Gêneros televisivos e modos de endereçamento no telejornalismo
Infotainment na TV: as estratégias de endereçamento do Profissão RepórterThiago Emanoel Ferreira dos Santos
Infotainment na TV: as estratégias de
endereçamento do Profissão Repórter
Thiago Emanoel Ferreira dos Santos
Introdução
O jornalismo é um campo em debate e os discursos em torno dele estão em disputa. Como todo campo social, ele apresenta embates entre os seus agentes. De um lado, estão aqueles que defendem um modelo de jornalismo que pode ser aplicado em diferentes contextos sociais, culturais e econômicos e, do outro, aqueles que acreditam existir tantos jornalismos quanto são estes contextos. Os primeiros, acadêmicos vinculados à teoria crítica e à tradição que estuda as relações existentes entre a comunicação e a política, veem com apreensão a relação do jornalismo com outras áreas, como o entretenimento. Os outros, alguns vinculados aos estudos culturais, propõem que esta articulação entre informação e entretenimento não seja vista necessariamente como um problema ou distorção para nenhuma das duas áreas.
A articulação existente entre o campo da informação e a área do entretenimento no telejornalismo brasileiro já foi objeto de análise em outros artigos formulados por mim. O primeiro foi resultado da disciplina Comunicação e Cultura Contemporâneas, em que, em grupo, analisei como os dois campos se articulavam no interior do programa Custe o Que Custar (CQC) da Rede Bandeirantes. Na análise do mesmo programa, escrevi em conjunto com a doutora Itania Maria Mota Gomes e a mestre em Comunicação Juliana Gutmann, o artigo Eles estão à solta, mas nós estamos correndo atrás. Jornalismo e Entretenimento no Custe o que Custar (2008), publicado na revista eletrônica E-Compós. A observação deste programa, nas duas oportunidades anteriormente citadas, mostrou ser possível a articulação entre a informação e o entretenimento em programas televisivos, sem acarretar em um problema nem na sua função de informar, nem na de entreter.
Este presente artigo retoma a discussão sobre a relação destes dois elementos, mas agora, no interior de outro programa: o Profissão Repórter da Rede Globo. Este produto televisivo já foi analisado por
mim em minha monografia 1. Para este fim, utilizo como metodologia de análise os operadores formulados por Itania Maria Mota Gomes (2007) – mediador, contexto comunicativo, organização temática e pacto sobre o papel do jornalismo, articulando-os ao conceito de trajetória formulado pelo sociólogo Pierre Bourdieu (1997), em que ele diz que a trajetória dos agentes de determinados campos ajudam a analisar a atuação destes agentes. Utilizo este conceito articulado ao de mediador, formulado por Itania Gomes (2007), para pensar como a atuação dos mediadores do Profissão Repórter à frente do programa está vinculada à trajetória profissional deles. Neste artigo, articulo ainda aos operadores os três modos de comunicação propostos por Mats Ekström (2000), em que ele afirma que o telejornalismo contemporâneo se comunica através de três modos possíveis, sem que haja exclusividade de apenas um deles, mas que, no endereçamento dos programas, um destes se sobressai. Os três modos são informação, storytelling e de atrações.
Ekström (2000) afirma que no modo de comunicação de informação, a intenção da produção é oferecer informação que pareça ser suficientemente relevante, suficientemente interessante e suficientemente necessária para apreender a possível audiência. No modo de comunicação storytelling, os produtores almejam contar uma história que seja excitante ou suficientemente dramática para apreender os possíveis telespectadores. Já no modo de comunicação de atrações, a produção quer oferecer atrações que sejam espetaculares, chocantes ou extraordinárias para fascinar aqueles que estejam assistindo a um dado programa.
Profissão Repórter A primeira edição do programa Profissão Repórter da Rede Globo foi ao ar no dia 29 de maio de 2008, com a decisão da rede de televisão em constituir uma terceira linha de atrações noturnas, como é chamada a faixa de programação das 23 horas. Na descrição do programa no site Memória Globo da Rede Globo, a concepção do mesmo é atribuída ao jornalista Caco Barcellos, que também é apresentador, repórter e editor do Profissão Repórter. Na terça-feira, vai ao ar logo após o programa humorístico Toma Lá Dá
Cá2 e antes do Jornal da Globo, aproximadamente às 23 horas e 15 minutos. O programa é dividido em dois blocos, totalizando aproximadamente 25 minutos, tendo a primeira parte da atração, em média, 18 minutos e a segunda, sete minutos. O Profissão Repórter é líder no horário, atingindo uma média de 21 pontos, considerado por jornalistas especializados em televisão, como a colunista do jornal O Globo Patrícia Kogut, um bom número para a sua hora de exibição. Nesta faixa de horário, a principal concorrência vem da Rede Record que leva ao ar uma telenovela e os reality shows – nos períodos analisados, estava no ar o reality O Aprendiz.
O programa surgiu como um especial do Globo Repórter, em abril de 2006, depois, ainda no mesmo ano, começou a ser exibido como um quadro do Fantástico. Da data de estreia até o lançamento na grade semanal da Rede Globo foram 48 reportagens no Fantástico e cinco especiais na programação da Globo. O primeiro especial de fim de ano, chamado Vida do mar, foi exibido em 14 de dezembro de 2006 e abordou as aventuras dos trabalhadores do mar nas plataformas de petróleo e submarinos da Marinha. Os outros especiais foram O Brasil sobre duas rodas, exibido no dia 30 de agosto de 2007; O Brasil da hora-extra, que foi ao ar no dia 18 de outubro daquele mesmo ano; e Em busca do sucesso, apresentado no dia 13 de dezembro, também em 2007.
