Histórias sem Data

Machado de Assis · Capítulo 31 de 36

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Histórias sem Data

A Senhora do Galvão

 

Começaram a rosnar dos amores d'este advogado com a viuva do brigadeiro, quando elles não tinham ainda passado dos primeiros obsequios. Assim vai o mundo. Assim se fazem algumas reputações más, e, o que parece absurdo, algumas boas. Com effeito, ha vidas que só têm prologo; mas toda a gente falla do grande livro que se lhe segue, e o autor morre com as folhas em branco. No presente caso, as folhas escreveram-se, formando todas um grosso volume de tresentas paginas compactas, sem contar as notas. Estas foram postas no fim, não para esclarecer, mas para recordar os capitulos passados; tal é o methodo n'esses livros de collaboração. Mas a verdade é que elles apenas combinavam no plano, quando a mulher do advogado recebeu este bilhete anonymo:

«Não é possivel que a senhora se deixe embair mais tempo, tão escandalosamente, por uma de suas{252} amigas, que se consola da viuvez, seduzindo os maridos alheios, quando bastava conservar os cachos...»

Que cachos? Maria Olympia não perguntou que cachos eram; eram da viuva do brigadeiro, que os trazia por gosto, e não por moda. Creio que isto se passou em 1853. Maria Olympia leu e releu o bilhete; examinou a lettra, que lhe pareceu de mulher e disfarçada, e percorreu mentalmente a primeira linha das suas amigas, a ver se descobria a autora. Não descobriu nada, dobrou o papel e fitou o tapete do chão, cahindo-lhe os olhos justamente no ponto do desenho em que dous pombinhos ensinavam um ao outro a maneira de fazer de dous bicos um bico. Ha d'essas ironias do acaso, que dão vontade de destruir o universo. Afinal metteu o bilhete no vestido, e encarou a mucama, que esperava por ella, e que lhe perguntou:

—Nhanhã não quer mais ver o chale?

Maria Olympia pegou no chale, que a mucama lhe dava e foi pol-o aos hombros, defronte do espelho. Achou que lhe ficava bem, muito melhor que á viuva. Cotejou as suas graças com as da outra. Nem os olhos nem a bocca eram comparaveis; a viuva tinha os hombros estreitinhos, a cabeça grande, e o andar feio. Era alta; mas que tinha ser alta? E os{253} trinta e cinco annos de edade, mais nove que ella? Emquanto fazia essas reflexões, ia compondo, pregando e despregando o chale.

—Este parece melhor, que o outro, aventurou a mucama.

—Não sei... disse a senhora, chegando-se mais para a janella, com os dous nas mãos.

—Bota o outro, nhanhã.

A nhanhã obdeceu. Experimentou cinco chales dos dez que alli estavam, em caixas, vindos de uma loja da rua da Ajuda. Concluiu que os dois primeiros eram os melhores; mas aqui surgiu uma complicação—minima, realmente—mas tão subtil e profunda na solução, que não vacillo em recommendal-a aos nossos pensadores de 1906. A questão era saber qual dos dois chales escolheria, uma vez que o marido, recente advogado, pedia-lhe que fosse economica. Contemplava-os alternadamente, e ora preferia um, ora outro. De repente, lembrou-lhe a aleivosia do marido, a necessidade de mortifical-o, castigal-o, mostrar-lhe que não era peteca de ninguem, nem maltrapilha; e, de raiva, comprou ambos os chales.

