História Social da Tuberculose e do Tuberculoso
9. Vozes da tuberculose
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Vozes da tuberculose
“Eu me sentia só. Depois que fui internado, parece que não conseguia mais saber quem era eu próprio. Nem mesmo as brincadeiras dos colegas do sanatório conseguiam me dar um pouco de alegria. Eu era solitário.”
Esta confidência feita por um sobrevivente da tuberculose anuncia que nem mesmo a solidariedade tensa e fraternal que animava a colônia dos infectados oferecia amparo suficiente para atenuar as angústias geradas pela experiência pessoal com a moléstia pulmonar.
Desde que o enfraquecido do peito se vira arrebatado da segurança cotidiana da saúde, sua privacidade fora-lhe pouco a pouco confiscada. Em busca de explicações para o estado infectado, a família, os amigos, os vizinhos, os religiosos e os médicos uniam esforços esmiuçadores da vida do tuberculoso, reduzindo-a a objeto de indagações públicas que tentavam elucidar o processo existencial que transitara da saúde para a enfermidade.
O isolamento sanatorial constituía-se no momento consagrador de um rito de passagem que confirmava a descaracterização individual dos tísicos. A padronização exigida pelas teias hospitalares encontrava desdobramento na ética comportamental cobrada pela irmandade dos fracassados, colocando em questão a identidade pessoal dos fimatosos.
Impregnados pela multiplicidade de códigos fomentados pela segregação institucional, os asilados tendiam a perder os parâmetros de reconhecimento da própria vida. Os sentimentos de abandono e desalento ganhavam dimensões ainda mais flagrantes quando os pacientes mais pobres eram enquadrados na categoria da indigência. A surpresa dolorida de se ver reduzido a tal rótulo levava os contaminados a se insurgirem, procurando ao máximo fugir da degradação social resultante da sinistra combinação entre moléstia e miséria.
Após ter testemunhado a dilapidação da riqueza familiar e de acompanhar as mortes do irmão e do pai, o jornalista Nelson Rodrigues defrontou-se com a tísica, sendo sustentado pelo salário simbólico que lhe era dado pelo seu patrão, Roberto Marinho. A escassez de dinheiro levou o futuro dramaturgo a buscar tratamento gratuito na Serra da Mantiqueira, sendo que a classificação de paciente financiado pela filantropia foi assim recebida pelo memorialista:
— O Brown diz que você não pode pagar nada. Você não pode
pagar? Um escrúpulo doeu em mim; mas tomei coragem e
respondi, vermelho, mas firme: — Não posso pagar’. [O
tisiologista] Hermínio enfiou as duas mãos nos bolsos do
avental: — Você vai ficar na enfermaria de indigentes. Acho que
fiquei branco. No Rio, ouvira falar em ‘indigente’. Mas a palavra
me soara impessoal; havia entre mim e ela uma distância; não
me sentira ‘o próprio indigente’. Agora a indigência me tocava, e
comprometia, e feria. (1967:194)
Neste processo descaracterizador, a vida dos infectados tornava-se mais e mais marcada pela íntima angústia. A sensação de que nada poderia ser feito para corrigir o rumo que a existência tomara coagia os fimatosos a buscarem relacionar o tempo pretérito vivido com o presente infectado, traçando pistas esclarecedoras dos motivos que os haviam confinado no território desolador da peste. Era o momento em que cada um dos infectados se defrontava, solitariamente, com a pergunta: “quem sou eu?”.
‘Quem sou eu?’ Terrível equação a ser resolvida pelos tísicos. Nos depoimentos orais e escritos, essa pergunta aflora como enigma sempre presente, impondo aos consuntivos a busca de respostas avaliadoras de suas tramas de vida e da própria condição de pectário.
A necessidade de comparação entre as condições físicas e morais do tuberculoso e a de outros membros do grupo infectado é uma constante, pontuando as declarações dos antigos fimatosos. Um ancião, que esteve internado no Sanatório do Jaçanã, ao ser entrevistado, negou-se polidamente a falar da experiência vivida há mais de meio século no hospital especializado, limitando-se a uma única observação:
Eu não era igual ao resto dos doentes. Eu era limpo, educado,
seguia as regras. Minha doença era leve, nem precisava ficar
internado, mas fiquei. A gente que ia para o Jaçanã era terrível.
Gente suja, desbocada, que não sabia obedecer... A maior
parte daquele pessoal já estava próximo da morte. Eu me curei
porque sabia me cuidar, era esperto.
Os estreitos limites hospitalares ofereciam poucas chances esclarecedoras do ‘eu’, acumulando padecimentos que, se não fossem minimizados, resultariam na morte provocada como desfecho da trama da vida adoentada. A impossibilidade de articular a nova identidade reclamada pelo tratamento estigmatizador e pelo cerceamento institucional favorecia a sucessão de suicídios que feria as mansões da saúde.
Apesar da observação hipocrática que ensinava ser a ‘psicologia do tuberculoso’ incompatível com a tendência suicida, o número de situações nas quais os albergados colocavam deliberadamente fim à existência ganhou dimensões significativas no período anterior a 1945, chamando a atenção inclusive do Dr. Napoleão Teixeira. Em sua tese de cátedra, este médico declarou que, não obstante o silêncio clínico e a ausência de apoios estatísticos, “são, na verdade, numerosos os suicídios nesta classe de doentes” (1947:105).
O alerta de que “A limpeza Deus ama”, gravado em placa há décadas fixada numa das paredes do Arquivo Central do Hospital São Luiz Gonzaga parece exigir cautela dissimuladora nas anotações médicas referentes aos pectários que se decidiram pelo abreviamento voluntário da vida. Sentença aberta para múltiplas interpretações, possivelmente também servia como aviso para os clínicos empenharem poucas palavras no registro das situações que poderiam colocar em dúvida a ‘solidariedade cristã’ que, formalmente, direcionava o cotidiano institucional. Mesmo assim, na coleção de prontuários consultada, foi possível localizar 11 casos de pacientes suicidas, sendo que na maioria destes registros não houve qualquer tentativa de preservar detalhes sobre as circunstâncias em que ocorreram tais óbitos.
A única exceção encontra-se na documentação referente à paciente Idalina Galvão Guimarães (P. 692), uma “dona de casa” oriunda do município de Avaré. Sentindo-se adoentada há cerca de quatro anos, Idalina primeiramente buscou tratamento com um “dono de farmacia”, recebendo remédios contra “lombriga”. Como seu estado de saúde não melhorasse, a mulher procurou um clínico que exercia em Avaré, sendo então diagnosticada como “doente do figado” e, pouco meses depois, como estando grávida.
Como o farmacêutico e também o médico enganaram-se em suas conclusões, Idalina permaneceu em casa, perdendo peso e vida até que “um amigo motorista de caminhão” compadeceu-se de seu estado, encaminhando a doente até a Santa Casa de São Paulo, onde a paciente soube estar tuberculosa, situação que lhe abriu as portas do Sanatório do Jaçanã. Nos 11 meses de permanência no nosocômio paulistano, a mulher de 1,74 m. de altura teve seu peso reduzido para menos de 40 quilos, sendo durante todo esse tempo acometida por pequenas e grandes hemoptises, fato que não impediu que os tisiologistas declarassem que a pectária “havia melhorado muito desde a sua internação”.
Na noite de 16 para 17 de janeiro de 1937, o sono da tísica certamente foi roubado pela tosse, pela dor e pelos soluços próprios e alheios, exigindo que a asilada questionasse a rede de sentidos que a ligara ao universo da infecção. Naquelas horas escuras e assaltadas pelo desespero, a fimatosa defrontou-se com uma multidão de interrogações irrespondíveis, resultando na única certeza de que a tuberculose arrebatara-lhe bem mais do que a saúde.
Na manhã seguinte, Idalina sorrateiramente afastou-se dos olhares vigilantes de suas colegas e dos funcionários da Santa Casa, atirando-se em um poço localizado em parte erma do terreno hospitalar, perecendo por afogamento. Considerada suja de corpo e alma e reduzida a um número de inscrição, a escolha da morte pela água ganhou um sentido purificador. Idalina não precisava mais procurar a identidade da existência consuntiva.
O suicídio, contudo, não era opção disseminada entre os pacientes que, pelo contrário, lutavam pela multiplicação dos dias de vida. As tentativas de compreender a tragédia pessoal incitavam os fimatosos a examinarem suas trajetórias, procurando as possíveis ‘causas’ para o advento da infecção. Uma pequena parcela de como os doentes do peito explicavam o encontro individual com a Peste Branca acha-se preservada nos registros das anamneses realizadas pela clínica.