O primeiro programa ocupando o atual espaço na grade da Rede Globo teve como tema o transplante de órgãos. Neste artigo, foram analisados os dez últimos programas de 2008, da edição do dia 14 de outubro, cujo tema foi o Círio de Nazaré, até o dia 16 de dezembro, em que as equipes de reportagem retornaram ao Estado de Santa Catarina que havia sido devastado por enchentes duas semanas antes. Foram analisadas ainda dez edições exibidas em 2009, do dia 14 de abril, cujo tema foi transtornos alimentares, até o dia 15 de junho, em que foi realizada uma reportagem sobre o primeiro ano da lei seca.
O contexto do programa na TV Globo
Achamos necessário, para falar da articulação sobre a informação e o entretenimento no programa Profissão Repórter, fazer uma breve retomada da relação da Rede Globo com as áreas da informação e do entretenimento e destacar os dois programas que, na nossa visão, têm articulado estes dois campos em seu interior, há alguns anos, e com os quais o programa analisado neste artigo tem maior vinculação. Falamos aqui do Globo Repórter e do Fantástico.
O Fantástico é visto pela Rede Globo como um “espaço para a experimentação de novas ideias e formatos”. (MEMÓRIA GLOBO, [2008]) A primeira edição do programa foi ao ar no dia 5 de agosto de 1973, apresentado pelo jornalista Sérgio Chapelin. Já na primeira edição, tanto o campo da informação quanto o do entretenimento estavam inseridos, com reportagens, quadros de dança e uma apresentação das notícias da semana feita por Chapelin. José Itamar de Freitas, diretor-geral do programa, a partir de 1977, definia as reportagens que eram apresentadas no Fantástico como “um meio-termo entre o Globo Repórter e os telejornais diários”. (MEMÓRIA GLOBO, [2008])
Em 2006, este “espaço de experimentação” começou a exibir como um dos seus quadros o Profissão Repórter. No programa, as reportagens duravam 12 minutos e, além disto, mostrava-se o processo de produção da matéria que estava sendo transmitida. O uso de recursos gráficos, atrelados ao elemento entretenimento da TV, que, historicamente marcou o programa dominical, foi também apropriado pelo quadro que havia surgido em abril daquele mesmo ano no Globo Repórter.
O Globo Repórter é um dos programas jornalísticos de vida mais longa na história da televisão brasileira. Ele estreou em abril de 1973, mesmo ano que o dominical Fantástico. O programa foi criado para ser uma versão da Rede Globo do 60 minutes da rede americana CBS, mas limitações do corpo técnico fizeram a direção da rede mudar de ideia. Tendo como referência o programa Globo Shell Especial, a direção da Globo, naquela época, decidiu adotar narrativas conduzidas a partir das imagens, dos depoimentos dos entrevistados e da esporádica locução em off do apresentador. O repórter não aparecia no vídeo.
A mestre em Comunicação Marília Hughes (2009) apresentou em sua dissertação de mestrado o modo de endereçamento do Globo Repórter, em que ela identificou três modos de endereçamento em três períodos distintos do programa. No primeiro período, citado no parágrafo anterior, documentaristas dirigiam o programa. No segundo período, identificado por Hughes (2009) como um período de transição, situado entre os anos de 1983 e 1984, assumiu a direção do programa Robert Feith. Houve uma substituição dos documentaristas por jornalistas, mas a direção manteve como ponto fundamental a manutenção do entretenimento na produção das reportagens. O Globo Repórter passa a querer emocionar, sem perder a função de informar.
No terceiro período, Hughes (2009) agrupou as edições mais recentes do programa, mais especificamente, aquelas exibidas em 2008. O Globo Repórter, desde 1995, passou a apresentar apenas um tema por edição. Os temas foram classificados, pela mestre em comunicação, em quatro categorias, sendo elas ciência, atualidade, aventura e comportamento. Segundo Hughes (2009), os selos estão indicados no site do Globo Repórter, mas não aparecem durante a sua exibição na TV. Hughes afirma que o Globo Repórter, diferentemente dos outros telejornais, não se preocupa com o factual.
Do ponto de vista do formato, o Profissão Repórter, dentro da grade da Rede Globo, aproxima-se mais do Globo Repórter. Ambos não possuem bancadas e apresentam, semanalmente, um tema em cada edição e, além disto, não fazem cobertura das notícias classificadas como hard news. Do Fantástico, acredito ter ficado no programa a aposta de articular, de forma evidente, a informação com o entretenimento.
Neste artigo, utilizamos o conceito de entretenimento, apresentado por Itania Gomes em seu artigo O embaralhamento de fronteiras entre informação e entretenimento e a consideração do jornalismo como processo cultural e histórico, compreendendo-o como um valor social contemporâneo, organizado como indústria e que se vale de determinadas estratégias de atração.
Bastidores da notícia e o telejornalismo de
atrações
Iniciamos a análise problematizando as reiteradas afirmações por parte dos produtores do programa, através de entrevistas e na definição do programa na internet, de que se trata de um programa jornalístico que apresenta os bastidores da notícia. Esta condição do programa é reforçada não apenas pelos discursos utilizados por quem faz o Profissão Repórter, mas também, através de recursos imagéticos como os dispostos na vinheta de abertura.
