Laurindo Almeida: dos trilhos de Miracatu às trilhas em Hollywood

3 Seis obras referenciais - análise musical

3 Seis obras referenciais - análise

 

musical

 

Diretrizes metodológicas

 

Apesar das limitações da notação musical, uma partitura de

Beethoven ou Schoenberg é um documento definitivo, um mapa

a partir do qual várias interpretações ligeiramente diferentes

podem ser derivadas. Por outro lado, uma gravação jazzística

de uma performance improvisada é algo passado, em muitos

momentos a única versão de algo que nunca pretendeu ser

definitivo [...] O historiador de jazz é forçado a avaliar a única

coisa disponível para ele: a gravação. (Schuller apud Tiné,

2001, p.2)

 

Há muito se discute a viabilidade do uso de ferramentas analíticas oriundas da música erudita para a análise da música popular, e sabe-se que, em muitos casos, elas realmente se tornam inadequadas. Isso porque, em linhas gerais, a música erudita carrega o seu teor - em maior parte - na notação musical, e por isso dispõe de ferramentas para análise musical com o objetivo de descrever e interpretar os sons por meio da partitura. Já a música popular, sobretudo a urbana - que difere da música popular étnica e folclórica, perpetuada por meio da oralidade -, teve o seu processo de transmissão e difusão principalmente pelos meios mecânicos de reprodução sonora surgidos no final do século XIX, portanto carrega o seu teor - em maior parte - na gravação musical. Entretanto, ainda que sejam distintos os procedimentos que envolvem a análise de ambas as músicas, neste livro, na medida do possível, houve a intenção de aproximá-los e torná-los complementares, visto que a classificação de algumas das peças selecionadas para análise musical (como Amazônia e Crepúsculo em Copacabana) entre música "popular" ou "erudita" é um tanto ambígua, e incapaz de satisfazer aos mais puristas das duas partes.

 

Especificadamente para a análise harmônica, foi feito uso de dois tipos de ferramentas analíticas. A primeira foram os livros Harmonia e Funções estruturais da harmonia, de Arnold Schoenberg. A segunda, o livro Teoria da harmonia na música popular, de Sérgio Paulo Ribeiro de Freitas, que propõe um sistema de análise harmônica - baseado na harmonia funcional - no qual as relações de combinação entre os acordes são normatizadas independentemente das questões de condução de vozes. Esse fato torna possível - para fins expositivos, já que esses dois fenômenos, como o próprio autor salienta, são indissociáveis - a análise de cifras, como é comumente feita pelos músicos populares para fins de improvisação. Para os demais parâmetros musicais utilizou-se o Fundamentos da composição musical, também de Schoenberg.

 

Das estruturas musicais

 

Antes de seguir, convém fazer uma ressalva: nas duas primeiras músicas analisadas, Você nasceu pra ser grã-fina e Dissimulada, as partituras usadas como referencial para a análise são reduções para piano, e ambas apresentam diferenças significativas em relação à gravação - sobretudo a partitura de Dissimulada -, dentre elas a própria tonalidade. Desse modo, só foram destacados os procedimentos musicais que são comuns tanto à partitura quanto à gravação.

 

Você nasceu pra ser grã-fina (1939)

 

Trata-se de um samba-choro, contendo duas seções principais, com a seguinte relação tonal entre elas: seção A em ré menor e seção B na subdominante sol menor. Há também, em meio às partes, uma espécie de chorus ou interlúdio instrumental, no qual clarinete e violão dividem espaço como solistas. A coda, por sua vez, é uma mera repetição da introdução.

Introdução

 

A introdução é composta de oito compassos em forma de sentença. No primeiro compasso é apresentada a forma-motivo que será o germe da composição, tornando-se recorrente tanto na seção A quanto na seção B:

 

Figura 1

 

Harmonicamente, trata-se de uma grande cadência de subdominante/dominante, preparando, assim, o início da seção A.

 

Seção A

 

A seção A contém duas partes de oito compassos: a' e a'', ambas em forma de sentenças. Conservam basicamente as mesmas características rítmicas e melódicas - compostas em maior parte de variações da mesma forma-motivo destacada acima -, porém, enquanto a' termina em uma cadência suspensiva, a'' termina em uma cadência conclusiva, como é comum às canções estróficas. Seção B

 

A seção B, seguindo o mesmo padrão de A, contém duas partes, b' e b'', ambas também em forma de sentenças. A primeira parte, b', conserva ainda as mesmas características rítmicas e melódicas da seção A. Entretanto, harmonicamente, encontra-se na região da subdominante. Já na segunda parte, b'', está o momento de maior contraste da música, tanto em relação ao aspecto rítmico e melódico (marcada por cromatismos melódicos descendentes) quanto em relação à harmonia (marcada por encadeamentos de acordes dominantes secundários consecutivos em direção ao V grau da tonalidade, A 7, para recapitulação da seção A - como no início, em ré menor).

 

Nesta música - tendo em vista os objetivos deste livro -, interessa-nos ressaltar, do ponto de vista da harmonia, somente o uso desses acordes dominantes secundários, visto que se mostraram recorrentes, não só em b'' - como já mencionado no parágrafo acima-, mas também em toda a música, a começar da introdução:

 

Figura 2

 

Na sentença a':

Figura 3

 

Além, é claro, da sentença b'':

 

Figura 4

 

No que diz respeito à melodia, observa-se que ela foi estruturada -em grande parte da música - com uma tendência a privilegiar as dissonâncias dos acordes que, por sua vez, encontram-se localizadas, não só, mas principalmente nas cabeças de compasso. Como se vê na sentença a' - por exemplo:

Figura 5

 

Disco: MIRANDA, Carmem. [Sem nome] Rio de Janeiro:

Odeon Records, 1939. 1 disco sonoro n° 11.787, 78 RPM.

