Hellraiser: Renascido do Inferno
Capítulo XI
1
Rory ficou parado no corredor e olhou para Julia, sua Julia, a mulher que outrora ele jurara ser fiel e cuidar até que a morte os separasse. Na época, não parecia uma promessa tão difícil de ser mantida. Ele a idolatrara desde sempre, sonhando com ela à noite e passando o dia compondo poemas de amor de selvagem inaptidão sobre ela. Mas as coisas tinham mudado e ele descobrira, conforme a observara mudar, que os maiores tormentos costumam ser os mais sutis. Em tempos recentes, houve ocasiões em que ele preferiria ser pisoteado por cavalos selvagens a sentir aquela suspeita ansiosa que degradara tanto sua alegria.
Agora, enquanto a encarava, era impossível sequer recordar-se do quanto as coisas já haviam sido boas. Tudo era dúvida e imundície.
Mas uma coisa o alegrava: ela parecia perturbada. Talvez aquilo quisesse dizer que havia uma confissão a ser feita, indiscrições que ela colocaria para fora e pelas quais ele a perdoaria num arroubo de lágrimas e compreensão.
— Você parece triste — disse Rory.
Ela hesitou, mas disse a seguir:
— Está difícil, Rory.
— O que foi?
Ela parecia querer desistir antes mesmo de ter começado.
— O que foi? — ele insistiu.
— Tem tanta coisa que preciso contar a você.
Ele viu a mão dela apertar o corrimão tão forte que as juntas ficaram brancas.
— Estou escutando — ele disse. Ele voltaria a amá-la se ela fosse sincera — Pode falar comigo…
— Acho que, talvez… talvez fosse mais fácil se eu mostrasse a você… — após dizer isso, ela o levou para o andar de cima.
2
O vento que varria as ruas não era quente, a julgar pela forma que os pedestres subiam a gola e abaixavam o rosto. Mas Kirsty não sentiu o frescor. Seria a companhia invisível dela que a impedia de sentir frio, protegendo-a com aquele fogo que os Antigos conjuravam para queimar os pecadores? Ou isso ou ela estava apavorada demais para sentir qualquer coisa.
Mas, na verdade, não era assim que se sentia; ela não estava apavorada. O sentimento nas suas entranhas era bem mais ambíguo. Ela abrira uma porta — a mesma que o irmão de Rory tinha aberto — e agora, caminhava ao lado de demônios. E, no final da sua jornada, se vingaria. Ela encontraria a coisa que a tinha ferido e atormentado, e a faria sentir a impotência que ela própria sofrera. Ela o assistiria se contorcer e apreciaria. A dor havia transformado Kirsty numa sádica.
Ao chegar à Lodovico Street, olhou ao redor em busca de algum sinal do Cenobita, mas não havia ninguém à vista. Sem se deixar intimidar, ela aproximou-se da casa. Não tinha qualquer plano em mente; havia variáveis demais a serem julgadas. Pra começo de conversa, Julia estaria presente? Se sim, de que forma estava envolvida em tudo aquilo? Era impossível crer que ela fosse uma espectadora inocente, mas, quem sabe, tivesse agido por medo de Frank; os minutos seguintes poderiam fornecer as respostas. Kirsty tocou a campainha e aguardou.
A porta foi aberta por Julia. Em sua mão, trazia um laço branco.
— Kirsty — ela disse, aparentemente imperturbável pela visita — Já está tarde…
— Onde está Rory? — foram as primeiras palavras de Kirsty. Elas acabaram não sendo bem o que pretendia, mas saíram espontaneamente.
— Ele está aqui — Julia respondeu calmamente, como se buscasse acalmar uma criança maníaca. — Tem algo de errado?
— Queria vê-lo — Kirsty respondeu.
— Rory?
— Sim…
Ela foi até a soleira sem esperar um convite. Julia não fez objeções, mas fechou a porta atrás dela. Somente então Kirsty sentiu o frio. Ela ficou parada no saguão e estremeceu.
— Você está com uma aparência terrível — disse Julia.
