Laurindo Almeida: dos trilhos de Miracatu às trilhas em Hollywood
1 Um relato biográfico e contextual
No litoral sul de São Paulo (1917-1929)
Miracatu
A história de Laurindo José de Araújo Almeida Nóbrega Neto (1917-1995) começa em uma vila chamada Prainha, hoje cidade de Miracatu, localizada no Vale do Ribeira a 140 quilômetros da capital de São Paulo. Naquela época a vila possuía cerca de oitocentos habitantes e tinha como principal atividade comercial o cultivo de cereais, especialmente o arroz.
Visando a um maior desenvolvimento e expansão comercial, deu-se início à construção de uma estrada de ferro que ligava toda a região sul do litoral paulista. Em 1914, na ocasião de sua inauguração, Benjamim de Almeida e Placidina de Araújo Almeida, pais de Laurindo, foram para Miracatu, designados para tomar conta da estação ferroviária da cidade.
O museólogo e historiador Paulo de Castro Laragnoit, em seu livro A vila de Prainha, descreve o dia da inauguração da ferrovia:
Num domingo de dezembro de 1914, chegou a Prainha o
primeiro trem de passageiros da Southern São Paulo Railway. A
estação ferroviária, que tinha como seu primeiro chefe um
distinto filho de Cananeia, o Sr. Benjamim de Almeida, estava
toda engalanada, o mesmo acontecendo com o largo da Matriz,
inteiramente adornado de palmeiras e festões, vendo espaços
regulares tremular a Bandeira Nacional. (1984, p.120)
Antiga estação ferroviária de Miracatu.1
Benjamim e Placidina de Almeida - oriundos de famílias tradicionais da região de Cananeia, também localizada no Vale do Ribeira -tiveram muitos filhos. As informações obtidas em Miracatu não são precisas em relação à quantidade. Segundo Laragnoit, em torno de 14, tendo sobrevivido somente cinco: Edgar, Geraldo, Maria Elisa, Romeu e Laurindo Almeida, o único a nascer na vila, três anos após a inauguração da estação ferroviária, em 2 de setembro de 1917. O Prainhense, jornal da cidade, registrou o seu nascimento:
Participa-nos os senhores Benjamim de Almeida e sua distinta
senhora o nascimento de mais um filhinho que na pia batismal
receberá o nome de Laurindo. Ao pequeno, vida longa e
venturosa.2
Embora Benjamim tivesse um bom emprego como chefe da estação ferroviária, seu salário não permitia grandes regalias. A cidade de Miracatu não possuía escolas e seus filhos não poderiam ter bons estudos. Este fato teve grande peso em sua decisão de abandonar a ferrovia em 1920, e mudar-se para a cidade de Santos para trabalhar na construção do novo porto.
Laurindo Almeida morou apenas os três primeiros anos de vida em Miracatu; contudo, a população o elegeu representante de seu povo. Grande parte do empenho em manter viva a história de Laurindo e sua família, na cidade, deve-se ao museólogo e historiador Paulo de Castro Laragnoit, que durante anos correspondeu-se com Edgar de Almeida, irmão mais velho de Laurindo, que confidenciou ao historiador algumas das informações expostas aqui neste primeiro relato do trabalho.
Simpósio de violão em homenagem a Laurindo Almeida, ocorrido na
cidade de Miracatu, em 2005.
Santos
Na época em que a família Almeida mudou-se para a cidade de Santos, o plantio do café estendia-se por todo o Planalto Paulista, atingindo até algumas áreas da Baixada Santista. Desse modo, a cidade de São Paulo, sobretudo o porto de Santos, tornou-se um ponto estratégico do mercado internacional, concentrando cerca de 70% do volume do mercado mundial, possibilitando manobras especulativas fabulosas:
Os engenheiros, financistas e negociantes estrangeiros,
basicamente ingleses, que de comum acordo com os
fazendeiros paulistas projetaram a infraestrutura ferroviária
indispensável para a exportação maciça da nova mercadoria,
compreenderam logo as vantagens operacionais de fazer toda
a produção convergir para um centro articulador - técnico,
financeiro e mercantil - a cidade de São Paulo, e o único porto
exportador, Santos. (Sevcenko, 1992, p.108)
Com isso, fez-se necessária a ampliação e modernização das instalações portuárias, para que as exportações do café tivessem maior rapidez e eficácia. Nesse processo de expansão do porto, Benjamim de Almeida trabalharia de 1920 a 1929, quando foi internado no Hospital de Isolamento de Santos, com tifo, uma doença infecciosa que o levaria à morte em poucas semanas.
Com a morte prematura de Benjamim, a família Almeida passou por um período de grandes dificuldades. Em decorrência dessa situação, mudou-se para São Paulo, capital, no Largo Coração de Jesus, próximo à Estação da Luz.
O período de aproximadamente nove anos em que viveu em Santos foi importante no desenvolvimento musical de Laurindo Almeida. Foi nele que o violonista entrou em contato com o repertório de música erudita, executado por sua mãe ao piano, ao mesmo tempo em que acompanhava seu pai, também violonista, em serestas pela cidade -fatos que poderiam explicar, ao menos em parte, sua versatilidade musical, tanto no repertório erudito quanto no popular. Consta que Laurindo, orientado por sua irmã, Maria Elisa, iniciou seus estudos
musicais adaptando "secretamente"3 para o violão as primeiras lições de piano ministradas por sua mãe, Placidina de Almeida.
Na capital paulista (1930 -1936)
Getúlio Vargas e a Revolução Constitucionalista Quando a família Almeida chegou à cidade de São Paulo, no começo da década de 1930, o país passava por uma grande turbulência política. Getúlio Vargas (1883-1954) acabara de chegar à presidência da República por meio de um golpe, interrompendo a tradicional alternância entre os governos que representavam os grandes latifundiários paulistas e mineiros, conhecida como política do café com leite. Embora tivesse assumido o cargo em caráter provisório, Getúlio possuía amplos poderes. Uma das primeiras medidas adotadas em sua política de governo foi o envio de interventores aos estados e o fechamento de todas as instituições legislativas do país, desde o Congresso Nacional até as câmaras municipais. "Todos os antigos governadores, com exceção do novo governo eleito de Minas Gerais, foram demitidos e, em seus lugares, nomeados interventores federais, com total subordinação ao poder central" (Fausto, 1996, p.333). Nesse contexto, em 1932, foi deflagrada a Revolução Constitucionalista de São Paulo, que durante três meses de intenso combate mobilizou 135 mil homens
em território paulista contra as tropas de Getúlio Vargas. 4
Esse acontecimento histórico também se revelaria importante na vida de Laurindo Almeida. Em meio aos milhares de recrutados, Laurindo, na época com apenas 15 anos, foi convocado para defender as tropas paulistas nessa revolução, e foi por meio dela
que conheceu o seu primeiro parceiro musical: o violonista Garoto.5 Em depoimento ao documentário Laurindo Almeida "Muito Prazer", Edgar de Almeida comenta o episódio da baixa de Laurindo das tropas paulistas:
Ele [Laurindo] arranjou lá um negócio que deram como se fosse
uma "mula", uma espécie de inflamação na virilha, e precisava
então cortar e etc! Mas na verdade não era nada disso, era uma
carga de piolhos que ninguém dava jeito. (apud Dourado, 1999)
No período em que permaneceu hospitalizado - em decorrência da "inflamação na virilha" -, Laurindo Almeida conheceu Garoto que, na ocasião, prestava serviço voluntário nos hospitais, tocando para os soldados feridos nas frentes de batalha. Dessa amizade resultou uma parceria que perduraria por todo o tempo em que Laurindo permaneceu no Brasil, tanto em São Paulo quanto, mais tarde, no Rio de Janeiro, onde formariam a Dupla do Ritmo Sincopado e o Conjunto das Cordas Quentes. Laurindo e Garoto tiveram uma atuação bastante ativa no meio musical da época, sobretudo no auge da Era do Rádio, quando trabalharam ora juntos e ora separados, em vários regionais, como os da Rádio Record em São Paulo e da Rádio Mayrink Veiga no Rio de Janeiro.
