Fora do Tempo
Fora do tempo
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
anotador dos anais da cidade : Na hora em que estão sentados à mesa do jantar, o rosto do homem de repente se transforma: num movimento brusco ele empurra o prato a sua frente. Facas e garfos tilintam. Ele se levanta e fica de pé, e parece não saber onde está. A mulher se sobressalta em sua cadeira. O olhar dele paira em volta dela e não se fixa, e ela — já a atingira uma vez a desgraça — sente de imediato, eis aí outra vez, já toca em mim, seus dedos frios em meus lábios. Mas o que aconteceu? Ela sussurra com os olhos, e o homem olha para ela com espanto —
— Eu preciso ir.
— Para onde?
— Para ele.
— Para onde?
— Para ele, para lá.
— Para o lugar onde aconteceu?
— Não, não. Para lá.
— O que é lá?
— Não sei.
— Você está me assustando.
— Para vê-lo só mais um instante.
— Mas o que vai ver agora? O que restou para ver?
— Talvez lá se possa ver? Talvez até falar com ele?
— Falar?!
anotador dos anais da cidade : E agora os dois se dão conta. Despertam.
— A sua voz, mulher.
— Ela voltou. A sua também.
— Tive tanta saudade da sua voz.
— Pensei que nós... que jamais, nunca mais —
— Mais do que da minha voz, tive saudade da sua.
— Mas o que é lá, pode me dizer? Não há um lugar assim, não existe lá!
— Se vão para lá, lá existe.
— E não voltam de lá, ninguém voltou ainda.
— Porque só mortos foram para lá.
— E você, como irá?
— Eu irei para lá vivo.
— E não vai voltar.
— Talvez ele espere que vamos até ele.
— Ele não. Já faz cinco anos que ele é só não e não.
— Talvez ele não compreenda como desistimos dele assim, tão depressa, no momento em que nos comunicaram...
— Olhe para mim. Nos meus olhos. O que está fazendo conosco? Sou eu, você vê? Somos nós, nós dois. Esta é nossa casa. A cozinha. Vem, sente aqui. Vou servir a sopa.
homem:
É bela —
tão bela —
é bela
a cozinha
nesta hora dela
quando você serve a sopa
e aqui é quente e ameno, e o vapor
cobre a vidraça fria
da janela —
anotador dos anais da cidade: Talvez por causa dos anos de longo silêncio, sua voz é rouca, extingue-se num murmúrio. Ele não tira dela os olhos. Ele a olha tanto que a mão dela começa a tremer.
homem:
E mais belos que tudo seus braços,
redondos, macios,
a vida está aqui,
querida,
por um momento esqueci:
a vida está no lugar
em que você
serve a sopa
sob o círculo de luz.
Bom ter lembrado:
estamos aqui
e ele lá,
e há uma fronteira eterna
entre aqui
e lá.
Por um momento esqueci —
estamos aqui
e ele —
mas não é possível
mais é impossível!
mulher :
Olhe para mim. Não,
não com esse olhar
vazio,
contido.
Volte para mim, para nós,
volte. Fácil,
tão fácil renegar
a nós, o círculo
de luz, esses
braços macios,
a ideia de que voltamos
à vida,
e de que o tempo
apesar de tudo
põe curativos
finos —
homem:
Não, não é possível mais
assim,
não é possível mais
que nós,
que o sol,
que os relógios, as lojas, os bares,
que a lua,
os casais, os pares,
que árvores nas aleias
verdejantes, que sangue
nas veias,
que primavera e outono,
que gente
inocente
existente
no mundo.
Que filhos
dos outros,
que sua luz
e calor —
mulher :
Cuidado,
você tem ideias
tão frágeis
como teias —
homem:
À noite eles chegaram
trazendo na boca
a nova.
Longo caminho fizeram,
graves, calados,
e talvez durante
provavam, lambiam
a nova, furtivamente.
Num espanto de crianças
constataram que se pode reter
a morte na boca como
uma bala
de veneno, à qual eles por milagre
são imunes.
Abrimos para eles a porta,
esta aí, aqui estávamos,
você e eu,
ombro a ombro,
e eles
no umbral
e nós
diante deles
e eles
piedosamente
contidos
e silenciosos
ali de pé
sopraram em nós
o vento
dos mortos.
mulher :
Era um silêncio terrível.
Em volta triturava um fogo
frio. Eu disse:
esta noite viriam,
senti-o. Pensei:
venha, o caos, o vazio.
homem:
De algures, de longe,
ouvi você dizer:
não temam,
quando ele nasceu
não gritei, tampouco agora
gritarei.
mulher :
Nossa vida de antes
continuou
a brotar em nós
uns minutos mais.
A fala,
os gestos,
expressões faciais —
homem e mulher:
Agora
num instante, não mais,
afundamos
os dois. Calamos
com palavras iguais.
Não por ele
choramos,
o canto da vida
antes vivida
choramos, o admiravelmente
simples, a
leveza, o
rosto
liso e
sem rugas.
mulher :
Mas nos prometemos,
juramos,
ser, sofrer
por ele, ter saudades
e viver.
E agora, espere,
o que houve, de repente,
para que você assim
se dilacere?
homem:
Depois daquela noite
veio um estranho e segurou
meu ombro e falou: salve
o que restou.
Lute,
tente curar.
Olhe nos olhos
dela, grude
nos olhos dela,
todo o tempo
nos olhos dela —
sem descurar.
mulher :
Não volte para lá,
àqueles dias não deve
voltar mais,
não volte seu olhar
para trás —
homem:
Naquele escuro eu vi
a minha frente um olho
choroso
e um olho
enlouquecido.
O olho de um homem
terminal
e o olho
de um animal.
Animal já metade
na boca da fera,
uma presa dessangrando,
desvairando,
de teus olhos me encarava —
mulher:
A terra
abriu sua boca,
a nós engoliu
e vomitou.
Não volte
para lá, para
o que o seduz,
não saia
um passo sequer
do círculo de luz —
homem:
Não pude, não
ousei olhar
então seu olhar,
aquele olho
enlouquecido,
de você não estar —
mulher :
Não vi você,
não vi
nada
nem no olho do homem
nem no olho
do animal. A raiz
de minh’alma arrancada
num calafrio.
