Fora do Tempo

David Grossman · Capítulo 1 de 3

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Fora do Tempo

Nota do tradutor

 

O hebraico é uma língua sintética e de palavras curtas, a maioria oxítona, muitas paroxítonas, quase nenhuma proparoxítona. Certas declinações nominais (a de posse, por exemplo, numa fusão dos pronomes possessivos com o substantivo ou adjetivo), assim como declinações de objeto direto ou indireto, e também as vozes verbais (que são sete), têm formas sintéticas que se reduzem a uma só palavra. Flexões de plural e de gênero têm, quase sempre, a mesma construção, com desinências fixas, e são quase sempre oxítonas. Muitíssimas formas nominais (substantivos e adjetivos) seguem determinados padrões de combinação das consoantes do radical com as vogais que lhes são intercaladas (e que raramente aparecem na escrita cotidiana e na literária em prosa). Disso e de outros aspectos resulta que o texto hebraico é composto de frases consideravelmente breves e marcadas por ressonâncias, “batidas”, ecos muito frequentes, mas que decorrem “naturalmente” da sintaxe, da gramática e do vocabulário da língua.

A fala de determinados personagens de Fora do tempo é uma prosa dramática, marcada graficamente pela quebra de linhas. Em acréscimo, há a mescla de estilos, gêneros de discurso e registros de uso (coloquialismos, formalismos, biblicismos etc.), o que por vezes confere ao texto uma estranheza muito própria, como que ressaltando uma (aparência de) pouca elaboração ou depuração de linguagem. Esses elementos estão longe de ser irrelevantes nesse texto moderno que tem evocações do ambiente e do drama medievais, escrito num hebraico “duro”, sem a profundidade histórica da continuidade literária entre o bíblico e o contemporâneo (não existe um hebraico medieval recuperável).

O espírito da tradução foi de tentar preservar a carga dramática do texto e ao mesmo tempo buscar aproximações ao modo como soam as frases hebraicas — considerando-se que o português é uma língua muito menos “seca” e sintética, tendendo a soar mais fluente e nuançada.

Como tradutor, muitas vezes não procurei criar ressonâncias onde o texto hebraico contém ressonâncias “naturais” de uma (digamos assim) prosa escandida; por outro lado, introduzi ressonâncias “forçadas” — não rimas — em trechos que parecem ser nitidamente de prosa, às vezes com o sacrifício de coerências entre, por exemplo, formas de tratamento pessoal, alternando entre segunda e terceira pessoas. O objetivo foi recriar em português uma mescla linguística equivalente à do original hebraico, entre o rude e o sublime, entre o prosaico e o (pseudo)poético, que faz ecoar e ressoar vigorosamente o roteiro dramático.

Paulo Geiger