Gêneros televisivos e modos de endereçamento no telejornalismo
É Fantástico! Gênero e modos de endereçamento no telejornalismo showLuana Gomes
É Fantástico! Gênero e modos de
endereçamento no telejornalismo
show
Luana Gomes
Introdução
Um velho conhecido dos telespectadores brasileiros, o programa Fantástico está no ar, nas noites de domingo, há 33 anos, pela Rede Globo de Televisão. De acordo com o site da emissora, o Fantástico atinge em média 30 pontos de audiência, o que totaliza cerca de 22 milhões de espectadores. O Fantástico é exibido logo após o Domingão do Faustão, em um horário que varia entre as 20h15min e 20h30min até as 22h30min/23h. No período de nossa análise, Sob Nova Direção era o programa humorístico que o sucedia, dentro de uma grade dominical tomada por programas de entretenimento, assim como nas demais emissoras de canal aberto nesse mesmo dia da semana.
Inserido nessa atmosfera de descontração, o Fantástico se utiliza, justamente, do entretenimento, aliado ao jornalismo, para se configurar como revista eletrônica – um gênero telejornalístico, cujas marcas tentaremos, aqui, explorar e definir melhor. Como afirma o site do programa, sua proposta inicial, que perdura até hoje, é “misturar jornalismo e entretenimento de forma dinâmica e
acessível” 1. Mas que jornalismo é esse? De que forma ele é
exercido? E mais, como se configura o entretenimento 2 proposto numa mescla com o jornalismo televisivo? O modo pelo qual se dá essa “mistura” e a configuração que dela resulta, é o que vamos buscar compreender no presente capítulo.
O corpus analisado contempla sete exibições do Fantástico, tomadas nas seguintes datas, referentes ao ano de 2006: 19 e 26 de março, 02, 09, 16 e 23 de abril e 07 de maio. Por tratar-se de uma transmissão semanal, acreditou-se que o número de gravações analisadas, aliada ao hábito de audiência da autora deste trabalho, seria o suficiente para dar conta, aqui, das características do programa, que configuram seu estilo particular.
Mediadores
O início de todas as edições analisadas é marcado pela narração do locutor e apresentador Cid Moreira. Sua voz é um dos elementos principais da familiaridade do público com o programa, uma vez que o mesmo está no Fantástico desde sua primeira exibição, em 05 de agosto de 1973. Além disso, o locutor esteve à frente da apresentação do Jornal Nacional – o mais antigo telejornal em exibição e o de maior audiência da televisão brasileira (MAIA, 2005) – durante 27 anos, fato que confere a ele toda uma bagagem de credibilidade jornalística levada ao Fantástico. Assim, a voz inconfundível é a responsável, na maioria das edições analisadas, pela abertura do programa que, por sua vez, acontece normalmente sob duas formas.
A primeira delas consiste numa breve apresentação de uma das notícias da edição, que é seguida da vinheta de abertura do programa e da escalada. O programa a adota quando deseja dar destaque especial para alguma matéria. A segunda forma se dá apenas com a escalada, seguida da vinheta. Os dois tipos de abertura utilizados revelam a intenção do programa em enfatizar seu posicionamento jornalístico. Nas duas opções, é dado destaque às notícias que serão apresentadas sob o formato de reportagem (matéria completa com cabeça, off, passagem, sonoras e nota pé), enfatizando a centralidade que o próprio programa confere ao formato jornalístico de apresentação dos seus conteúdos. Ao optar por destacar as reportagens em suas aberturas, o programa revela, ainda, pistas sobre a tentativa de firmar, com sua audiência, um pacto sobre o papel do jornalismo voltado, supostamente, para enfoques completos e informações aprofundadas.
No programa, a logomarca do Fantástico intercala as notícias na escalada, realizada, em ambos os casos descritos, com a narração de Cid Moreira, sobre imagens sucessivas, ao ritmo sonoro da vinheta da revista – uma bolha luminosa que se projeta do meio de um círculo de nuvens, em um céu azul-escuro, explodindo o nome do Fantástico, em grandes letras douradas, na perspectiva vertical em direção à tela da televisão. Além de estabelecer um pacto específico, que assume dominicalmente com a audiência no início do programa, a vinheta emprega um ritmo dinâmico condizente com a estrutura da revista eletrônica em ofertar conteúdos diversos. Os efeitos visuais e as cores empregadas, sobretudo o dourado, remetem à espetacularização, bem como evidenciam os recursos técnicos a serviço da televisão ali empreendidos, fornecendo pistas sobre o que se esperar do programa: entretenimento. Tais características remetem a um contexto comunicativo baseado nos sentidos de velocidade, rapidez e agilidade na apresentação dos conteúdos, reconhecidos socialmente como marcas do jornalismo. Aliás, a própria escalada é marca dos telejornais brasileiros, utilizada, sem exceção, por todos os jornais nacionais da Rede Globo, por exemplo.
