Fora do Tempo

David Grossman · Capítulo 2 de 3 · parte 1/3

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Fora do Tempo

Fora do tempo

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

anotador dos anais da cidade : Na hora em que estão sentados à mesa do jantar, o rosto do homem de repente se transforma: num movimento brusco ele empurra o prato a sua frente. Facas e garfos tilintam. Ele se levanta e fica de pé, e parece não saber onde está. A mulher se sobressalta em sua cadeira. O olhar dele paira em volta dela e não se fixa, e ela — já a atingira uma vez a desgraça — sente de imediato, eis aí outra vez, já toca em mim, seus dedos frios em meus lábios. Mas o que aconteceu? Ela sussurra com os olhos, e o homem olha para ela com espanto —

— Eu preciso ir.

— Para onde?

— Para ele.

— Para onde?

— Para ele, para lá.

— Para o lugar onde aconteceu?

— Não, não. Para lá.

— O que é lá?

— Não sei.

— Você está me assustando.

— Para vê-lo só mais um instante.

— Mas o que vai ver agora? O que restou para ver?

— Talvez lá se possa ver? Talvez até falar com ele?

— Falar?!

anotador dos anais da cidade : E agora os dois se dão conta. Despertam.

— A sua voz, mulher.

— Ela voltou. A sua também.

— Tive tanta saudade da sua voz.

— Pensei que nós... que jamais, nunca mais —

— Mais do que da minha voz, tive saudade da sua.

— Mas o que é lá, pode me dizer? Não há um lugar assim, não existe lá!

— Se vão para lá, lá existe.

— E não voltam de lá, ninguém voltou ainda.

— Porque só mortos foram para lá.

— E você, como irá?

— Eu irei para lá vivo.

— E não vai voltar.

— Talvez ele espere que vamos até ele.

— Ele não. Já faz cinco anos que ele é só não e não.

— Talvez ele não compreenda como desistimos dele assim, tão depressa, no momento em que nos comunicaram...

— Olhe para mim. Nos meus olhos. O que está fazendo conosco? Sou eu, você vê? Somos nós, nós dois. Esta é nossa casa. A cozinha. Vem, sente aqui. Vou servir a sopa.

homem:

É bela —

tão bela —

é bela

a cozinha

nesta hora dela

quando você serve a sopa

e aqui é quente e ameno, e o vapor

cobre a vidraça fria

da janela —

anotador dos anais da cidade: Talvez por causa dos anos de longo silêncio, sua voz é rouca, extingue-se num murmúrio. Ele não tira dela os olhos. Ele a olha tanto que a mão dela começa a tremer.

homem:

E mais belos que tudo seus braços,

redondos, macios,

a vida está aqui,

querida,

por um momento esqueci:

a vida está no lugar

em que você

serve a sopa

sob o círculo de luz.

Bom ter lembrado:

estamos aqui

e ele lá,

e há uma fronteira eterna

entre aqui

e lá.

Por um momento esqueci —

estamos aqui

e ele —

mas não é possível

mais é impossível!

mulher :

Olhe para mim. Não,

não com esse olhar

vazio,

contido.

Volte para mim, para nós,

volte. Fácil,

tão fácil renegar

a nós, o círculo

de luz, esses

braços macios,

a ideia de que voltamos

à vida,

e de que o tempo

apesar de tudo

põe curativos

finos —

homem:

Não, não é possível mais

assim,

não é possível mais

que nós,

que o sol,

que os relógios, as lojas, os bares,

que a lua,

os casais, os pares,

que árvores nas aleias

verdejantes, que sangue

nas veias,

que primavera e outono,

que gente

inocente

existente

no mundo.

Que filhos

dos outros,

que sua luz

e calor —

mulher :

Cuidado,

você tem ideias

tão frágeis

como teias —

homem:

À noite eles chegaram

trazendo na boca

a nova.

Longo caminho fizeram,

graves, calados,

e talvez durante

provavam, lambiam

a nova, furtivamente.

Num espanto de crianças

constataram que se pode reter

a morte na boca como

uma bala

de veneno, à qual eles por milagre

são imunes.

Abrimos para eles a porta,

esta aí, aqui estávamos,

você e eu,

ombro a ombro,

e eles

no umbral

e nós

diante deles

e eles

piedosamente

contidos

e silenciosos

ali de pé

sopraram em nós

o vento

dos mortos.

mulher :

Era um silêncio terrível.

Em volta triturava um fogo

frio. Eu disse:

esta noite viriam,

senti-o. Pensei:

venha, o caos, o vazio.

homem:

De algures, de longe,

ouvi você dizer:

não temam,

quando ele nasceu

não gritei, tampouco agora

gritarei.

mulher :

Nossa vida de antes

continuou

a brotar em nós

uns minutos mais.

A fala,

os gestos,

expressões faciais —

homem e mulher:

Agora

num instante, não mais,

afundamos

os dois. Calamos

com palavras iguais.

Não por ele

choramos,

o canto da vida

antes vivida

choramos, o admiravelmente

simples, a

leveza, o

rosto

liso e

sem rugas.

mulher :

Mas nos prometemos,

juramos,

ser, sofrer

por ele, ter saudades

e viver.

E agora, espere,

o que houve, de repente,

para que você assim

se dilacere?

homem:

Depois daquela noite

veio um estranho e segurou

meu ombro e falou: salve

o que restou.

Lute,

tente curar.

Olhe nos olhos

dela, grude

nos olhos dela,

todo o tempo

nos olhos dela —

sem descurar.

mulher :

Não volte para lá,

àqueles dias não deve

voltar mais,

não volte seu olhar

para trás —

homem:

Naquele escuro eu vi

a minha frente um olho

choroso

e um olho

enlouquecido.

O olho de um homem

terminal

e o olho

de um animal.

Animal já metade

na boca da fera,

uma presa dessangrando,

desvairando,

de teus olhos me encarava —

mulher:

A terra

abriu sua boca,

a nós engoliu

e vomitou.

