Gêneros televisivos e modos de endereçamento no telejornalismo

O Roda Viva e as estratégias de construção de um debate públicoFernanda Mauricio da Silva

O Roda Viva e as estratégias de

construção de um debate público

 

Fernanda Mauricio da Silva 1

No ar desde setembro de 1986, o programa de entrevistas Roda Viva se estabeleceu como um lugar privilegiado de debate sobre assuntos públicos na televisão brasileira. Estreado um ano após o movimento das Diretas Já no Brasil, alinhado com os ideais de democracia participativa, e transmitido por uma TV pública, a TV Cultura de São Paulo, o Roda Viva, desde suas origens, tem se empenhado em colocar no centro de seu cenário, constituído em forma de arena, as principais personalidades nacionais e internacionais das áreas da política, artes, economia, cultura, esportes, educação e ciência, a fim de construir-se como um locus de discussão social. A revista Veja de 25 de fevereiro de 1987 atribuiu o sucesso do programa ao equilíbrio entre sobriedade e informalidade nos debates, diferentemente do que ocorria nos concorrentes do período, a exemplo do Canal Livre (TV Bandeirantes) e do Programa Ferreira Netto (TV Gazeta de São Paulo), que oscilavam entre “o ambiente de bate-papo entre amigos” e os “debates freqüentemente tumultuados”, respectivamente. (DEBATE…, 1987, p. 113)

Exibido desde a estreia todas as segundas-feiras2, o Roda Viva assume como ideal “realizar jornalismo público de qualidade ao oferecer aos telespectadores a possibilidade de conhecer o pensamento e o trabalho de personalidades nacionais e

estrangeiras com profundidade”3. A promessa de um jornalismo de qualidade busca se concretizar por meio da proposta de reflexão e aprofundamento dos assuntos que o programa discute em seus cinco blocos de exibição. Por conta disso, o Roda Viva pressiona o subgênero que o insere – programa de entrevistas – a partir de imbricações constantes com os programas de debates, já que é seu objetivo promover uma troca de ideias, opiniões e argumentos sobre os assuntos que concernem ao entrevistado e sua área de atuação. O tempo prolongado, a performance dos participantes, o estatuto dos interlocutores em cena, os enquadramentos temáticos e a abertura para a interatividade com o público são marcas do programa que parecem dar a tônica do modo de endereçamento do Roda Viva e justificarem seu sucesso e longevidade na história

televisiva nacional4.

Tomada de posição

A história dos programas de entrevistas e debates no Brasil se inscreve no declínio da ditadura militar, no final da década de setenta e início dos anos oitenta. A morte do jornalista Wladmir

Herzog5, em 1975, tornou-se um marco histórico para que a sociedade começasse a se manifestar contrariamente à censura, às perseguições e às torturas aos inimigos políticos, aos artistas de esquerda e à imprensa. Aproveitando o clima de tensão e protesto que se instalava no período, a programação televisiva se abriu para o formato da entrevista e do debate, antes limitado a poucos

exemplares 6. Com o governo militar enfraquecido, os programas televisivos se encarregaram de suscitar o debate público e dar visibilidade aos temas e personalidades antes pouco discutidos, ocupando, portanto, a função de porta-voz da sociedade. Nesse rastro, Abertura (TV Tupi), Vox Populi (TV Cultura), Encontro com a Imprensa (TV Bandeirantes), Diário Nacional (TV Record) e Canal Livre (TV Bandeirantes) atuaram como fomentadores da discussão sobre cultura, economia e política. Foi nesse contexto que o programa Roda Viva encontrou seu lugar na grade de programação brasileira e se justificava socialmente pela proposta de um debate de alto nível dos assuntos que concerniam à vida pública. Seguindo a tendência dos programas de sua época, o Roda Viva privilegiava a política, mas não se restringia a ela, abrindo espaço para representantes das artes, cultura, esportes, economia e do próprio campo televisivo.

Esses aspectos, construídos historicamente pelo programa, sofreram pequenas alterações ao longo do tempo, mas não perderam sua essência, de modo que ainda hoje a proposta de oferecer um jornalismo de qualidade por meio da reflexão sobre os assuntos públicos é o elemento central da construção do estilo do Roda Viva e o principal motivo para sua credibilidade entre a audiência e os críticos televisivos. O pacto sobre o papel do jornalismo se mostra ao telespectador na própria estrutura cênica do estúdio: uma arena, no centro da qual o entrevistado da rodada se posiciona e ao seu redor, numa arquibancada um nível acima, seus entrevistadores formam um círculo interrompido por três televisores. Através dessa estrutura, todos podem se entreolhar e o entrevistado

pode se dirigir a qualquer lado. Essa constituição do cenário7, que o programa carrega desde a sua estreia, efetuando algumas variações, sugere que o centro do programa, ocupado pelo entrevistado, será o foco do debate. É para ele que todas as questões convergem e é ele que deverá responder à sabatina de perguntas formuladas pelo apresentador do programa, pelos demais mediadores convidados e pelos telespectadores que podem participar por e-mail ou por telefone.

Para asseverar o alto nível do programa, o Roda Viva investe, principalmente, no estatuto dos participantes, selecionados rigorosamente pela equipe de produção do programa, e na qualidade das perguntas feitas, elementos que, em seu conjunto, dão um caráter tenso e muitas vezes acirrado à conversa. As múltiplas vozes que o constituem possuem funções bem definidas que se complementam para costurar o estilo do programa. Em primeiro lugar e ocupando uma posição de destaque, o Roda Viva conta com um apresentador que faz a mediação entre a esfera da produção e o interesse público que representa e busca assegurar. Inúmeros jornalistas renomados já passaram por essa função, incluindo Rodolpho Gamberini, apresentador no período inicial do Roda Viva, Augusto Nunes, Matinas Suzuki, Heródoto Barbeiro, Jorge Escosteguy, jornalistas com um perfil vinculado aos cargos de chefia do jornalismo televisivo e impresso. De 1998 até o início de 2008, o jornalista Paulo Markun foi responsável pela mediação do Roda Viva, quando deixou a emissora para se tornar presidente da Fundação Padre José de Anchieta, mantenedora da TV Cultura. Após sua saída, o programa viveu um período de instabilidade contando com diversos apresentadores até chegar a Lílian Witte Fibe, jornalista que construiu sua carreira na TV como apresentadora do Jornal do Globo e do Jornal Nacional (ambos da TV Globo), com uma passagem pelo SBT e, posteriormente, pela apresentação do Jornal da Lílian no portal do Terra e, em seguida,

no 8 UOL News.

A passagem da apresentação do Roda Viva de Markun para Lílian Witte Fibe, que se concretizou em abril de 2008, trouxe algumas modificações no próprio papel de apresentação. Paulo Markun evitava expressar algum tipo de emoção nas questões que levantava a seus entrevistados, aproximando-se de uma postura mais objetiva. Tal postura mantinha o apresentador no controle do programa que poderia chegar aos mais altos níveis de tensão, sem que ele se envolvesse de maneira intensa, nem com o conteúdo da conversação, nem com o entrevistado.

