História Social da Tuberculose e do Tuberculoso

Claudio Bertolli Filho · Capítulo 11 de 16

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História Social da Tuberculose e do Tuberculoso

7. Na senda dos tisiologistas

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Na senda dos tisiologistas

 

Fixado o cenário geo-histórico das ilhas sanitárias, talvez ainda não seja o momento de retomar a trajetória de vida e de morte dos doentes do peito. Isto porque, antes de voltar aos personagens privilegiados da história social dos enfermos, torna-se necessário retocar a imagem dos atores secundários – mas não menos importantes – que também emprestam tensão à trama orquestrada pela Peste Branca. Nesta cirurgia, o agrupamento médico, que até aqui apareceu sob o manto da entidade corporativa e dos debates doutrinários, merece destaque.

A combinação da perspectiva fincada no cotidiano público com o olhar que espreita a esfera da intimidade hipocrática favorece a pluralidade de questionamentos sobre as possibilidades e os limites clínicos e cirúrgicos de combate à moléstia pulmonar. Para além dos códigos de discrição e ética ensinados pela academia médica, revelam-se, afinal, homens que, empenhados em curar e lucrar por meio deste trabalho, acumulavam alegrias e frustrações próprias daqueles que dispunham de estratégias e armas de alcance sempre duvidoso para duelar com um inimigo que parecia infinitamente mais poderoso.

 

A opção tisiológica

Conhecer a motivação que conduzia o facultativo recém-graduado a optar pela ‘perigosa’ área da tisiologia consiste na primeira operação para o entendimento da vida do médico que, usualmente, repartia suas atividades entre a prática sanatorial e o consultório particular. Isso porque era moeda corrente nas décadas passadas – como até hoje – a idéia de que o trabalho clínico-cirúrgico junto aos pacientes portadores de enfermidades infecto-contagiosas constituía-se em tarefa de risco considerável, podendo o profissional de saúde transformar-se em vítima da doença que buscava combater.

Além disso, a condição moralmente pervertida conectada à imagem dos consuntivos certamente se revelava em fator auxiliar de desencorajamento, fazendo o candidato à especialização hesitar e até desistir dos compromissos de aprimoramento neste setor da medicina.

Uma análise precipitada permitiria concluir que a escolha pela tisiologia encontrava fundamentos exclusivos em um punhado de motivos perenemente recitados pela corporação dos esculápios. Nesse processo, o juramento misericordioso de prestar assistência aos enfermos mais graves se uniria aos desafios propostos por uma área frágil em conhecimentos e recursos salvadores; em contrapartida, o médico teria à sua disposição uma clientela cativa, sendo que pelo menos uma parte dos pacientes retribuiria prodigamente aos serviços prestados pelo facultativo.

As histórias de vida – conceito assumido neste livro de forma livre, independente das propostas indicadas pelos estudiosos desta técnica – de inúmeros especialistas em moléstias pulmonares fazem aflorar um dado comum que garante o caráter peculiar da comunidade dos tisiologistas: a maior parte dos doutores que se propuseram a combater o Grande Mal nutria convívio íntimo com a tuberculose, não apenas como agente sanitário, mas também como vítima imediata da infecção.

Aloysio de Paula, Raphael de Paula Souza, Rodolfo dos Santos Mascarenhas, Ruy Dória, Nelson D’Avila, Januário Miráglia, Clovis Correa, Miguel Covello Junior, João Pedro Além, Vicente Marcilio, Manoel Puerta Junior, Alberto Cavalcanti, Mario Capper Alves de Souza, José Feijó, Ivan de Souza Lopes e João Baptista de Souza Soares são alguns dos médicos que, atuantes nos anos 30 e 40, sofriam no próprio corpo os dolorosos efeitos do germe de Koch. Entre alguns discípulos de Hipócrates, tornou-se fato comum referências sobre o que era denominado ‘minha tuberculose’, especialmente quando os clínicos teciam mensagens orientadoras para os pacientes infectados. O tisiologista Alberto Cavalcanti foi um dos fimatosos que se arvorou em modelo a ser imitado por sua clientela e pelos leitores do seu livro de orientação aos pectários. Após discorrer sobre sua trajetória de fraco do pulmão, o Dr. Cavalcanti questionava seu público: “Lendo êste capítulo, escrito, com otimismo, por quem já conheceu de perto a tuberculose, como doente e como médico, participará o leitor dêste otimismo? Ou julgará mais acertado manter a dúvida e o pessimismo?” (1935:22).

Segundo os fragmentos autobiográficos registrados nos livros dirigidos aos enfermos leigos, o caminho percorrido pelos clínicos contaminados correspondia aos percursos corriqueiros a todos os consuntivos. Descoberto o estado infectado próximo ao encerramento do curso de medicina ou logo após o juramento exigido pela Academia, as alternativas vislumbradas para o encaminhamento da vida eram estreitas: abandonar a carreira médica ou internar-se em um sanatório, para, no recolhimento hospitalar, aprender minuciosamente a prática tisiológica e, ao mesmo tempo, tratar dos pulmões contaminados.

Entre uma e outra via, alguns médicos preferiram afastar-se da profissão, dirigindo-se para as montanhas exclusivamente para tentar a cura. Assim aconteceu com Jamil Almansur Haddad que, diagnosticado consuntivo em meados da década de 30, reuniu forças suficientes para completar o curso na Faculdade de Medicina de São Paulo, recebendo seu diploma em fins de 1938. Pertencente a uma família de ricos industriais e comerciantes, o Dr. Jamil recolheu-se em Campos do Jordão, preenchendo o tempo cobrado pelo tratamento com a produção de composições poéticas. Ao recuperar a saúde, o escritor retornou para a capital dos paulistas, dedicando-se à docência no Departamento de Letras da Universidade de São Paulo.

Contrariando a opção assumida por Almansur Haddad, outros esculápios preferiram dedicar-se ao tratamento de seus companheiros de enfermidade. Nessa condição, somavam-se elementos ambíguos em um único personagem, já que a liberdade normatizadora conferida aos tisiologistas pouco se afinava com o cerceamento imposto à clientela, tão contaminada quanto o próprio médico.

A trajetória do médico Manoel Puerta Junior (P. 1107) é um exemplo do encaminhamento existencial imposto aos clínicos fimatosos. Nascido em Jaboticabal, no ano de 1915, Puerta Junior foi enviado pelo pai – fazendeiro abonado – para graduar-se em medicina no Rio de Janeiro, regressando ao seu município de origem no verão de 1939.

