História da Grécia
Noções Mythologicas
No mar do sul: Cythera, antiga colonia phenicia, d'onde talvez lhe proveio o culto da Venus Aphrodite (a Astarte phenicia); Creta ( Candia), com o seu monte Ida, afamada pela legislação de Minos, e com as cidades de Cydonia, de Gortyna, de Cnossa (labyrintho), entre outras, que Homero faz chegar ao numero de cem; Chypre, abundante em azeite e vinho; Rhodes (a Ilha das Rosas) com a celebre estatua de Hélios ( colosso de Rhodes) no porto da sua capital.
No mar de léste ou Mar Egeu, tambem chamado Archipelago, as ilhas eram tão numerosas, que este ultimo nome do mar ficou designando todos em que as
ilhas são muitas, ou, mais restrictamente ainda, todos os agrupamentos de ilhas.
As principaes eram: Eubéa ( Negroponto), com as cidades de Eretria, de Chalcis (ligada á Beocia por uma ponte), de Carysta, afamada pelos seus marmores, e de Oréa; Scyros, pertencente aos Athenienses; Lemnos, celebre pelo culto de Héphaistos (Vulcano); Thasos; Imbros e Samothracia, ambas conhecidas pelo antigo culto mysterioso dos Cabiras; as Cyclades, grupo assim chamado por formar um circulo de ilhas em torno da ilha de Délos, consagrada ao Sol. Em Délos havia o grande sanctuario de Apollo. E entre as outras Cyclades, cumpre
mencionar: Paros (marmores), Andros, Céos, Melos, e Naxos. A léste das Cyclades, ficavam as Sporades, mais ligadas já ao continente asiatico, sendo entre ellas notaveis: Tenédos; Lesbos, com a cidade de Mitylene; Chios; Samos, patria de Pythagoras; Cos, pátria de Apelles e de Hippocrates; Patmos, depois celebre por ahi ter residido o evangelista S. João.
NOÇÕES MYTHOLOGICAS
1.º Theogonia grega. —A Terra ( Gé) gerou por si mesma o Céu ( Urano) e o Mar ( Ponto). Da alliança entre o Céu e a Terra nasceram os Cyclopes e os Titans.
Os cyclopes forjavam os raios. Dos Titans, uns vagueavam pela Terra como o
Oceano, deus marinho, cujos filhos e filhas eram os rios e as fontes, outros esplendiam nas regiões ethéreas ou cruzavam o espaço, como Hypérion (luz primitiva), Théia (claridade diurna), Hélios (sol), Seléné (lua), Eos (aurora), o{8}
céu nocturno com as suas estrellas ( Léto e Astéria), os quatro ventos ( Zéphyro, Bóreas, Noto, Euro); outros representavam os destinos e as tendencias do espirito humano, como Japeto e seus filhos, Atlas, Menecio, Prometheu e Epimetheu ( Prometheu que roubou aos deuses o lume e por isso Zeus o amarrou n'um rochedo onde um abutre lhe devorava as intranhas; Epimetheu, marido de Pandora, de cuja boceta sahiram todas as miserias da Terra ficando-lhe só a esperança no fundo); outros eram as forças amigas ou inimigas da humanidade,
Themis (guarda da ordem legal e moral), Mnemosyne (memoria), mãe das 9
Musas, Hécate, deusa da noite. O mais novo dos Titans foi Chronos, que destronou seu pae, Urano.
Das gottas de sangue cahidas no chão nasceram as Erinnyas ou Euménides ( Furias na Mythologia Romana), e os Gigantes. Da espuma do mar nasceu Aphrodite ou Anadyómena (Venus na Myth. Rom.), a deusa do amor. Da ligação de Gé com o mar proveio Nereu e d'este as nymphas maritimas ou Nereides (aspectos risonhos do mar) e Thaumas, Phorcys, Céto (fenomenos terriveis das ondas). De Thaumas nasceu Iris (o arco iris) e as Harpyas (trombas, redomoinhos). De Phorcys e de Céto vieram as Graias (as tres velhas com um olho e um dente só), as Gorgones ( Stheno, Euryale, e Medusa, tendo serpentes na cabeça em vez de cabellos), as Hesperides (que guardavam os pomos de oiro no Jardim do Occidente). Do filho de Medusa nesceram os espectros Cerbero, Hydra, Chimera.
A Noite deu o ser a estes de influencia mysteriosa ou nociva: o somno, os sonhos, a morte, o destino (Ker), as tres Mœra ( Parcas na Myth. rom.): Clotho, Lachésis, e Atropos.
