Hibisco Roxo
Quebrando Deuses
Domingo de Ramos
As coisas começaram a se
deteriorar lá em casa quando meu irmão, Jaja, não recebeu a comunhão, e Papa atirou seu pesado missal em cima dele e quebrou as estatuetas da estante. Havíamos acabado de voltar da igreja. Mama colocou as palmas molhadas de água benta sobre a mesa de jantar e foi para o segundo andar da casa trocar de roupa. Mais tarde ela amarraria as palmas na forma de cruzes e penduraria na parede ao lado da foto com moldura dourada da nossa família. As cruzes ficariam ali até a Quarta-Feira de Cinzas, quando levaríamos as palmas à igreja, para que elas fossem queimadas e transformadas em cinzas. Usando uma longa veste cinzenta como os outros oblatos, Papa ajudava a distribuir cinzas todos os anos. A fila que se formava diante dele era a que se movia mais devagar, porque ele pressionava com força a testa de cada um para fazer uma cruz perfeita com seu polegar coberto de cinza e falava de forma lenta e significativa cada palavra da frase "És pó e ao pó letornarás".
Papa se sentava todas as
vezes no banco da frente para assistir à missa, na ponta que dá para a nave, com Mama, Jaja e eu junto dele. Era o primeiro a receber a comunhão. A maioria das pessoas não se ajoelhava para receber a hóstia no altar de mármore, perto do qual fica a estátua loura em tamanho real da Virgem Maria. Mas Papa, sim. Ele fechava os olhos e os apertava com tanta força que suas feições se contorciam numa careta, e ele esticava a língua o máximo que podia. Depois, sentava de novo no banco e observava enquanto o resto da congregação marchava até o altar com as palmas das mãos pressionadas uma contra a outra e estendidas, como o padre Benedict os ensinara a fazer. O padre Benedict já estava em St. Agnes havia sete anos, porém as pessoas ainda se referiam a ele como "o nosso novo padre". Talvez não tivessem feito isso se ele não fosse branco. Mas o padre Benedict ainda parecia novo no lugar. Seu rosto, que era da cor de leite condensado ou de uma graviola cortada ao meio, não ficara nem um pouco mais bronzeado após passar pelo calor abrasador de sete harmattans nigerianos.
E seu nariz britânico
continuava tão fino e estreito como antes, ainda era o mesmo nariz que me fizera temer que ele não conseguisse respirar direito, quando o padre Benedict chegou a Enugu. O padre Benedict mudara as coisas na paróquia, insistindo, por exemplo, que o credo e o kyrie fossem recitados apenas em latim; igbo não era aceitável. Além disso, devia-se bater palmas o mínimo possível, para que a solenidade da missa não ficasse comprometida. Mas ele permitia que cantássemos músicas de ofertório em igbo; chamava-as de músicas nativas, e quando dizia "nativas" a linha reta de seus lábios pendia nos cantos e formava um U invertido. Durante seus sermões, o padre Benedict sempre falava do papa, do meu pai e de Jesus - nessa ordem. Ele usava meu pai para ilustrar os evangelhos. "Quando deixamos que nossa luz brilhe diante dos homens, estamos refletindo a Entrada Triunfal de Cristo", disse ele naquele Domingo de Ramos. "Vejam o irmão Eugene. Ele poderia ter escolhido ser como outros Homens-Grandes deste país, poderia ter decidido ficar em casa e não fazer nada depois do golpe, para não correr o risco de ver seus negócios ameaçados pelo governo. Mas não, ele usou o Standard para falar a verdade, apesar de o jornal ter perdido anunciantes por causa disso. O irmão Eugene se manifestou em nome da liberdade. Quantos aqui defenderam a verdade? Quantos refletiram a Entrada Triunfal?"
A congregação respondeu
"Isso mesmo", ou "Deus o abençoe", ou "Amém", mas não muito alto, para não se parecer com os membros daquelas igrejas pentecostais que brotavam como cogumelos; e então todos ouviram em silêncio, cheios de atenção. Em alguns domingos, a congregação prestava atenção mesmo quando o padre Benedict falava de coisas que todos já sabiam, sobre como Papa fizera as maiores doações ao óbolo de São Pedro e à igreja St. Vincent de Paul. Ou sobre como Papa pagara as garrafas de vinho usadas na comunhão, os novos fornos do convento onde as irmãs assavam a hóstia e a nova ala do hospital St. Agnes, onde o padre Benedict dava a extrema-unção.
