Hellraiser: Renascido do Inferno
Capítulo X
1
Kirsty acordou numa borrasca — ou tal foi sua impressão. Sobre ela, uma perfeita branquidão, neve sobre neve. Ela estava afundada na neve, repousando na neve. A branquidão era revoltante. Parecia preencher sua garganta e seus olhos.
Ela levantou as mãos diante do rosto; elas cheiravam a um sabonete desconhecido, cujo perfume era forte. Agora, o foco começava a aparecer: as paredes, os lençóis imaculados, a medicação ao lado da cama. Um hospital.
Ela chamou por ajuda. Horas ou minutos depois, ela não saberia dizer, a ajuda chegou na forma de uma enfermeira que apenas disse “Oh, você acordou” e foi buscar seus superiores.
Quando eles vieram, Kirsty não lhes disse nada. Ela decidira no tempo decorrido entre o desaparecimento da enfermeira e o surgimento dos médicos que aquela era uma história que não estava pronta para contar. Amanhã (talvez) ela poderia encontrar palavras para convencê-los do que havia visto. Mas hoje? Se tentasse explicar, eles colocariam a mão na testa dela e diriam que tudo não passara de delírios, tentando convencê-la de que tivera uma alucinação. Se ela insistisse, eles provavelmente a sedariam, o que pioraria tudo. O que Kirsty precisava era de tempo para pensar.
Tudo isso ela concluíra antes da chegada deles, de modo que quando perguntaram a ela o que havia acontecido, as mentiras estavam prontas. Tudo estava enevoado, ela disse a eles; ela mal conseguia lembrar-se do próprio nome. Eles asseguraram que no tempo devido ela se recordaria de tudo, ao que ela respondeu mansamente que assim esperava. Pediram que descansasse e ela disse que ficaria feliz de fazer justamente isso e bocejou. Então eles foram embora.
— Ah, sim… — disse um deles, quando estava prestes a sair. — Eu esqueci…
Ele tirou a caixa de Frank do bolso.
— Você estava segurando isto quando foi encontrada — disse. — Tivemos um trabalho dos diabos pra tirar da sua mão. Significa alguma coisa pra você?
Ela disse que não.
— A polícia deu uma olhada. Tinha sangue nela, sabe? Talvez fosse seu, talvez não.
Ele se aproximou do leito.
— Você a quer? — perguntou a ela. — Já foi limpa.
— Sim — Kirsty respondeu. — Por favor.
— Pode ajudar sua memória — ele disse, colocando a caixa na mesinha de cabeceira.
2
— O que vamos fazer? — Julia perguntou pela centésima vez. O homem no canto não disse nada e seu rosto também não entregava qualquer sinal interpretável. Ela prosseguiu. — E o que você queria com ela? Você estragou tudo.
— Estraguei? — disse o monstro. — Você não sabe o que “estragar” quer dizer.
Ela engoliu a raiva. O silêncio dele a tinha enervado.
— Temos de ir embora, Frank — ela observou num tom mais suave. Ele a encarou com olhos frios como gelo.
— Virão atrás de nós. Ela vai contar tudo.
— Talvez…
— Você não se importa? — ela questionou. A massa disforme cheia de bandagens deu de ombros.
— Sim — ele respondeu. — Claro que me importo. Mas não podemos partir, amor.
Amor. A palavra zombava de ambos, um resfolego sentimental numa sala que só conhecera dor.
— Não posso encarar o mundo desta forma — ele apontou para o próprio rosto. — Posso? — Frank a observou, antes de prosseguir. — Olhe para mim.
Julia olhou.
— Posso?
— Não.
— Não — ele voltou a estudar o chão. — Preciso de uma pele, Julia.
— Uma pele?
— Então, talvez… talvez a gente possa ir dançar juntos. Não é isso que você quer?
Ele falava sobre dança e morte com a mesma indiferença, como se uma tivesse tão pouco significado quanto a outra. Ouvi-lo falar daquela maneira a acalmou.