— Eu estava aqui esta tarde — Kirsty vomitou. — Vi o que aconteceu, Julia. Eu vi…
— O que havia pra ver? — foi a resposta; a pose de Julia não se alterou.
— Você sabe.
— Não sei mesmo.
— Eu quero falar com Rory…
— Tá bom — Julia assentiu. — Mas pegue leve com ele. Rory não está se sentindo muito bem.
Ela levou Kirsty até a sala de jantar. Rory estava sentado à mesa; segurava uma taça de vinho, com a garrafa ao lado. Sobre uma cadeira adjacente, estava o vestido de casamento de Julia. A visão dele trouxe o reconhecimento imediato do laço na mão da anfitriã; era o véu da noiva.
Rory parecia ferido. Havia sangue seco em seu rosto e na linha dos cabelos. O sorriso que ele deu foi cálido, porém fatigado.
— O que aconteceu…? — ela perguntou.
— Está tudo bem agora, Kirsty — ele respondeu. Sua voz era pouco mais do que um sussurro. — Julia contou-me tudo… e está tudo bem.
— Não — ela disse, sabendo que ele não poderia ter conhecimento de toda a história.
— Você veio aqui esta tarde.
— Isso mesmo.
— Foi uma pena.
— Você… você pediu que eu viesse… — ela olhou para Julia, que estava de pé na porta, então olhou de volta para Rory. — Eu fiz o que me pediu.
— Sim, eu sei. Só sinto que tenha sido arrastada para este negócio horrível.
— Você sabe o que seu irmão fez? — ela perguntou. — Sabe o que ele invocou?
— Sei o suficiente — Rory respondeu. — Mas o importante é que tudo está acabado agora.
— O que quer dizer?
— O que quer que ele tenha feito a você, eu vou compensar…
— O que quer dizer com “acabado”?
— Ele está morto, Kirsty.
(“…entregue-o vivo para nós e, quem sabe, não despedaçaremos a sua alma.”)
— Morto?
— Nós o destruímos, Julia e eu. Não foi tão difícil. Ele achou que poderia confiar em mim, achou que o sangue fosse mais denso que a água. Bem, não é. Eu não poderia deixar que um homem como ele vivesse…
Ela sentiu algo fisgar na sua barriga. Será que os Cenobitas já tinham metido seus ganchos nela, derramando suas entranhas no chão?
— Você foi muito gentil, Kirsty, arriscando-se a voltar aqui…
(Havia algo atrás do ombro dela. “Dê-me sua alma”, a coisa falou.)
— Assim que me sentir um pouco mais forte, vou às autoridades. Dar um jeito de fazer com que compreendam…
— Você o matou? — ela perguntou.
— Sim.
— Eu não acredito — murmurou Kirsty.
— Leve-a lá pra cima — Rory falou para Julia. — Mostre a ela.
— Você quer ver? — Julia inquiriu. Kirsty acenou com a cabeça e a seguiu.
Estava mais quente no corredor do que lá embaixo, e o ar parecia gorduroso e cinza, como água de louça suja.
A porta do quarto de Frank estava entreaberta. A coisa que estava deitada no assoalho num emaranhado de bandagens rasgadas ainda fumegava. O pescoço havia claramente sido quebrado, a cabeça torta sobre os ombros. Ele estava sem pele da cabeça aos pés.
Kirsty desviou o olhar, nauseada.
— Satisfeita? — perguntou Julia.
Kirsty não respondeu, mas saiu do cômodo para o corredor. Sobre os ombros dela, o ar estava irrequieto.
(“Você perdeu”, algo disse próximo a ela. “Eu sei”, ela murmurou.)
O sino começou a soar, com certeza chamando-a; e ouviu-se um rebuliço de asas próximo dali, um desfile de aves carniceiras. Ela desceu as escadas correndo, rezando para que não fosse levada antes de chegar à porta. Se fossem arrancar a cabeça dela, que Rory fosse poupado da visão. Que ele se lembrasse dela forte, com um sorriso nos lábios e não súplicas. Atrás dela, Julia perguntou:
— Aonde você está indo?