A antropologia da doença: versões pessoais
Dentre tantas histórias confidenciadas na mansão da saúde localizada na zona norte de São Paulo, encontra-se o resumo de vida elaborado por Herminio Francisco da Silva (P. 15), um chauffer procedente de Belo Horizonte e filho solteiro de uma família composta por 11 pessoas trabalhadoras. Em um domingo de dezembro de 1931, quando contava 22 anos de idade, o motorista foi convidado pelos seus colegas da vizinhança para “jogar bola” em um “campinho” não muito distante da vila onde a rapaziada morava. Durante a peleja, Herminio sentiu pontadas no hemitórax esquerdo e forte cefaléia, padecimentos estes que não o impediram de continuar no jogo, não se sabendo qual dos times saiu-se vitorioso. De qualquer maneira, quando a disputa finalizou, ele e seus colegas, “ainda soados” comemoraram o encontro tomando “varios copos de cerveja gelada”, certamente discutindo os principais lances da partida que havia terminado. Logo depois da confraternização, Herminio tomou o rumo de casa, sendo surpreendido no meio do caminho por uma “chuva abundante que o deixou completamente molhado”.
Já em sua residência, quando se banhava, o atleta de fim de semana sentiu as mesmas dores que o importunaram durante a partida de futebol, tendo, na seqüência, um “vomito de sangue calculado em uma chícara de chá”. Socorrido pela mãe com aspirina e um composto de alho e cebola, mesmo assim o jovem mineiro manteve-se em estado enfermiço, fato que o obrigou a procurar assistência médica numa clínica belorizontina, onde um facultativo diagnosticou “uma grippe forte”, prescrevendo xarope e descanso.
O doente fez uso do remédio indicado e não cometeu qualquer imprudência que pudesse comprometer a recuperação de sua saúde. Com isso, as dores no peito e na cabeça cessaram, permitindo que Herminio esquecesse o incidente que marcou aquela tarde de futebol e chuva. Transcorridos dois meses, quando por força de trabalho foi obrigado a dirigir um caminhão até a cidade de Uberaba, o chauffeur tomou nova chuva, logo após a “ingestão de 20 morangos”. Poucas horas depois, o motorista mineiro sentiu a mesma indisposição que o importunara tempos passados, acompanhada desta vez de “enfraquecimento, anorexia e muita dispnéa” que, por se mostrarem contínuas, obrigou-o a interromper suas atividades de trabalhador e a novamente buscar atendimento médico, sendo então informado que estava “fraco dos pulmões”.
Foi assim que Herminio explicou as origens de sua moléstia para os tisiologistas e para os companheiros de infortúnio que conheceu nos vários sanatórios que percorreu antes de chegar ao Hospital São Luiz Gonzaga. Mas a história do pectário não termina por aí. No decorrer da anamnese, o fimatoso informou que não fumava, não bebia e que não tinha sido atingido pelo contágio venéreo; era motorista desde os 16 anos de idade e trabalhava intensamente, chegando a cumprir jornadas de até 20 horas consecutivas.
Herminio também declarou que inexistia casos de tuberculose em sua família e que sempre gozara de boa saúde até aquele domingo negro, data da primeira hemoptise. Mais ainda, quando interrogado sobre “outras doenças”, o paciente lembrou que seus poucos anos de vida haviam sido marcados por uma sucessão de patologias, que iam desde os males próprios da infância até “defluxos”, “angina purulenta”, “grippe epidemica de 1918”, “maleita”, “fraqueza” e “bichas”, além de vários acidentes de trabalho.
As confidências feitas por Herminio Francisco da Silva foram narradas em detalhes porque se constituem em uma espécie de paradigma reproduzido, com pequenas variações, em uma infinidade de prontuários elaborados pelos médicos do nosocômio paulistano. Os pectários que buscavam assistência especializada apresentavam um perfil bem distanciado das observações apregoadas pelos filhos de Hipócrates como marca dos consuntivos, sendo que os infectados raramente informavam sobre o que os médicos esperavam ouvir: noites de orgias, vícios depravados, taras hereditárias e também exageros físicos e morais causados por outros motivos que não o trabalho estafante.
O analista cético pode argumentar que nas centenas de prontuários analisados, os pacientes se empenharam em oferecer àqueles que os inquiriam uma auto-imagem purificada, não confessando seus ‘pecados’ por pudor ou ainda pelo receio de perder a chance de se tratar em um sanatório regido pelos princípios religiosos. Entretanto, acredita-se que, se distorções ocorreram, estas restringiram-se a um número pequeno de casos. A leitura dos depoimentos registrados pela mão clínica alinham os mais diferentes tipos sociais, de padres a presidiários, de professoras a domésticas, sendo improvável que todos esses personagens tenham participado de um mesmo pacto da mentira.
O que era apregoado clinicamente como o modus vivendi típico dos doentes do peito dificilmente encontrava respaldo nos depoimentos sanatoriais. No lugar dos comportamentos desregrados, o que pontuava a existência dos tuberculosos era o trabalho estafante e as precárias condições de vida, sendo a incapacidade para a tarefa produtiva o elemento definidor do estado enfermiço. “Eu trabalhava bem”: era esta a frase empregada pelos doentes para responder à interrogação médica sobre o estado de saúde anterior à moléstia pulmonar, sendo repetida inclusive pelo “artista e garimpeiro” Ciciliano de Araujo (P. 551), pouco antes de falecer, em abril de 1937.
Nesta linha narrativa, compunham-se ‘histórias sanitárias individuais’ que, definidas pela sucessão de pequenas e grandes enfermidades, eram geralmente desqualificadas pelos médicos e pelos próprios pacientes, porque pouco limitadoras do potencial de trabalho. Percebe-se que a tendência predominante entre os doentes pulmonares era associar o evento fimatoso com os desarranjos que afetavam diretamente o aparelho respiratório, situando-os como raízes primeiras do Grande Mal.
O condicionamento cultural e as poucas décadas que separavam os débeis do peito das descobertas de Pasteur e Koch impunham que raros fossem os personagens leigos que tecessem elos entre a Peste Branca e a ação microbiana. O pressuposto do contágio íntimo era apanágio quase que exclusivo do raciocínio clínico-epidemiológico, sendo exceção casos como o do açougueiro Odilon Orlanch (P. 1737) que, receando a convivência diária com o pai tuberculoso, apresentou-se espontaneamente ao exame radiológico, quando descobriu estar com “mancha discreta no pulmão direito”.
A regra fazia buscar em outros quadrantes a causa primeira da tísica. Tanto entre os fimatosos analfabetos quanto entre os intelectualizados, a operação explicadora do estado infectado encontrava suporte em motivos afastados da idéia de contágio. O sacerdote italiano Paulo Rizzi (P. 543), por exemplo, assim relatou os pretensos ‘motivos’ de sua enfermidade pulmonar:
O doente diz que sua doença começou ha 1 mez, quando tendo
respirado em um bonde uma baforada de fumo forte teve um Em outros momentos, o ‘resfriado’ ganhava complementos agravantes que, para os doentes, clareava ainda mais as causas propulsoras da fimatose. Parece que se tornou regra entre os consuntivos que lutaram na guerra paulista de 32 associarem as chuvas, as baixas temperaturas típicas da estação e as agruras materiais impostas pela beligerância como elementos determinadores da moléstia pulmonar. Foi com estas palavras que o motorista negro José Luiz (P. 80) explicou o Grande Mal que o extenuava:
accesso muito forte de tosse secca que durou mais ou menos 3
dias quando começou a ser acompanhado de grippe com
escarro branco e logo depois com laivos de sangue.
O escritor Paulo Dantas (P. 2670) foi outro intelectual que preferiu localizar as origens de sua tísica bilateral distanciada da disseminação do bacilo de Koch no ambiente doméstico. No final de novembro de 1945, o pectário deu entrada na casa de saúde do Jaçanã, sendo objeto de uma longa anamnese em que contara toda a sua vida, informando inclusive que privara durante anos da companhia da mãe e de um irmão, ambos infectados. No mesmo período, o literato estava finalizando uma novela em que a doença que explodia em seu peito foi justificada como sendo conseqüência da “predisposição familiar” (1946:20), nada mais do que isto.
Apesar dessas versões, a lógica garantida pela herança cultural impunha a predominância do postulado que explicava o evento tuberculoso como resultante do contraste entre o calor corpóreo e a temperatura do meio ambiente ou do alimento ingerido. Nesse sentido, muitos enfermos confinados no Hospital São Luiz Gonzaga informaram que a moléstia principiara pouco depois de terem desfrutado de banho em rios e lagos, de serem surpreendidos pela chuva ou pelo sereno da madrugada ou ainda após a ingestão de sorvetes e bebidas geladas.
Em continuidade, segundo os depoimentos que instruíram as anamneses, o choque térmico experimentado pelo corpo resultava em disfunções orgânicas identificadas como “gripe”, “constipação”, “resfriado” e “crupe”, as quais “evoluíam” quando insuficientemente
tratadas, ganhando então o curso consuntivo.1
Seguindo os termos deste direcionamento, foi assim que o comerciário Orlando Baptista Campos (P. 727) explicou as origens de sua enfermidade, em agosto de 1936: “O passiente julga que os seus males principiaram ha um anno apóz uma forte chuva que o pôz de cama com grippe, febre alta, pouco escarro, mas escarros estes com laivos sanguineos”.
diz que a sua molestia iniciou em Setembro de 1932 durante a
Revolução. Por não gostar da comida passou 20 dias a banana
e marmelada e apanhou muita chuva na trincheira durante
alguns dias, molhando roupa de cama e de uso diario. Logo
começou a sentir tosse, febre e fraqueza. Foi para Cachoeira
onde foi examinado por um medico q. deu-lhe baixa, nesta
epoca tinha 40 de febre.
