Hibisco Roxo

Chimamanda Ngozi Adichie · Capítulo 6 de 6

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Hibisco Roxo

Um Silêncio Diferente

UM SILÊNCIO

DIFERENTE

O presente

As ruas que dão na prisão

são familiares. Conheço as casas e as lojas, conheço os rostos das mulheres que vendem laranjas e bananas logo antes do lugar onde a gente pega a ruazinha cheia de buracos que leva à prisão.

- Quer comprar laranjas,

Kambili? - pergunta Celestine.

Ele desacelera o carro até

quase parar, enquanto as ambulantes começam a acenar e nos chamar. A voz de Celestine é gentil; Mama diz que por isso o contratou depois de pedir que Kevin fosse embora. Por isso e pelo fato de ele não ter uma cicatriz em forma de adaga no pescoço.

- O que temos no porta-

malas deve ser suficiente -respondo, voltando-me para Mama. - Quer comprar alguma coisa aqui?

Mama balança a cabeça e

seu lenço começa a soltar. Ela dá outro nó, tão malfeito quanto o primeiro. Sua canga também está frouxa na cintura, e ela a amarra com freqüência, o que a faz parecer uma das mulheres desgrenhadas do mercado Ogbete, que deixam suas cangas cair de forma que todos vejam as calcinhas cheias de furos que elas usam por baixo.

Mama não parece se

importar com sua aparência; nem mesmo parece se dar conta dela. Está diferente desde que Jaja foi preso, desde que começou a dizer às pessoas que foi ela quem matou Papa, que colocou veneno no chá dele. Mama até escreveu cartas aos jornais. Mas ninguém acreditou nela; ainda não acreditam. Pensam que a dor e a incapacidade de aceitar a realidade - de que seu marido morreu e de que seu filho está na prisão - a transformaram nessa aparição de corpo horrivelmente ossudo e pele sarapintada de cravos negros do tamanho de sementes de melancia. Talvez por isso a perdoem por ela não ter usado só negro ou só branco por um ano.

Talvez por isso ninguém a

criticou por não ter ido à missa nem no primeiro nem no segundo aniversário da morte, e por não cortar o cabelo.

- Tente amarrar melhor seu

lenço, Mama - disse eu, tocando o ombro dela.

Mama dá de ombros, ainda

olhando pela janela.

- Ele já está bem amarrado. Celestine nos observa pelo

retrovisor. Seu olhar é bondoso. Certa vez, sugeriu a mim que levássemos Mama para se consultar com um dibia na cidade-natal dele, um homem especialista "nessas coisas". Não soube bem o que Celestine quis dizer com "essas coisas", se estava insinuando que Mama estava louca, mas agradeci e disse que ela não ia querer ir. Celestine é bem-intencionado. Vejo a forma como ele olha para Mama às vezes, a forma como a ajuda a sair do carro, e sei que ele gostaria de encontrar um jeito de curá-la.

Mama e eu quase nunca

vamos à prisão juntas. Em geral, Celestine me traz um dia ou dois antes de trazê-la, todas as semanas. Ela prefere assim, acho. Mas hoje é um dia diferente, especial - eles finalmente nos deram certeza de que Jaja vai ser solto.

Quando o chefe de Estado

morreu, há alguns meses - dizem que morreu em cima de uma prostituta, tendo convulsões e espumando pela boca -, achamos que Jaja ia ser solto imediatamente, que nossos advogados não demorariam a resolver a situação. Principalmente por causa dos protestos dos grupos pró-democracia, que exigiam que o governo investigasse a morte de Papa, insistindo que o velho regime o havia matado. Mas demorou algumas semanas até o governo civil interino anunciar que ia soltar todos os prisioneiros de consciência, e mais algumas semanas até nossos advogados conseguirem incluir Jaja na lista. O nome dele é o número quatro de uma lista com mais de duzentos. Ele vai ser solto na semana que vem.

