vez, quando entrei na loj a, ela ouviu o sino. Estava sentada ao caixa. Havia um caderno de rascunhos aberto à sua frente. Ao lado dela, um a pilha de livros com um prato de cupcakes em cim a. Em um a das m ãos, ela segurava um a caneta Pitt preta. Na outra, um cupcake. Eu tinha um fraco por essa sobrem esa específica.

Cheguei no m om ento em que ela dava um a m ordida; os lábios abertos, os dentes afundando na cobertura crem osa. Ela deu um gem ido de aprovação, um som que eu poderia atribuir a um orgasm o especialm ente satisfatório. Ao m enos foi assim que m inha im aginação interpretou aquele som . Os olhos dela, que estavam fechados em um a expressão fam iliar de êxtase, se abriram com o barulho da porta. Ela logo colocou o cupcake no balcão, cobrindo a boca com a m ão enquanto m astigava.

— Parece que está gostoso.

Sorri, vendo o rosto dela adquirir um tom sugestivo de verm elho. Sua garganta se m oveu ao engolir, nervosa, e ela lim pou a boca com a m ão, os olhos fixos no balcão. Dei um a olhada no caderno aberto. Um a única pena, desenhada com detalhes im pressionantes, ocupava a página. Cham as cobriam um dos lados, consum indo-a, anéis de fum aça erguendo-se no ar.

— Você é artista?

Ela fechou o caderno, puxando-o para si.

— São só uns rabiscos.

— Uns rabiscos bastante detalhados, na m inha opinião.

Ela guardou o caderno em um a gaveta debaixo do balcão. Seus om bros se curvaram e ela m e olhou com um a sugestão de sorriso no rosto.

— Tenley, m e aj ude aqui? — gritou Cassie dos fundos da loj a.

— Estou indo! — Ela desviou os olhos. — Ainda não encontrei seu Nietzsche, m as estou de olho.

— Obrigado por se lem brar de m im .

— Não é nada, m esm o. Pode pegar. — Ela apontou para o prato de cupcakes e desapareceu nos fundos da loj a com um aceno.

Eu j am ais diria “não” para cupcakes, então peguei um e devorei o bolinho com cobertura em três m ordidas enorm es. Estava incrível. Peguei um post-it, escrevi um recado e o colei no prato.

Quando ficou óbvio que ela não voltaria tão cedo, atravessei o Serendipity até o café anexo. Passei pela loj a quando saí, m as era Cassie quem estava ao balcão em vez de Tenley. Peguei m ais um cupcake, porque eram realm ente ótim os.

Isso aconteceu cinco dias atrás; daí a im paciência com a cliente debaixo da m inha agulha. Parecia que eu não precisaria m ais m e preocupar, agora que a distração em questão estava ali em m eu estúdio, parecendo bem desconfortável.

O nervosism o dela m e deu um a grande oportunidade de observá-la de novo. Tenley usava um a blusa preta de m angas com pridas e um a calça j eans escura. O contorno esbelto deixava transparecer a curva suave de seus quadris e de suas pernas esguias, que term inavam em um par de All Stars roxos estropiados, com o se, na hora de escolher os sapatos, ela j á não se im portasse com m ais nada. Com o de costum e, ela não tinha nenhum artifício. Fiquei curioso para ver se escondia algum a coisa digna de nota debaixo daquelas roupas. Se a m aneira com o ela pairava perto da porta fosse um indicativo de seu incôm odo naquele lugar, ela devia ser um a virgem de tatuagens.

— Tenley !

O cum prim ento anim ado de Lisa cham ou a atenção dela, dando-lhe algo inofensivo para olhar.

— Cassie contou que eu encom endei m ais piercings?

Um sorriso sincero ilum inou o rosto de Tenley quando ela se aproxim ou da m esa onde Lisa estava sentada. Fiquei incom odado por ela m al ter olhado para m im , por preferir ficar de conversinha e gracinhas com Lisa.

Ironicam ente, toda vez que Lisa ia até o Serendipity para com prar café, Tenley parecia estar disponível, segundo os relatos recentes de Lisa. As duas pareciam ter ficado am igas. Era fácil adivinhar com o isso tinha acontecido.