As mulheres contaminadas, por sua vez, tendiam a somar o ‘resfriamento’ do corpo com as condições próprias da fisiologia feminina – principalmente à menstruação e à gravidez – para explicar o fato fimatoso. Por isso, a paciente Vera Mariano (P. 20), de 25 anos, declarou ao médico que sua tísica fora resultado de ter “bebido um chopp gelado quando estava incommodada, tendo na mesma hora uma hemoptise formidavel”.
O acentuado emprego desta linha de raciocínio para explicar o evento patológico tinha, em contraposição, a quase total ausência de observações relacionadas com as condições materiais de vida e de trabalho específicas do proletariado como elementos indutores da infecção kochiana. Apesar de inúmeros registros situarem a crise de hemoptise no momento ou logo depois de consideráveis esforços físicos, a persistente tendência desqualificadora do processo de trabalho como fator coadjuvante da tuberculose coloca em igualdade os doentes e seus médicos.
Assim aconteceu com o operário Juvenal da Silva (P. 1728), que “vomitou 1 litro de sangue” numa manhã de maio de 1938, quando “carregava sozinho nas costas uma caixa de louças com cerca de 60 kilos”. No seu depoimento ao tisiologista, Juvenal concluiu que sua enfermidade fora motivada pelos fatos ocorridos na noite anterior à crise hemóptica, quando “jogou ping-pong até altas horas e tomou muito sorvete, percebendo logo ronqueira no peito”. Era a explicação que o doente tinha a oferecer ao médico e a si próprio.
Os raros pectários que transpuseram o patamar elucidador oferecido pela tradição, criaram uma sintonia própria entre a Peste Branca e a atividade produtiva, resultando em considerações nas quais garimpeiros, empregadas domésticas, peixeiros e empregados de frigoríficos aproximaram as origens da doença pulmonar com a umidade imperante nos ambientes onde trabalhavam. Um dublê de lutador profissional de box e faxineiro do Cine Coliseu (P. 203) foi um pouco além, informando de que a poeira sempre presente nos locais onde ganhava seu sustento constituía-se no motivo de sua enfermidade, enquanto um repórter santista (P. 2644) acusou o trabalho noturno e os muitos cafés e cigarros que consumia no emprego como os elementos causadores de sua tísica miliar.
Na seqüência, o austríaco Carlos Debeus (P. 1387) talvez tenha sido o paciente que melhor tentou articular a moléstia que o mataria em abril de 1941 com o seu trabalho de licorista. Internado no Sanatório do Jaçanã, foi assim que o pectário esclareceu as origens de sua enfermidade:
Diz estar doente desde o Natal de 1939, quando estava
trabalhando na fabrica de bebidas, fabricando uma substancia
com cloreto de calcio e acido tartarico, respirou os vapores
desprendidos durante 10 minutos sem nada perceber, então
começou a sentir falta de ar procurando a rua para conseguir ar
fresco. Esta falta de ar durou 5 horas. Desde essa ocasião
começou a tossir com expectoração amarelo escura e a sentir
muita fraqueza que foi aumentando gradativamente até que o
obrigou deixar o trabalho.
Os princípios ‘científicos’ e também as perspectivas ‘populares’ vigentes naquela época impediam que tanto os médicos quanto os pacientes oferecessem explicações mais conseqüentes sobre a causação do Grande Mal. Somente muitos anos após o término do isolamento hospitalar é que alguns antigos fimatosos puderam lançar nova luz sobre as causas que os levaram ao enfermamento. Um quarto de século depois de abandonar o Sanatorinho jordanense, Nelson Rodrigues (1967:189) reviu seu passado de tuberculoso, concluindo:
Se me perguntarem por que fiquei doente, diria apenas: —
fome. Claro que entendo por fome a soma de tôdas as
privações e de tôdas as renúncias. Não tinha roupa ou só tinha
um terno; não tinha meias e só um par de sapatos; trabalhava
demais e quase não dormia; e, quantas vêzes, almocei uma
média e não jantei nada? Tudo isso era a minha fome e tudo
isso foi a minha tuberculose.
Definiam-se assim os limites interpretativos da moléstia segundo os depoimentos dos próprios contaminados. A incapacidade de articular a vida individual com os processos coletivos induzia as averiguações que colocavam a doença como acidente causado por pequenos ‘deslizes’ da vida cotidiana.
A tuberculose na primeira pessoa
Paralelamente aos depoimentos registrados nos prontuários tisiológicos, outro núcleo documental que oferece explicações individuais sobre a enfermidade pulmonar constitui-se na produção literária. Isso porque, a partir dos meados da década de 30, houve uma sensível alteração na autoria dos textos literários nacionais tematizados pela Peste Branca.
A mão que acalentava a pena que discorria sobre a trama tuberculosa passou ela própria a ser tributária da tísica, competindo com as composições pretensamente ‘realistas’ que até aquele momento dominavam as incursões pelo tema. Assim, sucessivos autores infectados empenharam-se em seguir o modelo ‘intimista’ inaugurado por Thomas Mann e Paul Gadenne, narrando em prosa e verso os dilemas do estado enfermiço e, neste encaminhamento, aprofundando as explorações no terreno minado de experiências pessoais com a doença do peito.
Nesse contexto, a reconstituição histórica da vida na primeira pessoa do singular – cirurgia que a psicanálise denomina de ‘romance original’ (Berry, 1991) – ganha o sentido esclarecedor da identidade postulada pelos contaminados que angustiavam-se pelo fato de se sentirem roubados de si próprios pelas malhas culturais e sanitárias. A necessidade individual de distinguir-se da legião de pares fimatosos animava a confecção de textos que, no final, revelam-se tentativas organizadoras dos fatos da existência que um dia fora saudável.
A urgência do doente do peito descobrir o que ‘tinha sido’ e o que ‘era’ fazia aflorar um ‘antes’ e um ‘depois’ na trajetória da vida, consagrando a infecção pulmonar como elemento mediador do ‘eu’ com o universo social. Sob estas circunstâncias, a redação que confunde autor, narrador e personagem cumpria a dupla tarefa de proporcionar aos tísicos uma representação coerente de suas biografias, ao mesmo tempo que alimentava novos pólos de entendimento coletivo dos tuberculosos.
Paulo Setubal, Paulo Sérgio e Jamil Almansur Haddad foram apenas alguns dentre a gama de intelectuais consuntivos que confidenciaram literariamente suas lutas pessoais contra a Peste Branca. A autoridade reclamada por estes escritores supera os limites dos autores que compõem sobre fatos testemunhados na primeira pessoa.
Para além disso, a ameaça sempre presente da morte repentina coagia estes intelectuais a fundirem seus rogos com a voz do Ceifeiro Implacável, advertindo e ensinando os vivos sobre o valor e a desventura da existência regulada pela moléstia e pela solidão. “Eu morri...” Foi com esta afirmação que o poeta Paulo Sérgio (1950:7) – filho e sobrinho respectivamente dos também tuberculosos Sérgio Milliet e Ribeiro Couto – inaugurou seu único livro de versos, ironicamente publicado no ano seguinte ao falecimento do autor, ocorrido em julho de 1949.
Nesta operação que visita o pretérito, pequenos detalhes do cotidiano ganhavam um congraçamento peculiar, garantindo a localização das raízes individuais, marca fundamentadora do ‘romance original’. Com isso, os tributários da tísica encontravam na literatura um vasto campo para as indagações sobre a vida infectada, discorrendo minuciosamente sobre os percursos pessoais que, imaginários ou verídicos, confluem para a apologia da dignidade humana que nem mesmo a fatal patologia poderia anular.
Paulo Setubal incorporou no seu diário íntimo a história de sua linhagem, rememorando os personagens, as delícias e os temores que marcaram sua meninice passada em Tatuí, conferindo um tom idílico à sua origem interiorana. O poeta Almansur, por seu turno, coloriu seus poemas com as tintas fúnebres do roxo, do negro e do vermelho, situando suas raízes ora no distante Líbano, ora no ventre da morte. Colocando-se como filho apocalíptico do mundo, até mesmo os ipês da Avenida Paulista, onde o tuberculoso consumiu seus anos de infância, ganharam a marca do extermínio iminente: “Velhinha encarquillhada, teus galhos secos são achas...” (1943:126).
Reconstituído detalhadamente, o tempo já vivido era analisado como o caminho que conduziu do sol irradiante da saúde para as assustadoras trevas da enfermidade. A busca das causas determinadoras da tuberculose encontrava respostas divergentes. Paulo Sérgio acreditava que a peste impunha-se como punição às “ovelhas negras” que diferiam do rebanho humano por rirem desairosamente do Anjo Fúnebre, distanciando-se do Dr. Haddad que, desprezando os conceitos que aprendera na escola médica, voltava-se para os ensinamentos românticos, fazendo do mal consuntivo a sina dos escritores sensíveis.