Engajado nas tarefas de clínico geral e administrador dos negócios da família, em setembro do ano seguinte, o Dr. Manoel começou a padecer de fraqueza e tosse contínua, atribuindo tais sintomas ao agravamento da bronquite que o acompanhava desde a infância. Porém, “no dia 18 de novembro [de 1940] às 9 1/2 da manhã teve tosse com escarros hemoptoicos e diarrea” (P. 1107). Ato contínuo o doente consultou um colega de profissão, o qual concluiu “não ser nada pulmonar”. Desconfiado do diagnóstico apresentado, ainda no mesmo dia o enfermo submeteu-se a um exame radiológico, descobrindo então que seus pulmões estavam comprometidos pela tuberculose. Após um mês de tentativas de tratamento em domicílio e percebendo estar piorando, o pectário transferiu-se para a cidade de São Paulo, sendo encaminhado ao sanatório do Jaçanã pelo seu amigo, o tisiologista João Grieco.

O paciente permaneceu apenas três meses na casa de saúde paulistana. Acompanhando a tendência comum entre os internados no Hospital São Luiz Gonzaga, o médico infectado pediu alta, transferindo-se por conta própria para um nosocômio jordanense. A melhora pulmonar alcançada durante a estada na Serra da Mantiqueira permitiu que o Dr. Manoel voltasse a residir com seus pais, a partir dos fins de 1942. Mas, transcorridos seis meses desde o retorno para Jaboticabal, novamente o consuntivo bateu à porta do Sanatório do Jaçanã, informando ter sofrido recaída, sendo imediatamente submetido à intervenção cirúrgica (P. 3712).

No tempo que permaneceu em sua residência, é bem provável que o clínico tenha infectado seu pai, o espanhol Manoel Puerta (P. 2442). Isto porque, na primeira internação, o médico tuberculoso havia declarado que seus progenitores “gosavam de plena saude”, sendo que, em fevereiro de 1945, o fazendeiro veio se juntar ao filho, apresentando uma tísica disseminada que o levaria a óbito nas primeiras horas do dia 12 de abril do mesmo ano, apenas quatro meses após sentir os primeiros sintomas produzidos pelo bacilo de Koch.

O trauma gerado pela morte paterna combinou-se com a piora do estado de saúde do médico fimatoso, fazendo o Dr. Puerta Jr. manter-se no hospital filantrópico por mais de três anos consecutivos. A anotação prontuarial do nome do paciente antecedido pelo título acadêmico que lhe havia sido conferido pela escola médica carioca revelava-se como o reconhecimento grupal do status diferenciado do enfermo, originando uma situação atípica e constrangedora, em que inevitavelmente se defrontavam forças contraditórias. Por óbvio, os funcionários do sanatório tendiam a repetir a conduta padrão frente aos hóspedes tuberculosos, enquanto o grau de doutor e a riqueza familiar levavam este consuntivo a não ser identificado integralmente aos demais enfermos do isolamento sanitário.

Frente a este dilema, a tendência dos sanatórios era integrar os eventuais pacientes titulados como membros secundários das equipes médicas. A partir do mesmo ano em que se iniciou o segundo internamento do clínico consuntivo, o nome do Dr. Puerta Jr. passou a constar da lista de facultativos que atuavam no Hospital do Jaçanã, o que lhe abriu oportunidade para ganhar reputação, inclusive como autor de inúmeros estudos sobre as técnicas empregadas nas cirurgias torácicas. A experiência íntima com a tuberculose transformara o clínico em tisiologista.

Não só o contágio na primeira pessoa levava os estudantes de medicina a optarem pela especialização pulmonar. A presença mortífera da Peste Branca na órbita doméstica também se impunha como elemento incitador no instante decisivo do destino profissional.

Eduardo Etzel – que uniu as atividades de tisiocirurgião em São Paulo e em São José dos Campos com o posto de catedrático da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo –, ao fazer a avaliação de sua trajetória de vida, parece que não teve dúvidas ao afirmar que seu encaminhamento para a tisiologia deveu-se muito à morte de Roberto, irmão mais velho e rival, cuja existência foi ceifada pela enfermidade pulmonar:

No meu inconsciente a morte de meu irmão foi a concretização

do meu ódio contra o esbulho do amor materno. Ódio desperta

culpa pela imaginária destruição do irmão, resultando a defesa

psicológica que conduz a variadas atitudes na vida real. (...) A

mencionada curiosidade infantil obsessiva e a culpa pela

doença e morte de Roberto teriam suas compensações no

exercício da profissão: tornei-me um pesquisador em todos os

ramos da medicina por que passei e logicamente um

especialista no tratamento da tuberculose. (Etzel, 1987:34)

 

Na trilha da precariedade

A escolha pela tisiologia colocava o médico iniciante em contato com uma realidade que o surpreendia, principalmente porque o arsenal clínico-cirúrgico disponível pela especialidade padecia de lacunas bem maiores que outros ramos da medicina. Tal averiguação contrastava com os discursos oficiais, pois as falas corporativas no Brasil, reproduzindo o tom ufanista de Vargas, insistiam em afirmar para o público leigo que a tisiologia estava plenamente capacitada para tratar e curar os consuntivos cuja enfermidade ainda não tivesse assumido decurso agudo.

Neste idealizado contexto, os graduandos de medicina abandonavam os bancos universitários tendo parcas noções sobre as características e o funcionamento da tuberculose, esperando encontrar no ambiente sanatorial conhecimento e condições materiais apropriadas para cumprir a tarefa de assistência aos infectados.

No entanto, os relatórios assinados pelos diretores clínicos de várias casas de saúde deixavam claro que os sanatórios padeciam da falta de quase tudo: médicos em número suficiente, harmonia e integração entre os funcionários, aparelhos de Raios X, instrumentos em condições de uso, mesas cirúrgicas, microscópios, cobaias, camas hospitalares, escarradeiras, urinóis e roupas para os enfermos eram alguns dos itens constantemente mencionados. Mais ainda, um antigo funcionário de um sanatório filantrópico confidenciou que, durante os anos marcados pela Segunda Guerra Mundial, chegou a escassear até mesmo alimentação, impondo o racionamento da comida que era servida aos albergados.

A postura defensiva dos administradores hospitalares, fugindo à lógica, avaliava que as limitações das atividades sanatoriais deviam-se basicamente à formação precária e à falta de empenho dos profissionais da saúde. Por isso, os tisiologistas eram colocados sob suspeição, tornando-se regra as avaliações que responsabilizavam os médicos e seus auxiliares diretos pelas altas taxas de acidentes cirúrgicos e de mortalidade que imperavam nos nosocômios que assistiam os consuntivos (Paula, 1949).

Destituídos de amparos institucionais favoráveis, os facultativos interessados em aprofundar seus conhecimentos também não encontravam o incentivo dos braços governamentais, tornando a tisiologia nacional isolada e defasada em relação àquela praticada nos centros médicos estrangeiros. Para fugir a este dilema e também para se afastar das disputas por postos acadêmicos que agitavam os sanatórios com ligações universitárias, muitos médicos tentaram obter bolsas de estudo no exterior, onde os facultativos tuberculosos poderiam inclusive consultar os líderes mundiais da especialidade.