Não volte

para lá, para

o que o seduz,

não saia

um passo sequer

do círculo de luz —

homem:

Não pude, não

ousei olhar

então seu olhar,

aquele olho

enlouquecido,

de você não estar —

mulher :

Não vi você,

não vi

nada

nem no olho do homem

nem no olho

do animal. A raiz

de minh’alma arrancada

num calafrio.

Frio, fazia muito frio

também agora

faz frio.

Venha dormir,

o agora é tardio.

homem:

Cinco anos

calamos

aquela noite.

Sumiu você primeiro,

depois sumi eu.

Em você foi bom

o silêncio, e em mim

me apertou

a garganta. E uma

após outra morreram

as palavras, e ficamos

como uma casa

em que lentamente se apagam

todas as luzes,

até que se fez

a escuridão da mudez —

mulher :

E nela

de novo o achei,

e a ele. Envolveu

nosso trio

um manto sombrio,

enrolados nele estávamos

com ele, e mudos estávamos

como ele. Três

fetos que a tragédia

concebeu —

homem:

E juntos

nascemos

no outro lado,

sem

palavras, sem

cores, e aprendemos

a viver

o negativo

da vida

(silêncio)

mulher :

Olhe,

de palavra em palavra

o algo secreto entre nós

se esgarça, se dissolve

como um sonho

que a luz de um luzeiro

ilumina. Pois havia no calar

um milagre,

e um segredo no silêncio

que nos tragou, junto com ele,

em que ficamos sem voz

como ele, em que falamos

na língua dele.

E o que têm as palavras —

o que tem a sorte

das palavras

a ver com sua morte?

anotador dos anais da cidade: No silêncio que cai depois do grito dela o homem recua até suas costas tocarem a parede. Em movimentos lentos, como a dormir, ele estende os dois braços para os lados e caminha ao longo da parede. Contorna a pequena cozinha, em toda a sua volta —

homem:

Conte,

me conte

de nós

naquela noite —

mulher :

Sinto aqui algum

segredo: você rasga

as ataduras para

poder beber

o seu sangue, ração

no caminho

para lá.

homem:

Aquela noite,

me conte

de nós

na noite

aquela —

mulher :

Você

me

rodeia como

um predador. Me cerca

como um pesadelo.

Aquela

noite, a noite

aquela.

Você quer ouvir sobre

aquela noite.

Nestas cadeiras sentamos,

você sentou

aí, eu aqui. E você

fumou, eu me lembro

do seu rosto vindo

e indo na fumaça, e lentamente

ficando um pouco

menos, menos

você, menos

gente.

homem:

Calados

aguardamos a manhã.

Manhã

não

veio.

O sangue

não correu

na veia.

Levantei, a envolvi

num cobertor,

você tomou minha mão, olhou

direto nos olhos meus,

o homem

e a mulher

que éramos

com a cabeça acenaram

o adeus.

mulher :

Um não

soprou sombrio

e frio

das paredes

e enfeixou meu corpo

e fechou e trancou

meu útero. Pensei:

estão lacrando

a casa

que uma vez

foi

eu.

homem:

Fale, conte-me

mais, o que

dissemos, quem falou

primeiro? Estava

muito quieto,

não estava? E a respiração,

eu me lembro.

E suas mãos se

contorcendo, uma

na outra, e fora isso

tudo

se apagou.

mulher :

Um fogo frio

e quieto

consumiu em volta.

O mundo de fora encolheu,

suspirou, se apoucou

e se foi, até restar o pontual,

minimal,

negral,

terminal.

Pensei — é preciso

daqui fugir.

Mas sabia — já não há

para onde ir.

homem:

O momento

em que isso

aconteceu,

em que isso

veio a ser um fato —

mulher :

Num instante nos lançaram

numa terra inóspita.

Vieram na noite, bateram à nossa porta,

disseram: na hora tal e tal

no lugar tal e tal, vosso filho,

assim e assim.

Depressa, depressa teceram

uma rede compacta, hora

e minuto e lugar exato,

e a rede tinha um rasgo, você

compreende? Na rede

compacta tinha,

parece, um rasgo

e nosso filho

caiu

no abismo —

anotador dos anais da cidade: E quando ela diz essas coisas, ele para de andar em volta dela. Ela olha para ele com olhos opacos. Com os braços caídos, perdido, ele fica diante dela, como se nesse momento o tivesse atingido uma flecha disparada há muito tempo.

mulher :

Voltarei

um dia

a vê-lo como

você é, e não como

ele não é?

homem:

Posso lembrar

de você sem

ele não estar — o teu sorriso, inocente

e otimista — de mim também,

sem ele não estar, eu posso

lembrar. Mas dele,

que estranho:

dele, sem a ausência dele, não posso

mais lembrar. E quanto mais

se alonga o tempo,

mais parece que

quando ele ainda estava

já se exumava dele

seu não estar —

mulher :

E às vezes, saiba você,

tenho saudade

daquela mulher desvairada

e seu olho injetado de sangue

às vezes acredito nela

mais do que

acredito em mim.

homem:

Por causa dela eu ponho

minha alma

em suas mãos e lhe faço

uma pergunta

que eu mesmo

não entendo:

Você irá comigo?

Para lá,

para ele?

mulher :

Naquela noite pensei,

agora vamos nos separar. Juntos não mais

poderemos estar. Quando eu lhe disser

sim,

você abraçará o não,

a ausência dele

você vai abraçar —

homem:

Como chegarmos, pensei

naquela noite,

como achegar-nos um ao outro?

Quando eu a beijar

cortarão minha língua

os cacos de vidro

do nome dele

em sua boca —

mulher :

Como olhar em meus olhos

se ele está lá

primal como um feto

no negror

da pupila?

