Esaú e Jacó

Machado de Assis · Capítulo 121 de 121

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Esaú e Jacó

Penultimo

Este é ainda um obito. Ja lá ficou defunta a joven Flora, aqui vae morta a velha Natividade. Chamo-lhe velha, porque li a certidão de baptismo; mas, em verdade, nem os filhos deputados, nem os cabellos brancos davam a esta senhora o aspecto correspondente á edade. A elegancia, que era o seu sexto sentido, enganava os tempos de tal maneira que ella conservava, não digo a frescura, mas a graça antiga.

Não morreu sem ter uma conferencia particular com os dous filhos,—tão particular, que nem o marido assistiu a ella. Tambem não instou por isso. Verdade, verdade, Santos andava a chorar pelos cantos; mal poderia reter as lagrimas, se ouvisse a mulher fazer aos filhos os seus finaes pedidos. Porquanto, os medicos já a haviam desenganado. Se eu não visse nesses officiaes da saúde os escrutadores da vida e da morte, podia torcer a penna, e, contra a predicção scientifica, fazer escapar Natividade. Commetteria uma acção facil e réles, além de mentirosa. Não, senhor, ella morreu sem falta, poucas semanas depois daquella sessão da camara. Morreu de typho.

Tão secreta foi a conferencia della e dos filhos que estes não quizeram contal-a a ninguem, salvo ao conselheiro Ayres, que a adivinhou em parte. Paulo e Pedro confessaram a outra parte, pedindo-lhe silencio.

—Não juraram calar?

—Positivamente, não, disse um.

—Juramos só o que ella nos pediu, explicou o outro.

—Pois então podem contal-o a mim. Eu serei discreto como um tumulo.

Ayres sabia que os tumulos não são discretos. Se não dizem nada, é porque diriam sempre a mesma historia; dahi a fama de discrição. Não é virtude, é falta de novidade.

Ora, o que a mãe fez, quando elles entraram e fecharam a porta do quarto, foi pedir-lhes que ficasse cada um do lado da cama e lhe estendessem a dextra. Juntou-as sem força e fechou-as nas suas mãos ardentes. Depois, com a voz expirante e os olhos accesos apenas de febre, pediu-lhes um favor grande e unico. Elles iam chorando e calando, porventura adivinhando o favor.

—Um favor derradeiro, insistiu ella.

—Diga, mamãe.

—Vocês vão ser amigos. Sua mãe padecerá no outro mundo, se os não vir amigos neste. Peço pouco; a vossa vida custou-me muito, a criação tambem, e a minha esperança era vel-os grandes homens. Deus não quer, paciencia. Eu é que quero saber que não deixo dous ingratos. Anda, Pedro, anda, Paulo, jurem que serão amigos.

Os moços choravam. Se não falavam, é porque a voz não lhes queria sair da garganta. Quando pôde, saiu tremula, mas clara e forte:

—Juro, mamãe!

—Juro, mamãe!

—Amigos para todo sempre?

—Sim.

—Não quero outras saudades. Estas sómente, a amizade verdadeira, e que se não quebre nunca mais.

Natividade ainda conservou as mãos delles presas, sentiu-as tremulas de commoção, e esteve calada alguns instantes.

—Posso morrer tranquilla.

—Não, mamãe não morre, interromperam ambos. Parece que a mãe quiz sorrir a esta palavra de confiança, mas a bôca não respondeu á intenção, antes fez um tregeito que assustou os filhos. Paulo correu a pedir soccorro. Santos entrou desorientado no quarto, a tempo de ouvir á esposa algumas palavras suspiradas e derradeiras. A agonia começou logo, e durou algumas horas. Contadas todas as horas de agonia que tem havido no mundo, quantos seculos farão? Desses terão sido tenebrosos alguns, outros melancolicos, muitos desesperados, raros enfadonhos. Emflm, a morte chega, por muito que se demore, e arranca a pessoa ao pranto ou ao silencio.



