Hellraiser: Renascido do Inferno

Clive Barker · Capítulo 5 de 11

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Hellraiser: Renascido do Inferno

Capítulo V

 

Às vezes, parecia que eras haviam se passado enquanto ele estava dentro da parede, eras que, mais tarde, alguma pista revelava como tendo sido apenas algumas horas ou minutos.

Mas agora, as coisas tinham mudado; ele tinha uma chance de escapar. Seu espírito se elevava ante o pensamento. Era uma chance fraca, ele não se enganava quanto a isso. Havia muitos motivos pelos quais seus melhores esforços poderiam fracassar. Julia era um. Ele se lembrava dela como uma mulher banal e envaidecida, cuja criação havia refreado a paixão. Ele a tornara selvagem, claro. Lembrava-se do dia, entre milhares de vezes em que fizera aquele ato, com certa satisfação. Ela resistira não mais do que o necessário para a própria vaidade; então, sucumbiu com um fervor tal que quase o fizera perder controle de si mesmo.

Sob outras circunstâncias, Frank poderia tê-la arrancado debaixo do nariz do aspirante a marido, mas a política fraternal o aconselhou a não fazê-lo. Em uma ou duas semanas ele teria se cansado dela e ficaria não só com uma mulher cujo corpo se tornaria desagradável para si, como também com um irmão vingativo em seus calcanhares. Não valia a pena o aborrecimento.

Além disso, havia novos mundos a conquistar. No dia seguinte, ele partiu para o Oriente: para Hong Kong e Sri Lanka, para a riqueza e aventura. E ele as teve. Ao menos por um tempo. Mas tudo escorria por entre seus dedos cedo ou tarde e, com o tempo, ele começou a se perguntar se eram as circunstâncias que lhe negavam manter seus ganhos ou se ele simplesmente não se importava o suficiente para conservar o que ganhava. A série de pensamentos, uma vez iniciado, desembestava. Em todos os lugares, nas ruínas que o cercavam, ele encontrava evidências que apoiavam a mesma tese amarga: que ele não encontrara nada na vida — nenhuma pessoa, nenhum estado mental ou corporal — que quisesse o bastante para sofrer nem mesmo o menor desconforto por ele.

Um espiral descendente se iniciou. Frank passou três meses numa onda de depressão e autopiedade que beirava o suicídio. Mas até mesmo aquela solução lhe foi negada pelo recém-encontrado niilismo. Se não havia nada pelo que valesse a pena viver, então também não valia nada pelo que valesse a pena morrer. Ele cambaleava de uma esterilidade para a seguinte, até que todos os pensamentos estivessem apodrecidos por qualquer que fosse o ópio que suas imoralidades lhe obtivessem.

Como ouvira falar da caixa de Lemarchand? Ele não se lembrava. Talvez num bar ou numa sarjeta, dos lábios de algum colega desamparado. Na época, era só um rumor — um sonho de uma redoma dos prazeres onde aqueles cansados dos deleites triviais da condição humana poderiam descobrir uma nova definição do regozijo. E a rota para aquele paraíso? Disseram-lhe que havia diversas; gráficos das interfaces entre o real e o que era ainda mais real, feitos por viajantes cujos ossos há muito tinham se tornado pó. Um desses gráficos estava nos cofres do Vaticano, escondido num código em um trabalho teológico que não era lido desde a Reforma. Outro — na forma de um origami, fora dito estar na posse do Marquês de Sade, que o utilizou enquanto esteve aprisionado na Bastilha, trocando-o com um guarda pelo papel que utilizou para escrever Os 120 Dias de Sodoma. Contudo, outro foi feito por um artesão chamado Lemarchand — um produtor de pássaros cantantes — na forma de uma caixinha de música de design tão elaborado que um homem podia passar metade da vida brincando com ela e nunca conseguir abri-la.

Histórias. Histórias. Contudo, uma vez que ele não acreditava em coisa alguma, não foi difícil deixar de lado a tirania da verdade verificável. E o tempo passou, enquanto ele meditava inebriadamente sobre tais fantasias.

Foi em Düsseldorf, para onde contrabandeara um pouco de heroína, que tornou a ouvir falar da caixa de Lemarchand. Sua curiosidade voltou a ser aguçada, mas, desta vez, ele seguiu a história até a fonte. O nome do homem era Kircher, embora provavelmente ele tivesse mais uma dúzia de outros. Sim, o alemão podia confirmar a existência da caixa e, sim, podia dar um jeito para que Frank a tivesse. O preço? Pequenos favores aqui e ali. Nada excepcional. Frank fez os favores, lavou as mãos e exigiu o pagamento.

Kircher dera instruções sobre qual era a melhor maneira de quebrar o selo do dispositivo de Lemarchand, instruções que em parte eram pragmáticas, em parte metafísicas.

Ele disse que resolver o enigma era como viajar ou algo mais ou menos assim. Aparentemente, a caixa não era apenas o mapa da estrada, mas a própria estrada em si.

Aquele novo vício o curou rapidamente das drogas e do álcool. Talvez houvessem outras maneiras de fazer o mundo se curvar e enquadrar no formato dos seus sonhos.

