Entre as Ninfeias

João Marques de Carvalho · Capítulo 28 de 28

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Entre as Ninfeias

Capítulo IV

 

Este encanto durou pouco. Felicia amara, alfim, outro sêr extranho, com um novo sentimento cuja diversidade reconheceu tão grande, que não teve animo para confessal-o.

Ignorando tudo, o pagé contemplava satisfeito, na apparente tranquillidade da caboclinha, o são producto dos seus conselhos.

Um regatão de longe—lá das bandas de Macapá—fôra o perturbador d'aquelle singelo coração. Era moço, valente, um bello typo de tapuia varonil. A sympathia da rapariga fez-se primeiro enthusiasmo doidivanas, assumiu{170} depois as proporções de violenta paixão.

Felicia não tinha já a mesma fixidez attenta no olhar quando a encarava o pagé. Distrahida, oppressa por vago mal estar, buscava a solidão, isolava-se por gosto. O pae attribuia esse estado a causas puramente physicas. Entretanto, quem surgisse, alta noite, por perto do copiar da casa onde vivia a moça, havia de enxergal-a nos braços do regatão, soluçante de amor, gemente de desejos.

Não podia prolongar-se o novo estado de coisas. Um dia, ao amanhecer, foi o pagé avisado que lhe fugira a filha. Por uma reveladora coincidencia, desapparecêra também do portosinho da villa a canôa do regatão.

O velho cambaleara, caíra sem sentidos. Trez semanas esteve á morte, ardendo em{171} febre, delirando entre pesadêlos horriveis. Todo o povoado emocionou-se á narração de tamanha dôr. Os mais endurecidos corações, aquelles que chamavam feiticeiro e perverso a pae Francisco, tiveram para elle um movimento de sympathia, uma pontinha de dó.

Eudoxia, entretanto, não ficara socegada. Varonil, resoluta, organisou, com o auxilio de dois amigos que equivaliam a duas dedicações poderosas, uma expedição em busca de Felicia.

Alguém disséra que o regatão tomara o caminho de Gurupá. Na mesma direcção seguiram a parteira e seus auxiliares. Dois mezes depois—nem tanto, talvez—estavam de volta. Rocebeu-os o velho n'um desanimo, com um sorriso triste, quasi idiota, na face desfigurada.

Tudo inutil. Felicia morrêra{172} em viagem. Havia-a destruido a variola. O regatão enterrara-a n'uma escarpa e ficara louco, ao abandonal-a para sempre á orla da floresta, sob uma chuva interminavel de flôres capitosas.

Pae Francisco manteve-se calado, imperturbavel; só dois grandes fios de lagrymas deslisaram-lhe pelas faces, cortando o rictus que a immensa dôr formava em cada commissura dos labios.

Meia hora depois, elle também partia, sem despedidas, n'uma canoinha leve, subindo o Amazonas.

Eis porque, ha pouco, o encontramos, lavado em suor, a cabeça ora para deante, ora erguida, no movimento dado ao remo. Ha alguns mezes já que saíu de Curralinho. Segue pela beirada, aproveitando o remanso do rio Negro.

Foge do logar onde fôra{173} feliz. Não terá direito a aspirar ao lenitivo para a alma lacerada?

Como nenhum som de vida animal perturba a tranquillidade das coisas, está perscrutando a intensidade dos proprios pezares, sopesando a agonia do coração encarquilhado.

Vae sempre para o centro, n'uma ascensão dolorosa, martyr da bôa fé. No espirito, afagado por indefinida ternura, renascem-lhe vislumbres de esperança. Não é que pretenda esquecer o passado. Busca apenas o socego absoluto das florestas intactas, para dar largas ao pranto que não secca ha seis mezes.

Demais, no meio da pacificação circumdante, não poderá elle rever a seu gosto agridoces saudades e convulsar baixinho, muito baixinho, com a sua querida Felicia,—não{174} a fugitiva,—mas a outra, a pequenita, a que o preferia sempre, aquella que elle creara como ama secca e ainda conservava pura e infantil no fundo do amantíssimo coração?{175}

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