*Laurindo Almeida, aos 15 anos, quando serviu nas tropas paulistas,
na Revolução de 1932.
Os primeiros trabalhos nas rádios paulistas
Como muito já foi dito anteriormente, as emissoras de rádio tiveram um papel fundamental na difusão da música popular brasileira na primeira metade do século XX. Toda uma geração de compositores, arranjadores e instrumentistas pôde garantir, ao menos em parte, o seu sustento por meio de empregos nas orquestras e regionais das
rádios nas décadas de 1930, 40 e 50.6 Com Laurindo Almeida não foi diferente. O seu primeiro emprego com contrato assinado foi pela Rádio São Paulo, inaugurada em 1934. Pelo contrato, Laurindo ganharia 200$000 (duzentos mil réis) por mês. O convite a Laurindo surgiu a partir de sua primeira apresentação na cidade, quando tinha apenas 17 anos: "Havia uma exposição e Laurindo se apresentou de graça. Um dos organizadores o convidou para participar de um programa na Rádio São Paulo, fazendo dupla com Pinheirinho ao cavaquinho" (Cortes, 1996).
Depois veio a Record, na qual se apresentava com o grupo Ronda Paulista, e com o próprio regional da Rádio, que na época tinha como líder o também violonista Armando Neves (1902-1974). Em depoimento ao pesquisador Olavo Rodrigues Nunes, Armandinho, como ficou conhecido no meio musical, afirmou ter apadrinhado muitos músicos paulistas:
Na Record? Ah! [...] Teve gente que saiu por aí, fez sucesso. O
Rago, o Aymoré, o Zezinho, o Garotinho do Banjo [Garoto], o
Laurindo [Almeida], e mais uma turma grande [...] É, passou
tanta gente pela minha mão, rapaz! (Picherzky, 2004, p.43)
Outro fato bastante importante para a carreira musical de Laurindo Almeida foi ter conhecido, nessa época, na Rádio Record, o locutor
César Ladeira (1910-1969). 7 Após o término da Revolução Constitucionalista de 1932, Ladeira migrou para o Rio de Janeiro. Lá, ele e Inácio da Costa Souza, mais conhecido como Souza Filho, tornaram-se os diretores artísticos e locutores da Rádio Mayrink Veiga. Foram eles os grandes responsáveis pela contratação de Laurindo pela emissora carioca em 1936. Em entrevista ao Jornal do Brasil, em 1996, Edgar de Almeida comenta: "Sem que eu soubesse, Laurindo [19 anos] foi procurar um conhecido meu, o promotor Nilton Silva, e lhe garantiu que tinha uma oferta de emprego no Rio de Janeiro. Com isso conseguiu um passe da polícia para entrar no trem" (Almeida apud Cortes, 1996).
No Rio de Janeiro (1936-1947)
Rádio Mayrink Veiga
Conforme aponta Nicolau Sevcenko em Literatura como missão, o Rio de Janeiro da primeira metade do século XX defrontava-se com perspectivas extremamente promissoras, com papel privilegiado na intermediação de recursos da economia cafeeira, acumulando vastos recursos enraizados principalmente no comércio e nas finanças, mas derivando também para as aplicações industriais, vindo a se tornar o maior centro político, econômico e, consequentemente, cultural do país (1983).
Com a inauguração da Rádio Mayrink Veiga em 1934 e da Rádio Nacional em 1936, muitos músicos paulistas para lá migraram em busca de melhores oportunidades de trabalho. A Mayrink Veiga - na época o principal veículo de comunicação do Brasil - tinha em seu quadro de funcionários artistas como as irmãs Aurora e Carmem Miranda, Francisco Alves, Sílvio Caldas, Mario Reis e muitos outros.
Quando Laurindo Almeida chegou ao Rio de Janeiro, em 1936 -"violão debaixo do braço e alguns tostões no bolso, teve que dormir na praça até conseguir uma vaga na casa de Batista Júnior, pai das irmãs Batista - Linda e Dircinha" (Cortes, 1996) -, foi trabalhar em seu regional, que na ocasião tinha como integrantes Pixinguinha (saxofone), Luiz Americano (clarineta e sax), João Luperce Miranda (bandolim), Artur do Nascimento "Tute" (violão de sete cordas) e João Machado Guedes "João da Baiana" (percussão). Com o violonista Garoto, que tinha feito na mesma época esse mesmo trajeto de migração para o Rio de Janeiro, Laurindo formou a Dupla do Ritmo Sincopado e o Conjunto das Cordas Quentes, já mencionados anteriormente, que juntamente com o regional da Rádio acompanharam muitos artistas nesse período, como Orlando Silva, Aracy de Almeida, Dorival Caymmi, Nelson Gonçalves e Carlos Galhardo. Durante os 11 anos em que trabalhou na Rádio Mayrink Veiga (1936-1947), Laurindo Almeida compôs, arranjou e acompanhou artistas em mais de trinta discos, gravados pela Odeon, RCA Victor e Continental Records.
Por meio do Instituto Moreira Sales e da Fundação Joaquim Nabuco, que mantêm seus acervos de discos de 78 RPM disponíveis on-line pela internet, pode-se ter uma ideia da produção musical de Laurindo Almeida no Brasil, correspondente ao período
de 1936 a 1947 - ano em que emigrou para os Estados Unidos. 8
Laurindo e Garoto na Rádio Mayrink Veiga, em 1939.
[http://www.sovacodecobra.com.br/2007/09/ainda-te-lembras-de-
mim/]
Ainda por meio da Rádio Mayrink Veiga - além de Garoto e Pixinguinha - Laurindo Almeida teve oportunidade de trabalhar com dois outros ícones da música popular brasileira: Carmem Miranda (1909-1955) e Radamés Gnattali (1906-1988). Porém, diferentemente do que muitas vezes se tem falado, Laurindo nunca tocou no Bando da Lua. Em entrevista a Sílio Bocanera, publicada em seu artigo "Laurindo Almeida, 30 anos nos Estados Unidos, fala de cadeira", do Jornal do Brasil, em 2 de julho de 1977, Laurindo comentou: "Há quem pense que eu vim pra cá [Estados Unidos] chamado pelo Stan Kenton ou pela Carmem Miranda. Fui muito amigo de Carmem, mas só trabalhamos juntos no Brasil". De fato, Carmem Miranda convidou-o para o Bando da Lua no final de 1940, logo após o término do contrato de Garoto, no entanto Laurindo recusou o convite. "Embora nunca tenha dito a Carmem o real motivo desta recusa, ao irmão Edgar, Laurindo confessou que não queria se vincular à 'Pequena Notável' para ser somente mais um Miranda Band" (Dourado, 1999). Esse fato revela, na verdade, um tipo de pensamento comum à época: naquele tempo, havia no meio musical certo preconceito com os grupos que acompanhavam cantores, porque "dificilmente eram identificados pessoalmente, eram apenas conhecidos como integrantes do regional de alguma rádio ou do regional que levasse o nome de um líder, como o Regional do Canhoto, do Rago [Antonio] ou do Armandinho" (Picherzky, 2004, p.47). O próprio Bando da Lua certa vez negou-se a participar como acompanhante de Carmem Miranda em uma turnê por Buenos Aires, em 1938. Embora não tenha sido mencionado por Laurindo na entrevista citada acima, para substituí-los foi montado um grupo que se denominou Copacabana, do qual eram integrantes, juntamente com Custódio Mesquita, José do Patrocínio Oliveira "Zezinho" e Eugênio Martins.
