Infância, imagens e vertigens

Bianca Santos Chisté · Capítulo 2 de 8

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Infância, imagens e vertigens

Compondo e pondo sem ponto

 

Olha... Tá filmando eu mesmo!!!

(Pré II, 2012, 15ª 9)1

Sempre compreendo o que faço depois que já fiz.

O que sempre faço, nem seja uma aplicação de estudo.

É sempre uma descoberta.

Não é nada procurado. É achado mesmo.

(Barros, 2010, p.85)

No início não sabia exatamente o que escrever, ou mesmo como fazê-lo, tinha apenas algumas intuições e uma profunda inquietude. Sabia que o texto, não seria nem mesmo parecido, com alguma das coisas que escrevo. Assim, este texto se apresenta assim... como uma composição, um ajuntamento de pensamentos, ideias, desejos, afetos, anseios. Parece que compor tem essa intencionalidade: a reunião de elementos isolados que, quando unidos, resultam em um todo destacado por pedaços. Mas, compor não é algo tão simples, como sua definição nos leva a entender. Compor uma composição exige do compositor: criatividade, inventividade, alguns delírios, desvarios, insônias, renúncias e deslocamentos. Parece que uma composição vai sendo escrita a partir das coisas que afetam, incomodam, tocam na pele, tocam no corpo. A composição é movida por afetações e sensações, em um movimento de experimentação; é dessa forma que a partitura vai se constituindo.

Uma composição me leva a pensar em montagem, não de peças previamente moldadas, que se engrena, se engatam, como se já estivesse delimitadas para “funcionar”, para dar certo. Mas, montagem de fragmentos, de cacos, talvez de sobras, de restos, de resíduos, de esboços, que ao montado, ao composto, não se sabe exatamente o que pode resultar, ou mesmo a potência dessa composição. Seria como uma bricolagem, uma brincadeira de colar e montar, de aproximar autores, ideias, pensamentos, experiências, imagens, infância, criança, matemática e pensar com essas aproximações, com esses encontros em um movimento de criação e experimentação com a escrita.

Uma composição abre possibilidades de ser montada, bricolada; não existe uma única maneira, existem maneiras inumeráveis, por isso, ela pode ser tentativas, provas, ensaios, experiências de montagem, de bricolagem. É dessa forma que essa escrita também se apresenta: um ensaio. Um texto, uma composição que se ensaia trata de ensaiar um pensamento, de “experimentar seus limites e de inventar suas possibilidades” (Larrosa, 2010, p.11). É como se fosse impulsionada por um segundo, a aventurar-se em uma viagem, uma viagem aberta, sem planejamento, sem rota traçada, sem destino previsto e seguro, ou como diz, Larrosa (2010, p.52-3) “Uma aventura, é justamente, uma viagem no não planejado e não traçado antecipadamente, uma viagem aberta em que pode acontecer qualquer coisa, e na qual não se sabe onde se vai chegar, nem mesmo se vai se chegar a algum lugar”. Assim, mergulhada na desproporção da experiência, ela pode ser a todo o momento interrompida, ou seja, o ensaio, a composição só pode ser curso interrompido. Foi assim que essa composição, esse ensaio se iniciou.

Apresentar um ensaio então seria como apresentar um texto infantil, infante, um texto-infância, um texto menor, um texto ainda por vir, um texto porvir, um texto ainda não pronto, um texto que ensaia, para que dele se experimente, mas também que ele se experimente como texto. (Leite; Leite, 2014, p.1-2)

Dessa maneira, a composição, o pensamento que se ensaia aqui, foi pensada no momento mesmo em que este texto foi, vai, se fazendo, se constituindo, se criando; como um proceder tateante, mais experimental, mais degustativo, mais sensitivo. A intenção aqui é experimentar com pensamento, experimentar uma escrita, por que não dizer, uma escrita infantil. Uma escrita que é um convite ao pensamento, um convite à experimentação, um convite a afastar a uma pretensão de saber, a distanciar dos efeitos dos sentidos dados. Assim, a preocupação foi compor um texto que colocasse o pensamento em movimento, que me (nos) colocasse para pensar com a infância, sem preocupar-se em conceituar, definir, descrever, explicar, representar e interpretar. Ele não contribui para constatar uma pressuposta verdade, mas, sim, parece-me, transformar a relação que tenho – quem sabe, temos – com a infância, com as crianças, com o mundo, comigo mesma.