Todo olhar, todo

toque serão

cutiladas. Como amar,

pensei naquela noite,

como amaremos

se a ele

num grande amor

concebemos?

homem:

O instante

em que isso

aconteceu —

mulher :

Aconteceu? Olhe

para mim, diga:

isso aconteceu?

homem:

E isso

se avoluma,

sobe,

exubera, um poço

que não tem

fim. E eu

já sei — enquanto

me restar um alento,

desse poço

beberei e sangrarei

a treva

desse

momento.

mulher :

Uma solidão

sem igual

decreta o luto

ao vivo,

como a solidão com que

a doença

envolve

o sofrido —

homem:

Mas na solidão

esta, em que

a alma como que

se separa do corpo —

eu quase

me dilacero

de mim, lá

não estou mais

só, só

não estou

mais,

desde então —

e lá não

sou um

só, e nunca

serei um

só —

mulher :

Lá eu toco nele

no interior dele

bem no fundo

como nunca

toquei nem

por um segundo

em homem algum

no mundo —

homem:

E ele,

ele toca em mim

de lá também

e com toques tais

não tocou ninguém

em mim

jamais —

(silêncio)

mulher :

E se lugar assim houvesse

como lá,

e lugar assim não há,

você sabe — mas se

houvesse,

para lá já iria

um entre todos,

se levantaria

para ir. E quanto

mais longe você for,

como saberá voltar,

e se não voltar,

e se não achar,

e não vai achar

porque não há,

e se

achar, já

não vai voltar,

não o deixarão

voltar,

e se voltar,

como vai voltar, talvez

volte tão

outro

que não

estará de volta,

e quanto a mim,

como ficarei se você

não voltar,

ou se voltar

tão outro, que não estará

de volta?

anotador dos anais da cidade : Ela se levanta e se abraça a ele. Suas mãos percorrem agitadas o seu corpo. Sua boca tateia e busca o seu rosto, seus olhos, seus lábios. De onde estou, nas sombras do lado de fora de sua janela, é como se ela se jogasse como um cobertor para abafar um incêndio —

mulher :

Naquela noite pensei,

já não nos separaremos

jamais.

E mesmo se quiséssemos,

como poderíamos?

Quem iria mantê-lo, quem

o abraçaria

se nós dois

com nossos corpos

não envolvêssemos

sua plenitude

vazia?

homem:

Venha, o que

é mais simples do que isso? Sem

pesar e cismar

e pensar: a mãe

e o pai dele

se levantam

e vão

até ele —

mulher :

Em que olhos olharemos para vê-lo

dobrado no negror

da pupila,

estando lá

mas distante?

Com a mão de quem

trançaremos os dedos

para tecê-lo

em nossa carne

um instante?

Não vá.

homem:

Os olhos,

um só fulgor

de seus olhos —

como é possível, como

é admissível não

tentar?

mulher :

E o que vai lhe dizer, infeliz,

insano, o que

vai lhe dizer? Que algumas horas

depois dele veio-nos

a fome?

Que o teu corpo

e o meu como dois

carrapatos se agarraram

à vida e grudaram

um no outro e nos

obrigaram a viver?

homem:

Se estivermos com ele

mais um instante,

talvez ele também

esteja

por mais

um instante,

num olhar —

respirar —

mulher :

E o quê, após?

O que será

dele?

E o quê, de nós?

homem:

De nós, um coração quebrado,

talvez morramos como ele, num instante,

ou fiquemos pendentes

a sua frente, balançando

entre os mortos

e os viventes —

há cinco anos cientes

do cadafalso da saudade

que eu sinto e tu sentes —

(silêncio)

homem:

O cheiro que exala

seu corpo, mulher,

em sua dor

quando de súbito

mergulha

e rapina

o amargo olor,

do qual sempre me vem

o cheiro dele também.

mulher :

Seus cheiros —

o doce, o picante,

o azedo.

Seu cabelo esvoaçante

sua carne odorante

do corpo o tempero

simples, bastante —

homem:

Como suava depois de jogar,

você lembra?

Todo ele ardente, a exultar —

mulher :

Ah, tinha cheiros para cada estação,

cheiros de terra nos passeios do outono

e cheiro de chuva emanando do suéter

de lã,

e na primavera vocês dois labutavam no campo,

e o cheiro do suor do trabalho,

vapor de homens obreiros,

enchia a casa inteira.

homem:

Mas eu gostava mais do verão,

com os aromas do pêssego

e da ameixa

quando o sumo lhe escorria no rosto —

mulher :

E ao voltar da fogueira com amigos,

exalava a noite e a fumaça

em seu hálito —

homem:

Ou quando voltava da praia

com cheiro de sal

nos cabelos —

mulher :

E na pele.

E o cheiro de seu cobertor de bebê

e o cheiro de suas fraldas

quando sugava o leite,

e parece que só

um minuto

depois —

homem:

— seus lençóis de rapaz

apaixonado...

mulher :

Às vezes, quando estamos

juntos, sua tristeza

se agarra à minha,

minha dor em seu sangue

transfundida,

e súbito se eleva de nós

o eco de seu corpo intacto,

curado

e um instante se pode sonhar a vida

com ele aqui, a nosso lado.

(silêncio)

mulher :

Até o fim

do mundo eu iria

se me chamasse, você

sabe. Mas você não

vai até ele,

vai a outro

lugar, e para lá

não vou, não

poderei. Não irei.

É mais fácil ir

do que

ficar.

Há cinco anos eu

mordo minha carne

para não ir, não ir

para lá,

não há, não existe

lá!

homem:

Se formos

para lá

tal lugar haverá,

lá.

anotador dos anais da cidade: Ela afasta dele seu olhar. Está longe dele como se ele já não estivesse aqui, deste lado. Ele inspira profundamente e parece querer aspirar para dentro de si toda a pequena cozinha e a casa inteira, e a ela, com seu rosto e seu corpo. Então ele se apruma, caminha e passa junto a ela, sua mão repousa por um átimo em sua cintura, tocando sem tocar. Ele sai da casa, fecha a porta atrás de si.

E para: o céu está baixo e escuro, e a noite, com seu largo peito, o empurra de volta à casa. Ele olha para a porta fechada. Suas pernas hesitam, tateiam. Ele anda, estranho, circundando a si mesmo, num pequeno círculo. Devagar, com cuidado, uma vez após outra, um círculo e mais um círculo em volta dele mesmo. Seus braços se abrem, os círculos se alargam, ele anda e rodeia o pequeno quintal, agora a casa, anda em volta da casa —

o caminhante:

Eis que vou cair

agora vou cair —

e não caio.

Eis que agora

o coração

vai parar

e não para.