Soubemos disso ontem, por

intermédio de dois dos nossos mais novos advogados; ambos têm a prestigiosa sigla SAN após seus nomes, de advogado sênior da Nigéria.

Eles vieram a nossa casa

com as novas notícias e uma garrafa de champanhe com uma fita cor-de-rosa. Depois que saíram, Mama e eu não conversamos sobre o que tínhamos ouvido. Seguimos carregando dentro de nós, mas não compartilhando, a mesma nova paz, a mesma esperança, concreta pela primeira vez.

Há muitas outras coisas

sobre as quais Mama e eu não conversamos. Não conversamos sobre os enormes valores escritos nos cheques que usamos para subornar juizes, policiais e guardas da prisão. Não conversamos sobre todo o dinheiro que temos, mesmo depois de metade da fortuna de Papa haver sido doada a St. Agnes e ao financiamento de missões da igreja. E nunca conversamos sobre termos descoberto que Papa fazia doações anônimas para hospitais pediátricos, orfanatos e abrigos para veteranos aleijados na guerra civil. Ainda há muito que não dizemos com nossas vozes, que não transformamos em palavras.

- Por favor, coloque a fita de

Feia para tocar, Celestine - digo eu, me recostando no banco, A voz metálica logo toma conta do carro. Eu me viro para ver se Mama se incomoda, mas ela está olhando fixamente para o banco da frente; acho que nem consegue ouvir nada. Na maioria das vezes, ela só responde assentindo ou balançando a cabeça e eu me pergunto se escutou mesmo. Eu costumava pedir que Sisi conversasse com Mama, porque ela ficava horas sentada na sala de estar com Sisi. Mas Sisi contou que Mama não respondia, que ela só olhava para o nada, em silêncio. Quando Sisi se casou no ano passado, Mama lhe deu caixas e mais caixas de jogos de porcelana, e Sisi sentou-se no chão da cozinha e chorou muito, enquanto Mama observava. Agora, Sisi vai a nossa casa uma vez por semana para dar instruções para a nova governanta, Okon, e para perguntar a Mama se ela precisa de alguma coisa. Mama em geral não diz nada, só balança a cabeça e oscila para a frente e para trás.

No mês passado, quando eu

disse a Mama que ia a Nsukka, ela também não disse nada, não me perguntou por quê, embora eu não conheça mais ninguém que more em Nsukka.

Apenas assentiu. Celestine

me levou, e chegamos por volta do meio-dia, quando o sol estava se transformando naquele sol abrasador que há muito tempo eu imagino poder secar até a medula dos ossos da gente. A maioria dos jardins que há no campus da universidade está com a grama crescida demais; as folhas longas se erguem como flechas verdes. A estátua do leão não brilha mais.

Perguntei à família que mora

no apartamento de tia Ifeoma se eu podia entrar e, embora tenham me olhado de um jeito estranho, eles permitiram e me ofereceram um copo d'água. A água estava morna, disseram, porque não havia eletricidade. As pás do ventilador de teto estavam incrustadas de uma poeira fofa, e assim eu soube que fazia algum tempo vinha faltando eletricidade, ou a poeira teria voado com o girar do ventilador. Bebi a água toda, sentada num sofá com buracos de tamanhos diversos em ambas as laterais. Dei a eles as frutas que comprara em Ninth Mile e pedi desculpas, pois o caloi do porta-malas enegrecera as bananas.

Enquanto voltávamos a

Enugu, eu ri alto, mais alto que o canto vigoroso de Feia. Ri porque as ruas sem asfalto de Nsukka sujam os carros de poeira durante o harmattan e de lama grudenta durante a estação das chuvas. Porque, nas ruas que são asfaltadas, os buracos surgem de repente como presentes surpresa, o ar cheira a colinas e história e a luz do sol espalha a areia e a transforma em pó de ouro. Porque Nsukka pode libertar algo no fundo de sua barriga que sobe até a garganta da gente e sai sob a forma de uma canção sobre a liberdade. E sob a forma de riso.