A vinheta é constituída por imagens da ilha de edição, pessoas na redação, pessoas digitando em computadores, ao mesmo tempo em que aparecem caracteres na tela como se fossem resultado destas digitações, aparece um cinegrafista com uma câmera na mão, telas de computadores com softwares de edição abertos, sucedidos por um símbolo da Globo em um carro de reportagem e terminando com o nome “Profissão Repórter”, na cor amarela, e um microfone com o símbolo da Globo atrás, além disto, uma mão no teclado e no mouse. Todas estas imagens citadas anteriormente vão se sucedendo e sendo mostradas com efeitos de edição, com cor azul, e reproduzindo o enquadramento visual da lente da câmera. A música de abertura e esta sucessão de imagens se articulam em uma vinheta de abertura que se assemelha a um pequeno videoclipe, mostrando mais uma vez a relação do programa com recursos audiovisuais típicos do entretenimento, mostrando e informando sobre etapas do processo de construção de uma reportagem.
Outra ação que reforça esta ideia do programa em mostrar a atividade dos jornalistas durante a produção da notícia é a afirmação feita pelo apresentador Caco Barcellos, após apresentar as frentes de reportagem que compõem o programa do dia. “Os bastidores da notícia. Os desafios da reportagem”, afirma Barcellos, antes da sucessão de imagens citada acima, indicando que estes são os objetivos do programa. Utilizar este discurso serve ainda para que seja atribuída uma noção de veracidade sobre aquilo que está sendo dito, através da construção da credibilidade, que vai sendo construída pelo programa em relação à audiência, ao permitir que ela acompanhe o processo de produção da notícia. Mostrar os bastidores, mais a presença de Caco Barcellos, como será dito mais detalhadamente no tópico a seguir, são elementos-chave para o entendimento do modo de endereçamento do programa.
Ainda em relação aos bastidores, duas estratégias foram anunciadas por Caco Barcellos durante o programa Vídeo Show, exibido às tardes na Globo, para o ano de 2009. Na edição do dia 14 de abril do programa vespertino, que mostra os bastidores da produção televisiva da Rede Globo, Barcellos anunciou o que ele chamou de “duas grandes novidades”: a nova redação e um processo seletivo para a escolha do novo repórter integrante do programa. Sobre a redação, disse Barcellos:
A temporada 2009 do Profissão Repórter começa com uma
novidade que eu mostro pra vocês agora. A nossa nova
redação: a redação-estúdio. Daqui, a gente vai gravar os
bastidores do nosso trabalho, principalmente, o trabalho da
edição das matérias. A redação não está completamente cheia,
porque aqui, a gente segue a regra básica de reportagem: lugar
de repórter é na rua3.
Precisamos fazer duas considerações em torno do discurso adotado pelo principal mediador do Profissão Repórter. A primeira consideração sobre a redação estar vazia, porque lugar de repórter é na rua, mostra que o programa quer se endereçar ao telespectador como realizador de um jornalismo que apura as informações que ali estão sendo mostradas, conferindo autenticidade ao papel desempenhado pelos jornalistas. A outra consideração é sobre a novidade anunciada por Barcellos em relação à redação-estúdio. Este ambiente foi realmente incorporado aos programas exibidos em 2009. A audiência pôde assistir trechos de discussão da edição do programa em seis edições das dez que compõem o corpus de análise do programa no ano anteriormente citado. Em uma destas seis, na intitulada Riscos da Vaidade, exibida no dia 02 de junho de 2009, pudemos ver Caco Barcellos discutindo com os repórteres Gabriela Lian e Felipe Gutierrez a exibição de imagens de uma vítima de cirurgia malsucedida.
Na discussão, podemos ver algumas indicações sobre o pacto construído pelo programa em relação ao jornalismo. Mesmo com o trauma causado a uma das personagens pela exibição recorrente da imagem de sua cicatriz ocasionada por um erro médico, Caco Barcellos vota por, mais uma vez, mostrá-la, defendendo a necessidade de exibir a imagem, sabendo a comoção que ela pode causar. Barcellos aposta na estratégia defendida por Ekström (2000), como telejornalismo de atrações, em que algo que desvia da normalidade é mostrado por um programa a fim de causar o choque a quem assiste. A intenção de Barcellos e do Profissão Repórter, neste momento, foi, além de informar, chocar, mostrando consequências físicas de uma cirurgia plástica malsucedida. Esta informação foi reforçada no decorrer do programa, utilizando uma fonte especializada, o psiquiatra Taki Cordas, que falou das consequências psicológicas dos transtornos alimentares. Ao utilizar o modo de comunicação de informação através de Cordas, o programa relaciona-se com os valores jornalísticos: interesse público, relevância e responsabilidade social, ao problematizar as histórias que estão ali sendo apresentadas. No corpus observado, compõem o rol de fontes especializadas e/ou oficiais ouvidas durante o programa: delegados, promotores, médicos e bombeiros.
Storytelling do Profissão Repórter
Na abertura de todas as edições do programa, o Profissão Repórter já mostra várias das estratégias do storytelling utilizadas por ele. Através de uma narrativa, mostrando mais um elo de ligação com o entretenimento, ele apresenta os personagens, e introduz partes das histórias daqueles personagens. O texto é acompanhado por determinados enquadramentos de câmera que ressaltam a emoção dos personagens. O programa foi iniciado desta maneira em todas as edições que integraram o corpus de análise e não é o único momento que esta estratégia é empregada. Em seu interior, os repórteres adotam esta mesma estratégia ao contar as histórias das pessoas ali envolvidas nas frentes de reportagem e eles mesmos são colocados na posição de personagens, seja pelos discursos utilizados por Caco Barcellos, seja por situações em que eles mesmos contam o que aconteceu com eles no decorrer da produção da matéria.
