Laurindo Almeida: dos trilhos de Miracatu às trilhas em Hollywood

Introdução

 

Tratando-se de cultura, quando se pensa no Brasil uma das primeiras coisas que nos vêm à cabeça é a música. Não é novidade que ela figura entre os principais produtos de exportação de nosso país. Há tempos os músicos brasileiros que vivem ou viajam em turnês pelo exterior gozam de grande prestígio pelo simples fato de serem brasileiros. No entanto, pouco se sabe a respeito de como essa imagem firmou-se no imaginário mundial. No intuito de oferecer uma pequena contribuição nesse sentido - dada a amplitude do assunto -, o presente livro tem por foco a vida e obra de um músico: um compositor, arranjador e instrumentista que viveu a maior parte de sua vida nos Estados Unidos e, certamente, teve um papel fundamental em relação à projeção internacional que a música brasileira alcançou. Seu nome: Laurindo José de Araújo Almeida Nóbrega Neto ou, simplesmente, Laurindo Almeida - como ficou mundialmente conhecido. Curiosamente, apesar de uma vida dedicada à difusão sistemática de nossa música no exterior, para a musicologia brasileira trata-se ainda de um "ilustre desconhecido". Indo além: eu diria que é desconhecido não somente entre os musicólogos. Para ilustrar tal afirmação, poderia relatar o meu próprio caso. Em uma determinada ocasião, muito antes do início desta pesquisa, enquanto folheava despretensiosamente o livro O jazz do rag ao rock, do crítico musical Joaquim Ernest Berendt, no capítulo destinado aos instrumentos de jazz - para minha surpresa -, deparei com a seguinte afirmação:

 

Um guitarrista que ocupa uma posição toda especial no jazz é o

brasileiro Laurindo Almeida, um músico do nível dos grandes

concertistas desse instrumento - de um Andrés Segovia ou

Vicente Gomez. Almeida introduziu a guitarra tradicional;

melhor dizendo, reaplicou a tradição da guitarra não-eletrificada

no jazz moderno. (Berendt, 1987, p.228).

Inicialmente, a frase me causou certa estranheza, visto que, além de estar envolvido com o ambiente jazzístico, também sou guitarrista. Mas confesso que não sabia absolutamente nada sobre Laurindo Almeida. Então pensei: "uma hora preciso dar uma olhada nisso!" Quem diria que, passados alguns anos, o músico acabaria por tornar-se objeto de minha pesquisa.

 

Na medida em que tomava contato com as primeiras e escassas fontes de consulta, as surpresas foram aumentando: Laurindo Almeida gravou mais de cem discos de carreira; participou compondo, tocando e, algumas vezes, até atuando em aproximadamente oitocentas trilhas sonoras para filmes de Hollywood. Ainda em relação ao cinema, foi o primeiro e único brasileiro a ser premiado com o Oscar; também foi agraciado - entre 16 indicações - com cinco Grammys Awards; foi integrante de grupos da maior importância na história do jazz norte-americano, como a orquestra de Stan Kenton e o The Modern Jazz Quartet, além de muitas outras coisas. Naquele momento, notei que estava diante de um músico com uma carreira de grande sucesso no exterior e, no Brasil, aparentemente fadado ao desconhecimento. Isso porque, até então, não havia encontrado qualquer trabalho de

alguma relevância sobre o violonista. 1 Diante dos fatos, surgiu a grande questão: por que Laurindo, um músico com um curriculum dessa natureza, mencionado por diversas enciclopédias de música -brasileiras e americanas - como um dos violonistas mais influentes do século XX, ainda não ocupa o seu devido lugar na historiografia da música brasileira?

 

Outro dado curioso, também detectado logo no início da pesquisa, diz respeito a uma polêmica em torno de Laurindo Almeida e a Bossa Nova. Alguns autores - nas poucas referências que fazem ao violonista - manifestam opiniões divergentes quanto ao fato de que Laurindo poderia ter lançado as bases da concepção musical da Bossa Nova muitos anos antes de seu advento. Todavia, a despeito de essa informação ser ou não verdade, é mais do que sabido que o músico não teria sido nem o primeiro e nem o único a ser responsável por isso. Com isso, surgiram outras três perguntas: teria sido Laurindo Almeida realmente um dos precursores da Bossa Nova? Caso tenha sido, de que maneira exatamente se deu a sua contribuição? Qual a origem e as motivações de tal polêmica? Afinal, não há qualquer questionamento sobre a influência de outros músicos contemporâneos a Laurindo sobre os músicos da Bossa Nova. Essas questões - somadas à pergunta acima - revelam a problemática desta pesquisa e, ao longo dos capítulos, procurei respondê-las.

 

No que tange à sua estruturação, o livro é composto por três capítulos e anexos. O primeiro capítulo, diante da inexistência de qualquer trabalho sistemático voltado à vida e obra de Laurindo Almeida, constitui-se, basicamente, de um relato biográfico e contextual, que vai desde o seu nascimento no litoral sul do estado de São Paulo, passando pelo Rio de Janeiro das décadas de 1930 e 1940, quando, no auge da Era do Rádio, trabalhou ao lado de artistas como Carmem Miranda, Pixinguinha, Garoto, Radamés Gnattali e tantos outros, até a sua emigração para os Estados Unidos, onde se tornou um dos músicos brasileiros de maior renome no exterior. No segundo capítulo foram abordados dois temas centrais: 1) a crítica por parte da musicologia brasileira à influência do jazz sobre a nossa música popular, fato que, como veremos, contribuiu para que muitos músicos brasileiros considerados "americanizados" sofressem duras críticas por se "renderem" às influências musicais estrangeiras ou, simplesmente, por terem optado em exercer suas carreiras no exterior; 2) a polêmica em torno do violonista e a Bossa Nova. Como dito há pouco, entre os pesquisadores do movimento existe uma controvérsia acerca da importância de Laurindo Almeida na gênese da concepção musical do novo estilo. Para alguns autores, Laurindo foi um precursor da Bossa Nova. Para outros - não obstante a importância do músico em sua origem -, foi um difusor da música brasileira no exterior. Para outros, ainda, nem uma coisa nem outra. Portanto, esse assunto foi abordado com o propósito de investigar a origem e os motivos de tal polêmica. O terceiro capítulo foi destinado à análise musical de seis composições de sua autoria, lançadas entre os anos de 1939 e 1959, no intuito não só de verificar de que maneira específica Laurindo Almeida teria sido responsável pelo surgimento dessa nova concepção musical que ficou posteriormente conhecida como característica da Bossa Nova, mas também de tentar reconhecer, dentro do repertório selecionado, os procedimentos musicais que possam imprimir, por assim dizer, a sua "identidade musical". Nos anexos estão a catalogação da obra completa e a relação dos prêmios que o violonista conquistou durante sua carreira no exterior.

 

1 Posteriormente tomei conhecimento de um belíssimo documentário intitulado Laurindo Almeida: "Muito Prazer", produzido e dirigido por Leonardo Dourado, da produtora Telenews, do Rio de Janeiro, exibido em três episódios pela GNT Globosat, em 1999. Vale ressaltar que ele se tornou fundamental para a realização deste livro, sobretudo para obtenção de dados biográficos. As fotos que contêm o símbolo * na legenda foram digitalizadas a partir desse documentário.