Ao bater das quatro horas (era a hora do marido) nada de marido. Nem ás quatro, nem ás quatro e meia. Maria Olympia imaginava uma porção de{254} cousas aborrecidas, ia á janella, tornava a entrar, temia um desastre ou doença repentina; pensou tambem que fosse uma sessão do jury. Cinco horas, e nada. Os cachos da viuva tambem negrejavam diante d'ella, entre a doença e o jury, com uns tons de azul-ferrete, que era provavelmente a côr do diabo. Realmente era para exhaurir a paciencia de uma moça de vinte e seis annos. Tinte e seis annos; não tinha mais. Era filha de um deputado do tempo da Regencia, que a deixou menina; e foi uma tia que a educou com muita distincção. A tia não a levou muito cedo a bailes e expectaculos. Era religiosa, conduziu-a primeiro á egreja. Maria Olympia tinha a vocação da vida exterior, e, nas procissões e missas cantadas, gostava principalmente do rumor, da pompa; a devoção era sincera, tibia e distrahida. A primeira cousa que ella via na tribuna das egrejas, era a si mesma. Tinha um gosto particular era olhar de cima para baixo, fitar a multidão das mulheres ajoelhadas ou sentadas, e os rapazes, que, por baixo do coro ou nas portas lateraes, temperavam com attitudes namoradas as ceremonias latinas. Não entendia os sermões; o resto, porém, orchestra, canto, flores, luzes, sanefas, ouros, gentes, tudo exercia n'ella um singular feitiço. Magra devoção, que escasseou ainda mais com{255} o primeiro expectaculo e o primeiro baile. Não alcançou a Candiani, mas ouviu a Ida Edelvira, dansou á larga, e ganhou fama de elegante.

Eram cinco horas e meia, quando o Galvão chegou. Maria Olympia, que então passeava na sala, tão depressa lhe ouviu os pés, fez o que faria qualquer outra senhora na mesma situação: pegou de um jornal de modas, e sentou-se, lendo, com um grande ar de pouco caso. Galvão entrou offegante, risonho, cheio de carinhos, perguntando-lhe se estava zangada, e jurando que tinha um motivo para a demora, um motivo que ella havia de agradecer, se soubesse...

—Não é preciso, interrompeu ella friamente. Levantou-se; foram jantar. Fallaram pouco; ella menos que elle, mas em todo o caso, sem parecer magoada. Póde ser que entrasse a duvidar da carta anonyma; póde ser tambem que os dous chales lhe pesassem na consciencia. No fim do jantar, Galvão explicou a demora; tinha ido, a pé, ao theatro Provisorio, comprar um camarote para essa noite: davam os Lombardos. De lá, na volta, foi encommendar um carro...

Os Lombardos? interrompeu Maria Olympia.

—Sim; canta o Laboceta, canta a Jacobson; ha bailado. Você nunca ouviu os Lombardos?{256}

—Nunca.

—E ahi está porque me demorei. Que é que você merecia agora? Merecia que eu lhe cortasse a ponta d'esse narizinho arrebitado...

Como elle acompanhasse o dito com um gesto, ella recuou a cabeça; depois acabou de tomar o café. Tenhamos pena da alma d'esta moça. Os primeiros accórdes dos Lombardos ecoavam n'ella, emquanto a carta anonyma lhe trazia uma nota lugubre, especie de Requiem. E porque é que a carta não seria uma calumnia? Naturalmente não era outra cousa: alguma invenção de inimigas, ou para affligil-a, ou para fazel-os brigar. Era isto mesmo. Entretanto, uma vez que estava avisada, não os perderia de vista. Aqui acudiu-lhe uma idéa: consultou o marido se mandaria convidar a viuva.

—Não, respondeu elle; o carro só tem dois logares, e eu não hei de ir na boléa.

Maria Olympia sorriu de contente, e levantou-se. Ha muito tempo que tinha vontade de ouvir os Lombardos. Vamos aos Lombardos! Trá, lá, lá, lá... Meia hora depois foi vestir-se. Galvão, quando a viu prompta d'ahi a pouco, ficou encantado. Minha mulher é linda, pensou elle; e fez um gesto para estreital-a ao peito; mas a mulher recuou, pedindo-lhe{257} que não a amarrotasse. E, como elle, por umas velleidades de camareiro, pretendeu concertar-lhe a pluma do cabello, ella disse-lhe enfastiada:

—Deixa, Eduardo! Já veiu o carro?