Lílian Witte Fibe, por sua vez, assume uma postura mais controladora da cena, determinando a passagem da palavra a fim de assegurar que todos os entrevistadores tenham espaço para suas intervenções. Por conta disso, é comum observar no discurso da apresentadora uma tentativa de organizar o debate: “o professor

Armando ainda não abriu a boca”9, “Nós precisamos fazer mais um intervalo e a gente volta já já com a entrevista do professor e

economista Nicholas Stern” 10. A apresentadora também não esconde uma afetação emocional quando coloca suas questões. A depender do assunto, Fibe pode se mostrar irritada, indignada, revoltada, variando o tom de voz para dar ênfase àquilo que pretende denunciar:

Lílian Witte Fibe - Ministro, eu confesso […] A Declaração [dos

Diretos Humanos] tem 60 anos, mas a lei da abolição da

escravatura tem 120 anos. Eu morro de vergonha de saber,

como brasileira, que a gente não conseguiu nem abolir a

escravidão. Muito menos conseguir resgatar os diretos

humanos. Se ainda tem escravidão no Brasil, e tem, né, o que a

gente pode fazer, o que se pode fazer também a curtíssimo

prazo, senão para ontem, para acabar com isso? [aumentando

o tom de voz]11.

Embora cada apresentador traga sua marca pessoal, alguns atributos são típicos de quem ocupa a função de apresentação do Roda Viva. É o apresentador que se dirige diretamente ao telespectador por meio do eixo olho-a-olho (VERÓN, 1983) a fim de convocá-lo a acompanhar o debate que ali se passa. Além disso, cabe a ele fazer as interrupções para os comerciais (por meio de expressões como “a gente volta já”, “nós vamos para um intervalo e voltamos num instante com o Roda Viva”), controlar o tempo do programa (“professor, nosso tempo acabou”, “a gente tem trinta segundos para sua pergunta e a resposta dele”), convocar os telespectadores para enviarem perguntas via e-mail ou telefone (“para você participar, ligue para […]”), vender os produtos do programa (“lembrando que a entrevista desta noite poderá ser encomendada em DVD a partir de amanhã […]”), apresentar os demais mediadores e o convidado da rodada e, principalmente, direcionar os assuntos a serem debatidos. O apresentador representa uma autoridade institucional, tanto que é a ele que os entrevistados se reportam para pedir direcionamentos como: “posso

contar uma anedota?” 12, “eu posso só complementar a pergunta do

Oscar?”13.

As distinções entre Lílian e seu antecessor revelam diferenciações não apenas no modo de condução, mas principalmente na construção do tom do programa em relação ao subgênero. Paulo Markun parecia mais comprometido com a função de, por meio das entrevistas, promover um debate dos assuntos a partir da troca de opiniões. Assim, “debate”, “discussão”, “entrevista” e “conversa” apareciam como termos intercambiáveis no discurso do antigo apresentador do Roda Viva. Lílian Witte Fibe, por sua vez, não possuía tanta desenvoltura da condução do programa nos termos de um debate, procurando sempre encerrá-lo no subgênero das entrevistas, limitando a conversa ao sistema de perguntas e respostas. Tome-se como exemplo as entrevistas com Lula,

conduzida por Paulo Markun 14, e com o economista Nicholas Stern,

por Lílian15. Paulo Markun, ao apresentar seu convidado esclarece: “em contrapartida aos debates programados, duas entrevistas destinadas a aprofundar a discussão de questões que devem pesar nesta definição eleitoral”, já Lílian refere-se à prática no programa sempre como entrevista: “o Roda Viva está entrevistando Nicholas Stern, consultor do governo inglês para assuntos climáticos”. A rigidez da apresentadora para a distribuição dos turnos de fala e para a inclusão de todos os entrevistadores convidados na conversa não correspondeu à proposta de debate que o programa pretende trazer ao telespectador.

Compartilhando a função de mediação, mas a partir de outro lugar de fala, o Roda Viva convida para ocuparem o primeiro andar da

arquibancada quatro jornalistas16 de veículos de comunicação reconhecidos pela qualidade da cobertura, especialidade dos assuntos ou mesmo pelos índices de audiência. É deles o papel de levantarem questões de interesse do telespectador e é por conta de sua performance que muitas vezes o programa adquire um caráter tenso e o debate chega ao acirramento desejado e compactuado com o telespectador. Podem fazer parte, também, do grupo de entrevistadores especialistas, representantes de instituições ou outras pessoas cujo cargo se relacione de algum modo com a área de atuação do entrevistado. Na entrevista com o escritor

paquistanês Tariq Ali17, por exemplo, foram seus entrevistadores Demétrio Magnoli, geógrafo, especialista em relações internacionais e editor do jornal Mundo, Geografia e Política Internacional, e Roberto Lameirinhas, repórter da editoria internacional do jornal O

Estado de São Paulo 18.

Ao abrir as portas do programa para profissionais de fora da TV Cultura, o Roda Viva sustenta a proposta de um jornalismo de qualidade, pois parece dizer à audiência que o debate ali será no nível dos mais importantes jornalistas e especialistas no assunto tratado, ainda que não façam parte do quadro da emissora. Retoricamente, o programa se reveste do discurso do jornalismo público, que desconhece fronteiras empresariais em nome do interesse público. Juntamente com o apresentador, são eles que perscrutam, investigam e tentam extrair do entrevistado a verdade que não é dita nos veículos convencionais do jornalismo diário informativo, efetivando sua função de vigilância e se posicionando como guardiões sociais da democracia.

Do lado oposto, encontra-se o entrevistado, o dono das ideias, opiniões, conhecimentos que devem se tornar públicos na arena do Roda Viva. O programa privilegia personalidades de destaque no cenário nacional ou internacional, seja pelo cargo que ocupam, seja pelas convicções, seja pelas polêmicas em que estão envolvidas, de modo que há nelas um diferencial e algo que as conecte com a atualidade: publicação de um livro, filme recém-lançado, inserção no momento social. Embora não possua limites nas esferas de abrangência da especialidade do convidado – podendo ir dos esportes à ciência – há limites no status desse personagem para a vida pública, de modo que não é qualquer ator, cineasta ou político, que se senta no centro do Roda Viva, mas é Wagner Moura, aclamado pela crítica após o filme Tropa de Elite; Fernando Meirelles, indicado ao Oscar pelo filme Cidade de Deus e reconhecido pelo trabalho mais recente, a adaptação do romance Ensaio sobre a Cegueira, de José Saramago; e os candidatos à corrida presidencial no ano de 2006. Sua posição solitária no centro da arena o deixa exposto a todo tipo de questionamento que pode vir de qualquer lado, insinuando um lugar de fragilidade e desvantagem em relação aos entrevistadores que se impõem como autoridade, estando um nível acima do convidado. Se, por um lado, a disposição do cenário em dois níveis força o entrevistado a olhar sempre para cima para se dirigir a seus interlocutores, por outro, a situação de submissão é contrabalanceada pelo tempo mais alongado disponível para o desenvolvimento de suas ideias, mantendo-o no lugar central do programa.