Frio, fazia muito frio
também agora
faz frio.
Venha dormir,
o agora é tardio.
homem:
Cinco anos
calamos
aquela noite.
Sumiu você primeiro,
depois sumi eu.
Em você foi bom
o silêncio, e em mim
me apertou
a garganta. E uma
após outra morreram
as palavras, e ficamos
como uma casa
em que lentamente se apagam
todas as luzes,
até que se fez
a escuridão da mudez —
mulher :
E nela
de novo o achei,
e a ele. Envolveu
nosso trio
um manto sombrio,
enrolados nele estávamos
com ele, e mudos estávamos
como ele. Três
fetos que a tragédia
concebeu —
homem:
E juntos
nascemos
no outro lado,
sem
palavras, sem
cores, e aprendemos
a viver
o negativo
da vida
(silêncio)
mulher :
Olhe,
de palavra em palavra
o algo secreto entre nós
se esgarça, se dissolve
como um sonho
que a luz de um luzeiro
ilumina. Pois havia no calar
um milagre,
e um segredo no silêncio
que nos tragou, junto com ele,
em que ficamos sem voz
como ele, em que falamos
na língua dele.
E o que têm as palavras —
o que tem a sorte
das palavras
a ver com sua morte?
anotador dos anais da cidade: No silêncio que cai depois do grito dela o homem recua até suas costas tocarem a parede. Em movimentos lentos, como a dormir, ele estende os dois braços para os lados e caminha ao longo da parede. Contorna a pequena cozinha, em toda a sua volta —
homem:
Conte,
me conte
de nós
naquela noite —
mulher :
Sinto aqui algum
segredo: você rasga
as ataduras para
poder beber
o seu sangue, ração
no caminho
para lá.
homem:
Aquela noite,
me conte
de nós
na noite
aquela —
mulher :
Você
me
rodeia como
um predador. Me cerca
como um pesadelo.
Aquela
noite, a noite
aquela.
Você quer ouvir sobre
aquela noite.
Nestas cadeiras sentamos,
você sentou
aí, eu aqui. E você
fumou, eu me lembro
do seu rosto vindo
e indo na fumaça, e lentamente
ficando um pouco
menos, menos
você, menos
gente.
homem:
Calados
aguardamos a manhã.
Manhã
não
veio.
O sangue
não correu
na veia.
Levantei, a envolvi
num cobertor,
você tomou minha mão, olhou
direto nos olhos meus,
o homem
e a mulher
que éramos
com a cabeça acenaram
o adeus.
mulher :
Um não
soprou sombrio
e frio
das paredes
e enfeixou meu corpo
e fechou e trancou
meu útero. Pensei:
estão lacrando
a casa
que uma vez
foi
eu.
homem:
Fale, conte-me
mais, o que
dissemos, quem falou
primeiro? Estava
muito quieto,
não estava? E a respiração,
eu me lembro.
E suas mãos se
contorcendo, uma
na outra, e fora isso
tudo
se apagou.
mulher :
Um fogo frio
e quieto
consumiu em volta.
O mundo de fora encolheu,
suspirou, se apoucou
e se foi, até restar o pontual,
minimal,
negral,
terminal.
Pensei — é preciso
daqui fugir.
Mas sabia — já não há
para onde ir.
homem:
O momento
em que isso
aconteceu,
em que isso
veio a ser um fato —
mulher :
Num instante nos lançaram
numa terra inóspita.
Vieram na noite, bateram à nossa porta,
disseram: na hora tal e tal
no lugar tal e tal, vosso filho,
assim e assim.
Depressa, depressa teceram
uma rede compacta, hora
e minuto e lugar exato,
e a rede tinha um rasgo, você
compreende? Na rede
compacta tinha,
parece, um rasgo
e nosso filho
caiu
no abismo —
anotador dos anais da cidade: E quando ela diz essas coisas, ele para de andar em volta dela. Ela olha para ele com olhos opacos. Com os braços caídos, perdido, ele fica diante dela, como se nesse momento o tivesse atingido uma flecha disparada há muito tempo.
mulher :
Voltarei
um dia
a vê-lo como
você é, e não como
ele não é?
homem:
Posso lembrar
de você sem
ele não estar — o teu sorriso, inocente
e otimista — de mim também,
sem ele não estar, eu posso
lembrar. Mas dele,
que estranho:
dele, sem a ausência dele, não posso
mais lembrar. E quanto mais
se alonga o tempo,
mais parece que
quando ele ainda estava
já se exumava dele
seu não estar —
mulher :
E às vezes, saiba você,
tenho saudade
daquela mulher desvairada
e seu olho injetado de sangue
às vezes acredito nela
mais do que
acredito em mim.
homem:
Por causa dela eu ponho
minha alma
em suas mãos e lhe faço
uma pergunta
que eu mesmo
não entendo:
Você irá comigo?
Para lá,
para ele?
mulher :
Naquela noite pensei,
agora vamos nos separar. Juntos não mais
poderemos estar. Quando eu lhe disser
sim,
você abraçará o não,
a ausência dele
você vai abraçar —
homem:
Como chegarmos, pensei
naquela noite,
como achegar-nos um ao outro?
Quando eu a beijar
cortarão minha língua
os cacos de vidro
do nome dele
em sua boca —
mulher :
Como olhar em meus olhos
se ele está lá
primal como um feto
no negror
da pupila?