Entraram no carro e seguiram para o theatro. Quem é que estava no camarote contiguo ao d'elles? Justamente a viuva e a mãe. Esta coincidencia, filha do acaso, podia fazer crer algum ajuste prévio. Maria Olympia chegou a suspeital-o; mas a sensação da entrada não lhe deu tempo de examinar a suspeita. Toda a sala voltara-se para vel-a, e ella bebeu, a tragos demorados, o leite da admiração publica. Demais, o marido teve a inspiração machiavelica de lhe dizer ao ouvido: «Antes a mandasses convidar; ficava-nos devendo o favor.» Qualquer suspeita cahiria diante d'esta palavra. Comtudo, ella cuidou de os não perder de vista—e renovou a resolução de cinco em cinco minutos, durante meia hora, até que, não podendo fixar a attenção, deixou-a andar. Lá vae ella, inquieta, vai direito ao clarão das luzes, ao explendor dos vestuarios, um pouco á opera, como pedindo a todas as cousas alguma sensação deleitosa em que se espreguice uma alma fria e pessoal. E volta depois á propria dona, ao seu leque, ás suas luvas, aos adornos do vestido, realmente magnifico.{258} Nos intervallos, conversando com a viuva, Maria Olympia tinha a voz e os gestos do costume, sem calculo, sem esforço, sem sentimento, esquecida da carta. Justamente nos intervallos é que o marido, com uma discrição rara entre os filhos dos homens, ia para os corredores ou para o saguão pedir noticias do ministerio.

Juntas sahiram do camarote, no fim, e atravessaram os corredores. A modestia com que a viuva trajava podia realçar a magnificencia da amiga. As feições, porém, não eram o que esta affirmou, quando ensaiava os chales de manhã. Não, senhor; eram engraçadas, e tinham um certo pico original. Os hombros proporcionaes e bonitos. Não contava trinta e cinco annos, mas trinta e um; nasceu em 1822, na vespera da independencia, tanto que o pae, por brincadeira, entrou a chamal-a Ypiranga, e ficou-lhe esta alcunha entre as amigas. Demais, lá estava em Santa Rita o assentamento de baptismo.

Uma semana depois, recebeu Maria Olympia outra carta anonyma. Era mais longa e explicita. Vieram outras, uma por semana, durante tres mezes. Maria Olympia leu as primeiras com algum aborrecimento; as seguintes foram callejando a sensibilidade. Não havia duvida que o marido{259} demorava-se fóra, muitas vezes, ao contrario do que fazia d'antes, ou sahia á noite e regressava tarde; mas, segundo dizia, gastava o tempo no Wallerstein ou no Bernardo, em palestras politicas. E isto era verdade, uma verdade de cinco a dez minutos, o tempo necessario para recolher alguma anecdota ou novidade, que pudesse repetir em casa, á laia de documento. D'alli seguia para o largo de S. Francisco, e mettia-se no omnibus.

Tudo era verdade. E, comtudo, ella continuava a não crêr nas cartas. Ultimamente, não se dava mais ao trabalho de as refutar comsigo; lia-as uma só vez, e rasgava-as. Com o tempo foram surgindo alguns indicios menos vagos, pouco a pouco, ao modo do apparecimento da terra aos navegantes; mas este Colombo teimava em não crêr na America. Negava o que via; não podendo negal-o, interpretava-o; depois recordava algum caso de allucinação, uma anecdota de apparencias illusorias, e n'esse travesseiro commodo e molle punha a cabeça e dormia. Já então, prosperando-lhe o escriptorio, dava o Galvão partidas e jantares, iam a bailes, theatros, corridas de cavallos. Maria Olympia vivia alegre, radiante; começava a ser um dos nomes da moda. E andava muita vez, com a viuva, a despeito das cartas, a tal ponto que{260} uma d'estas lhe dizia: «Parece que é melhor não escrever mais, uma vez que a senhora se regala n'uma comborçaria de máu gosto.» Que era comborçaria? Maria Olympia quiz perguntal-o ao marido, mas esqueceu o termo, e não pensou mais n'isso.

Entretanto, constou ao marido que a mulher recebia cartas pelo correio. Cartas de quem? Esta noticia foi um golpe duro e inesperado. Galvão examinou de memoria as pessoas que lhe frequentavam a casa, as que podiam encontral-a em theatros ou bailes, e achou muitas figuras verosimeis. Em verdade, não lhe faltavam adoradores.

—Cartas de quem? repetia elle mordendo o beiço e franzindo a testa.

Durante sete dias passou uma vida inquieta e aborrecida, espiando a mulher e gastando em casa grande parte do tempo. No oitavo dia, veiu uma carta.