Depois de Urano reinou Chronos ( Saturno na Myth. Rom.), e o seu reinado foi a edade de oiro, o periodo da felicidade sem nuvens; Zeus ( Jupiter em Roma), seu filho mais novo, foi creado secretamente em Creta, escapando por um artificio materno, no qual tomaram parte os Curetes e as Corybantes, á sorte de todos os outros seus irmãos, pois Chronos devorava á nascença todos os filhos que lhe dava sua mulher Rhéa ( Cybele). Zeus desthronou seu pae e fundou o reinado dos deuses olympicos, depois de um combate contra os Titans e Gigantes (forças revoltas da Natureza), do qual sahiu triumphante, despenhando os seus adversarios no Tartaro, com excepção apenas de Thémis, do Oceano, e de Hypérion.
2.º Deuses olympicos. —O senhor e soberano dos deuses, o deus principal dos Hellenos, era Zeus. O seu culto nasceu em{9} Dodona, no Epiro, extendendo-se
depois á Thessalia e d'ahi á Grecia toda. Acima de Zeus só havia o Destino e as leis invariaveis da Natureza. A mulher e irman de Zeus, Hera ( Juno na Myth.
Rom.) era a divindade feminina do céu, a atmosphera. Presidia aos casamentos.
Suas filhas Hébe e Elithya eram: aquella a deusa virginal que servia o nectar aos deuses antes do rapto de Ganymedes pela aguia de Zeus, esta a deusa que as mulheres invocavam no momento dos partos.
Da cabeça de Zeus sahiu armada Pallas Athené ( Minerva entre os Rom.), a deusa protectora de Athenas. Ao principio, deusa do céu azul que esplende magnificamente sobre toda a Grecia, foi depois a creadora de todas as artes.
Descobriu a charrua e ensinou a plantar a oliveira. Era a guarda das cidades e das instituições publicas.
A sua estatua ( Palladio) tinha culto em quasi todas as cidades gregas, sendo Athenas o seu mais celebre sanctuario. Celebravam-se aqui em sua honra, de quatro em quatro annos, as grandes, e, todos os annos, as pequenas Panathenéas.
Chamava-se égide o escudo de Minerva e n'elle estava a cabeça de Medusa.
De Zeus e de Hera nasceu Héphaistos ( Vulcano em Roma), que seu pae precipitou do céu. Foi o inventor das forjas, isto é, o grande promotor da
civilização. Ajudavam-n'o os Ciclopes, que no Etna e nos outros vulcões forjavam os raios para Zeus.
De Zeus e de Léto ( Latona) nasceram Artemis e Apollo, gemeos, na ilha sagrada de Délos. Apollo, deus radiante da luz ( Phébo) é por isso confundido ás vezes com Hélios, deus do sol. Este deus era um dos mais importantes; o seu mestér era combater a obscuridade e a impureza, e estabelecer a ordem no mundo physico e no mundo moral. Com respeito á vida humana era o
preservador dos males. Sob o nome de Paion foi pae de Asclepios ( Esculapio) que preside á medicina. Como deus das artes e especialmente da musica e da poesia, Apollo dirige o côro das Musas (e recebe então o nome de Musageta).
As Musas eram nove: Calliope (poesia épica), Clio (historia), Euterpe (poesia lyrica), Melpomene (tragedia), Therpsicore (dança choral e canto), Erato (poesia erotica e imitação mimica), Polymnia (hymno sublime), Urania (astronomia), Thalia (comedia e poesia idyllica). Habitavam os montes Hélion e Parnaso nas proximidades de Delphos.
Artemis ( Diana entre os Romanos), irman de Apollo, era a{10} deusa da lua, a divindade das musas e dos oraculos, e presidia á caça. Tinha um celebre templo em Epheso onde era representada como mãe creadora, com um grande numero
de seios. Na Taurida, prestou-se-lhe um culto barbaro, com sacrificios humanos, nos quaes tomou parte a familia dos Atridas ( Iphigenia e Orestes).
Poseidon ( Neptuno entre os Romanos), antigo deus pelasgico, que teve o seu culto primitivo na Beocia e no isthmo de Corintho, culto que passou d'ahi para a Attica e para o Peloponeso, era o deus do mar e governava-o com o seu tridente.
Tinha por companheira Amphitrite, nympha marinha. Foi tambem o domador dos cavallos, e pae de Pégaso, cavallo alado, que nasceu do sangue de Medusa.
Adoravam-n'o em Athenas a par de Athené.