Todo olhar, todo
toque serão
cutiladas. Como amar,
pensei naquela noite,
como amaremos
se a ele
num grande amor
concebemos?
homem:
O instante
em que isso
aconteceu —
mulher :
Aconteceu? Olhe
para mim, diga:
isso aconteceu?
homem:
E isso
se avoluma,
sobe,
exubera, um poço
que não tem
fim. E eu
já sei — enquanto
me restar um alento,
desse poço
beberei e sangrarei
a treva
desse
momento.
mulher :
Uma solidão
sem igual
decreta o luto
ao vivo,
como a solidão com que
a doença
envolve
o sofrido —
homem:
Mas na solidão
esta, em que
a alma como que
se separa do corpo —
eu quase
me dilacero
de mim, lá
não estou mais
só, só
não estou
mais,
desde então —
e lá não
sou um
só, e nunca
serei um
só —
mulher :
Lá eu toco nele
no interior dele
bem no fundo
como nunca
toquei nem
por um segundo
em homem algum
no mundo —
homem:
E ele,
ele toca em mim
de lá também
e com toques tais
não tocou ninguém
em mim
jamais —
(silêncio)
mulher :
E se lugar assim houvesse
como lá,
e lugar assim não há,
você sabe — mas se
houvesse,
para lá já iria
um entre todos,
se levantaria
para ir. E quanto
mais longe você for,
como saberá voltar,
e se não voltar,
e se não achar,
e não vai achar
porque não há,
e se
achar, já
não vai voltar,
não o deixarão
voltar,
e se voltar,
como vai voltar, talvez
volte tão
outro
que não
estará de volta,
e quanto a mim,
como ficarei se você
não voltar,
ou se voltar
tão outro, que não estará
de volta?
anotador dos anais da cidade : Ela se levanta e se abraça a ele. Suas mãos percorrem agitadas o seu corpo. Sua boca tateia e busca o seu rosto, seus olhos, seus lábios. De onde estou, nas sombras do lado de fora de sua janela, é como se ela se jogasse como um cobertor para abafar um incêndio —
mulher :
Naquela noite pensei,
já não nos separaremos
jamais.
E mesmo se quiséssemos,
como poderíamos?
Quem iria mantê-lo, quem
o abraçaria
se nós dois
com nossos corpos
não envolvêssemos
sua plenitude
vazia?
homem:
Venha, o que
é mais simples do que isso? Sem
pesar e cismar
e pensar: a mãe
e o pai dele
se levantam
e vão
até ele —
mulher :
Em que olhos olharemos para vê-lo
dobrado no negror
da pupila,
estando lá
mas distante?
Com a mão de quem
trançaremos os dedos
para tecê-lo
em nossa carne
um instante?
Não vá.
homem:
Os olhos,
um só fulgor
de seus olhos —
como é possível, como
é admissível não
tentar?
mulher :
E o que vai lhe dizer, infeliz,
insano, o que
vai lhe dizer? Que algumas horas
depois dele veio-nos
a fome?
Que o teu corpo
e o meu como dois
carrapatos se agarraram
à vida e grudaram
um no outro e nos
obrigaram a viver?
homem:
Se estivermos com ele
mais um instante,
talvez ele também
esteja
por mais
um instante,
num olhar —
respirar —
mulher :
E o quê, após?
O que será
dele?
E o quê, de nós?
homem:
De nós, um coração quebrado,
talvez morramos como ele, num instante,
ou fiquemos pendentes
a sua frente, balançando
entre os mortos
e os viventes —
há cinco anos cientes
do cadafalso da saudade
que eu sinto e tu sentes —
(silêncio)
homem:
O cheiro que exala
seu corpo, mulher,
em sua dor
quando de súbito
mergulha
e rapina
o amargo olor,
do qual sempre me vem
o cheiro dele também.
mulher :
Seus cheiros —
o doce, o picante,
o azedo.
Seu cabelo esvoaçante
sua carne odorante
do corpo o tempero
simples, bastante —
homem:
Como suava depois de jogar,
você lembra?
Todo ele ardente, a exultar —
mulher :
Ah, tinha cheiros para cada estação,
cheiros de terra nos passeios do outono
e cheiro de chuva emanando do suéter
de lã,
e na primavera vocês dois labutavam no campo,
e o cheiro do suor do trabalho,
vapor de homens obreiros,
enchia a casa inteira.
homem:
Mas eu gostava mais do verão,
com os aromas do pêssego
e da ameixa
quando o sumo lhe escorria no rosto —
mulher :
E ao voltar da fogueira com amigos,
exalava a noite e a fumaça
em seu hálito —
homem:
Ou quando voltava da praia
com cheiro de sal
nos cabelos —
mulher :
E na pele.
E o cheiro de seu cobertor de bebê
e o cheiro de suas fraldas
quando sugava o leite,
e parece que só
um minuto
depois —
homem:
— seus lençóis de rapaz
apaixonado...
mulher :
Às vezes, quando estamos
juntos, sua tristeza
se agarra à minha,
minha dor em seu sangue
transfundida,
e súbito se eleva de nós
o eco de seu corpo intacto,
curado
e um instante se pode sonhar a vida
com ele aqui, a nosso lado.
(silêncio)
mulher :
Até o fim
do mundo eu iria
se me chamasse, você
sabe. Mas você não
vai até ele,
vai a outro
lugar, e para lá
não vou, não
poderei. Não irei.
É mais fácil ir
do que
ficar.
Há cinco anos eu
mordo minha carne
para não ir, não ir
para lá,
não há, não existe
lá!
homem:
Se formos
para lá
tal lugar haverá,
lá.
anotador dos anais da cidade: Ela afasta dele seu olhar. Está longe dele como se ele já não estivesse aqui, deste lado. Ele inspira profundamente e parece querer aspirar para dentro de si toda a pequena cozinha e a casa inteira, e a ela, com seu rosto e seu corpo. Então ele se apruma, caminha e passa junto a ela, sua mão repousa por um átimo em sua cintura, tocando sem tocar. Ele sai da casa, fecha a porta atrás de si.
E para: o céu está baixo e escuro, e a noite, com seu largo peito, o empurra de volta à casa. Ele olha para a porta fechada. Suas pernas hesitam, tateiam. Ele anda, estranho, circundando a si mesmo, num pequeno círculo. Devagar, com cuidado, uma vez após outra, um círculo e mais um círculo em volta dele mesmo. Seus braços se abrem, os círculos se alargam, ele anda e rodeia o pequeno quintal, agora a casa, anda em volta da casa —
o caminhante:
Eis que vou cair
agora vou cair —
e não caio.
Eis que agora
o coração
vai parar
e não para.
