Grau 26: A Origem do Mal
P R I M E I R A P A R T E | O homem vestido de assassino
P R I M E I R A P A R T E
O homem vestido
de assassino
Dois anos depois
Capítulo 1
Algum lugar nos Estados Unidos / Quarto de costura Sexta-feira / 21 horas.
Ohomem de rosto anguloso, esquálido como um fantasma, a quem o FBI dera o nome de “Sqweegel”, trabalhava febrilmente na máquina de costura que tinha sido da avó. O farfalhar obsessivo trovejava no pequeno quarto do segundo andar.
Tchac-tcha-tchac-tchac-tchac-tchac-CHAC-CHAC.
TCHAC.
TCHAC.
TCHAC.
Com o pé descalço e pequeno, Sqweegel apertava o pedal. Tinha as unhas dos pés feitas, assim como as das mãos. Uma luminária de mesa lhe iluminava o rosto de expressão decidida. Com as mãos delicadas ele empurrava o tecido, dirigindo o pano em torno do zíper para a cabeça de metal que vibrava, aplicando as costuras. Tinha de fazer aquilo da maneira correta.
Não, nada disso.
Tinha de ser perfeito.
As peças esquentadas da máquina faziam com que o cômodo cheirasse a queimado; o sangue tinha odor de moedas de um centavo.
O tecido ainda tinha manchas escuras de sangue parcialmente seco. Era um pano resistente, mas não indestrutível. O zíper tinha se engastado em alguma aresta bem pontiaguda que produzira um rasgão no pano preto ligado ao restante da roupa de látex. Não houve perda de sangue; no máximo um arranhão em poucas camadas de epiderme. Mesmo assim, aquilo era demais. Ele retirara o isqueiro da bolsa de instrumentos e aproximara a chama ao metal até desaparecerem quaisquer células de pele ainda presas ali. Não devia deixar nada seu. Depois voltaria para casa.
Agora estava consertando o rasgão.
Aquilo o havia preocupado durante todo o trajeto até sua casa, ao vir do apartamento da prostituta nos arredores da cidade. Antes de guardá-lo em seu estojo, Sqweegel tinha tentado recolocar o pedaço de pano em seu lugar, mas sem sucesso. Fechou o estojo e procurou esquecer aquilo. Impossível. Via em sua imaginação o pequeno trapo desfiado pendente da roupa, como uma bandeira negra congelada em uma lua sem atmosfera. Pensando naquilo quase encostou o carro na margem da estrada para poder abrir a mala e ajustar o pano.
Resistiu ao impulso de fazê-lo. Sabia que era uma tolice e sabia que em breve estaria em casa.
Tão logo fechou a porta da frente atrás de si, Sqweegel levou a roupa para o quarto de costura. Era preciso tratar daquilo imediatamente.
Sqweegel usou a máquina da avó porque ela funcionava perfeitamente, tal como no dia em que fora encomendada pelo catálogo da Sears Roebuck de 1956. Era marca Kenmore, modelo 58, e tinha custado 89,95 dólares. Costurava para a frente e para trás, com uma lâmpada embutida. Era apenas necessário azeitar as partes móveis do maquinismo e limpar bem o exterior de vez em quando. Tendo cuidado, tudo podia durar para sempre.
Como a roupa.
O pé pequeno fez parar a máquina. A cabeça metálica se imobilizou completamente ao fim do ciclo. Ele se curvou até aproximar bem os olhos do tecido, admirando o resultado de seu trabalho.
Muito bem.
O rasgão não existia mais.
Agora era hora de lavar todo aquele sangue sujo da prostituta.