- Chegamos - diz Celestine. Estamos nos terrenos da

prisão. Os muros desolados têm pedaços cobertos de mofo azul-esverdeado, o que lhes dá uma aparência horrível. Jaja voltou a sua velha cela, que é tão cheia que alguns presos precisam ficar de pé para que outros possam se deitar. A privada deles é uma sacola plástica negra, e os presos brigam para ver quem vai esvaziá-la lá fora todas as tardes, pois essa pessoa poderá ver o sol por um curto período de tempo. Jaja certa vez me contou que os homens nem sempre se incomodam em usar a sacola, principalmente os mais raivosos. Ele não se importa de dormir com ratos e baratas, mas se importa de ter as fezes de outro homem em sua cara. Jaja estava numa cela melhor até o mês passado, com livros e um colchão só para ele, pois nossos advogados sabiam quem eram as pessoas certas a subornar.

Mas os administradores da

prisão o colocaram aqui depois que ele cuspiu na cara de um guarda sem motivo, depois de o terem deixado nu e o chicoteado com um koboko.

Embora eu não acredite que

Jaja teria sido capaz de fazer algo assim sem ser provocado, não tenho outra versão da história, porque ele se recusa a conversar sobre o assunto comigo. Ele nem me mostrou os vergões nas costas, aqueles que o médico que conseguimos introduzir na prisão me disse estarem inchados como longas salsichas. Mas vejo outras partes de Jaja, as partes que não preciso pedir que ele me mostre, como seus ombros.

Aqueles ombros que

floresceram em Nsukka, que ficaram largos e fortes, vergaram-se nos trinta e um meses que Jaja passou aqui. Quase três anos. Se alguém houvesse tido um filho quando ele veio para cá, a criança já estaria falando, já estaria no jardim de infância. Às vezes olho para Jaja e começo a chorar, e ele dá de ombros e me conta que Oladipupo, o chefe de sua cela - eles têm um sistema de hierarquia nas celas -, está aguardando julgamento há oito anos. A situação oficial de Jaja, durante esse tempo todo, foi Aguardando Julgamento.

Amaka costumava escrever

para o gabinete do chefe de Estado, e até para o embaixador da Nigéria nos Estados Unidos, para reclamar do estado lamentável do sistema jurídico nigeriano. Ela disse que ninguém acusara o recebimento das cartas, mas mesmo assim era importante para ela fazer alguma coisa. Amaka não conta isso nas cartas que manda a Jaja. Eu já as li -elas são longas e despretensiosas. Não falam de Papa e quase nunca falam da prisão. Em sua última carta, Amaka contou a Jaja que havia uma matéria sobre Aokpe numa revista secular americana; o autor não parecera acreditar que a Virgem Maria pudesse aparecer em qualquer lugar, e principalmente na Nigéria, com toda aquela corrupção e todo aquele calor. Amaka disse que havia escrito à revista para lhes dizer o que tinha achado. Era o que eu esperava dela, claro.

Ela diz que entende por que

Jaja não escreve. O que ele vai contar? Tia Ifeoma não escreve a Jaja; ela manda fitas cassetes com gravações das vozes deles todos.

Às vezes, Jaja me deixa

ouvi-las no meu som portátil quando o visito, às vezes me pede para não fazê-lo. Mas tia Ifeoma escreve cartas para mim e para Mama. Ela escreve sobre seus dois empregos, um numa universidade pública, outro numa farmácia. Escreve sobre os tomates enormes e sobre o pão barato que compra nos EUA. Mas a maior parte de suas cartas fala daquilo que tia Ifeoma sente falta e daquilo que ela deseja, como se quisesse ignorar o presente para se concentrar no passado e no futuro. Às vezes, suas cartas são tão longas que a tinta fica borrada e eu nem sempre entendo direito o que ela está querendo dizer. Existem pessoas, escreveu tia Ifeoma certa vez, que acham que nós não conseguimos governar nosso próprio país, pois nas poucas vezes em que tentamos nós falhamos, como se todos os outros que se governam hoje em dia tivessem acertado de primeira.