E eu ficava sentada com
meus joelhos apertados um contra o outro, ao lado de Jaja, tentando deixar meu rosto sem expressão e impedir que meu orgulho ficasse visível nele, pois Papa dizia que a modéstia era muito importante.
Quando eu olhava para
Papa, via que seu rosto também estava sem expressão, e que estava como na foto que saíra na matéria depois que ele ganhou um prêmio de direitos humanos da Anistia Internacional. Foi a única vez que deixou seu jornal fazer uma reportagem sobre ele. Seu editor, Ade Coker, insistira, dizendo que Papa merecia, e que ele era modesto demais. Foi Mama quem contou para mim e para Jaja; Papa não falava dessas coisas conosco. Seu rosto não mudava de expressão até o padre Benedict terminar o sermão, até chegar a hora da comunhão. Depois que Papa recebia a comunhão, ele se sentava e observava a congregação ir até o altar, e depois da missa ia falar preocupado com o padre Benedict caso alguém tivesse faltado à comunhão dois domingos seguidos.
Ele sempre encorajava o
padre Benedict a ir visitar essa pessoa e trazê-la de volta ao rebanho; pois nada além de um pecado mortal poderia impedir alguém de receber a comunhão por dois domingos seguidos.
Por isso, quando Papa viu
que Jaja não tinha ido até o altar naquele Domingo de Ramos em que tudo mudou, ele bateu com força seu missal de capa de couro, com as pontinhas das fitas verdes e vermelhas para fora, na mesa de jantar, depois que chegamos em casa. O tampo da mesa era de vidro, um vidro bem grosso. A mesa estremeceu, assim como os ramos de palmeiras que estavam sobre ela.
- Jaja, você não recebeu a
comunhão - disse Papa baixinho, num tom quase interrogativo.
Jaja olhou para o missal
sobre a mesa, como se estivesse falando com ele.
- Aquele biscoito me dá mau
hálito.
Eu olhei atônita para Jaja.
Será que ele tinha ficado maluco? Papa insistia que chamássemos a hóstia de hóstia, pois essa palavra quase capturava a essência, a sacralidade do corpo de Cristo. "Biscoito" era uma palavra secular, era o que uma das fábricas de papai produzia -biscoito de chocolate, biscoito de banana, o que as pessoas compravam para os filhos quando queriam dar a eles algo mais gostoso do que as bolachas sem sabor.
- E o padre fica encostando
na minha boca, isso me dá nojo -disse Jaja.
Ele sabia que eu estava
olhando para ele, que meus olhos chocados lhe imploravam para fechar a boca, mas ele não me encarou.
- E o corpo de Nosso Senhor
- disse Papa com a voz baixa, muito baixa.
Seu rosto já parecia inchado,
com pontos vermelhos de pus espalhados por cada centímetro, mas ao dizer isso ele pareceu ficar ainda maior.
- Você não pode parar de
receber o corpo de Nosso Senhor Jesus Cristo. Isso é a morte, e você sabe muito bem.
- Então eu morrerei. O medo deixara os olhos de
Jaja mais escuros, da cor do carvão, mas ele encarava Papa agora.
- Então eu morrerei, Papa. Papa olhou em torno
rapidamente, como quem procura por uma prova de que algo desabara do teto alto da sala, algo que ele jamais imaginara que fosse cair. Pegou o missal e atirou-o na direção de Jaja. O missal não acertou Jaja, mas atingiu a estante de vidro que mamãe limpava com tanta freqüência. A prateleira de cima se quebrou, fazendo que as minúsculas bailarinas de cerâmica contorcidas em diversas posições caíssem no chão duro, e o missal acabou desabando também sobre os fragmentos das estatuetas. E ali ficou aquele enorme missal com capa de couro que continha as leituras dos três ciclos do Ano Litúrgico.
Jaja não se mexeu. Papa
oscilou de um lado para o outro. Eu fiquei parada na porta, observando os dois. O ventilador de teto girou e girou, e as lâmpadas presas a ele bateram de leve umas nas outras, retinindo. Mama apareceu, com seus chinelos de borracha fazendo barulho no chão de mármore. Ela tirara a canga de lantejoulas que usava aos domingos e a blusa de mangas bufantes. Agora vestia uma canga tie-dye simples, mal amarrada em volta da cintura, e aquela camiseta branca que usava dia sim, dia não. Era uma lembrança de um retiro especial onde fora com Papa; as palavras "DEUS É AMOR" rastejavam sobre seus peitos caídos. Mama viu os pedaços das estatuetas no chão e se ajoelhou, começando a catálos sem proteger as mãos.