Eis a sombra
e a névoa — agora,
agora
cairei —
anotador dos anais da cidade: A noite é fria e úmida. Dos grandes pântanos a leste rolam nuvens, cobrem a lua. Mais e mais ele anda em volta da casa, como a esperar que seu movimento desperte a mulher, arraste —
o caminhante:
O frio
em sua voz, mulher,
embaraça
meus pés. Como irei
sem seu calor, sem a luz
de seus olhos em mim? Como
irei se
você tirou
sua graça
de mim?
anotador dos anais da cidade: Seus olhos fitam o tempo todo a persiana arriada, ele dá voltas e voltas em torno da casa, mas a cada vez parece que vai se afastando, abrindo e se espalhando, além, mais além, caminha, seus círculos se ampliam, se alargam, está indo para lá, não existe lá, claro que não existe, mas e se alguém for para lá? E se há um homem que vai para lá?
o caminhante:
Não estou só, não estou
só, murmuro
num juramento jurado,
e o bafo de sua boca
sai de minha boca
para o espelho nublado —
não estou só com ele, não estou
só —
anotador dos anais da cidade: Ele anda em volta de toda a aldeia, mais uma vez, e mais uma, passa por casas, quintais, poços e campos, por estábulos e redis e pilhas de lenha de calefação. Cães ladram para ele e logo recuam dele num uivo, e ele caminha —
o caminhante:
Não estou só, com ele
não sou um,
sozinho estou
com ele em tudo
que me constrange,
pulsa em mim, vive
comigo, junto
comigo, com ele estou,
efêmero, nesse corte
imenso
que se criou em mim
com sua morte —
comigo recrudesce
e esvaece
não se aquietou
não se aquietou
me sacode
me amargura
me redime
me algema
e cura
e purifica,
não me larga
não me larga
esse menino
solitário
e morto.
anotador dos anais da cidade: Uma noite, mais uma noite e mais uma. Coisas estão acontecendo em vossa cidade, duque, e temo não conseguir anotar todas elas para vós.
Eis que agora, meia-noite, no antigo cais junto ao lago, no meio de um emaranhado de redes de pesca, algo se move. Uma cabeça se esgueira para fora e olha em volta. Um corpo pequeno, flexível, se arrasta de dentro desse emaranhado e se senta, ofegante. É uma pessoa, sem dúvida, no rosto imundo brilha a brancura dos olhos assustados, que perscrutam as colinas nos limites da cidade. A boca aberta se vira e olha firmemente como se fosse um terceiro e escuro olho.
Agora eu vejo: é a cerzidora de redes. Talvez vos lembreis, Vossa Alteza — anos atrás, em uma de vossas visitas ao porto, vos deleitastes com sua língua afiada, quando discutiu convosco acerca do imposto sobre agulhas de costura que então baixastes, por vossa graça. Um menininho sorridente de cabelo encaracolado estava preso ao peito dela por um pano colorido e ele se divertiu convosco num jogo de olhares, e vós lhe destes uma moeda de ouro. Não sei qual foi seu destino. De vez em quando eu a vejo perambulando pelas ruas em torno do porto, rosnando, balbuciando para si mesma palavras sem sentido, envolta e emaranhada numa confusão de redes de pescadores, a ponto de se poder pensar que dentro não há ninguém.
Ela salta de repente como que picada por uma serpente. Suas mãos se erguem, apontando para longe, ela suspira —
E se estais desperto, duque, e se vos aprouver olhar por vossa janela, vereis também: como que uma pequena mancha clara dando voltas em torno da cidade. Um homem está andando, subindo e descendo as colinas —
o caminhante:
Um passo,
mais um passo, mais
um passo,
caminho
e caminho
até você.
Uma pergunta lançada
eu
num grito aberto
meu filho
se eu pudesse
um passo,
não mais,
mover
você.
anotador dos anais da cidade: E no terceiro turno da noite, numa ruela lateral nos limites da cidade, numa pequena casa de um só cômodo, sentado junto à janela está o Centauro. Assim ele é chamado na cidade, Vossa Alteza, e eu prometo tentar, em breve, descobrir por quê. Sua poderosa cabeça, coroada de cachos muito brancos, pende sobre seu peito, seus óculos escorregaram até a ponta do nariz, e seus roncos estremecem a casa. Um olhar à direita e à esquerda: não há ninguém. Eu me ergo na ponta dos pés e olho para dentro do quarto. A penumbra é densa ali, mas me parece que o quarto está muito cheio, atulhado: montinhos e pilhas estranhas, que talvez sejam de poeira, ou de lixo, ou um amontoado de móveis antigos, cercam o homem e às vezes chegam até o teto. É difícil entender como ele pode se mover nesse quarto.
Sobre a mesa à sua frente estende-se um cobertor sujo. Algumas garrafas vazias de cerveja, canetas, lápis, um caderno escolar, tudo misturado. O caderno está aberto, cada página é pautada em finas linhas azuis. As páginas, até onde posso perceber daqui, estão vazias.
“Dê o fora daqui, ou eu lhe arranco os ovos”, murmura o Centauro sem abrir os olhos, e eu fujo enquanto é tempo.
Somente quando chego na cerca da casa da mulher de quem me exilei é que meu coração volta a bater normalmente.
mulher do anotador dos anais da cidade :
O tempo que passa
faz doer. Perdi
a aptidão
do movimento simples,
natural, dentro dele.
Sou arrastada nele
para trás, na direção contrária
a seu fluir, e ele
furioso, vingativo —
o tempo todo, todo o
tempo
crava em mim
aguilhões.
anotador dos anais da cidade: E na noite do dia seguinte, numa cabana em um dos bairros enlameados nos extremos da cidade, uma mulher jovem — parteira de profissão — num movimento brusco não está mais de joelhos junto a uma bacia com água, e sim de pé, as mãos gotejantes. Até onde posso perceber, não há no quarto uma parturiente, nem um bebê, e na bacia flutuam apenas calças e a camisa de um homem. A mulher fica imóvel, como se estivesse congelada. Seu pescoço é uma fina haste, e seu rosto é comprido e delicado. Com passos rígidos ela se vira para a janela e vai até lá. Fora está frio e tempestuoso, e como da chaminé da cabana não sai fumaça — por ela posso olhar para dentro —, imagino que dentro da cabana também faz muito frio.