É como dizer a um bebê que

está engatinhando, tenta andar e cai de bunda no chão que ele deve permanecer no chão. Como se todos os adultos que passam por ele também não houvessem engatinhado um dia.

Embora eu esteja interessada

no que tia Ifeoma escreve, tanto que decoro a maior parte, ainda não sei por que ela manda suas cartas para mim.

As cartas de Amaka muitas

vezes são tão longas quanto as de tia Ifeoma, e ela nunca deixa de me contar, em cada uma delas, que eles estão ficando gordos, que Chima engorda tanto que perde suas roupas em um mês. E claro que sempre há eletricidade e que a água quente sai da torneira, mas a gente não ri mais, escreve Amaka, porque não temos tempo para rir, porque nem nos vemos mais. As cartas de Obiora são as mais alegres e as menos regulares. Obiora tem uma bolsa num colégio particular, onde, segundo ele, é elogiado e não punido por desafiar os professores.

- Deixe-me fazer isso - diz Celestine.

Ele abriu o porta-malas e

estou prestes a pegar a sacola plástica cheia de frutas e a sacola de pano com a comida e os pratos.

- Obrigada - digo, me

afastando.

Celestine carrega os sacos e

caminha à nossa frente em direção ao prédio da prisão. Mama vem atrás de mim. O policial que está na escrivaninha da entrada tem um palito de dentes na boca. Seus olhos são olhos de quem tem icterícia, tão amarelos que parecem ter sido pintados. Não há nada sobre a escrivaninha além de um telefone preto, um livro de registros gordo e velho e uma pilha mal-arrumada de relógios, lenços e colares num dos cantos.

- Como você está, irmã? -

diz ele ao me ver, sorrindo alegremente, embora seus olhos estejam fixos no saco que Celestine carrega. - Ah! Veio com madame hoje? Boa tarde, madame.

Eu dou um sorriso e Mama

assente mecanicamente. Celestine coloca o saco de frutas no balcão em frente ao guarda. Dentro dele há uma revista com um envelope cheio de notas de naira novas, recém-saídas do banco.

O homem larga o palito e

pega o saco. Ele desaparece atrás da escrivaninha.

O homem então leva a mim e

a Mama a uma sala abafada com uma mesa baixa e um banco de cada lado.

- Uma hora - murmura antes

de ir embora.

Nós nos sentamos do mesmo

lado da mesa, mas não próximas o suficiente para nos tocar. Sei que Jaja vai aparecer logo e tento me preparar. Não ficou mais fácil vê-lo aqui, nem mesmo depois de tanto tempo. Vai ser ainda mais difícil com Mama sentada a meu lado. Mais difícil do que nunca, pois finalmente temos boas notícias, e assim as emoções que éramos obrigadas a segurar estão se dissolvendo, e novas emoções vão se formando. Eu inalo fundo e prendo a respiração.

Jaja vai voltar para casa em

breve, escreveu o padre Amadi em sua última carta, guardada em minha bolsa. Você precisa acreditar nisso. E eu acreditei, acreditei nele, apesar de ter lido a carta quando ainda não havíamos sido contatadas pelos advogados, antes de termos certeza. Eu acredito no que o padre Amadi diz; acredito em sua letra firme e oblíqua. "Porque ele assim o disse e sua palavra é verdade."

Sempre carrego comigo sua

última carta, até que uma nova chegue ao correio. Quando contei isso a Amaka, ela me provocou em sua resposta, escrevendo que eu tinha uma paixonite pelo padre Amadi e desenhando uma carinha sorridente. Mas eu não carrego as cartas dele por causa de nenhuma paixonite; aliás, há muito pouca paixão nelas. Antes de assinar seu nome, ele coloca apenas: "Sempre". Nunca responde com um sim ou um não quando pergunto se está feliz. Diz apenas que vai aonde Deus o mandar. Quase nunca escreve sobre sua nova vida, contando somente histórias breves, como aquela sobre a velha senhora alemã que se recusa a apertar a mão dele porque não acredita que um negro deva ser o padre de sua paróquia, ou a outra sobre a viúva rica que insiste em convidá-lo para jantar todas as noites.