— Como? — Julia perguntou, enfim. Ela queria dizer como uma pele pode ser roubada, mas também queria dizer como sua sanidade sobreviveria.
— Há maneiras — disse o rosto esfolado e, então, soprou-lhe um beijo.
3
Se não fosse pelas paredes brancas, talvez Kirsty nunca tivesse apanhado a caixa. Se houvesse um quadro para olhar — um vaso com margaridas ou pirâmides — qualquer coisa que quebrasse a monotonia do cômodo, ela teria ficado feliz de olhar e pensar. Mas o branco sem fim era demais; ela não dava a Kirsty controle sobre a própria sanidade. Então, ela estendeu o braço e apanhou a caixa.
Era mais pesada do que se lembrava. Ela teve de sentar-se na cama para examiná-la. Havia pouco para ver. Nenhuma tampa que ela tenha conseguido encontrar. Nenhuma fechadura. Nenhuma dobradiça. Ela a girou uma vez sobre o eixo, mas poderia tê-la girado cem vezes, sem encontrar pistas de como abri-la. Ela não era sólida, disso Kirsty estava certa, então, a lógica exigia que houvesse uma maneira de abri-la.
Ela deu umas batidinhas, sacudiu, puxou e apertou, tudo sem resultado. Foi só depois que rolou na cama e a examinou na luz plena do abajur, que descobriu uma pequena pista de como a caixa fora construída. Havia rachaduras infinitesimais nas laterais da caixa, onde uma peça do quebra-cabeça se encaixava na seguinte. Elas poderiam se passar por invisíveis, mas resíduos de sangue tinham permanecido numa delas, traçando a complexa relação entre as partes.
De forma sistemática, ela começou a sentir as laterais, testando sua hipótese ao puxar e empurrar novamente. As rachaduras ofereciam uma geografia geral do brinquedo; sem elas, Kirsty poderia ter vagado pelos seis lados para sempre. Mas as opções foram reduzidas de modo significativo pelas pistas que encontrara; havia um número limitado de formas pelas quais a caixa poderia se abrir.
Após um tempo, a paciência dela foi recompensada. Um clique e, súbito, um dos compartimentos deslizou da lateral de seus vizinhos laqueados. Dentro, havia beleza. Superfícies polidas que cintilavam como madrepérola, sombras coloridas pareciam se mover no brilho.
Também havia música; um tom simples que saiu do interior da caixa, tocado por um mecanismo que ela ainda não conseguia ver. Encantada, Kirsty desenvolveu ainda mais; embora uma peça tivesse sido removida, as demais não saíram. Cada segmento apresentava um novo desafio para os dedos e a mente; as vitórias recompensadas por uma nova filigrana adicionada ao tom.
Ela estava mexendo na quarta parte, fazendo uma série elaborada de volta e contravoltas, quando escutou o sino. Parou a labuta e olhou para cima.
Algo estava errado. Ou seus olhos cansados estavam pregando-lhe truques ou as paredes brancas haviam sutilmente se modificado. Ela largou a caixa e escorregou da cama para ir até a janela. O sino ainda soava; um toque solene. Ela afastou a cortina algumas polegadas. Estava de noite e ventando. Folhas migravam ao longo do gramado do hospital; mariposas congregavam em volta das lâmpadas. Por mais improvável que fosse, o som do sino não estava vindo de fora. Vinha de trás dela. Kirsty largou a cortina e virou-se de frente para o quarto.
Assim que o fez, a lâmpada ao lado da cama queimou como uma chama viva. Instintivamente, ela buscou as peças da caixa; elas e aqueles estranhos eventos estavam de algum modo, interligados. Assim que a mão dela encontrou os fragmentos a luz se apagou.
Contudo, ela não foi deixada nas trevas, nem tampouco estava sozinha. Havia uma suave fosforescência no pé da cama e, nas suas ondulações, uma figura. A condição da sua pele empobreceu a imaginação de Kirsty — os ganchos, as cicatrizes. Contudo, sua voz, quando ela falou, não foi a de uma criatura em dor.