Outra estratégia que pode ser depreendida do trecho que relata a entrevista de Caco Barcellos ao Vídeo Show é a serialização, exibida quando Barcellos trata da temporada 2009. Este é um recurso discursivo mais comum a programas vinculados ao entretenimento e aqui é empregado na identificação de um programa jornalístico. Além disto, todas as edições foram disponibilizadas na internet com um nome – a edição citada no trecho acima foi intitulada Desafios da Balança – como se fosse o título daquela história, reforçando se tratar de um programa que emprega estratégias oriundas das narrativas ficcionais.
Sobre a abertura do programa, é necessário dizer que, em todas as edições, quem apresenta os repórteres é Caco Barcellos. Ele é o único jornalista cuja apresentação é feita através de legenda. Em todas as edições analisadas, é empregada a mesma estratégia de edição em que Barcellos fala o nome dos repórteres, estes aparecerem destacados através do recurso visual de deixar a imagem nas cores azul e laranja e logo depois mostrar a primeira parte da reportagem deles – ou mesmo sem aparecem, como no caso acima, surgem através da voz off.
Através da utilização deste recurso, Barcellos assume, no esquema narrativo, o papel do narrador onisciente, sabe o que vai ser mostrado, apesar de não estar naquela cena. Os outros repórteres são os narradores-personagem. Incluem-se nas histórias, choram, se emocionam. Mostrar os bastidores, na retórica do programa, serve para mostrar o desenvolvimento das histórias, colocando os jornalistas como personagens delas. O programa aproxima o jornalismo da sensibilidade, alterando a imagem defendida por certa tradição teórica que pensa que o jornalista tem que ser observador imparcial da realidade. É uma mudança na concepção do que é jornalismo, aproximando-se muito mais à concepção defendida por autores dos estudos culturais.
Em relação às características utilizadas pelo Profissão Repórter, que se referem ao modo de comunicação storytelling, achamos essencial abordar mais uma, encontrada na edição do programa exibido no dia 02 de junho de 2009, em que o título foi Riscos da Vaidade. Nesta edição, vemos o Profissão Repórter colocando um dos personagens envolvidos na reportagem no papel de vilão e acompanhamos a reconstrução da história tendo como objetivo manter o suspense para apresentar o desfecho da história e apresentando o momento do clímax. Uma das frentes de reportagem, sob a responsabilidade de Gabriela Lian e Felipe Gutierrez, citada no início deste tópico, ficou responsável por acompanhar as histórias das vítimas do médico Marcelo Caron, ex-médico cirurgião, acusado de falsificar o diploma desta especialidade e julgado pela mutilação e morte de diversas mulheres.
O programa enquadrou Marcelo Caron como vilão, perseguiu-o, e justificou a ida a outro Estado, diferente daquele em que a reportagem estava sendo feita, pela necessidade de ouvir os dois lados. Desta maneira, o Profissão Repórter quis passar a sensação de imparcialidade para o telespectador, ao mesmo tempo em que exibe as reações e respostas de Caron, reforçando a posição do médico naquela narrativa. No entanto, quando Caco Barcellos pergunta à repórter se foi emocionante, ele expõe a estratégia do programa de querer colocar na tela a emoção causada pelo confronto entre os dois. A última fala de Barcellos, apresentada no fim do programa – em que ele reiterou as condenações de Caron –, reforça esta disposição do programa de colocar o médico como culpado.
Nesta edição, pode-se perceber ainda a importância que o jornalista Caco Barcellos recebe no endereçamento do programa. Além de todas as funções já elencadas neste artigo, podemos observar nesta perseguição realizada pela repórter Gabriela Lian uma influência da trajetória profissional de Barcellos no jornalismo investigativo. A todo o momento, ela utiliza elementos deste tipo de jornalismo para configurar a reportagem: foi atrás do endereço do médico no tribunal de Goiânia, depois foi até o condomínio do médico e só encerrou a sua busca após encontrá-lo. A própria terminologia frente de reportagem utilizada pelo programa e adotada por este artigo retrata a ideia da busca incessante pela apuração da reportagem típica do jornalismo investigativo.
Caco Barcellos e as diversas posições no
Profissão Repórter
Como temos demonstrado nesta análise, o jornalista Caco Barcellos assume diversas posições no interior do Profissão Repórter. Ele foi o criador do programa, é editor, aquele a quem, por diversas vezes, os outros repórteres recorrem no desenvolvimento das reportagens, é apresentador, assumindo nesta condição uma posição de narrador onisciente e chefe, como no trecho em que retratamos a perseguição ao médico Marcelo Caron. Estas diversas posições de Caco Barcellos no interior do programa devem-se, em boa medida, à sua trajetória dentro do campo jornalístico. Barcellos possui reconhecimento dentro do campo e notoriedade perante o público e outros campos.
Uma mostra desta notoriedade, pelo menos em relação à audiência do programa, foi exposta na edição do dia 04 de novembro de 2008, em que eles abordaram a Vida no Porto. Um motorista de caminhão que estava descarregando no porto falou para Caco Barcellos que gosta dele e que assiste ao programa, numa clara estratégia do programa de também mostrar que tem reconhecimento por parte de quem o assiste. A possibilidade de mostrar este telespectador do programa somente foi possível em um programa que afirma mostrar os bastidores, não sendo possível em outro programa que faça um jornalismo tradicional.
Além das estratégias explícitas no programa, como esta, a própria aposta do Profissão Repórter em edições como a do médico Caron mostra uma influência da trajetória do jornalista no perfil do programa. Barcellos é reconhecido como um jornalista que faz boas reportagens investigativas. Ele começou a se destacar realizando reportagens com temáticas relacionadas à violação dos Direitos Humanos na Ditadura Militar. No ano de 1995, o Globo Repórter exibiu uma reportagem em que Caco Barcellos identificou, num cemitério clandestino em São Paulo, os corpos de oito vítimas do regime militar, que haviam sido consideradas “desaparecidas”. A reportagem foi feita pelo jornalista dois anos antes junto com o editor Ernesto Rodrigues. A matéria ganhou um prêmio relacionado à defesa dos Direitos Humanos.