Eis a sombra

e a névoa — agora,

agora

cairei —

anotador dos anais da cidade: A noite é fria e úmida. Dos grandes pântanos a leste rolam nuvens, cobrem a lua. Mais e mais ele anda em volta da casa, como a esperar que seu movimento desperte a mulher, arraste —

o caminhante:

O frio

em sua voz, mulher,

embaraça

meus pés. Como irei

sem seu calor, sem a luz

de seus olhos em mim? Como

irei se

você tirou

sua graça

de mim?

anotador dos anais da cidade: Seus olhos fitam o tempo todo a persiana arriada, ele dá voltas e voltas em torno da casa, mas a cada vez parece que vai se afastando, abrindo e se espalhando, além, mais além, caminha, seus círculos se ampliam, se alargam, está indo para lá, não existe lá, claro que não existe, mas e se alguém for para lá? E se há um homem que vai para lá?

o caminhante:

Não estou só, não estou

só, murmuro

num juramento jurado,

e o bafo de sua boca

sai de minha boca

para o espelho nublado —

não estou só com ele, não estou

só —

anotador dos anais da cidade: Ele anda em volta de toda a aldeia, mais uma vez, e mais uma, passa por casas, quintais, poços e campos, por estábulos e redis e pilhas de lenha de calefação. Cães ladram para ele e logo recuam dele num uivo, e ele caminha —

o caminhante:

Não estou só, com ele

não sou um,

sozinho estou

com ele em tudo

que me constrange,

pulsa em mim, vive

comigo, junto

comigo, com ele estou,

efêmero, nesse corte

imenso

que se criou em mim

com sua morte —

comigo recrudesce

e esvaece

não se aquietou

não se aquietou

me sacode

me amargura

me redime

me algema

e cura

e purifica,

não me larga

não me larga

esse menino

solitário

e morto.

anotador dos anais da cidade: Uma noite, mais uma noite e mais uma. Coisas estão acontecendo em vossa cidade, duque, e temo não conseguir anotar todas elas para vós.

Eis que agora, meia-noite, no antigo cais junto ao lago, no meio de um emaranhado de redes de pesca, algo se move. Uma cabeça se esgueira para fora e olha em volta. Um corpo pequeno, flexível, se arrasta de dentro desse emaranhado e se senta, ofegante. É uma pessoa, sem dúvida, no rosto imundo brilha a brancura dos olhos assustados, que perscrutam as colinas nos limites da cidade. A boca aberta se vira e olha firmemente como se fosse um terceiro e escuro olho.

Agora eu vejo: é a cerzidora de redes. Talvez vos lembreis, Vossa Alteza — anos atrás, em uma de vossas visitas ao porto, vos deleitastes com sua língua afiada, quando discutiu convosco acerca do imposto sobre agulhas de costura que então baixastes, por vossa graça. Um menininho sorridente de cabelo encaracolado estava preso ao peito dela por um pano colorido e ele se divertiu convosco num jogo de olhares, e vós lhe destes uma moeda de ouro. Não sei qual foi seu destino. De vez em quando eu a vejo perambulando pelas ruas em torno do porto, rosnando, balbuciando para si mesma palavras sem sentido, envolta e emaranhada numa confusão de redes de pescadores, a ponto de se poder pensar que dentro não há ninguém.

Ela salta de repente como que picada por uma serpente. Suas mãos se erguem, apontando para longe, ela suspira —

E se estais desperto, duque, e se vos aprouver olhar por vossa janela, vereis também: como que uma pequena mancha clara dando voltas em torno da cidade. Um homem está andando, subindo e descendo as colinas —

o caminhante:

Um passo,

mais um passo, mais

um passo,

caminho

e caminho

até você.

Uma pergunta lançada

eu

num grito aberto

meu filho

se eu pudesse

um passo,

não mais,

mover

você.

anotador dos anais da cidade: E no terceiro turno da noite, numa ruela lateral nos limites da cidade, numa pequena casa de um só cômodo, sentado junto à janela está o Centauro. Assim ele é chamado na cidade, Vossa Alteza, e eu prometo tentar, em breve, descobrir por quê. Sua poderosa cabeça, coroada de cachos muito brancos, pende sobre seu peito, seus óculos escorregaram até a ponta do nariz, e seus roncos estremecem a casa. Um olhar à direita e à esquerda: não há ninguém. Eu me ergo na ponta dos pés e olho para dentro do quarto. A penumbra é densa ali, mas me parece que o quarto está muito cheio, atulhado: montinhos e pilhas estranhas, que talvez sejam de poeira, ou de lixo, ou um amontoado de móveis antigos, cercam o homem e às vezes chegam até o teto. É difícil entender como ele pode se mover nesse quarto.

Sobre a mesa à sua frente estende-se um cobertor sujo. Algumas garrafas vazias de cerveja, canetas, lápis, um caderno escolar, tudo misturado. O caderno está aberto, cada página é pautada em finas linhas azuis. As páginas, até onde posso perceber daqui, estão vazias.

“Dê o fora daqui, ou eu lhe arranco os ovos”, murmura o Centauro sem abrir os olhos, e eu fujo enquanto é tempo.

Somente quando chego na cerca da casa da mulher de quem me exilei é que meu coração volta a bater normalmente.

mulher do anotador dos anais da cidade :

O tempo que passa

faz doer. Perdi

a aptidão

do movimento simples,

natural, dentro dele.

Sou arrastada nele

para trás, na direção contrária

a seu fluir, e ele

furioso, vingativo —

o tempo todo, todo o

tempo

crava em mim

aguilhões.

anotador dos anais da cidade: E na noite do dia seguinte, numa cabana em um dos bairros enlameados nos extremos da cidade, uma mulher jovem — parteira de profissão — num movimento brusco não está mais de joelhos junto a uma bacia com água, e sim de pé, as mãos gotejantes. Até onde posso perceber, não há no quarto uma parturiente, nem um bebê, e na bacia flutuam apenas calças e a camisa de um homem. A mulher fica imóvel, como se estivesse congelada. Seu pescoço é uma fina haste, e seu rosto é comprido e delicado. Com passos rígidos ela se vira para a janela e vai até lá. Fora está frio e tempestuoso, e como da chaminé da cabana não sai fumaça — por ela posso olhar para dentro —, imagino que dentro da cabana também faz muito frio.