Quando não houve resposta, ela a seguiu, falando:
— Não diga nada a ninguém, Kirsty. Podemos lidar com isso, Rory e eu…
A voz dela afastou Rory de seu drinque. Ele apareceu no corredor. Os ferimentos feitos por Frank pareciam mais severos do que Kirsty pensara a primeira vista. O rosto dele sofrera dúzias de hematomas e a pele do pescoço parecia arada. Quando os dois ficaram lado a lado, ele segurou-a pelo braço.
— Julia tem razão. Deixe com a gente para relatar isso, certo?
Havia tantas coisas que ela queria contar a ele naquele momento, mas o tempo não permitia. O sino estava ficando mais alto dentro da sua cabeça. Alguém havia anelado as entranhas ao redor do pescoço dela e apertava o nó.
— É tarde demais… — ela murmurou para Rory, libertando-se da mão dele.
— O que você quer dizer? — ele perguntou, vendo-a cobrir os poucos metros até a porta. — Não vá embora, Kirsty. Ainda não. Explique o que quer dizer.
Ela não conseguiu evitar dar uma última olhadela para ele, na esperança de que ele percebesse, no rosto dela, todos os arrependimentos que ela sentia.
— Está tudo bem — ele disse com suavidade, ainda na esperança de acalmá-la. — De verdade — então, abriu os braços e falou: — Venha para o papai.
A frase não pareceu correta saindo da boca de Rory. Alguns garotos não nasceram para ser pais, não importa quantos filhos tenham.
Kirsty se apoiou na parede para firmar-se.
Não era Rory quem conversava com ela. Era Frank. De algum modo, era Frank…
Ela apegou-se ao pensamento em meio aos sinos badalando tão alto, que parecia que seu crânio racharia ao meio. Rory ainda sorria para ela, os braços abertos. Ele continuava falando, mas ela não escutava mais o que dizia. A carne macia do rosto dele moldava as palavras, mas os sinos as afogavam. Ela ficou grata pelo fato; facilitou para que desafiasse a evidência que tinha diante dos seus olhos.
— Eu sei quem você é… — Kirsty falou de súbito, incerta de suas palavras serem audíveis ou não, mas indiscutivelmente segura de serem verdadeiras. O cadáver de Rory estava lá em cima, deixado para apodrecer em meio às bandagens de Frank. A pele usurpada estava agora casada ao corpo do irmão, o matrimônio selado com a concessão do sangue. Sim! Era isso.
Os nós em volta do pescoço dela apertavam; levaria apenas alguns instantes até que eles a arrastassem. Em pânico, ela virou-se e foi na direção da coisa que tinha o rosto de Rory.
— É você… — ela disse.
O rosto sorriu para ela, sem consternação alguma.
Ela o golpeou. Surpreso, ele deu um passo para trás para evitar o toque dela, movendo-se com uma preguiça graciosa, mas, de algum modo, ainda assim conseguindo evitá-la. Os sinos eram intoleráveis; eles estavam esmagando os pensamentos de Kirsty, transformando os tecidos do cérebro em pó. À beira da insanidade, ela investiu de novo e de novo contra ele, mas desta vez, a coisa não conseguiu desviar. As unhas arrancaram a carne da bochecha dele; a pele, recentemente enxertada, rasgou como seda. A carne manchada de sangue debaixo dela ficou horrivelmente à vista.
Atrás dela, Julia gritou.
E, de repente, os sinos não estavam mais dentro da cabeça de Kirsty. Eles estavam na casa, no mundo.
As luzes do corredor incandesceram e a seguir apagaram, com seus filamentos sobrecarregados. Houve um período curto de escuridão total, durante o qual ela escutou um choro que pode ou não ter saído dos seus próprios lábios. Então, foi como se fogos de artifício ganhassem vida dentro das paredes e do chão. O saguão dançou. Num momento um matadouro (as paredes ficando escarlates), no seguinte, um quarto feminino (pó azul, amarelo canário); então, um túnel como o de um trem fantasma — tudo velocidade e fogo súbito.