Acredito que, além do regional da Rádio Mayrink Veiga, foi somente com esse grupo que Carmem Miranda e Laurindo Almeida tiveram oportunidade de trabalhar juntos, mas é sabido que Carmem nutria grande admiração musical por Laurindo. Entre as suas gravações da segunda metade da década de 1930 estão duas composições de Laurindo Almeida: Mulato antimetropolitano e Você nasceu pra ser grã-fina, ambas gravadas pela Odeon, no Rio de Janeiro, em 1939.
*Grupo Copacabana.
*Foto de Carmem Miranda com dedicatória a Laurindo Almeida.
Como dito há pouco, ainda por meio da Mayrink Veiga e também da gravadora RCA Victor, Laurindo pôde trabalhar ao lado do maestro, compositor, arranjador e multi-instrumentista Radamés Gnattali. Aliás, suas trajetórias em muito se assemelham. Tanto Radamés quanto Laurindo, oriundos de famílias musicais, tiveram seus primeiros contatos com a música por meio de suas mães, ambas pianistas de música clássica. Porém, no decorrer de suas carreiras, desenvolveram uma linguagem musical híbrida, transcendendo as fronteiras muitas vezes polarizadas entre as músicas ditas "erudita" e "popular". Fora as aulas tomadas da mãe e da irmã, Laurindo Almeida foi um músico autodidata, teve uma formação musical nada sistemática. Radamés Gnattali, por sua vez, teve uma formação musical regular e bastante sólida, tendo se formado em piano pelo Conservatório de Porto Alegre aos 17 anos de idade. Apesar dessa escola erudita, Radamés logo enveredou para a música popular. Como evidentemente não podia carregar seu piano - até então o seu instrumento, juntamente com o violino - para os blocos de carnaval, iniciou seus estudos de violão e cavaquinho, instrumentos comumente usados nessa festa popular. Sobre Radamés, afirmou o
maestro Júlio Medaglia:9
O Radamés quando escrevia para instrumento solista, para sala
de concerto, ele virava realmente um compositor de sala de
concerto. A vida dele começou como músico erudito, ele
primeiro foi um grande pianista, um grande violinista, depois um
grande violonista, tocou cavaquinho tão bem quanto os outros
instrumentos. Não é que ele tocava um pouco de violão, ele
tocava muito bem. Uma vez na casa dele eu disse: como é
Radamés, você também mandou brasa no violão, como
dizendo "foi meio daquele jeito". Então ele disse: Daquele jeito
não! E pegou o violão e estraçalhou na minha frente, eu até
fiquei envergonhado.
A produção violonística de Radamés Gnattali é composta por concertos, concertinos, inúmeras peças para violão solo e para música de câmara, grande parte delas dedicada aos violonistas que admirava. Radamés dedicou a Laurindo Almeida, em 1950, o Concerto n° 1 (Concerto carioca) para violão elétrico, piano, orquestra sinfônica e bateria de escola de samba.
Sua primeira audição, e lançamento do LP pela Continental
(PP12165), se deu a 30 de março de 1965 no Teatro Municipal
do Rio de Janeiro, com José Menezes ao violão, Radamés ao
piano e Orquestra Sinfônica do Teatro Municipal sob a regência
de Henrique Morelembaum. (Oliveira, 1999, p.86)
Em 1958, dedicou a peça Dança brasileira para violão solo e, em 1967, o Concerto n° 4 (Concerto à brasileira) para violão e orquestra de cordas.
Nos Estados Unidos, Laurindo Almeida gravou pela Capitol Records muitas obras de Radamés Gnattali:
Em 1951, o álbum Sueños/Dreams que contém a peça para violão solo denominada Saudade. Em 1953, o álbum Brazilliance que contém os temas Atabaque e Tocata.
Em 1953, o álbum Brazilliance Vol. 2 que contém Rio Rhapsody, composta em parceria com o próprio Laurindo Almeida.
Em 1953, pela Continental Records, gravou Fantasia brasileira e Rapsódiabrasileira.
Em 1956, o álbum Suíte popular brasileira para violão elétrico e piano. A gravação desse disco aconteceu em duas etapas: Radamés gravou o piano no Brasil e mandou para os Estados
Unidos, onde Laurindo posteriormente gravou o violão.10 Em 1957, o Concerto de Copacabana (Concerto n° 3) para
violão, flauta, bateria e orquestra de cordas. 11 Em 1957, o álbum Impressões do Brasil que contém o Concertino n° 2 de Radamés para violão e piano. Em 1960, o álbum Danzas que contém Danza brasileira. Como dito anteriormente, dedicada a Laurindo Almeida.
Radamés e Laurindo em meados da década de 1940.
[www.radamesgnattali.com.br]
A Política da Boa Vizinhança
A Política da Boa Vizinhança dos Estados Unidos, iniciada no governo do presidente Franklin Delano Roosevelt (1882-1945), manifestou-se de diversas formas, uma delas cultural, com o objetivo de promover um pan-americanismo, termo que segundo os autores L. C. Saroldi e S. V. Moreira, no livro Rádio nacional, refere-se a
um rótulo capaz de englobar fatos e valores os mais diversos,
bolsas de estudo para brasileiros, a criação do Zé Carioca em
Alô amigos, filme de Walt Disney, o incentivo à carreira de
Carmem Miranda e o Bando da Lua em Hollywood, Ary Barroso
contratado para escrever música para o cinema. (1988, p.37)
Com o propósito de estreitar as relações entre os Estados Unidos e os demais países das Américas - por motivos políticos e não musicais - chega ao Rio de Janeiro, por volta de 1940, juntamente com sua orquestra, a All American Youth Orchestra, o maestro Leopold Stokowsky (1882-1973), um aficionado confesso pela música brasileira. O objetivo dessa visita era recolher e gravar composições de artistas que representavam a nata da música popular brasileira da época. Para isso, Stokowsky solicitou ao compositor brasileiro Heitor Villa-Lobos (1887-1959), cujas obras já conhecia e admirava anteriormente, que o ajudasse nessa tarefa. Villa-Lobos, empenhado em executar tal tarefa, recorreu aos amigos sambistas Angenor de Oliveira "Cartola", Ernesto Joaquim Maria dos Santos "Donga" e José Ramos da Costa "Zé Espinguela", que trataram de selecionar os músicos de maior expressão do Rio de Janeiro. Dentre os músicos selecionados estavam Pixinguinha, João da Baiana, José Gonçalves "Zé da Zilda", José Luis Rodrigues Calazans e Severino Rangel de Carvalho "Jararaca e Ratinho", Luiz
Americano, os cantores Mauro César12 13 e Janir Martins, Augusto Calheiros e o próprio Laurindo Almeida. A bordo do navio Uruguai, entre os dias 7, 8 e 9 de agosto de 1940, foram gravadas aproximadamente quarenta músicas. Dessas foram selecionadas 16, que deram origem ao álbum intitulado Native brazilian music, lançado nos Estados Unidos pela Columbia Records, no início de 1942. Contudo, esse episódio não representou "grande coisa" nem para Laurindo Almeida, nem para os demais músicos. Esse disco só foi lançado no Brasil em 1987, no centenário de nascimento de Villa-Lobos, "quando o violonista Turíbio Santos, diretor do Museu Villa-Lobos, conseguiu obter recursos do governo federal para editar um long-play produzido por Suetônio Valença, Marcelo Rodolfo e Jairo Severiano, com o texto do pesquisador Ary Vasconcelos" (Cabral, 1997, p.158). Ainda assim, a maioria dos músicos morreu sem nunca ter ouvido as gravações. "Cartola só foi ouvi-las vinte anos depois, na casa do jornalista Lúcio Rangel, um dos privilegiados que possuíam o disco importado" (idem, ibidem). Além disso, "poucos músicos foram pagos por elas, o próprio Cartola recebeu míseros 1.500 réis, o suficiente para comprar três maços de cigarros baratos,
um ano e meio depois das gravações" (Thompson, 2000, p.18).14
Embora o projeto Native brazilian music não tenha sido representativo na carreira musical de Laurindo Almeida, tudo leva a crer que serviu para aproximá-lo de Heitor Villa-Lobos. Dessa aproximação nasceu uma amizade e uma admiração musical mútua que perduraria por toda a vida. Laurindo Almeida seria um dos divulgadores da obra de Villa-Lobos nos Estados Unidos e na Europa. Durante sua carreira gravou quatro álbuns pela Capitol Records com suas composições:
Em 1956, o álbum Guitar music of Latin América, que contém dois estudos e dois prelúdios de Villa-Lobos: Study n° 11 (in E minor) e Study n° 5 (in C major), Prelude n° 4 (in E minor) e Prelude n° 2 (in E major). Em 1959, o álbum Villa-Lobos, music for the Spanish guitar, que contém os Study n° 1,7 e 8; Prelude n° 1,3 e 5; e os choros Típico e Schottish.