Seu olhar varre a distância, as colinas, na linha do horizonte. Ela está calada, mas seus dedos se crispam em volta da boca como num grito, até que eu também prendo a respiração. Quando ela finalmente suspira, seus ombros desabam, como se de uma só vez perdesse as forças.

E seu marido — tórax em forma de barril, crânio avermelhado e raspado, nuca com três grossas dobras —, que durante todo esse tempo ficara sentado num canto do quarto, trabalhando num par de botas de montaria, pontuando e ritmando o silêncio com as batidas rápidas de seu martelo, logo filtra as palavras através dos pregos que tem na boca —

sapateiro: Você está de novo envenenando a alma?

parteira: O-on-t-tem ela com-completaria ci-cinco anos.

sapateiro: Já lhe disse cem vezes que é proibido pensar nessas coisas! Chega, acabou!

parteira: Acendi uma vela em frente ao r-re-retrato dela e não disse n-n-nada. Você nunca pensa nela?

sapateiro: O que tem para pensar em quê? Quanto tempo de vida ela teve? Um ano?

parteira: E m-mei-meio.

anotador dos anais da cidade: O sapateiro, com toda a força, bate com o martelo no calcanhar da bota, solta uma imprecação, e chupa com estranho apetite o sangue que jorra de seu dedo.

Já saio de lá cheio de pensamentos. A cidade dorme e as ruas estão desertas. Na extremidade do antigo cais eu paro, espero. As nuvens estão pesadas, e quase tocam a água do lago. Logo virá a aurora.

E de novo, como na noite de ontem, a cerzidora de redes muda ergue a cabeça de dentro do emaranhado no qual se deita. Olha em volta, procura, como se tivesse ouvido uma voz a chamá-la. Eu me escondo atrás de um poste. Ela pula de repente, corre ao longo da plataforma numa velocidade inacreditável, entre esqueletos de barcos e âncoras enferrujadas, e suas compridas redes se arrastam, esvoaçam atrás dela —

Na ponte de madeira se detém. Ouço o sibilar de sua respiração. Quem sabe o que passa na mente dessa criatura infeliz. Ela se agarra à amurada e se sacode com violência. Quanta força e quanta raiva existem nesse pequeno corpo. Eu me aproximo com cautela, me ajoelho atrás de uma canoa emborcada. O lago está tempestuoso esta noite, e meus óculos se cobrem seguidamente de pequenas gotículas. Em momentos como este, Vossa Alteza, eu quase amaldiçoo minha obediência cega a vossas ordens. É difícil enxergar daqui, mas me parece que alguém tenta forçar a muda a se virar para trás e olhar para as colinas, e ela luta falando e cuspindo, e o corpo pequeno e flexível se dobra e se joga para os lados, escrevo depressa e no escuro a mão treme peço desculpas pela letra Vossa Alteza talvez ela queira se jogar no lago e o que farei então faz tantos anos que não toco em ninguém e a cabeça dela num movimento brusco é lançada fortemente para trás talvez realmente alguém no escuro lhe esteja quebrando o pescoço —

Sua boca se abriu, revelando os dentes, e de repente fez-se silêncio. E assim silenciou também o lago como se as ondas não

mulher muda na rede:

Duas migalhas de gente

nós éramos,

o menino e sua mãe,

no eterno espaço

do mundo pairamos

seis anos

inteiros —

anotador dos anais da cidade: E perplexa ela volta e se deixa cair no emaranhado de redes. Estou com muito frio, Vossa Alteza. Manifestações como essas me deixam intranquilo. E isso de o lago voltar à vida de uma só vez, e as canoas novamente se chocarem umas com as outras e rangerem como se rissem de mim. Também zombareis de mim, duque, mas estou disposto a jurar que vi um fino traço de luz saindo da boca dessa mulher. Talvez apenas uma ilusão causada pelo luar. Mas, na verdade, não há luar algum. E também ocorre que, por um momento, quando cantou, ela era quase bonita. Estou só relatando. E sua voz era cristalina. Eu diria, cautelosamente: celestial. Mas o que entendo eu. E também estou cansado. Tudo isso é muito confuso. Talvez tire um cochilo em uma das canoas.

Um momento —

Agora, como um ágil animalzinho, ela escava em suas redes e se cobre com elas, e já desaparece. Segundo as anotações que tenho aqui — durante mais de nove anos ela não pronunciou uma palavra sequer.

E agora, Vossa Alteza, finalmente a aurora.

duque:

A aurora!

De dentro da noite

odiosa,

do teatro

de seus pesadelos, eu

volto, sou resgatado

e me recomponho

pedaço

a pedaço, mosaico

de duque: eis minha mão

estendida

para o pão,

com seu fresco aroma e

morna textura,

e antes, antes

meu olhar

à janela vai, se esvai

para dois passarinhos na poça,

para o raiar da aurora

purpúrea, veja,

duque, que bênção:

a sua frente

como numa bandeja

um dia tenro, bebê

cujos dentes ainda não nasceram —

mas já há uma semana, bem longe,

nas colinas, um homem

como uma navalha

aberta anda

e corta o céu

com a cabeça —

o caminhante:

Farei

você

se mover,

farei se mover

você,

meu filho

arrancado,

gelado,

meu filho

castrado.

E cada dia é mais pungente,

e a cada dia você é mais

renitente, e mais

e mais

exigente —

anotador dos anais da cidade: Toda vez que a parteira sai do quarto o sapateiro corre à janela. Seus olhos se agitam, procuram nas colinas, seus lábios se movem como se mastigassem ofensas e reprimendas. O martelo está em suas mãos.