Mono., 10 Pol.

 

Partitura: Irmãos Vitale Editora.

 

Localização: Acervo José Ramos Tinhorão – Instituto Moreira

Salles.

 

Dissimulada (1946)

 

Dissimulada é um samba-canção. A primeira seção (A) encontra-se em dó menor, e a segunda seção (B) encontra-se na subdominante fá menor. Assim como Você nasceu pra ser grã-fina, também há em meio às partes um chorus ou interlúdio instrumental, com destaque entre os solistas para o solo de guitarra havaiana.

Introdução

 

A introdução possui oito compassos em forma de sentença, oriundos - sobretudo em relação ao desenho melódico - da seção B.

 

Seção A

 

A seção A contém duas partes de oito compassos: a' e a'', ambas em forma de períodos, e com o mesmo antecedente:

 

Figura 1

 

Os consequentes da seção A conservam basicamente as mesmas características rítmicas e melódicas. Seguindo novamente o mesmo padrão formal de grande parte das canções populares, enquanto o consequente de a' termina em uma cadência suspensiva, o consequente de a'' termina em uma cadência conclusiva:

Figura 2

 

Consequente de a'

 

Figura 3

 

Conforme vem sendo destacado em azul, em relação à harmonia, observa-se que na seção A - tanto no antecedente quanto no consequente - há o uso frequente de dominantes secundárias encadeando os diferentes graus da tonalidade. Os acordes Db7, no primeiro tempo do compasso 15, e Ab7, no segundo tempo do compasso 19, não estão presentes na gravação.

 

Seção B

A seção B também é dividida em duas partes de oito compassos, b' e b'', porém, diferentemente da seção A, compostas em forma de sentenças:

 

Figura 4

 

Figura 5

Figura 6

 

Nesta seção podemos observar ao longo de seu desenvolvimento o uso de um mesmo motivo rítmico - extraído da seção A - como germe da composição. Todavia, em relação à harmonia - tanto na seção A quanto na B -, assim como na música anterior, não há nada de muito ousado, ficando restrita somente ao uso de encadeamentos aos diferentes graus da tonalidade por meio de dominantes secundárias. Acordes como F#°, no segundo tempo do compasso 21; Bb+, no segundo tempo do compasso 23; e Ab7, no segundo tempo do compasso 30 pertencem somente à redução para piano, mas não estão presentes na gravação.

 

Disco: SILVA, Orlando. [Sem nome]. Rio de Janeiro: Odeon

Records, 1946. 1 disco sonoro n° 12.706, 78 RPM. Mono., 10

Pol.

 

Partitura: Editora Fermata do Brasil.

 

Localização: Acervo Centro Cultural Vergueiro.

 

Brazilliance (1949)

 

Trata-se de um choro para violão solo, em sua forma prototípica / A / B / A / C / A /, mantendo a seguinte relação tonal entre as seções: seção A em dó maior, seção B na relativa lá menor, e seção C na subdominante fá maior.

Seção A

 

A seção A contém duas partes de oito compassos: a e a', ambas em forma de sentenças. Sentença a:

 

Figura 1

 

Figura 2

 

Como visto acima, o início desta sentença (figura1) é construído conforme o modelo-padrão: uma frase inicial de dois compassos e a sua repetição transposta. O projeto harmônico consiste em duas cadências II - V, primeiramente em direção ao I grau no compasso 2, e posteriormente em direção ao III grau no compasso 4. Na primeira cadência rumo ao acorde de tônica, destaca-se o II 7 b: sobre a tríade de ré bemol, em estado fundamental - tríade napolitana -, são acrescentadas mais duas notas, si e mi; contudo, se enarmonizarmos a nota si para dó bemol, teremos um acorde maior com 7ª menor e 9ª aumentada sobre o II grau - na música erudita classificado como acorde de 6ª aumentada; na música popular, como dominante substituto do V 7. O próximo encadeamento, em direção ao III grau, acontece via cadência de dominante secundária. Note-se que o VII grau é transformado em uma dominante individual do III grau que, por sua vez, também já aparece alterada, em uma espécie de preparação à conclusão. Já no que diz respeito à melodia, veja-se que ela é construída em maior parte sobre as dissonâncias dos acordes, localizadas principalmente nas "cabeças" de cada compasso.

 

A conclusão - compasso 5, figura 2 - não se enquadra no modelo convencional, tanto em decorrência de não usar fragmentos rítmicos e melódicos oriundos do bloco inicial da sentença, quanto em decorrência do encadeamento harmônico, de modo geral, finalizado no I, V ou III grau da tonalidade. Nesse caso, trata-se de um grande trecho na região da subdominante, em suas possíveis configurações. Inicia no Dm (relativo da subdominante); em seguida vai para o Fm (subdominante menor); no segundo acorde do compasso 6 para o Eb°, um II alterado (trata-se, na verdade, de um D7 9b com a fundamental subentendida) e, por fim, para o Ab 7/11# no 2º tempo do compasso 8 (também o II em sua configuração Sub V de D7). Sentença a':

Figura 3

 

A segunda sentença da seção A, a' (figura 3), começa com a repetição dos dois primeiros compassos de a. Todavia, com a inserção da nota lá bemol a partir do compasso 11, inicia-se um caminho para região da subdominante menor. Veja-se que no compasso 12 há um trítono paralelo entre fá e dó bemol (trítono de G7, com o si enarmonizado) e mi e si bemol (trítono de C7) indicando que a conclusão de a' se dará, de fato, na região da subdominante menor. Como esse bloco conclusivo é precedido de um encadeamento em direção ao Fm, seria natural que o primeiro acorde dele fosse o próprio; entretanto, inicia com um Dm7/b5 na cabeça do compasso 13. Na verdade, podemos encará-lo como uma simples inversão de um Fm6, fato que vem a confirmar-se no segundo acorde, quando a disposição das notas é alterada, e mantida em uma sucessão de acordes menores com 6ª, rumo à cadência de finalização da conclusão, desta vez seguindo o modelo-padrão com a reafirmação da tonalidade inicial no compasso16.