A idéia de destino aflora nos versos de Almansur como produto inevitável da impotência individual para alterar a rota da vida e escapar dos braços do Grande Mal. A definição da tísica e da inspiração poética como “marcas de nascença” levou o fimatoso a compor versos que retratam o pranto de três mães que sofriam antecipadamente pelas desgraças que um dia abateriam seus adorados rebentos. Enquanto as duas primeiras mulheres segredavam que a dor viria sob a forma da fome e da doença, a última delas ia além, esclarecendo a perspectiva do poeta:
E a terceira com a voz entrecortada
Repleta da maior das tristezas deste mundo,
baixinho segredou: ‘Meu filho é poeta...’
E não disse mais nada...
Fez-se o silêncio mais profundo...
E as outras duas soluçaram comovidas... (1943:128)
A ‘confissão pública’ assinada por Paulo Setubal (1949) buscou afastar-se do pendão romântico para, no seu lugar, dar vez a uma versão sintonizada com os posicionamentos da moral e da medicina. O fato de verificar o passado como uma seqüência ininterrupta de “tontices” e seu comportamento como “excessivo em tudo”, “assombrado”, “mesquinho”, “carnal”, “chafurdado na torpez” e sobretudo “afastado de Cristo”, permitiu que o intelectual concluísse que sua “vidazinha” não poderia ter outro desfecho a não ser o encontro com a mortal infecção.
No desdobramento das avaliações realizadas pelos pectários, o significado das etapas da vida ganhava um sentido sinistro. O pretérito saudável fizera-se éter, coagindo Paulo Sérgio a identificá-lo ao ‘nada’, enquanto o futuro se transformava em apenas uma ‘abstração’. Suspenso entre o passado e o porvir, os doentes fantasiavam um lugar onde não existisse nem a dor, nem o vômito sangüíneo, nem a solidão, nem a morte, conferindo versões pessoais à Pasárgada bandeiriana.
Enquanto o convertido Paulo Setubal localizava a pátria da redenção como sendo o próprio reino celestial dos católicos, o tísico Almansur buscava a terra prometida na “Cidade Branca” dos cemitérios. Dentre tantas variações elaboradas por este poeta sobre o tema, uma impressiona, pois ritmada pelo trote assustador da tuberculose galopante:
É um país sossegado
que não tem hemoptise;
é uma terra decente,
sem escarros no chão,
putupum, putupum.
País sem suores frios,
putupum, putupum,
sem cadeiras de lona,
putupum, putupum,
sem bacilos de Koch
putupum, putupum,
e onde o vil pneumotórax
por certo é ignorado,
putupum, putupum,
putupum. (Almansur, 1943:114)
Mas, enquanto o passado se esvaía e a morte não apresentava sua terrível face, o cotidiano do isolado nas prefeituras sanitárias era acima de tudo o cenário do tédio. Em Campos do Jordão e em São José dos Campos, os autores tísicos viviam a vida estancada num limbo que beirava a eternidade, tendo como espelho maior o ‘ruço’ que cobria a Serra da Mantiqueira e se espalhava pelo Vale do Paraíba. O sentimento de impotência e a solidão imposta fazia com que todos ansiassem pela novidade que nunca chegaria. A existência sem rumo certo roubava a vontade de traçar planos, fazendo com que Paulo Sérgio (1950:21) desabafasse:
Ah se eu tivesse um desejo
nesta tarde de verão...
Um desejo de mulheres
de carinho, de ilusão
de um beijo de compreensão
de amizade ou de dinheiro,
Ah se eu tivesse um desejo...
A repetição diária do mesmo a nada levava, a não ser ao desalento dos ‘fracassados’. O desespero nutrido pela mesmice exigia a procura de estimulantes que, no final de contas, a malvada doença teimava em proibir. Ainda é Paulo Sérgio (1950:22) quem fantasiava:
Penso em entrar num bar
fumar ópio, tomar coca
e beber cerveja muita.
Queimar uma ‘herva’ bem forte
– Maconha
Liamba-diamba
Cabelo de Negro baseado
a herva do sonho e da morte.
O ‘desejo de alguma coisa’ fazia brotar a urgente necessidade da presença do outro, alguém que pudesse oferecer amor e companhia, repartir o calor do corpo nas madrugadas frias e tornar-se cúmplice de um sofrimento que não tinha mais palavras para expressar intensidade. Nas noites de solidão, o pretenso ‘tesão de tuberculoso’ ganhava o rumo do devaneio que flertava com a ‘vida que não fora’.
Excetuando-se Paulo Setubal – que desfrutou seus últimos anos de vida na companhia da esposa, numa chácara que lhe fora presenteada pela sogra Vicentina Aranha e localizada nas imediações do sanatório joseense da Santa Casa de São Paulo – os autores tísicos convergiam para a ilusão da presença de um sem-número de tipos femininos que ofertavam, sem qualquer receio, o solidário carinho que, de regra, era negado aos doentes do peito.
Do leito situado num hospital da Vila Abernéssia, Almansur (1943:173) lutava contra o vazio de pessoas, versejando longamente sobre a acompanhante ideal:
Peregrino, vens cansado? Acaso te cobre a poeira do caminho
longo e longo? Vem ao amor que é fogueira! Vem a féerie do
noivado! Que para tu descansares, sou amiga e sou amena
como um berço ou como os lares!
Sou amena e sou amiga como a projeção piedosa que há nas
sombras dos palmares!
Peregrino, estás cansado? Vem e repousa a meu lado! Para o
embalo e para o sonho, a minha garganta agora há de ser a
mais canora. Para o embalo e para o sonho vai dizer canções
suaves, feitas de sombras e pazes, bem possíveis, bem
capazes de servir de embalo às aves!
Peregrino, estás sedento? Para matar tuas sêdes já se faz bem
longo o pranto que eu choro enquanto te espero.
Peregrino, estás com frio? Vou cobrir-te com um manto!
Apesar das súplicas, a amizade ansiada tardava em se apresentar. Em vez dela, apenas a mão da freira que acudia os desgraçados que varavam as noites e os dias a tossir, perdendo sangue e vida. A morfina da fantasia era pouco eficiente para amenizar a solidão que feria muito mais do que a dor física. A ordem de repouso torturava.
Os “corpos excessivamente descansados” – eufemismo que o tisiologista Lourival Ribeiro empregou para designar os tuberculosos – revoltavam-se contra as mensagens paralisantes, enquanto a vida fluía ‘lá fora’. A tosse irrefreada também era um grito de protesto ao isolamento e à não vida. Logo após eliminar sucessivas golfadas de sangue, freira e médico reiteraram o compromisso de descanso para o fimatoso Paulo Sérgio. A sentença de alerta foi assim ampliada pelo paciente em delírio: “Repouso, repouso, repouso, só repouso... Faça repouso! Cuidado! O Sr. tem toda sua vida pela frente. Cuidado! Hemoptise! Repouso!, Repouso! REPOUSO!”.
Numa última tentativa de proclamar sua angústia, o pectário quis rebelar-se contra a crueldade do destino: “Desesperado ergueu-se com o que lhe restava de fôrças e berrou: — Quero viver, viver o meu sonho!” (1950:37).
A vida se perdia em ‘tristezas sem limites’, pois o próprio direito ao devaneio ‘já se fazia cadáver’. A condição de isolamento povoava de metáforas as falas poéticas, buscando dar significado pleno ao desolador sentimento de exclusão. ‘Pássaros engaiolados de asas quebradas’, os pectários eram insulados nas ‘ilhas da esperança’. O pulmão tornava-se o mundo a ser fiscalizado diuturnamente, assim como o mundo transfigurava-se num pulmão misterioso que cultivava as sementes da morte em suas avenidas, em seus becos, em suas escuras choupanas.
Após vislumbrar semelhanças de silhuetas entre as elevações da Mantiqueira e os pulmões humanos, Almansur (1943:104) vasculhou seu próprio órgão respiratório:
Estes pulmões estão cheios de homens,
que, quando é tarde, vão estendendo
o asfalto obscuro na obscura via!
Quanta agonia na nossa vida!
Já se estendeu dentro do peito
a ampla avenida! a ampla avenida!
(...)
No meu pulmão há jardineiros
que, com as suas artes atrozes,
vão cultivando, por minha face,
a grama verde destas cloroses...
E a incursão pelo pulmão-mundo desespera o poeta:
Muita agonia! Muita agonia!
O meu pulmão é podre! podre!
Que pululante bicharia!
Santa Maria! Santa Maria!
Haveria chances para a vida crivada de martírios e mais martírios? A ‘bruxa horrenda’ tinha como um dos raros lenitivos a promessa religiosa de redenção dos pecados e das dores do mundo. Paulo Setubal foi um dos escritores que entendeu a presença infecciosa não como uma tragédia, mas sim como uma dádiva celestial e redentora da existência individual.