E agora ele me surpreende em seu quintal, atrás do galinheiro vazio. Ele não vem a meu encontro, não me expulsa, nem mesmo me ameaça com o martelo. Eu lhe mostro com cautela o caderninho e a caneta. Tenho a impressão de que ele assente.

parteira:

Em frente a minha cama

na p-p-parede

tem um relógio redondo

ant-t-tigo,

um mecanismo fraco e veterano,

ponteiros est-t-tacionados na mesma

ho-ho-ra

e no mesmo minuto, já faz m-m-mais

de um ano

anotador dos anais da cidade: A sua voz chega abafada e monocórdia do quarto ao lado. O sapateiro se afasta da janela. Anda para trás. Para trás? Estranho: parece andar dormindo, adivinhando o percurso, até que as costas estão contra a parede. Os dois braços erguem-se devagar para os lados. A cabeça raspada, vermelha, bate com força na parede, ao ritmo das palavras que chegam do outro quarto.

parteira:

E somente —

o ponteiro dos s-s-se-segundos

silente

ainda palpita

salta e insiste

no tempo que resta

todo o tempo que ainda

subsiste

salta e resiste

ao recuo

não desiste

avança

e persiste

em passar

para a hora zero

ou somente

em

em

em ser,

ser somente um segundo inocente pleno simples não mais não menos somente

isso meu Deus somente

ser.

duque:

E aqui, no palácio,

em meu quarto,

assobia a chaleira, do café

o vapor, na calma, na lentidão

no torpor, não há como duvidar:

é um duque

exemplar —

não.

Não.

Não é dono

de si mesmo quem aqui acordou

de seu sono,

com os ossos ocos,

no abandono,

ah, a força do peso

da tragédia (você pensou

estar defendido,

duquinho, pensou

que era imune. Seus batalhões

por toda a terra se espraiam, mil cavaleiros

sobre mil cavalos, e você

é estilhaços de argila). Mas levante-se,

enfrente seu dia,

vista em silêncio a pele postiça

que é seu nome, avive

no coração a brasa

mortiça, convença

com toda a força a

si mesmo que ainda se lembra como é

simplesmente

ser; como fazer nada, por exemplo,

como se faz nada? Como

alguém faz nada

sem nada querer, como pode

esquecer por um momento

o que está entalhado, cauterizado

lá dentro?

Em suma —

este fingido, matreiro,

que se faz de alguém

rotineiro, cujo olhar

se deixa levar

à janela aberta, cuja mão

se estende convicta ao pão —

E dentro disso, súbito,

eu caio

mergulho,

sou apenas

a sombra da sombra

daquele que anda lá

sozinho, de quem

grava em minha terra

em pesados passos

a sentença:

tudo que existe

tudo que existe

(ah, meu pequeno

menino, querido

perdido) —

tudo existente

doravante

ecoará

o ausente.

anotador dos anais da cidade: “É como um balbucio”, explica o Centauro quando passo por sua janela ao anoitecer do dia seguinte: “Um balbucio ou uma espécie de farfalhar, seco, dentro da cabeça, que jamais para”.

É sem vontade, Vossa Alteza, que ele presta seu testemunho. Só depois que lhe mostro a ordem ducal com vossa assinatura e o selo com vossa imagem, para que ele os examine, ele compreende que não tem alternativa a não ser cooperar.

centauro: Minuciosamente. Você precisa saber o que se passa comigo? Realmente interessa ao traseiro do duque saber minuciosamente o que é esse farfalhar em minha cabeça? Então vamos em frente, agarre essa oportunidade pelos colhões, barnabé: escreva que parece, digamos, com folhas secas. O que você está olhando feito um idiota? Folhas! Mas secas, certo? Esfarelando-se, mortas, anotou? E alguém pisa nelas, o tempo todo, anda e pisa... e então? Isso explica minuciosamente? O duque ficará satisfeito? Seu rosto resplenderá com prazerosa excitação?

anotador dos anais da cidade : Eu pessoalmente, duque, relevo sem muito esforço qualquer ofensa a minha dignidade, mas não aceito de maneira alguma que ofendam assim o vosso representante, e por isso virei-me para ir embora —

centauro: O que é isso? Sem um beijo? Volte aqui imediatamente! Parece-me, barnabé, que em sua ordem está expressamente escrito “toda informação que for necessária às autoridades, sem omitir nenhum detalhe”! É ou não é verdade? Então, por favor, abra agora mesmo seu caderninho e comece a escrever:

“Alguém caminha o tempo todo pisando nelas, nas folhas secas” — escreva! — “indo e vindo, indo e vindo, em círculo, arrastando os pés...” — anote — “hrrrsss, hrrrsss” — assim, sim, três letras s no fim... é com certeza um detalhe que esclarecerá a situação minuciosamente para o duque! Mil por cento de certeza que isso vai levantar o dele, assim! Captou, escrivãozinho? Já lhe disseram alguma vez que você tem cara de órfão inglês?

anotador dos anais da cidade: Enquanto eu faço de conta que anoto essa parlapatice idiota, fico de vez em quando na ponta dos pés e dou uma olhada nas pilhas de coisas que atulham o quarto. Organizo uma pequena e rápida lista: um berço de madeira, um carrinho de criança, uma pequena cama, muitas bolas de futebol furadas, cadeirinhas coloridas, um cavalo de pau, um barco de brinquedo, vagões enferrujados de trenzinho elétrico, um chapéu de caubói, uma faixa de penas de índio, um nunca-acabar de folhas de papel cobertas de desenhos e rabiscos... Aliás: todo esse amontoado de coisas está coberto de cocô de moscas e camadas de teia de aranha. Tudo parece estar deteriorado e quebradiço, e a ponto de se esfarelar a um simples toque da mão, até mesmo do olhar. E ele lá, vejo aqui da janela, continua a tagarelar, xingar e praguejar. Eu fico na minha. Tênis, patins e sandálias, livros, livros em toda parte, uma pequena carteira escolar, estojos, um urinol verde, uma bicicleta pequena com rodinhas — que tagarele o quanto quiser, reclame, escarneça, de vez em quando eu lhe aceno assentindo, nem dez caderninhos me seriam suficientes, aqui tem todo um museu de infância, talvez o museu de um menino. Pé de pato de borracha e óculos de mergulho, ursos de lã, leões e tigres de pelúcia.