O cabelo rosa-claro de Lisa e seu look dos anos 1950 sem pre cham avam atenção. Ela era com o um raio de sol em form a hum ana, com um a argola no nariz, um piercing no lábio superior im itando a pinta da Marily n Monroe e um a tatuagem que cobria m etade do braço. Um a m istura de June Cleaver com um a Suicide Girl. Lisa m antinha um círculo pequeno de am izades, por isso era difícil para ela desapegar de algum as am igas do passado que não eram as m elhores com panhias. A m aioria ainda estava subm ersa no m undo de drogas do qual Lisa conseguira escapar. Um a nova am iga não faria m al, e Tenley parecia bastante norm al, no m áxim o m eio m oderninha.

Tenley colocou os livros no balcão com as lom badas viradas para m im . Parecia que ela havia encontrado m eu Nietzsche. Eu estava a fim de um a leitura m ais pesada.

— Só passei para deixar isto aqui para o Hay den.

Ela não olhou para m im quando disse m eu nom e. Eu queria que tivesse olhado. Sua voz rouca, com binada com o corpo escultural, resultaram em um desconforto im ediato abaixo da m inha cintura. Era inconveniente, m as nada que m e surpreendesse, considerando o quanto eu a achava atraente, além de fascinante.

Aquela não era a prim eira vez que ela aparecia por ali. Cassie a havia m andado alguns dias depois do incidente com o café, com alguns livros para m e entregar. Infelizm ente, eu estava ocupado com um a cliente na sala privativa, então não tínham os nos encontrado. Agora que ela estava ali, no m eu m undo, eu queria conversar com ela. Talvez conseguir que ela m e lançasse um daqueles sorrisos que ela dirigia a Lisa. Isso podia ser pedir um pouco dem ais; não sou exatam ente um cara que exala calor hum ano.

— Vou term inar em cinco m inutos, se quiser esperar — falei, torcendo para que ela m ordesse a isca.

Os olhos de Tenley passaram por m eu braço, pausando na tatuagem exposta. Ela só conseguia olhar até m inha boca. É, eu ainda a deixava nervosa. Ela apontou com o polegar por cim a do om bro.

— Cassie está m e esperando.

— Tenho certeza de que ela vai sobreviver sem você por uns m inutos.

Tenley olhou para o outro lado da rua. Pelas j anelas, eu via Cassie sentada ao caixa, debruçada sobre o que parecia ser a papelada do dia de trabalho. Para m e aj udar, o neon de “Fechado” estava piscando.

Ela se virou de novo para Lisa.

— Acho que posso dar um a olhada nos piercings.

A resposta podia não ter sido dirigida a m im , m as aceitei m esm o assim . Lisa enganchou o braço no de Tenley e a levou à sala dos piercings antes que ela m udasse de ideia. Vi as duas desaparecerem pela porta e continuei trabalhando.

Depois da últim a visita de Tenley, eu tinha ido até o Serendipity para lhe agradecer, m as ela j á tinha encerrado o expediente. Cassie m e prom eteu repassar o recado, e m e disse tam bém quando seria o turno seguinte de Tenley. Não que isso fosse necessário. Eu j á tinha decorado os horários dela. Não conseguia entender por que Cassie estava tentando j untar a pobre m enina com alguém com o eu; eu a devoraria com o café da m anhã. Com isso, im aginei com o ela ficaria deitada na m esa da m inha cozinha, nua. Gostei da ideia.

Apesar das distrações, enfim term inei o desenho da m enina que estava na m inha cadeira. Ficou o m elhor possível, considerando-se o que era. Quando acabei, expliquei os cuidados que ela teria que tom ar, enfatizando que deveria ficar longe das câm aras de bronzeam ento pelos m eses seguintes. Ela não tinha conseguido aquele tom alaranj ado artificial digno de um Oom pa Loom pa apenas passeando por Chicago no final de setem bro.