Para Setubal, o sofrimento imposto pela enfermidade o havia aproximado do Deus dos cristãos, fazendo dele um ‘verdadeiro católico’ que, para provar a sua subserviência ao Senhor, queimou 300 páginas originais de um livro que, por dissertar sobre ‘paixões más e desgrenhadas’, não poderia ser assinado por alguém que o Messias havia contagiado com a marca da pureza.
A destruição da obra em ‘holocausto a Cristo’ foi o momento supremo da conversão religiosa do tuberculoso. Nascia naquele instante um ‘novo homem’ que diferia em tudo do antigo Paulo, dos ideais aos gostos, das leituras ao ‘modo de encarar a vida’. Solidificada a imagem do converso pela tísica, o escritor reinventou o destino dos que privavam com a Peste Branca, anunciando o padecimento infeccioso como fonte segura de felicidade e de elevação espiritual.
O reenquadramento das dores proporcionadas pela moléstia poluidora em fator de purificação levou o memorialista consuntivo a se oferecer como exemplo para seus ‘irmãos de cadeira de lona’. A autocrítica que Paulo Setubal teceu sobre os seus anos de saúde, constitui-se em momento singular dos ensinamentos emanados pelo tísico que a enfermidade fez (re)descobrir o angelical sentido da vida:
Tivesse eu um pouco de base, possuísse eu uns princípios
católicos mais sérios, andasse eu melhormente embebido da
doutrina de Cristo, soubesse ao de leve o que é sofrimento, o
que é a dor, como veículo de aprimoramento, então, ao invés
de apostrofar, certamente eu abençoaria a mão de Deus na
desgraça que me feriu. Então eu não bradaria que aquilo era
uma vergasta. Bradaria, isso sim, que aquilo significava uma
visita do Senhor. Que aquilo significava um chamado de Deus,
chamado direto, claro, paternal, para que eu de novo me
acercasse d’êle. Por aquela doença, por aquela fraqueza
pulmonar, eu poderia, arredando-me do mundo, mais fàcilmente
encontrar-me comigo mesmo. (...) Poderia com firmeza dar um
passo, por pequenino que fôsse, no caminho duro, mais belo,
do aperfeiçoamento moral. (Setubal, 1949:106-107)
As palavras consoladoras com que o autor de Confiteor tentava amenizar o drama experimentado pelos seus iguais encontrava receptividade relativa entre a irmandade dos tuberculosos. O “nada mais quero ser que a felicidade de não ser” confessado por Paulo Sérgio sugere o caminho sem saída que a fimatose traçara na vida de seus tributários. O Deus de todos os povos certamente era um lenitivo que, para muitos, representava a única companhia na espera da morte ou da recuperação parcial da saúde.
‘Quem sou eu?’ A questão que teimava em pairar sobre a consciência dos tísicos talvez tenha encontrado melhor resposta por meio dos versos de Haddad (1943:49), numa composição reveladoramente intitulada “Canção do Desesperado”:
Amada Clara,
na espera, eu sou como cego, eu sou como surdo, eu sou como
paralítico,
parado numa curva meiga de caminho meigo da Galiléia meiga,
esperando Cristo.
Eu sou como o leproso, esperando que o toque, para a
transfiguração miraculosa da cura, a mão do Senhor.
A experiência escamoteada A necessidade de estabelecer as dimensões do contato íntimo com a infecção coagiu vários intelectuais tísicos – ou que acreditavam ser a Peste Branca condição futura inevitável de suas vidas – a refletirem publicamente sobre a enfermidade, sem contudo deixar claras evidências de estarem compondo obras que beiravam o ensaio autobiográfico.
O acomodamento na terceira pessoa do singular consistia assim em estratégia protetora contra o conhecimento coletivo da condição pessoal de contaminado ou ‘predisposto’, inibindo com isso as possibilidades estigmatizadoras. Em decorrência, a literatura e as Ciências Sociais serviram de canais que foram utilizados pelos consuntivos para discorrer sobre o Grande Mal, falando do ‘eu’ por meio da narrativa centrada nos ‘outros’, tributários da Peste Branca.
Neste contexto dissimulador das averiguações pessoais da trama tuberculosa, ninguém granjeou mais fama que Dinah Silveira de Queiroz. Filha, neta e bisneta de consuntivas que tiveram seus anos de vida abreviados pela enfermidade, a escritora nutria desde a infância forte obsessão pelo óbito fimatoso, acreditando que ela própria tornar-se-ia herdeira do destino contaminado de suas ancestrais.
Porém, a condição supostamente fimatosa que levara Dinah a permanecer por sucessivos períodos nas prefeituras sanitárias paulistas não chegou a público quando o seu romance sobre os doentes asilados em Campos do Jordão apareceu nas livrarias, no primeiro dia de setembro de 1939. A edição inaugural de Floradas na Serra esgotou-se em pouco mais de um mês, despertando as atenções dos críticos que, ao interpelarem a escritora quase estreante sobre os motivos que a entusiasmaram a compor a obra, recebiam em resposta sentenças furtivas e curtas, nada ficando de concreto sobre o assunto.
Desfiando o novelo de suas dúvidas pessoais, Dinah Silveira de Queiroz percorreu seguidos sanatórios, pensões e consultórios médicos localizados na Serra da Mantiqueira para traçar o perfil dos tuberculosos. Como resultado, floresceu a personagem Elza que, no final da adolescência, partiu da capital dos paulistas em direção às montanhas, levando para Campos do Jordão os pulmões avariados e a esperança de cura.
Apesar da opção de colocar Elza como personagem de destaque na trama posta na pensão dirigida por Dona Sofia, a autora deixou-se apaixonar por um tipo secundário que, pouco a pouco foi ganhando corpo na obra, sobrepondo-se em importância aos demais tísicos criados pela escritora. Esta personagem recebeu o nome de Lucilia, “a minha Lucilia – devoradora e complexa” segundo o depoimento que Dinah prestou, pouco depois do lançamento editorial de Floradas na Serra. Mais ainda, a autora confessou que entregou-se vorazmente à composição da vida de sua personagem favorita, sendo que, no final, “para o equilíbrio da narrativa”, viu-se obrigada a destruir “várias páginas, todas escritas sôbre Lucilia” e com isto sacrificou longos trechos do “depoimento sincero de uma infeliz
pensionista de Dona Sofia”. 2
A fascinação declarada de Dinah por Lucilia desdobra-se na composição do romance. Representando o possível alter ego da escritora, esta personagem ganhou autonomia no enredo, reunindo poder inclusive para dar nome a Bruno, um outro vulto que povoa a cidade dos desesperados.
Assemelhada biográfica e fisicamente à sua criadora, Lucilia ‘saiu das sombras’, elevando-se à condição de voz crítica da colônia dos ‘fracassados’, alguém que falava o que cautelosamente era silenciado e que, por isso, chocava pela rudez de observar a verdade que desconsolava. Mesmo assim, a incômoda consuntiva transitava entre o universo dos sãos e dos enfermos como um fantasma onipotente que, ‘desprezando o seu pequeno público’, sempre estava a salvo de qualquer admoestação, tanto de suas colegas quanto de Dona Sofia e do tisiologista responsável pelo seu tratamento.
‘Menina impossível’, ‘doente rebelde’, ‘criatura detestável’, ‘sem juízo’ e ‘pequena indecente’ são alguns dos atributos que marcavam Lucilia, segundo outros personagens também reunidos em Campos do Jordão. Isso porque a tuberculosa teimava em remar contra as águas do destino. Apesar da declaração de ser uma “condenada” que não esperava obter cura, Lucilia opunha-se à “força cega e inexorável” que rege o mundo.
Lucilia se mostrava poderosa, marcando presença nas horas mais tensas da vida do pensionato. Naqueles momentos, seu olhar desafiante fazia com que suas colegas não caíssem em desespero, como no instante em que Belinha agonizava, cabendo então a ela acudir silenciosamente a valetudinária e também amparar as demais testemunhas do óbito que se anunciava.
A dimensão cínica e quase sobre-humana emprestada à Lucilia encontrou limites quando ela conheceu e se apaixonou por um ‘homem irreal’ que a própria infectada incumbiu-se de batizar com o nome de Bruno. Sem história passada e sem projetos para o futuro, Bruno enquadra-se modelarmente nas companhias imaginárias criadas pelos doentes do peito. O súbito amor da enferma tinha um sentido claro: buscar um aliado contra o destino tuberculoso. Não é por acaso que Bruno foi apresentado como um escritor cuja meta diária era descobrir a potencialidade humana de lutar contra o fatum, termo latino cuja tradução remete ao conceito de destino.
O desejo de se bater contra a rota que o Grande Mal teimava em impor à existência fez Lucilia compartilhar das apreensões de Bruno. Verdadeira co-autora do romance sobre os doentes do peito, a personagem também se tornou colaboradora do livro de Bruno, acrescentando novas páginas ao texto que estava sendo elaborado pelo amado:
— Acho que foi Voltaire... É sim, foi Voltaire que disse assim,
mais ou menos, não é Bruno? ‘Se pudesses modificar o destino
da môsca, nada poderia impedir que realizasses o destino de
tôdas as outras môscas, de todos os animais, de todos os
homens, de tôda a natureza. Sereis, então, mais poderosos que
Deus...’ É engraçado, Bruno, como foi que guardei isto?