Ele parou de falar. Olha para mim por cima de seus óculos. Talvez suspeitando. Um acordeão pequeno, uma pasta, soldadinhos de chumbo, pincéis, a situação não está boa, não estou tranquilo, esses olhos injetados de sangue. Já vou parar. Ei, jogos de mesa, o querido Banco Imobiliário, Serpentes e escadas, baralhos de figuras, apetrechos para o jovem mágico, uniformes de escoteiro, saquinhos de brindes de aniversários, arco e flechas — como é possível sequer respirar neste quarto?

centauro: É impossível. E agora, se tem amor à vida, escriturário, vá embora daqui e não volte, tá-tá-tá! Rápido!

anotador dos anais da cidade : Álbuns de fotografias, máscaras, um revólver de brinquedo, chupetas, apitos, uma lanterna de bolso —

centauro: Dê o fora daqui, carrapato, ou vou eu até você —

mulher que ficou em casa:

Cinco anos depois da morte

de meu filho, seu pai saiu

para encontrá-lo.

Eu

não fui com ele.

Não fui. Tão intensamente não

fui que desabei. Senti, rejeitada,

as pernas se dobrarem sob meu corpo. Ouço

a voz que a mim chega

de longe: ele

caminha, ele vai. Não

fui.

Para lá

eu não.

Para lá

eu

não.

O coração palpita, ele

vai. O sangue lateja,

ele vai, tilintam

colheres e garfos, brilham

espelhos, lançam sinais, espelhe-se

nele, olhe para

ele, de dia, de noite, ele

vai. Eu

iria com ele

até o fim

do mundo. Não para lá,

não

para lá.

duque:

... e ele talvez se revolte, não tenho

certeza, meus detetives

veem nele um perigo:

a frieza de um rebelde, de

um homem teimoso,

obstinado —

mas seus olhos — assim eles escrevem

concluindo o relatório — luzem de azul

e de inocência, como os olhos

de um menino.

parteira:

J-j-já não saberá,

minha filha, que todo homem

é uma ilha,

que é impossível

a outro h-h-homem

conhecer

por dentro. F-f-i-

ilha que nem mesmo sua mãe

poderá ser,

e por um minuto

ao menos, dar-lhe vivência,

nela ter sobrevivência,

essência de sua es-sência.

anotador dos anais da cidade: A neblina enche as ruas da cidade. A parteira está à janela, o olhar nas colinas, os lábios quase beijando a vidraça, e murmura algo como se estivesse febril. Seu hálito intermitente, fragmentado, se desenha na vidraça como se fossem hieróglifos, e logo se evapora, às vezes ainda antes de eu ter anotado. De onde estou — desta vez atrás do poço em ruínas no quintal — dá para ver seu marido, sentado na banqueta e dirigindo a ela um olhar fascinado, o martelo na mão.

parteira:

Também o que s-s-sou não mais

se ligará ao que você é, também o que sou

a mim mesma não vai mais

se ligar. Tudo se desligou. Dizem que há

coisas no mundo. Dizem

que entre as c-c-oisas há

ligações. Eu o-o-lho para

os que dizem. Eu

vejo

migalhas

e furos,

grânulos

de membros e de partes —

centauro: Mais uma vez, e uma vez mais ele pisa nas folhas dentro de minha cabeça, dando voltas, esmigalhando-as, de dia e de noite, sempre o mesmo ritmo, sem nunca mudar, já faz quinze anos, desde então, mesmo quando durmo, mesmo quando defeco, sim, escreva, para que pelo menos em algum lugar esteja escrito, e também tem cochichos o tempo inteiro, assim: hmmm... hmmm... e então ele ataca como um enxame de vespas, zzzzzz, perfurando o cérebro: isso aconteceu, isso aconteceu, isso aconteceu com ele, isso é para sempre, isso é para a eternidade, e ele não, ele não mais —

Ah... diga, barnabé, isso só acontece comigo lá dentro, certo? Você não pode ouvir isso, não é?

anotador dos anais da cidade: Esta tarde, depois que dele me despedi, não sei por que dei mais uma ou duas voltas para vê-lo. Na janela, seu rosto grande e pálido ficava cada vez mais tristonho à medida que eu me afastava. É admirável a lentidão com que se movem seus longos cílios. Uma fina faixa de luz fulgiu de repente na direção do lago e lampejou contra o céu escuro. Corri para lá —

mulher dentro da rede:

Duas migalhas de gente

nós fomos,

o menino e sua mãe,

no eterno espaço

do mundo pairamos

seis anos

inteiros,

e a mim pareceram

um só minuto sutil

em que éramos como

um poema

infantil,

em que o prático

rima com o fantástico

Até que veio e soprou

o mais leve dos leves

sopros

respiro

adejo

abano

breve brisa

nas folhas —

decretou e assinou

você para cá

ele para lá

se afastaram seus passos —

e acabou, terminou

e rompeu-se

em estilhaços.

anotador dos anais da cidade : Agora ela percebe minha presença e se cala. O píer inteiro nos separa, mas ela me estende os braços como se eu estivesse a seu lado.

mulher dentro da rede:

Como por lâminas

de tesouras

fui recortada

do retrato da minha vida,

o gelo da solidão

e da ausência

em meus membros,

me queimo, me arraso.

Pois me tocou,

pois fui tocada

pelo gélido toque

do acaso —

anotador dos anais da cidade : E num gesto brusco ela tapa a boca com as duas mãos. Acima delas — seus grandes olhos negros se enchem de medo. Se me perguntardes, Vossa Alteza, diria que essa pobre mulher absolutamente não entende as palavras que lhe saem da boca! Aliás, também me parece que ela realmente acredita que basta eu me aproximar e tocá-la para que ela se livre desse vão encantamento, mas eu há quase treze anos não toco em ninguém. Agora devo me apressar, senhor; é quase meia-noite, e posso perder meu encontro com minha mulher.

mulher do anotador dos anais da cidade :

Um corpo minúsculo transparente

fúlgido havia em mim, um raio

dourado, fluindo. Eu sabia: ele

sou eu, meu alento

minha seiva, o sentido

de eu ser. Nasceu

comigo, pensei, e também

morrerá comigo —

sem saber que eu poderia

viver mais

do que ele, que eu seria

um exílio, alguém

que é ninguém.