Vale ressaltar que a locução de Cid Moreira traz entonações específicas, para cada tipo de matéria que o mesmo anuncia, numa clara performance vocal. Não há uma narração isenta, imparcial. O tom da voz traz implícito um julgamento sobre aquilo que é narrado, além de uma convocação ao envolvimento com o conteúdo apresentado. Assim, quando diz “crime e castigo! O que aconteceu com Suzane von Richthofen? E por que o jornalista que matou a namorada não quer falar com ninguém?/ O paraíso é aqui! O mar tem sete cores e todo mundo vive mais de cem anos!”, há uma perceptível diferença nas entonações utilizadas. Ao tratar do caso de Suzane, a voz é séria, enfática e grave. Quando fala do paraíso, alegre e descontraída. Isso foi verificado em todo o corpus de análise e nos dá pistas da tentativa de condução interpretativa do telespectador, por parte do programa. O tom utilizado sugere à audiência uma predisposição para julgar as notícias, antes mesmo de apresentá-las.
Sete a oito blocos dividem o Fantástico, e ao final de cada um deles acontece a chamada para o bloco seguinte, realizada, quase sempre, pela locução de Cid. Neles, as reportagens trazidas pelo programa também aparecem com frequência. O destaque desse tipo de formato de apresentação das notícias é feito, assim, tanto na escalada quanto nas chamadas de bloco, mostrando – tendo em vista a variabilidade de formatos trazidos pelo Fantástico, condizente com o subgênero no qual o programa está inscrito (revista eletrônica) – que o mesmo tem a clara intenção de realçar seu trabalho jornalístico.
A narração de Cid Moreira também acontece em algumas matérias apresentadas ao longo dos programas analisados. Pudemos observar que Cid narra, em geral, notícias relacionadas à política (ex: 19 de março – matéria sobre o depoimento do publicitário Duda Mendonça à CPI dos Correios), ao próprio programa (ex: 16 de abril – lançamento de um novo livro que traz uma das séries apresentadas pelo Fantástico, Instinto Humano) e aquelas de caráter investigativo (ex: 07 de maio – assassinatos que ocorreram no mesmo dia em que o jornalista Pimenta Neves matou a ex-namorada, Sandra Gomide). Desta forma, sua credibilidade jornalística é aproveitada pelo Fantástico, que se fia na trajetória do apresentador dentro da emissora e do telejornalismo, junto aos telespectadores. Assim, toda a confiança que Cid Moreira inspira em função do seu reconhecido trabalho de narração da Bíblia em fascículos, num país marcadamente católico, e sua credibilidade jornalística, aliadas à familiaridade do público com sua voz, acumulada como ex-apresentador do Jornal Nacional, são utilizadas para conferir às matérias um caráter de seriedade e relevância.
Ao realizar a abertura do programa, ser o primeiro a dar “boa-noite” à audiência, dizer a ela quais as principais notícias da edição e dos próximos blocos, Cid Moreira exerce o papel de um coapresentador do Fantástico. “Co” porque não é ele quem está presente no estúdio, olhando para o receptor, apresentado as matérias durante a transmissão e finalizando o programa. Mas, ao mesmo tempo, é ele quem organiza o andamento do mesmo, abrindo as edições, citando as notícias daquele domingo, fechando os blocos e narrando algumas matérias – atividades típicas dos apresentadores.
São os jornalistas Glória Maria (GM) e Zeca Camargo (ZC), por sua vez, os apresentadores principais do Fantástico e a escolha deles para estar à frente das exibições parece refletir a promessa do programa em alinhar jornalismo e entretenimento em seu editorial. Glória Maria traz consigo a credibilidade jornalística de uma repórter que trabalhou em diversos telejornais da própria emissora (RJ TV, Jornal Hoje, Jornal Nacional e Globo Repórter), tendo sua história profissional voltada para reportagens especiais e cobertura de guerra. Realiza matérias no Fantástico imbuídas de um caráter de divertimento e descontração, onde mantém, contudo, a postura jornalística de acompanhar de perto as situações que noticia, muitas vezes as vivenciando. Já o editor-chefe, Zeca Camargo, transporta toda uma bagagem proveniente do canal Music Television (MTV), da revista Capricho e do programa Fanzine (TV Cultura), que o credita como um profissional alinhado às tendências culturais da juventude e do futuro e, por isso mesmo, capacitado para a realização de entrevistas com músicos, artistas, matérias sobre viagens pelo mundo, entre outras.
