História de um Beijo

Enrique Pérez Escrich · Capítulo 28 de 48

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História de um Beijo

Confiança

CAPITULO XVII

 

Quando o conde entrou na carruagem que o esperava á porta, deu ordem que o conduzissem para casa, e deixou-se cahir no assento rugindo de raiva.

—Ah! exclamou falando comsigo. Aquelle insensato julgou talvez que tive medo. E não conheceu o horrivel tormento que me causava o conter-me. Terei que matar outro homem? Não, não, mil vezes não. Consentirei antes que elle me esbofeteie, preferirei fazer saltar os miolos.

Quando o conde chegou a casa, situada na rua do Barquillo, entrou no quarto de vestir de Amparo, que o esperava inquieta e commovida.

—O tal senhor Ernesto, disse o conde, sentando-se n'um sofá, é menos generoso do que suppunhas. Nem quer vender-me o quadro, nem publicar uma communicação em que explique decentemente a natural curiosidade de todos que te conhecem.

—Mas elle não tinha nenhum direito para fazer o que fez, para me pintar n'um quadro com risco de me comprometter, exclamou Amparo tartamudeando.

O conde sorriu-se, e fazendo um movimento de hombros, disse:

—Não pódes calcular o quanto me fez soffrer esse homem. Durante a nossa entrevista, falei-lhe com doçura, com humildade, pedi-lhe que me vendesse o quadro, suppliquei-lhe, e julgando, sem duvida, que as minhas palavras eram dictadas pelo medo, que eu era um cobarde, teve o atrevimento de me{107} dizer que se não ficava satisfeito com a sua negativa, o assumpto liquidava-se d'outra maneira entre homens. Desgraçado! Necessitei de todo o valor, de toda a força do homem que se não póde bater, depois de ter morto cinco homens, para não o esbofetear na sua propria casa. Mas quem sabe se esse insensato me fará faltar ao meu juramento e terei de matal-o.

—Não, não, Fernando! Não quero que te batas! Não quero que te exponhas! A tua vida pertence-me!

—Mas se esse homem, depois de ter dado pasto a maledicencia com o seu importuno quadro, me insultar na rua, no theatro, n'um passeio, o que hei de fazer senão bater-me?

—Pensa que um duello não serviria senão para augmentar essa maledicencia que nos assusta, esse murmurio que receamos.

—Sim, concordo; mas não vejo outro caminho.

—Dize-me, Fernando, tens confiança em mim?

—Se a não tivesse, estaria como estou, aqui?

—Obrigada, meu amigo.

—Mas a que proposito veiu essa pergunta?

—Porque conheço o bello e nobre caracter de Ernesto.

—Vaes fazer-me algum elogio das suas qualidades moraes?

—Não; vou tranquilizar-te. Ouve. Uma casualidade fez com que eu conhecesse Ernesto em Roma. Depois acompanhou-nos a Florença. Bondoso e illustrado, levou-nos a toda a parte, e não demorou muito que não percebesse que eu lhe não era indifferente. Bem sabes, Fernando, que não tenho segredos para ti, porque o meu coração e a minha vida pertencem-te, porque te amo de toda a minha alma.

—Sim, sim, não tenho duvidas a esse respeito e comprehendo perfeitamente tudo quanto se póde passar entre uma menina e demais formosa como tu e um homem como Ernesto, que viajam juntos. Amou-te, fez-te uma declaração que não regeitaste, já por{108} coquettismo, já por compaixão. Isso é natural nas mulheres, não as censuro; mas ás vezes traz más consequencias. Agora, por exemplo: Ernesto ao voltar a Hespanha, encontra-te casada e julga-se com o direito de fazer a tua e a minha desgraça, e apezar d'isso não tenho a mais pequena duvida de que esse rapaz tem uma boa alma, um generoso coração.

—Dizes bem, é uma desgraça. Tomei aquelles passeios em Florença, por um passatempo, por uma distracção. Aborrecia-me. Ernesto, pelo contrario, julgou que eu o amava como Heloisa amou Abelardo... Lastimo tão funesto engano. E agora auctoriza-me para que meu pae compre o quadro, eu procurarei a maneira, sem faltar aos meus deveres de esposa, de liquidar este assumpto satisfatoriamente, porque nada me interessa tanto como a tua felicidade, meu Fernando.

—Repara, Amparo, que o que me propões é uma imprudencia. Ernesto para ceder aos teus pedidos, póde ser exigente.

—N'esse caso, dir-te-hei: «Fernando, sou tua; o teu amor é a minha vida. Mata esse homem, que me julgou capaz de faltar aos meus deveres.»

O conde soltou um grito, abraçou com enthusiasmo a mulher.

—Ah! disse Amparo, este abraço prova-me que te inspiro confiança, e que annues ao meu pedido.

—Faze o que quizeres; mas fica sabendo que se antes de vinte e quatro horas esse homem não explicar nos jornaes, de um modo satisfatorio para mim, a parecença da condessa de Loreto com a Esther do seu quadro, não me fica outro remedio senão matal-o.

E o conde cumprimentando a esposa, sahiu do quarto.

Amparo ficou por um momento como que oppressa sob o peso da ameaça que o marido acabava de proferir.

Pela primeira vez comprehendeu até onde podia{109} conduzil-a a imprudencia do seu coquettismo em Florença.