 

Seção B

A seção B, de modo semelhante à seção A, foi dividida em duas partes: b e b', novamente em forma de sentenças. Sentença b:

 

Figura 4

 

Como pôde ser visto, o bloco inicial de b (figura 4) tem um movimento harmônico menor, que se mantém praticamente em um pedal na região da relativa menor da tonalidade, conservando um mesmo padrão rítmico e melódico que resulta em um efeito de constante suspensão harmônica: no primeiro tempo de cada compasso há sempre uma "sensível" de uma das notas do acorde em questão, que acaba se resolvendo um semitom acima no segundo tempo de cada compasso. A conclusão - de modo semelhante à da sentença a - é um trecho na região da subdominante, em suas possíveis configurações. Começa com o II, Dm (relativo da subdominante), no mesmo compasso salta para o acorde de Fm6 (subdominante menor), no compasso 23 e 24 - ainda que de modos diferentes -mantém-se no II: o F#° no 1º tempo do compasso 23 é, na verdade, um D7 9b, disposto em forma de acorde diminuto a partir de sua terça, ou seja, novamente um

acorde de nona com fundamental subentendida.1 O acorde na cabeça do compasso 24 também é um II alterado, na forma de meio diminuto com a quinta diminuta no baixo (Dm7 b5 / Ab).

 

Já a segunda sentença da seção B, b', é quase uma mera repetição de b. No bloco inicial há somente uma pequena diferenciação rítmica. No bloco conclusivo também há somente uma diferença na cadência final, que no b' tem por objetivo preparar a repetição do

integral da seção B (figura 5):

 

Figura 5

 

Seção C

 

Seguindo o mesmo padrão de A e B, a seção C também foi dividida em duas partes de oito compassos: c e c'. Porém, nesse caso, aproximam-se mais à forma de períodos, ambos com o mesmo antecedente:

 

Figura 6

Faz-se notória a partir daqui a mudança de clave, portanto, a análise harmônica terá o fá maior como um novo centro tonal. Dito isso, no bloco inicial de ambos os períodos, vale ressaltar o uso de uma "sonoridade diminuta". Note-se que os compassos 36 e 37 são compostos por uma sucessão de acordes dessa natureza, primeiramente por tríades no compasso 36, e depois por tétrades no 37. Este - embora seja novamente o D7 9b disfarçado -, devido à nova região tonal, torna-se agora de um grande VI alterado, colorido pelas possibilidades de simetria harmônica, próprias dessa sonoridade em questão.

 

O consequente do período c:

 

Figura 7

 

Como demonstrado acima (figura 7), o consequente do período c não é exatamente uma repetição modificada - ainda que conserve muitas semelhanças, sobretudo rítmicas, com o bloco inicial. Harmonicamente é construído à base de tríades, partindo no compasso 39 em uma grande cadência II - V, para a reafirmação da nova tonalidade com a recapitulação integral da seção C. Já o

consequente de c' (figura 8):

Figura 8

 

Inicia no compasso 43 com um B o - classificado como II alterado porque se trata novamente da substituição de um acorde dominante (o G7 9b) por um diminuto - em direção ao Dm / C no compasso seguinte, no qual se faz notório um cromatismo melódico que aponta uma frase construída sobre o arpejo de ré menor, rumo à cadência final, preparando, assim, a repetição integral da s eção.

 

Na última recapitulação da seção A, o destaque fica no último acorde:

 

Figura 9

 

Note-se que esse acorde final é acrescido das tensões nona maior e 11ª aumentada, porém, com a sétima ausente. Esse procedimento de finalização é muito comum no jazz, e muito incomum no choro, sobretudo no dessa época.

 

Disco: ALMEIDA, Laurindo. Concert Creations for Guitar.

Califórnia: Capitol Records, 1949. 1 disco sonoro n° EBF-193,

33 1/3 RPM, mono., 10 pol.

 

Partitura: Em forma de manuscrito.

 

Localização: Acervo Ronoel Simões.

 

Amazônia (1950)

 

Trata-se de uma peça para violão solo e orquestra de jazz. Diferentemente das outras músicas analisadas, esta não se enquadra em nenhum padrão formal de composição. Poderia se dizer que é constituída de um pequeno grupo de unidades temáticas irregulares e assimétricas que se encadeiam em uma espécie de "colagem". Além disso, também se diferencia das anteriores pelo predomínio do pensamento melódico sobre o harmônico. Há na peça uma completa ausência de acordes com funções estruturais. Tais acordes parecem desempenhar um papel essencialmente "colorativo", por assim dizer, fato que torna a classificação entre tonal, modal, ou até atonal um tanto ambígua. O grande destaque fica pela seção rítmica em meio às partes, na qual é evocada -sobretudo pelos instrumentos de percussão - uma "brasilidade" que acaba soando como se fosse um cartão de apresentação de nacionalidade do compositor.

 

Introdução A introdução é composta por uma única unidade temática de quatro compassos, exposta primeiramente pelo violão e, logo em seguida, pela orquestra. A linha melódica, extraída de uma escala pentatônica, somada ao tipo de harmonização e orquestração, evoca uma "sonoridade impressionista" que se fará presente por

toda a peça (figura 1).