Pedro Bial também integra a equipe de mediadores do programa. É dele o livro sobre Roberto Marinho, além de crônicas realizadas no Jornal Nacional, como pudemos observar durante a Copa do Mundo (24 de junho a 05 de julho de 2006), e de sua presença na Caravana JN, durante a campanha presidencial de 2006. Esse status de seriedade, construído durante sua trajetória profissional, marcada por importantes coberturas, como a da queda do Muro de Berlim, aliado às apresentações do programa Big Brother Brasil, tornam sua carreira alinhada à proposta central da revista eletrônica em oferecer “infotenimento”. Temos, ainda, Renata Ceribelli, que trabalhou durante seis anos no Vídeo Show e em 1999 entrou para a revista eletrônica sendo, portanto, já conhecida pelo público através de um programa diário de entretenimento.
Não podemos deixar de fora do grupo Eva Byte, a primeira apresentadora virtual da televisão brasileira, segundo o site do programa, o que justifica mesmo seu próprio nome. Ela foi criada em 2004 pelo Departamento de Arte e Jornalismo da Rede Globo e reflete a utilização dos recursos técnicos a serviço da televisão por parte do programa, sustentando certo pioneirismo tecnológico do Fantástico, o que busca evidenciar a habilidade técnica da equipe em lidar com os avanços da tecnologia e incorporá-los à revista. A seu cargo, ficam as matérias de linha científica, as quais Byte, por ser ela mesma uma criação tecnológica, parece ter autoridade sobre aquilo que fala. A apresentadora virtual traz, também, notícias descontraídas, cujas temáticas são leves e variadas – soft news –, onde funciona como um reforço do caráter de descontração dos temas e do contexto comunicativo do Fantástico. Sua semelhança com Fátima Bernardes, um das âncoras do Jornal Nacional, parece uma tentativa do programa em substituir sua falta de background jornalístico.
Glória Maria e Zeca Camargo encontram-se sempre bem vestidos e alinhados, de maneira diferenciada, no entanto, do tradicional modo de se vestir dos apresentadores de telejornais. Glória Maria normalmente usa roupas com brilho, sandálias altas, decotes e jóias. Zeca Camargo, sapatos alinhados, blazers abertos, camisas coloridas, enfim, ambos se enquadram em um visual moderno. A aposta da revista em vestimentas nesse estilo, fora dos moldes telejornalísticos, reflete uma das marcas do gênero no qual o programa está inscrito, revelando que, apesar de se aproximar do telejornal, o mesmo borra suas fronteiras, buscando caracterizar os apresentadores da mesma forma que busca caracterizar o jornalismo oferecido: “showrnalismo”. (ARBEX JR, 2002)
Na condução do Fantástico, os apresentadores dão pequenos passos, posicionam-se em diferentes pontos do cenário durante o programa e fazem uso de um sistema gestual fino, restrito às expressões faciais e a pequenos movimentos com as mãos. Essa gestualidade, aliada às entonações de voz específicas que imprimem aos fatos narrados, fazem com que os apresentadores
assumam a postura de “mediadores-intérpretes” 3 das notícias. Os apresentadores também estabelecem com o telespectador uma dimensão de contato baseada no olhar, que colabora para a desficcionalizar o discurso. Com estes artifícios citados, a dupla também conduz a interpretação dos telespectadores com relação àquilo que noticiam. Sustentando a posição opinativa dos apresentadores, as imagens garantem autenticidade aos textos verbais. Percebemos, assim, que a objetividade é substituída pela possibilidade da audiência verificar as imagens dos acontecimentos, diante de apresentações sutilmente parciais.
Com relação ao enquadramento dos apresentadores, é comum aparecerem de corpo inteiro na tela, ou seja, em plano médio, o que se diferencia dos enquadramentos habituais dos telejornais, embora também aconteçam os enquadramentos em primeiro plano, que denotam maior proximidade do mediador com a audiência (usados quando um dos apresentadores interpela o público), e em plano americano, que distancia o apresentador da tela, de modo a ratificar os lugares de fala dos sujeitos da enunciação. O enquadramento em plano médio permite uma exploração maior do espaço do estúdio e dos próprios movimentos corporais, estando diretamente ligado à postura dos mediadores como intérpretes. Além disso, possibilita uma maior visibilidade do cenário, procurando destacar os recursos tecnológicos ali empreendidos, que colaboram na conformação de um contexto comunicativo envolto por um espetáculo.