O silêncio era quebrado
apenas pelo zumbido do ventilador de teto que cortava o ar parado. Embora nossa espaçosa sala de jantar desse numa sala de estar ainda maior, eu me senti sufocada. As paredes pintadas de bege com as fotos emolduradas do vovô estavam se estreitando, avançando sobre mim. Até a mesa de vidro se movia na minha direção.
- Nne ngwa. Vá se trocar -
disse Mama para mim.
Eu me assustei, embora ela
tenha falado em igbo com uma voz baixa e tranquilizadora. Sem fazer nenhuma pausa, ela disse a Papa: - Seu chá está esfriando.
E para Jaja:
- Me ajude aqui, biko. Papa sentou-se à mesa e
encheu uma xícara usando o serviço de chá de porcelana com flores cor-de-rosa nas bordas. Esperei que ele oferecesse um gole para mim e outro para Jaja, como sempre fazia. Um gole de amor, era como Papa chamava aquilo, pois a gente divide as pequenas coisas que amamos com as pessoas que amamos.
Deem um gole de amor, dizia
ele, e Jaja ia primeiro. Depois eu segurava a xícara com as mãos e a levava aos lábios. Um gole. O chá estava sempre muito quente, sempre queimava minha língua, e se comêssemos algo apimentado no almoço minha língua ferida me machucava. Mas não tinha importância, pois eu sabia que quando o chá queimava minha língua, ele estava queimando o amor de Papa em mim. Mas Papa não disse "Deem um gole de amor"; ele não disse nada, e eu o observei enquanto levava a xícara aos lábios.
Jaja ficou de joelhos ao lado
de Mama, alisou o folheto da igreja que tinha nas mãos para fazer dele uma pá de lixo e colocou um pedaço quebrado de cerâmica em cima dele.
- Cuidado, Mama, senão
esses pedaços vão cortar seus dedos - disse Jaja.
Puxei as trancinhas do meu
cabelo debaixo do meu lenço negro de igreja, para ter certeza de que eu não estava sonhando. Por que Jaja e Mama estavam se comportando tão normalmente, como se não soubessem o que tinha acabado de acontecer? E por que Papa bebia seu chá em silêncio, como se Jaja não o houvesse desafiado? Eu me virei devagar e subi as escadas para tirar meu vestido vermelho de domingo.
Depois que troquei de roupa,
fiquei sentada em frente à janela do meu quarto; o cajueiro ficava tão próximo dela que eu poderia esticar o braço e arrancar uma de suas folhas, se não fosse pela tela prateada contra mosquito. As frutas amarelas em forma de sino pendiam preguiçosamente da árvore, atraindo abelhas que zumbiam e batiam contra a rede da minha janela. Ouvi Papa indo até seu quarto para fazer a sesta da tarde. Fechei os olhos e fiquei imóvel, esperando que ele chamasse Jaja, que Jaja entrasse em seu quarto. Mas longos minutos de silêncio se passaram, e eu abri os olhos e pressionei a testa contra os basculantes da janela para ver o lado de fora. Nosso jardim era tão grande que nele caberiam cem pessoas dançando atilogu, tão espaçoso que cada pessoa poderia dar as piruetas de praxe e cair nos ombros da pessoa seguinte. Os muros da casa, encimados por fios elétricos espiralados, eram tão altos que eu não podia ver os carros passando em nossa rua. Era o começo da estação de chuvas, e as plumérias plantadas perto dos muros já preenchiam a atmosfera do jardim com o cheiro doce e enjoativo de suas flores. Uma fileira de buganvílias roxas, aparadas de forma reta e parecendo uma mesa de bufê, separava as árvores com seus galhos retorcidos da entrada dos carros. Mais perto da casa, os coloridos arbustos de hibiscos se esticavam e tocavam uns aos outros, como se estivessem trocando pétalas. Os arbustos de hibiscos roxos começavam a florescer lentamente, porém a maioria das flores ainda era vermelha. Eles surgiam tão rápido, aqueles hibiscos vermelhos, apesar de Mama cortá-los com freqüência para decorar o altar da igreja e de as visitas sempre pegarem alguns a caminho de seus carros.
Os membros do grupo de
oração de Mama eram os que mais pegavam as flores; certa vez uma mulher colocara uma delas atrás da orelha - eu vi muito bem da minha janela.