É essa dinâmica que envolve entrevistados e entrevistadores que cria um sentido de “roda viva”, sugerindo que tudo está mudando, se construindo, se reconfigurando. Desde a vinheta de abertura, o programa convoca o telespectador a “entrar na roda” e acompanhar, pelo Roda Viva, as transformações que acontecem ao seu redor por meio de um “debate vivo”, como sugeriu uma reportagem de Veja (25 fev. 1987). Ao som da música de Chico Buarque que lhe

empresta o nome 19, imagens do mapa do mundo em tons de branco e cinza servem de fundo às letras que formam o nome do programa. Ao final de uma sequência de imagens, o quadro finalmente se completa e forma-se, sobre um fundo branco, o nome do programa em cinza e vermelho, sendo que o “O” que forma da palavra “RODA” é o globo terrestre que gira continuamente até se fundir com o globo que está no piso do cenário onde o entrevistado se posiciona. O programa sugere, por meio da vinheta, que, ali, os assuntos e as personalidades que “estão no centro do mundo” serão abordados de maneira viva, ativa e vigilante. No centro dessa roda, o convidado se vê acuado, sem ter outra alternativa, senão responder às questões dos entrevistadores.

Além desses enunciadores, o Roda Viva conta ainda com uma repórter da TV Cultura para servir como porta-voz das perguntas enviadas pelos telespectadores, uma plateia disposta no segundo nível da arquibancada, que participa do programa partilhando suas impressões por meio do twitter, ferramenta que permite a troca de mensagens instantâneas pela internet, e o cartunista Paulo Caruso, presente desde a estreia do programa, que faz suas interpretações do debate por meio de charges. A função de Caruso é perceber os momentos mais interessantes, as falas de maior repercussão, as ideias discutidas ressignificando-as para a audiência.

As charges de Caruso são captadas pela câmera durante todo o programa ainda em seu processo de produção, e revelam um olhar individual sobre os assuntos à baila no Roda Viva. São flagrados pelos desenhos de Caruso os entrevistadores, os convidados e personagens externos ao programa que possuem relação com o que está sendo debatido no momento. Segundo Santos (2005, p. 78), as charges de Caruso possuem três funções mais evidentes:

a) ilustram, com carga humorística, o diálogo que se dá diante

das câmeras; b) fornecem um determinado enfoque para a

análise da cena, sugerindo um viés para a análise das

declarações dos convidados; e c) como conseqüência desta

última característica, conferem a Paulo Caruso um privilegiado

lugar de fala no Roda Viva, uma vez que seus desenhos

emitem opinião sobre a entrevista sem contestação.

Os jornalistas empregam, majoritariamente, cinco tipos de pergunta para abordarem os assuntos no Roda Viva: 1) biográfica – “E você teve a infância na cidade de Rodelas. Eu soube que nessa cidade

tem muito mármore […] E você ficou lá os quinze anos, não é?” 20; 2) confirmação de uma hipótese

– […] o senhor disse, já, que a questão do terrorismo emana

muito mais da fraqueza do que propriamente da força. É uma

colocação que eu acho que é aceita por muita gente, na

verdade. Agora, eu não tenho certeza se é uma definição que

possa ser aplicada de maneira geral ao terrorismo ou a um

específico tipo de terrorismo que é aquele que vem exatamente

de grupos que estão sendo esmagados por poderes maiores.

Ou é uma definição que vale de uma maneira mais ampla.

Como é que o senhor vê essa questão?21

3) solução de problemas

– […] o senhor poderia relacionar algumas medidas simples,

além da economia de água, do movimento pelo uso de produtos

ecologicamente corretos dentro de casa, domésticos etc. que a

população poderia adotar imediatamente para fazer a sua parte

também?22

4) informativa

– […] a cosmologia não tem uma fronteira com outros ramos do

conhecimento, ou - não sei bem se a palavra se aplica -, de um

lado, a filosofia e, do outro, a religião… não tem um meio-de-

campo aí que é meio embolado?23

5) investigativas

– […] a gente vive hoje em um Universo, segundo as versões

dos próprios cosmólogos, em que 95% de todo conteúdo do

Universo, energia e matéria, a gente não tem a menor idéia do

que seja. Por que, na opinião do senhor, alguém aqui deveria

acreditar em uma versão cosmológica com base em 5% do que

a gente conhece de todo o Universo? Por que 5% iriam contar a

história inteira?24

Por meio desta última é que os jornalistas desempenham melhor o papel de fiscalização, de cães de guarda dos interesses do público e consolidam o pacto sobre o papel do jornalismo de efetivar um debate público a partir de critérios democráticos.

Debate público na democracia

O Roda Viva se assume, retoricamente, como um espaço aberto a todo tipo de ideia e concepção de mundo ao pôr em diálogo personalidades em lados opostos na vida social. A excitação do momento eleitoral no ano de 2006 e os escândalos que envolviam o governo Lula foram bastante profícuos para a construção de uma arena supostamente neutra em termos de política partidária, uma vez que o programa levou para o centro de seu cenário os principais candidatos à corrida presidencial. Corroborando com essa postura, a edição de 02 out. 2006, que se configurou como uma mesa

redonda25, promoveu um debate sobre o momento eleitoral com representantes dos principais partidos políticos do país, formando “duas bancadas: uma governista e outra de oposição”, como

destacou o apresentador Paulo Markun na abertura do programa 26. Portanto, é na busca pelos múltiplos lados de uma mesma questão que o Roda Viva constrói sua proposta de debate, atualizando aquilo que configura, do modo mais tradicional, o subgênero: o confronto de ideias. Essa postura evoca um papel de vigilância exercido pelo programa, que permite à sociedade formular melhor suas opiniões por meio do tratamento diversificado das questões trazidas ao estúdio. Assim, o binômio pergunta/resposta funciona como alavanca para as trocas de argumentos entre entrevistadores e entrevistados.