Seguindo a estratégia de buscar aperfeiçoamento em outros países, Eduardo Etzel foi premiado com o auxílio da Fundação Guggenheim para seguir os cursos ministrados no Centro Hospitalar de Ann Arbor, vinculado à Universidade de Michigan. Nos Estados Unidos, o Dr. Etzel permaneceu durante os anos de 1940 e 1941, revelando sua perplexidade frente às técnicas empregadas pelos norte-americanos:

Quando cheguei [ao hospital americano] já era, bem ou mal, um

cirurgião tanto quanto possível completo. (...) Mas o que vi

estarreceu-me e me fez pensar que estava num outro mundo.

(...) Tudo me espantava. Soro na veia durante o ato operatório e

sangue também se necessário. Operações lentas, sem pressa

e com um respeito quase religioso à integridade do paciente.

Contagem das gazes e compressas utilizadas, a fim de evitar

esquecimento. Aspiração para retirada de sangue no campo

operatório, sutura com fio de algodão por mim desconhecido,

enfim, tudo novo, melhor e diferente. (Etzel, 1987:131)

Pode-se supor que os olhos do bolsista estivessem contaminados pela ideologia norte-americana que, durante a Segunda Guerra Mundial, intensificou a campanha divulgadora dos Estados Unidos como a nação do progresso e da sofisticação científica. Mas não eram só os ‘irmãos do norte’ que impressionavam o Dr. Etzel. De regresso ao Brasil, o tisiocirurgião foi convidado a proferir uma série de conferências na Argentina, mostrando-se novamente irrequieto com a baixa qualidade da medicina praticada na sua pátria:

Lá chegando e observando os serviços de cirurgia de alguns

hospitais, tive, só então, o choque profundo de ver o atraso do

Brasil em cirurgia. Encontrava na Argentina um ambiente

equivalente ao que tanto me havia surpreendido nos Estados

Unidos. (...) [No Brasil] tudo era adverso, nossa enfermagem

era selvagem, representada antes pelo avental branco do que

pelo conhecimento. (1987:135)

Frente a todas estas limitações, a tisiologia nacional mostrava-se constrangedoramente precária no cenário de uma especialidade por si mesma repleta de críticas lacunas. A possibilidade de obtenção de melhora ou de cura dos pectários era ainda mais reduzida que em outros países, mesmo se o paciente pagasse regiamente pela assistência médica recebida.

Quanto aos clínicos, estes se perdiam frente à multiplicidade de especulações terapêuticas, fomentadas tanto no Brasil quanto no estrangeiro. Com as dúvidas que foram se acumulando em torno da eficiência do tratamento com base no ‘clima de altitude’, os tisiologistas voltaram-se para a verificação da potencialidade das drogas apresentadas como curativas dos pulmões infectados.

Um levantamento realizado a partir das propagandas estampadas nas páginas do periódico paulista da especialidade permite saber que, no decênio iniciado em 1935, não menos de duas centenas de medicamentos foram recomendados como de ‘eficiência incontestada’ na recuperação dos tuberculosos. Entretanto, a constatação de que nenhum dos preparados contribuía decisivamente para o restabelecimento da saúde dos pectários coagiu boa parte da comunidade médica a assumir ‘intra-muros’ que, na impossibilidade de curar os fimatosos, os médicos deveriam se resignar ao emprego de estratégias que, pelo menos, pudessem garantir maior tempo de vida aos infectados.

Como regra, a terapêutica sanatorial assentava-se no repouso contínuo e prolongado e no regime higieno-dietético, os quais eram combinados com aplicações de injeções de cálcio e de sais de ouro. Caso estas prescrições surtissem pouco resultado, o passo seguinte era combinar o tratamento inicial com a solução colapsoterápica. Neste encaminhamento, o pneumotórax artificial ganhou larga aceitação a partir da década de 30, consistindo na injeção de misturas gasosas na cavidade pleural do enfermo. Com isso, a medicina acreditava ter possibilidade de controlar o processo infeccioso, por meio do isolamento do órgão doente em relação à parede torácica.

Na situação em que ocorria a impossibilidade da instalação ou manutenção do pneumotórax, a alternativa seguinte consistia na intervenção cirúrgica para forçosamente colocar em repouso o pulmão comprometido. Apesar da máxima que ensinava que ‘a tuberculose não gosta de bisturi’, a tisiocirurgia ganhou o apoio de um grande número de especialistas, granjeando fama para o Sanatório do Jaçanã que, desde a sua fundação, deu ênfase ao tratamento operatório dos tuberculosos.

Em um período no qual a medicina ainda não reunia conhecimentos suficientes para a excisão parcial ou total de um dos pulmões – a pneumectomia só seria tentada no Brasil após 1945 – a colapsoterapia cirúrgica ajustou-se como um dos principais artifícios para interromper o processo infeccioso pulmonar. Apesar da variedade de linhas operatórias, duas intervenções ganharam aceitação generalizada, uma visando aos nervos frênicos, e outra às costelas.

A frenicectomia consiste na secção de um dos nervos frênicos na porção retro-clavicular, podendo em certos casos derivar para o total esmagamento da peça. O objetivo desta operação era levar à paralisação e à conseqüente ascensão da metade correspondente do diafragma, resultando no interrompimento da atividade respiratória do pulmão adoentando, fato que favorecia o retrocesso das cavernas pulmonares.

Na seqüência dos atos cirúrgicos, o pectário poderia também ser submetido à toracoplastia, cirurgia mutilante que se realizava por meio da ressecção de três a cinco costelas, levando o pulmão infectado a ganhar relativa liberdade do arcabouço torácico. Nesta alternativa, a intervenção era extremamente dolorosa, sendo realizada em pelo menos dois momentos distintos. Como resultado, o tuberculoso guardava pelo resto dos seus dias a marca externa da cirurgia, pois a toracoplastia tinha como subproduto a deformação do tórax e o desvio da coluna vertebral, abrindo chances para que o doente ficasse corcunda.

O risco implícito das operações pulmonares ganhava novo peso quando se constata que a avaliação do Dr. Etzel sobre o procedimento cirúrgico nacional não estava afastada da verdade. Anotações sobre a ocorrência de acidentes causados pelo despreparo da equipe médica é uma presença constante nos prontuários do Hospital do Jaçanã.

Dentre tantos casos assinalados, destaca-se o da carioca Iracema de Almeida (P.3617) que, depois de permanecer quase uma década internada no jordanense Sanatório Divina Providência, em maio de 1943 foi encaminhada para o Hospital São Luiz Gonzaga para se submeter à toracoplastia. Realizado os ‘dois tempos’ operatórios, a paciente retornou para a Serra da Mantiqueira, mas pouco depois voltou à casa de saúde paulistana a fim de, mediante nova cirurgia, permitir a “retirada de uma gaze esquecida pelo Dr. Freitas”.

