Estudos de utilização de medicamentos: noções básicas
Considerações finais
A recente priorização da qualidade como fator indispensável ao desenvolvimento científico e tecnológico passou a exigir a definição do papel do farmacêutico na cadeia da assistência. A reafirmação das funções profissionais primordiais e inalienáveis dos farmacêuticos e a busca de novas oportunidades de atuação têm merecido a reflexão intensa de indivíduos e associações. Uma participação mais ativa e integral desse profissional nos sistemas de saúde, em todos os processos que envolvam o medicamento e o aceite de novos desafios, passam a ser condições indispensáveis
na busca da qualidade.4
Hepler & Strand (1990) aludem à reprofissionalização da farmácia. Segundo estes autores, esta só se completará na medida em que os farmacêuticos aceitarem seu papel na sociedade e forem capazes de garantir uma terapêutica segura e eficiente a cada indivíduo. Isto acontecerá quando o objeto da prática não for mais o medicamento, mas o ser humano.
Autores como Tognoni & Lunde (1993) também se interessam pelo tema. Entre as várias opções de envolvimento profissional reservadas aos farmacêuticos, enumeram a pesquisa, o desenvolvimento de metodologias e as intervenções no campo da farmacoepidemiologia.
Tais atividades, com amplo envolvimento clínico, encontram-se no âmbito profissional do farmacêutico, reafirmando sua identidade. Assim, podem ser o ponto de partida para estreitar as relações dentro da equipe multidisciplinar, além de produzirem informações de inestimável valor para resolução de problemas que afetam, de maneira direta, o paciente. A produção e difusão de conhecimento sobre padrões quantitativos de consumo de medicamentos, perfis de prescrição, qualidade do que se consome, automedicação, vendas, custos comparativos contribuem decisivamente para a formação de consciência crítica entre prescritores, dispensadores e consumidores.
Tognoni & Lunde (1993) resumem seu pensamento, considerando que estudos farmacoepidemiológicos, entre eles os EUM, são uma "prioridade para o crescente número de farmacêuticos que vêem, na garantia da qualidade da assistência e na abordagem epidemiológica da avaliação de fármacos, um promissor campo de investigação."
Estudos de Utilização de Medicamentos, como modalidade de pesquisa e/ou campo de envolvimento profissional, merecem, sem dúvida, o estímulo dos estabelecimentos de ensino farmacêutico, órgãos de classe, sistemas de saúde e governo. No Brasil, no âmbito da política de medicamentos, os estudos farmacoepidemiológicos, neles inclusos os EUM, são considerados uma das prioridades (Brasil, 1999c).
Na sua grande variedade reside sua força: são passíveis de execução em todos os contextos em que há consumo de medicamentos, quaisquer que sejam eles. Por meio deles, podem-se descrever: o uso dos medicamentos entre os diferentes grupos populacionais; a oferta de medicamentos; as tendências comparadas de consumo de diferentes produtos; a qualidade farmacêutica, farmacológica e também terapêutica dos fármacos mais empregados; os critérios de utilização de medicamentos e técnicos; o grau de informação do paciente sobre sua enfermidade e sobre os efeitos da medicação etc. Tais práticas são capazes de gerar intervenções passíveis de orientar ações de profissionais de saúde, da população em geral e dos órgãos responsáveis pelo bem-estar da população (Mosegui et al. 1999).
Sua função sanitária está plenamente justificada. Por meio destes estudos, pode-se verificar a utilização inadequada dos medicamentos na sociedade, além de integrar análises de eficácia com os custos de tratamentos integrantes de distintos programas de assistência. Estas pesquisas são capazes de fornecer informações relativas à prescrição médica e seu cumprimento, bem como de identificar os medicamentos mais consumidos e as enfermidades prevalentes. Podem, ainda, contribuir para o entendimento sobre a forma e o contexto de utilização dos medicamentos na sociedade.
Os estudos quantitativos, metodologicamente simples, são recomendados como base para o entendimento dos padrões mais refinados de consumo. Além da DDD, podem-se utilizar outros indicadores globais de assistência farmacêutica - como número de prescrições dispensadas e número de prescrições por pessoa -, gerando resultados confiáveis e universais.
Quanto à avaliação qualitativa, podem-se reconhecer medicamentos inadequados em si mesmos (associações não recomendadas, medicamentos de baixo valor terapêutico), identificar a utilização insuficiente ou excessiva de um tratamento, comparar tratamentos alternativos e identificar a utilização inadequada de um esquema terapêutico (dose, cumprimento da prescrição).
Com os EUM, pode-se obter mais e melhores informações sobre o papel desempenhado pelos medicamentos na sociedade. Forma-se, assim, uma "base médico-social e econômica para as atividades de regulamentação e outras decisões no campo da política de medicamentos" (Barras, 1995:47).
4 Cf. ASHP (1992; 1993); Angaran (1991a), Crane (1992), Gitlow & Melby (1991), Knapp (1992) e Summerfield (1995).