(Queiroz, 1939:123)
A luta contra a sina pectária confundia-se com a paixão por Bruno, combinação perigosa que roubava o resto de energia e a beleza de Lucilia. Apesar dos conselhos clínicos para que a tuberculosa interrompesse as noites de vigília amorosa com Bruno, ela se entregou sofregamente ao homem que lhe oferecia companhia e esperanças de fugir ao destino dos contaminados.
Parece que Dinah concluiu que nenhum tísico, nem mesmo sua querida personagem, reunia forças suficientes para alterar o rumo da vida que fora assenhoreada pela Peste. A opção sentimental assumida por Lucilia condenou-a à decadência física e moral. O repentino desaparecimento de Bruno marcou o agravamento do estado de saúde de Lucilia que tornou-se demasiadamente frágil para se manter avessa ao destino e para reagir contra a decisão médica que apontava a toracoplastia como recurso único para arrancá-la das garras da morte.
A operação mutiladora fez surgir uma nova Lucilia, bem diferente daquela que lutava contra a fatalidade da vida. Redefinida em condições de igualdade às suas companheiras de enfermidade, a personagem ofereceu então oportunidade para que Dinah anunciasse os desarranjos dos sentidos que eram proclamados como exclusividade dos doentes do peito.
Se desde o início do romance a autora recobriu os tipos construídos com delicados comportamentos que apenas sugeriam o funcionamento da deformação espiritual atribuída ao bacilo de Koch, o processo de derrota de Lucilia frente ao destino e à enfermidade fez com que o roteiro da obra se desviasse para o tenebroso terreno das pretensas anormalidades resumidas na ‘psicologia do tuberculoso’.
A ruína de Lucilia significou também a queda de todos os fimatosos. Em conseqüência, a parcela final do livro de Dinah assemelha-se a uma súmula das distorções ‘causadas’ pelo micróbio da Peste Branca: Turquinha revela-se mística exaltada, entregando-se à crença espírita; Elza, já em estágio avançado de recuperação da saúde, rejeita os seus companheiros de infecção e a própria Lucilia mostra-se hipersexualizada, sentindo voluptuosos arrepios até pelo roçar do corpo com as roupas de cama.
Para além destas alterações morais imputadas à toxina bacilar, Dinah Silveira de Queiroz emprestou tensão às últimas páginas de sua obra mediante a exploração da idéia de que os tuberculosos nutriam amarga inveja dos colegas que recebiam alta em razão da cura pulmonar. Seguindo este viés, tanto Lucilia quanto Flávio – personagem apagado e namorado de Elza – mostraram-se declaradamente rancorosos ao saberem que Elza estava livre da infecção e do isolamento nas montanhas. Sentindo-se distanciado da ex-infectada, Flávio anunciou seu descontentamento com a recuperação da saúde da amada, queixando-se: “— Agora... vejo as coisas friamente. Você curada, pronta a retomar o fio interrompido das suas relações, das suas amizades e eu aquí... prêso para sempre” (Queiroz, 1939:252).
O escritor Paulo Dantas, por sua vez, não fazia segredo do seu estado consuntivo, apesar de se proteger atrás da composição literária na terceira pessoa do singular. Ganhador de um prêmio ofertado pela Academia Brasileira de Letras pelo seu livro de estréia, no qual retratou a vida dos presidiários, o autor continuou na senda dos excluídos, escrevendo um conto e uma novela onde explorou o cotidiano dos infectados reunidos em Campos do Jordão.
A novela As Águas Não Dormem... contou com o patrocínio editorial de Monteiro Lobato, que reunia a autoridade de crítico literário com a dor do pai que havia tido, por duas vezes, filhos roubados pela Peste Branca. Apresentado pelo seu padrinho intelectual como escritor da “mais corajosa sinceridade”, Paulo Dantas fincou a coluna mestra de seus livros referentes aos enfraquecidos do peito no pântano afirmador de que a toxina do micróbio de Koch somava-se à febre para perverter o comportamento dos pectários, resultando na licenciosidade sexual dos contaminados.
Em decorrência, desde as páginas de abertura do seu primeiro texto sobre os fimatosos, o autor expôs claramente sua proposta purificadora dos seus companheiros de sofrimento:
Sinto-me na obrigação moral de dar uma explicação, afim de
evitar possíveis malentendidos na compreensão do problema
sexual do tísico. Sou da opinião que se deve criar uma
educação sexual especial para os doentes do pulmão. (...)
Nêste ponto tenho a consciência tranquila, porque antes de
tudo procurei ser honesto comigo mesmo e para com a linha
erótica comum da doença. 3 (Dantas, 1946:9-10)
Estava dado o mote definidor do posicionamento de Paulo Dantas sobre a ‘psicologia’ dos infectados. Pela vez primeira no contexto nacional, um escritor tuberculoso discorreu exaustivamente sobre as pretensas perversidades morais dos filhos da ‘brasileirinha’, aceitando na íntegra a versão corruptora dos sentidos apregoada como marca dos pectários.
O personagem central da novela lançada em 1946 é Ciro que, ao contar sua história de vida, identificou-se plenamente com a biografia do seu criador, fazendo da obra uma espécie de documento detalhador do prontuário do Hospital do Jaçanã iniciado com o nome do paciente Paulo Dantas. “O que tem que ser, será”: o destino foi novamente invocado para selar a inevitabilidade da infecção pulmonar, fazendo do personagem/autor um membro degradado da burguesia, que freqüentava não os ‘sanatórios de luxo’ ou as pensões particulares de Campos do Jordão, mas sim as úmidas e sujas enfermarias localizadas nos subterrâneos dos hospitais filantrópicos que funcionavam no sul mineiro e na parcela paulista da Serra da Mantiqueira.
Neste curso, Paulo Dantas retratou a face oculta e miserável da cidade dos infectados. Autoproclamando-se “gato castrado em porão escuro”, Paulo/Ciro vasculhou as fantasias e os desejos que acreditava serem frutos do micróbio, revelando o lado sombrio que nenhum outro literato doente ousou desenhar com tanto requinte. Os personagens focados no ambiente de cura eram feridos por toda sorte de ‘aberrações’: uns são exageradamente egocêntricos, outros perversos, outros ainda místicos, todos sexualmente pervertidos, computando entre tais desarranjos a comparação do esperma com o catarro expulso dos pulmões e a utilização da palavra ‘foda’ como brado da indignação coletiva que pairava sobre os doentes do peito.
As tentativas de seduzir o sexo oposto, senão o idêntico, tinham como complemento as fantasias sobre o pretérito repleto de carícias femininas. Na ausência de companhia real ou fictícia, Ciro seguia a conduta dos seus parceiros de enfermaria, entregando-se à prática onanista. Mas, nem mesmo nos momentos de gozo solitário a doença e a moral se esvaneciam, ampliando os medos e os receios dos tuberculosos carentes de tudo.
Após excitar-se com o resto da água que sobrou do banho de uma paciente da mansão da saúde, o fimatoso masturbou-se, sendo imediatamente atormentado pelos fantasmas apregoados com invulgar insistência pelos clínicos e pelos religiosos que serviam no hospital:
O que abatia não era a viscosidade do sabão, era o nojo, o
medo da hemoptise, o pêso na consciência e a vergonha de
mim mesmo. A água ficou manchada e de corpo limpo
destampei a torneira e ví a correnteza levar tôdas as impurezas
do mundo, com restos do corpo de Margarida. Depois subí para
o quarto, de olheiras, abatido e envergonhado comigo mesmo.
Deitei-me e fiquei a manhã inteira a esperar pela hemoptise que
não veio. (Dantas, 1946:106)
A sensação de ser um estrangeiro na nação dos consuntivos pobres fazia de Ciro um incansável crítico do ambiente de cura. A ostensiva repressão institucional das necessidades produzidas pelo ‘ardor da febre’ exigiu que o memorialista disfarçado lançasse sucessivas farpas contra os empregados dos sanatórios que, ao cobrar castidade e devoção religiosa dos infectados, tornavam-se arquitetos de um cotidiano sufocante e intimidador.
Na continuidade da trama, Ciro deteve-se na denúncia dos descalabros perpetrados pelos agentes nosocomiais. O tratamento diferenciador dispensado aos hóspedes pensionistas trazia para dentro das casas de saúde as desigualdades sociais que colocavam em confronto os pobres e os ricos. Comida, assistência médica, velório, condescendência, respeito e tudo o mais estava alocado em benefício dos endinheirados e, por óbvio, em detrimento dos indigentes. Por isso, Ciro declarou-se chocado pelo fato de seus companheiros de miséria e infecção nada fazerem contra as injustiças que proliferavam na teia higienista. Para explicar tal postura, novamente Paulo Dantas (1946:67) serviu-se dos estigmas ajustados aos doentes do peito, esclarecendo:
Já deduzi que na psicologia coletiva do tuberculoso pobre, uma
das formas mais encontradas, é a do conformismo geral. O que
o doente mais deseja no mundo é uma cama num hospital,
onde êle possa comer, dormir e às vezes ter a ilusão de que
está sendo tratado. Da adaptação dêsse desejo essencial é que
nasce o seu conformismo fácil e sem revolta.