Seu olhar varre a distância, as colinas, na linha do horizonte. Ela está calada, mas seus dedos se crispam em volta da boca como num grito, até que eu também prendo a respiração. Quando ela finalmente suspira, seus ombros desabam, como se de uma só vez perdesse as forças.
E seu marido — tórax em forma de barril, crânio avermelhado e raspado, nuca com três grossas dobras —, que durante todo esse tempo ficara sentado num canto do quarto, trabalhando num par de botas de montaria, pontuando e ritmando o silêncio com as batidas rápidas de seu martelo, logo filtra as palavras através dos pregos que tem na boca —
sapateiro: Você está de novo envenenando a alma?
parteira: O-on-t-tem ela com-completaria ci-cinco anos.
sapateiro: Já lhe disse cem vezes que é proibido pensar nessas coisas! Chega, acabou!
parteira: Acendi uma vela em frente ao r-re-retrato dela e não disse n-n-nada. Você nunca pensa nela?
sapateiro: O que tem para pensar em quê? Quanto tempo de vida ela teve? Um ano?
parteira: E m-mei-meio.
anotador dos anais da cidade: O sapateiro, com toda a força, bate com o martelo no calcanhar da bota, solta uma imprecação, e chupa com estranho apetite o sangue que jorra de seu dedo.
Já saio de lá cheio de pensamentos. A cidade dorme e as ruas estão desertas. Na extremidade do antigo cais eu paro, espero. As nuvens estão pesadas, e quase tocam a água do lago. Logo virá a aurora.
E de novo, como na noite de ontem, a cerzidora de redes muda ergue a cabeça de dentro do emaranhado no qual se deita. Olha em volta, procura, como se tivesse ouvido uma voz a chamá-la. Eu me escondo atrás de um poste. Ela pula de repente, corre ao longo da plataforma numa velocidade inacreditável, entre esqueletos de barcos e âncoras enferrujadas, e suas compridas redes se arrastam, esvoaçam atrás dela —
Na ponte de madeira se detém. Ouço o sibilar de sua respiração. Quem sabe o que passa na mente dessa criatura infeliz. Ela se agarra à amurada e se sacode com violência. Quanta força e quanta raiva existem nesse pequeno corpo. Eu me aproximo com cautela, me ajoelho atrás de uma canoa emborcada. O lago está tempestuoso esta noite, e meus óculos se cobrem seguidamente de pequenas gotículas. Em momentos como este, Vossa Alteza, eu quase amaldiçoo minha obediência cega a vossas ordens. É difícil enxergar daqui, mas me parece que alguém tenta forçar a muda a se virar para trás e olhar para as colinas, e ela luta falando e cuspindo, e o corpo pequeno e flexível se dobra e se joga para os lados, escrevo depressa e no escuro a mão treme peço desculpas pela letra Vossa Alteza talvez ela queira se jogar no lago e o que farei então faz tantos anos que não toco em ninguém e a cabeça dela num movimento brusco é lançada fortemente para trás talvez realmente alguém no escuro lhe esteja quebrando o pescoço —
Sua boca se abriu, revelando os dentes, e de repente fez-se silêncio. E assim silenciou também o lago como se as ondas não
mulher muda na rede:
Duas migalhas de gente
nós éramos,
o menino e sua mãe,
no eterno espaço
do mundo pairamos
seis anos
inteiros —
anotador dos anais da cidade: E perplexa ela volta e se deixa cair no emaranhado de redes. Estou com muito frio, Vossa Alteza. Manifestações como essas me deixam intranquilo. E isso de o lago voltar à vida de uma só vez, e as canoas novamente se chocarem umas com as outras e rangerem como se rissem de mim. Também zombareis de mim, duque, mas estou disposto a jurar que vi um fino traço de luz saindo da boca dessa mulher. Talvez apenas uma ilusão causada pelo luar. Mas, na verdade, não há luar algum. E também ocorre que, por um momento, quando cantou, ela era quase bonita. Estou só relatando. E sua voz era cristalina. Eu diria, cautelosamente: celestial. Mas o que entendo eu. E também estou cansado. Tudo isso é muito confuso. Talvez tire um cochilo em uma das canoas.
Um momento —
Agora, como um ágil animalzinho, ela escava em suas redes e se cobre com elas, e já desaparece. Segundo as anotações que tenho aqui — durante mais de nove anos ela não pronunciou uma palavra sequer.
E agora, Vossa Alteza, finalmente a aurora.
duque:
A aurora!
De dentro da noite
odiosa,
do teatro
de seus pesadelos, eu
volto, sou resgatado
e me recomponho
pedaço
a pedaço, mosaico
de duque: eis minha mão
estendida
para o pão,
com seu fresco aroma e
morna textura,
e antes, antes
meu olhar
à janela vai, se esvai
para dois passarinhos na poça,
para o raiar da aurora
purpúrea, veja,
duque, que bênção:
a sua frente
como numa bandeja
um dia tenro, bebê
cujos dentes ainda não nasceram —
mas já há uma semana, bem longe,
nas colinas, um homem
como uma navalha
aberta anda
e corta o céu
com a cabeça —
o caminhante:
Farei
você
se mover,
farei se mover
você,
meu filho
arrancado,
gelado,
meu filho
castrado.
E cada dia é mais pungente,
e a cada dia você é mais
renitente, e mais
e mais
exigente —
anotador dos anais da cidade: Toda vez que a parteira sai do quarto o sapateiro corre à janela. Seus olhos se agitam, procuram nas colinas, seus lábios se movem como se mastigassem ofensas e reprimendas. O martelo está em suas mãos.