Ainda na década de 1950, o primeiro concerto de Villa-Lobos,
intitulado 15 Concert for guitar and small orchestra . Em 1961, o álbum Conversations with the guitar, que contém Distribuição de flores e Modinha (Seresta nº5), de autoria de Villa-Lobos. Esse disco, em especial, foi agraciado com o Grammy pela melhor performance vocal e instrumental de música de câmara, na categoria de música clássica.
Já morando em Los Angeles, Laurindo teria sido também um dos corresponsáveis pelo período em que Villa-Lobos permaneceu trabalhando em trilhas sonoras para filmes de Hollywood. Em seu artigo intitulado O pré-bossa novista voltou, publicado no Caderno B do Jornal do Brasil, de 25 de fevereiro de 1996, Celina Cortes afirma:
O que ninguém pode negar foi o seu papel de embaixador dos
músicos brasileiros nos Estados Unidos. Laurindo funcionou
como uma ponte para Radamés Gnattali e Villa-Lobos, para
citar alguns, com quem gravou a trilha sonora do filme Green
mansions, estrelado por Audrey Hepburn. (1996)
O violonista Ronoel Simões, em entrevista ao autor deste livro,16 certa vez mencionou que Laurindo Almeida havia lhe contado que Villa-Lobos não falava inglês. E Laurindo, que já dominava a língua por estar vivendo nos Estados Unidos desde 1947, também teria servido, em muitas ocasiões, como seu tradutor e intérprete.
*Villa-Lobos e Laurindo Almeida nos Estados Unidos.
A proibição do jogo e o fechamento dos cassinos brasileiros
Com o fim do Estado Novo, o Brasil passou por um processo de redemocratização. Em 1945, o marechal Eurico Gaspar Dutra (1883-1974), que havia sido Ministro da Guerra e um dos principais colaboradores do então presidente Getúlio Vargas, agora empenhado em consolidar o processo de democratização do país, saiu candidato à presidência da República pelo Partido Social
Democrático (PSD). 17 Eleito, Dutra assinou, no dia 30 de abril de 1946, exatos três meses após a sua posse da presidência na República, o decreto-lei n° 9.215, que extinguia os jogos de azar em todo o território nacional, provocando assim o fechamento dos cassinos em todo o país. A medida, uma das primeiras do seu governo, obteve a aprovação de grande parte da população, em decorrência, principalmente, da insatisfação de determinados setores da sociedade brasileira com o governo de Getúlio e o Estado Novo, como se vê na coluna do jornal Diário de Notícias de primeiro de maio de 1946:
É com verdadeira emoção e sem reservas nos aplausos
devidos que, hoje, nestas colunas, onde tantas vezes
profligamos a jogatina e outras tantas vezes nos vimos privados
de combatê-la, registramos o ato do governo da república
determinando a pura e simples vigência do dispositivo das leis
penais proibitivo da exploração dos jogos de azar, que havia
sido suspenso por um ato típico da ditadura estadonovista. Não
hesitamos em trazer as mais calorosas congratulações ao
presidente, que assinou, num assomo de dignificação do poder,
verdadeiramente restaurados de linhas essenciais da moral
pública do país.
No entanto, para a classe artística esse decreto representou uma tragédia irreparável. Afinal, do dia para noite, músicos, atores e atrizes, bailarinos e bailarinas e os funcionários responsáveis pelo funcionamento dos cassinos perderam seus empregos. Como mostra Sérgio Augusto, na Folha de S. Paulo de 8 de maio de 1991:
Pressionado pela carolice de sua mulher, dona Santinha, e pela
matreirice de seu Ministro da Justiça, Carlos Luz - de olho no
eleitorado conservador de Minas Gerais -, o marechal Dutra pôs
a jogatina na ilegalidade, a 30 de abril de 1946. No dia seguinte,
havia pelo menos 40 mil novos desempregados na praça.
Em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo, em 2 de dezembro de 1984, Laurindo afirmou:
O Dutra disse para os músicos que, se todos votassem nele, os
cassinos jamais seriam fechados. Ganhou e a primeira coisa
que fez foi cortar o nosso ganha-pão. Hoje eu agradeço. Não
fosse isso, ainda estaria, talvez aqui, amargando mil e uma
frustrações. (Almeida, 1984)
Semelhantemente às rádios, os cassinos representavam para os músicos uma forma de obtenção de renda, com bons salários, visto que grande parte do público que os frequentava era oriundo das classes mais abastadas da sociedade. Nessa época do fechamento dos cassinos, o Balneário da Urca (cassino em que Laurindo
trabalhava)18 contava com um grupo de crooners (cantores solistas) que incluíam Emilinha Borba, Linda Batista, Dircinha Batista, Heleninha Costa, Virginia Lane e também uma das orquestras mais famosas da época, a Brazilian Serenaders, que tinha entre seus integrantes o sax-tenor Walter Rosa, o violonista Fafá Lemos, o cantor e pianista Dick Farney, o percussionista Russo do Pandeiro e o próprio Laurindo Almeida, que trabalhava no Cassino havia quatro anos, desde 1942, nas orquestras dos maestros Odmar Amaral Gurgel "Gaó" e Carlos Machado. Foi por meio desse trabalho que Laurindo conheceu, em 1944, sua terceira esposa, Maria Miguelina Ferreira Ribeiro (1914-1969), uma bailarina portuguesa, conhecida no meio artístico como Natália, que também trabalhava no Balneário
da Urca19
Em decorrência da perda de renda oriunda do fechamento dos cassinos brasileiros, e tendo recebido uma indenização movida contra a RCA Victor por direitos autorais - sobre a qual falaremos adiante - Laurindo Almeida e Maria Miguelina emigraram para os Estados Unidos em busca de melhores oportunidades de trabalho.
*Maria Miguelina Ferreira Ribeiro "Natália", terceira esposa de
Laurindo.
Johnny Peddler: o passaporte
Como eu digo no meu livro, quem empurrou o Laurindo para os
Estados Unidos foi o presidente Dutra e uma música dele que já
fazia sucesso por lá pela qual recebeu direitos autorais.