Mas até os agentes do
governo, dois homens de jaqueta preta que haviam aparecido lá em casa fazia algum tempo, arrancaram hibiscos quando estavam indo embora. Eles tinham chegado numa pi-cape com placa do governo federal e estacionado ao lado dos arbustos de hibiscos. Não se demoraram muito. Depois, Jaja me contou que eles tinham vindo subornar Papa, que ele os ouvira dizer que a picape estava cheia de dólares. Eu não sei se Jaja ouviu direito. Mas às vezes eu ainda pensava nisso.
Ficava imaginando aquela
picape repleta de pilhas e mais pilhas de dinheiro estrangeiro, me perguntando se os homens haviam colocado as notas em diversas caixas ou numa única caixa imensa, do tamanho da caixa em que nossa geladeira viera.
Eu ainda estava olhando
pela janela quando Mama entrou no meu quarto. Todo domingo antes do almoço, enquanto dizia a Sisi para colocar um pouco mais de azeite de dendê na sopa ou um pouco menos de curry no arroz de coco, e enquanto Papa tirava sua sesta, Mama trançava meu cabelo. Ela se sentava numa poltrona perto da porta da cozinha e eu me sentava no chão com a cabeça entre suas coxas. Embora a cozinha fosse arejada, com as janelas sempre abertas, mesmo assim meu cabelo absorvia os cheiros da comida. Depois, quando eu trazia a ponta da trança ao nariz, sentia o cheiro de sopa de egusi, de utazi ou de curry. Mama, porém, não entrou no meu quarto com a sacola cheia de pentes e óleos para o cabelo e me pediu para ir lá embaixo. Em vez disso, anunciou: - O almoço está pronto, nne.
Eu quis dizer que sentia
muito por Papa ter quebrado as estatuetas dela, mas as palavras que saíram foram: - Sinto muito que suas estatuetas tenham quebrado, Mama.
Ela assentiu rapidamente, e
depois balançou a cabeça para
indicar que as estatuetas não
eram importantes. Mas eram, sim. Anos antes, quando eu ainda não entendia, eu me perguntava por que ela limpava as estatuetas sempre depois de eu ouvir aquele som vindo do quarto deles, um som que parecia ser de alguma coisa batendo na porta pelo lado de dentro. Os chinelos de borracha de Mama não faziam barulho nos degraus, mas eu sabia que ela havia ido lá para baixo quando ouvia a porta da sala de jantar sendo aberta. Eu descia e a via parada ao lado da estante de vidro com um pano de prato encharcado de água e sabão. Ela dedicava pelo menos quinze minutos a cada estatueta de bailarina. Nunca havia lágrimas em seu rosto. Da última vez, há apenas duas semanas, quando seu olho inchado ainda estava da cor preto-arroxeada de um abacate maduro demais, Mama rearrumara as estatuetas depois de limpá-las.
- Eu tranço seu cabelo
depois do almoço - disse ela, virando-se para sair.
- Sim, Mama.
Desci atrás dela. Mama
mancava um pouco, como se uma de suas pernas fosse mais curta do que a outra, e esse andar a fazia parecer menor do que já era. A escada fazia uma curva elegante em forma de S, e eu já estava na metade do caminho quando vi Jaja parado no corredor. Normalmente, ele ia ler no quarto antes do almoço, mas hoje não tinha subido; estivera aquele tempo todo na cozinha, com Mama e Sisi.
- Ke kwanu? - perguntei. Mas eu não precisava ter
perguntado como Jaja estava. Bastava olhar para ele para saber. Seu rosto de dezessete anos estava cheio de rugas; elas ziguezagueavam por sua testa e dentro de cada uma havia uma tensão enegrecida. Peguei a mão de [aja um pouco antes de entrarmos na sala de jantar. Papa e Mama já haviam se sentado e Papa estava lavando as mãos na tigela de água que Sisi segurava diante dele. Ele esperou que Jaja e eu nos sentássemos à sua frente e começou a rezar. Durante vinte minutos, pediu que Deus abençoasse a comida. Depois, chamou por diversos nomes a Virgem Maria, enquanto dizíamos "Rogai por nós". O nome preferido de Papa para a Virgem Maria era Nossa Senhora, Amparo do Povo Nigeriano. Ele próprio o inventara. Se as pessoas usassem aquele nome todos os dias, dissera ele, a Nigéria não cambalearia como um Homem-Grande com as pernas fracas de uma criança.