Rapidamente lhe passaram pela imaginação as recordações d'aquellas noites passadas com Ernesto no jardim do hotel do senhor Rosales.

—É preciso evitar a todo o transe que se batam. Um desafio entre meu marido e Ernesto produziria um escandalo, e a maledicencia, duvidando da minha honradez, poderia menoscabar na honra do conde. Se isto succedesse, toda a felicidade que agora disfructo desappareceria. Não, não, falarei com Ernesto e supplicar-lhe-hei se tanto fôr preciso.

Amparo deteve-se, como se tivesse commettido alguma imprudencia.

—Mas se lhe peço uma entrevista, continuou, ainda que esta seja com a nobre intenção de evitar uma desgraça, se se sabe que a mulher do conde de Loreto e o auctor do quadro de Esther se viram sem testemunhas, então...

Amparo escondeu o rosto entre as mãos, rompendo em amargo choro, porque comprehendia que por todos os lados sómente encontraria difficuldades.

N'aquelle momento entrou D. Ventura.

—Que é isso? Que tens? Porque choras? Acabo de encontrar o teu marido que me cumprimentou com uma frialdade um tanto importuna. Vou-me convencendo de que os aristocratas quando se casam com a filha d'um plebeu, embora este seja o mais honrado e o mais rico do mundo, sempre julgam que lhe fazem favor. E olha, como isto me desgosta, e caso continue assim, separo-me de vocês, ainda que o não te vêr me amargure a velhice e abbrevie os dias que me restam de vida.

D. Ventura falava rapidamente, dissimulando mal o desgosto que sentia e as lagrimas que lhe começavam a assomar aos olhos.

—Meu querido pae. Creio que nos ameaça uma grande desgraça.

Este grito sahido do peito de Amparo fez empallidecer o pae.{110}

—Uma desgraça! exclamou. E que desgraça é essa?

—Ernesto foi um imprudente ao tomar-me para modelo do seu quadro.

—E é só isso? perguntou D. Ventura que não via motivo para se sobresaltar d'aquelle modo. Se o motivo é o quadro, se não querem que elle continue exposto, comprem-lh'o, e é assumpto concluido.

—Mas elle não o quer vender.

—Ora! Porque não lh'o pagam bem.

—Não, meu pae, não. Ernesto não o vende ainda que lhe offereçam um milhão.

—Pateta! Nem tu nem Ernesto sabem o que é um milhão. Não ha quadro do mundo que valha essa quantia.

—O pae não conhece Ernesto.

—Mas entendamo-nos. Que é que tu queres? Que elle retire o quadro?

—Não é sómente que o tire da exposição, como tambem que publique nos jornaes um artigo, assignado por elle, dizendo que o quadro é do conde, o qual teve o capricho de que Esther fosse o retrato da esposa.

—Pois bem, falarei com Ernesto, e tudo se arranjará.

—Mas Ernesto recusa-se!

—Como! E porque recusa?

Amparo comprehendeu que era preciso revelar tudo ao pae, porque só elle podia valer-lhe n'aquelle apuro, e pegando-lhe carinhosamente nas mãos e olhando-o com doce expressão, disse-lhe:

—Porque Ernesto ama-me; porque tem ciumes, porque ao chegar a Hespanha e encontrando-me casada lhe fugiram todas as esperanças do seu generoso coração, e receio que commetta alguma loucura.

—Diabo! Diabo! Isso é muito differente! E teu marido sabe que Ernesto te ama?

—Suspeita-o, e jurou bater-se com elle, se antes de vinte e quatro horas não ficar completamente resolvida a questão do quadro.

D. Ventura deu um profundo suspiro.{111}

Começava a vêr a questão sob o seu verdadeiro ponto de vista, e receava que tivesse um desenlace fatal.

—Bem vê, meu pae que o meu sobresalto e o meu receio é fundado. Se Fernando e Ernesto se baterem, se algum d'elles morrer...

—Tudo, menos isso. É preciso liquidar esse negocio. Vou falar com Ernesto.

—Negar-se-ha; estou crente. Será mais conveniente que eu lhe fale, mas não na sua casa. É preciso que o papá o chame.

—Não vejo inconveniente. Mas onde? Amparo reflectiu um momento.

—Occupo o meu rez-do-chão d'esta casa; pois bem, escreva-lhe uma carta pedindo-lhe para vir aqui; não a casa do conde de Loreto, mas—á sua.

D. Ventura sentou-se a uma mesa, pegou na penna e disse:

—Dicta a carta.

Amparo pensou alguns instantes. Depois disse:

 

Senhor Ernesto Alvarez

«Meu bom amigo

«Peço-lhe para que tão depressa receba esta carta tenha a

bondade de me vir procurar em minha casa pois desejo falar-lhe de um assumpto da maior importancia.

«Julgo inutil participar-lhe que moro no rez-do-chão, onde o

espero, confiado em que se apressará em satisfazer o pedido de um amigo que tanto o estima.

 

Sempre seu amigo,

D. Ventura de Aguillar.»

 

Fechada a carta, enviou-a immediatamente por um creado.

Depois, D. Ventura e a filha desceram para o rez-do-chão.

—Agora, meu pae, disse Amparo, só lhe peço que{112} quando vier Ernesto me deixe a sós, com elle, mas é preciso que, detraz d'aquelle reposteiro, seja testemunha da nossa entrevista.