E agora ele me surpreende em seu quintal, atrás do galinheiro vazio. Ele não vem a meu encontro, não me expulsa, nem mesmo me ameaça com o martelo. Eu lhe mostro com cautela o caderninho e a caneta. Tenho a impressão de que ele assente.
parteira:
Em frente a minha cama
na p-p-parede
tem um relógio redondo
ant-t-tigo,
um mecanismo fraco e veterano,
ponteiros est-t-tacionados na mesma
ho-ho-ra
e no mesmo minuto, já faz m-m-mais
de um ano
anotador dos anais da cidade: A sua voz chega abafada e monocórdia do quarto ao lado. O sapateiro se afasta da janela. Anda para trás. Para trás? Estranho: parece andar dormindo, adivinhando o percurso, até que as costas estão contra a parede. Os dois braços erguem-se devagar para os lados. A cabeça raspada, vermelha, bate com força na parede, ao ritmo das palavras que chegam do outro quarto.
parteira:
E somente —
o ponteiro dos s-s-se-segundos
silente
ainda palpita
salta e insiste
no tempo que resta
todo o tempo que ainda
subsiste
salta e resiste
ao recuo
não desiste
avança
e persiste
em passar
para a hora zero
ou somente
em
em
em ser,
ser somente um segundo inocente pleno simples não mais não menos somente
isso meu Deus somente
ser.
duque:
E aqui, no palácio,
em meu quarto,
assobia a chaleira, do café
o vapor, na calma, na lentidão
no torpor, não há como duvidar:
é um duque
exemplar —
não.
Não.
Não é dono
de si mesmo quem aqui acordou
de seu sono,
com os ossos ocos,
no abandono,
ah, a força do peso
da tragédia (você pensou
estar defendido,
duquinho, pensou
que era imune. Seus batalhões
por toda a terra se espraiam, mil cavaleiros
sobre mil cavalos, e você
é estilhaços de argila). Mas levante-se,
enfrente seu dia,
vista em silêncio a pele postiça
que é seu nome, avive
no coração a brasa
mortiça, convença
com toda a força a
si mesmo que ainda se lembra como é
simplesmente
ser; como fazer nada, por exemplo,
como se faz nada? Como
alguém faz nada
sem nada querer, como pode
esquecer por um momento
o que está entalhado, cauterizado
lá dentro?
Em suma —
este fingido, matreiro,
que se faz de alguém
rotineiro, cujo olhar
se deixa levar
à janela aberta, cuja mão
se estende convicta ao pão —
E dentro disso, súbito,
eu caio
mergulho,
sou apenas
a sombra da sombra
daquele que anda lá
sozinho, de quem
grava em minha terra
em pesados passos
a sentença:
tudo que existe
tudo que existe
(ah, meu pequeno
menino, querido
perdido) —
tudo existente
doravante
ecoará
o ausente.
anotador dos anais da cidade: “É como um balbucio”, explica o Centauro quando passo por sua janela ao anoitecer do dia seguinte: “Um balbucio ou uma espécie de farfalhar, seco, dentro da cabeça, que jamais para”.
É sem vontade, Vossa Alteza, que ele presta seu testemunho. Só depois que lhe mostro a ordem ducal com vossa assinatura e o selo com vossa imagem, para que ele os examine, ele compreende que não tem alternativa a não ser cooperar.
centauro: Minuciosamente. Você precisa saber o que se passa comigo? Realmente interessa ao traseiro do duque saber minuciosamente o que é esse farfalhar em minha cabeça? Então vamos em frente, agarre essa oportunidade pelos colhões, barnabé: escreva que parece, digamos, com folhas secas. O que você está olhando feito um idiota? Folhas! Mas secas, certo? Esfarelando-se, mortas, anotou? E alguém pisa nelas, o tempo todo, anda e pisa... e então? Isso explica minuciosamente? O duque ficará satisfeito? Seu rosto resplenderá com prazerosa excitação?
anotador dos anais da cidade : Eu pessoalmente, duque, relevo sem muito esforço qualquer ofensa a minha dignidade, mas não aceito de maneira alguma que ofendam assim o vosso representante, e por isso virei-me para ir embora —
centauro: O que é isso? Sem um beijo? Volte aqui imediatamente! Parece-me, barnabé, que em sua ordem está expressamente escrito “toda informação que for necessária às autoridades, sem omitir nenhum detalhe”! É ou não é verdade? Então, por favor, abra agora mesmo seu caderninho e comece a escrever:
“Alguém caminha o tempo todo pisando nelas, nas folhas secas” — escreva! — “indo e vindo, indo e vindo, em círculo, arrastando os pés...” — anote — “hrrrsss, hrrrsss” — assim, sim, três letras s no fim... é com certeza um detalhe que esclarecerá a situação minuciosamente para o duque! Mil por cento de certeza que isso vai levantar o dele, assim! Captou, escrivãozinho? Já lhe disseram alguma vez que você tem cara de órfão inglês?
anotador dos anais da cidade: Enquanto eu faço de conta que anoto essa parlapatice idiota, fico de vez em quando na ponta dos pés e dou uma olhada nas pilhas de coisas que atulham o quarto. Organizo uma pequena e rápida lista: um berço de madeira, um carrinho de criança, uma pequena cama, muitas bolas de futebol furadas, cadeirinhas coloridas, um cavalo de pau, um barco de brinquedo, vagões enferrujados de trenzinho elétrico, um chapéu de caubói, uma faixa de penas de índio, um nunca-acabar de folhas de papel cobertas de desenhos e rabiscos... Aliás: todo esse amontoado de coisas está coberto de cocô de moscas e camadas de teia de aranha. Tudo parece estar deteriorado e quebradiço, e a ponto de se esfarelar a um simples toque da mão, até mesmo do olhar. E ele lá, vejo aqui da janela, continua a tagarelar, xingar e praguejar. Eu fico na minha. Tênis, patins e sandálias, livros, livros em toda parte, uma pequena carteira escolar, estojos, um urinol verde, uma bicicleta pequena com rodinhas — que tagarele o quanto quiser, reclame, escarneça, de vez em quando eu lhe aceno assentindo, nem dez caderninhos me seriam suficientes, aqui tem todo um museu de infância, talvez o museu de um menino. Pé de pato de borracha e óculos de mergulho, ursos de lã, leões e tigres de pelúcia.