O almoço foi fufu e sopa de
onugbu. O fufu estava macio e fofo. Sisi sabia fazê-lo muito bem; ela pilava energeticamente o inhame, acrescentando gotas de água à tigela, suas bochechas se contraindo a cada tum-tum-tum do pilão. A sopa estava grossa, com pedaços grandes de carne cozida e peixe seco e com muitas folhas verde-escuras de onugbu. Comemos em silêncio. Eu fazia bolinhas de fufu com os dedos, molhava-as na sopa, sempre pegando pedaços de peixe, e as levava à boca. Eu tinha certeza de que a sopa estava boa, mas não conseguia sentir seu gosto. Minha língua parecia feita de papel.
- Passe o sal, por favor -
disse Papa.
Nós três esticamos o braço
ao mesmo tempo para pegar o sal. Jaja e eu tocamos o saleiro de cristal, meus dedos roçaram levemente nos dele, e ele tirou a mão.
Passei o saleiro a Papa. O
silêncio se estendeu mais ainda.
- Eles trouxeram o suco de
caju à tarde. O gosto está muito bom. Tenho certeza de que vai vender bem - disse Mama finalmente.
- Peça à menina para trazê-
lo - disse Papa.
Mama puxou o sino que
pendia sobre a mesa, ligado a um fio transparente que vinha do teto, e Sisi apareceu.
- Sim, Madame?
- Traga duas garrafas do
suco que eles trouxeram da fábrica.
- Sim, Madame.
Lamentei que Sisi não
houvesse dito "Que garrafas, Madame?" ou "Onde elas estão, Madame?" Qualquer coisa que fizesse seu diálogo com Mama ser mais longo, que disfarçasse os movimentos nervosos de Jaja fazendo bolinhas com seu fufu. Sisi voltou logo e colocou as garrafas diante de Papa. Elas tinham os mesmos rótulos desbotados de todos os outros produtos das fábricas de Papa -biscoitos wafer, biscoitos recheados, suco engarrafado, chips de banana. Papa serviu o suco amarelado para nós.
Peguei meu copo
rapidamente e dei um gole. Era meio aguado. Eu quis parecer muito satisfeita; talvez, se eu elogiasse bastante o suco, Papa esqueceria que ainda não tinha punido Jaja.
- É muito bom, Papa - disse
eu.
Papa bochechou um pouco com o suco.
- Sim, sim - concordou.- Tem gosto de caju fresco -
disse Mama.
Diga algo, por favor, eu quis
pedir a Jaja. Ele devia dizer algo agora, contribuir, elogiar o novo produto de Papa. Nós sempre fazíamos isso quando um empregado de uma das fábricas trazia alguma coisa para provarmos.
- Igualzinho a vinho branco -
acrescentou Mama.
Eu sabia que ela estava
nervosa - não só porque suco de caju não se parece nada com vinho branco como também porque sua voz estava mais baixa do que o normal.
- Vinho branco - repetiu
Mama, fechando os olhos para degustar melhor. - Vinho branco frutado.
- Isso mesmo - disse eu. Uma bolinha de fufu
escorregou de meus dedos e caiu dentro da sopa.
Papa olhava fixamente para
Jaja.
- Jaja, você não bebeu
conosco, gbo? Não há palavras em sua boca? - perguntou, falando em igbo.
Aquilo era um mau sinal.
Papa quase nunca falava em igbo e, embora Jaja e eu usássemos a língua com Mama quando estávamos em casa, ele não gostava que o fizéssemos em público. Precisávamos ser civilizados em público, ele nos dizia; precisávamos falar inglês. A irmã de Papa, tia Ifeoma, disse um dia que Papa era muito colonizado.
Disse isso de forma gentil e
indulgente, como se não fosse culpa de Papa, como quem fala de alguém que tem um caso grave de malária e por isso grita coisas sem
nexo.
- Você não tem nada a dizer, gbo, Jaja? - perguntou Papa novamente.
- Mba, não há palavras em
minha boca - respondeu Jaja.
- O quê?
Havia uma sombra
enegrecendo os olhos de Papa, a mesma sombra que estivera nos olhos de Jaja. Medo. O medo deixara os olhos de Jaja e entrara nos de Papa.
- Não tenho nada a dizer -
disse Jaja.
- O suco está bom... - Mama
começou a dizer.
Jaja afastou a cadeira da
mesa e se levantou.
