Histórias sem Data

Machado de Assis · Capítulo 17 de 36

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Histórias sem Data

Capitulo IV

 

PLUS ULTRA!

 

—Senhor, disse elle a Ptolomeu, tenho-me limitado até agora a escalpellar cadaveres. Mas o cadaver dá-me a estructura, não me dá a vida; dá-me os orgãos, não me dá as funcções. Eu preciso das funcções e da vida.

—Que me dizes? redarguiu Ptolomeu. Queres estripar os ratos de Stroibus?{125}

—Não, senhor; não quero estripar os ratos.

—Os cães? os gansos? as lebres?...

—Nada; peço alguns homens vivos.

—Vivos? não é possivel...

—Vou demonstrar que não só é possivel, mas até legitimo e necessario. As prisões egypicias estão cheias de criminosos, e os criminosos occupam, na escala humana, um grau muito inferior. Já não são cidadãos, nem mesmo se podem dizer homens, porque a razão e a virtude, que são os dois principaes caracteristicos humanos, elles os perderam, infringindo a lei e a moral. Além d'isso, uma vez que têm de expiar com a morte os seus crimes, não é justo que prestem algum serviço á verdade e a sciencia? A verdade é immortal; ella vale não só todos os ratos, como todos os delinquentes do universo.

Ptolomeu achou o raciocinio exacto, e ordenou que os criminosos fossem entregues a Herophilo e seus discipulos. O grande anatomista agradeceu tão insigne obsequio, e começou a escalpellar os réus. Grande foi o assombro do povo; mas, salvo alguns pedidos verbaes, não houve nenhuma manifestação contra a medida. Herophilo repetia o que dissera a Ptolomeu, acrescentando que a sujeição dos réus á experiencia anatomica era até um modo indirecto de{126} servir á moral, visto que o terror de escalpello impediria a pratica de muitos crimes.

Nenhum dos criminosos, ao deixar a prisão, suspeitava o destino scientifico que o esperava. Sahiam um por um; ás vezes dous a dous, ou tres a tres. Muitos d'elles, estendidos e atados á mesa da operação, não chegavam a desconfiar nada; imaginavam que era um novo genero de execução summaria. Só quando os anatomistas definiam o objecto do estudo do dia, alçavam os ferros e davam os primeiros talhos, é que os desgraçados adquiriam a consciencia da situação. Os que se lembravam de ter visto as experiencias dos ratos, padeciam em dobro, porque a imaginação juntava á dôr presente o expectaculo passado.

Para conciliar os interesses da sciencia com os impulsos da piedade, os réos não eram escalpellados á vista uns dos outros, mas successivamente. Quando vinham aos dois ou aos tres, não ficavam em logar d'onde os que esperavam pudessem ouvir os gritos do paciente, embora os gritos fossem muitas vezes abafados por meio de apparelhos; mas se eram abafados, não eram supprimidos, e em certos casos, o proprio objecto da experiencia exigia que a emissão da voz fosse franca. Ás vezes as operações eram{127} simultaneas; mas então faziam-se em logares distanciados.

Tinham sido escalpellados cerca de cincoenta réus, quando chegou a vez de Stroibus e Pythias. Vieram buscal-os; elles suppuzeram que era para a morte judiciaria, e encommendaram-se aos deuses. De caminho, furtaram uns figos, e explicaram o caso allegando que era um impulso da fome, adiante, porém, subtrahiram uma flauta, e essa outra acção não a puderam explicar satisfactoriamente. Todavia, a astucia do larapio é infinita, e Stroibus, para justificar a acção, tentou extrahir algumas notas do instrumento, enchendo de compaixão as pessoas que os viam passar, e não ignoravam a sorte que iam ter. A noticia d'esses dous novos delictos foi narrada por Herophilo, e abalou a todos os seus discipulos.

Realmente, disse o mestre, é um caso extraordinario, um caso lindissimo. Antes do principal, examinemos aqui o outro ponto...

O ponto era saber se o nervo do latrocionio residia na palma da mão ou na extremidade dos dedos; problema esse suggerido por um dos discipulos. Stroibus foi o primeiro sujeito á operação. Comprehendeu tudo, desde que entrou na sala; e, como{128} a natureza humana tem uma parte infima, pediu-lhes humildemente que poupassem a vida a um philosopho. Mas Herophilo, com um grande poder de dialectica, disse-lhe mais ou menos isto:—Ou és um aventureiro ou o verdadeiro Stroibus; no primeiro caso, tens aqui o unico meio para resgatar o crime de illudir a um principe esclarecido, presta-te ao escalpello; no segundo caso, não deves ignorar que a obrigação do philosopho é servir á philosophia, e que o corpo é nada em comparação com o entendimento.

Dito isto, começaram pela experiencia das mãos, que produziu optimos resultados, colligidos em livros, que se perderam com a queda dos Ptolomeus. Tambem as mãos de Pythias foram rasgadas e minuciosamente examinadas. Os infelizes berravam, choravam, supplicavam; mas Herophilo dizia-lhes pacificamente que a obrigação do philosopho era servir á philosophia, e que para os fins da sciencia, elles valiam ainda mais que os ratos, pois era melhor concluir do homem para o homem, e não do rato para o homem. E continuou a rasgal-os fibra por fibra, durante oito dias. No terceiro dia arrancaram-lhes os olhos, para desmentir praticamente uma theoria sobre a conformação interior do orgão.{129} Não fallo da extracção do estomago de ambos, por se tratar de problemas relativamente secundarios, e em todo caso estudados e resolvidos em cinco ou seis individuos escalpellados antes d'elles.