Ainda durante a sua passagem pelo Globo Repórter, Barcellos recebeu o prêmio Vladmir Herzog, oferecido pelo Sindicato dos Jornalistas de São Paulo, por uma reportagem exibida ainda durante a sua passagem pelo Globo Repórter. Na matéria, Barcellos investigou o atentado ao Riocentro, ocorrido em 1981. Ouviu mais de 50 pessoas, inclusive testemunhas ignoradas pelas autoridades militares. Em 2001, mais um prêmio, agora o Líbero Badaró, promovido pela Revista Imprensa, pela série de reportagens sobre a guerra civil angolana exibida no Fantástico.
Além destas duas reportagens, Barcellos foi autor de dois livros ainda na linha de reportagem investigativa, o primeiro foi Rota 66, em que ele investigou, durante cinco anos, o esquadrão da morte que age na cidade de São Paulo. Ele mostra como é o sistema de extermínio e seus métodos de atuação e como o sistema incentiva esse tipo de ação. O outro foi o livro-reportagem Abusado, em que ele conta a vida de um traficante do Morro Dona Marta no Rio de Janeiro e fala sobre o tráfico de drogas nos morros cariocas. Cada livro rendeu a Barcellos um prêmio Jabuti, a principal premiação de literatura do Brasil. O segundo livro deu mais um prêmio Vladmir Herzog de Anistia e Direitos Humanos a Barcellos.
Estas premiações, principalmente os dois Vladmir Herzog, concedidos pelo Sindicato de Jornalistas de São Paulo, demonstram o reconhecimento que Barcellos tem no interior do campo jornalístico, colocando-o como um agente importante no meio jornalístico e também no meio televisivo. Já o prêmio Jabuti concedido na categoria de não-reportagem denotam a notoriedade do jornalista citado. Barcellos é “a cara” do programa, ou seja, é o principal mediador daquele programa, assumindo as diversas posições citadas anteriormente.
Ainda sobre Barcellos, temos que afirmar que ele é o único mediador do programa que se direciona olhando diretamente para a câmera, como se estivesse, ao olhar para ela, estabelecendo um diálogo com os telespectadores. Os outros repórteres colocam a audiência como testemunha da ação. Ela está sempre acompanhando as suas ações ou dúvidas em relação ao processo de produção das reportagens; as passagens são feitas, na maioria das vezes, em movimento, reforçando esta condição dada à audiência de observadores da construção da reportagem.
Podemos já dizer, após retratar aqui a trajetória do jornalista Caco Barcellos e como ela é articulada pelo programa, que o endereçamento do programa como um local onde serão mostrados os bastidores da notícia se dá através da convocação desta trajetória e da posição conferida a ele no Profissão Repórter. No entanto, este lugar de Caco Barcellos à frente do programa e na construção do endereçamento não estaria completo se não fosse a contraposição que ele recebe em relação aos chamados jovens repórteres. A todo o momento, Barcellos é posto como editor, apresentador e narrador principal do programa, o jornalista experiente que explica aos repórteres mais novos os elementos das reportagens e edita o que eles fizeram durante o processo de apuração. A posição do jornalista experiente é a posição séria, de condução, de domínio do código do jornalismo, do habitus – para utilizar um termo cunhado por Bourdieu – cabendo aos jovens jornalistas o espaço da experimentação, da emoção.
Os jovens repórteres
Um elo fundamental, como foi dito, para a construção dos discursos existentes no Profissão Repórter – o de mostrar os “bastidores da notícia e os desafios da reportagem” –, são os jovens repórteres, como são denominados os repórteres mais novos do programa pelo apresentador Caco Barcellos. Compõem a equipe de reportagem, nove repórteres: Caio Cavechini, Caroline Kleinubing, Felipe Gutierrez, Gabriela Lian, Júlia Bandeira, Mariane Salerno, Nathália Fernandes – que saiu na segunda temporada do programa –, Thaís Itaqui e Thiago Jock. Faz-se aqui necessária a utilização novamente do conceito de trajetória formulado por Bourdieu (1997), para entender qual a posição que estes mediadores ocupam na apresentação do programa.
Caio Cavechini é jornalista e documentarista. Foi convidado para participar do Profissão Repórter por seus documentários e se divide entre as duas atividades. Com os documentários, participou de vários festivais de cinema no Brasil e no exterior. No site do programa, Cavechini é definido como uma pessoa que gosta de incertezas referentes às matérias, às entrevistas que podem ser respondidas de forma inesperada, sobre sua preferência pela atividade na redação ou na rua, fazendo as reportagens. Felipe Gutierrez é formado em Administração Pública pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) e Jornalismo na Universidade de São Paulo (USP). De acordo com o site do programa, Gutierrez ainda está se acostumando com a presença de câmeras em sua vida, preferindo ficar nos bastidores, analisando gráficos e estatísticas.
Gabriela Lian formou-se em jornalismo pela Faculdade Cásper Líbero e também cursa Letras na Universidade de São Paulo, em português e árabe. A repórter já fez parte das equipes de Galvão Bueno, do Jornal Hoje e da Globo News, possuindo, portanto, uma trajetória considerável dentro da Rede Globo. Júlia Bandeira é formada em jornalismo pela PUC-SP e continua seus estudos na área da comunicação. Já produziu e dirigiu um documentário sobre Chico Buarque e, durante dois anos, apresentou um programa na TV PUC. A repórter, entre outras atividades, fez teatro e dança.