N’A Cidade Enferma, texto escrito entre os anos de 1947 e 1948, o escritor desenvolveu ainda mais as perspectivas discriminadoras dos ‘fracassados’. A reação negativa da população jordanense à sua primeira novela teve como resposta a ratificação dos predicados atribuídos aos tísicos, estendendo-os também para a urbe climatoterápica. Nesta obra, a condição exageradamente erotizada dos tísicos foi reafirmada por meio do diálogo entre os personagens Vítor e Leo Além, ambos aproximados biograficamente ao autor:
— Vítor, você que é um escritor e um estudioso da natureza
humana, não acha mesmo que a doença vem afetar a vida
sexual da gente?
— Querer negar isto é besteira, é estupidez. As provas estão aí
nos tipos que a gente conhece aquí em Campos do Jordão.
Pode ser que a razão dessa exacerbação erógena ainda não
tenha sido suficientemente explicada pela medicina. Mas que
importa a medicina se temos a vida, os exemplos de cada dia a
nos bater a porta. (Dantas, 1950:106)
Depois de alinhar os elementos tidos como definidores da hipersensualidade tuberculosa, o literato recorreu a antigos pressupostos para situar os ‘pervertidos’ doentes e toda a população de Campos do Jordão em uma mesma malha estigmatizadora: “E, mais decisiva ainda é a influência exercida pelo clima. Está provado que uma montanha como a nossa torna a mulher mais mulher e o homem mais homem”.
A operação que impunha a identidade tuberculosa como resultado monstruoso da corrupção moral programada pela Peste Branca feriu também o cunhense Oracy Nogueira que, pectário, viveu em isolamento no Sanatório Ruy Dória no decorrer dos anos de 1936 e 1937. Recuperado da infecção, o doente transferiu-se para a cidade de São Paulo, onde obteve grau de bacharel em Ciências Sociais pela antiga Escola Livre de Sociologia e Política, sendo que, a partir de então, o estudante comprometeu-se em clarear as angústias acumuladas pela experiência pessoal e grupal com a marginalização social engendrada pela fimatose.
Sob o estímulo e a orientação do norte-americano Donald Pierson e do alemão Emílio Willems, Oracy Nogueira confundiu suas atividades de pesquisador com a do homem que buscava entender as reações coletivas frente aos agrupamentos diferenciados, sem, contudo, declarar-se ele próprio vítima do fenômeno que analisava.
Em setembro de 1945, o sociólogo apresentou para julgamento acadêmico a primeira tese assinada por um cientista social sobre a irmandade dos fracassados, a qual teve continuidade teórica nos anos seguintes, com o estudo dos preconceitos articulados em torno das comunidades afro-brasileiras. Somente em período recente foi que Oracy Nogueira – hoje docente aposentado da Universidade de São Paulo – explicou publicamente os motivos pessoais que o levaram ao estudo dos contatos sociais entre brancos e negros, deixando patente o significado da tuberculose em sua opção profissional:
Os dois anos de isolamento por motivo de doença a que fui
forçado e a impressão do estigma que me ficou como seqüela
contribuíram para aumentar minha empatia em relação às
pessoas de cor que, embora por outra razão, eu percebia
estarem também sujeitas a isolamento e estigmatização.
(1985:63)
O convívio íntimo com o Grande Mal ganhou expressão maior na produção nogueiriana por meio de sua dissertação de mestrado, na qual o pesquisador apoiou-se em questionários, histórias de vida e entrevistas informais para traçar um quadro identificador das atitudes dos doentes e dos profissionais de saúde aproximados pela Peste Branca.
Seguindo as propostas dirigidas pelas ciências sociais norte-americanas – especialmente representadas por Ralph Linton e Ruth Benedict – o estudioso brasileiro tratou parcimoniosamente seu objeto de indagações, declarando “achar tudo natural”, evitando, assim, qualquer sentença avaliadora da vida dos pectários, da rotina imposta pelas instituições de cura e da tisiofobia imperante na época.
O receio de cair em confronto com as perspectivas clínicas e sociais vigentes no período impuseram que o autor se abstivesse de colocar em dúvida a propalada determinação fisio-patológica do comportamento tuberculoso, repetindo em várias passagens do texto que seu intento não era o debate, mas apenas a elaboração de um “estudo exploratório” e destinado a fornecer “hipóteses mais definidas” para serem empregadas em análises posteriores.
Seguindo esta orientação, Oracy Nogueira interpretou a medicina como saber e prática imunes das influências sociais, apontando os leigos – e dentre estes especialmente os agrupamentos ‘incultos’ – como responsáveis pelo movimento estigmatizador movido contra os fracos do peito. Na seqüência, o estudioso acrescentou que:
Parece significativo que, justamente no século XIX, com o apoio
das concepções naturalistas do universo, que favoreceram a
separação entre as concepções de saúde e enfermidade, de
um lado, e da moralidade e religião de outro, tenha coincidido o
período ascendente da tendência à romantização da
tuberculose e do tuberculoso. (Nogueira, 1945:16) Mesmo assim, a lembrança da tragédia pessoal pairava sobre o pesquisador universitário, instigando-o a procurar explicações sobre a existência consuntiva que extrapolassem os rígidos limites do biologismo hipocrático. Na busca de novas perspectivas analíticas, o sociólogo deparou-se com os textos produzidos pelo tisiologista João Baptista de Souza Soares, voz isolada na medicina nacional porque se opunha à exclusividade do bacilo de Koch na determinação ‘psicológica’ dos infectados, apontando a importância do isolamento social como fator coadjuvante no processo ‘deformador’ da personalidade do consuntivo.
O entendimento da medicina como fenômeno apartado das dinâmicas sociais somou-se à hipótese defendida pelo Dr. Souza Soares, condenando o discípulo de Donald Pierson a flutuar entre os quadrantes que anunciavam o comportamento dos ‘fracassados’ ora como produto da bioquímica do organismo contaminado, ora como resultado psicossociológico do confinamento higienista.
No final das contas, o professor Nogueira optou pela via conciliatória que, ao amalgamar as perspectivas, conferiu vitalidade nova às apregoações que definiam como traço característico das atitudes dos pectários as tendências de intocabilidade, auto-afirmação, dramatização da vida, egocentrismo, misticismo e agressividade.
Se a concepção que ressaltava o ‘erotismo tuberculoso’ foi cuidadosamente evitada na dissertação sociológica, o mesmo não aconteceu com outros atributos anexados à existência consuntiva. O registro do ‘comportamento agressivo’ como marca dos fimatosos, por exemplo, ganhou a atenção do pesquisador que, ao procurar concluir sobre a questão, deixou claras as dificuldades e as reticências das Ciências Humanas na tarefa de análise do tema:
Ao nosso vêr, a chamada ‘agressividade’ dos doentes de
Campos do Jordão, por exemplo, não é apenas um reflexo do
conflito de interesses entre êles, de um lado, e os médicos,
administradores, enfermeiros e demais profissionais de outro;
nem é tão pouco, efeito apenas da ação fisiológica das toxinas
do bacilo de Koch. (Nogueira, 1945:102)
O que mais então seria responsável pelo comportamento beligerante detectado nos pectários? Sem saída mais plausível, Oracy Nogueira respondeu com a indicação da tendência auto-afirmadora dos tísicos como elemento incitador da revolta. Neste encadeamento de idéias, um atributo explicava o outro, formando um círculo vicioso que não abria chances para análise acadêmica mais conseqüente sobre a conduta dos doentes dos pulmões.
As releituras
A produção parcial ou integralmente memorialista não se fechou apenas no círculo dos infectados, ganhando foro nos debates públicos e nas reações pessoais. A recepção e o tratamento emprestado às obras que discorriam sobre os consuntivos incentivavam avaliações que fundiam interesses de toda sorte, aproximando o processo de leitura da história do pensamento e, neste contexto, evidenciando os vieses delineadores das imagens que o tecido coletivo associava aos tísicos.
Dentre os livros de tendência memorialista mencionados, nenhum outro obteve tanta aceitação pública quanto Floradas na Serra, tornando-se história narrada em quadrinhos e no rádio, no cinema e na televisão. O sucesso desse romance também fomentou a veiculação de críticas que, escudadas na medicina, na estética literária ou na experiência íntima com a enfermidade, nutriram um caloroso confronto entre os que admitiam a plausibilidade dos acontecimentos descritos por Dinah Silveira de Queiroz e aqueles que buscavam novos entendimentos sobre a vida dos consuntivos.
Além dos naturais elogios dirigidos à autora – alguns deles assinados por Waldomiro Silveira e Raquel de Queiroz, respectivamente tio e cunhada da escritora – Floradas na Serra ganhou destaque na imprensa diária, abrindo oportunidade para que os clínicos nacionais discorressem publicamente sobre o comportamento dos doentes pulmonares.