 

Figura 1

 

Como pôde ser visto acima (figura 1), a introdução tem sua unidade temática construída em ré menor. Contudo, a partir do interlúdio -formado basicamente por três unidades temáticas (a, b e c) -observa-se uma constante alternância com o ré maior, vindo a tornar-se uma das principais características harmônicas da música. Veja que a primeira unidade temática do interlúdio tem início com

uma tríade de ré maior (figura 2):

 

Figura 2

 

Essa ponte (figura 3) entre a unidade temática b e a recapitulação de a - cujo motivo foi extraído do primeiro compasso da unidade temática a - dá indícios disso. Observe o uso alternado das notas fá natural e sustenido, a partir do compasso 14:

 

Figura 3

 

Na unidade temática b, interessa-nos o uso que Laurindo faz dos acordes diminutos com sétimas maiores. Veja, nos compassos 7 e 9

(figura 4), que a melodia é harmonizada com o mesmo acorde (quando digo isto, refiro-me até mesmo à disposição das notas no braço do violão) transposto um tom e meio abaixo. Esse procedimento harmônico - oriundo das possibilidades de simetria dos acordes diminutos -, juntamente com a mencionada alternância entre a "tonalidade" de ré maior e menor, é tão recorrente na peça -a começar pela introdução - que poderíamos dizer que, do ponto de vista da harmonia, tudo se resume a isso.

Figura 4

 

Essa mesma característica harmônica encontra-se presente quase sempre em meio às unidades temáticas, como se vê, tanto na ponte

entre a unidade temática a e b (figura 5), quanto no trecho que

antecede a cadenza, ao final da peça (figura 6):

 

Figura 5

Figura 6

 

Tais acordes, embora não pareçam desempenhar funções estruturais - pelo menos no sentido mais comum do termo -, em toda a música estão sempre se remetendo tanto ao A7 quanto ao E7. Observe-se que no compasso 41 estão contidas duas tétrades diminutas com sétima maior: C#° 7M e A#° 7M. Ambas funcionam como um grande A7: levando em conta as respectivas enarmonizações, no primeiro acorde temos a 3ª, 5ª, 7ª e 9+. Já no segundo acorde a 9b, 3ª, 5ª e tônica. Trata-se do mesmo modelo de acorde transposto um tom e meio. Esse procedimento será repetido a partir do compasso 43, porém, agora em relação ao E7 - da mesma maneira observada anteriormente na unidade temática b.

 

A unidade temática c tem um movimento harmônico maior, ocasionado, sobretudo, pelo cromatismo descendente no baixo. O destaque, entretanto, fica pelo último acorde de sexta aumentada -ou SubV da tonalidade -, um Eb7, que caminha em direção ao ré maior com o início da recapitulação da unidade temática a.

Figura 7

 

Após a seção rítmica, tem início a recapitulação da unidade temática da introdução, e da unidade temática b do interlúdio, cujas diferenças em relação à primeira exposição estão basicamente na instrumentação. A codeta é, na verdade, uma simples cadência de finalização em direção - desta vez, como no início da peça - ao ré menor.

 

Figura 8

 

Nesta cadência final, encontram-se presentes as duas principais características harmônicas já mencionadas. Note-se que o primeiro grupo de semicolcheias contém as notas fá sustenido e fá natural no mesmo acorde. O segundo grupo de semicolcheias contém nas vozes superiores uma tétrade diminuta com sétima maior.

 

Disco: KENTON, Stan. The innovations Orchestra. California:

Capitol Records, 1950. 1 CD sonoro n° CDP-59965.

 

Partitura: Brazilliance Music. Inc. Made in U.S.A.

 

Localização: Acervo Ronoel Simões.

 

Laura (1951)

 

Nesse caso, o foco da análise estará no arranjo de Laurindo Almeida para um tema de autoria do também compositor de filmes de Hollywood, Davis Raksin (1912-2004), originalmente composto para a trilha sonora do filme de Otto Preminger, igualmente chamado Laura, de 1944.

 

Seção A

 

A seção A é composta de oito compassos em forma de período:

Figura 1

 

Seção B

 

A seção B aproxima-se mais à forma de sentença:

Figura 2

 

Na primeira exposição das seções A e B (figuras 1 e 2), o projeto harmônico e melódico de Raskin é mantido quase integralmente. No arranjo de Laurindo é enriquecido somente por acordes de passagem e ornamentos melódicos - característicos de uma linguagem própria do violão. Assim como no choro Brazilliance, observa-se que o tipo de harmonização até aqui presente é bem à maneira do jazz, repleto de acordes carregados de dissonâncias em sua composição.

 

Nas exposições subsequentes de A, seções A', A'' e A''', a diferença estará, basicamente, no tratamento musical dado à unidade temática - como visto acima, composta de uma forma-motivo e sua repetição um tom abaixo. Em A', faz-se presente na exposição do tema o uso da técnica violonística do tremolo. Note-se que a unidade temática encontra-se diluída em meio à figuração rítmica da

voz superior (figura 3):

Seção A'

 

Figura 3

 

Seção A''

 

Em A'' (figura 4), Laurindo mantém um pedal na nota lá, que conserva ainda algumas características rítmicas da seção A'. Esse pedal no baixo em alguns momentos parece querer sugerir uma imitação ou inversão do tremolo, presente na voz mais aguda da seção anterior. Todavia, o que mais chama atenção na seção é a harmonização de caráter essencialmente homofônico da melodia. Observe que a unidade temática é inteiramente harmonizada com o mesmo "modelo" de acorde - salvo alguns pequenos ajustes -, que acaba percorrendo cromática e paralelamente quase todo o braço do violão. Quanto à classificação desses acordes, ainda que contenham tríades internas em sua formação, não possuem funções estruturais. Portanto, qualquer tentativa de enquadrá-los em uma ou outra tipologia de acorde parece de alguma forma arbitrária.