Ares (o Marte dos Romanos) era o deus da guerra e dos combates. Tinha em Athenas uma collina que lhe era consagrada ( Areopago).
Aphrodite (a Venus dos Romanos), era a deusa do amor sensual e da formosura. O seu culto celebrava-se principalmente em Chypre, em Cythera, e em Gnido.
De Ares e de Aphrodite nasceu a Harmonia, divindade de Thebas e esposa do phenicio Cadmo, fundador da cidade.
Ao mytho de Aphrodite está ligado o de Adonis, seu favorito, morto na caça por um javali. Adonis por concessão especial de Zeus ficou vivendo seis mezes
do anno com Aphrodite e os outros seis com Perséphone, rainha das sombras.
Este mytho, de origem phenicia, parece representar o principio vivificante da Natureza: a morte de Adonis durante seis mezes e a sua resurreição n'outros seis é o lethargo da Natureza no inverno e a sua revivescencia na primavera.
O filho e companheiro de Aphrodite, segundo lendas mais modernas, era o pequeno deus do amor, Eros ( Amor, Cupido) cuja amada foi Psyche (a alma). No séquito d'este pequeno deus e de sua graciosa mãe andam as Charites ( Graças), e as Horas, deusas das Estações.
Havia, ainda, entre os deuses supremos, cujo numero subia a doze, Deméter ( Ceres), Hermes ( Mercurio), e Hestia ( Vesta).
3.º Divindades terrestres. — Deméter ( Ceres), a Terra-Mãe, filha de Chronos, era a Natureza fecunda e creadora. Inventou a Agricultura. A Sicilia e Eleusis eram os principaes pontos do seu culto. Sua filha Perséphone ( Proserpina entre os Romanos), raptada por Hades ( Plutão), e vivendo metade do anno sobre a Terra e outra metade no mundo subterraneo,{11} era a imagem da semente interrada durante os mezes do inverno. Em honra de Deméter celebravam-se as
Thesmophorias, as grandes e as pequenas Eleusinas, e as Anthesterias.
Hades ( Plutão) governava o mundo dos mortos, separado do mundo dos vivos por alguns rios, taes como o Styge, o Acheronte, o Cocyto, o Lethes (rio do esquecimento), etc. Sob o nome especial de Plutão era particularmente a divindade dispensadora das riquezas. O mundo subterraneo comprehendia o Elyseu (morada dos justos) e o Tartaro (morada dos condemnados). Era guardado por Cerbero, cão de tres cabeças. Os manes dos que na morte tiveram sepultura atravessavam o rio infernal n'uma barca dirigida por Charonte.
Hermes ( Mercurio entre os Romanos), divindade pelasgica, ligada á agricultura e á vida pastoril, era tambem arauto e mensageiro dos deuses. Tinha azas nos calcanhares, e usava o caduceu, symbolo da inviolabilidade. Era o deus da eloquencia, da circumspecção, da prudencia, e até da finura e da astucia, chegando mesmo á fraude e ao perjurio (isto é, tinha na sua qualidade de arauto olympico todas as prendas da diplomacia e da politica). Attribue-se-lhe a
invenção do alphabeto, dos numeros, da astronomia, da musica, da gymnastica, dos pezos, das medidas, a cultura da oliveira, etc. Estava tambem o commercio
sob a sua protecção.
Dionysos ( Baccho entre os Romanos e tambem entre os Gregos), antiga divindade pelasgica, filho de Zeus e da thebana Seméle, era representante da Natureza no que ella tem de mais opulento, mais luxuriante e activo, e, em especial, deus do vinho. Havia muitas festas em sua honra, particularmente as Bacchanaes, as Dionysias, as Anthesterias, etc.
Os Cabiras, deuses pelasgicos ou phenicios, eram tambem divindades terrestres e symbolizavam as forças productoras da Natureza.
4.º O mundo heroico. —O Alcides Heracles ( Hercules) é a personificação da força e do trabalho humano em lucta com os obstaculos levantados pela Natureza e pelo Destino.
No Peloponeso originou-se o mytho de Tantalo com a sua familia amaldiçoada. Entre os Tantalidas ha a mencionar Pelops, Atreu, Thyestes, Agamemnon, Menelau, e Orestes.
Em Lacedemonia foram venerados como heroes os Tyndaridas, irmãos de Helena, os gemeos Castor e Pollux, e em connexão com elles os Dióscoros, estrellas brilhantes propicias aos navegadores.
O phenicio Cadmo foi o heroe fundador de Thebas. Era irmão{12} de Europa.