Para além da busca pela informação, o Roda Viva propõe à audiência o tratamento de questões relevantes num nível argumentativo, partindo do pressuposto de que a audiência já possui as informações básicas para se integrar à conversa encenada. O programa, portanto, retoma um papel mais

característico do jornalismo opinativo 27 que consolidou os parâmetros que ainda hoje são tomados como definidores do campo: é opinativo porque permite a troca livre de opiniões que se consolidam em argumentos. Segundo Josenildo Guerra (2003, p. 36), a matriz opinativa do jornalismo está relacionada à política e compreende o jornalismo como “uma grande esfera de debate de ideias”. “Nesta modalidade”, continua o autor, “não são os fatos o eixo em torno do qual o discurso se estrutura, mas a tese pela qual o autor busca explicá-los”. (GUERRA, 2003, p. 36) Guerra explica que foi nos momentos de maior instabilidade política que esse modelo de jornalismo se desenvolveu, atuando no processo de formação e persuasão dos indivíduos para abraçarem as causas

liberais 28. Para Guerra (2003), esse modelo de jornalismo se caracteriza pelo estilo polêmico e argumentativo dos textos, o engajamento político dos atores em um projeto de sociedade e o domínio dos princípios que norteiam as formas de governo e as alternativas desejadas. (GUERRA, 2003, p. 37) Assim, o Roda Viva se apropria de um modelo residual de jornalismo para construir sua legitimidade, efetuando hibridizações no subgênero que o concerne. O cenário político eleitoral do momento e as diversas carências sociais do país, tema da edição de 19 jun. 2006 sobre as dificuldades de acessibilidade dos portadores de deficiência física, tornam-se um ambiente profícuo para a existência desse programa e sua função social.

Se por um lado o programa semanal da TV Cultura se constrói para a audiência como um espaço aberto a qualquer visão de mundo, por outro, a postura dos entrevistadores não se mostra tão isenta de concepções preestabelecidas. A função que os mediadores assumem no programa é de contradição das ideias apresentadas pelos entrevistados e cobrança por esclarecimentos que ainda não

foram prestados. Através de perguntas investigativas 29 e de

confirmação de hipóteses 30, os jornalistas e, por conseguinte, o Roda Viva se colocam como cães de guarda do interesse público e vigilantes das ações políticas. A entrevista com Luiz Inácio Lula da Silva trouxe situações em que os jornalistas buscavam elucidar os escândalos que ainda envolviam sua administração:

Renata Lo Prete - Presidente, o senhor tem, ao falar dessa

questão do dossiê [em setembro de 2006, ‘vazou’ um DVD com

vídeos e fotos do candidato à presidência da República,

Geraldo Alckmin, e do candidato ao governo de São Paulo,

José Serra, ambos do PSDB, em cerimônias de entrega de

ambulâncias vinculadas à Planam, ápice do escândalo dos

Sanguessugas, com o objetivo de prejudicar as candidaturas

dos opositores ao presidente], tem insistido muito em dizer que

o senhor acabou sendo o maior prejudicado com isso, porque o

senhor tinha a chance de fechar a eleição no primeiro turno e

isso acabou não acontecendo. Agora, o senhor não acha que

tem um problema nesse raciocínio, presidente, porque a gente

também pode pensar o seguinte: o senhor só acabou sendo

prejudicado porque essa operação deu errado, presidente.

Porque se essas pessoas não tivessem sido presas, se os

vendedores tivessem comparecido com um dossiê de verdade

e se os compradores, alguns deles ligados à sua campanha,

não tivessem sido presos antes, o senhor não teria sido

prejudicado e a oposição sim teria sido bastante prejudicada. O

senhor não acha que tem um problema nesse raciocínio,

presidente?31

O debate no Roda Viva muitas vezes assume um caráter tenso, o que confere dinâmica, agilidade e vivacidade ao programa. Um indício de que a conversação atingiu o clímax é que os participantes apresentam um comportamento mais passional – deixando transparecer irritação, desconcerto, revolta – e o ritmo das perguntas aumenta, provocando uma série de interrupções e sobreposições da fala. A sobreposição, portanto, é desejável e faz parte do jogo de poder que o Roda Viva põe em cena, uma vez que quando todos falam ao mesmo tempo estão competindo pelo direito à palavra e, consequentemente, pelo poder do discurso. Expressões como “deixa eu entrar nessa discussão aí”, “desculpe um momentinho”, “só um pouquinho, senadora” são formas que os enunciadores encontram para invadir o discurso do entrevistado, que se defende dizendo “deixa só eu terminar aqui”, “agora eu quero responder a pergunta de […]”. Entrevistadores e audiência compactuam com uma postura mais controladora do jornalista, o que permite que comportamentos, como aumento do tom de voz, aproximação corporal ao entrevistado, interrupção da resposta e monopólio da palavra, se justifiquem retoricamente e indiquem para o telespectador que o debate é intenso e aprofundado.

Para legitimarem seu papel de vigilância, os jornalistas chegam ao Roda Viva bem preparados, dispondo de dados estatísticos, declarações de fontes oficias divulgadas pela mídia, declarações do próprio entrevistado e informações adicionais a fim de entrarem na arena com argumentos suficientemente convincentes para a batalha discursiva que irá se travar ali. Por isso, muitas vezes os jornalistas se credenciam ao mostrar para a audiência que sua reivindicação diante do entrevistado é embasada numa apuração anterior à cena, por meio de enunciados como “nós conversávamos aqui, antes do

programa […]” 32. A TV Cultura corrobora com essa atitude fornecendo previamente aos entrevistadores convidados um material contendo os principais aspectos do assunto e do entrevistado da rodada, o que permite que eles entrem no debate munidos de informações adicionais e com perguntas já elaboradas, o que desequilibra a conversa e põe os entrevistadores em posição de vantagem. O professor Valdemar Setzer chamou a atenção para essa desigualdade no ingresso à conversação, ao responder à pergunta do jornalista Caio Túlio Costa: “Caio, você está numa situação de vantagem em relação a mim: eu não li os seus trabalhos e você se baseou nos meus [risos] que, aliás, estão na internet”, ao que o jornalista retruca dizendo “sim, eu citei tudo que o senhor

falou aqui” 33, como se o acesso a informações anteriores pusesse os dois em desigualdade. O Roda Viva deixa transparecer o trabalho da equipe de produção do programa, cuja função é fornecer aos entrevistadores informações suficientes para que eles ocupem o lugar de vigilância.

O inquérito é o veículo pelo qual a verdade pode ser trazida à luz e, na “roda viva” da TV Cultura, o apresentador possui um lugar privilegiado no contexto comunicativo do programa para assegurar que as informações trocadas sejam verídicas, o que também reforça o trabalho da equipe de produção que dá sustentação a seu papel. Durante o período analisado, o único momento em que o apresentador prestou algum esclarecimento foi quando o deputado federal José Carlos Aleluia (então PFL, atual Partido Democratas) forneceu informações inverídicas para sustentar suas opiniões, enquanto discutia com a deputada Ideli Salvatti (PT):

José Carlos Aleluia - Imagino o que é que a dona Vilma de

Castro está pensando. Ela e os pais daquele eletricista

brasileiro que foi metralhado lá em Londres [referindo-se a Jean

Charles de Menezes (1978 – 2005), imigrante brasileiro

confundido com um homem-bomba e morto no metrô de

Londres pela polícia britânica], o eletricista foi para Londres

porque não tinha emprego, senadora. Ele foi ser eletricista lá

porque aqui não tem emprego.

Imagino o que é que a dona Vilma de Castro está pensando.