 

Figura 4

 

Seção A'''

 

Esta seção, A''', diferencia-se de A basicamente pela mudança de fórmula de compasso. Em decorrência disso, a unidade temática sofreu uma pequena alteração na configuração rítmica.

Figura 5

 

Seção C

 

A seção C foi construída da junção das seções A e B. Pode-se dizer que os quatro primeiros compassos são oriundos de B, e os quatro últimos de A. No arranjo de Laurindo, parecem ganhar características de um pequeno desenvolvimento ou elaboração, devido ao tratamento musical dado aos fragmentos rítmicos e melódicos de ambas as seções, sobretudo no compasso 28 e 29, quando há um jogo de pergunta e resposta entre as vozes inferior e superior, que se dá pelo uso de um fragmento melódico que tem origem na forma-motivo de A.

Figura 6

 

Também é a seção que possui a maior movimentação harmônica. O destaque fica pelo target harmônico que tem início no compasso 26. Note-se que começa em um acorde formado pelas notas dó, sol bemol e si bemol que imaginando uma terça do acorde omitida - no caso, um mi bemol - teríamos um Cm7/b5 que desce cromaticamente em direção ao G#m7/b5.

 

Seção C'

Figura 7

 

Como pode ser visto acima (figura 7), a seção C ' é muito semelhante a C. Difere, basicamente, nos aspectos rítmicos. Esta é mais "enxuta", digamos assim. Ainda permanece a ideia inicial de manter os quatro primeiros compassos de A e, neste caso, os seis últimos de B, com o mesmo tratamento imitativo entre as vozes superior e inferior, tratamento este que se mantém até a codeta.

Observe-se (figura 8):

 

Codeta

 

Figura 8

Uma observação harmônica: note-se que a nota dó é mantida em constante suspensão, sendo harmonizada por diferentes acordes durante toda a codeta. No compasso 60, o acorde que permanecerá suspenso até o compasso seguinte é uma tríade de sol bemol maior- subtraindo, é claro, a 11ª aumentada da melodia - que ganhará no próximo compasso um baixo ré. Ou seja, configurar-se-á como um Gb11# / D. Para uma música em lá menor, trata-se de um final bastante inusitado.

 

Disco: ALMEIDA, Laurindo. Sueños/Dreams: Capitol Records,

1951. 1 disco sonoro n° T-2345, 33 1/3 RPM, mono., 10 pol.

 

Partitura: 1945, 1970 Twentieth Century Music Corporation.

Made in U.S.A.

 

Localização: Acervo Henrique Pinto.

 

Crepúsculo em Copacabana (1957)

 

Trata-se de uma peça para violão solo, com forma A B A, precedida de introdução e seguida de coda. A relação tonal entre as seções não é das mais inusitadas: a introdução inicia-se na tonalidade de ré maior, porém, na medida em que se desenvolve, acaba funcionando como um bloco de transição harmônica, com o propósito de preparar os temas A e B, ambos em sol maior. Tanto o tema A quanto o B têm como ponto forte as questões rítmicas. Já em relação à harmonia, a característica principal é a estaticidade, revezando entre a região de subdominante e dominante, em uma espécie de grande cadência II - V, para a afirmação da tonalidade, que, por sua vez, nunca acontece. A coda, de modo semelhante à introdução, e em contraste com o tema A e B, é marcada por um período de maior movimentação harmônica. É somente nela que, finalmente, a tonalidade se confirma.

Introdução

 

A introdução contém 15 compassos. Entretanto, a sensação auditiva é de 16, visto que, na gravação, a fermata no 4° tempo do compasso 15 é estendida de modo a preencher exatamente o tempo de um 16º compasso "imaginário", deixando assim a impressão de duas partes de oito compassos cada, em forma de sentenças:

 

Figura 1

Figura 2

 

Conclusão

 

Nesses oito primeiros compassos, verifica-se claramente a afirmação da tonalidade inicial. O acorde D é cadenciado pela sua respectiva dominante A7 por duas vezes, com uma diferença na disposição das notas da segunda vez. No bloco conclusivo, nota-se uma sucessão de acordes cromáticos no sentido descendente, que tem por objetivo preparar o início da segunda sentença. Tais acordes possuem somente três vozes que caminham na mesma direção e conservam a mesma relação intervalar em relação à suposta tônica: sétima menor (escrita como sexta aumentada no primeiro tempo dos compassos 7 e 8), e um revezamento entre a quarta aumentada e a quinta diminuta - sua enarmônica. Na verdade, trata-se de um recurso próprio do instrumento. É provável que Laurindo, tendo em mente partir do I grau em direção ao V - em uma espécie de target harmônico -, tenha optado por manter o mesmo "modelo de acorde" em uma progressão de semitons

descendentes na direção do alvo, o A7 (ou IIb7 / Sub V do A7). 2

 

A segunda sentença inicia-se no compasso 9, com basicamente a repetição dos quatro primeiros compassos da primeira sentença:

Figura 3

 

A conclusão é marcada por uma cadência que segue o mesmo procedimento anterior, de acordes cromáticos sem a terça, no sentido descendente - porém, com um maior movimento melódico entre as vozes internas -, começando em C7/11# (ou Cm7 b5), em direção à dominante da tonalidade A7, com uma série de dissonâncias acrescidas ao acorde.

 

A partir do compasso 16 - como pode ser visto na clave acima -inicia-se uma modulação. Para isso, o compositor faz uma ponte de dois compassos (16 e 17) entre a introdução e a seção A, transformando o I (ré maior) em um V7 da nova tonalidade,

conforme demonstra a figura 4.