Os jornalistas costumam dividir a apresentação de uma mesma matéria, conferindo dinamicidade na exposição dos fatos noticiados. É comum trocarem olhares e sorrisos, o que contribui para um ambiente comunicativo de familiaridade e descontração, reforçado pelo modo como os mediadores se referem à audiência: “você” – que garante uma suposta familiaridade com o receptor e funciona como meio de individualizá-lo.
A condução do Fantástico pelos apresentadores acontece num cenário que abusa dos recursos tecnológicos a serviço da televisão, resultando numa atmosfera visualmente moderna e futurista, que colabora para seu caráter de entretenimento. Com exceção de duas poltronas alaranjadas iguais, pouco utilizadas pelos apresentadores em suas variações de posicionamento, todo o restante é elaborado por computação gráfica. Isto evidencia a preocupação com o caráter de entretenimento do programa, além de exibir, ainda mais, sua habilidade em lidar com os recursos tecnológicos disponíveis.
As cores predominantes do cenário são o azul e o dourado, que também refletem a intenção do programa em relacionar de maneira tênue jornalismo com entretenimento. O azul é a cor padrão dos principais telejornais nacionais, como o Jornal Nacional e o Jornal da Band. O dourado, por sua vez, revela brilho, chama a atenção dos olhos, garante requinte ao espaço que traz o “show da vida”. Essa mesma combinação de cores é acompanhada na própria logomarca do programa, enfatizando a mesma relação. A computação gráfica adotada permite, ainda, a mudança constante da visualidade do cenário, permitindo tanto uma contextualização específica às matérias veiculadas, quanto dinamicidade e variedade ao programa de longa duração.
A tecnologia empregada, os trajes dos apresentadores, as cores e a variação das imagens fazem do cenário virtual um verdadeiro palco de variedades que, justamente por isso, permite a apresentação de matérias jornalísticas, quadros de humor, entrevistas, musicais. Ou seja, o cenário mesmo já dá pistas da proposta do programa e auxilia na contextualização comunicativa do receptor. A ideia de palco é reforçada, tanto pelo desempenho vocal de Cid Moreira, que anuncia as consideradas grandes atrações, como também pela própria fala dos mediadores, que incluem em seus textos frases como “Com vocês, os Caçadores de Mitos” (Zeca Camargo, dia 19 de março). “Senhoras e senhores, Odair José!” (Glória Maria, dia 26 de março).
Quadros fixos, personagens fantásticos e
autorreflexividade
Com relação àquilo que é noticiado, verificamos a recorrência de três temáticas predominantes: a exploração de personagens fantásticos, a autorreflexividade e o cotidiano tratado, sobretudo, em quadros fixos por tempo irregular. O programa faz uso intensivo de tais elementos para configurar suas edições e definir seus critérios de noticiabilidade, que garantem a importância e a preferência conferidas aos assuntos, pelo Fantástico. São estes três temas que constituem os principais valores-notícia da revista eletrônica, nos indicando seu compromisso informativo com o entretenimento.
Com relação aos personagens fantásticos, o programa trabalha histórias inusitadas de pessoas desconhecidas, explorando o fait-
diver4 e a espetacularização. São abordagens em estilo dramático, voltadas à descrição e à narração de fatos, com ênfase nas pessoas envolvidas, como o brasileiro que se tornou um guarda-costas famoso nos Estados Unidos e o garoto americano autista que virou celebridade (26 de março). Essa opção configura-se em um critério de noticiabilidade um tanto particular do Fantástico, que dá indícios, pois, do seu modo de endereçamento. A configuração de critérios sobre o que é noticiável está diretamente relacionada ao tipo de jornalismo por ele praticado.
A autorreflexividade, por sua vez, é uma intertextualidade através da qual o programa pauta a si mesmo e ao restante da grade da emissora, refletindo ele próprio e a Rede Globo nas matérias veiculadas. Segundo Elizabeth Bastos Duarte, “[…] a auto-reflexividade é um procedimento da ordem da incidência”, que implica a presença de um sujeito “que faça de si próprio objeto do discurso por ele mesmo produzido”. (DUARTE, 2004, p. 91) Desta forma, o Fantástico volta-se a todo o momento para si e para a Globo, numa autorreferência que demanda do telespectador o conhecimento sobre a grade da emissora, ao mesmo tempo em que o atualiza quanto aos programas da rede, convocando-o à acompanhá-los. Alguns exemplos: canção inédita de Tom Jobim, que iria embalar um dos personagens da novela Belíssima (26 de março); ensaio fotográfico de Cláudia Raia e Reinaldo Gianechini, par romântico também de Belíssima, e a nova série de reportagens especiais do Jornal Nacional sobre os jogadores da seleção brasileira (02 de abril).