Ela e os pais daquele eletricista brasileiro que foi metralhado lá

em Londres [referindo-se a Jean Charles de Menezes (1978 –

2005), imigrante brasileiro confundido com um homem-bomba e

morto no metrô de Londres pela polícia britânica], o eletricista

foi para Londres porque não tinha emprego, senadora. Ele foi

ser eletricista lá porque aqui não tem emprego.

Ideli Salvatti – “[interrompendo] Ele foi quando?”

José Carlos Aleluia – “No teu governo”.

Ideli Salvatti – “No meu governo?”

José Carlos Aleluia – “Como estão indo os jovens brasileiros. O único lugar em que jovem brasileiro encontra emprego é no aeroporto […]”.

Paulo Markun – “[No início do quinto bloco] Queria antes de mais nada registrar aqui que Jean Charles de Menezes estava em

Londres desde o governo Fernando Henrique Cardoso […]”.34

No Roda Viva, o apresentador concede sua opinião como argumento para a formulação de perguntas. Assim, há uma aparente objetividade que contrasta com o caráter adversativo das questões direcionadas ao entrevistado. Na dinâmica conversacional, o controle da distribuição dos turnos de fala ocorre, apenas, no início e encerramento dos blocos. Sendo assim, cabe ao apresentador abrir e fechar as trocas, deixando o restante do processo de construção da conversa aos entrevistadores e entrevistados que possuem liberdade de tempo para formular seus argumentos. A intervenção dos demais mediadores na conversação do Roda Viva permite a mudança de assuntos e a inclusão de aspectos novos imprevistos pelo apresentador. Assim, o programa distribui o papel de construção do debate entre todos os entrevistadores. Ao apresentador, cabe o papel de enquadrar a

temática e a própria entrevista por meio da pergunta de abertura 35, que visa destacar os aspectos que irão conduzir a conversa naquele bloco, ao menos inicialmente, permitindo que o entrevistado formule ideias a partir de argumentos fornecidos pelo apresentador:

Paulo Markun (a Tariq Ali ) - Eu queria começar pelo seguinte.

O senhor acha que é possível conciliar literatura e militância

política? Porque é uma longa discussão no mundo. Houve

época que era muito valorizado, momentos em que se

considerava que não havia ligação possível - uma coisa é uma

coisa e outra coisa é outra coisa - e o senhor faz ambas. É

possível haver essa conciliação?36

A pergunta de Paulo Markun a Tariq Ali não apenas diz sobre o que os participantes devem falar durante a conversa, mas indica o modo como Tariq Ali é inserido no programa: a partir de sua militância política, e não apenas na sua atividade como escritor. Sendo assim, não interessa ao programa o estilo textual de Ali, a construção de narrativas, o processo de distribuição dos livros – embora sua vinda ao Brasil estivesse vinculada à Festa Literária Internacional de Parati –, mas sim as questões que contextualizam suas obras – as contradições entre o mundo ocidental e o oriental – e será esse o assunto abordado durante a conversa. A preferência do programa pela atuação política do convidado demonstra o tom do Roda Viva no cumprimento do papel de vigilante e de formador de opiniões.

Posicionamento da audiência

O Roda Viva lança mão de um contexto comunicativo que visa colocar o telespectador numa posição de permanente atenção à conversação. Pelo seu horário de exibição, o programa concorre com filmes, programas de auditório e programas jornalísticos, e seu diferencial no fluxo televisivo é se constituir uma alternativa a uma programação voltada majoritariamente ao entretenimento. Para atrair o telespectador e mantê-lo preso durante toda a transmissão do programa sem ceder ao zapping, o Roda Viva exige que o telespectador acompanhe todos os meandros do debate para que não haja prejuízo de sua compreensão e ele possa formular sua própria opinião de maneira mais consistente.

As estratégias de captura da audiência se dão desde o início do programa, quando o apresentador fornece, no primeiro bloco, algumas informações contextuais sobre o convidado do dia:

Paulo Markun - Boa noite. Ela nasceu em Alagoas, num lugar

chamado Pão de Açúcar que de doce só tem o nome. Criada no

sertão alagoano, foi trabalhadora rural, sindicalista e fez carreira

política no Partido dos Trabalhadores. Com marca pessoal

forte, tornou-se uma das mais aguerridas mulheres a chegarem

ao Congresso Nacional. Rompida com o PT há dois anos,

agora se lança à corrida presidencial. O Roda Viva, que vem

entrevistando os principais pré-candidatos à eleição

presidencial deste ano, conversa esta noite com Heloísa

Helena, pré-candidata à Presidência da República pelo PSOL,

Partido Socialismo e Liberdade. O Roda Viva começa em um

instante.37

Após a inserção dos patrocinadores do programa, o Roda Viva apresenta novamente o convidado da rodada através de um VT com narração em off, contendo os principais elementos sobre a carreira e a vida pública do entrevistado:

Narrador - Sempre envolvida no movimento sindical, popular,

rural e indigenista, Heloísa marcou carreira não só pela postura,

como pela disposição para enfrentar qualquer polêmica.

Heloísa Helena Lima de Moraes Carvalho, 44 anos, nasceu em

Pão de Açúcar, sertão de Alagoas, onde começou a trabalhar

como bóia-fria com a família. Mais tarde, na capital, em Maceió,

se formou em enfermagem com pós-graduação em

epidemiologia. Começou a carreira política em 1990, no Partido

dos Trabalhadores. Foi eleita vice-prefeita de Maceió em 1992 e

deputada estadual dois anos mais tarde. Em 1998, tornou-se a

primeira mulher eleita para o Senado por Alagoas, durante o

mandato destacou-se no combate à política neoliberal do

presidente Fernando Henrique Cardoso. Manteve a oposição ao

governo Lula e acabou sendo expulsa do antigo partido. O

primeiro grande confronto aconteceu quando recusou-se a

apoiar a indicação de Henrique Meirelles para o Banco Central.

Pouco depois, rejeitou o nome de José Sarney para a

presidência do Senado, confrontando mais uma vez a direção

petista. Fez críticas à política econômica do governo e criou

nova crise quando se opôs ao projeto de reforma

previdenciária. Foi punida e, finalmente, expulsa do PT em

2003, mas não deixou a política. Em 2004, ao lado de outros

parlamentares também afastados, ajudou a fundar PSOL e é

pelo novo partido que Heloísa Helena disputa a presidência.38

No início de cada bloco, o programa recria estratégias para situar o telespectador na emissão, seja pelo texto verbal do apresentador, que relembra quem é o entrevistado do dia, seja por um VT com narração em off ou com imagens dos trabalhos mais significativos do personagem central do programa. Com exceção desses momentos, o Roda Viva pouco fornece informações contextuais sobre os assuntos que surgem na conversação, cabendo ao telespectador completar as lacunas deixadas pelo programa com informações que já possui através do acompanhamento constante da imprensa. Deste modo, o programa requer um amplo repertório cultural, uma vez que pressupõe que o telespectador já conheça os assuntos que surgem nas falas dos participantes. Mesmo as charges de Caruso promovem esse tipo de interpelação da audiência, uma vez que solicita, primeiro, que a audiência esteja atenta ao programa para interpretar os desenhos que capturam momentos específicos do debate. As charges, muitas vezes, tratam de uma situação extramidiática, com personagens que estão fora da cena, mas que se relacionam com os assuntos abordados.