As cartas do padre Amadi

demoram a sair de dentro de mim. Levo-as comigo porque elas são longas e detalhadas, porque fazem eu me lembrar do quanto valho, porque despertam meus sentimentos. Há alguns meses, ele escreveu dizendo que não queria que eu ficasse procurando os porquês, pois há certas coisas que acontecem e para as quais não podemos formular um porquê, para as quais os porquês simplesmente não existem e para as quais, talvez, eles não sejam necessários. O padre Amadi não mencionou Papa - ele quase nunca menciona Papa em suas cartas -, mas entendi o que ele quis dizer, entendi que estava remexendo em algo que eu própria tinha medo de remexer.

E também levo as cartas do

padre Amadi comigo porque elas me dão a graça divina. Amaka diz que as pessoas se apaixonam por padres porque querem competir com Deus, querem ter Deus como rival. Mas nós não somos rivais, Deus e eu, estamos apenas compartilhando. Eu não me pergunto mais se tenho o direito de amar o padre Amadi; simplesmente o amo. Não me pergunto mais se os cheques que tenho mandado aos padres missionários do Caminho Abençoado são uma forma de subornar Deus; simplesmente os mando. Não me pergunto mais se escolhi a igreja St. Andrews em Enugu como minha nova igreja porque o padre de lá é um padre missionário do Caminho Abençoado, assim como o padre Amadi; simplesmente a freqüento.

- Nós trouxemos as facas? -

pergunta Mama.

Sua voz sai alta. Ela está

pondo a tigela cilíndrica cheia de arroz jollof e frango em cima da mesa. Coloca também um prato bonito de porcelana, como se estivesse pondo uma mesa chique, como as que Sisi costumava arrumar.

- Mama, Jaja não precisa de

facas - digo.

Ela sabe que Jaja come

direto da tigela, mas sempre traz um prato consigo, escolhendo um desenho novo a cada semana.

- Devíamos ter trazido facas,

para ele poder cortar o frango.

- Ele não corta o frango, ele

o engole.

Sorrio para Mama e toco seu

braço, para acalmá-la. Ela coloca uma colher e um garfo de prata brilhantes sobre a mesa cheia de poeira e afasta o corpo para examinar seu trabalho. A porta se abre e Jaja entra. Eu lhe trouxe uma camiseta nova há apenas duas semanas, mas ela já tem manchas marrons que parecem ter sido feitas por suco de caju, e que são impossíveis de tirar. Quando éramos crianças, comíamos cajus inclinados para a frente, para que o suco doce que espirrava não pegasse em nossas roupas. O short dele fica bem acima de seus joelhos e eu viro o rosto para não ver as feridas em suas coxas. Nós não nos levantamos para abraçá-lo, porque ele não gosta que façamos isso.

- Boa tarde, Mama. Kambili,

ke kwanu? - diz Jaja.

Ele abre a tigela e começa a

comer. Sinto Mama tremendo ao meu lado e, como não quero que ela caia em prantos, começo a falar depressa. Talvez o som da minha voz estanque suas lágrimas.

- Os advogados vão tirar você daqui na semana que vem -anuncio.

Jaja dá de ombros. Até a

pele de seu pescoço está coberta por cascas de feridas que parecem secas, até ele as coçar e o pus amarelo que há por baixo aparecer.

Mama subornou os guardas

para entregar todo tipo de pomada para Jaja, mas nenhuma parece fazer efeito.

- Essa cela tem muitos

personagens interessantes - diz Jaja.

Ele enfia o arroz na boca

com a colher o mais rapidamente

possível. Suas bochechas inflam como se estivessem cheias de goiabas inteiras, ainda verdes.