Figura 4

 

Seção A

 

A seção A contém oito compassos, em forma de período:

 

Figura 5

 

Embora tenha surgido em meio a uma ponte modulatória, a nova

tonalidade - sol maior - não é afirmada. Repare-se (figura 5) que o antecedente inicia na subdominante e permanece em um revezamento com a dominante, nunca cumprindo a expectativa da tônica. A bem da verdade, a sensação auditiva é de um trecho de caráter modal, no qual a estaticidade harmônica evidencia as

questões rítmicas. O consequente (figura 6):

Figura 6

 

Iniciado acima no compasso 22 (figura 6), apresenta um movimento harmônico maior. Contudo, mesmo ficando ainda nas regiões de dominante e subdominante, notam-se algumas alterações nos graus, geradas, principalmente, pelo uso dos acordes oriundos da escala de lá menor harmônica - dado o uso da nota fá natural e sol sustenido - em todo o trecho. Ainda do ponto de vista da harmonia, destaca-se o compasso 25, ponte entre os temas A e B, no qual o II grau é transformado em um acorde dominante secundário - na configuração diminuto, porém, interpretado aqui como A7 9b, com a fundamental subentendida - preparando a seção B. Ainda que tenha ressaltado até aqui os aspectos harmônicos da seção A, fica claro que o ponto forte dele é a questão rítmica. Se para fins expositivos separarmos em vozes o arranjo de violão - superior, intermediária, e inferior - notaremos um jogo polirrítmico entre essas vozes, principalmente no consequente, quando na voz superior há o uso reiterado das tercinas (provenientes do compasso composto), enquanto nas vozes intermediária e inferior há o uso reiterado de variações de colcheia e semicolcheia (provenientes do compasso simples), provocando assim uma espécie de birritimia entre as vozes.

Seção B

 

A seção B, mantendo o mesmo procedimento anterior, é formada por um único período, sendo o antecedente:

 

Figura 7

 

Repare que o antecedente (figura 7), apesar de não conter nenhuma novidade do ponto de vista da harmonia, é bastante interessante devido à maneira em que o compositor dispõe os acordes. Ressalta a tessitura de três oitavas em que se inicia o compasso 26, que vai aos poucos diminuindo até chegar a graus conjuntos no sentido descendente no compasso 27, fazendo com que a estaticidade harmônica seja compensada por um grande

movimento de caráter melódico. Já o consequente (figura 8), seguindo o modelo-padrão, é, basicamente, uma mera repetição do antecedente, com pequenas diferenças, dentre elas, o cromatismo presente na melodia do compasso 29.

Figura 8

 

O grande contraste da seção B, em relação à seção A, é o aspecto rítmico, sobretudo pela mudança de fórmula de compasso. Embora conserve a mesma divisão ternária, a passagem de compasso simples para composto dá um novo caráter à peça.

 

Coda

 

Figura 9

Como já mencionado anteriormente, na coda, iniciada no compasso 37, há um movimento harmônico maior para o acontecimento da cadência final. O destaque aqui fica no penúltimo acorde, o V grau alterado. Ao imaginar um D7 - o dominante em sua forma convencional -, da tétrade só teríamos a tônica e a terça. As demais notas poderiam ser vistas como uma série de dissonâncias acrescidas ao acorde, tais como 9b, 11# e 13ª. Como as tais dissonâncias estão dispostas em uma região aguda, enquanto as da tétrade em uma região grave, a sensação auditiva é realmente de um V7 que se resolve no acorde de tônica. Entretanto, há outra possibilidade de classificar o acorde que se dá por meio do empilhamento de terças, e das possíveis enarmonizações das notas. Desse modo, também é possível chegar em um acorde de lá b menor com sétima, com o baixo em ré (Abm7/D).

 

Disco: ALMEIDA, Laurindo.; TURNER, Ray. Impressões do

Brasil. Califórnia: Capitol Records, 1957, 1 disco sonoro n° P-

8381, 33 1/3 RPM, mono., 12 pol.

 

Partitura: Criterion Music Corporation. Made in U.S.A.

 

Localização: Acervo Ronoel Simões.

 

Conclusão da análise

 

As músicas Você nasceu pra ser grã-fina e Dissimulada - compostas sob medida para Carmem Miranda e Orlando Silva -, embora bem feitas, não apresentam nada que as diferencie das demais composições dessa mesma época, a década de 1940. Como demonstrado na análise estrutural, rítmica e melodicamente elas possuem traços bastante comuns. Harmonicamente, além de compostas em tonalidade menor, possuem a mesma relação de tônica e subdominante entre as seções, alcançada sempre por meio de cadências de dominantes secundárias. Ou seja, nada que apresente grande relevância, tendo em vista os objetivos desta análise. A bem da verdade, as duas músicas refletem na íntegra o tipo de produção musical em que Laurindo Almeida esteve envolvido enquanto viveu no Brasil. Foi somente nos Estados Unidos que ele teve condições de divulgar seu trabalho voltado à música instrumental. Contudo, por meio delas foi possível verificar outra faceta de Laurindo - ainda mais desconhecida - como compositor de letras de música. Destaca-se a letra de Você nasceu pra ser grã-fina, de caráter satírico. Nela, podemos observar que a palavra "bossa" - como apontam muitos pesquisadores - já era usada por compositores anteriores à Bossa Nova para designar um jeito diferente de cantar ou tocar. Consta que foi usada pela primeira vez em 1932, em um samba de Noel Rosa, intitulado Coisas nossas.