— Ela se chama a Configuração de Lemarchand — disse, apontando para a caixa. Kirsty olhou para baixo; as peças não estavam mais na sua mão, mas flutuando algumas polegadas acima da palma. De forma milagrosa, a caixa estava remontando a si própria sem ajuda visível; as peças deslizando para se rejuntarem, enquanto todo o construto virava de um lado para o outro. Conforme o fazia, Kirsty pareceu captar novos vislumbres do interior polido e achou ter visto rostos espectrais — distorcidos como que pela dor ou um vidro ruim — uivando para ela. Então, todos os fragmentos foram selados, com exceção de um e o visitante voltou a chamar a atenção dela.
— A caixa é uma maneira de quebrar a superfície do real — explicou. — Um tipo de invocação por meio da qual nós, os Cenobitas, somos notificados…
— Quem? — ela perguntou.
— Você o fez na ignorância — o visitante afirmou. — Estou certo?
— Sim.
— Já aconteceu antes — foi a resposta. — Mas não faz diferença. Não há como fechar a Cisão até que nós apanhemos o que nos pertence…
— Isto é um erro — disse Kirsty.
— Não tente lutar. Isto está além do seu controle. Você tem de me acompanhar.
Ela balançou a cabeça. Ela já tivera pesadelos para atormentá-la por toda uma vida.
— Não vou com você — afirmou. — Maldito seja. Não vou mesmo…
Enquanto falava, a porta se abriu. Uma enfermeira que ela não reconheceu — provavelmente do turno da noite — estava parada ali.
— Você chamou? — ela perguntou.
Kirsty olhou para o Cenobita e novamente para a enfermeira. Eles estavam a não mais que um metro um do outro.
— Ela não me enxerga — ele explicou — nem me escuta. Eu pertenço a você, Kirsty. E você a mim.
— Não — ela disse.
— Tem certeza? — confirmou a enfermeira. — Achei ter ouvido…
Kirsty balançou a cabeça. Aquilo era loucura, uma loucura.
— Você devia estar dormindo — a enfermeira esbravejou. — Vai ficar resfriada.
O Cenobita riu.
— Vou voltar daqui a cinco minutos — completou a enfermeira. — Por favor, volte a dormir.
E ela foi embora.
— É melhor irmos — ele disse. — Deixe-os com sua mixórdia, não? Estes lugares são tão deprimentes.
— Você não pode fazer isso — insistiu Kirsty.
Apesar disso, ele foi na direção dela. Uma fileira de pequenos sinos pendurados no pescoço descarnado soou conforme ele se aproximou. O fedor fez com que ela quisesse vomitar.
— Espere — ela disse.
— Sem lágrimas, por favor. É um verdadeiro desperdício de bom sofrimento.
— A caixa… — ela disse, desesperada. — Não quer saber onde consegui a caixa?
— Não particularmente.
— Frank Cotton — ela revelou. — O nome diz algo a você? Frank Cotton?
O Cenobita sorriu:
— Ah, sim. Conhecemos Frank.
— Ele também resolveu a caixa, estou certa?
— Ele queria prazer, até que o demos a ele. Então, ele se contorceu.
— Se eu levar você até ele…
— Então… ele está vivo?
— Sim, muito vivo.
— E o que você está propondo? Que eu o apanhe de volta no seu lugar?
— Sim, sim. Por que não? Sim.
O Cenobita afastou-se dela. O quarto deu um suspiro.
— Estou tentado — ele disse. — Mas talvez você esteja me enganando. Talvez seja só uma mentira para que consiga mais tempo.
— Pelo amor de Deus, eu sei onde ele está — ela bradou. — Ele fez isto comigo!
Ela mostrou as lacerações nos braços para o exame dele.
— Se estiver mentindo — ele ameaçou — se estiver tentando escapar disto…
— Eu não estou.
— Então, entregue-o vivo para nós…
Ela quase chorou de alívio.
— …faça com que ele confesse. E, quem sabe, não despedaçaremos a sua alma.