O processo de edição do programa, que utiliza quadros longos, de aproximadamente trinta segundos, podendo chegar a um minuto, sugere que o telespectador assuma uma postura de reflexão e atenção irrestrita à fala dos enunciadores. Enquanto o convidado ou o jornalista desenvolve seu pensamento, as três câmeras do Roda Viva, situadas no nível da arquibancada, o capturam em plano americano, deixando visíveis: as mãos, a fim de mostrar a

gesticulação que complementa a fala 39, e a bancada, que exibe as anotações e documentos dos entrevistadores. O quadro fechado no falante e o corte seco do enunciador para o enunciatário criam um efeito de proximidade entre os interlocutores e o telespectador. Poucas vezes a câmera do Roda Viva não focaliza o enunciador que está com a palavra, mas quando o faz é sempre para mostrar atividades que evoquem uma postura de atenção e reflexão: o interlocutor assentindo com a cabeça enquanto o convidado fala, a plateia registrando a entrevista no twitter, as charges de Paulo Caruso. Através desse jogo de enquadramentos, a equipe de edição e os diretores do Roda Viva criam, por meio dos recursos da linguagem televisiva, um discurso do programa, discurso este que envolve o uso da imagem articulado com o que está sendo dito. Na

entrevista com o professor Valdemar Setzer 40, o Roda Viva intercalou a imagem do entrevistado, que falava sobre a ingenuidade das crianças para discernirem o conteúdo da internet, com imagens de uma charge satírica de Paulo Caruso ilustrando uma criança na frente de um computador como uma marionete. Em seguida, quando Valdemar Setzer fala sobre impedir o acesso juvenil aos sites, a câmera do Roda Viva mostra uma twitteira, em primeiro plano, digitando um texto na internet. A câmera vai abrindo o quadro e fazendo uma pan até que se veja todo o cenário do programa a partir do ponto de vista da participante conectada à internet. A imagem demonstra o lugar privilegiado que ela possui para observar aquela cena e relatá-la aos demais participantes que não estão presentes no programa, o que lhe confere legitimidade para construir suas ideias. Sendo assim, o Roda Viva apresenta, nesse momento, um contradiscurso ao do entrevistado, de que a internet pode ser usada com fins produtivos, como o programa busca fazer.

Transformações na arena

Em seus mais de vinte anos, o Roda Viva orgulha-se pelas mais de mil entrevistas realizadas que retratam “momentos e fatos importantes das mais diversas áreas do conhecimento: artes,

política, economia, cultura, esportes, educação e saúde” 41. Essa história e a credibilidade alcançada ao longo dos anos não permitiram, porém, que o programa se estabilizasse numa estrutura perene. Ao contrário, o próprio Roda Viva, enquanto espaço midiático, promove modificações com vistas a acompanhar as transformações sociais e as expectativas do público. Nesse sentido, duas mudanças significativas têm implicações na construção do programa e merecem ser enfatizadas: a exploração dos aspectos pessoais do entrevistado e a ênfase na interatividade por meio das novas tecnologias.

O Roda Viva se construiu com base nos aspectos relacionados à vida pública de seus entrevistados, rechaçando uma construção de sua credibilidade por meio de um vínculo íntimo entre os participantes da conversação posta em cena. No entanto, quando o centro da arena é ocupado por um personagem que tem boa aceitação popular, o Roda Viva explora certos elementos de sua vida pessoal que não necessariamente têm a ver com a carreira e a atuação social que o levou para o programa. Contrariamente ao que acontece com a esfera política, a qual o programa trata com desconfiança, quando os personagens que ocupam o centro da roda são agentes promotores da cultura e da cidadania, agentes que fazem o país ser melhor, que promovem uma projeção positiva do Brasil no mundo, estes são tomados como parâmetro de conduta e de ação social, e sua biografia é usada como exemplo para os

telespectadores. Na entrevista concedida pelo ator Wagner Moura42, a apresentadora Lílian Witte Fibe enquadrou boa parte do último bloco nos aspectos pessoais do entrevistado, por meio de perguntas como

- […] falando em família, um assunto que a gente acabou não

abordando aqui é a tua admiração pelo teu pai. Queria que

você contasse a história dele. Você fez um filme por causa dele

e, para minha surpresa, lendo aqui sobre tua vida, o teu pai,

uma pessoa simples como é, fez questão de se formar em

direito e ficou preocupado com a educação. Você tem uma irmã

médica? […] Os dois são formados em curso superior? Conta

isso 43 ?

A insistência da apresentadora para que o ator fale sobre sua biografia revela uma mudança no enfoque do programa, que passa a usar a vida pessoal dos entrevistados para estreitar laços de proximidade com a audiência. Por outro lado, enfraquece o programa do ponto de vista da promoção de um debate, pois a vinculação com a biografia do ator não pretende a formulação de um argumento, ela entra como dado curioso. Embora o emprego de

perguntas intimistas 44 possa direcionar o programa ao tratamento

de questões sociais mais amplas 45, no caso da biografia de Wagner Moura, ela se esgota em si mesma, não servindo nem mesmo para levar o público a compreender suas opções como ator.

Segundo Mark Deuze (2005), dois aspectos emergentes do jornalismo contemporâneo podem modificar sua forma de produção: o multiculturalismo e a multimidialidade. Segundo o autor,

[…] a combinação das técnicas de controle do conjunto de

notícias e transmissão das histórias em todos os formatos

mediáticos […], assim como a integração de tecnologias digitais

de transmissão combinadas com a reconcepção da relação

entre produtor e consumidor das notícias tende a ser um dos

maiores desafios encontrados pelos estudos do jornalismo e

seu ensino no século XXI. (DEUZE, 2005, p. 451)

É notável contemporaneamente que boa parte dos programas televisivos possui um site na internet que fornece informações básicas sobre pauta e programação, permite a recuperação de vídeos e, em alguns casos, possibilita a interação com a audiência. Assim, o ato de assistir a um programa não se restringe à recepção televisiva, mas envolve a relação com outras mídias que o complementam. No Roda Viva, o uso de tecnologias tem ampliado as possibilidades receptivas para, cada vez mais, incluir o público na conversa.