 

O choro Brazilliance - faixa que integra o álbum Concert creations for guitar, primeiro disco de Laurindo Almeida lançado nos Estados Unidos, em 1949 - apresenta a forma-padrão do choro em três seções. A seção C é a que tem mais características de choro tradicional, construída harmonicamente sobre tríades, contendo um baixo de caráter essencialmente melódico. A seção B, por sua vez, caracteriza-se, sobretudo, pela influência do maxixe. Entretanto, é a seção A a que mais nos interessa. Nela encontram-se evidentes muitas das características harmônicas da estética bossa-novista, desde acordes sensivelmente mais alterados (tétrades acrescidas de mais uma ou duas dissonâncias) até o uso de regiões da tonalidade (as relações oriundas de subdominante menor, por exemplo) não tão comuns aos choros da mesma época. Aliás, um observador mais atento diria que, se não tivesse sido composta pelo menos dez anos antes, a seção A do choro Brazilliance poderia parecer uma citação de Samba de uma nota só, de Tom Jobim e Newton Mendonça.

 

A peça Amazônia, faixa que integra o disco The innovations orchestra, lançado em 1950, é bastante representativa do período em que Laurindo atuou como compositor e arranjador da orquestra de Stan Kenton. Nela, podemos observar uma nítida influência da música erudita, sobretudo de Villa-Lobos e dos impressionistas franceses. Conforme relatado anteriormente, consta que foi composta a pedido do próprio Kenton, que teria solicitado a Laurindo que a composição apresentasse algo tipicamente brasileiro, fato que, de certa maneira, explica e justifica aquela seção rítmica um tanto inusitada em meio às partes. Na verdade, o disco todo parece querer promover uma síntese musical das Américas, contendo faixas que fazem menção a outros países, como Cuban episode, Mardi gras e Salute - uma versão musical da Política da Boa Vizinhança dos Estados Unidos. Todavia, dentre as músicas analisadas, Amazônia é a que tem maior distanciamento das formas composicionais clássicas, contendo um enfoque harmônico, melódico e também orquestral bastante singular dentro de sua obra.

 

É interessante ver - à luz da análise musical - que em um curto espaço de quatro anos, entre as músicas Dissimulada e Amazônia, Laurindo, de um compositor de choros e sambas para cantores do rádio, sem grandes projeções no Brasil, tornou-se um renomado instrumentista, compositor e arranjador de uma das maiores orquestras americanas de jazz de todos os tempos.

 

O tema Laura, de autoria de David Raksin - tratando-se de trilhas sonoras para filmes de Hollywood - tornou-se um clássico, sendo uma das músicas mais gravadas e executadas na história da música americana. No arranjo de Laurindo Almeida - parceiro de Raksin em diversos trabalhos voltados para o cinema - podemos observar que, mesmo sendo a música composta claramente dentro dos moldes jazzísticos, há uma fusão muito natural entre essa linguagem em questão e a da música erudita (desta última, faz-se novamente notória a influência da obra para violão de Villa-Lobos). O que mais chama a atenção no arranjo são os diferentes recursos musicais de que o violonista lança mão para harmonizar por diversas vezes a mesma melodia, sempre com um refinamento impecável e muito bom gosto. Assim como no choro Brazilliance, observou-se que em alguns trechos, sobretudo na primeira exposição da seção A, o tipo de harmonização presente é, senão igual, muito semelhante às harmonizações que posteriormente seriam consagradas pela Bossa Nova.

Crepúsculo em Copacabana - última música analisada -, dentro da vasta produção musical de Laurindo Almeida, também é, sem dúvida, um bom exemplo disso. Como bem lembra Fabio Zanon: "Esta música demonstra uma atmosfera contemplativa e harmonia tateante que seriam as marcas registradas da Bossa Nova anos mais tarde" (Zanon, 2006).

 

De fato, a peça é bastante arrojada do ponto de vista da harmonia, sobretudo pelo uso frequente de acordes com um grande número de tensões em sua composição, evidenciadas principalmente nas dominantes e nas suas possíveis configurações. Mas também há outros aspectos a serem ressaltados. Em primeiro lugar - como já mencionado - ela ressalta a capacidade de Laurindo de reunir, de forma muito peculiar, na mesma composição, elementos provenientes da música erudita e da música popular. Além disso, também podemos destacar os aspectos rítmicos (tanto pelo uso simultâneo de células oriundas do compasso simples e composto quanto pelas mudanças de fórmula de compasso entre as seções) e os melódicos (dado o uso recorrente de cromatismos em sua estrutura). E como não poderia deixar de mencionar, os aspectos interpretativos, a começar pela introdução - que também poderia ser vista como um prelúdio, dada a total independência em relação às outras partes -, carregada de sutilezas interpretativas, executada por Laurindo com muita expressividade. Destaca-se a indicação inicial da partitura de intimissimo (sic), levada na execução ao sentido mais intrínseco do termo, e o uso de harmônicos artificiais que dão um colorido especial à introdução. Outro ponto forte da interpretação encontra-se na seção B. Embora conserve em toda a sua duração o mesmo padrão rítmico, a melodia é executada por Laurindo de uma maneira bastante livre em relação ao pulso - cheia de accelerandos e ritardandos -, entretanto, com uma precisão cirúrgica na execução das pausas de semicolcheias, localizadas simetricamente entre as figuras rítmicas.

 

A identidade musical de Laurindo Almeida Por fim, a partir dos dados obtidos no decorrer da análise, procurei sintetizar em alguns tópicos o que poderíamos chamar - dado o uso recorrente de determinados procedimentos musicais - de as estratégias composicionais de Laurindo Almeida:

 

O uso - enquanto possibilidade a mais de afinação - da sexta

corda do violão afinada em ré.3 O predomínio das formas musicais clássicas como parâmetro para composição, tanto o protótipo do choro (ABACA) quanto o da forma-canção (ABA), acrescidos de introdução, transições, interlúdios e codas. Além disso, observou-se também a

preponderância de sentenças sobre períodos. 4 Ritmicamente: mudanças frequentes de fórmula de compasso como recurso de contraste entre seções. Fraseologicamente -no que tange às questões rítmicas - não foi observado nada que pudesse ser ressaltado como característico. O uso recorrente de cromatismos, tanto melódicos quanto harmônicos, principalmente no sentido descendente. Melodicamente: além do uso desses cromatismos, observou-se também uma tendência da melodia estar centrada sobre a dissonância do acorde.