Temos, ainda, a temática do cotidiano fortemente presente no produto analisado. Aqui, entendemos por cotidiano
[…] o ambiente espaço-temporal no qual as experiências que
vivenciamos são próximas a nós tanto no espaço das nossas
relações comuns (nossa casa, nosso trabalho, a rua pela qual
costumeiramente nos deslocamos etc.) quanto no tempo em
que fazemos as ações. (FRANCISCATO, 2003, p. 67)
A opção por tratar deste tipo de assunto indica o investimento da revista eletrônica em tentar estabelecer com a audiência uma relação de proximidade, construindo, dentro de seus conteúdos, espaços para a identificação do público com os mesmos.
Para abordar este tema, o Fantástico opta por formatá-lo, normalmente, em quadros fixos por tempo irregular, que obedecem a um sistema de revezamento temporal aleatório – apesar de serem apresentados aos telespectadores quando estreiam, saem e retornam ao programa sem avisos prévios à audiência. Isto garante à revista eletrônica uma novidade contínua, baseada em quadros intercalados que colaboram na estruturação das edições em linguagem aproximada ao videoclipe, com o uso extenso de recursos visuais e sonoros, enfatizando, mais uma vez, a utilização de tais recursos com destreza pelo Fantástico e a centralidade dessa utilização para a configuração de seu estilo, reforçando seu contexto comunicativo de entretenimento.
A recorrência aos quadros, aliada à promessa da revista em misturar jornalismo e entretenimento, abrindo possibilidades de veiculação de temas variados, habilita o Fantástico como um espaço para programas-pilotos que, antes de serem efetivados ou não na grade, aparecem sob a forma de quadros na revista eletrônica. Aqui, o programa opera com valores-notícia potenciais, testando expectativas sociais e verificando a possibilidade de inclusão de novos atributos em sua seleção de conteúdos e, portanto, em sua redefinição sobre o jornalismo proposto. Na amostra, dois quadros funcionaram como testes para futuras apostas da Rede Globo: Minha Periferia e Profissão Repórter.
Apresentado por Regina Casé, o Minha Periferia foi a prévia do programa Central da Periferia, veiculado mensalmente nas tardes de sábado, durante o período de análise. Famosa por sua atuação no TV Pirata e pela apresentação dos programas Brasil Legal e Muvuca, onde entrevistava pessoas comuns num clima de descontração e familiaridade, Regina Casé transporta, ao quadro, esse mesmo traço de apresentação. No Minha Periferia, leva artistas famosos, que nasceram em bairros de baixa renda, de volta ao seu local de nascimento, ao passo que mostra o cotidiano das pessoas que vivem nestas localidades, explorando as tendências culturais do bairro. Como o Central da Periferia no período analisado foi transmitido mensalmente, quebrando o hábito de audiência do público, o quadro dominical reforçava a divulgação do programa.
Nele, a relação entre jornalismo e entretenimento também se faz presente. Quando o quadro entra em cena, a seguinte frase aparece no canto esquerdo da tela: “Regina Casé em”, e logo à direita do vídeo a logomarca e o título Minha Periferia. A simples frase revela que a apresentadora representa papel fundamental no quadro e que a cada semana ela vivencia “novas aventuras”. O próprio clichê “Fulano de tal em” é popularizado entre os telespectadores e desperta a familiaridade deles com relação ao personagem principal do quadro, Regina Casé. A estampa camuflada das roupas por ela utilizadas também indica esse caráter de aventura. Ao lado de toda essa espetacularização, a atriz faz uso de umas das ferramentas amplamente empregadas no jornalismo: a entrevista. Apesar de não ser de uso exclusivo do jornalismo e de não ter sido criada pela atividade, a entrevista é uma de suas marcas centrais no exercício da apuração das notícias e, no quadro, é o recurso acionado para caracterizá-lo jornalisticamente. A presença da apresentadora no local onde se desenvolve a matéria também pode ser considerada uma tentativa de gancho com o jornalismo televisivo brasileiro, já que a presença do repórter nos locais dos fatos é, também, uma marca registrada que procura enfatizar aos olhos do receptor a verdade e a objetividade da busca da informação.