Ele voltou para a casa na Lodovico Street, para a casa vazia onde, agora, se encontrava prisioneiro atrás das paredes, e se preparou — conforme Kircher detalhara — para o desafio de resolver a Configuração de Lemarchand. Ele nunca estivera tão abstêmio na vida, nem tão focado num só objetivo. Nos dias que antecederam o massacre da caixa, ele levou uma vida que teria feito inveja a um santo, focando todas as energias na cerimônia por vir.

Ele fora arrogante na forma com que negociara com a Ordem de Gash, percebia isso agora; mas havia em todos os lugares — naquele mundo e fora dele — forças que encorajaram tal arrogância, porque eles barganhavam com ela. Aquilo por si só não o teria desfeito. Não, seu erro de verdade tinha sido a ingenuidade de acreditar que a sua definição de prazer era a mesma da dos Cenobitas.

Da forma como foi, eles trouxeram sofrimento incalculável. Eles o inundaram com tanta sensualidade que sua mente oscilou entre a loucura, então, o iniciaram em experiências que faziam seus nervos convulsionarem só de lembrar. Eles chamavam aquilo de prazer e, talvez, estivessem falando sério. Talvez, não. Era impossível de saber ao certo em se tratando deles, que eram tão irremediavelmente ambíguos. Eles não reconheciam os princípios de recompensa e punição pelos quais Frank esperava obter algum respiro das torturas, nem se sentiam tocados pelos apelos dele por misericórdia. Ele tentara aquilo, durante as semanas e meses que separavam a resolução da caixa do dia de hoje.

Não havia compaixão daquele lado da Cisão; havia apenas o pranto e as gargalhadas. Às vezes, lágrimas de alegria (por uma hora sem pavor, ou até o tempo de um respiro), lágrimas que vinham como um paradoxo diante de um novo horror, elaborado pelo Engenheiro para gerar aflição.

Mas havia ainda outra sofisticação na tortura, concebida por uma mente que compreendia totalmente a natureza do sofrimento. Os prisioneiros eram capazes de ver o mundo onde outrora viveram. Seus locais de descanso — quando não estavam submetidos ao prazer — permitiam ver as próprias locações onde no passado tinham trabalhado na Configuração que os levara até ali. No caso de Frank, no quarto do andar de cima do número 55 da Lodovico Street.

Durante a maior parte do ano, tinha sido uma vista escura: ninguém havia entrado na casa. Então, eles chegaram. Rory e a adorável Julia. E a esperança retornou…

Havia maneiras de escapar, ele os escutara sussurrar; brechas no sistema que permitiram que uma mente flexível ou astuta voltasse ao local de onde viera. Se um prisioneiro conseguisse perpetrar tal fuga, não havia maneira de ser seguido pelos hierofantes. Eles tinham de ser convocados através da Cisão. Sem um convite assim, eram como cachorros à porta, arranhando e arranhando, mas incapazes de entrar. A fuga, portanto, se pudesse ser alcançada, traria consigo um decreto absoluto, a dissolução completa de um casamento equivocado feito pelo prisioneiro. Era um risco que valia a pena. Na verdade, não era risco algum. Que punição poderia ser pior do que o pensamento de sofrer sem a esperança de se libertar?

Ele tivera sorte. Certos prisioneiros tinham partido do mundo sem deixar sinal suficiente de si próprios a partir do qual, dadas as colisões adequadas das circunstâncias, seus corpos poderiam ser refeitos. Mas ele deixara. Sua última ação, exceto pelos gritos, fora esvaziar os testículos no chão. Esperma morto era uma lembrança parca do seu eu essencial, mas bastava. Quando o irmão Rory (o doce e desastrado Rory) deixou o cinzel escorregar, Frank pôde lucrar com a dor. Ele encontrara um apoio para si e um vislumbre da força com a qual poderia arrastar-se até a segurança. Agora, cabia a Julia.

Às vezes, amargando dentro da parede, ele achava que ela o abandonaria por medo. Ou isso ou ela racionalizaria a visão e decidiria que tudo não passara de um sonho. Se fosse o caso, ele estaria perdido. Ele carecia de energia para repetir a aparição.

Mas havia sinais que lhe davam motivos para ter esperança. O fato de ela ter voltado ao quarto em duas ou três ocasiões, por exemplo, e simplesmente ter ficado no escuro, olhando para a parede. Ela até murmurara algumas palavras na segunda visita, embora ele tenha captado apenas fragmentos. A palavra “aqui” estava entre elas. E “esperando” e “breve”. O bastante para tirá-lo do desespero.

Ele tinha outra razão para ser otimista. Ela estava perdida, não estava? Ele observara aquilo no rosto dela quando — antes do dia em que Rory se ferira — ela e o irmão estiveram juntos no quarto. Ele lera os olhares nas entrelinhas, os momentos em que a guarda dela baixara e a tristeza e frustração que ela sentia ficaram aparentes.

Sim, Julia estava perdida. Casada com um homem que não amava, incapaz de ver uma saída.

Bem, ali estava ele. Os dois podiam salvar um ao outro, da forma que os poetas prometiam que amantes fariam. Ele era um mistério, ele era trevas, ele era tudo com que ela sempre sonhara. E, se ela o libertasse, ele a serviria — ah, sim — até que o prazer dela alcançasse aquele limiar que, tal qual todo limiar, era um local onde o forte fica mais forte e os fracos pereciam.

Prazer era dor ali, e vice-versa. E ele o conhecia bem o suficiente para chamá-lo de lar.