Ao conversar com ela, confirm ei m inha prim eira hipótese: era caloura da Universidade de Chicago e aquela era a prim eira vez que m orava longe de casa. A garota tinha até conseguido descolar um a identidade falsa, que m e m ostrou com orgulho, pensando que eu fosse ficar im pressionado. Nem m e dei ao trabalho de dizer que ela tinha j ogado dinheiro fora, j á que a falsificação era um lixo. Ela descobriria sozinha quando tentasse usá-la. Nas últim as sem anas, m inha base de clientes tinha sido com posta por diversas versões da m esm a m enina. Aquilo estava ficando chato.

Os universitários tinham um a tendência a ser m ais rebeldes no com eço do período letivo, quando a liberdade deles ainda estava bem recente. Nada indicava m ais inconform ism o do que um a rosa estrategicam ente tatuada em um peitinho. Era raro eu recusar algum cliente, m as m inha alm a artística m orria um pouco a cada vez que um daqueles pirralhos escolhia um desenho da parede e m e pedia para gravá-lo em seu corpo.

Chris, um dos m eus sócios, tinha conseguido term inar o serviço no cliente dele antes de m im . Já estava no caixa, dando um a olhada na agenda, enquanto eu finalizava com m inha cliente e a m andava seguir seu rum o. Esperei ele com eçar com a gozação. Eu j á sabia que Chris, acim a de tudo, adorava m e irritar.

— Essa aí parecia superlegal. Ficou com o telefone dela?

Não respondi. O núm ero dela j á estava registrado no sistem a, e eu j am ais o usaria para fins pessoais. Além da falsidade nada atraente da garota, tínham os um a regra no estúdio que não podia ser quebrada: não com a clientes. Tanto eu quanto Chris aprendem os a duras penas por que isso não valia a pena, em especial quando nos envolvem os com a m esm a cliente. Não ao m esm o tem po, m as m esm o assim .

— Topa um barzinho hoj e? Ou quem sabe a The Dollhouse? Nem lem bro quando foi a últim a vez que você foi com igo — disse Chris, virando a página do caderninho para conferir a lista de clientes agendados para o dia seguinte.

— Depende. Você e a Lisa vão sair? — perguntei a Jam ie, o terceiro sócio da nossa trinca.

Jam ie e Lisa estavam j untos desde que abrim os o estúdio. Aonde ela ia, ele ia atrás.

— Talvez. Pergunte quando ela term inar com a Tenley — respondeu Jam ie enquanto trabalhava em seu cliente.

Se Lisa fosse j unto, a The Dollhouse não seria um a opção. Ela não teria interesse em ver m ulheres acabadas praticam ente sem roupa se esfregando em postes de ferro. Especialm ente porque várias delas eram suas ex-colegas de trabalho.

Mas eu odiava o The Dollhouse por outras razões, e um a delas eram as pessoas com quem Chris se relacionava. Dam en, um cara que tinha sido nosso tutor antes de abrirm os o Inked Arm or, era um frequentador assíduo.

Ele era um com pleto idiota naquela época e não havia m udado em nada desde então. Sem pre bancando o em preendedor, Dam en tinha um a atividade paralela: tráfico de substâncias ilegais. Aproveitava a proxim idade da The Dollhouse com seu estúdio de tatuagem para facilitar essa segunda fonte de renda. O grande trunfo era que a gerente da The Dollhouse, Sienna, encoraj ava as dançarinas a irem fundo em qualquer droga que estivesse disponível e ficava bem satisfeita com um a parte do lucro. Além do m eu desprezo pelo caráter m ais que duvidoso deles, eu tinha um longo histórico com Sienna, que gostava de m e lem brar disso toda vez que a gente se esbarrava. Eu não a via fazia m ais de um ano, e queria que as coisas continuassem assim .

— Cara, está tudo bem ? — perguntou Chris.

Dei de om bros.

— Sim . Tudo certo. Só estou de saco cheio da tem porada de calouros.

A enxurrada de universitários podia ser parte do problem a, m as certam ente não representava a questão toda. Toda vez que Chris sugeria um a ida à The Dollhouse, eu recusava. Não sentia que devia nenhum a explicação, m as era claro que ele esperava um a j ustificativa. Eu não tinha a m enor vontade de esclarecer tudo, nem para ele nem para ninguém . Fom os im pedidos de continuar a discussão quando a porta da sala de piercings se abriu e Lisa saiu, com Tenley logo atrás.