O Profissão Repórter, por sua vez, estreou dia 07 de maio com a proposta de mostrar os bastidores do cotidiano da produção de notícias. Revelar os bastidores é uma proposta um tanto quanto semelhante à de programas como Vídeo Show (bastidores da televisão) e Big Brother Brasil (bastidores da vida privada). Caco Barcellos é o elemento jornalístico principal do quadro. Autor de livros famosos de jornalismo investigativo (Rota 66 e Abusado), ele empresta ao quadro sua credibilidade e seu compromisso com a verdade, firmado através de suas publicações, de premiações renomadas (Jabuti e Vladimir Herzog) e de sua atuação no jornalismo televisivo. Perseguido e ameaçado por conta de Rota 66, o jornalista permaneceu afastado do país como correspondente internacional da Globo em Londres, ficando conhecido, por isso, pelos seus trabalhos de apuração e investigação. É esta trajetória que o jornalista leva para o quadro.
Vejamos, agora, outros quadros que apareceram no corpus considerado, a fim de evidenciar a presença do cotidiano no programa e o “infotenimento” oferecido.
Caçadores de mitos
Original do canal fechado Discovery Channel (voltado para o entretenimento), o quadro é retransmitido pelo Fantástico, que introduz trechos gravados pelo próprio programa, retirando-o da condição de mera tradução. O ator Lúcio Mauro Filho é o apresentador e o responsável pela dublagem das falas dos dois protagonistas do quadro, que são os caçadores de mitos. A cada edição, a dupla escolhe uma crença popular para afirmá-la como verdadeira ou falsa. Com microfone em punho, Mauro Filho vai às ruas, colhe depoimentos sobre a veracidade ou não da história apresentada e grava cenas nos locais onde os tais mitos podem acontecer. Notamos uma tentativa de “abrasileirar” o quadro que, elaborado num outro contexto cultural, não traz crenças partilhadas de maneira universal. Além disso, o microfone, os depoimentos e a presença do ator no local onde podem acontecer as situações exploradas, são elementos muito arraigados no jornalismo brasileiro, sobretudo, no televisivo. Podemos interpretá-los como uma tentativa de hibridização do quadro, que partilha da sobreposição entre jornalismo e entretenimento. A escolha de um ator para exercer as funções de repórter, no quadro, deixa clara esta tentativa. A própria busca da verdade, que consiste no objetivo do Caçadores de Mitos, remete aos princípios primordiais do jornalismo.
SITCOM.BR5
Este quadro traz atores da Globo interpretando breves textos ficcionais, inspirados no cotidiano dos brasileiros, o que nos leva a crer que o “br” significa “do Brasil” ou “brasileiras”. A exploração de situações pelas quais, supostamente, todos já passaram em algum momento, revela a tentativa de posicionar o telespectador dentro do quadro e gerar uma identificação do mesmo com aquilo que é transmitido. Em cada edição, traz um texto escrito e dirigido por profissionais diferentes, o que garante a variabilidade do quadro, tanto nas histórias como em suas formas de contá-las. Engrossando seu caráter de entreter, temos a participação de atores e a própria formatação do quadro: um misto de teleteatro e cinema, onde a interpretação em cenários limitados é o foco central da câmera. Constantemente, os atores olham diretamente para a câmera, para o telespectador, o interpelando pelo olhar como fazem os apresentadores, contribuindo para um contexto comunicativo dialógico. O quadro reflete a utilização da linguagem audiovisual pelo programa, mostrando sua capacidade em variar os recursos disponíveis.
Repórter por 1 dia
Neste quadro, a hibridização entre jornalismo e entretenimento mostra-se de maneira mais explícita. Nele, um ator da Rede Globo é convidado a exercer as funções de repórter, apresentando uma matéria normalmente relacionada a personagens atuais ou já interpretados. Os atores utilizam microfone, entrevistam fontes, realizam passagem e, ao final, se apresentam e informam o nome do quadro, modo semelhante ao que os repórteres de telejornais finalizam suas matérias: “Mariana Ximemes, repórter por 1 dia, para o Fantástico”. Esses elementos fazem referência direta ao telejornalismo, transportando certa credibilidade ao que está sendo veiculado por atores e não por jornalistas. As temáticas e os atores escolhidos revelam, mais uma vez, a aposta do Fantástico na autorreferência com relação à grade de programação da emissora.