—Para mim? disse elle vivamente.

—Não; é para mim, respondeu Maria Olympia, lendo o sobrescripto; parece letra de Mariana ou de Lulú Fontoura...

Não queria lel-a; mas o marido disse que a lesse; podia ser alguma noticia grave. Maria Olympia leu a carta e dobrou-a, sorrindo; ia guardal-a, quando o marido desejou ver o que era.{261}

—Você sorriu, disse elle gracejando; ha de ser algum epigramma commigo.

—Qual! é um negocio de moldes.

—Mas deixa ver.

—Para que, Eduardo?

—Que tem? Você, que não quer mostrar, por algum motivo ha de ser. De cá.

Ja não sorria; tinha a voz tremula. Ella ainda recusou a carta, uma, duas, tres vezes. Teve mesmo ideia de rasgal-a, mas era peior, e não conseguiria fazel-o até o fim. Realmente, era uma situação original. Quando ella viu que não tinha remedio, determinou ceder. Que melhor occasião para ler no rosto d'elle a expressão da verdade? A carta era das mais explicitas; fallava da viuva em termos crús. Maria Olympia entregou-lh'a.

—Não queria mostrar esta, disse-lhe ella primeiro, como não mostrei outras que tenho recebido e botado fóra; são tolices, intrigas, que andam fazendo para... Leia, leia a carta.

Galvão abriu a carta e deitou-lhe os olhos avidos. Ella enterrou a cabeça na cintura, para ver de perto a franja do vestido. Não o viu empallidecer. Quando elle, depois de alguns minutos, proferiu duas ou tres palavras, tinha já a physionomia composta e um{262} esboço de sorriso. Mas a mulher, que o não adivinhava, respondeu ainda de cabeça baixa; só a levantou d'ahi a tres ou quatro minutos, e não para fital-o de uma vez, mas aos pedaços, como se temesse descobrir-lhe nos olhos a confirmação do anonymo. Vendo-lhe, ao contrario, um sorriso, achou que era o da innocencia, e fallou de outra cousa.

Redobraram as cautelas do marido; parece tambem que elle não pôde esquivar-se a um tal ou qual sentimento de admiração para com a mulher. Pela sua parte, a viuva, tendo noticia das cartas, sentiu-se envergonhada; mas reagiu depressa, e requintou de maneiras affectuosas com a amiga.

Na segunda ou terceira semana de agosto, Galvão fez-se socio do Cassino fluminense. Era um dos sonhos da mulher. A seis de setembro fazia annos a viuva, como sabemos. Na vespera, foi Maria Olympia (com a tia que chegara de fóra), comprar-lhe um mimo: era uso entre ellas. Comprou-lhe um annel. Viu na mesma casa uma joia engraçada, uma meia lua de diamantes para o cabello, emblema de Diana, que lhe iria muito bem sobre a testa. De Mahomet que fosse; todo o emblema de diamantes é christão. Maria Olympia pensou naturalmente na primeira noite do Cassino; e a tia, vendo-lhe o{263} desejo, quiz comprar a joia, mas era tarde, estava vendida.

Veiu a noite do baile. Maria Olympia subiu commovida as escadas do Cassino. Pessoas que a conheceram n'aquelle tempo, dizem que o que ella achava na vida exterior, era a sensação de uma grande caricia publica, a distancia; era a sua maneira de ser amada. Entrando no Cassino, ia recolher nova copia de admirações, e não se enganou, porque ellas vieram, e de fina casta.

Foi pelas dez horas e meia que a viuva ali appareceu. Estava realmente bella, trajada a primor, tendo na cabeça a meia lua de diamantes. Ficava-lhe bem o diabo da joia, com as duas pontas para cima, emergindo do cabello negro. Toda a gente admirou sempre a viuva n'aquelle salão. Tinha muitas amigas, mais ou menos intimas, não poucos adoradores, e possuia um genero de espirito que espertava com as grandes luzes. Certo secretario de legação não cessava de a recommendar aos diplomatas novos: «Causes avec Mme. Tavares; c'est adorable!» Assim era nas outras noites; assim foi n'esta.