História Social da Tuberculose e do Tuberculoso
Prefácio
Mais que Prefácio, um Reconhecimento
Aristóteles dizia que o espanto é uma boa fonte de saber. O livro de Claudio Bertolli Filho, neste sentido, garante essa afirmativa. Valendo-se de uma incrível variedade de documentos, usando-os de maneira fluida e esperta, a construção do texto retraça uma história complexa e provocante, rica em detalhes e integral nas explicações. Pesquisa, paixão e tenacidade fazem deste texto um elogio à competência.
Sem dúvida, é uma história tecida sob as luzes da Antropologia ou talvez um texto de Antropologia alimentado pela perspectiva histórica e que foi originalmente defendido como tese de doutorado na Universidade de São Paulo. Hoje desbastada dos andaimes acadêmicos, o que era mais um teste profissional virou livro de interesse amplíssimo. Como um repertório de referências abertas à Antropologia e à História, além de comprometido com Sociologia, Estudos Biomédicos e Científicos, Cultura Popular e de Massa e ainda com a Crítica Literária, este livro aponta para paradoxos que não se encerram no simplista chavão ‘multidisciplinar’. A erudição na matéria convocou saberes de outras especialidades para compor uma História/Antropologia atualizada em termos de síntese e formulação de um objeto senão novo, pouco estudado.
A leitura fácil enreda níveis de entendimento que arrolam debates cruciais da Historiografia contemporânea. O texto aborda os limites da ação do Estado e das Ciências Médicas na parte que lhes cabe na construção da doença e do doente, a fragilidade das ‘instituições totais’, o acaso como acidente marginal às programações dos profissionais da saúde. Fala também de crenças religiosas, de solidão e desencanto com as instituições. Os fios coloridos desenrolados de linhagens múltiplas tecem um pano de fundo que cobre a organização de classe, os dilemas políticos, a precariedade dos sistemas urbanos brasileiros e a importação de padrões estrangeiros contrastada com um certo localismo resistente aos modelos de tratamento e cura.
Talvez a operação mais difícil cumprida pelo autor esteja no equilíbrio entre o caráter universal da doença, bem como de sua repercussão global, e os limites do tratamento do assunto em âmbito nacional brasileiro que, a todo custo, busca apresentar-se como moderno, afinado com as propostas articuladas pela Medicina e pela Administração Sanitária formuladas nos centros europeus e norte-americanos e, ao mesmo tempo, empreender a difícil tarefa de conferir uma dimensão nacional a tudo que se referia à tuberculose e ao tuberculoso. Não menos sofisticado e pertinente é o cuidado em perpassar o progresso historiográfico calcado na superação da Nova História, da História das Mentalidades e mesmo a fragilidade da História da Vida Privada. Renovando a noção de História Projeto, o autor avança para a História da Vida Íntima e para a Antropologia de Geertz e assim estabelece os vínculos entre pontas opostas do mesmo novelo: as estruturas do Estado e as pessoas, individualmente. O macro histórico contendo o mínimo, individual, ou o micro justificado na estrutura macro funcionam como a realização da proposta de Deleuze em associar o ‘acorde/acordo’ pleno de satisfação no conjunto de relações infinitamente pequenas que se integram na cadeia explicativa dos fatos, das pessoas e da sociedade. Explicações da vida e da morte de uma legião de infectados, assim como das tentativas médicas e políticas de se defrontar com um desafio que colocava em aberto uma sociedade, uma cultura e todo um tempo.
A sedução do texto chega a ser perversa. Mesclando personagens da vida cotidiana, populares anônimos ordinários, com figuras de destaque do mundo político, artístico e científico, vemo-nos, todos familiarizados com nomes, datas, eventos, lugares. Não há como negar o duplo movimento que se exerce durante a leitura deste livro. Caminhando pela senda da lógica narrativa – inteligente, instruída e rápida – evocamos, naturalmente, a memória e assim procedemos a um exercício de lembrança e rememorações que nos joga dramaticamente para a cena dos acontecimentos. E perguntamos: afinal, de quem é esta História? Da tuberculose, do Brasil, dos meus ou seus antepassados familiares?
É preciso dizer ainda que o tema poderia ser enquadrado no âmbito do que tem se reconhecido como ‘História Social da Saúde’. Vale, no entanto, notar que a área médica ou de estudos biomédicos tem proposto um procedimento especular para a análise dos fenômenos sociais: a apropriação dos problemas de saúde como uma forma de contemplar o sistema político em sua expressão maior.
Nesse sentido, como já o fez antes Claudio Bertolli Filho ao ver a gripe espanhola, aponta para os fatores culturais que levam a uma naturalização de aspectos genéricos e os efeitos sociais dessa reversão esculpem uma nova imagem dos possíveis históricos. O mais notável é que nessa operação não se perde de vista o enquadramento historiográfico e conjuntural do problema. Com a tuberculose, fenômeno tão planetário, o cuidado com o tema implicou na recuperação de seus registros de raiz, desde a remota antigüidade até as manifestações mais graves, endêmicas ou epidêmicas, e sua instalação como ponto de conflito entre o político e corpo social contemporâneo.
A utilização dos Prontuários Médicos, em meio a um universo de outros documentos, indica o teor social dos registros que dimensionam tanto o sofrimento do paciente como as mediações que desumanizavam o doente, no caso, o turberculoso no Brasil. A conjugação das fontes documentais permitiu que o alinhavo do texto se desse sobretudo pelo prisma cultural. Fala-se, portanto, de uma cultura que se desdobra em nome da tuberculose, instigando profissionais da saúde – muitos deles reunindo a condição de especialistas científicos e tuberculosos – , infectados e a sociedade em geral repensar suas práticas e inserções no cotidiano sob o amedrontado prisma da Peste Branca. No alinhavo entre o científico e o político, o público e o privado, o individual e o coletivo, o autor confere um sentido inovador à trama cultural em sua dimensão brasileira, desvelando um cenário consistente e esclarecedor da doença, dos doentes e de todos os envolvidos na tragédia regida pela tuberculose.
Por fim, é válido testemunhar uma vocação autêntica. Tendo conhecido o autor como aluno, nos bancos de um curso de História, na graduação, vê-lo transformado em autoridade é mais que uma emoção de professor. Como historiador, aquilatar o trabalho desse estudioso é reconhecer a delícia de ser aprendiz.
José Carlos Sebe Bom Meihy
Professor titular da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências
Humanas da Universidade de São Paulo