— Qual o estrago? — perguntou Chris quando elas se aproxim aram do balcão.

— Está difícil cham ar isso de estrago — respondeu Lisa, saindo da frente para que Tenley pudesse ser vista.

Chris soltou um assobio baixo.

— Muito sexy.

Eu queria dar um soco nele. O que não fazia sentido. Chris dava em cim a de qualquer coisa que tivesse peitos. Aquilo não significava nada, m as ainda assim eu sentia um im pulso irracional de quebrar a cara dele. Me esprem i entre Chris e Tenley, tapando a visão dele para eu m esm o olhar de perto.

— Vam os dar um a olhada.

Tenley pareceu espantada com m eu interesse, então dei a ela m eu m elhor sorriso encoraj ador. Ela inspirou fundo quando coloquei um dedo sob seu queixo. Escorregando m eu polegar pela linha do m axilar dela, virei seu rosto para o lado. Parecia que tinha um a corrente elétrica passando debaixo da pele dela. Um choque atingiu m inhas veias e seguiu para baixo, parando bem atrás do zíper da m inha calça. Usei todas as m inhas forças para bloquear a enxurrada de im agens pervertidas que invadiram m inha m ente.

Enquanto eu m e divertia com a intensidade daquele contato am igável, estudei os contornos do rosto dela. A pequena pedrinha de diam ante fora artisticam ente colocada no lado direito de seu nariz. Os lábios grossos de Tenley estavam um pouco entreabertos, os olhos voltados para baixo, fazendo com que ela parecesse bastante subm issa. A frequência rápida de sua pulsação m e dizia o contrário.

Eu estava sendo um babaca. Ela estava incom odada e eu era a causa, m as não queria parar de tocá-la. Aquilo era estranho pra cacete.

— Ela escolheu aquele que você gostou — disse Lisa, m e dando um a cotovelada nas costelas.

Foi um a m aneira não m uito discreta de m e m andar ficar na m inha. Ignorei. Tirei o cabelo de Tenley de cim a de seu om bro. Eram tão m acios quanto sua pele e sedosos ao toque de m eus dedos. O tipo de cabelo em que eu gostaria de enterrar o rosto, ou de enrolar na m ão. Coloquei o cabelo dela atrás da orelha, expondo um a escada de argolas na cartilagem . Um pequeno sinal de rebeldia, que indicava um a predileção oculta. Interessante. Talvez ela fosse um a rebelde enrustida.

Ela encontrou m eu olhar curioso com olhos tím idos. A insegurança então venceu e ela deu um passo para trás, quebrando o contato visual. Um leve trem or passou por seu corpo. Se eu não estivesse prestando tanta atenção, j am ais teria percebido. Tenley levou os dedos ao lugar onde antes estavam os m eus, a confusão nublando seus traços perfeitos. Eu tinha causado im pacto. O que só fez com que ela parecesse ainda m ais intrigante.

— Acho m elhor eu voltar para lá.

— Mas j á?

Aquilo foi frustrante. Toquei a pilha bem -feita de livros sobre o balcão.

— Diga a Cassie que agradeço por ela ter deixado você vir aqui trazer isso para m im .

Eu ia agradecer a Cassie na próxim a vez que a visse e arrancaria m ais inform ações sobre aquela garota. Tinha algo nela de que eu gostava, além do fato de ela ser linda e claram ente curtir piercings.

— Não foi nada — respondeu Tenley, indo em direção à porta, para longe de m im . — Quanto eu devo? — perguntou ela a Lisa.

Antes que ela pudesse responder, eu m e introm eti:

— Não esquenta. Esse foi por conta da casa, desde que você prom eta voltar aqui.

Chris tossiu.

— Mas não foi só... — com eçou Tenley.

Lisa a interrom peu:

— Relaxa. A gente acerta na próxim a. Dou um pulo no Serendipity am anhã.

— Está bem — concordou Tenley, o rosto verm elho com o tom ate enquanto ela olhava para tudo, m enos para m im .