Uma das características mais marcantes do Roda Viva, desde seu surgimento, foi a possibilidade de constituir-se num fórum público dos assuntos, permitindo que a audiência tivesse voz no interior do programa. Segundo a revista Veja de 25 fev. 1987, além de perguntas gravadas previamente, o Roda Viva permitia que os telespectadores fizessem perguntas ao vivo por telefone. Assim, o semanário da TV Cultura sempre possibilitou que os telespectadores também tivessem acesso aos atores sociais presentes em sua arena por meio de telefone, fax e e-mail, à medida que as tecnologias de comunicação progrediam. Na versão anterior a 2008, o público era representado no programa por meio da plateia, formada por estudantes universitários, jornalistas, advogados, representantes de partidos e de sindicatos que assistiam ao debate, sem direito à palavra. Ao final de cada bloco, a plateia era apresentada e exibida à audiência. Além disso, o programa gravava um VT com perguntas de pessoas comuns em locais públicos, de modo que a audiência, de fato, tivesse voz e lançasse suas preocupações aos convidados do programa. A representação do povo incluía taxistas, cabeleireiras, professores, representantes comunitários que apareciam creditados durante a transmissão do Roda Viva. Essa tentativa de representação popular no interior do contexto discursivo do programa visava sustentar a proposta de um jornalismo público que a emissora que o transmite carrega, mas também obedecia a uma seleção por parte da produção do programa. Sendo assim, não era qualquer pessoa que entrava na plateia do Roda Viva, mas aquelas que possuíam alguma relação com o convidado. Na entrevista com Heloísa Helena, um dos participantes da plateia foi o deputado federal pelo PSOL de São Paulo, e um dos entrevistados que falavam do exterior do programa era o líder comunitário de São Paulo, Vanildo Moreti. Embora não tenha visibilidade midiática, os interesses do líder comunitário convergem para as propostas da entrevistada do dia. Sendo assim, há um processo seletivo de quem participa e quem não tem direito a voz no Roda Viva. Os membros da plateia não se engajam no debate, cabendo-lhes o papel de espectadores da conversa.

Em 2008, as formas de inserção da audiência no programa sofreram modificações que, se por um lado foram otimizadas, por outro ampliaram a lacuna existente entre a emissão e seu público. Ao invés de exibir as próprias pessoas fazendo suas perguntas, o Roda Viva adicionou à bancada de mediadores uma repórter da TV Cultura responsável por ler as perguntas que os telespectadores enviam por e-mail ou fax. Sendo assim, o programa midiatiza a voz da audiência, que não possui acesso direto à conversa. Na edição de 1º/12/08, a jornalista Carmem Amorim foi responsável pelo contato do público com o programa:

- […] eu tenho uma pergunta aqui, aliás duas, do C.H., de

Anápolis, Goiás, que pede para o senhor fazer um comentário

sobre o impacto da lan house na vida das crianças e

adolescentes, né. E o que o senhor acha das redes sociais:

orkut, por exemplo, qual é o impacto que essas redes podem

ter na vida dessas crianças e adolescentes.46

Assim, não é a pessoa comum que se engaja no debate promovido pelo programa, mas um representante do campo jornalístico que lhe dá voz.

Por outro lado, o site do Roda Viva na internet permite aos usuários acessarem os bastidores do programa – reportagens feitas com os entrevistadores sobre suas expectativas do debate –, assistir ao programa na web, enviar perguntas, participar de um bate-papo durante a transmissão e acompanhar a produção das charges. Assim, o próprio telespectador do programa pode obter mais informações sobre os assuntos e o convidado, o que o coloca numa posição mais autorizada no debate, buscando informação para formar sua opinião por vários canais. As mensagens partilhadas via twitter pelos participantes na plateia do estúdio corroboram para promover um debate no âmbito social, fora dos limites televisivos, embora fomentado por eles. Sendo assim, o Roda Viva amplia sua atuação e permite que se crie uma comunidade de interesses aduzida pela conversação que o programa põe em cena.

Desta maneira, o Roda Viva aposta na convergência para alcançar uma audiência mais vasta e confirmar o lugar de debate público que reivindica na construção de seu estilo. Os ideais de participação e inclusão do público, que reforçam aspectos democráticos, são lançados para o espaço virtual, que permite liberdade de acesso para participantes diversos, mas com alcance reduzido.

Essas mudanças na arena apontam para transformações que o programa efetua no subgênero. O Roda Viva é o programa de entrevistas há mais tempo em exibição no país. Por conta disso, ele preserva certos elementos ao mesmo tempo que inova outros, efetuando um avanço no subgênero. A conservação do cenário nos mesmos moldes, a proposta de um “debate vivo”, como salientou a revista Veja de 25 fev. 1987, são elementos que criam familiaridade entre o programa e a audiência e, de certo modo, dão um sentido de estabilidade, conservando os aspectos que asseguram a qualidade do programa em todos esses anos. Por outro lado, o Roda Viva não deve ser compreendido como se estivesse estático, mas, pelo contrário, ele se adapta para incorporar o novo: a nova tecnologia, as novas formas de incluir a audiência, os novos personagens da cena pública. Essas inovações promovem um retorno ao nome do programa, à vivacidade da roda, que permanece ativa, se reconfigurando em torno do novo.

Referências

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BARBOSA, Marialva. História cultural da imprensa: Brasil, 1900-2000. Rio de Janeiro: Mauad, 2007, 262p.

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DEUZE, Mark. What is journalism? Professional identity and ideology of journalists reconsidered. Journalism, London, v. 6, n. 4, p. 442–464, 2005.

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SILVA, Fernanda Mauricio. A conversação com estratégia de construção de programas jornalísticos televisivos. 2010a. 293f. Tese. (Doutorado em comunicação) - Programa de Pós-graduação em Comunicação e Cultura Contemporâneas, Univesidade Federal da Bahia, Salvador.

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TRAPANOFF, Fabíola. Roda Viva: a arena da notícia. Revista Imprensa, 19 out. 2004. Disponível em:

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VERÓN, Eliseo. Esta ahí lo veo, me habla. Tradução Maria Rosa Del Coto. Enunciacion et cinema, Revista Comunicativa, Paris, n. 38, 1983.

1 Este texto é uma adaptação de um dos capítulos da tese intitulada A conversação como estratégia de construção de programas jornalísticos televisivos. Ver SILVA, 2010a.

2 O que variou ao longo do tempo foi o horário de exibição: inicialmente o programa ia ao ar às 21h20 min. Durante o período analisado, o Roda Viva entrava em cena das 22h10min às 23h40min. Ainda assim, a opção pela faixa horária do fim da noite se mantém estável ao longo do tempo.

3 Informações do site oficial do programa. Disponível em:

<http://www.tvcultura.com.br/rodaviva>. Acesso em: 20 abr. 2009.

4 A presente análise leva em conta o período de 2006 a 2008, mas para efeito de exemplificação foram selecionadas randomicamente dez edições referentes a esse momento do Roda Viva. Em 2010, o programa, assim como a própria TV Cultura, passou por diversas reformulações, ainda que mantivesse sua proposta inicial: promover um debate público de qualidade. Para uma breve reflexão sobre as alterações no Roda Viva, ver SILVA, 2010b.

5 Herzog era diretor de A Hora da Notícia, telejornal da TV Cultura que denunciava os problemas da comunidade.

6 Mesa Redonda do Vídeo (1952), Globo Gente (1973) são alguns exemplos de programas no formato de entrevista e debate que fizeram a história da televisão antes da década de oitenta.