Mesmo quando o trabalho cirúrgico se desenvolvia sem acidentes imediatos, eram grandes as chances da ocorrência de complicações nos dias subseqüentes à operação. O grupo paulista de médicos tisiólogos agregados ao Sanatório do Jaçanã foi o único que divulgou informações sobre o assunto, mesmo assim, limitando suas observações ao estudo das estatísticas referentes à ‘operação de Jacobaeus’, ato relativamente simples e que consistia no secionamento das aderências pleurais que impediam a realização do pneumotórax.

Nestes casos, os dados revelam que, no ano de 1936, cerca de 40% dos enfermos submetidos a este tipo de intervenção apresentaram complicações pós-cirúrgicas, enquanto quatro anos depois a mesma taxa se elevava para 77%. Em ambos os momentos, a explicação fornecida pela equipe médica era única: “a gravidade das lesões tuberculosas” (Nebias, 1937).

O poderio da enfermidade parecia colossal frente aos tênues recursos disponíveis pela clínica e pela cirurgia, resultando no ritmo intenso de óbitos ocorridos no isolamento. A quantificação dos dados registrados nas 3.438 fichas de pacientes internados no Hospital São Luiz Gonzaga entre os anos de 1932 e 1945 permite concluir que 62% dos pectários encontraram a morte nas enfermarias do nosocômio, ressaltando-se que a taxa de mortalidade chegou a 75% nos primeiros anos de funcionamento do sanatório. Índice parecido foi indicado pelo Dr. Alves Corrêa (1949) que, ao verificar a história clínica de mil tuberculosos assistidos pela casa de saúde do Jaçanã desde sua inauguração, concluiu que 65,9% do grupo estudado teve a morte como desfecho do internamento.

Como reagiam os médicos operadores em um contexto em que as dores indizíveis experimentadas pelos pacientes encontravam como resposta a grande probabilidade do fatal fracasso das violentas intervenções cirúrgicas? Neste ambiente, o discurso enganoso que pontificava a capacidade da medicina em recuperar a saúde dos tuberculosos ganhava uma funcionalidade surpreendente. Sim, mentir para si próprio e impor a fantasia ao paciente consistia em arma única utilizada pelos cirurgiões para transpor os momentos críticos vivenciados nas salas de operação.

Ainda são as confidências do Dr. Etzel que revelam a agonia e as palavras mentirosas que povoavam os instantes de desespero:

No final da década de 30, o cirurgião do tórax usava anestesia local com novocaína. A toracoplastia já era feita em vários tempos operatórios com intervalos de 20 a 30 dias. No primeiro tempo, com os tecidos normais, a anestesia local era perfeita, tudo correndo sem maiores sofrimentos. Mas nos tempos subseqüentes, com tecido edemaciado e já com reações fibróticas, a difusão do anestésico era precaríssima, transcorrendo a operação com grandes sofrimentos do paciente.

Era uma luta amarga e cínica entre o cirurgião que dizia para

ter paciência, que era apenas sensação de tato e não de dor, e

o pobre infeliz que gemia com toda razão do mundo.

Caricaturando, seria como dizer ao paciente ‘você pensa que

dói, mas não dói’. Mas a operação tinha que ser feita, pois a

anestesia geral pelo éter, em caso de doença pulmonar, estava

fora de cogitação. Era operar e tentar a cura ou deixar morrer

pela progressão da doença. (Etzel, 1987:127)

A estratégia do engodo não era exclusividade do operador catedrático do Hospital do Jaçanã, que não se fazia de rogado para ensinar o uso da mentira aos seus pares. As lições de fantasia foram aprendidas inclusive por um quintanista de medicina, que em 1935 foi escalado para estagiar no sanatório paulistano da Santa Casa. Meio século depois de servir como auxiliar do Dr. Etzel, o antigo residente de cirurgia confidenciou que, ao proceder a abertura do tórax de um paciente, fingia estar exercitando sua arte no cadáver de uma cobaia qualquer, tal como um coelho ou um cachorro. O nome do ajudante de 1935: Dr. Euryclides de Jesus Zerbini.

 

A percepção clínica do paciente

Da mesma forma que a Peste Branca, o ensino dos códigos que regiam a relação entre o facultativo e sua clientela constituía-se em tópico que parecia despertar pouco interesse nas academias brasileiras. Na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, por exemplo, o professor Flaminio Fávero reservava uma aula de apenas 50 minutos para apresentar o tema aos sextanistas do curso, indicando como bibliografia de apoio à sua preleção um livro de sua autoria, no qual nenhuma linha era gasta para explorar as condicionantes do encontro entre o profissional da saúde e sua clientela.

Nesta situação, outras disciplinas da mesma escola empenhavam-se em preencher a lacuna aberta pelo mestre de deontologia médica. O professor Antonio de Almeida Prado, responsável pelo ensino de clínica, era um dos docentes que buscava chamar a atenção dos seus discípulos, levando-os às enfermarias da Santa Casa para ensinar-lhes os princípios regentes da anamnese.

Como atividade prática de seu curso, em setembro de 1933, o Dr. Almeida Prado convocou os alunos do quarto ano para visitarem o Sanatório do Jaçanã, já que o tópico estudado naquele período versava sobre o exame dos indivíduos afetados pelas patologias respiratórias. Como material de estudo, o professor selecionou o caso do paciente José Candiá (P. 92), um daqueles tuberculosos que, apesar de fugir do comum biográfico dos tísicos, a medicina situava como o típico doente pulmonar e por isto objeto de fácil explanação pedagógica.

José Candiá era um sitiante sorocabano de 43 anos que dera entrada no Hospital São Luiz Gonzaga no mês anterior. Após informar que o pectário sofria de tísica terminal, o catedrático definiu o doente como homem de “vida promiscua, alcoolatra, fumante inveterado e siphylitico”. Em seguida, o Dr. Almeida Prado chamou a atenção dos estudantes para os principais pontos da história clínica do consuntivo, consultando as informações que anotara numa folha de caderno que foi preservada junto ao prontuário analisado:

Em plena saude começou a sentir-se fraco, fraqueza que

augmentou rapidamente, a ponto de deixar completamente o

serviço em 2 dias, perdendo todas as plantações. Tinha pouca

tosse com expectoração amarela. Foi carregado para S. José

onde Dr. Ivan o examinou. (...) O medico receitou e melhorou

muito. Foi a Guararema, trabalhar em balcão, mas tornou a vida

irregular, passando noitadas em jogos, bebidas e mulheres. Foi

atacado então de tosse muito extensa, com abundante

escarros, escarrando um dia laivos de sangue. Começou então

a sentir febre a tarde um arrepio e dor de cabeça. Suores

abundantes e emagrecimento rapido. (P. 92)

A apresentação inicial do tuberculoso como indivíduo marcado pela promiscuidade chamou a atenção dos aprendizes dos segredos da clínica. O termo em questão era a chave para o entendimento hipocrático dos tísicos, sendo palavra de emprego corrente nos ensaios especializados.