Pela luz de um clarão, ela viu Frank mover-se em sua direção. O rosto descartado de Rory pendurado na mandíbula. Ela evitou o braço que a buscava e se agachou até chegar à sala da frente. Percebeu que o aperto em seu pescoço tinha relaxado, aparentemente, os Cenobitas tinham se dado conta do engano. Eles logo interfeririam, com certeza, e dariam um fim àquela farsa de identidades trocadas. Mas ela não queria mais esperar para ver Frank ser clamado; para ela, aquilo já era o bastante. Em vez disso, pensou em fugir da casa pela porta dos fundos e deixar tudo por conta deles.
O otimismo teve vida curta. Os fogos de artifício no corredor lançaram alguma luz à frente dela, na sala de estar, o bastante para ver que esta já se encontrava enfeitiçada. Havia algo se movendo no chão, como cinzas sopradas pelo vento, e correntes pinoteando no ar. Kirsty podia ser inocente, mas as forças libertas ali eram indiferentes a tais trivialidades; ela sentiu que dar mais um passo seria um convite às atrocidades.
A hesitação de Kirsty a pôs de novo ao alcance de Frank, mas ao que ele a agarrava, os fogos de artifício esmoreceram, dando a ela chance de fugir novamente e se ocultar nas trevas. O respiro foi breve. As luzes já se renovavam no saguão e ele voltou a persegui-la, bloqueando a passagem pela porta da frente.
Por que eles não o clamavam, pelo amor de Deus? Ela não os trouxera até ali conforme prometido e o desmascarara?
Frank abriu seu casaco. No cinto, havia uma faca ensanguentada, sem dúvida afiada. Ele a sacou e apontou para Kirsty.
— De agora em diante — disse, enquanto a perseguia — eu serei Rory.
Ela não tinha escolha, senão afastar-se dele, deixando a porta (a fuga, a sanidade) mais longe a cada passo.
— Você entendeu? Eu sou Rory agora. E ninguém jamais poderá dizer o oposto.
O calcanhar dela chegou ao fundo das escadas e, súbito, outras mãos estavam sobre seu corpo, alcançando-a através do corrimão e agarrando cachos de cabelo. Ela virou a cabeça para olhar para cima. Claro que era Julia, o rosto sem energia, toda a paixão consumida. Ela puxou a cabeça de Kirsty para trás, expondo o pescoço no instante em que a lâmina de Frank reluzia na direção dele.
No último momento, Kirsty levantou o braço acima da cabeça e segurou o braço de Julia, derrubando-a de seu posto, no terceiro ou quarto degrau. Perdendo o equilíbrio e a pegada na vítima, Julia deu um grito e caiu, seu corpo ficando entre Kirsty e o golpe de Frank. A lâmina estava próxima demais para ser evitada; ela entrou na lateral de Julia até o cabo. Ela gemeu, então cambaleou pelo saguão, com a faca enterrada dentro de si.
Frank mal pareceu notar. Seus olhos voltaram-se para Kirsty mais uma vez e brilharam com um apetite horrendo. Ela não tinha para onde ir, senão para cima. Os fogos de artifício ainda explodiam, os sinos ainda tocavam, enquanto ela começou a subir as escadas.
Kirsty percebeu que seu atormentador não veio persegui-la de imediato. As súplicas de Julia por ajuda haviam divergido a atenção dele para onde ela estava, na metade do caminho entre as escadas e a porta da frente. Ele arrancou a faca da lateral do corpo dela. Julia deu um grito de dor e, como se fosse ajudá-la, ele sentou-se ao lado de seu corpo. Ela ergueu o braço na direção dele, procurando carinho. Em resposta, ele passou a mão atrás da cabeça dela e a trouxe sobre seu colo. Quando o rosto de ambos ficou a poucos centímetros de distância, Julia pareceu perceber que as intenções de Frank estavam longe de honrosas. Ela abriu a boca para gritar, mas ele selou os lábios dela com os dele e começou a se alimentar. Ela chutou e arranhou o ar, em vão.
Desviando os olhos daquela depravação, Kirsty subiu até o topo das escadas.