Tá limpo
Conhecido como Dr. Bactéria, o biomédico Roberto Figueiredo explica sobre germes e bactérias, os locais onde são encontrados e os cuidados que devem ser tomados para que se evitem contaminações. Aqui, o Fantástico procura reivindicar para si um dos deveres principais que regem a conduta, ao menos teoricamente, dos jornalistas: a de cães de guarda da sociedade. Mostrando os locais que vendem alimentos de maneira inapropriada e auxiliando os receptores a tomarem atitudes corretas para seu bem-estar e saúde, o quadro procura cumprir a função de vigilância social, informando a sociedade quanto às irregularidades sanitárias praticadas.
Teste do INMETRO
Neste quadro, o Fantástico segue a mesma linha do explicado acima, reivindicando a postura de vigilante social. A cada edição, um tipo de produto é escolhido e as diversas marcas que o fabricam têm a qualidade de produção testada pelo Inmetro – Instituto Nacional de Metrologia, Normalização e Qualidade Industrial. Além da credibilidade do Instituto, o quadro traz depoimentos informativos de profissionais gabaritados sobre o produto analisado. As marcas reprovadas no teste, de acordo com o quadro, são procuradas para dar explicações, o que reflete a tentativa do mesmo em se mostrar justo e democrático, respeitando o direito de resposta e dando voz ao outro lado da questão.
Temporalidades e formatos no Fantástico
Os quadros, matérias de autorreflexividade e exploração de personagens fantásticos, apesar de recorrentes e de ocuparem grande parte do espaço do Fantástico, não constituem a totalidade daquilo que é veiculado nas 2h30min de duração da revista eletrônica. Charge, entrevistas, entradas ao vivo, pautas frias, matérias de desdobramentos da semana, entre outras, também compõem o programa, que aposta tanto na variedade temática quanto na variedade de formatos de apresentação de seus conteúdos.
Veiculado nas noites de domingo, o Fantástico trabalha a maioria do seu conteúdo com um conceito de atualidade distinto daquele predominante nos telejornais. No ar de segunda a sábado, os noticiários trazem, em grande parte, informações que aconteceram no dia mesmo de suas exibições, com um sentido de atualidade estreitamente ligado ao tempo presente dos fatos. Já no Fantástico, a atualidade é considerada, muitas vezes, na perspectiva da revelação pública. O sentido de novidade, aqui, não é presentificado como nos jornais televisivos, mas baseado no ineditismo e na exclusividade. É esse sentido temporal que se aplica à maioria das entrevistas trazidas.
Outra maneira encontrada pelo programa semanal para lidar com a atualidade em seu conteúdo é a atemporalidade de pautas, que consiste na produção de matérias que podem ser exibidas em quaisquer edições, sem o risco permanente de desatualização. Esse tipo de matéria é conhecido pelos jornalistas como pautas frias ou matérias de gaveta, ou seja, não necessitam ser veiculadas hoje para fazer sentido e nem tampouco tratam de assuntos inéditos. Os quadros fixos, por exemplo, e a maioria das matérias referentes a personagens fantásticos são atemporais.
A atualidade também é explorada através de entrevistas e matérias relacionadas aos acontecimentos da semana de exibição do programa. Oferecendo desdobramentos dos assuntos que foram notícias, o Fantástico mostra-se conectado aos eventos do país e do mundo, não abandonando o sentido de atualidade ligado ao presente, mesmo que este presente, na verdade, seja o passado recente. A entrevista com Odair José, realizada no dia 23 de março, nos serve de exemplo. Um CD em homenagem ao cantor havia sido lançado naquela semana e o programa aproveitou o gancho para entrevistá-lo.
Já com relação às principais notícias do domingo, o Fantástico apresenta um resumo delas em pequenos quadros espalhados pelos blocos do programa, intitulados É Notícia. Esses breves quadros, presentes em todas as edições analisadas, trazem, na sua maioria, notas narradas pelos apresentadores do programa sobre os principais acontecimentos do dia. Uma opção da revista eletrônica para não se eximir de trabalhar com o referencial de temporalidade ligado ao seu dia de exibição, como fazem os telejornais.
O sentido de atualidade referente ao tempo presente acontece, ainda, com as entradas ao vivo da repórter Patrícia Poeta, de Nova Iorque. O “ao vivo” remete à temporalidade simultânea, ao agora, ao neste momento. No jornalismo, o tempo real é buscado como meio de suprimir o tempo do acontecimento do tempo de seu relato, na tentativa de informar o fato imediatamente ao receptor. Em estúdio próprio do Fantástico, no exterior, Poeta apresenta notícias realizadas nos Estados Unidos ou referentes ao país norte-americano. Aqui, notamos a tentativa do programa em revelar sua capacidade de cobertura mundial, além do seu poderio técnico. Com os lugares de fala transferidos, a correspondente internacional passa a comandar a apresentação do programa, diretamente do local onde as notícias a serem transmitidas foram produzidas. Portanto, mais uma vez temos a importância conferida ao repórter no local do acontecimento, o que, aliado às imagens mostradas, dá o tom de verdade e objetividade das matérias.