A necessidade de conferir contornos inteligíveis ao evento patológico e à existência enferma impôs que o Dr. Almeida Prado, imitando seus pares, lançasse mão das fórmulas concordantes com a tradição cultural que identificava a posição de doente do peito como desdobramento ‘natural’ da existência ‘desregrada’. Segundo esta concatenação de idéias, a vida tuberculosa comportava uma variedade de ‘máculas’, estando dentre elas: dependência do álcool, do tabaco e dos tóxicos, parentesco próximo a pessoas enfermas, homossexualismo, onanismo, fruto de união consensual, deficiência mental, crença na doutrina espírita, criminalidade, ‘tendências revolucionárias’, condição de migrante e de morador em residência coletiva, enfim, todos os ‘desajustes’ que contradiziam as regras de sociabilidade formalmente ostentadas pela burguesia.

Somadas todas estas categorias ‘aberrantes’, revelava-se o que a comunidade médica definiu como sendo a ‘psicologia dos tuberculosos’. Fenômeno de abrangência universal, a concepção de um padrão comportamental exclusivo dos infectados incitou os tisiologistas brasileiros a descobrirem os meandros da personalidade fimatosa por meio da consulta aos estudos estrangeiros, detendo-se principalmente nos textos assinados pelos italianos Bergolli e Sartori (1933). Estes pesquisadores, por sua vez, declaradamente fundamentavam suas observações nos enredos literários, rememorando os ensinamentos de Dumas Filho, dos Goncourt e de muitos outros ficcionistas para, no final de tudo, reiterarem a periculosidade moral e biológica dos consuntivos. Com isto perfazia-se o círculo vicioso que, preso nas armadilhas das composições romanceadas, ampliava o afastamento da medicina em relação à vida concreta dos tributários do Grande Mal.

A proliferação de referências acerca da ‘mentalidade consuntiva’ empolgou alguns médicos brasileiros a imitarem os seus pares europeus, resultando em textos que tinham como objetivo interpretar as ‘atitudes’ produzidas pela infecção kochiana. No ano de 1931, por exemplo, o Dr. Irineu Malagueta, médico carioca do Hospital São Sebastião, declarou que a moléstia pulmonar incitava seus tributários a desenvolverem ‘espirito suspicaz’ e ‘sentimentos egoistas’, dentre outras ‘taras’.

Frente a estes eventos, o clínico prescreveu a intervenção reeducadora sobre os comportamentos afetados, aconselhando seus colegas de profissão a somarem paciência e sinceridade, indulgência e firmeza na tarefa de ‘conversão moral’ dos doentes do peito. Segundo o Dr. Malagueta (1931:86), pouco mais os tisiologistas poderiam fazer pelo ‘bem-estar espiritual’ de seus pacientes: “Fóra dahi, tudo sossobra na grande voragem, mas permanece christãmente, brilhando com a sua luz eterna, a bondade, a amenizar os ultimos momentos dos desgraçados, acenando sempre com as perspectivas illuminadas da esperança”.

O professor e administrador sanitário Aloysio de Paula talvez tenha sido o especialista que mais se empenhou em ratificar a máxima classificadora dos pectários como “os mais difíceis de todos os pacientes”, avaliando os enfraquecidos do peito por meio dos jargões e manobras empregados pelo Estado Novo para desqualificar os grupos contestadores da política social varguista.

Ao dissertar sobre a ‘psicologia consuntiva’ para seus alunos da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, parece que o Dr. Aloysio se esqueceu que poucos anos antes ele havia duelado contra o mal que escavara cavernas em seus pulmões, oferecendo o seguinte esclarecimento:

O fato é que o tuberculoso reclama assistência. É um doente

que quer ser assistido e tratado. Nos indigentes e nos

indivíduos de baixo nível social, as coisas se complicam porque

a estas exigências se agregam situações de revolta e atitudes

subversivas. É preciso nunca perder de vista estes fatos,

porque frequentemente criam embaraços à própria

administração pública. As cartas anônimas, as reclamações

pela imprensa, as campanhas contra os estabelecimentos

medicos e seu pessoal técnico são frutos desta mentalidade.

Um exemplo de todo o dia é que passo a citar e que ilustra esta

mentalidade. Quando um doente deseja ir para um hospital e

não há vaga, frequentemente ele usa o seguinte recurso: deita-

se à calçada do palácio do Governo e ali se converte numa

vitima dos nossos estabelecimentos. Muito leito supranumerário

já tivemos que colocar em nossos hospitais para doentes que,

durante anos, desprezam todas as possibilidades de cura que

nossos médicos lhes ofereciam com insistência e dedicação,

mas que, quando no período final, tornaram-se já difíceis de se

locomover, exigiam um leito de hospital para morrer, não se

importando saber si tal leito não seria mais util a um doente

recuperável e conciente (sic) dos seus deveres sanitários.

(Paula, 1944:25)

Com estes norteamentos, os tisiologistas assumiam seus postos nos gabinetes clínicos, atendendo pacientes ricos ou pobres, brancos ou negros, arredios ou falantes, moribundos ou ainda com leves sintomas da infecção.

A leitura da documentação prontuarial sempre deixa a impressão que os médicos esforçavam-se antes de mais nada em descobrir os grandes mistérios da existência tísica, os quais necessariamente deveriam conter elementos que se afinavam com a categoria ‘promiscuidade’. Nos momentos em que isto acontecia, os facultativos exploravam a informação ao máximo, registrando detalhes dos segredos íntimos confidenciados pelos tuberculosos com um afã tal que o leitor desavisado poderia supor serem dados despropositados e destituídos de interesse para o diagnóstico médico.

Assim aconteceu com o barbeiro bauruense de 28 anos chamado Celso de Souza Poletti (P.98), que deu entrada no Sanatório do Jaçanã em dezembro de 1933. Após concluir o questionamento identificador inicial, o esculápio descobriu que o tuberculoso “tinha luctado na revolta de 24, na coluna de Prestes e na Guerra de 32”, situação que exigiu do clínico o registro detalhado da participação do doente nos conflitos mencionados. Somados os elementos, o facultativo não teve dúvidas em classificar a personalidade do paciente: “hábitos revolucionários”.

A mesma reação dominou a pena do médico que, em abril de 1935, atendeu o confeiteiro Rosendo Souza Dias (P. 318), de 41 anos. A partir do momento em que o clínico anotou que “de 5 annos para cá as glandulas mammarias começaram a si desenvolver e ‘hoje parecem de moça’”, o interrogatório tomou o rumo averiguador da vida sexual do fimatoso, descobrindo entre outras coisas que “o doente sempre teve pouco interesse sexual”, “sofria de siphylis annal” e que “há 15 annos é impotente”.