O predomínio do pensamento harmônico sobre todos os demais parâmetros musicais. Não só pelo uso de dissonâncias acrescentadas (6as as as as as , 7 , 9 , 11 e 13) sobre uma base formada por um tetracorde, como também pela maneira em que a tonalidade é estendida em sua quase totalidade, por meio de cadências de dominantes secundárias, diminutos (em grande recorrência e das mais variadas formas), acordes de sexta aumentada (subV), acordes com relações oriundas tanto da subdominante maior e menor quanto da relativa menor da tonalidade. Volto a reiterar: é em tudo semelhante à maneira em que se estruturaria a harmonia da música popular brasileira a

partir da Bossa Nova. 5

 

Em relação a este último tópico, faz-se necessário abrir um parêntese: é fato que Laurindo Almeida - como a grande maioria dos músicos de sua época - foi influenciado pelo jazz. E isso acabou por tornar-se latente em sua obra, principalmente no que diz respeito à concepção harmônica - como salientaram diversos autores citados no capítulo 2. Não pretendo negar o evidente, mas somente acrescentar algumas considerações a isso. Vale lembrar que a influência das harmonias jazzísticas sobre a nossa música popular sempre foi vista a partir de dois ângulos: se, por um lado, ela contribuiu para que música popular brasileira viesse a se tornar "mais sofisticada", ganhando assim visibilidade internacional, por outro lado, essa mesma sofisticação harmônica - em grande parte, resultado da influência do jazz - sempre foi muito criticada pelas alas mais conservadoras, preocupadas em resguardar o "caráter nacional" que ainda restava à nossa música popular. Isso posto, vejamos o que Mário de Andrade diz a respeito:

 

O problema da harmonia não existe propriamente na música

nacional. Simplesmente porque os processos de harmonização

sempre ultrapassam as nacionalidades. Adiante: Todas as

sistematizações de harmonização que nem o cromatismo de

Tristão, os acordes alterados Franckistas, as nonas e

undécimas do Debussismo principiaram com um indivíduo.

Porém, como este indivíduo tinha valor e se firmou, o processo

dele foi aproveitado por outros não só do mesmo país como de

toda a parte e num átimo o processo perdeu o caráter nacional

que poderia ter. Haja vista a harmonização de Debussy que fez

fortuna no jazz. (1962, p.50)

 

Outra coisa, embora o que será dito aqui esteja no âmbito da simples conjectura, talvez seja possível afirmar que dentre as muitas influências musicais que Laurindo possa ter sofrido, a maior delas talvez não seja a tão "famigerada" influência do jazz, mas, sim, a influência de outro compositor brasileiro, considerado um ícone nacional: Heitor Villa-Lobos.

 

1 Trata-se da possibilidade - que já foi usada e será recorrente a partir daqui - de formar tétrades diminutas a partir da 3ª, 5ª, 7ª e 9ª bemol de um acorde maior com sétima menor que, por sua vez, pode ser tanto a dominante da tonalidade quanto uma dominante individual (ou secundário) de outros graus da tonalidade.

 

2 Para classificação dos acordes: ao tomar as notas mais graves como a suposta fundamental dos acordes, faz-se necessário imaginar uma hipotética terça, sempre omitida. Se menor, tratar-se-ia de uma sucessão de acordes meio diminutos. Se maior, seria uma sucessão de acordes dominantes, acrescidos da 11ª aumentada, hipótese mais provável devido ao uso de intervalos de 6ª aumentada - característico de acordes dessa tipologia. Não obstante, há também a possibilidade dessa sucessão de acordes resultar simplesmente de fatores melódicos. Todavia, trata-se de um momento de grande suspensão harmônica. Vale lembrar que essa mesma estrutura de acorde já foi usada na seção C do tema Laura.

 

3 Essa afinação, além de ampliar a tessitura do instrumento, favorecendo o uso de conduções melódicas mais enriquecidas, amplia também a possibilidade de utilização de alguns recursos harmônicos, principalmente nas tonalidades sol maior ou menor e ré maior ou menor. Note-se que a sexta corda afinada em ré, configurada enquanto tônica de D7, o dominante, tanto de sol maior quanto de sol menor, possibilita o salto de quarta ascendente na cadência V - I. Já nas tonalidades de ré maior e menor, no mesmo tipo de encadeamento, possibilita o salto de quinta descendente (A7, em direção ao D ou Dm), ambos caracterizando o movimento forte de cadência perfeita, como pôde ser visto nas músicas Amazônia, Laura e Crepúsculo em Copacabana. A bem da verdade, a utilização da sexta corda em ré, enquanto possibilidade a mais de afinação, era muito comum entre os violonistas contemporâneos a Laurindo. Pode ser encontrada nas obras de João Pernambuco, Armandinho (nesse caso, tratava-se da afinação habitual), Canhoto, Dilermando Reis, Garoto, além do próprio Agustín Barrios, que certamente foi uma das grandes influências de todos os violonistas de sua época.

 

4 Como já ressaltado, somente Amazônia apresentou um distanciamento desses padrões formais.

5 Ver os artigos Bossa Nova, por Brasil Rocha Brito e Balanço da Bossa Nova, por Júlio Medaglia, ambos contidos na coletânea Balanço da bossa e outras bossas, de Augusto de Campos. Ver também os livros A linguagem harmônica da Bossa Nova, de José Estevan Gava e Bim Bom, de Walter Garcia. E ainda a dissertação apresentada ao Departamento de Música da ECA: Três compositores da Música Popular do Brasil, de Paulo José de Siqueira Tiné.