Que m erda. Parecia que eu tinha passado dos lim ites, m ais do que o que norm al. Ela disse um “tchau” rápido e saiu apressada do estúdio, quase tropeçando no m eio-fio quando atravessou a rua. Ficam os ali, olhando para a porta depois que ela saiu. Bom , eu fiquei ali olhando para a porta enquanto todo m undo olhava para m im .

Lisa foi a prim eira a quebrar o silêncio. Ela m e deu um soco no om bro.

— Ai! Para que isso?

— Está de sacanagem ? Qual é o seu problem a?

Ofereci m inha m elhor expressão de surpresa. Eu provavelm ente tinha sido m uito... eu. Mas Tenley era gostosa e eu a achava intrigante. Talvez fosse porque ela parecia tão desconfortável perto de m im e totalm ente relaxada com Chris e Lisa. Talvez fosse o pingo de rebeldia escondido debaixo daquele cabelo. Eu ainda pretendia encurralar a garota de novo e tentar conversar. Um a conversa que tivesse m ais do que apenas algum as frases.

— Cara. Você tem problem as — zom bou Chris, escondendo um sorriso com o pulso.

Eu queria arrancar aquele sorriso da cara dele.

— O que foi? — perguntei, olhando de um para o outro.

Eu entendia que talvez tivesse violado todo aquele lance de espaço pessoal, m as, fora isso, não enxergava nenhum a gafe social m uito horrível.

Chris apontou para m inha virilha e riu, debochando. Olhei para baixo. Hum . Meu cérebro não era a única parte de m im que achava Tenley fascinante. Eu esperava m esm o que ela não tivesse notado, porque m inha cam iseta não bastava para cam uflar a situação.

— Isso é perturbador, sério — disse Lisa, cobrindo os olhos. — Você tem que baixar a bola.

— Melhor esperar eu chegar em casa.

A piada sobre m asturbação não foi apropriada, m as eu estava tentando fugir do assunto.

Lisa ignorou m inha tentativa de hum or idiota.

— Ela quer fazer um a tatuagem , viu?

— Ah, é? Onde? Que tipo de desenho? — perguntou Chris.

Ele estava interessado dem ais. Enfiei o dedo na cara dele.

— Você não vai tocar nela. Então nem pense nisso.

Minha territorialidade era inj ustificada. Pegávam os os clientes com base em nossas habilidades. Chris era especialista em tipografia e artes tribais, Jam ie tinha um talento especial para retratos e eu entendia desde do obscuro e sinistro ao leve e fem inino. Qualquer que fosse a arte corporal que Tenley quisesse, um de nós seria especialista naquele estilo.

— Você j á viu o desenho? — perguntei.

— Não. Mas eu estava quase a convencendo a trazê-lo aqui para você dar um a olhada. Aí você estragou tudo dando em cim a e tentando se esfregar nela.

— Eu não tentei m e esfregar nela.

— Teria tentado se não tivesse testem unhas.

Era difícil argum entar considerando m inha situação naquele m om ento.

— Não era m inha intenção ser um babaca.

— Vou ver Tenley am anhã e tentar m inim izar os estragos. Se eu conseguir convencê-la a trazer o desenho aqui, você tem que prom eter que não vai encostar nela.

— Você sabe que isso não vai ser possível se eu for tatuá-la, não é?

— Estou falando sério.

— Eu tam bém .

Lisa balançou a cabeça.

— Nem sei por que m e im porto com você. É com o tentar dom esticar um anim al selvagem .

Eu ri. Ela não estava errada. Quando se tratava de andar na linha, eu não tinha m uita paciência. As pessoas se apegam a códigos de conduta porque se preocupam com o que os outros vão pensar. Eu estava cagando e andando para isso. Na m aioria das vezes. Havia algum as pessoas seletas cuj as opiniões im pactavam m inhas decisões. Tia Cassie era um a delas, e Lisa era outra. Por isso, eu ia tentar m e com portar o m elhor que pudesse com Tenley, m as não podia garantir nada.

Table of Contents

Capa

Folha de Rosto

Créditos

Sum ário

Dedicatória

Agradecim entos

Tenley

Hay den

À Flor da Pele

Você terminou Doce Tatuagem

Helena Hunting

Livros como este

Depois do livro

Páginas que vieram com esta edição, guardadas aqui para consulta.