7 O cenário do Roda Viva foi concebido pelos jornalistas Marcos Weinstock, que se incumbiu da formatação, Roberto de Oliveira, coordenador da programação e Valdir Zwetsch, diretor de jornalismo da emissora. Quem assina a versão atual do cenário é João Baptista da Costa Aguiar e Célio Inada.

8 Atualmente, Marília Gabriela ocupa o cargo de apresentadora do Roda Viva, no entanto, esta análise irá se referir apenas ao período em que o programa foi comandado por Paulo Markun e Lílian Witte Fibe.

9 Programa Roda Viva, edição de 1º dez. 2008.

10 Programa Roda Viva, edição de 24 nov. 2008.

11 Programa Roda Viva, edição de 8 dez. 2008.

12 Mário Novello, Programa Roda Viva, edição de 4 de set. 2006.

13 Roberto Lameirinhas, edição de 21 ago. 2006.

14 Programa Roda Viva, edição de 16 out. 2006.

15 Programa Roda Viva, edição de 24 nov. 2008.

16 No seu surgimento, eram oito os entrevistadores que compareciam ao programa. Em 2006, esse número já havia caído para seis. Em 2008, o programa reduziu o número de entrevistadores convidados para quatro por edição.

17 Edição de 21 ago. 2006.

18 Além deles, o programa contou com Vicente Adorno, comentarista de internacional da Rádio Cultura FM; Samuel Feldberg, professor de Relações Internacionais das Faculdades Rio Branco e membro do Gacint, Grupo de Análise e Conjuntura Internacional da Universidade de São Paulo; Emir Sader, sociólogo e escritor; Oscar Pilagallo, editor da revista Entrelivros.

19 A canção Roda Viva (1967), de Chico Buarque, só passou a constituir a trilha sonora do programa da TV Cultura em 2008, 21 anos após sua estreia, quando o compositor cedeu os direitos da música à emissora. Anteriormente, a vinheta de abertura contava com a assinatura musical de John Naschling. Independentemente dos direitos de uso da música na abertura, o nome do programa convoca o imaginário do telespectador, atualizando a ideia de que “o mundo roda num instante”, se transforma, se modifica e, por isso, o programa trata daquilo que é atual, o que é novo.

20 Jefferson Del Rios a Wagner Moura, edição de 29 set. 2008.

21 Oscar Pilagallo a Tariq Ali, edição de 21 ago. 2006.

22 Lílian Witte Fibe a Nicholas Stern, edição de 24 nov. 2008.

23 Paulo Markun a Mário Novello, edição de 4 set. 2006.

24 Salvador Nogueira a Mário Novello, edição de 4 set. 2006.

25 Em certas edições, o Roda Viva muda seu formato de apresentação configurando-se como uma mesa de debates. Nesses casos, não há um entrevistado no centro da arena, mas convidados com diferentes pontos de vista trocam ideias sobre um tema comum.

26 Os convidados do programa nessa edição foram: Arlindo Chinaglia, deputado federal pelo PT de São Paulo, líder do governo na Câmara; Álvaro Dias, senador pelo PSDB no Paraná; Ideli Salvatti, senadora pelo PT de Santa Catarina e líder do partido no Senado; José Carlos Aleluia, deputado federal pelo então PFL da Bahia; Eunício Oliveira, deputado federal pelo PMDB do Ceará, parte da base de apoio do governo, e Osmar Serraglio, deputado federal pelo PMDB do Paraná.

27 Não se pretende efetuar uma análise com base em gêneros jornalísticos, como postulado por José Marques de Melo (1985), mas apenas retomar outra função do jornalismo que se constituiu anteriormente ao paradigma informativo, como aponta Josenildo Guerra (2003). O que está em jogo no Roda Viva não é a dimensão panfletária do jornalismo, mas sua constituição como espaço de troca de opiniões.

28 Segundo Marialva Barbosa (2007, p. 24), o jornalismo brasileiro viveu um período semelhante na passagem do sistema de governo monárquico para a República. A autora aponta o uso de novas tecnologias de comunicação – telégrafo, linotipo, cinematógrafo etc. – como catalisador da transformação do modelo opinativo para o informativo no jornalismo brasileiro: “a opinião é, assim, gradativamente separada de uma ideia de informação isenta e, neste processo, os novos artefatos tecnológicos desempenham papel fundamental”.

29 Denomino pergunta investigativa aquela que tem como objetivo examinar as afirmações do entrevistado por meio de um contra-argumento. Normalmente ela é formulada com a oração adversativa: “mas será que […]?”. A pergunta investigativa resume o sentido de inquérito e está relacionada especialmente aos debates mais tensos.

30 Denomino “confirmação de hipóteses” as perguntas formuladas pelos jornalistas que têm como finalidade buscar a aprovação de seu ponto de vista pelo entrevistado. Normalmente, essas perguntas são formuladas como “você não acha que…?”, “diante desse quadro é possível afirmar [….]?”.

31 Programa Roda Viva.

32 Alexandre Machado, programa Roda Viva, edição de 16 out. 2006.

33 Programa Roda Viva, edição de1º dez. 2008.

34 Programa Roda Viva, edição de 21 ago. 2006.

35 A formulação da pergunta de abertura cabe, exclusivamente, ao apresentador. Ele só abdica desse papel quando é para introduzir uma pergunta dos telespectadores.

36 Programa Roda Viva, edição de 2 out. 2006.

37 Programa Roda Viva, edição de 12 jun. 2006.

38 Programa Roda Viva, edição de 12 jun. 2006.

39 A exibição da gesticulação confere maior autenticidade à conversa, pois remete às práticas da vida cotidiana.

40 Em 1º dezembro de 2007.

41 Informações do site da TV Cultura, capturado em 20 abr. 2009.

42 Programa Roda Viva, edição de 29 set. 2008.

43 Programa Roda Viva, edição de 29 set. 2008.

44 Perguntas intimistas são as que procuram levar o convidado à confissão de segredos, à partilha de emoções. Por meio de formulações como “foi difícil passar por isso?”, “o que você sentiu quando […]?”, “você tem medo?”.

45 Um exemplo disso foi a pergunta de Luiz Carlos Azedo a Heloísa Helena: – “durante, praticamente, toda sua vida política, a senhora apostou num projeto do PT, e na candidatura do presidente Lula, na eleição do presidente Lula como, vamos dizer assim, forma de viabilizar tudo isso que a senhora está defendendo hoje. E, há dois anos, houve este rompimento. Eu não acredito que tenha sido unilateral, quer dizer, a senhora não saiu, foi expulsa, mas não foi unilateral, foi expulsa porque se insubordinou à orientação do PT. Mas esse processo deve ter sido uma coisa longa, dolorosa. A senhora poderia falar um pouco disso, como foi esse rompimento, essa decepção?”. Programa Roda Viva, edição de 12 jun. 2006.

46 Valdemar Setzer, programa Roda Viva, edição de 1º dez. 2008.