E que mentirosa vou ser —

tal que sem pejo

sem pestanejo

ousa dizer:

eu.

mulher que ficou em casa:

Mordi

com meus dentes minha carne. Não

parti. Como uma vela me

extingui. E só

ele restou em mim

acordado: agora ele

vê, agora está

lembrado. Agora ele cruza

o inferno. Agora se cala

com o filho dele. Ou

ri. Ou prova

uma migalha de felicidade

com ele —

não respirar, não

pensar, o que

ele vê, o que rememora,

o que lhe devora

o coração. Como é vazio

seu interior. Um olho apagado

em mim se acendeu,

olho de animal

metade do qual o predador

já mordeu. O que

ele vê

lá, pergunto, grito, bato

a cabeça na parede, e quanto já

se arrastou, e quanto já se desbastou, e quanto

se afastou

para a escuridão —

o caminhante:

Pelo visto só posso

compreender coisas que

estão dentro do tempo. Pessoas,

por exemplo, ou pensamentos, ou tristeza

ou alegria, cavalos, cães,

palavras, amor. Coisas

que envelhecem, que se renovam,

se transformam. Minhas saudades de você

também se encerram no tempo. O luto

se faz veterano, antigo

com os anos, e tem dias em que é novo,

fresco.

Assim também a ira por tudo que lhe foi

roubado. Mas você

já não.

Você mesmo já

não. Você

está fora do tempo.

Como explicar a

você. Quando até a explicação

se comprime no tempo. Contou-me

uma vez um homem de uma terra

distante que em sua língua

se diz de quem morre

na guerra, “caiu”.

Assim é você: caiu

fora do tempo, o tempo

no qual eu habito

passa

por você: uma figura

de pé sozinha

sobre um cais

na noite

cujo negror

dela transbordou

até se esgotar.

Eu vejo você

mas não o toco.

Não sinto você

nos meus sensores

do tempo.

centauro: Tome como exemplo você mesmo, anotador dos anais da cidade, ou como quer que você se intitule. Você é um prazer para os olhos, juro! Esse chapéu, m-eu-se-nhor! E a gravata, e a pasta e o bigodinho... uma delícia! Só é pena que esteja tão desleixado e sujo, como um mendigo, juro, e também, me desculpe, fedendo como um monte de cocozinho fresco, mas fora isso —

Basta, não comece a inflar, o que você está papagueando aí? Ofensa a servidor público? Pshhh! Um pouco de senso de humor, barnabé, estou brincando com você! E aliás, saiba que de minha parte é tudo por inveja. Sim, tome nota, nas maiores letras possíveis: o centauro tem inveja do escriturário!

Não, diga você mesmo: não é uma sorte incrível que você, no exercício de seu trabalho, e sem dúvida em troca de um belo salário, possa espiar quanto quiser dentro do inferno dos outros, sem precisar meter nem a ponta do seu mindinho branquelo? Pense! O que é mais excitante do que o inferno dos outros, diga? E no geral, você há de concordar comigo, a dor em segunda mão é preferível à dor em primeira mão, não é? Não é de uso mais saudável, e também mais “artística”, no sentido mais elevado, ou seja, mais castrado, da palavra? E veja, tome você como exemplo: já faz pelo menos uma semana que você passa por aqui, assim, por acaso, diante da minha janela, três-quatro vezes por dia, ontem foram cinco, mas quem está contando — apressado em seus afazeres, mergulhado em seus pensamentos, e de repente — Opa! Vamos dar uma freada estridente! Vamos pestanejar de surpresa! Que temos aqui? Um centauro! E ainda por cima enlutado! Dois coelhos de uma cajadada só! Rápido e fácil vamos vestir uma expressão de suave condolência e solidariedade, e num instante mergulhar a ponta de nossa pena prateada em sua negra tinta, e três-quatro, vamos perguntar sobre seu filho, perguntar sobre o filho, perguntar sobre o filho! E se o interrogado não der respostas suficientes, não desistir, não desistir, vamos voltar dentro de uma hora, e de duas horas, e amanhã de manhã também, e novamente, novamente perguntar sobre o filho, e não vamos largá-lo mesmo que ranja os dentes e morda os lábios até doer, e conte-me por favor como ele era quando bebê, e o que gostava de comer, e o que construía com o lego, e que canção de ninar você cantava para ele... Ouça, carrapato da tinta, nem o imposto de renda da Inquisição torturava assim! E então, subitamente, pshhhh! O relógio da cidade faz soar a hora, ding-dong, até logo, até logo, muito obrigado, foi muito agradável, a pena volta a seu estojo, o caderninho a seu bolso, e o barnabé já está a caminho de casa, abre parênteses, o que lhe importa que eu fique aqui sangrando, dilacerado, cortado em pedaços, fecha parênteses, o escriturário assobia uma canção alegre pensando no pernil de cordeiro que o espera no forno, e claro que também nos pernis dessa ou daquela senhora... O quê, hein? Peguei você naquilo — como é que se chama? —, ou não peguei?

anotador dos anais da cidade: Paro aqui, Vossa Alteza! Cheguei a meu limite! Daqui em diante — o anotador dos anais da cidade se recusa peremptoriamente a encontrar-se com essa criatura repelente! Podeis me matar, duque, a ela eu não voltarei!

o caminhante:

Ouvi uma voz

de mulher se elevar

da cidade:

que todo homem é

uma ilha,

que é impossível

a outro homem

conhecer

por dentro —

Eu fico na minha, não paro

de tentar: faço haurir, despertar,

dividir sem parar

células suas que ainda

vivem em mim, as derradeiras

impressões do ser que ainda

não se perderam nas extremidades

de meus sentidos —

o toque de sua pele de menino,

sua voz que ainda é fina e secreta

em meus ouvidos, mas já dispara

agudo estilhaço

de ironia, e o registro

do movimento de seu corpo,

passa tão rápido,

desliza (tão contente fiquei

quando me disseram que você

andava como eu).

Uma dúvida

fina e afiada lampeja

no franzir de seus lábios —

Continuar: parte 2 de 3