O exercício do pensamento aqui encontrou algo que o obrigou a pensar, foi um encontro fortuito, produto do acaso, produto do acontecimento. O encontro com a infância, com as crianças, com as imagens, com as falas, com a sonoridade e o sabor do encontro, sensibilizou, desencadeou uma força irrefreável que me parece, problematizou o não problematizado, pensou, quem sabe, o não pensado.

Parece que tenho muitas coisas para falar, para pensar, para compor, mas só consigo trazer para essa composição uma pequena parte delas, como num “discurso tartamudeante e tossiquento” (Calvino, 1994, p.37). Decido então, a experimentar com imagens infantis, com falas infantis, com experiências infantis, com imagens epígrafes, com falas epígrafes, com poemas, com poemas-criança. Estas experiências estão em um universo que chamarei, ajudada por Leite e Leite (2014) de imagens e cenas lúdicas de experiências infantis. O cenário é o de uma pesquisa de produção de imagens por crianças da educação infantil, crianças da pré-escola, e as cenas são de imagens daquilo que nos parece espaços lúdicos de exploração do mundo, dos seres, das coisas, daquilo que se produz pelos e com os equipamentos.

Essa composição, esse ensaio bricoleur, é um texto criado por meio de bricolagem, um texto composto por diferentes trechos de outros textos colados, através de um processo de bricolagem. BrIcolagem, bRIncadeira de criança: cortar, colar, compor. Cortar poemas, compor pensamentos, cortar palavras, compor palavras, cenas montadas e recortadas, flash de imagens, imagens confusas, embaçadas, rodopiantes, vertiginosas, movimentos lentos, rápidos. É isso que tento fazer, compor com peças soltas, incompletas, que ora se encaixam, ora não, vou então retirando algumas, colocando outras, em um movimento mesmo de experimentação, de experimentar a escrita, a composição e decomposição do ensaio, testando possibilidades. As peças soltas dispostas não foram pensadas para estar juntas, mas na brincadeira foi se criando um comum. Como em toda brincadeira, não se sabe muito bem como começa, nem como termina, sabe-se talvez que o desejo pelo brincar, pelo compor, pelo decompor, envolve um comum partilhado. Na expressão de Brasil (2008, p.15):

O bricoleur é filho de Kairós, ele que se move pelas situações, atento às ocasiões, não se submete a um projeto rígido e compõe conjuntos abertos. Como reapropriação astuta e negligente daquilo que nos é constantemente expropriado, a bricolagem nos religa a uma infância sempre presente.

Dessa maneira, como não há um roteiro prévio para se brincar, assim, o que se compõem aqui não deve seguir um percurso estabelecido a priori, nem mesmo uma expectativa fechada. Trata-se mais de um deslizar entre o texto, as palavras, escorregar entre as letras, os poemas, passear entre as imagens, de irromper no meio deles e fazer surgir algo que force o pensamento a pensar. O que pode o leitor nessa composição? Pode a leitura de olhos se prender e se perder nas imagens, passar ou pular as páginas, voltar, passear pelos rastros deixados pelas letras, escorregar entre as imagens, se deter em algum lugar, rachar as palavras, não ler todo o texto, ler um trecho aqui outro ali, se calar; e como a Alice (Carroll, 2002) se aventurar em um buraco, por força da curiosidade e da ousadia, para operar uma fissura no tempo que segue encadeado em um texto se quer em movimento.