O andar de cima não oferecia nenhum lugar real para se esconder, claro, e também não trazia rota de fuga, exceto um salto de uma das janelas. Mas, tendo visto o conforto frio que Frank dera à amante, saltar com certeza era uma opção preferível. A queda poderia quebrar todos os ossos do corpo de Kirsty, mas, pelo menos, privaria o monstro da sua sustância.
Os fogos de artifício enfraqueceram, mergulhando o corredor na mais pura treva. Em vez de andar, ela cambaleou por ele, as pontas dos dedos tocando a parede.
Lá embaixo, tornou a escutar Frank mover-se. Ele tinha acabado com Julia.
Agora, enquanto começava a subir, pronunciava o mesmo convite incestuoso…
— Venha para o papai.
Kirsty refletiu que os Cenobitas provavelmente estavam assistindo àquela perseguição com entusiasmo e não agiriam até que restasse somente um jogador: Frank. Ela era uma prenda para o prazer deles.
— Bastardos… — falou, na esperança de que escutassem.
Ela havia chegado quase ao fim do corredor. À sua frente, estava o quarto usado para depósito. Será que ele possuía uma janela grande o bastante para que ela passasse? Se sim, ela saltaria e amaldiçoaria todos eles durante a queda — amaldiçoaria todos. Deus, o Demônio e o que quer que estivesse entre os dois; os amaldiçoaria enquanto caía, esperando apenas que o concreto acabasse rápido com ela.
Frank voltou a chamá-la, quase no topo das escadas. Ela girou a chave na fechadura, abriu o quarto de depósito e entrou.
Sim, havia uma janela. Ela não tinha cortinas e a luz da Lua a atravessava em feixes de indecente beleza, iluminando o caos de caixas e móveis. Ela atravessou a confusão para alcançar a janela. Estava aberta um ou dois centímetros para arejar o cômodo. Kirsty colocou os dedos na moldura e tentou erguê-la o suficiente para que pudesse atravessar, mas a estrutura estava apodrecida e os braços dela não pareciam capazes de movê-la.
Ela procurou rapidamente uma alavanca; uma parte de sua mente calculava friamente o número de passos necessários para que seu perseguidor atravessasse o corredor. Menos de vinte, ela concluiu, enquanto tirava um lençol de cima de uma das caixas de chá, somente para encontrar um cadáver que a encarava diretamente, com os olhos esbugalhados. Kirsty quase gritou, mas escutou Frank à porta.
— Onde está você? — ele perguntou.
Ela tapou a boca com a mão para impedir que o grito de repulsa saísse. Enquanto o fazia, a maçaneta da porta girou. Kirsty abaixou-se, saindo da vista para trás de uma poltrona, e engoliu o grito.
A porta abriu. Ela escutou a respiração de Frank levemente custosa, e ouviu seus passos no assoalho. Então, o som da porta sendo fechada. Um clique. Silêncio.
Ela esperou alguns segundos e, então, espiou de seu esconderijo, meio que esperando que ele ainda estivesse com ela no quarto, aguardando-a se revelar. Mas, não. Ele havia desaparecido.
Engolir o grito trouxera um efeito colateral nada bem-vindo: soluços. O primeiro, tão inesperado que ela não tivera tempo de contê-lo, soou incrivelmente alto. Mas não houve passos de volta do corredor. Frank, aparentemente, já não conseguia escutá-la. Quando ela voltou à janela, contornando a caixa de chá sepulcral, foi aturdida por um segundo soluço. Ela reprimiu a barriga em silêncio, mas em vão. O terceiro e o quarto vieram, enquanto ela lutava mais uma vez para destravar a janela. Este também foi um esforço infrutífero; a janela não queria cooperar.
Kirsty contemplou brevemente a possibilidade de quebrar o vidro e gritar pedindo socorro, mas logo descartou a ideia. Frank estaria devorando seus olhos antes que os vizinhos acordassem. Em vez disso, refez seus passos até a porta e a abriu uma mínima fração. Até onde seus olhos podiam penetrar as sombras, não havia sinal de Frank. Com cuidado, abriu a porta um pouco mais e voltou ao corredor.