- Obrigado, Senhor. Obrigado, Papa. Obrigado, Mama.
Eu me virei espantada para
ele. Pelo menos Jaja estava agradecendo da maneira correta, como sempre fazíamos após uma refeição. Mas também estava fazendo uma coisa que nunca fazíamos: deixando a mesa antes que Papa fizesse a oração de depois das refeições.
- Jaja! - exclamou Papa. A sombra cresceu, tomando
conta do branco dos olhos dele. Jaja estava deixando a sala de jantar com seu prato. Papa fez menção de se levantar e então desabou de volta na cadeira. Suas bochechas penderam como as de um buldogue.
Peguei meu copo e olhei o
suco, amarelo e aguado como urina. Bebi tudo de um só gole. Não sabia o que mais podia fazer. Em toda a minha vida aquilo jamais acontecera, nunca. Tive certeza de que os muros da nossa casa iam desmoronar e esmagar as plumérias. O céu desabaria. Os tapetes persas que se estendiam sobre o chão brilhante de mármore iam encolher. Algo ia acontecer. Mas a única coisa que aconteceu foi que eu engasguei. Meu corpo começou a sacudir por causa da tosse. Papa e Mama correram para mim. Papa bateu em minhas costas enquanto Mama massageava meus ombros, dizendo:
- O zugo. Pare de tossir. Naquela noite fiquei de
cama e não jantei com a família. Continuei a tossir, e a pele das minhas bochechas queimava as costas da minha mão. Minha cabeça doía, pois dentro dela havia milhares de monstros brincando de jogar alguma coisa um para o outro, que, em vez de ser uma bola, era um missal de capa de couro. Papa veio até meu quarto; meu colchão afundou quando ele se sentou, passou a mão em meu rosto e me perguntou se eu queria mais alguma coisa. Mama já estava preparando ofe nsala para mim. Eu disse que não e ficamos de mãos dadas em silêncio por um longo tempo. A respiração de Papa sempre era barulhenta, mas agora ele ofegava como se estivesse sem ar, e eu me perguntei o que ele estaria pensando, se ele estava correndo dentro da sua mente, fugindo de alguma coisa. Não olhei para ele, pois não queria ver os pontinhos vermelhos que se espalhavam por cada centímetro de seu rosto. Havia tantos que sua pele parecia inchada.
Mama trouxe um pouco de
ofe nsala para mim mais tarde, mas a sopa aromática só me deixou enjoada. Depois de vomitar no banheiro, eu perguntei a Mama onde Jaja estava. Ele não tinha vindo me ver depois do almoço.
- Está no quarto dele. Não
desceu para jantar.
Mama acariciava minhas
tranças; gostava de fazer isso, traçando com os dedos a forma como tufos de cabelo de diferentes partes de meu couro cabeludo se misturavam e permaneciam juntos. Ela ia trançar meu cabelo apenas na semana seguinte. Meu cabelo era grosso demais; voltava a ser um feixe denso assim que ela passava o pente por ele. Tentar penteá-lo agora só enfureceria ainda mais os monstros que já estavam na minha cabeça.
- Você vai comprar
estatuetas novas? - perguntei.
Eu podia sentir o cheiro de
giz do desodorante de Mama debaixo de seus braços. Seu rosto marrom, que seria perfeito se não fosse pela cicatriz recente em sua testa, não demonstrou emoção.
- Kpa - disse ela. - Não vou
comprar novas.
Talvez Mama soubesse que não ia mais precisar das estatuetas; que quando Papa atirou o missal em Jaja, não foram apenas elas que se quebraram, mas todo o resto.
Só agora eu percebia isso,
permitindo-me pensar naquela possibilidade.
Fiquei deitada na cama
depois que Mama foi embora, deixando minha mente remexer o passado, pensando nos anos em que Jaja, Mama e eu falávamos mais com nosso espírito do que com nossos lábios. Até Nsukka. Nsukka começou tudo; o jardinzinho de tia Ifeoma perto da varanda de seu apartamento em Nsukka começou a romper o silêncio.
A rebeldia de Jaja era como
os hibiscos roxos experimentais de tia Ifeoma: rara, com o cheiro suave da liberdade, uma liberdade diferente daquela que a multidão, brandindo folhas verdes, pediu na Government Square após o golpe. Liberdade para ser, para fazer.
Mas minhas lembranças não
começavam em Nsukka. Começavam antes, quando todos os hibiscos do nosso jardim da frente ainda eram de um vermelho chocante.