Palavras e fazer, conteúdo, forma, composição, fala de criança, fala-criança. Quem é o autor? Quem são os autores das vozes transcritas das filmagens? O que acontece se retirarmos a identidade das vozes? E se dessubjetivarmos a autoria? Essas vozes tornam-se poemas-criança, que dispersa individualidades e se talha e coagula como leite? Há um todo e uma unidade nessas vozes, que não as totaliza e nem as unifica, mas sim, se junta a essa multiplicidade vocal como uma nova “parte composta à parte”. Aqui a voz das crianças é uma contaminação, a voz é de uma, de mais uma, mais uma, mais uma...Ou como nos diz Deleuze e Guattari (2010, p.63) “[...] pedaços de quebra-cabeça que não são do mesmo, mas de diferentes quebra-cabeças, violentamente inseridos uns nos outros, sempre locais e nunca específicos, e com suas bordas discordantes, sempre forçadas, profanadas, imbricadas umas nas outras, e sempre com restos”. Multiplicidade de vozes dispersa e anárquica entrelaçadas, atravessadas pela própria ausência de ligação, de estrutura, de memória e de organismo.

Decido então, a dividir essa composição em quatro momentos, momentos estes que componho restos, sobras, esboços, resíduos do que a infância, as crianças, as imagens, outros pensadores foram deixando em mim, me afetando, me tocando, mobilizando, violentando o pensamento. Desse modo, no primeiro momento, “Penteando e desarrumando a pesquisa”, trago um pouco da relação com a pesquisa, na qual me faz pensar em intimidade, experiência e infância, nos riscos que se corre ao se lançar em uma pesquisa como experiência, em uma pesquisa infantil. Uma pesquisa com imagens, com imagens infantis, que procura ver as imagens infantilmente com um olhar desprovido, desnudado das representações e interpretações, que não procura verdades, mas encontra potências do pensamento infantil.

No segundo momento, “Vestígios de infância”, busco pensar as marcas principais do que constitui uma ideia de infância que tem sido fundadora em nossa tradição: a maneira dominante de pensar a infância como ser que será, como ser incompleto e incapaz. Para em seguida apresentar uma outra ideia de infância: a infância já não como idade cronológica, como etapa de vida pré-estabelecida, mas pensá-la a partir do que ela tem, como presença, como afirmação, como força, instaurada em uma temporalidade imensurável, a infância como devir, como possibilidade de mudança, como experiência, experiência em vida, vida em experiência, ou seja como condição humana. Aqui um texto não tão infantil, não tão criança, composto primeiramente, ainda preso a algumas amarras, mas que apresenta um pouco a própria transformação desse ensaio em uma composição que vai se abrindo e sendo atravessada pelas sensações, percepções, afetos, afectos e perceptos.

Já no terceiro momento dessa composição, “Rastros de proporções crianceiras”, interessa-me pensar a infância, ou não-lugar inquietante. A criança não habita um outro lugar. Mas coexiste no mundo com suas vivências, seus saberes, suas imagens, seus desejos. Se houvesse mundos, diria que a criança, coexiste junto conosco. Penso aqui também, o corpo, com o corpo. Corpo que provoca o pensamento, que dá o que pensar, que afeta, toca, sensibiliza outros corpos, corpos sensíveis a outros corpos, num encontro íntimo provocador do pensamento.

Já no quarto momento, me dedico a pensar em “Delírios irracionais da imaginação”, meus, da infância, das crianças, das imagens infantis. Falo de uma tartamática infantil, de uma infânciomática inquietante. E se em vez de subjetivar, identificar a

matemática,2 dessubjetivasse-a, adjetivasse-a? É um pensar e experimentar infantil que as crianças, o devir-criança que faz pensar: o que a matemática, como forma, como identidade, colocando-se em devir, em devir-criança pode desdobrar? Invenção? Experimentação? Encontros? Esquecimento? Amizade?

Para além dessa intenção, esse texto se apresenta como um convite, um convite a pensar com a infância, as crianças, as imagens produzidas pelas crianças, os autores que trago para junto pensarmos, para com elas e com eles pensar, quem sabe para além delas e deles. Espero que possamos olhar as imagens, as falas e os pensamentos infantis e pensar com eles tendo uma experiência sensível com a infância, com as crianças, com as imagens infantis, deslocando nosso olhar e pensamentos da psicologia e da pedagogia. Assim, digo, ajudada por Kohan (2007, p.137): “Será uma alegria se algo da escrita a seguir nos permitir falar o que não falamos, pensar o que não pensamos, olhar o que não olhamos”.

(Pré II, 2012, 15ª 9)

 

(Pré II, 2012, 2° 7)

Fonte: https://www.youtube.com/watch?v=76CDjh0Ihx8