O primeiro facultativo a utilizar dos jornais populares para focar o livro foi o Dr. Ulysses Paranhos, amigo de Dinah e um dos principais nomes da medicina brasileira no período. Mesmo alegando não compactuar com a discussão de “assumptos scientificos na imprensa profana”, o Dr. Paranhos enfatizou que, apesar das “pequeninas imperfeições” existentes no romance, Dinah Silveira de Queiroz tinha dado um passo definitivo na observação do cotidiano dos infectados, colhendo elementos comprovadores da corrupção moral imposta pela Peste Branca.
Após prolongar-se no reconhecimento dos desarranjos de personalidade produzidos pela tísica e na desqualificação dos recursos climatoterápicos, o médico concluiu:
O que nos impressionou seriamente no livro de Dinah foi a
compreensão exacta da psycologia do tuberculoso, o
conhecimento moderno dos complexos que se debatem no seu
cerebro, suas tendencias sentimentaes e a mystica propria
destes pobres doentes, tão curiosa e cheia de imprevistos para
quem, christãmente, a estuda de perto. (Paranhos, 1939a:6)
Reações ao artigo assinado pelo clínico paulista não se fizeram por esperar. Transcorridos poucos dias desde a publicação do texto do Dr. Paranhos, o Campos de Jordão Jornal respondeu ao médico e à escritora, defendendo em primeiro lugar a proposta higiênica, reeducadora e curativa das casas de saúde localizadas na Serra da Mantiqueira e, na seqüência, lançando dúvidas sobre a deformação dos sentidos causada pelas toxinas liberadas pelo bacilo de Koch. Como recurso desqualificador das observações que o clínico tecera a partir do livro de Dinah, os jordanenses, nas páginas de um jornal local, buscaram questionar a veracidade literária, comentando: “Quem poderá affirmar observação, sem antes pensar que um romancista cria o que não observa e não póde explicar?” (Apud Paranhos, 1939a:3).
Além da resposta leiga, um único médico se fez presente nos jornais para contestar os postulados de autoria de Dinah e do Dr. Ulysses Paranhos. Como já foi visto, coube ao tisiologista joseense Souza Soares (1939) lançar as primeiras sementes de dúvida sobre a exclusividade bacilar no delineamento das ‘atitudes dos tísicos’ sendo que, por intermédio da Folha da Manhã, o especialista condenou abertamente a aceitação hipocrática da doutrina que reconhecia a determinação unicamente toxínica da ‘psicologia’ dos contaminados. Para tanto, o clínico informou que a comunidade médica européia já se mostrava reticente em adotar tal posicionamento, buscando explicações complementares no campo da psicossociologia.
O Dr. Ulysses Paranhos não se conformou com a contestação assinada por seu par acadêmico, recorrendo novamente à ‘imprensa profana’ para expor sua estranheza frente às repercussões que tiveram suas ‘despretensiosas palavras’. Com o intuito de emprestar maior vigor às suas idéias, o médico buscou apoio em Comte e Claude Bernard para reafirmar seu posicionamento, apesar de, neste segundo artigo, declarar que “nem tudo é absoluto” (Paranhos, 1939b:3), e por isso conhecer dignas exceções morais entre a irmandade dos tísicos.
Após mencionar nomes de santos e de artistas tuberculosos que fugiam à regra da poluição moral, o Dr. Paranhos sutilmente referiu-se ao clínico que o criticara algumas semanas antes e que, como tantos outros tisiologistas, havia se instalado na prefeitura sanitária do Vale do Paraíba para tratar de sua própria enfermidade pulmonar: “Actualmente está em S. José dos Campos alguém que se encontra neste caso. Sacrificou-se pelos seus doentes e, dentro de uma enfermaria, adquiriu o germe que lhe destruiu sua mocidade bôa e santa” (Paranhos, 1939b:3).
A discórdia batera à porta da Academia de Hipócrates. Por isso, a corporação médica abandonou sorrateiramente a arena pública, dando continuidade aos debates apenas por meio das páginas das revistas especializadas. Ainda em 1939, o clínico-assistente do Hospital Psiquiátrico do Juqueri, Dr. José Nascimento de Almeida Prado, cerrou fileira com o Ulysses Paranhos para confirmar os postulados expressos pelo seu colega. Seguindo esta opção, Almeida Prado reiterou a validade do princípio que indicava a ação tóxica do micróbio tuberculoso, concluindo que, afinal, a Peste Branca poderia funcionar como elemento aperfeiçoador do ‘espirito humano’, já que deu forma a espíritos nobres que influenciaram decisivamente a ‘marcha da História’:
Falem as grandezas musicais de Mozart, de Chopin, as
inspirações poéticas de Casimiro, de Alvares de Azevedo, de
Rodrigues de Abreu, as belezas literárias de Paulo Setubal (...).
Dizem outros que as toxinas do bacilo de Koch, nas pessoas de
temperamento místico, exaltaram essa tendência, elevando às
vezes ao mais alto grau a piedade, à heroicidade de virtudes,
às grandezas morais, à contemplação do Céu e honras dos
altares. (Prado, 1939:457)
E depois de recitar os nomes santificados dos fimatosos, Teresinha do Menino Jesus, Luiz Gonzaga, Francisco Xavier, Francisco de Assis, Guy de Fontglan e Antoninho Marmo, o psiquiatra concluiu enfaticamente: “Se assim é, bendita tuberculose, bendito misticismo, bendita psicose; maravilha do Céu para edificação da humanidade!”.
Por seu turno, o Dr. Souza Soares (1940) continuou a bater-se contra os defensores dos descalabros comportamentais atribuídos à ação bacilar, elaborando um longo relatório sobre a bibliografia internacional que confirmava a recente fragmentação do posicionamento médico europeu. Apesar de não rejeitar o comportamento ‘alterado’ dos consuntivos, o tisiologista de São José dos Campos permaneceu como voz solitária até 1945, quando Oracy Nogueira inteirou-se das discussões, fazendo de sua dissertação de mestrado uma espécie de desdobramento dos postulados defendidos pelo médico consuntivo.
Ainda demoraria muito para os tisiologistas brasileiros desvencilharem-se da crença sobre a particularidade comportamental dos infectados. Mas, graças ao Dr. Souza Soares, a semente estava plantada.
No final das averiguações, nem a literatura de tendência autobiográfica, nem as Ciências Sociais e nem ainda as declarações registradas nos prontuários médicos postaram-se como canais questionadores da veracidade dos estigmas imputados aos tísicos. As tentativas elucidadoras do ‘eu’ mostravam-se convergentes, situando os pronunciamentos públicos e os depoimentos privados dos pectários como vozes disseminadoras das vertentes que fomentavam a diabolização e a discriminação coletiva das vítimas do Grande Mal.
Apesar de algumas observações elaboradas pelos próprios infectados negarem parcialmente a ‘causação’ toxínica das ‘atitudes desajustadas’, nenhum doente ousou desqualificar a multiplicidade de estigmas aglutinados sob a denominação de ‘psicologia do tuberculoso’. Frente a este fenômeno, acredita-se que, mais do que produto dos empenhos institucionais em inculcar as idéias denegridoras da existência infectada, os próprios consuntivos enquadraram-se simbolicamente no modelo comportamental preconizado como exclusivo dos tributários da Peste Branca.
Recorrendo ao rol de terminologias utilizadas pelo sociólogo Erving Goffman (1975), supõe-se que os doentes do peito serviram-se de uma ‘idealização negativa’ de força e expressão histórica como ‘fachada’ para viabilizar o desempenho de papéis que, sincera ou cinicamente ‘encenados’, tinham como resultado a integração dos doentes no contexto social subjacente.
Em decorrência desse posicionamento, a sociedade como um todo e o agrupamento intelectual em particular utilizaram as declarações emitidas pelos contaminados para reiterar a validade e a precisão dos conceitos incorporados pela ‘ciência moderna’ e também para dimensionar a moléstia pulmonar e suas vítimas como símbolos maiores da dor e do sofrimento.
Abre-se assim a possibilidade de chegada a uma nova etapa na elaboração de uma História Social do Doente. Se as reações contra o ordenamento sanitário e os estigmas coexistiam com os esforços de definição do ‘eu’, os tuberculosos também buscavam formular estratégias conciliadoras com o tecido coletivo mais abrangente e, mediante estas ações, opor-se ao que era mais temido: a exclusão, sinônimo de morte social.
Notas
1 Em um único caso houve variação desta fórmula, quando o paciente Oswaldo Penna (P. 1011) declarou que sua enfermidade teve início depois de tomar “muito sol em Santos”.
2 Vale lembrar que, quando no ano de 1954 a Companhia Cinematográfica Vera Cruz transformou em filme o romance de Dinah, a autora impôs que a personagem central da encenação fosse Lucilia e não Elza, interpretada pela atriz Cacilda Becker.
3 Ressalta-se que na segunda edição deste livro, tutelada em 1986 pela editora Atual, o autor reclamou para si os papéis de ‘psiquiatra popular e antropólogo’.