(Laragnoit, 2006)20
Em 1939, Laurindo Almeida compôs, juntamente com Ubirajara Nesdan (compositor carioca), uma marchinha em homenagem a uma colônia portuguesa no Brasil que se denominou Aldeia de roupa branca. Essa música, gravada no Brasil pelo grupo Os Pinguins, foi lançada pela gravadora RCA Victor naquele mesmo ano, e tornou-se um sucesso das paradas musicais da época. Empolgada com o grande sucesso que a música alcançou no Brasil, a RCA Victor decidiu fazer uma versão americana da música. Assim, Aldeia de roupa branca popularizou-se nos Estados Unidos com o nome Johnny Peddler, sendo gravada pelos grupos The Andrew Sisters, Les Brown's Band e também por Jimmy Dorsey, dentre outros. Essa música foi importante na carreira de Laurindo Almeida por dois motivos: em primeiro lugar, foi por meio dela que Laurindo teve seu nome divulgado pela primeira vez nos Estados Unidos; em segundo lugar, com os cinco mil dólares que recebeu em royalties por direitos autorais da música Johnny Peddler, por um processo judicial contra a gravadora RCA Victor, que até então lhe negava os direitos sobre a autoria da música, mais a venda de um pequeno apartamento e um carro, Laurindo Almeida e sua esposa Natália mudaram-se para os Estados Unidos, em 16 de março de 1947.
Cartão postal dedicado ao violonista Aníbal Augusto Sardinha
"Garoto" (http://www.sovaco-decobra.com.br/2007/09/ainda-te-
lembras-de-mim/)
Amigo “Sardinha”,
Estou trabalhando aqui em Curityba, terra que você também
conhece! Você é o “menino falado” aqui, ainda hontem, uma
“cabrocha” que disse ser sua namorada falou-me muito em…
seu banjo! O retrato mostra uma “viagem” que fi z em
companhia do amigo “Grupo 8” à cidade maravilhosa!
Sem mais; saúde e aceita um abraço do seu amigo,
Laurindo.
10 de abril de 1935
*Grupo musical em que Laurindo se apresentava na boate carioca
Night and Day, entre o fechamento dos cassinos brasileiros e sua
emigração para os Estados Unidos.
*Laurindo Almeida, recém-chegado aos Estados Unidos, em março
de 1947.
A emigração para os Estados Unidos (1947-1995)
Nos Estados Unidos do pós-guerra: do anonimato ao estrelato em Hollywood
Laurindo Almeida chegou aos Estados Unidos dois anos após o término da Segunda Guerra Mundial (1940-1945). Nessa época, separados, sobretudo, por sistemas de governos diferentes, os Estados Unidos (capitalista) e a União Soviética (socialista) assumiam definitivamente os seus papéis de superpotências mundiais, dando assim origem ao período que ficou conhecido como da Guerra Fria.
Referenciado pelo historiador Eric J. Hobsbawm em seu livro A era dos extremos como Era de Ouro, o período do pós-guerra para os Estados Unidos foi marcado por uma grande prosperidade financeira, provocando uma explosão no consumo de bens e serviços oriundos, em maior parte, do advento das grandes revoluções tecnológicas ocorridas já na primeira metade do século XX, porém acessíveis às pessoas comuns, sobretudo as mais ricas, somente nos anos que seguiram o pós-guerra: "A guerra, com suas demandas de alta tecnologia, preparou vários processos revolucionários para posterior uso civil" (Hobsbawm, 1995, p.260).
Com o surgimento de novos meios de comunicação como a televisão, o rádio (transistorizado) e o disco de vinil, consequência direta dessas novas tecnologias, a música e o cinema americano -artes que sempre estiveram correlacionadas - tornaram-se as mais bem-sucedidas indústrias de entretenimento do mundo, propiciando tanto aos músicos, especialmente aos de jazz, quanto aos atores e atrizes uma ótima fonte de renda, como se vê neste trecho contido em A história social do jazz, também de Hobsbawm:
Financeiramente, o rádio, a televisão e os filmes propiciaram
uma fonte de renda para os músicos de jazz que podiam tocar
música pop e, em ocasiões extremamente favoráveis, ou em
tempos de bonança, até para bandas inteiras contratadas para
tocar jazz ou figurando em um filme. (1990, p.190)
Laurindo Almeida, que no Brasil chegou a passar fome e a dormir na rua quando migrou para o Rio de Janeiro, nos Estados Unidos, em decorrência tanto da "sorte" quanto de um momento histórico favorável, pôde construir, ao longo dos anos, uma carreira de muito sucesso na indústria cinematográfica e na indústria do jazz.
Morando em uma área nobre de Los Angeles, em uma mansão no alto de uma colina, com vista para todo o vale de San Fernando, avaliada em mais de 350.000 dólares na época de sua construção, Laurindo fez parte do primeiro time dos grandes compositores e arranjadores de trilhas sonoras para filmes de Hollywood, tais como Henry Mancini, Dimitri Tionkim, Alex North e o próprio John Williams. Sua estreia deu-se em abril de 1947 - apenas um mês depois de sua chegada aos Estados Unidos -, com um grupo também formado por brasileiros chamado Carioca Boys, que posteriormente se chamaria Copacabana Boys e mais tarde Samba Kings. Embora tenha tido formações diferentes no decorrer de sua existência, a base era sempre a mesma: Nestor Amaral, Russo do Pandeiro e Joe Carioca (músico que inspirou Walt Disney a compor a personagem Zé Carioca).
*Laurindo Almeida com o grupo Samba Kings atuando no filme A
song is born, em 1947.
Foi com esse grupo que Laurindo fez seu primeiro trabalho para o cinema americano, tocando e atuando no filme A song is born, escrito e dirigido pelo ator, diretor e compositor Danny Kaye, do qual participaram também os músicos Benny Goodman, Jimmy e Tommy Dorsey, Ella Fitzgerald, Louis Armstrong e Nat "King" Cole, dentre outros. A atuação de Laurindo Almeida nesse filme foi somente a primeira de uma série de mais de oitocentos trabalhos realizados para os estúdios de Hollywood - Paramount, Universal, Columbia e MGM Studios.
Em uma entrevista realizada em Los Angeles para uma emissora de televisão brasileira, em 1990, Laurindo Almeida afirmou: "Por causa da pensão que eles pagam [os estúdios de Hollywood] eu recebi uma lista enorme dizendo que eu tinha trabalhado em oitocentos filmes. Tocando músicas para filmes!" (apud Dourado, 1999).
Infelizmente não foi possível o acesso a essa lista. Segue abaixo um pequeno resumo da produção musical de Laurindo Almeida
relacionada ao cinema americano:21
• Compositor e 1966: Cowboy
arranjador 1968: The Magic Pear 1947: Tree A Song Is Born
1971: Death Takes a
1951: Quo Vadis Holiday (série TV)
1971: The Summer of'42
1952: Viva Zapata
1955: Naked Sea
1956: Good-bye, My • Instrumentista Lady
1957: Day of the Dead
1956: The Ten
1957: Wagon Train Commandments (Alaúde)
(série TV) 1961: The Deadly 1957: Escape from San Companions (Violão) Questin 1972: The Good Father 1958: (Bandolim) Fogo em
Maracaibo 1992: The Unforgiven
(violão)
1958: The Old Man and the Sea
(Em parceria com
Dimitri Tiomkin)
1959: Cry Tough • Ator
1954: A Star is Born
1959: Johnny Ringo
(série TV)
1959: Bonanza (série 1959 : Peter Gunn TV)
1960: Spartacus 1959 : Skin Deep
1959: General Electric
(Em parceria com Theater Alex North) 1959: Beyond the
Mountains
1961: Flight 1963: Have Gun - Will
Travei
1962: The Twilight Zone 1963: Face of a Shadow 1962: The Gift (série TV) 1965: Runaway Girl 1963: The Fugitive (série 1971: The Ice Palace TV)
1965: The Agony and 1981: Ad Lib (série TV) the Ecstasy
Entre esses, três foram premiados com o Oscar do cinema americano:
The old man and the sea, filme de 1958, cuja trilha sonora, composta pelo maestro Dimitri Tionkim com a colaboração de Laurindo Almeida, foi premiada com o Oscar. The unforgiven, filme de 1992, dirigido por Clint Eastwood, cuja trilha sonora contém um solo de violão de Laurindo Almeida, que ao final do filme aparece orquestrado por Lennie Niehaus, autor da trilha sonora. Nesse caso, o filme ganhou o Oscar. The magic pear tree, filme de 1968, cuja trilha sonora, composta e executada por Laurindo Almeida, foi premiada com o Oscar. Trata-se do único Oscar ganho por um brasileiro na história desse prêmio.