Mariane Sarleno é jornalista formada pela Universidade Metodista. Trabalha na TV Globo desde 2002. Já produziu, editou e coordenou reportagens. Nathália Fernandes é formada em jornalismo na USP. Há três anos, é editora de texto da TV Globo. Estava na equipe do Profissão Repórter desde o primeiro programa, em que também foi repórter em algumas matérias, mas saiu antes do início da segunda temporada do programa.
Thaís Itaqui é formada em jornalismo pela Universidade Anhembi Morumbi. É definida pelo site do Profissão Repórter como alguém cuja vontade de ser jornalista surgiu da sua necessidade de justiça. Itaqui é voluntária de uma ONG e, ainda de acordo com o site, sempre pensou que, através do jornalismo, muitas realidades ainda pouco conhecidas pudessem ser contadas e desveladas para a sociedade. Thiago Jock, assim como Caio Cavechini, também é jornalista e documentarista.
Os dois repórteres que entraram mais recentemente no programa são Felipe Suhre, que é formado em jornalismo pela UniverCidade do Rio de Janeiro, e Caroline Kleinubing, recém-formada em jornalismo pelo Centro Universitário Franciscano. Segundo o site Memória Globo, Suhre possui pouca experiência em TV, mas sempre quis ser repórter, por acreditar na importância de ouvir e contar histórias. Além disso, é formado como ator.
A maioria dos repórteres do programa é de São Paulo e entrou no Profissão Repórter após participarem do programa de estágio da TV Globo. A exceção a esta etapa do processo de escolha fica a cargo de Cavechini e Bandeira. Isto mostra um vínculo institucional do programa com a Rede Globo. Não é qualquer jovem repórter que participa do programa, mas aqueles que passaram pelo programa de estágio da TV. Cavechini e Bandeira foram selecionados depois dos responsáveis pela formulação do programa terem visto documentários feitos por eles. Nas edições do dia 14 de outubro e 17 de novembro de 2008, os repórteres Gabriela Lian, Caio Cavechini e Júlia Bandeira, além das reportagens, assumiram a posição de edição e produção executiva.
Uma informação que precisa ser extraída da observação destas trajetórias é que nem todos os jovens repórteres são tão jovens quanto a ideia que o programa quer passar. A repórter Mariane Salerno já trabalha, na Globo, há sete anos, um tempo grande de experiência, tendo produzido, editado e coordenado reportagens naquela rede de televisão. Conforme será demonstrado no tópico a seguir, Salerno foi escolhida para acompanhar os candidatos a uma vaga no processo seletivo realizado pelo Profissão Repórter em 2009.
Na entrevista concedida ao jornal 4 O Globo, o diretor do programa, Marcel Souto Maior, afirmou que um dos objetivos do programa é buscar gente nova, supostamente, com um olhar mais curioso do que um jornalista experiente. Este discurso serve para atribuir aos jovens repórteres uma posição de maior liberdade em relação à atividade desempenhada no programa. Além disto, são mostradas todas as reações dos jovens repórteres como se eles fossem mais um dos personagens, cuja história é de envolvimento na produção das reportagens. Sobre o discurso de uma visão mais curiosa, a análise do programa nos permitiu ver outra coisa. Esta condição de pretensa liberdade e experimentação é contraposta ao papel desempenhado pelo jornalista Caco Barcellos, de jornalista experiente. É ele, por exemplo, que tem a palavra final.
Esta busca por gente nova justificaria a presença de uma repórter convidada por Marcel Souto Maior, na edição do dia 18 de novembro, cujo tema foi “Comida”. Naquela edição, a repórter Inara Chayamiti foi anunciada como a “convidada da semana” por Caco Barcellos e ficou a cargo dela a frente de reportagem que cobriu a realização de um jantar que reuniu chefs de cozinha de todas as partes do mundo. Nas vinte edições analisadas neste artigo, houve apenas dois convidados. Uma foi Chayamiti e ficou nítido na tela que ela estava na posição de novata. Ela chegou a dizer que estava perdida diante das câmeras.
As cenas de bastidor que mostram a repórter convidada serviram para demonstrar que ela não domina a linguagem de TV, não está acostumada com o ambiente do evento e esquece, inclusive, de perguntar o nome de uma fonte, sendo este mais um recurso para a construção do discurso do programa sobre o telespectador acompanhar o processo de produção da notícia. E, além disto, é utilizado para reforçar o discurso de que aquele é um espaço que serve de experimentação e de oportunidade para os repórteres mais novos.
O outro foi Renan Pinheiro, jornalista da TV Bahia, e convidado na edição do dia 12 de maio de 2009, em que foi ao ar a edição sobre “Artistas da Noite”. Pinheiro foi responsável por uma das frentes de reportagem em Salvador, onde teria como desafio mostrar artistas interessantes que ele encontra na rua da capital baiana, conjuntamente com o repórter Felipe Gutierrez, um dos responsáveis por uma das câmeras naquele dia. Diferentemente de Inara Chayamiti, a participação de Renan Pinheiro no programa não foi centrada em suas dificuldades em se posicionar perante a câmera. O discurso utilizado para ele, por Caco Barcellos, foi de que ele conhece bem a cidade. No entanto, mais uma vez, não foi explicado o porquê de eles terem sido os jovens repórteres daquelas edições e nem o motivo de terem sido apenas dois em 20 programas analisados.