Os registros de ‘aberrações’ pretensamente associadas ao estado tuberculoso fascinavam os clínicos, instruindo anotações prontuariais marcadas por crimes passionais, suicídios, incestos e brigas sangrentas. Em contato com pacientes que narravam histórias de “desregramento” e violência, os tisiologistas elaboravam relatórios tensos, tais como o que versou sobre a vendedora ambulante Leoncia Rosa Picirillo (P. 242), uma mulher de 32 anos que abandonou a sua residência no bairro paulistano da Freguezia do Ó para dar entrada no Hospital São Luiz Gonzaga, no mês de maio de 1936. Inquirida pelo clínico de plantão, a tísica contou sua história que foi anotada pelo médico nos seguintes termos:

Sofria de bronchite desde a infancia, porem desde maio de

1932, no puerperio de seu ultimo filho, a tosse peiorou e teve

hemoptise (2 litros de sangue). Nesse periodo seu marido

falleceu de accidente e a passiente foi morar com outro homem,

que logo mostrou interesse de se relacionar com a filha da

doente. Em julho de 1933 foi para Londrina, no Paraná.

Aumentou de peso e força e quasi desapareceu o catarro.

Voltou para S. Paulo em janeiro de 1934, tomando então

injecções de Tisiocrysina e xaropes e ficou fraca da ideia e da

memoria (sic). Em janeiro ultimo sofreu forte abalo em casa

porque o marido matou a enteada e suicidou-se; desde aí

recaiu, pois teve de ficar a noite na rua, ao lado de um fogão,

onde vende pasteis.

A descrição dramática repartiu o espaço do prontuário com as informações sobre as condições de saúde da paciente para que, no final, o raciocínio médico pudesse emitir a avaliação clínica da fimatosa. A sentença “hábitos promíscuos” foi inscrita na documentação institucional como resultado articulador da biografia individual e familiar da enferma com a tuberculose bilateral que roubava a vida da infeliz Leoncia Rosa.

A caracterização do doente como indivíduo socialmente pervertido favorecia a instrumentalização dos códigos que deveriam viger nos ambientes sanatoriais. Questionada a lógica do rígido regramento fomentado pelos hospitais especializados, os médicos tendiam a responder por meio de referências caricaturais e generalizadoras sobre a trajetória social e a ‘psicologia’ dos albergados, reafirmando a necessidade de controle intensivo das vidas infectadas.

Os pronunciamentos médicos que seguiam esta linha de entendimento davam novas dimensões às propostas alimentadas pela tisiofobia. Na década de 40, o administrador de um sanatório jordanense idealizou um projeto sanatorial aterrorizante:

Pra mim, o regime sanatorial tinha de ser o seguinte: a pessôa

que sofre desta moléstia deveria ser isolada de tudo e por tudo;

tinha de ser celado numa cela como um cavalo de corrida. O

sanatório deveria ser construido do seguinte modo: cada quarto

teria, no fundo, as necessárias instalações sanitárias; mais no

fundo haveria um corredor que levaria ao consultório médico.

Quando chegasse, o doente entraria diretamente no consultório

e, depois de examinado, passaria por esse corredor e iria para

sua cela, onde ficaria completamente isolado. Na frente das

celas haveria outro corredor que conduziria ao refeitório. Na

hora da refeição, cada doente passaria por esse corredor,

dirigindo-se para o refeitório; no corredor, duas ou três freiras

estariam de vigilância, para evitar que êles se comunicassem, a

fim de não haver qualquer ‘diz-que-diz-que’. (Nogueira,

1945:104-105)

O afã de conhecer a intimidade dos consuntivos mostrava-se uma missão arriscada porque poderia conduzir o médico para o território do inesperado. A tarefa de ouvir sucessivas histórias trágicas freqüentemente levava os discípulos de Hipócrates a se afastarem da cirurgia coisificadora do paciente e da patologia. Nestas ocasiões, a ‘objetividade científica’ perdia força, revelando os laços de terna humanidade que faziam o profissional de saúde e o enfermo fundirem suas indignações e seus prantos.

Quando em um dia de maio de 1944 Maria de Lourdes Gomes (P. 2511), uma adolescente parda de 19 anos, 1,71m de altura e pesando 40 quilos sentou-se à frente da escrivaninha de um anônimo tisiologista, este provavelmente sentiu-se constrangido com a aparência depauperada da cliente.

Ao pedir informações sobre a vida da enferma, a quase-menina confidenciou-lhe sua história: durante seus 13 primeiros anos de vida, ela viveu sob a tutela do Juizado de Menores, sendo então ‘adotada’ por um casal residente na Vila Mariana, que a colocou em casa para servir como empregada doméstica. Há seis meses, Maria começou a tossir e a expelir escarro amarelo, fato que a ‘patroa’ considerou sem importância, mesmo depois que o escarro passou a vir acompanhado de laivos sangüíneos. Nem o aparecimento de forte febre ao entardecer, de suores noturnos, da rouquidão da voz e do emagrecimento acentuado fizeram a ‘patroa’ mudar de atitude, continuando a cobrar da empregada jornadas de trabalho que se estendiam por até 16 horas consecutivas.

Somente quando Maria começou a padecer de sucessivas crises de hemoptise foi que a ‘patroa’ levou a serviçal até o Instituto Clemente Ferreira, onde, além de diagnosticar a tuberculose, um especialista prescreveu a rápida transferência da doente para Campos do Jordão. Contrariando a recomendação, a ‘patroa’ acompanhou a enferma até o bairro do Jaçanã, abandonando-a no portão de entrada do Hospital São Luiz Gonzaga.

Além da tragicidade dos acontecimentos, este relato clínico chama a atenção pelos indícios do horror e reprovação do médico em relação às atitudes tomadas pela ‘mãe adotiva’ da pectária, que chegaria a óbito três meses depois de contar a sua história. A palavra patroa foi repetida quatro vezes no documento hospitalar, sempre entre aspas e, mais do que isto, em letras garrafais e destoantes do resto da composição, deixando a sensação de que o facultativo, solidarizando-se com a paciente, condenava a desalmada moradora da Vila Mariana.

No encadeamento das angústias, os depoimentos de alguns tísicos sensibilizavam os clínicos interpelantes que, por um momento, pareciam rejeitar o perfil psicológico do consuntivo calcado no modelo que lhes havia sido ensinado na Faculdade de Medicina.

Em maio de 1945, o operário Mario Egydio Pereira (P. 4018), acometido por uma tuberculose bilateral escavada, narrou parcela infeliz de sua biografia: estava doente há três anos, época em que sua mãe e sua noiva faleceram, coincidentemente no dia marcado para a realização do seu casamento.