As trevas eram como algo vivo; elas a sufocavam com beijos lúgubres. Ela deu três passos sem incidentes, então um quarto. No quinto (seu número da sorte) o corpo dela cometeu um ato suicida. Ela soluçou e sua mão chegou tarde demais à boca para evitar o estrondo.
Desta vez, ele não passou despercebido.
— Aí está você — disse uma sombra, enquanto Frank deslizava para fora do quarto, bloqueando sua passagem. Ele parecia enorme aos olhos de sua refeição — parecia tão largo quanto o corredor — e cheirava a carne.
Sem nada a perder, ela gritou em desespero quando ele investiu, mas o atacante não se inibiu diante do terror. Com poucos centímetros entre sua carne e a faca, Kirsty atirou-se para o lado e descobriu que o quinto passo a deixara lado a lado com o quarto de Frank. Ela tropeçou porta adentro. Ele a seguiu de perto, coroando seu deleite.
Havia uma janela naquele cômodo, ela sabia; ela própria a quebrara algumas horas antes, mas as trevas estavam tão profundas que Kirsty poderia muito bem estar vendada; nem mesmo a luz do luar podia ser vista. Pareceu que Frank estava igualmente perdido. Ele chamou o nome dela naquele breu; o lamento da faca acompanhava seu chamado conforme ele a brandia no ar. Para frente e para trás, para frente e para trás. Afastando-se do som, os pés dela tropeçaram no emaranhado de bandagens no chão. No momento seguinte, ela estava caindo. Mas não foi no assoalho que ela tombou pesadamente, mas sim sobre o cadáver gorduroso de Rory. A queda arrancou um uivo de horror dela.
— Aí está você — disse Frank. Os golpes da faca ficaram repentinamente mais próximos, a centímetros da cabeça dela, mas Kirsty estava surda para eles. Os braços dela estavam encostados no corpo e a aproximação da morte não parecia nada perto da dor que sentia agora ao tocá-lo.
— Rory — ela murmurou, feliz de que o nome estaria em seus lábios quando o golpe chegasse.
— Isso mesmo — Frank disse. — Rory.
De alguma maneira, o roubo do nome de Rory era tão imperdoável quanto o roubo da sua pele; ou foi o que a dor de Kirsty lhe falou. Uma pele não era nada. Porcos têm pele; cobras têm pele. Elas são costuras de células mortas, murcham, crescem e murcham novamente. Mas um nome? Aquele era um feitiço que invocava memórias. Ela não permitiria que Frank o usurpasse.
— Rory está morto — ela gritou. As palavras a estocaram e, com a dor, o espectro de um pensamento…
— Calminha, garota — ele disse.
…e se os Cenobitas estivessem esperando pelo nome de Frank em si. O visitante no hospital não havia dito algo sobre Frank confessar?
— Você não é Rory — ela bradou.
— Nós sabemos disso — foi a resposta. — Mas ninguém mais sabe.
— Quem é você então?
— Pobre menina. Já está ficando maluquinha, não? Acho que isso é até bom…
— Quem?
— …é mais seguro assim.
— Quem?
— Calma, garota — ele disse. Ele estava inclinando-se sobre ela nas trevas, seu rosto a poucos centímetros do dela. — Tudo vai ficar bem. Eu prometo…
— Vai?
— Sim. Frank está aqui, gata.
— Frank?
— Isso mesmo. Eu sou Frank.
Ao dizer isso, ele desferiu o golpe derradeiro, mas ela o escutou vindo da escuridão e se desviou de sua benção. Um segundo depois, o sino recomeçou e a lâmpada nua do quarto brilhou, ganhando vida. Por meio da luz, ela viu Frank ao lado do irmão, a faca enterrada nas nádegas do cadáver. Enquanto tentava arrancá-la da ferida, ele voltou a firmar os olhos sobre ela.
Mais uma badalada; ele estava de pé e a teria atacado… se não fosse pela voz.