Os jovens repórteres mais jovens Dentre os nove repórteres que compõem a equipe do Profissão Repórter, há dois deles que são os mais jovens de todos: Felipe Suhre e Caroline Kleinubing. Os dois entraram no programa na temporada 2009. Suhre entrou logo na primeira edição do programa, tendo sido anunciado por Caco Barcellos durante a entrevista ao programa Vídeo Show. Kleinubing foi a ganhadora do processo seletivo empreendido pelo programa nesse ano. A condição de novatos dos dois é reforçada pelo programa. No primeiro programa que foi ao ar, “Desafios da Balança”, Suhre é apresentado como novato desde o primeiro momento em que entrou na redação.
Com a entrada em cena dos novatos, podemos ver ainda que é criada uma hierarquização entre os jovens repórteres. Suhre precisa da ajuda de Thaís Itaqui e esta ajuda é enunciada no programa, mostrando a sua condição de novato e a dela não tão novata, possuindo mais experiência do que ele, o que confere a ela uma posição intermediária entre o repórter experiente – Caco Barcellos – e o completamente novato. Afirmamos isto, porque todos eles realizam as suas frentes de reportagem em dupla, ou seja, também precisam de auxílio, mas isto não fica demarcado discursivamente na tela, como no caso dos novatos. Além disto, o fato de alguns deles como Júlia Bandeira assumirem, frequentemente, a posição de produção executiva do programa aponta para esta hierarquização.
A realização das frentes de reportagem em dupla como foi citado no parágrafo anterior permite que seja repensado o papel dos mediadores na construção de um programa telejornalístico. Quando Caco Barcellos anuncia os repórteres, ele cita os que estarão na frente das câmeras e os que estarão manuseando as câmeras, conferindo, discursivamente, às duas atividades o mesmo peso na construção das reportagens, chamando a ambos de repórteres. Além disto, constantemente, os repórteres que estão com a câmera aparecem na tela portando uma câmera menor, tendo sido filmados por outro cinegrafista que não é anunciado por Barcellos.
A aparição dos repórteres com as câmeras, que são do tipo mini-DV, não se tratando, portanto, de uma câmera profissional – a distinção entre o cinegrafista com a câmera profissional e o outro fica evidente na qualidade da imagem mostrada –, destaca neste programa o papel que os cinegrafistas possuem nos bastidores da produção das reportagens televisivas. Além disto, as diferentes qualidades de imagem são uma estratégia utilizada pelo programa para ressaltar a condição de bastidores, de apresentar o making of, e estabelece como pacto do programa sobre o papel do jornalismo uma relação com a transparência, ao mostrar aquilo que está sendo feito para a audiência; com a autenticidade do trabalho dos repórteres e com a construção da veracidade daquilo que está sendo mostrado.
A outra novata só apareceu no Profissão Repórter na sétima edição do programa, na temporada 2009, com título de “Vida de Bombeiro”. Caroline Kleinubing foi a ganhadora de um processo seletivo que teve início no primeiro programa do ano. A seleção foi anunciada durante a entrevista concedida por Caco Barcellos ao Vídeo Show, anteriormente citada nesta análise. Marcel Souto Maior, diretor do programa, afirmou que as inscrições seriam abertas naquele dia e que eles dariam oportunidade para repórteres formados em 2007 e 2008.
Em todas as edições, antes de chegar à edição citada acima, Barcellos antes de encerrar o programa chamava a atenção da audiência para o processo seletivo. No primeiro programa, anunciou que as inscrições estavam abertas na internet. No segundo programa, informou que os interessados tinham até a outra semana para se inscrever. No programa de número quatro, disse que 30 candidatos haviam sido classificados, após a avaliação dos vídeos que haviam sido enviados. No quinto programa, Barcellos afirmou que eles já tinham os semifinalistas. No sexto, ele disse que os três teriam que gravar uma reportagem nas ruas de São Paulo. Reportagem esta exibida na edição de número sete. Estas reiteradas falas de Barcellos serviram para atualizar a audiência sobre o processo seletivo que estava em curso no programa e também para ir criando uma expectativa em relação ao desfecho. Além disto, conferiu relativa transparência ao processo seletivo, permitindo que os telespectadores assistissem às diferentes etapas do processo de seleção.
Acreditamos ainda que esta ideia de mostrar a escolha de um repórter no programa o aproxima de alguns realities shows, cujo prêmio é um emprego. O Aprendiz, reality exibido pela Rede Record no mesmo horário do Profissão Repórter é um exemplo de programa que dá uma vaga em uma das empresas do publicitário Roberto Justus, propiciando o contexto televisivo ideal para que esta ideia fosse colocada em prática. O fato dos dois ocuparem o mesmo horário da grade televisiva, um na Rede Record de Televisão e outro na Rede Globo, fortalece esta noção da relação entre um produto e outro. E, assim como em O Aprendiz, a escolha coube à produção do programa. Assim, um programa jornalístico, no caso aqui analisado, o Profissão Repórter utiliza mais um recurso encontrado facilmente em um programa do campo do entretenimento, articulando-o à necessidade de informar sobre o processo seletivo.
Outro ponto que aproxima os dois programas é o fato de que os candidatos a uma vaga tanto em um quanto no outro são jovens, permitindo inferir, junto com o fato da abertura se assemelhar a um videoclipe, o quadro de repórteres ser formado por jovens oriundos do programa trainee da rede de televisão, a utilização recorrente de termos coloquiais, tais como “vamo lá”, e ainda ter o apresentador Caco Barcellos como uma espécie de editor-professor, que o programa quer se endereçar a uma audiência formada prioritariamente por jovens.
