Entre as Ninfeias
A filha do pagé
A Martin Garcia Mérou
I
No rio Negro.
Das margens, nenhum som da vida animal perturbava a tranquillidade das coisas. A pino, o sol mordia as densas vegetações sombrias, fustigava tenaz uma ou outra borboleta vagabunda sobre os nenuphares exhaustos. O rio seguia monotono, n'um esvaimento; apenas pelo meio,{156} lá ao largo, a correnteza fervia em cachões, borbulhava entre escumas alaranjadas, depurava-se de todos os residuos que acarreta a grande arteria aquatica.
Pela beirada, aproveitando o remanso, ia subindo vagarosa, impellida pelo remo de pá, a canôa de pae Francisco, o velho pagé de Curralinho.
Vinha de longe, o solitario viajante. Emprehendêra a operosa navegação, que almejava fôsse a sua ultima ascensão para o centro, em busca do absoluto socego onde podesse sondar a sua dôr e dar largas ao pranto que não seccava ha seis mezes. Fugia do logar onde fôra feliz e poderoso. Além, no mysterio das florestas intactas, na grandiosidade da natureza virgem, havia de encontrar o lenitivo para as amarguras da alma lacerada.{157}