Ela disse o nome dele, com leveza, como se chamasse uma criança para brincar.
— Frank.
O rosto dele caiu pela segunda vez naquela noite. Um olhar intrigado cruzou suas feições, transformando-se em horror.
Ele virou a cabeça lentamente para encarar o falante. Era o Cenobita com seus ganchos reluzentes. Atrás dele, Kirsty viu outras três figuras; suas anatomias um catálogo de desfiguração.
Frank olhou de volta para Kirsty.
— Você fez isso — ele disse.
Ela consentiu.
— Saia daqui — disse um dos recém-chegados. — Este assunto não é mais da sua conta.
— Sua puta! — Frank berrou para ela. — Puta! Sua puta maldita e traiçoeira!
O hino de raiva a seguiu do cômodo até a porta. Quando a palma dela segurou a maçaneta, ela o escutou perseguindo-a e virou-se para descobrir que ele estava a menos de um passo de distância, a faca a um fio de cabelo de seu corpo. Mas ali ele foi detido, incapaz de avançar outro milímetro sequer.
Eles o fisgaram com seus ganchos, na carne dos braços e pernas e ondularam a carne do rosto. Ligados aos ganchos, correntes que eles seguravam com firmeza. Houve um som suave; a resistência dele fazia com que as lâminas rasgassem seus músculos. A boca foi escancarada, o pescoço e o peito expostos.
A faca caiu de seus dedos. Ele emitiu um último e incoerente impropério para ela, o corpo tremendo agora, enquanto perdia a batalha contra aqueles que o clamavam. Centímetro após centímetro ele foi arrastado de volta para o meio do quarto.
— Vá — disse a voz do Cenobita. Ela não conseguia mais vê-los; eles já estavam perdidos atrás do ar salpicado de sangue. Aceitando o convite, ela abriu a porta enquanto, lá atrás, Frank começava a gritar.
Quando pisou no corredor, gesso começou a cair do teto; a casa estava rugindo do porão ao telhado. Ela sabia que tinha de ser rápida, antes que, qualquer que fosse o demônio à solta ali, pusesse o lugar abaixo.
Mas, embora o tempo fosse escasso, não conseguiu evitar dar uma última olhadela para Frank, para ter certeza de que ele não viria mais atrás dela.
Ele estava in extremis, enganchado em uma dúzia de lugares ou mais, feridas novas o escavavam diante dos olhos dela. De braços abertos sob a lâmpada solitária, o corpo estendido aos limites da resistência e além, soltando gritos que poderiam até ter arrancado dó dela, se Kirsty não o conhecesse.
De repente, os gritos cessaram. Houve uma pausa e, então, num último ato de desafio, ele ergueu a pesada cabeça e a encarou, cruzando o olhar dela com olhos de onde toda a malícia e mistificação haviam desaparecido. Ao descansarem sobre ela, eles brilharam; pérolas em carne putrefata.
Em resposta, as correntes apertaram um centímetro a mais, mas os Cenobitas não obtiveram um novo grito dele. Em vez disso, ele mostrou a língua para Kirsty e a sacudiu para frente e para trás por entre os dentes, num gesto de lascívia impenitente.
Então, ele foi descosturado.
Os membros separados do dorso e a cabeça dos ombros, numa turbulência de fragmentos de ossos e calor. Ela bateu a porta quando algo fez um baque do outro lado. Talvez a cabeça dele, ela pensou.
Kirsty desceu as escadas cambaleando, com lobos uivando dentro das paredes e os sinos em tumulto e, por todos os lados — engrossando o ar como fumaça — os fantasmas de aves feridas, a ponta de uma asa costurada à do próximo, perdidos em voo.
Ela chegou ao final das escadas e cruzou o saguão até a porta de entrada, mas, quando estava próxima da liberdade, escutou alguém chamar seu nome.
Era Julia. Havia sangue no chão do saguão, marcando uma trilha do ponto onde Frank a abandonara, até a sala de estar.
— Kirsty — ela chamou novamente. Era um som digno de pena e, apesar do ar sufocado pelas asas, ela não conseguiu evitar segui-lo, indo até a sala de jantar.