Acometido por ‘febre de delírio’, Mario foi removido para o Manicômio do Juqueri logo após o duplo enterro, recebendo alta poucos meses depois, quando já apresentava sintomas evidentes da infecção kochiana. Acolhido na enfermaria da casa de saúde do Jaçanã, o paciente novamente foi diagnosticado como ‘portador de problemas mentais’, sendo uma vez mais encaminhado ao hospital psiquiátrico e de lá para o sanatório paulistano, onde permaneceu até 1949, ano em que foi transferido para o pavilhão dos tísicos existente no hospício de Franco da Rocha.

No final destas anotações, o tisiologista que preencheu o prontuário referente à segunda internação de Mario Egydio não se conteve, acrescentando no documento: ‘historia triste demais’, e isto com letras trêmulas, talvez disfarçando lágrimas de solidariedade.

Mas, muito mais do que todas estas expressões, a angustiada ternura médica redobrava seu espaço no momento próximo da morte do infectado. Vários depoimentos denunciam os esforços dos clínicos em iludir o paciente sobre seu estado de saúde quando todos pressentiam o desfecho do caso, até mesmo o próprio tuberculoso. A situação tornava-se mais tensa ainda quando o valetudinário – ou a pessoa por ele responsável – pedia alta hospitalar para encontrar o Ceifeiro Implacável no aconchego familiar.

Em dezembro de 1941, a paciente terminal Elizabeth Augusta (P. 2907) rogou, ela própria, liberdade para morrer em sua residência, localizada no bairro proletário do Carandirú, zona norte paulistana. O Dr. Fleury de Oliveira prontificou-se em acompanhar a tuberculosa até a sua residência, permanecendo ao lado da pectária até que ela chegasse a óbito, fato que foi registrado na documentação do Sanatório do Jaçanã como tendo ocorrido “no instante em que os sinos das igrejas festejavam o nascimento do Menino Jesus”.

Mas não era só a dor que pautava o cotidiano sanatorial. Os eventos que passo a contar baseiam-se em um prontuário sem número de identificação e em um depoimento de um clínico aposentado, parente de um dos envolvidos no que se relatará, que o acaso me fez conhecer e que me confidenciou fatos sob a condição de o pesquisador preservar o verdadeiro nome dos envolvidos.

Tudo parece ter começado na manhã de 5 de janeiro de 1933, quando deu entrada no Sanatório do Jaçanã uma moça parda, de 24 anos, chamada Eunice. Sua presença imediatamente chamou a atenção de todos – profissionais da saúde, hóspedes e visitantes – pela “beleza de seu corpo e pelo andar felino”. A tuberculose que reinava em seu pulmão direito “parece que tinha dado um encanto suplementar” àquela mulher de 1,71m de estatura e 54 quilos de peso, conferindo-lhe uma palidez que destacava ainda mais seus olhos cor de mel, fazendo-a parecer, segundo as palavras do médico entrevistado, “uma artista de Hollywood”.

O aspecto singular da tísica contrastava com a aparência desoladora dos demais pacientes assolados pela Peste Branca e, antes dela, pela miséria. A esfuziante beleza da recém-chegada despertou o interesse inclusive do Dr. Carlos, um dos principais tisiologistas do hospital e que estava de plantão naquele dia. Contrariando sua indisfarçável aversão de tomar a história clínica dos pacientes novatos, o médico exigiu para si a tarefa de interrogar Eunice, trabalho que todos os seus auxiliares tinham certeza de que não era tarefa, mas sim privilégio.

Na mesma hora, o Dr. Carlos convocou a pectária para interrogatório, não dando tempo nem mesmo para que ela desfizesse a mala que trouxera para a enfermaria. No consultório, Eunice respondeu às perguntas de praxe, abrindo oportunidade para que o médico se inteirasse de sua trajetória de vida e de sua enfermidade, que, no essencial, pouco destoavam do que tantos outros pacientes apresentavam.

A mão do Dr. Carlos anotou no prontuário que Eunice era a filha mais velha de um total de oito irmãos, tendo vindo à luz no sertão baiano e sido transferida, ainda menina, para a capital daquele estado. No ano de 1929, logo após o falecimento do pai, a paciente disse adeus aos seus e embarcou em um vapor que partia em direção ao sul, mais precisamente para a cidade paulista de Santos. Nesta localidade, Eunice encontrou colocação de doméstica na casa de uma família abonada e logo depois começou a perceber que alguma coisa estava funcionando errado no seu organismo.

O “forte mal-estar” que Eunice sentia foi se tornando cada vez mais torturante, sendo que estes “incommodos” eram interrompidos quando ela permanecia em repouso por longos períodos. Em 1931, o estado de saúde de Eunice piorou, juntando-se aos padecimentos anteriores “forte dor de cabeça e perda de peso”, acompanhados de “tosse, febre, falta de appetite, dôres nas pernas e falta de vontade para trabalhar” e, dois meses depois, “pontadas no hemitorax direito, face posterior, não sendo fortes, nem continuas e sem hora certa para apparecer”. Nestas condições, seu patrão acompanhou-a até o gabinete do clínico geral Manoel Gonçalves, profissional que localizou uma discreta mancha no pulmão direito de Eunice. Diagnosticada a infecção kochiana, a tuberculosa foi enviada para o município sanitário de São José dos Campos, onde o bondoso empregador custeou sua permanência em uma pensão e também o tratamento comandado pelo Dr. Nelson D’Avila.

Eunice ficou apenas três meses na estação de cura do Vale do Paraíba. Neste período, apresentou sensível melhora, o que permitiu à pectária receber autorização para voltar a servir na mesa da família santista. Entretanto, pouco tempo depois de regressar ao trabalho, os “antigos incommodos” voltaram a se pronunciar, fazendo com que uma vez mais o patrão de Eunice despendesse recursos, desta vez para financiar as consultas realizadas no consultório particular do Dr. Clemente Ferreira. Como a paciente não apresentasse indícios de recuperação da saúde até fins de 32, o tisiologista concluiu que só havia um encaminhamento para o caso: o isolamento sanatorial, conseguindo ele próprio uma vaga para Eunice no Hospital São Luiz Gonzaga.

O Dr. Carlos ouviu atenciosamente o depoimento da tuberculosa, anotando cada um dos detalhes que lhe era dito e, com esta ação, teceu um texto que provavelmente constitui-se na mais longa e detalhada história clínica registrada na documentação daquele nosocômio. Findo o depoimento, uma vez mais o médico fugiu à sua rotina na casa de saúde, procedendo ele próprio ao exame físico da paciente, também realizado com uma minúcia sem igual.

