Histórias sem Data

Machado de Assis · Capítulo 15 de 36

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Histórias sem Data

Capitulo II

 

EXPERIENCIA

 

Os garotos alexandrinos não trataram os dous sabios com o escarneo dos garotos cypriotas. A terra era grave como a ibis pousada n'uma só pata, pensativa como a sphynge, circumspecta como as mumias, dura como as pyramides; não tinha tempo nem maneira de rir. Cidade e côrte, que desde muito tinham noticia dos nossos dous amigos, fizeram-lhes um recebimento regio, mostraram conhecer seus escriptos, discutiram as suas idéas, mandaram-lhes muitos presentes, papyros, crocodilos, zebras, purpuras. Elles porém, recusaram tudo, com simplicidade, dizendo que a philosophia bastava ao philosopho, e que o superfluo era um dissolvente. Tão nobre resposta encheu de admiração tanto aos sabios como aos principaes e á mesma plebe. E aliás, diziam os mais sagazes, que outra cousa se podia esperar de dous homens tão sublimes, que em seus magnificos tratados...

—Temos cousa melhor do que esses tratados,{117} interrompia Stroibus. Trago uma doutrina, que, em pouco, vai dominar o universo; cuido nada menos que em reconstituir os homens e os Estados, distribuindo os talentos e as virtudes.

—Não é esse o officio dos deuses? objectava um.

—Eu violei o segredo dos deuses, acudia Stroibus. O homem é a syntaxe da natureza, eu descobri as leis da grammatica divina...

—Explica-te.

—Mais tarde; deixa-me experimentar primeiro. Quando a minha doutrina estiver completa, divulgal-a-hei como a maior riqueza que os homens jámais poderão receber de um homem.

Imaginem a expectação publica e a curiosidade dos outros philosophos, embora incredulos de que a verdade recente viesse aposentar as que elles mesmos possuiam. Entretanto, esperavam todos. Os dous hospedes eram apontados na rua até pelas crianças. Um filho meditava trocar a avareza do pai, um pai a prodigalidade do filho, uma dama a frieza de um varão, um varão os desvarios de uma dama, porque o Egypto, desde os Pharaós até aos Lagides, era a terra de Putiphar, da mulher de Putiphar, da capa de José, e do resto. Stroibus tornou-se a esperança da cidade e do mundo.{118}

Pythias, tendo estudado a doutrina, foi ter com Stroibus, e disse-lhe:

—Methaphysicamente, a tua doutrina é um desproposito; mas estou prompto a admittir uma experiencia, comtanto que seja decisiva. Para isto, meu caro Stroibus, ha só um meio. Tu e eu, tanto pelo cultivo da razão como pela rigidez do caracter, somos o que ha mais opposto ao vicio do furto. Pois bem, se conseguires incutir-nos esse vicio, não será preciso mais; se não conseguires nada, (e pódes crel-o, porque é um absurdo) recuarás de semelhante doutrina, e tornarás ás nossas velhas meditações.

Stroibus acceitou a proposta.

—O meu sacrifio é o mais penoso, disse elle, pois estou certo do resultado; mas que não merece a verdade? A verdade é immortal; o homem é um breve momento...

Os ratos egypcios, se pudessem saber de um tal accordo, teriam imitado os primitivos hebreus, acceitando a fuga para o deserto, antes do que a nova philosophia. E podemos crer que seria um desastre. A sciencia, como a guerra, tem necessidades imperiosas; e desde que a ignorancia dos ratos, a sua fraqueza, a superioridade mental e physica dos dois philosophos eram outras tantas vantagens na experiencia{119} que ia começar, cumpria não perder tão boa occasião de saber se efectivamente o principio das paixões e das virtudes humanas estavam distribuidos pelas varias especies de animaes, e se era possivel transmittil-o.

Stroibus engaiolava os ratos; depois, um a um, ia-os sujeitando ao ferro. Primeiro, atava uma tira de panno no focinho do paciente; em seguida, os pés, finalmente, cingia com um cordel as pernas e o pescoço do animal á taboa da operação. Isto feito, dava o primeiro talho no peito, com vagar, e com vagar ia enterrando o ferro até tocar o coração, porque era opinião d'elle que a morte instantanea corrompia o sangue e retirava-lhe o principio. Habil anatomista, operava com uma firmeza digna do proposito scientifico. Outro, menos destro, interromperia muita vez a tarefa, porque as contorsões de dôr e de agonia tornavam difficil o meneio do escalpello; mas essa era justamente a superioridade de Stroibus: tinha o pulso magistral e pratico.

Ao lado d'elle, Pythias aparava o sangue e ajudava a obra, já contendo os movimentos convulsivos do paciente, já espiando-lhe nos olhos o progresso da agonia. As observações que ambos faziam eram notadas em folhas de papyro; e assim ganhava{120} a sciencia de duas maneiras. Ás vezes, por divergencia de apreciação, eram obrigados a escalpellar maior numero de ratos do que o necessario; mas não perdiam com isso, porque o sangue dos excedentes era conservado e ingerido depois. Um só d'esses casos mostrará a consciencia com que elles procediam. Pythias observára que a retina do rato agonisante mudava de côr até chegar ao azul claro, ao passo que a observação de Stroibus dava a côr de canella como o tom final da morte. Estavam na ultima operação do dia; mas o ponto valia a pena, e, não obstante o cansaço, fizeram successivamente desenove experiencias sem resultado definitivo; Pythias insistia pela côr azul, e Stroibus pela côr de canella. O vigesimo rato esteve prestes a pôl-os de accordo, mas Stroibus advertiu, com muita sagacidade, que a sua posição era agora differente, rectificou-a e escalpellaram mais vinte e cinco. D'estes, o primeiro ainda os deixou em duvida; mas os outros vinte e quatro provaram-lhes que a côr final não era canella nem azul, mas um lyrio roxo, tirando a claro.

A descripção exagerada das experimentações deu rebate á porção sentimental da cidade, e excitou a loquella de alguns sophistas; mas o grave Stroibus{121} (com brandura, para não aggravar uma disposição propria da alma humana) respondeu que a verdade valia todos os ratos do universo, e não só os ratos, como os pavões, as cabras, os cães, os rouxinoes, etc.; que, em relação aos ratos, além de ganhar a sciencia, ganhava a cidade, vendo diminuida a praga de um animal tão damninho; e, se a mesma consideração não se dava com outros animaes, como, por exemplo, as rolas e os cães, que elles iam escalpellar d'ahi a tempos, nem por isso os direitos da verdade eram menos imprescriptiveis. A natureza não ha de ser só a mesa de jantar, concluia em fórma de aphorismo, mas tambem a mesa de sciencia.

E continuavam a extrahir o sangue e a bebel-o. Não o bebiam puro, mas diluido em um cosimento de cinamomo, succo de acacia e balsamo, que lhe tirava todo o sabor primitivo. As doses eram diarias e diminutas; tinham, portanto, de aguardar um longo praso antes de produzido o effeito. Pythias, impaciente e incredulo, mofava do amigo.

—Então? nada?

—Espera, dizia o outro, espera. Não se incute um vicio como se cose um par de sandalias.{122}