Infância, imagens e vertigens
Pré-fância de um texto ensaio
Depois que iniciei minha ascensão para a infância,
Foi que vi como o adulto é sensato!
[...]
Como não ascender ainda mais até na ausência da voz?
[...]
Por que não ascender de volta para o tartamudo.
(Manoel de Barros, Ascensão)
Começo esta breve apresentação do texto de Bianca Santos Chisté com um fragmento do poema de Manoel de Barros, talvez e possivelmente pelas inúmeras aberturas que ele nos oferece poderíamos ficar apenas nele! Ascender à infância! Eis a afirmação que por si só já seria um convite a leitura de um texto que desloca olhares, crias vias e desvias nos percursos, caminhos, um texto que nos diz que conceitos, ideias não são meramente ideológicos, mas, como diz Deleuze sobre Godard (Conversações, 2010 p.55), uma ideia é uma prática, ou ainda, continuando com Deleuze sobre Godard
Godard tem uma bela fórmula: não uma imagem justa, justo uma imagem. Os filósofos também deveriam dizê-lo, e conseguir fazer: não ideias justas, mas “justo ideias”. Porque ideias justas são sempre ideias conformes a significação dominantes ou a palavras de ordem estabelecidas, são sempre ideias que verificam algo, mesmo se esse algo está por vir, mesmo se é o porvir da revolução. Enquanto que “justo ideias” é próprio do devir-presente, é a gagueira nas ideias; isso só pode se exprimir na forma de questões, que de preferência fazem calar as respostas. Ou mostrar algo simples que quebra todas as demonstrações.
O convite de Bianca para fazer um convite ao leitor passa necessariamente aí: criar um desenho que possa apresentar um texto que se coloca como um devir-presente, povoado de ideias gaguejantes, perguntas que soam e se fazem mais presentes que respostas, um texto que circula e faz circular afetos, pensamentos, infâncias.
Um prefácio deve, por protocolo, estar no começo de um texto, deve apresentar um texto; um prefácio, em certo sentido, inaugura um texto! Porém, como inaugurar algo que é a própria inauguração, o próprio começo? O que vem antes do começo? O que pode estar antes daquilo que como começo inaugura?
O texto de Bianca Chisté é povoado de inícios, de começos e mesmo naquilo que podemos pensar como conclusivo nele apenas inaugura!
Talvez por isso o texto incomoda, vai incomodando (talvez como a infância de Lyotard!). Talvez por isso, na primeira leitura, seduz e depois nos permite ver lacunas, brechas, espaços! Porque o texto não se apresenta como algo que sossega, que acalma ou como algo que procura seduzir! O texto, diferentemente do que pensamos ou muitas vezes proclamamos por aí, não nos diz que a infância é um território seguro e puro de uma saudade, mas a infância “é aquela que se aborda através de seu meio, que se abre aos diversos dados dos sentidos e das coisas. À linguagem das coisas” (Schérer, Infantis, p.207).
O presente texto nos apresenta e nos faz este convite. Por isso, caro leitor, se você espera encontrar soluções, ideias prontas, discurso adulto, adultizado, talvez a leitura não seja a mais adequada; aqui certamente encontrará uma escrita que se apresenta como imagem, como uma imagem da infância. Vale ressaltar neste aspecto que o texto é também uma composição, uma composição (talvez como as de nossa infância) entre imagens e escritas, é um texto escrito por imagens, é um texto-imagens de nossas escritas. O texto de Bianca é produto das próprias ideias atravessando palavras e imagens e sendo atravessada por elas.
Sendo assim, um texto de educação, de educação infantil, de educação matemática na educação infantil poderia “inaugurar os formatos desformando-os incessantemente poderia acontecer em uma educação vagamundo, em uma educação dançarina? Uma educação transeunte, deslizantes de movimentos rápidos, leves, uma educação que se experimenta e se deixa experimentar, que está sempre criando, inventando, se modificando. Uma educação que invoca aumentar a potência de agir, fazer a vida vibrar e se inventar, acionar a diferença, a invenção, movimentar encontros e composições...” (Chisté, Devir criança da matemática: experiências educativas infantis imagéticas).
Fica aqui o convite, fica aqui as reticências....
Boa leitura.
César Donizetti Pereira Leite
Departamento de Educação da
Unesp, campus de Rio Claro