Grau 26: A Origem do Mal
P R Ó L O G O | O dom
P R Ó L O G O
O dom
Roma, Itália
Omonstro havia se escondido em algum lugar da igreja e o agente compreendeu que finalmente o havia encontrado. Tirou os sapatos tão silenciosamente quanto possível e os colocou sob a mesa de madeira do vestíbulo. As solas eram de borracha, mas mesmo assim poderiam fazer ruído sobre o piso de mármore. Até aquele momento, o monstro não sabia que estava sendo seguido, ao menos pelo que o agente podia perceber.
A caçada já durava três anos. Não havia fotografias do monstro e nenhuma prova física de qualquer tipo. Capturá-lo era o mesmo que tentar pegar fumaça com as mãos. A energia da tentativa faria com que ela se dissipasse, voltando a integrar-se em algum outro lugar.
A perseguição o levara a percorrer o mundo: Alemanha, Israel, Japão, Estados Unidos. E agora ali, em Roma, numa igreja barroca do século XVII dedicada a Mater Dolorosa, ou Nossa Senhora das Dores.
O nome era adequado. O interior da igreja estava sombrio. Empunhando o revólver com as duas mãos, o agente avançava, evitando fazer barulho ao longo das paredes amareladas.
Na porta da igreja havia um letreiro informando que o templo estava fechado para reforma. O agente conhecia o suficiente a língua italiana para compreender que estavam em curso obras de restauração do afresco de quatrocentos anos da cúpula interna.
Andaimes. Penumbra. Sombras. Era um habitat natural para o monstro. Não é de surpreender que o tivesse escolhido, apesar de se tratar de um espaço sagrado de culto.
O agente chegara à conclusão de que o monstro não respeitava limite algum. Mesmo em tempos de guerra, as igrejas e templos eram considerados santuários, lugares seguros de refúgio para quem buscasse o consolo divino nas horas mais sombrias.
Passando pelos suportes metálicos da base dos andaimes, o agente tinha certeza de que o monstro estava ali. Era capaz de sentir na própria pele.
Não acreditava no sobrenatural e não se dizia possuidor de capacidade mediúnica. Porém, quanto mais perseguia o monstro, mais se sentia em sintonia com sua onda maléfica. Esse dom lhe dera uma vantagem sobre qualquer outro investigador na caçada ao monstro, mas isso tinha um preço. Quanto mais seu cérebro sintonizava a insanidade do outro, mais ele perdia o contato com a normalidade. Havia começado a suspeitar de que aquela perseguição obstinada poderia vir a causar sua própria morte, mas tratara de descartar essa ideia.
Ao ver a vítima mais recente, a poucos quarteirões dali, o agente recuperara a concentração. O espetáculo do sangue, da pele dilacerada, das vísceras fumegantes ao ar frio da noite e das gotas de gordura, como pingentes pendentes dos músculos expostos, mais tarde causariam vômitos aos primeiros observadores. Não ao agente, que se ajoelhara e sentira o fluxo estimulante da adrenalina quando tocou o cadáver com as grossas luvas de látex e percebeu que ainda estava morno.
Era sinal de que o monstro estava próximo.
O agente tinha certeza de que ele não podia estar longe; o monstro adorava esconder-se e divertir-se com as consequências de seus atos. Era sabido que chegara a aproximar-se disfarçadamente da cena do crime enquanto os policiais o amaldiçoavam.
Por isso, o agente se postou no pequeno pátio perto do cadáver e deu rédea livre aos pensamentos. Não usou lógica dedutiva, nem raciocínio inquisitivo, nem instinto, nem palpites. Em vez disso, pensou: Se eu fosse o monstro, para onde iria?
Relanceou o olhar pelos telhados, e ao ver a cúpula brilhante teve imediata certeza. Para lá. Iria para lá. Não havia a mínima dúvida em sua mente. Tudo terminaria naquela noite.
Movia-se agora silenciosamente por entre os bancos de madeira da igreja e as barras de metal dos andaimes, empunhando a pistola, com todos os sentidos em agudo estado de alerta. O monstro podia ser como a fumaça, mas até mesmo a fumaça tinha aparência, aroma e gosto.
O monstro fitava o alto da cabeça de seu perseguidor. Estava agarrado a uma das tábuas manchadas de tinta do andaime, segurando-se nas frestas entre as placas de madeira com os dedos longos e fortes das mãos e dos pés.
Quase desejava que o caçador olhasse para cima.
Muitos o haviam perseguido ao longo dos anos, porém nenhum como aquele. Aquele era especial. Diferente.
De certa forma, ele o conhecia bem.
Por isso queria olhar novamente seu rosto, em carne e osso. Não porque não conhecesse os traços de seus perseguidores. O monstro possuía muitas fotografias e filmagens de todos eles em ação, nos quintais de suas casas, abastecendo seus carros em postos de gasolina, levando os filhos a espetáculos esportivos, comprando bebidas alcoólicas. Tinha estado suficientemente perto para registrar seus cheiros, o tipo de loção que usavam após barbear-se, a marca de tequila que preferiam. Isso fazia parte de seu jogo.
Até pouco antes achava que aquele era simplesmente mais um. Aos poucos, no entanto, o perseguidor começou a surpreendê-lo, avançando como nenhum outro antes, chegando mais próximo do que todos os demais. Tão próximo que o monstro deixara de se preocupar com os outros, concentrando-se nas fotos que tinha daquele, observando-as e procurando descobrir quais seriam seus pontos vulneráveis. Uma foto, no entanto, não era o mesmo que uma figura da vida real. O monstro queria estudar o rosto daquele agente enquanto ainda respirava, perscrutava o ambiente e enchia as narinas com os aromas a seu redor.
