História da Grécia

José Fernandes Costa · Capítulo 8 de 16

Páginas do PDF

História da Grécia

Capitulo VI

Batalhas de Platéa e de Mycale. —Na Thessalia ficaram trezentos mil homens, sob o commando de Mardonio, para effectuarem a submissão da

Grecia. Passado o inverno, desceram atravez da Beocia; devastaram a Attica, de

novo abandonada pelos confederados; e occuparam Athenas, quasi completamente em ruinas e deshabitada. Mas, na grande batalha de Platéa (479), os Gregos, commandados pelo espartano Pausanias, o qual tinha sob as suas ordens Aristides, general dos Athenienses, obtiveram sobre o exercito inimigo, tres vezes superior em forças, uma victoria tão completa que a maior parte dos inimigos, incluindo o seu general, ficaram no campo de batalha.

Apenas 40:000 homens tornaram a atravessar o Hellesponto.

No mesmo dia d'esta assignalada batalha, a esquadra grega, commandada pelo

rei espartano Leotychidas, derrotou a esquadra persa em frente do promontorio de Mycale, na Asia-Menor. Xantippo, pae de Pericles, commandante dos navios

athenienses, teve uma parte importante na gloria d'esta grande acção naval.

CAPITULO VI

HEGEMONIA DE ATHENAS

Reacção da Grecia sobre a Asia. —Depois d'estas victorias, Aristides fez acceitar aos alliados a idéa de uma liga permanente contra a Persia; e decidiu as ilhas e os portos gregos a concluirem uma alliança com os Athenienses (476), obrigando-se a fornecerem dinheiro e navios para a continuação da guerra. O

centro da Liga estabeleceu-se em Delos, e aos Athenienses coube a gerencia financeira da associação e o commando da esquadra commum.

Uma tendencia irresistivel impellia os Gregos para a Asia. Apenas a invasão

fôra repellida e logo os Athenienses retomaram Sestos e o Chersoneso da Thracia. Em 477, a esquadra, commandada por Pausanias, apoderou-se de Chypre e de Byzancio, e chamou á liberdade as cidades gregas da Asia.

O contacto com os povos do Oriente causou a perda do general{41} espartano

Pausanias. Este, quando tomou Byzancio, aprisionou alguns persas de elevada gerarchia, entre os quaes se contavam alguns parentes do Rei. Pausanias restituiu-os a Xerxes, contra vontade dos outros confederados, e mandou prometter ao Rei da Persia que o auxiliaria a combater Esparta e a dominar a Héllada, mediante a condição d'elle lhe dar uma filha em casamento e de o fazer governador do Peloponeso. O Rei da Persia acceitou a proposta, e Pausanias tornou-se tão arrogante que chegou a esquecer as leis e os costumes de Esparta.

Adoptou o uso de vestuarios magnificos, intregou-se a excessos de mesa, tomou

para seu serviço creados médos e egypcios, tornou-se odioso pela sua altivez, fazendo a auctoridade espartana detestada. Chamado a Esparta, continuou a manter intelligencia com Xerxes e a preparar os meios de se apoderar do poder absoluto. Sendo descoberta a sua traição, refugiou-se no Templo de Minerva Chalciœcos, d'onde não era possivel arrancál-o sem commetter sacrilegio; e por isso os Ephoros mandaram tirar o tecto ao edificio, e intaipar as portas, deixando-o alli morrer de fome.

Emquanto isto succedia com Pausanias, que, pela sua defecção, fazia perder a Esparta o commando supremo dos alliados,— Themistocles ingrandecia Athenas,

cercando-a de muralhas, construindo o porto do Pireu que se tornou uma cidade, e que posteriormente foi unido a Athenas, que lhe ficava á distancia de 7

kilometros, por dois longos muros concluidos no tempo de Pericles. Attrahiu á Attica, por meio do offerecimento de grandes vantagens, excellentes operarios extrangeiros, e fez decretar que todos os annos se construisse um certo numero de triremes, para assegurar a supremacia maritima da sua patria. Em 474, os seus inimigos politicos conseguiram exilal-o por dez annos, por meio do ostracismo; e os Espartanos, que o detestavam, pelo modo como elle ingrandecêra Athenas,

accusaram-n'o de ter tomado parte na traição de Pausanias, por não o haver denunciado, e citaram-n'o a comparecer perante um tribunal da confederação, cuja presidencia pertencia a Esparta. Themistocles, perseguido, conseguiu a muito custo e atravez dos maiores perigos, retirar-se para a Asia (466) onde o Rei da Persia o recebeu com a maior consideração dando-lhe por apanagio tres

cidades da Asia-Menor. O fim da sua vida foi obscuro.

Cimon e a grandeza maritima de Athenas. —A Pausanias succedeu Cimon,

filho de Milciades, no commando em chefe{42} dos confederados. Era da facção dos Eupatridas, que o oppunham a Themistocles. Comtudo, apezar de aristocrata

e apoiado por elles, estava-lhe reservado o fazer triumphar por toda a parte a influencia da democracia atheniense; imbora adversario de Themistocles, coube-lhe o papel de realizar o pensamento patriotico d'este grande homem.