- Eles vão tirar você da

prisão, Jaja. Não dessa cela -explico.

Jaja para de comer e me

encara em silêncio, com aqueles olhos que foram endurecendo um pouco mais a cada mês que ele passou aqui; agora, eles parecem a casca de uma palmeira, impossíveis de quebrar. Chego a me perguntar se nós dois já tivemos mesmo uma asusu anya, uma língua dos olhos, ou se foi tudo imaginação minha.

- Você vai sair daqui na

semana que vem - digo. - Vai voltar para casa na semana que vem.

Quero segurar a mão de Jaja,

mas sei que ele vai retirar a sua se eu fizer isso. Os olhos dele estão cheios de culpa demais para me verem, para verem seu reflexo em meus olhos, o reflexo do meu herói, do irmão que sempre tentou me proteger o melhor que pôde. Jaja nunca vai achar que fez o suficiente, nunca vai entender que eu não acho que ele devia ter feito mais.

- Você não está comendo -

diz Mama.

Jaja pega a colher e volta a

devorar o arroz. O silêncio paira sobre nós, mas é um tipo diferente de silêncio, um que me permite respirar. Tenho pesadelos sobre o outro tipo, aquele que existia na época em que Papa estava vivo. Em meus pesadelos, ele se mistura à vergonha, à dor e a muitas outras coisas que não sei definir, e forma línguas de fogo azuis que pendem sobre minha cabeça, como no Pentecostes, até que acordo gritando e suando. Não contei a Jaja que mando rezar missas para Papa todos os domingos e que desejo vê-lo em meus sonhos, tanto que às vezes fabrico meus próprios sonhos, quando não estou nem dormindo nem acordada. Eu vejo Papa, ele abre os braços para mim, eu abro os meus também, mas nossos corpos nunca se tocam antes que algo me faça acordar com um sobressalto e eu me dê conta de que não posso controlar nem os sonhos que fabrico. Há muita coisa que ainda é silêncio entre mim e Jaja. Talvez algum dia nos falemos mais, ou talvez nunca sejamos capazes de dizer tudo, de vestir as coisas com roupas, as coisas que estão nuas há tanto tempo.

- Você não amarrou seu

lenço direito - diz Jaja para Mama.

Arregalo os olhos,

espantada. Jaja nunca notou o que alguém usava. Mama rapidamente desfaz e refaz o nó de seu lenço -dessa vez dá dois nós apertados na parte de trás da cabeça.

- Acabou o tempo! - diz o

guarda, entrando na sala.

Jaja diz um breve e distante

"Ka o di", sem nem olhar para

nós, e deixa que o guarda o

leve embora.

- Devíamos ir a Nsukka

depois que Jaja sair daqui - eu digo a Mama quando estamos deixando a sala.

Agora eu posso falar do

futuro. Mama dá de ombros e não diz nada. Ela está caminhando devagar; ficou mais manca e seu corpo se move para o lado a cada passo.

Estamos perto do carro

quando Mama se vira para mim e diz:

- Obrigada, nne.

É uma das poucas vezes nos

últimos três anos em que ela diz alguma coisa sem alguém ter lhe dirigido a palavra antes. Não quero pensar por que ela está me agradecendo ou o que isso significa. Só sei que, de repente, não sinto mais o cheiro de mofo e urina do pátio da prisão.

- Vamos levar Jaja primeiro a Nsukka e depois vamos aos Estados Unidos visitar tia Ifeoma- digo. - Vamos plantar laranjeiras novas em Abba quando voltarmos, e Jaja vai plantar hibiscos roxos também, e eu vou plantar ixoras para podermos sugar o suco das flores.

Estou rindo. Coloco o braço

em volta do ombro de Mama e ela se recosta em mim e sorri.

Lá em cima, nuvens que

parecem algodão tingido pairam bem baixas, tão baixas que sinto que posso esticar o braço e espremer a água delas. As novas chuvas vão cair em breve.

FIM

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