Depois, ele o mataria.
O agente olhou para cima. Era capaz de jurar que tinha visto algo movendo-se lá no alto, nas sombras dos andaimes.
A cúpula acima dele representava um estranho capricho da arquitetura do século XVII. Era adornada com dezenas de janelas de vidro colorido que recolhiam toda a luz externa e a lançavam ao ponto mais alto da cúpula, como se exaltassem Deus com seu próprio fulgor. À plena luz do sol seria fascinante. Naquela noite, a lua cheia conferia às vidraças um brilho fantasmagórico, mas tudo o que ficava abaixo da cúpula, a partir da abóbada, estava envolto em sombras dramáticas. Era um lembrete perfeito do lugar que o homem ocupa no universo — embaixo, na penumbra do desconhecido.
A cúpula ostentava como adorno um panorama celestial, com querubins flutuantes, arautos e nuvens, como uma tentação ainda maior para os seres humanos.
Espere.
Com o canto do olho, o agente percebeu um fio de luz branca perpassando e o leve ruído de algo que parecia borracha.
Lá. Próximo ao altar.
Esse caçador é bom de verdade, pensou o monstro em seu novo esconderijo. Venha me buscar. Venha, deixe-me ver seu rosto antes que eu o arranque de seu crânio.
*
O silêncio era tão absoluto, que parecia a pulsação, algo vivo, que envolvia a igreja. O agente se movia com rapidez, tateando com as mãos, subindo pelo andaime tão silenciosamente quanto possível, com a arma enfiada na cartucheira aberta a tiracolo, pronta para ser empunhada em um segundo. A madeira era áspera e cheia de farpas sob seus dedos que apalpavam; sentia os restos de poeira e aço sobre as traves.
Lentamente ele se esgueirou subindo mais uma plataforma, cada vez mais alto, procurando algum reflexo ou indício do monstro, mas havia muito pouca luz. Respirando com rapidez ergueu o corpo até mais um nível, procurando desesperadamente espreitar além do limite da tábua, expondo a cabeça e o pescoço ao desconhecido. Se pudesse enxergar...
Estou vendo você, pensou o monstro. Você me vê?
Foi então que ele o viu.
Pela primeira vez o agente viu o rosto do monstro. Dois olhos que pareciam contas o miravam em uma face sem expressão, como se alguém tivesse apagado com um ferro quente as características de sua fisionomia... exceto os olhos.
Em seguida o vulto desapareceu, escalando rapidamente a extremidade do andaime, como uma aranha que subisse por um fio de sua teia.
O agente deixou de lado a prudência. Perseguiu o monstro com uma rapidez que o surpreendeu, erguendo-se pelas traves do andaime e as extremidades das tábuas como se estivesse se exercitando em algum curso do FBI na Virgínia.
Lá estava ele novamente — um membro pálido passando pelo lado externo de uma plataforma, dois níveis acima do dele.
O agente subiu com mais vigor, mais depressa, mais freneticamente. O monstro se aproximava da cúpula celeste. Ali, porém, não havia saída. Não havia por onde escapar, a não ser ao nível do chão.
Pela primeira vez em muitas décadas o monstro sentiu medo de verdade. De que maneira o caçador o havia descoberto? Como podia ser tão destemido a ponto de segui-lo até aquela altura?
A expressão fisionômica do caçador era diferente agora. Não era um simples policial encarregado de assegurar o respeito à lei que seguira seu instinto e aproveitava um lance de sorte. O monstro teria estremecido de excitação caso não houvesse reduzido a velocidade de sua subida.
Durante um momento de glória o monstro ficou sem saber o que aconteceria em seguida. Recordou-se dos tempos de infância. Bastavam alguns gramas de pressão no gatilho do caçador e a trajetória correta poderia significar o fim. O monstro podia ter muitos recursos, mas não era imune às balas.
Vai acabar tudo aqui? Vai ser você o autor de minha morte?
O agente o encurralara.
Sentiu a tábua estremecer acima dele, no último degrau do andaime abaixo da cúpula. O agente passou pelas duas últimas traves horizontais. Empunhou a arma.
Ali estava ele, deitado na plataforma mais alta. Passou-se um momento em que o agente fitou na penumbra os olhos do monstro e este por sua vez o encarou. O que passou entre eles durou o tempo de uma pulsação do coração, impossivelmente curto e no entanto inconfundível — o reconhecimento primitivo entre o caçador e sua presa no momento do clímax, quando um dos dois canta vitória e o outro se deixa cair morto.
O agente disparou dois tiros, mas não saiu sangue. O monstro parecia ter explodido.
Bastou uma fração de segundo para que o policial reconhecesse o som do vidro estilhaçado e entendesse que tinha atirado contra um espelho, sem dúvida colocado ali para auxiliar os peritos nas tarefas de restauração. Aquele erro poderia ter sido fatal. Mas ao virar-se para atirar novamente já sabia que o monstro não estaria mais ali; ouviu-o quebrar uma das janelas de vidro e escapar para o telhado da igreja. Houve uma chuva de estilhaços coloridos, ferindo-o abaixo de um dos olhos, mas ele ergueu a arma e disparou a esmo pela abertura da janela. A bala se perdeu, subindo para o céu. Ouviu-se um ruído de passos rápidos correndo pela face externa da cúpula... e depois mais nada.
O agente desceu às pressas a estrutura do andaime, mas no íntimo sabia que era inútil. O monstro estava à solta nos telhados de Roma, uma nuvem invisível de fumaça subindo e desaparecendo, deixando somente um rastro leve e persistente para mostrar que estivera ali.