Os móveis eram carvões fumegantes; as cinzas que vira se tornaram um carpete imundo. E ali, em meio àquela desolação doméstica, a noiva estava sentada.
Por meio de algum ato extraordinário de força de vontade, Julia conseguira pôr o vestido de noiva e o véu na cabeça. Agora, sentava-se na sujeira, o vestido manchado. Apesar disso, parecia radiante, talvez mais bonita devido às ruínas que a cercavam.
— Ajude-me — ela disse e só agora Kirsty percebera que a voz não vinha de trás do véu, mas do colo da noiva.
E, agora, as afluentes dobras do vestido se abriam e lá estava a cabeça de Julia — sobre um travesseiro de seda escarlate, emoldurada por um caimento de cabelos ruivos. Privada de pulmões, como poderia falar? Não obstante, falava…
— Kirsty… — ela disse, ela implorou, e suspirou, rolando de um lado para o outro no colo da noiva, como se esperasse desalojar a própria razão.
Kirsty poderia tê-la ajudado — poderia ter colocado a cabeça no lugar — contudo, o véu da noiva começou a se mover e a subir, como se fosse puxado por dedos invisíveis. Por detrás dele, uma luz brilhava e foi ficando cada vez mais e mais forte e, com ela, uma voz.
— Eu sou o Engenheiro — suspirou. Nada disse além disso.
Então, as dobras flutuaram mais alto e a cabeça ganhou o brilho de um pequeno sol.
Kirsty não esperou que a luz a cegasse. Em vez disso, afastou-se do saguão — os pássaros quase sólidos agora, os lobos insanos — e mergulhou porta afora, bem quando o teto começou a ceder.
A noite veio recebê-la — uma escuridão imaculada. Kirsty a respirou em tragadas avarentas, enquanto fugia da casa correndo. Era a segunda vez que partia daquela maneira. Que Deus impedisse, em nome da sanidade, que houvesse uma terceira.
Na esquina da Lodovico Street, ela olhou para trás. A casa havia se rendido às forças em seu interior. Ela permanecia silenciosa como um túmulo. Não, ainda mais silenciosa.
Enquanto virava-se, alguém trombou com ela. Kirsty gritou de surpresa, mas o pedestre já se afastava na direção do negrume ansioso que precede a manhã. Enquanto pairava nos limites da solidez, a figura olhou para trás e sua cabeça se incendiou num brilho, um cone de fogo branco. Era o Engenheiro. Ela não teve tempo de desviar o olhar; num instante, ele tornara a desaparecer, deixando apenas seu glamour à vista dela.
Só então ela percebeu o propósito da colisão. A caixa de Lemarchand tinha sido passada de volta para ela, e estava em sua mão.
Suas superfícies tinham sido seladas imaculadamente e polidas até brilharem. Embora Kirsty não a tenha examinado, ela tinha certeza de que não fora deixada nenhuma pista quanto à sua solução. O próximo a descobri-la teria de se aventurar em suas faces sem um mapa. E, até que isso ocorresse, ela tinha sido eleita como guardiã? Aparentemente, sim.
Kirsty a girou em sua mão. Por alguns instantes, pareceu ver fantasmas nas faces laqueadas. O rosto de Julia e o de Frank. Ela girou-a novamente, buscando ver se Rory estava sendo mantido ali, mas não. Onde quer que esteja não era ali. Quem sabe haja outros enigmas que, se resolvidos, darão acesso ao local onde ele está. Talvez palavras cruzadas, cuja solução abra a tranca para os jardins do Paraíso ou um quebra-cabeça que, ao ser completado, dê acesso à Terra das Maravilhas.
Ela esperaria e observaria, como sempre esperara e observara, na ânsia de que tal enigma um dia chegasse às suas mãos. Mas, caso ele falhasse em se apresentar, ela não ficaria demasiado triste, por medo de que a reparação de corações partidos fosse um enigma que nem o tempo tivesse a habilidade de resolver.
Você terminou Hellraiser: Renascido do Inferno
Clive Barker
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