Considerações finais
Trabalhando com as preponderâncias observadas, vemos que o Fantástico – é bom notar as pistas imbuídas no nome mesmo do programa, que já informa o estilo inusitado e espetacular de lidar com os assuntos – estabelece um pacto hibridizado sobre o papel do jornalismo que firma com sua audiência, voltado tanto para a conversação social quanto para o entretenimento. Seu caráter informativo de relatar os acontecimentos é conformado com o objetivo de alimentar a conversação cotidiana, com vistas à formação da opinião pública sobre a realidade social. Aqui, entram os elementos que promovem a condução interpretativa do telespectador, dentro dos conteúdos transmitidos, como a postura dos mediadores, a performance vocal de Cid Moreira e a objetividade substituída pela possibilidade de verificação dos fatos.
Em função da variabilidade de formatos trazidos e da variedade do conteúdo apresentado, dentro de um contexto comunicativo dialógico, marcado pela descontração e leveza, o compromisso com o entretenimento é constantemente verificado. A ampla utilização de recursos da linguagem audiovisual, que empreendem um ritmo dinâmico à estruturação da revista, o modo como se apresenta o cenário, a presença de Eva Byte, a própria vinheta do programa, enfim, colaboram na construção desse pacto, marcado, também, pela exploração de fait-divers. Aliás, a diversidade de apresentação do Fantástico revelou-se como a característica principal do gênero revista eletrônica, incidindo diretamente na configuração do seu estilo particular.
Assim, procuramos mostrar em nosso percurso analítico a articulação entre jornalismo e entretenimento, que resultou, pois, num pacto híbrido, condizente com a proposta central da revista em oferecer “infotenimento”. Esse “showrnalismo”, configurado, sobretudo, na variabilidade de formatos que primam pelos recursos audiovisuais, busca também operar com uma gama diversificada de temas, onde o cotidiano espetacularizado – o “show da vida” – se mostra a linha de costura desse mosaico de atrações. É na tentativa de dar conta das mais diferentes situações do dia a dia, sob enfoques variados, que o Fantástico segue, então, o objetivo de abarcar uma ampla e variada audiência nacional.
Referências
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JOST, François. Seis lições sobre televisão. Porto Alegre: Sulina, 2004.
MAIA, Jussara Peixoto. Jornalismo temático televisivo no Brasil. 2005. Dissertação (Mestrado em Comunicação e Cultura Contemporâneas) – Faculdade de Comunicação, Universidade Federal da Bahia. Salvador.
SOUZA, José Carlos Aronchi de. Gêneros e formatos na televisão brasileira. São Paulo: Summus, 2004.
VERON, Eliseo. La semiosis sociale. Barcelona: Editorial Gedisa, 1998.
1 Linha do Tempo no site do programa – 1973: estreia com uma receita original. Disponível em:
<http://fantastico.globo.com/Jornalismo/FANT/0,15615,00.html>. Acesso em: 13 abr. 2009.
2 Aqui, o entretenimento é visto como elemento indissociável de todas as produções televisivas, compondo uma das três funções clássicas da televisão, ao lado da instrução e da informação, seguindo a perspectiva adotada por Aronchi de Souza (2004).
3 Essa classificação dos mediadores é situada entre dois modelos traçados por Eliseo Véron (1998): apresentador ventríloquo (gestualidade nula, postura corporal rígida e expressão facial extremamente comedida) e apresentador moderno ou meta-enunciador (explora o espaço do cenário, utiliza complexo sistema gestual). Devido à natureza extremada dos modelos trazidos por Véron, o Grupo Análise de Telejornais buscou características que estivessem mais próximas dos programas jornalísticos atuais, elaborando assim a classificação apresentador intérprete – gestos resumidos a expressões fisionômicas e movimentos breves com as mãos, exploração do cenário, porém, não de forma ampla.
4 Fatos sensacionais, de forte apelo emotivo. (GUERRA, 2003, p. 35)
5 Os programas sob o formato de sitcom, estilo mais enraizado na cultura americana, trazem o humor e a teledramaturgia em sua configuração, apresentando, em situações cômicas, os costumes dos cidadãos comuns (SOUZA, 2004, p. 135) – como acontece no quadro em questão.