Laurindo Almeida e a atriz de Hollywood Rita Hayworth, em 1970.
[www.laurindoalmeida.com/]
O ingresso na orquestra de Stan Kenton
O período de permanência de Laurindo Almeida como instrumentista, compositor e arranjador da orquestra de Stan Kenton (1912-1979) foi de aproximadamente três anos. Teve início em 1947, ano em que chegou aos Estados Unidos, e estendeu-se até meados de 1950. O convite a Laurindo deu-se pela indicação dos irmãos Jimmy e Tommy Dorsey, músicos com os quais já havia trabalhado naquele mesmo ano (1947) no filme A song is born de Danny Kaye, já citado anteriormente. Naquela época, a orquestra de Stan Kenton, fortemente ligada ao movimento da West Coast, denominado progressive jazz, fazia frente a outras grandes big bands americanas de jazz, como as de Duke Ellington e Benny Goodman. E, na ocasião, tinha como integrantes Shelly Manne (baterista), Eddie Safranski (contrabaixo), Vido Musso (sax-tenor), Kai Winding (trombone), Bud Childers (trompete), June Cristy (cantora) e Laurindo Almeida, recém-contratado. Como integrante dessa orquestra, Laurindo viajou em turnê pelos Estados Unidos e Canadá. Dentre os lugares onde se apresentou, os mais representativos foram o Carnegie Hall, o Hollywood Bowl e o Paramount Theater. Sua primeira aparição como solista ocorreu em 16 de novembro de 1947, em uma apresentação na Chicago Opera House. Para essa ocasião, a pedido de Stan Kenton, Pete Rugolo, arranjador da orquestra, compôs e arranjou para violão uma música intitulada Lament, especialmente para Laurindo Almeida. Em seu livro O jazz do rag ao rock, o crítico musical Joaquim Ernest Berendt descreve a atuação de Laurindo como solista dessa orquestra: "Quando integrante da banda de Stan Kenton na segunda metade dos anos 40, Laurindo Almeida realizou uma série de solos, os quais irradiavam tanto calor como poucas vezes se viu em gravações desta orquestra" (1987, p.228).
Por intermédio de Stan Kenton, Laurindo Almeida adquiriu fama e prestígio no cenário musical americano. Em 1948 foi premiado pela revista Down beat, com a quarta posição dos melhores guitarristas do ano. No ano seguinte ficou com o segundo lugar e, em 1958, conquistou a posição de melhor guitarrista do ano.
Em 1976, a revista Guitar player lançou uma edição comemorativa elegendo os guitarristas de maior expressão de todos os tempos. Dentre eles estavam B. B. King, Joe Pass, Barney Kessel, Lee Ritenour, Herb Ellis e Laurindo Almeida. A partir dessa seleção, em 1978, foi lançado pela gravadora MCA Records um disco também intitulado Guitar player. Entre as faixas estão contidas três composições de Laurindo Almeida: Lament in tremolo form, Feelings e Samba for Sarah.
Capa da revista Down beat, de 24 de julho de 1958.
[www.salliterri.org/almeida.htm]
Outro fato bastante representativo na carreira de Laurindo, relacionado a esse período, ocorreu quando Stan Kenton - que em 1949 havia concebido o projeto intitulado Innovations in modern music visando promover um diálogo entre o jazz e a música de concerto - acrescentou naipes de cordas e madeiras à sua orquestra. A partir desse projeto, um ano mais tarde, em 1950, foi lançado pela Capitol Records o álbum Stan Kenton the innovations orchestra (CDP-59965). Para uma das faixas do disco, Stan solicitou a Laurindo Almeida que fizesse uma peça para violão que unisse as linguagens do jazz, da música erudita e da música popular brasileira- desta última, em especial, os ritmos. O resultado desse pedido foi a música Amazônia, faixa 6 do primeiro dos dois discos The innovations orchestra, mencionado acima. Nessa música pode-se verificar claramente a fusão das três vertentes musicais - música erudita, jazz e samba - sobre as quais a bossa nova seria forjada anos mais tarde.
Orquestra de Stan Kenton, em 1948.
[lcweb2.loc.gov/cocoon/ihas/search?query=%2Bsu...]
A carreira como compositor e violonista de música erudita
Quando Laurindo Almeida emigrou para os Estados Unidos, no Brasil já era considerado um dos melhores violonistas de música popular brasileira da primeira metade do século XX, como pode ser visto nesse comentário do maestro Júlio Medaglia, contido no documentário Laurindo Almeida "Muito Prazer":
Laurindo Almeida é mais do que um violonista eclético, ele é o
violonista mais completo de sua geração, provavelmente do
mundo inteiro. Ele possuía toda técnica dos violonistas
clássicos, além de ser um grande violonista de música popular
brasileira. O seu violão reproduzia todos os valores rítmicos,
todos os maneirismos da música popular brasileira ao mesmo
tempo sendo um grande violonista de jazz. (Dourado, 1999)
Enquanto viveu no Brasil, a produção musical de Laurindo esteve voltada essencialmente para a música popular brasileira. Entre as suas composições estão choros, valsas, marchas, baiões e sambas de vários estilos. Já nos Estados Unidos, além de tornar-se um renomado músico de jazz, construiu uma carreira de muito sucesso como concertista de violão erudito. No item Discografia encontram-se catalogados mais de cem álbuns lançados nos Estados Unidos. Entre esses, mais da metade estão relacionados à música clássica, quer exclusivamente, quer misturada com outros meios de produção musical, como o jazz e a música popular brasileira. O próprio Laurindo considerava-se um músico erudito. Essa informação pode ser comprovada em uma entrevista a Gilson Rebello, publicada em seu artigo "Do jazz à música popular e erudita, a trajetória de Laurindo Almeida", do jornal O Estado de S. Paulo, de 23 de novembro de 1980: "Sou um artista clássico, que toca todos os grandes mestres. Mas acabei transformando-me em popular por uma questão de sobrevivência, já que desde aquela época o músico não tinha muita vez" (Rebello, 1980).
Além dos compositores brasileiros Heitor Villa-Lobos e Camargo Guarnieri, Laurindo Almeida gravou obras de Agustín Barrios, Manuel Ponce, Gabriel Fauré, Manuel de Falla, Alessandro Scarlatti, Isaac Albéniz, Enrique Granados, Francisco Tárrega, Andrés Segovia, Joaquín Rodrido, Bach, Debussy, Chopin, Ravel, Tchaikovsky e Beethoven, entre outros. Dos prêmios que conquistou, a maior parte está relacionada também à música erudita. Quatro dos cinco Grammy Awards que recebeu estão vinculados com essa categoria de música. Apenas um deles está relacionado à música popular:
Em 1960, foi agraciado com o Grammy de Melhor Performance Instrumental de Música Clássica, Solista e Duo, com o álbum The spanish guitar of Laurindo Almeida.
Ainda em 1960, pela Melhor Performance de Música Clássica, Vocal e Instrumental", com o álbum Conversations with the guitar.
Em 1961, pela Melhor Composição Contemporânea de Música Clássica, com a peça Discantus, para três violões. Também em 1961, pela Melhor Performance Instrumental de Música Clássica, para Solista e Orquestra, com o álbum Reverie for spanish guitars.