ÍNDICE
I —Cousas futuras!
II —Melhor de descer que de subir
III —A esmola da felicidade
IV —A missa do coupé
V —Ha contradicções explicaveis
VI —Maternidade
VII —Gestação
VIII —Nem casal, nem general
IX —Vista de palacio
X —O juramento
XI —Um caso unico!
XII —Esse Ayres
XIII —A epigraphe
XIV —A licção do discipulo
XV —Teste David cum Sibylla
XVI —Paternalismo
XVII —Tudo o que restrinjo
XVIII —De como vieram crescendo
XIX —Apenas duas.—Quarenta annos. Terceira causa
XX —A joia
XXI —Um ponto escuro
XXII —Agora um salto
XXIII —Quando tiverem barbas
XXIV —Robespierre e Luiz XVI
XXV —D. Miguel
XXVI —A luta dos retratos
XXVII —De uma reflexão intempestiva
XXVIII —O resto é certo
XXIX —A pessoa mais moça
XXX —A gente Baptista
XXXI —Flora
XXXII —O aposentado
XXXIII —A solidão tambem cança
XXXIV —Inexplicavel
XXXV —Em volta da moça
XXXVI —A discordia não é tão feia como se pinta
XXXVII —Desaccordo no accordo
XXXVIII —Chegada a proposito
XXXIX —Um gatuno
XL —Recuerdos
XLI —Caso do burro
XLII —Uma hypothese
XLIII —O discurso
XLIV —O salmão
XLV —Musa, canta...
XLVI —Entre um acto e outro
XLVII —S. Matheus, IV, 1-10
XLVIII —Terpsichore
XLIX —Taboleta velha
L —O tinteiro de Evaristo
LI —Aqui presente
LII —Um segredo
LIII —De confidencias
LIV —Emfim, só!
LV —«A mulher é a desolação do homem»
LVI —O golpe
LVII —Das encommendas
LVIII —Matar saudades
LIX —Noite de 14
LX —Manhã de 15
LXI —Lendo Xenophonte
LXII —«Pare no D.»
LXIII —Taboleta nova
LXIV —Paz!
LXV —Entre os filhos
LXVI —O basto e a espadilha
LXVII —A noite inteira
LXVIII —De manhã
LXIX —Ao piano
LXX —De uma conclusão errada
LXXI —A commissão
LXXII —O regresso
LXXIII —Um El-Dorado
LXXIV —A allusão do texto
LXXV —Proverbio errado
LXXVI —Talvez fosse a mesma!
LXXVII —Hospedagem
LXXVIII —Visita ao marechal
LXXIX —Fusão, diffusão, confusão...
LXXX —Transfusão, emfim
LXXXI —Ai, duas almas...
LXXXII —Em S. Clemente
LXXXIII —A grande noite
LXXXIV —O velho segredo
LXXXV —Trez constituições
LXXXVI —Antes que me esqueça
LXXXVII —Entre Ayres e Flora
LXXXVIII —Não, não, não
LXXXIX —O dragão
XC —O ajuste
XCI —Nem só a verdade se deve ás mães
XCII —Segredo acordado
XCIII —Não ata nem desata
XCIV —Gestos oppostos
XCV —O terceiro
XCVI —Retraimento
XCVII —Um Christo particular
XCVIII —O medico Ayres
XCIX —A titulo de ares novos...
C —Duas cabeças
CI —O caso embrulhado
CII —Visão pede meia sombra
CIII —O quarto
CIV —A resposta
CV —A realidade
CVI —Ambos quaes?
CVII —Estado de sitio
CVIII —Velhas cerimonias
CIX —Ao pé da cova
CX —Que vôa
CXI —Um resumo de esperanças
CXII —O primeiro mez
CXIII —Uma Beatriz para dous
CXIV —Consultorio e banca
CXV —Troca de opiniões
CXVI —De regresso
CXVII —Posse das cadeiras
CXVIII —Cousas passadas, cousas futuras
CXIX —Que annuncia os seguintes
CXX —Penultimo

      

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