O fato de a consulta ter se prolongado por “bem mais de 2 horas” despertou a curiosidade dos personagens que compartilhavam do cotidiano sanatorial, alimentando de imediato os falatórios que tentavam descobrir os motivos que levaram ao alongamento de uma entrevista que, de regra, era testemunhada por outros clínicos e fragmentada em várias sessões.

Parece que o médico e a paciente não se importaram muito com o diz-que-diz que passou a agitar a comunidade hospitalar pois, nos dias seguintes, era comum encontrá-los constantemente juntos, gozando de instantes de privacidade tanto no consultório – onde o médico redigiu um segundo e ainda mais elaborado prontuário sobre sua paciente especial – quanto nas trilhas que partiam do terreno da casa de saúde em direção à Serra da Cantareira.

Sobre o que conversava o casal nos encontros condenados pela ética médica e também pelos indiscretos olhares dos outros clínicos e dos enfermos? Muitas coisas, inclusive sobre a afeição mútua que pouco a pouco ambos foram assumindo, mesmo que timidamente. O Dr. Carlos – que Eunice já chamava apenas pelo nome, desprovido do título – falava sobre ele próprio, retribuindo as confidências que a enferma havia feito meio forçosamente no transcorrer do interrogatório realizado no dia em que chegara ao hospital. Mais do que isto, o médico compôs neste período um segundo prontuário sobre Eunice, avaliando a enferma não pelo prisma da ciência, mas sim pelo da paixão e da sensualidade; no texto encontrado junto ao prontuário clínico, as palavras empregadas despertaram a curiosidade deste pesquisador: “coraçãozinho amado”, “peitinhos em flor”, “minha paciente querida”, “costinhas encantadoras” e várias outras menções provavam o afeto e a intimidade já assumida.

Nos momentos de solidão a dois, Eunice foi se familiarizando com os detalhes da vida do clínico: filho de uma família de médicos, Carlos havia se formado em primeiro lugar na sua turma da Faculdade de Medicina, fato que garantiu o apoio paterno para que ele excursionasse pela Europa e permanecesse um ano estagiando no sanatório do Dr. Jacques Stéphani. De regresso ao Brasil, um de seus antigos mestres na escola de medicina o recrutou para colaborar na organização do sanatório da zona norte paulistana, abrindo a oportunidade para que Carlos – que pouco antes havia superado os primeiros 30 anos de existência – fosse em pouco tempo considerado um dos principais tisiologistas do país.

Junto a estas informações, Eunice também ouviu outras coisas: Carlos havia contraído matrimônio com a filha de um rico industrial e fazendeiro, compondo um casal que ganhara fama pelas festas que organizava e que atraía a nata da elite do estado de São Paulo. Por isso, era fato corriqueiro encontrar fotos dele e de sua esposa estampadas nas colunas sociais das revistas paulistas e cariocas, nas quais invariavelmente eram apresentados como um dos pares mais felizes da alta sociedade bandeirante.

Haveria esperança para a concretização do amor entre o médico e a nordestina pobre e infectada? A resposta veio na tarde de uma terça-feira, dia 30 de maio de 1933. No dia anterior, Carlos e Eunice conversaram mais tempo do que o costume, ficando acertado que no dia seguinte ele viria resgatá-la do isolamento. Tudo já havia sido preparado, inclusive a compra de um discreto palacete no Alto de Santana, área afastada poucos quilômetros do distrito do Jaçanã.

Na manhã daquele dia outonal e decisivo, Carlos dirigiu-se para o seu consultório particular, de onde telefonou para seu “primo mais jovem, amicíssimo e confidente” (o depoente mencionado) e contou o que faria nas horas seguintes, obtendo como resposta o “total apoio” do adolescente que estava postado do outro lado da linha.

Encerrado o expediente matutino, Carlos dirigiu-se para sua residência e, logo após o almoço, comunicou à esposa que “não regressaria naquela noite, nem nunca mais”. Em seguida, arrancou com o Chevrolet preto que ganhara do sogro na data do seu último aniversário, rumando direto para o Jaçanã. No mesmo instante, Eunice, com o coração aos pulos, estava fechando a mala que guardava seus poucos pertences e os mimos que Carlos lhe havia presenteado naqueles poucos meses de idílio. Uma hora depois, o casal se retirava tão precipitadamente do sanatório que as testemunhas do fato acreditaram que o médico havia simplesmente raptado a formosa paciente!

Vencida a surpresa do momento, a comunidade hospitalar percebeu o que na verdade tinha acontecido, e os próprios funcionários da casa de saúde encarregaram-se de espalhar a notícia que estourou como uma bomba. O caso só não chegou às páginas das revistas e dos jornais sensacionalistas porque a família da esposa abandonada comprou a peso de ouro o silêncio da imprensa sequiosa por tornar público o ‘escândalo’.

A administração da Santa Casa, por sua vez, contribuiu para escamotear o ocorrido, coagindo o Dr. Carlos a se afastar temporariamente do nosocômio, assim como fez registrar no prontuário de Eunice que “a paciente ocupante do leito no 18 da enfermaria feminina recebeu alta por não querer se submetter a exames”.

Certamente o leitor está curioso para saber o que aconteceu com o casal apaixonado. Eis a continuidade desta história de amor: Carlos e Eunice viveram juntos o resto de suas vidas, sempre morando na casa situada em Santana e conhecida como ‘castelinho’, estranhamente localizada no mesmo quarteirão em que o autor residia quando ‘descobriu’ esta história. O Dr. Carlos voltou a trabalhar no Hospital São Luiz Gonzaga, além de assumir cargo docente na Escola Paulista de Medicina, enquanto Eunice recuperou a saúde e assumiu as tarefas de dona de casa, dando a luz a um filho que seguiu a profissão paterna. Carlos morreu no final da década de 60, seguido poucos anos depois por Eunice.

No território povoado pela solidão, pelo desespero e pela morte, sobrava espaço para a escandalosa quebra dos protocolos éticos cobrados pela profissão médica. E também para o romance.

As instituições que tinham como meta a capacitação médica na área tisiológica mostravam-se, assim, pólos reprodutores da estigmatização coletiva do agrupamento tuberculoso. A condição de uma parcela substancial dos tisiologistas ser ela própria tributária da Peste Branca favorecia a multiplicação dos paradoxos.

Os clínicos e os cirurgiões treinados para entender os tísicos como tipos sociais desregrados nem sempre obedeciam às orientações imperantes nas escolas médicas, irmanando-se aos doentes nos momentos cruciais de angústia e tensão e, por vezes, mantendo prolongados relacionamentos afetivos com seus pacientes. Ocupando posição ambígua no contexto sanatorial, os tisiologistas padeciam da precariedade de recursos ‘científicos’ disponíveis contra a Peste Branca mas, mesmo assim, apresentavam-se como principal opção para aqueles que procuravam a recuperação da saúde e solidariedade.