Acredito que o Grammy de Melhor Composição Contemporânea de Música Clássica, recebido pela composição da peça Discantus, tenha sido bastante representativo em sua carreira. Afinal, Laurindo teve a honra de dividi-lo com o "peso pesado" da música clássica Igor Stravinsky (1882-1971), que na ocasião concorreu com a peça Movements for piano and orchestra. Aliás, em 1965, Laurindo Almeida seria convidado por Stravisnky para participar da gravação de uma série de quatro canções russas de sua autoria, intituladas
Four russian peasant songs 22 , para voz, flauta, harpa e violão.
Com sua quarta esposa, Deltra Ruth Eamon "Didi Almeida" -soprano lírico canadense, com quem se casou em 1971 e com quem viveu até o dia de sua morte -, lançou em 1972 três álbuns pela gravadora Orion Records: Intermezzo, Virtuoso e The twin guitars of Laurindo Almeida, este último juntamente com o compositor e pianista russo Nicolas Slonimsky.
Como compositor orquestral, sua obra de maior envergadura foi o primeiro e único The first concert for guitar and orchestra, gravado com a Orquestra de Câmara de Los Angeles e lançado em 1980 pela Concord Jazz Records. Segundo as palavras do próprio Laurindo, a sua composição teria sido inspirada nos concertos de Vivaldi (Zanon, 2006).
Em uma das poucas homenagens que Laurindo recebeu após sua morte - vale ressaltar que nenhuma delas ocorreu no Brasil -, o compositor e violonista cubano Leo Brouwer afirmou: "No auge da carreira de Laurindo Almeida, suas gravações eram tão conhecidas em Cuba quanto as de Segovia. E, nas Américas, tocar violão clássico era tocar como Laurindo Almeida" (idem, ibidem).
Um fato bastante curioso, relacionado à pesquisa sobre a carreira de Laurindo Almeida como músico erudito, ocorreu em uma visita ao acervo do violonista Henrique Pinto. Durante as consultas às partituras, deparei com obras de Laurindo editadas e revisadas nos Estados Unidos, Itália e Rússia. Edições brasileiras não encontrei nenhuma.
Laurindo Almeida nos Estados Unidos, à frente de seus prêmios e
LPs. (Brasil musical, 1988, p.214)
Deltra Eamon no tributo a Laurindo Almeida, em 23 de setembro de
1995. 23
A carreira como músico popular: os grupos musicais
O primeiro grupo de música popular de Laurindo Almeida foi montado no começo dos anos 1950, logo após a dissolução da orquestra de Stan Kenton. Durante a sua existência, teve como integrantes o saxofonista Bud Shank, que também havia sido membro da orquestra de Kenton e, em diferentes momentos, os bateristas Chuck Flores e Roy Harte e os contrabaixistas Gary Peacock e Harry Babasin. Com esse quarteto, denominado Laurindo Almeida Quartet, Laurindo apresentou-se durante toda a década de 1950, lançando pela World Pacific Records uma série de três álbuns antológicos, intitulados Brazilliance volumes 1, 2 e 3, que representam um marco na fusão do jazz norte-americano - deste último mais especificamente a abertura de chorus de improvisação em meio aos temas - com ritmos brasileiros. Atribui-se a esses discos, do ponto de vista da concepção musical, a antecipação em
dez anos do surgimento da Bossa Nova nos Estados Unidos.24
Laurindo Almeida Quartet, em 1953.
[www.onoffon.com/PageMill_Resources/image77.gif]
Já na década de 1960, mais especificamente nos anos de 1963 e 1964, Laurindo Almeida fez inúmeras turnês pelos Estados Unidos, Europa e Japão com o grupo The Modern Jazz Quartet, do pianista
John Lewis (1920-2001).25 Foi por meio desse grupo que Laurindo pôde difundir a música brasileira praticamente em todo o mundo. Dessa época, vale ouvir o álbum The Modern Jazz Quartet with Laurindo Almeida: Collaboration, lançado em 1964, pela gravadora Atlantic Records.
Apresentação de Laurindo Almeida com o Modern Jazz Quartet, em
meados da década de 1960. [www.youtube.com/watch?v=W-
9OrHd6QdM]
A partir de 1970, Laurindo montou um quarteto que se denominou L. A. Four, cujas duas letras referem-se às iniciais de seu nome e também às da cidade de Los Angeles, local de origem dos integrantes do grupo. Desse quarteto participavam também o saxofonista Bud Shank, que já havia tocado com Laurindo na série de três discos Brazilliance, mencionados acima, o contrabaixista Ray Brow e o baterista Shelly Manne, antigo companheiro da orquestra de Stan Kenton, posteriormente substituído por Jeff Hamilton.
L. A. Four na Austrália, em 1976. Ao lado esquerdo S. Manne,
abaixo B. Shank e à direita R. Brown. [www.laurindoalmeida.com/]
Durante o período compreendido entre a década de 1970 e a primeira metade da década de 1980, o L. A. Four lançou mais de dez álbuns, todos pela gravadora Concord Jazz Records. Uma das marcas registradas do quarteto foi a tentativa de promover uma fusão total das linguagens do jazz, da música erudita e da música popular brasileira. Aliás, como já se pôde observar no decorrer deste capítulo, promover essa fusão pareceu ser o objetivo de Laurindo desde que chegou aos Estados Unidos.
Com a dissolução do quarteto, em meados da década de 1980, outras três formações musicais merecem destaque na carreira de Laurindo Almeida: a primeira formação foi o trio montado com o guitarrista Larry Coryell, e com a violonista Sharon Isbin. Esse trio, denominado Guitarjam, lançou somente um disco, intitulado Three guitars three, pela gravadora Pro Arte, em 1985. No entanto, o trio conquistou grande prestígio no cenário da musica instrumental americana. Tanto que, em 1988, foram convidados a apresentar-se no Carnegie Hall. A segunda formação foi o duo que montou com o também violonista Charlie Byrd, um aficionado pela música brasileira, especialmente pela Bossa Nova. Com esse duo, durante a década de 1980, Laurindo Almeida lançou quatro álbuns, todos pela Concord Jazz Records. Desses, vale ouvir o álbum Brazilian Soul, lançado em 1981, cujo título refere-se a uma composição de autoria de Radamés Gnattali contida do disco. A terceira formação foi o Laurindo Almeida Trio, grupo que montou com o contrabaixista Bob Magnussen e, em diferentes momentos, os bateristas Jim Plank e Chuck Flores. Com essa formação Laurindo tocaria durante toda a década de 1980 e a primeira metade da década de 1990. Acredito que a última turnê desse grupo, fora dos Estados Unidos, foi realizada em 1992, no continente europeu, mais especificamente, na Suíça, Holanda e Alemanha, onde se apresentaram no Leverkusener Jazz Lage.
Dentre os inúmeros álbuns que Laurindo Almeida lançou durante sua carreira como músico popular, destaca-se o Guitar from Ipanema, lançado pela Capitol Records, em 1964. Por ele, Laurindo foi agraciado um ano depois, em 1965, com o Grammy de Melhor Performance Instrumental de Jazz, tendo concorrido com músicos do calibre de Henry Mancini, Quincy Jones e Miles Davis.
O retorno ao Brasil
Enquanto sua mãe era viva, Laurindo Almeida vinha ao Brasil quase anualmente. Depois da morte de D. Placidina, em 1973, Laurindo retornou ao Brasil, mais especificadamente ao Rio de Janeiro, poucas vezes. Dentre essas vindas, ora a trabalho, ora em visita aos irmãos - Geraldo e Edgar de Almeida - e amigos, algumas merecem ser mencionadas:
Um dos episódios de uma dessas visitas, ocorrida em 1953, encontra-se descrito no livro Garoto, sinal dos tempos, dos autores Irati Antônio e Regina Pereira:
Quarta-feira, 29 de abril de 1953, inscrever-se-á, para sempre,
no livro de ouro dos momentos inesquecíveis. Numa reunião
íntima na residência do maestro e compositor Radamés
Gnattali, a música brasileira popular e erudita foi distinguida
pelos violões mágicos de Garoto e Laurindo Almeida, o
contrabaixo que tem alma, de Vidal, nos milagres digitais em
solos de acordeão, respectivamente, por Sivuca e Chiquinho,
as exposições de belíssimos temas ao piano pelo próprio
Radamés. [...] Laurindo executou maravilhas ao violão, em
choros e sambas e alguns sucessos atuais do país de
Gershwin. Já era madrugada. Um friozinho cortante soprava do
lado do mar. [...] Garoto e Laurindo em duo rememoram criação
de ambos, antes da ida do segundo para os Estados Unidos.