Agora, explicaremos como foi a edição que mostrou o processo seletivo. Os candidatos a uma vaga de repórter integrante do Profissão Repórter, para não fugir ao esquema formulado pelo programa, foram anunciados por Caco Barcellos. Eles foram sendo mostrados um a um entrando na redação do programa. Barcellos explicou as regras do jogo, dizendo o que o programa espera daquele que vai ganhar o processo seletivo. No decorrer desta edição, foram sendo mostrados trechos das reportagens de todos os candidatos, os três agrupados na mesma frente de reportagem. O resultado só veio no segundo bloco. Mais uma vez, o programa utilizou o modo de comunicação do storytelling, desta vez para relatar o processo seletivo do mais novo repórter integrante do produto televisivo aqui analisado. O telespectador acompanhou todo o desenvolvimento da realização das reportagens pelos repórteres-candidatos – as histórias contadas pelos três foram sendo mostradas compondo uma das frentes do programa –, teve a atenção retida quando foi dado o clímax – antes do intervalo comercial – e assistiu ao desfecho: a escolha de Caroline Kleinubing.
Considerações finais
Após a observação dos modos de comunicação do programa e as trajetórias dos mediadores, acreditamos ser necessário sintetizar todas estas características a fim de definir o modo de endereçamento do programa. Em primeiro lugar, há que se destacar que, no Profissão Repórter, os jornalistas são repórteres e personagens. Eles cumprem o papel de repórter, na frente de reportagem, ao mostrarem o processo seletivo dos guarda-vidas, informando como ele acontece, mas também, se mostram como personagem ao chorar.
Além disto, acreditamos que, ao colocar Caco Barcellos como narrador principal das histórias, o repórter experiente que tem o voto final, o programa convoca toda a trajetória de reconhecimento e notoriedade deste jornalista no interior do campo profissional ao qual está vinculado e, na relação deste com a sociedade, para estabelecer o pacto sobre o papel do jornalismo ali executado através do reforço de um dos valores configuradores deste campo que é a veracidade estabelecida através da credibilidade do mesmo. Outros valores do pacto como objetividade e imparcialidade também são requisitados pelo programa, sendo reforçados estrategicamente através de dispositivos discursivos e audiovisuais, como na edição em que a repórter Gabriela Lian foi atrás do médico Marcelo Caron.
O programa ainda, através das suas escolhas temáticas, relaciona-se com os valores do interesse público e de jornalismo como serviço quando apresenta, no encadeamento das histórias, médicos e especialistas, como na edição sobre transtornos alimentares.
Por fim, acreditamos que mais um elemento necessário para o entendimento da forma em que se dá o modo de endereçamento do Profissão Repórter está no contexto comunicativo em que o telespectador é inserido. Neste quesito em especial, achamos importante mostrar que a audiência do programa assume, principalmente, duas posições no contexto comunicativo. Em um dado momento, ela é a testemunha das histórias que ali estão sendo mostradas, mesmo que, em nenhum momento, os repórteres falem diretamente para os telespectadores, utilizando pronomes pessoais, tais como “você”. Ao mostrar os bastidores do processo de produção das reportagens, as reações dos repórteres e das fontes, a audiência é convidada a assistir todas aquelas etapas, a compartilhar as emoções com os repórteres e com os personagens ali mostrados. Em outro momento, os telespectadores são convidados diretamente para participar do programa, nem que seja em outro meio, no caso a internet. Em todas as edições analisadas, o principal mediador do programa, Caco Barcellos, faz esta convocação dizendo que o programa não termina naquele momento e que ele continua na internet. Nesta hora, Barcellos se direciona diretamente para a audiência olhando para a câmera e utilizando o pronome “você”. Na internet, os telespectadores podem comentar as edições dos programas, participar com sugestões de personagens, acompanhar o desenvolvimento de algumas histórias contadas no programa, participar de chats com especialistas, saber de mais bastidores das reportagens que não foram mostrados durante a edição exibida na TV. É como se, naquele espaço, para além da função de testemunhas das histórias, eles fossem posicionados como participantes daquelas histórias.
Através da observação dos operadores de análise, dos modos de comunicação e do uso da internet pelo Profissão Repórter, entendemos que o programa se endereça aos seus telespectadores como um programa que fala sobre jornalismo, tendo em Caco Barcellos o seu principal elemento configurador e cuja posição, construída em contraposição aos jovens repórteres, é utilizada para explicar o processo de construção das reportagens. O argumento de que ali são mostrados os bastidores da notícia e os desafios da reportagem se articula com esta função adotada por Barcellos e a equipe de reportagem do programa. A sua trajetória no jornalismo investigativo influencia o programa através da utilização do termo “frentes de reportagem”, a busca dos dois lados da história mesmo quando elas não querem depor, e o fato dele ser o jornalista experiente o credencia a assumir todas as funções diversas que ele possui no programa: apresentador, editor, professor, repórter e narrador principal.
Aos jovens repórteres, é dado o lugar do inexperiente, aquele que ousa, que quer aprender, que não possui ainda a perícia técnica do experiente. Todas as estratégias utilizadas, para além das histórias contadas, têm como objetivo possibilitar ao telespectador acessar o processo de construção das reportagens. Podemos afirmar, após todas as considerações feitas no percurso desta análise, que o programa estabelece em torno de si uma função metalinguística do jornalismo, em que os jornalistas explicam as suas práticas profissionais no decorrer da produção das histórias ali relatadas, com Barcellos sendo a figura que assume, retoricamente, a posição do sujeito que explica para os telespectadores os bastidores e os desafios de se fazer uma reportagem na televisão.
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1 Infotainment e telejornalismo: as estratégias de endereçamento do Profissão Repórter. Ver SANTOS, 2009.
2 O programa Toma Lá Dá Cá saiu da grade da Rede Globo em 2009, após o período analisado no presente artigo.
3 Entrevista ao programa Video Show.
4 Disponível em:
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