Começou por expulsar os Persas da sua ultima estação na Thracia, e

conquistou o littoral onde os Athenienses então fundaram Amphipolis; expulsou

os piratas da ilha de Scyros dividindo a ilha por colonos athenienses; percorreu como vencedor as costas da Caria e da Lycia, libertando do dominio asiatico as cidades gregas. Ganhou (em 466) duas batalhas no mesmo dia (uma terrestre, outra naval), nas margens do Eurymédon, o que assegurou a Athenas o imperio

do mar, e tentou uma brilhante expedição contra a ilha de Chypre (460), para arrancál-a aos Persas. Em 458 foi votado ao ostracismo, pelas suas opiniões aristocraticas, que o levaram a oppôr-se ao movimento progressivo da

democracia na cidade. Morreu em Chypre, em 449.

Athenas até á paz de Pericles. —Na lucta com a Persia crescia o poder atheniense, sem proveito particular para os outros povos alliados. Começaram estes a mostrar o seu descontentamento, que Cimon explorou com habilidade summa. Levou-os a substituir o seu contingente de soldados e de marinheiros por um augmento de contribuição para o cofre da Liga em Delos, e a intregarem-lhe as suas galeras vazias. D'este modo desarmou-os, transformando-os de alliados e de confederados em tributarios e em vassallos. Deixou até de os consultar, transportou para Athenas o thesouro hellenico, e dilatou a sua influencia energica até ao governo interno das cidades.

Naxos revoltou-se (463), mas foi castigada e teve de supportar o estabelecimento de uma colonia atheniense; a ilha de Thasos perdeu os seus navios, as suas ricas minas de oiro nas costas da Thracia, e a sua independencia; Egina foi conquistada (457) depois de uma grande lucta, os seus habitantes expulsos e ella repovoada por colonos atticos; Mégara cahiu tambem na dependencia de Athenas; Carystos, na Eubéa, teve a mesma sorte.

Os Espartanos, ciosos da preponderancia dos seus rivaes, preparavam-se para

guerreál-os, apezar da lucta em que andavam com Argos e outras cidades do Peloponeso, quando uma serie de calamidades os feriu. Um espantoso terramoto,

{43} que abalou, a Arcadia e a Laconia, precipitou sobre Esparta um grande desmoronamento do monte Taygeto (465). A maior parte da cidade ficou em ruinas, perecendo vinte mil pessoas.

Os hilotas, crendo favoravel o momento para a sua emancipação, atacaram os

sobreviventes, mas foram repellidos. Dispersando-se e fugindo, ligaram-se com

os Messenios que, revoltando-se de novo, se intrincheiraram no monte Ithoma, começando uma terceira guerra de Messenia, a qual durou dez annos (464-454).

Foi só depois de finda esta guerra, que os Espartanos puderam voltar as suas

attenções para Athenas. Invadiram a Héllada com um formidavel exercito, sendo

o seu fim contrabalançar a influencia de Athenas com o restabelecimento da hegemonia de Thebas sobre as cidades beócias, a qual tinha sido anniquilada durante as Guerras Persicas. Ganharam a victoria de Tanagro (456) contra os Athenienses, commandados por Pericles. Mas, dois mezes depois, Myronidas inutilizou todas as vantagens adquiridas pelos Espartanos, ganhando a batalha de Œnophyta,—batalha que tornou os Athenienses senhores da Phocida, da Locrida e da Beocia.

Chegára, assim, Athenas ao apogeu da grandeza, d'onde em breve tinha de cahir, porque a propria extensão das suas possessões lhe havia de ser fatal.

Romperam dissidencias entre Athenas e Esparta, por causa da intendencia no Templo de Apollo. Os Espartanos queriam-n'a para os de Delphos, seus alliados; os Athenienses, alliados dos Phocidios, sustentavam as pretenções d'estes, os quaes as fizeram triumphar pelas armas. Um exercito espartano restituiu o templo aos primeiros; um exercito atheniense, commandado por Pericles, retomou-o para os segundos (448). Estas excursões guerreiras dos dois povos dominantes, atravez da Beocia, accenderam os odios dos partidos; e os exilados beocios da facção aristocratica puzéram-se em campo, chegando a apossar-se de

várias cidades. Tolmidas, general atheniense, atacou-os com pequenas forças, e foi completamente desbaratado na batalha de Choronea (447). A Beocia cahiu, de novo, sob o poder de Thebas; Mégara e a Eubéa revoltaram-se, e um exercito

espartano, atravessando o isthmo, chegou ameaçador ás fronteiras da Attica.

Pericles comprou a pezo de oiro o general lacedemonio; e concluiu com elle um

tratado em virtude do qual Athenas, para não perder a Eubéa, restituiu todos os pontos de que se havia apossado nas costas do Peloponeso.{44}

As duas cidades rivaes ajustaram uma tregua de 30 annos (445), garantiram mutuamente as suas hegemonias. Assim ficou Esparta com a preponderancia continental; Athenas, com o dominio do mar.