Ele parou de falar. Olha para mim por cima de seus óculos. Talvez suspeitando. Um acordeão pequeno, uma pasta, soldadinhos de chumbo, pincéis, a situação não está boa, não estou tranquilo, esses olhos injetados de sangue. Já vou parar. Ei, jogos de mesa, o querido Banco Imobiliário, Serpentes e escadas, baralhos de figuras, apetrechos para o jovem mágico, uniformes de escoteiro, saquinhos de brindes de aniversários, arco e flechas — como é possível sequer respirar neste quarto?
centauro: É impossível. E agora, se tem amor à vida, escriturário, vá embora daqui e não volte, tá-tá-tá! Rápido!
anotador dos anais da cidade : Álbuns de fotografias, máscaras, um revólver de brinquedo, chupetas, apitos, uma lanterna de bolso —
centauro: Dê o fora daqui, carrapato, ou vou eu até você —
mulher que ficou em casa:
Cinco anos depois da morte
de meu filho, seu pai saiu
para encontrá-lo.
Eu
não fui com ele.
Não fui. Tão intensamente não
fui que desabei. Senti, rejeitada,
as pernas se dobrarem sob meu corpo. Ouço
a voz que a mim chega
de longe: ele
caminha, ele vai. Não
fui.
Para lá
eu não.
Para lá
eu
não.
O coração palpita, ele
vai. O sangue lateja,
ele vai, tilintam
colheres e garfos, brilham
espelhos, lançam sinais, espelhe-se
nele, olhe para
ele, de dia, de noite, ele
vai. Eu
iria com ele
até o fim
do mundo. Não para lá,
não
para lá.
duque:
... e ele talvez se revolte, não tenho
certeza, meus detetives
veem nele um perigo:
a frieza de um rebelde, de
um homem teimoso,
obstinado —
mas seus olhos — assim eles escrevem
concluindo o relatório — luzem de azul
e de inocência, como os olhos
de um menino.
parteira:
J-j-já não saberá,
minha filha, que todo homem
é uma ilha,
que é impossível
a outro h-h-homem
conhecer
por dentro. F-f-i-
ilha que nem mesmo sua mãe
poderá ser,
e por um minuto
ao menos, dar-lhe vivência,
nela ter sobrevivência,
essência de sua es-sência.
anotador dos anais da cidade: A neblina enche as ruas da cidade. A parteira está à janela, o olhar nas colinas, os lábios quase beijando a vidraça, e murmura algo como se estivesse febril. Seu hálito intermitente, fragmentado, se desenha na vidraça como se fossem hieróglifos, e logo se evapora, às vezes ainda antes de eu ter anotado. De onde estou — desta vez atrás do poço em ruínas no quintal — dá para ver seu marido, sentado na banqueta e dirigindo a ela um olhar fascinado, o martelo na mão.
parteira:
Também o que s-s-sou não mais
se ligará ao que você é, também o que sou
a mim mesma não vai mais
se ligar. Tudo se desligou. Dizem que há
coisas no mundo. Dizem
que entre as c-c-oisas há
ligações. Eu o-o-lho para
os que dizem. Eu
vejo
migalhas
e furos,
grânulos
de membros e de partes —
centauro: Mais uma vez, e uma vez mais ele pisa nas folhas dentro de minha cabeça, dando voltas, esmigalhando-as, de dia e de noite, sempre o mesmo ritmo, sem nunca mudar, já faz quinze anos, desde então, mesmo quando durmo, mesmo quando defeco, sim, escreva, para que pelo menos em algum lugar esteja escrito, e também tem cochichos o tempo inteiro, assim: hmmm... hmmm... e então ele ataca como um enxame de vespas, zzzzzz, perfurando o cérebro: isso aconteceu, isso aconteceu, isso aconteceu com ele, isso é para sempre, isso é para a eternidade, e ele não, ele não mais —
Ah... diga, barnabé, isso só acontece comigo lá dentro, certo? Você não pode ouvir isso, não é?
anotador dos anais da cidade: Esta tarde, depois que dele me despedi, não sei por que dei mais uma ou duas voltas para vê-lo. Na janela, seu rosto grande e pálido ficava cada vez mais tristonho à medida que eu me afastava. É admirável a lentidão com que se movem seus longos cílios. Uma fina faixa de luz fulgiu de repente na direção do lago e lampejou contra o céu escuro. Corri para lá —
mulher dentro da rede:
Duas migalhas de gente
nós fomos,
o menino e sua mãe,
no eterno espaço
do mundo pairamos
seis anos
inteiros,
e a mim pareceram
um só minuto sutil
em que éramos como
um poema
infantil,
em que o prático
rima com o fantástico
Até que veio e soprou
o mais leve dos leves
sopros
respiro
adejo
abano
breve brisa
nas folhas —
decretou e assinou
você para cá
ele para lá
se afastaram seus passos —
e acabou, terminou
e rompeu-se
em estilhaços.
anotador dos anais da cidade : Agora ela percebe minha presença e se cala. O píer inteiro nos separa, mas ela me estende os braços como se eu estivesse a seu lado.
mulher dentro da rede:
Como por lâminas
de tesouras
fui recortada
do retrato da minha vida,
o gelo da solidão
e da ausência
em meus membros,
me queimo, me arraso.
Pois me tocou,
pois fui tocada
pelo gélido toque
do acaso —
anotador dos anais da cidade : E num gesto brusco ela tapa a boca com as duas mãos. Acima delas — seus grandes olhos negros se enchem de medo. Se me perguntardes, Vossa Alteza, diria que essa pobre mulher absolutamente não entende as palavras que lhe saem da boca! Aliás, também me parece que ela realmente acredita que basta eu me aproximar e tocá-la para que ela se livre desse vão encantamento, mas eu há quase treze anos não toco em ninguém. Agora devo me apressar, senhor; é quase meia-noite, e posso perder meu encontro com minha mulher.
mulher do anotador dos anais da cidade :
Um corpo minúsculo transparente
fúlgido havia em mim, um raio
dourado, fluindo. Eu sabia: ele
sou eu, meu alento
minha seiva, o sentido
de eu ser. Nasceu
comigo, pensei, e também
morrerá comigo —
sem saber que eu poderia
viver mais
do que ele, que eu seria
um exílio, alguém
que é ninguém.
E que mentirosa vou ser —
tal que sem pejo
sem pestanejo
ousa dizer:
eu.
mulher que ficou em casa:
Mordi
com meus dentes minha carne. Não
parti. Como uma vela me
extingui. E só
ele restou em mim
acordado: agora ele
vê, agora está
lembrado. Agora ele cruza
o inferno. Agora se cala
com o filho dele. Ou
ri. Ou prova
uma migalha de felicidade
com ele —
não respirar, não
pensar, o que
ele vê, o que rememora,
o que lhe devora
o coração. Como é vazio
seu interior. Um olho apagado
em mim se acendeu,
olho de animal
metade do qual o predador
já mordeu. O que
ele vê
lá, pergunto, grito, bato
a cabeça na parede, e quanto já
se arrastou, e quanto já se desbastou, e quanto
se afastou
para a escuridão —
o caminhante:
Pelo visto só posso
compreender coisas que
estão dentro do tempo. Pessoas,
por exemplo, ou pensamentos, ou tristeza
ou alegria, cavalos, cães,
palavras, amor. Coisas
que envelhecem, que se renovam,
se transformam. Minhas saudades de você
também se encerram no tempo. O luto
se faz veterano, antigo
com os anos, e tem dias em que é novo,
fresco.
Assim também a ira por tudo que lhe foi
roubado. Mas você
já não.
Você mesmo já
não. Você
está fora do tempo.
Como explicar a
você. Quando até a explicação
se comprime no tempo. Contou-me
uma vez um homem de uma terra
distante que em sua língua
se diz de quem morre
na guerra, “caiu”.
Assim é você: caiu
fora do tempo, o tempo
no qual eu habito
passa
por você: uma figura
de pé sozinha
sobre um cais
na noite
cujo negror
dela transbordou
até se esgotar.
Eu vejo você
mas não o toco.
Não sinto você
nos meus sensores
do tempo.
centauro: Tome como exemplo você mesmo, anotador dos anais da cidade, ou como quer que você se intitule. Você é um prazer para os olhos, juro! Esse chapéu, m-eu-se-nhor! E a gravata, e a pasta e o bigodinho... uma delícia! Só é pena que esteja tão desleixado e sujo, como um mendigo, juro, e também, me desculpe, fedendo como um monte de cocozinho fresco, mas fora isso —
Basta, não comece a inflar, o que você está papagueando aí? Ofensa a servidor público? Pshhh! Um pouco de senso de humor, barnabé, estou brincando com você! E aliás, saiba que de minha parte é tudo por inveja. Sim, tome nota, nas maiores letras possíveis: o centauro tem inveja do escriturário!
Não, diga você mesmo: não é uma sorte incrível que você, no exercício de seu trabalho, e sem dúvida em troca de um belo salário, possa espiar quanto quiser dentro do inferno dos outros, sem precisar meter nem a ponta do seu mindinho branquelo? Pense! O que é mais excitante do que o inferno dos outros, diga? E no geral, você há de concordar comigo, a dor em segunda mão é preferível à dor em primeira mão, não é? Não é de uso mais saudável, e também mais “artística”, no sentido mais elevado, ou seja, mais castrado, da palavra? E veja, tome você como exemplo: já faz pelo menos uma semana que você passa por aqui, assim, por acaso, diante da minha janela, três-quatro vezes por dia, ontem foram cinco, mas quem está contando — apressado em seus afazeres, mergulhado em seus pensamentos, e de repente — Opa! Vamos dar uma freada estridente! Vamos pestanejar de surpresa! Que temos aqui? Um centauro! E ainda por cima enlutado! Dois coelhos de uma cajadada só! Rápido e fácil vamos vestir uma expressão de suave condolência e solidariedade, e num instante mergulhar a ponta de nossa pena prateada em sua negra tinta, e três-quatro, vamos perguntar sobre seu filho, perguntar sobre o filho, perguntar sobre o filho! E se o interrogado não der respostas suficientes, não desistir, não desistir, vamos voltar dentro de uma hora, e de duas horas, e amanhã de manhã também, e novamente, novamente perguntar sobre o filho, e não vamos largá-lo mesmo que ranja os dentes e morda os lábios até doer, e conte-me por favor como ele era quando bebê, e o que gostava de comer, e o que construía com o lego, e que canção de ninar você cantava para ele... Ouça, carrapato da tinta, nem o imposto de renda da Inquisição torturava assim! E então, subitamente, pshhhh! O relógio da cidade faz soar a hora, ding-dong, até logo, até logo, muito obrigado, foi muito agradável, a pena volta a seu estojo, o caderninho a seu bolso, e o barnabé já está a caminho de casa, abre parênteses, o que lhe importa que eu fique aqui sangrando, dilacerado, cortado em pedaços, fecha parênteses, o escriturário assobia uma canção alegre pensando no pernil de cordeiro que o espera no forno, e claro que também nos pernis dessa ou daquela senhora... O quê, hein? Peguei você naquilo — como é que se chama? —, ou não peguei?
anotador dos anais da cidade: Paro aqui, Vossa Alteza! Cheguei a meu limite! Daqui em diante — o anotador dos anais da cidade se recusa peremptoriamente a encontrar-se com essa criatura repelente! Podeis me matar, duque, a ela eu não voltarei!
o caminhante:
Ouvi uma voz
de mulher se elevar
da cidade:
que todo homem é
uma ilha,
que é impossível
a outro homem
conhecer
por dentro —
Eu fico na minha, não paro
de tentar: faço haurir, despertar,
dividir sem parar
células suas que ainda
vivem em mim, as derradeiras
impressões do ser que ainda
não se perderam nas extremidades
de meus sentidos —
o toque de sua pele de menino,
sua voz que ainda é fina e secreta
em meus ouvidos, mas já dispara
agudo estilhaço
de ironia, e o registro
do movimento de seu corpo,
passa tão rápido,
desliza (tão contente fiquei
quando me disseram que você
andava como eu).
Uma dúvida
fina e afiada lampeja
no franzir de seus lábios —