(Passos C. apud Antônio & Pereira, 1982, p.49)
Quatro anos depois, outra vinda ao Brasil é mencionada no artigo intitulado "Laurindo Almeida, Big Brother" (1996), do musicólogo do Departamento de Música da California State University, Northridge, Ronald Purcell: com o intuito de sustentar sua hipótese de que Laurindo Almeida teria sido um precursor da Bossa Nova, Purcell comenta que em uma conversa com o crítico e historiador do jazz Leonard Feather, Laurindo afirmou ter levado, em visita ao Rio de Janeiro, em 1957, a série de discos Brazilliance, já mencionada anteriormente, para alguns de seus amigos músicos ouvirem. Fato que, segundo o musicólogo, pode ter contribuído, do ponto de vista
da concepção musical, no surgimento da Bossa Nova.26
Dez anos depois, em 1967, Laurindo veio novamente ao Rio de Janeiro como convidado especial do II Festival Internacional da Canção, promovido pela TV Globo. Ricardo Cravo Albim, em seu artigo "Um violão renasce", publicado no jornal O Dia, de 26 de Julho de 1999, comenta:
Lembro-me que, durante o FIC, o Laurindo foi convidado a fazer
um concerto na sala Cecília Meireles. Pois bem: a nata dos
figurões internacionais foi ouvi-lo. Músicos, cantores e
compositores brasileiros? Contavam-se nos dedos de uma
mão. E ainda sobravam dedos. (Albim, 1999)
Nessa ocasião, Laurindo também recebeu o troféu Destaque do Mês, prêmio dado em conjunto pela TV Continental e pela Revista Radiolândia (revista especializada em notícias sobre rádio e TV). A entrega do prêmio ficou a cargo do ator Francisco Milani que, sobre o episódio, em entrevista ao documentário Laurindo Almeida: "Muito Prazer", disse:
Eu afirmo categoricamente: ele não estava feliz! Tinha uma
certa magoa que esse tipo de músico, que esse tipo de gênio
tem, que eu já observei em outros, de não ser reconhecido em
sua pátria, em seu próprio país. Ele era uma expressão cultural
musical do povo brasileiro, e aqui, absolutamente
desconhecido. (Dourado, 1999)
Em outras duas vindas ao Brasil, Laurindo fez parte do júri do Concurso Internacional de Violão Villa-Lobos. A primeira ocorreu em 1972, a convite de Arminda Villa-Lobos (viúva de Villa-Lobos), e a segunda ocorreu em 1987, a convite do violonista Turíbio Santos, na ocasião, o organizador do evento.
Laurindo Almeida e Ronoel Simões no Concurso Internacional de
Violão Villa-Lobos, em 1987. 27
Nessa última ocasião, Laurindo Almeida também fez uma apresentação em São Paulo, no Free Jazz Festival. Em seu artigo intitulado "Laurindo Almeida: o guerreiro da luz", publicado pela revista Cover guitarran° 101, em maio de 2003, escreveu o colunista Jonas Sant'anna:
Lembro-me do Free Jazz de 1987 quando pude ver sua
apresentação. Quase ninguém da plateia o conhecia, mas
quando ele começou a tocar conseguimos entender o
significado deste "sucesso" e os comentários positivos a seu
respeito. Pude ouvir um guitarrista maduro e preocupado em
usar a técnica a favor da sensibilidade, emoção e energia. Um
músico na essência da palavra. Fiquei atônito e envergonhado
por não conhecer seu trabalho, porém, orgulhoso em saber que
era um brasileiro. (2003, p.91)
Essa seria sua última vinda ao Brasil tanto a trabalho quanto em visita à família e amigos no Rio de Janeiro. Laurindo Almeida faleceu nos Estados Unidos aos 77 anos de idade, em julho de 1995.
*Laurindo Almeida no Free Jazz Festival, em 1987.
Os últimos anos de vida nos Estados Unidos
Na primeira metade da década de 1990, em decorrência do câncer diagnosticado e, sobretudo, por conta do tratamento à base de quimioterapia e radioterapia, sua produção musical caiu sensivelmente. Embora tenha feito apresentações até pouco antes de morrer, Laurindo Almeida, que no começo dos anos 1960 chegou a lançar três álbuns por ano, quase não lançou discos inéditos. Muitas gravadoras relançaram alguns de seus álbuns, parte deles em forma de coletânea. Ainda assim, esses discos podem, sem dúvida, ser importantes para obter uma visão panorâmica dos vários momentos e das várias tendências que permearam sua obra musical.
Em Hollywood, o seu último trabalho foi executar a parte de violão da trilha sonora do filme The unforgiven, em 1992. Como compositor, sua última obra foi a Suite aquarelle, composta em homenagem à cidade de Los Angeles, em 1993. Seu último trabalho em disco foi o álbum intitulado Naked sea, em parceria com Danny Welton, lançado pela gravadora Danwell Records, duas semanas antes de sua morte.
Laurindo Almeida faleceu em 26 de julho de 1995, no Valley Presbyterian Hospital, em consequência da leucemia. Seu corpo foi enterrado no Cemitério e Parque Missão de San Francisco, em Los Angeles.
Sua morte foi noticiada por inúmeros veículos de comunicação: nos Estados Unidos, pelo jornal The New York Times. Na Europa, pelo jornal londrino The guardians, entre outros. Já no Brasil, dois dias após sua morte, saiu uma pequena nota no Jornal do Brasil, sem assinatura e com o título inverídico: "Morre o violonista que acompanhava Carmem Miranda nos Estados Unidos".
Dois meses após o seu falecimento, foi realizado no teatro da California State University, Northridge, em 23 de setembro de 1995, um tributo à sua memória. Dentre os participantes, estavam presentes - além da viúva de Laurindo, Didi Almeida - Bud Shank, Charlie Byrd, John Pisano, Bob Magnussen, Jim Plank, Jimmy Stewart e Chuck Flores, músicos com os quais trabalhou em diferentes momentos de sua carreira. Esse show pode ser visto no DVD intitulado Laurindo Almeida: tribute to a master, produzido em 2005 pela Mablan Entertainment, por Debby Forman e Carlos Tavares.
A partir de 1999, os arquivos pessoais de Laurindo Almeida passaram a fazer parte de um dos maiores acervos musicais do mundo, o do Departamento de Música da Biblioteca do Congresso Nacional dos Estados Unidos, localizado em Washington. "Discos, partituras, fotografias e objetos pessoais de Laurindo podem ser vistos ao lado das obras de grandes compositores e intérpretes como J. S. Bach, J. Brahms e Frank Sinatra" (Dourado, 1999).
*Lápide de Laurindo localizada no Cemitério e Parque Missão de
San Francisco, em Los Angeles.
1 Foto tirada em visita à cidade, em 25 de julho de 2006.
2 O recorte do jornal encontra-se digitalizado no item Anexos II.
3 A família de Laurindo Almeida tinha por hábito o cultivo da música. Todos os irmãos tocavam algum instrumento. Ainda assim, suas primeiras aulas de violão, tomadas da irmã Maria Elisa, foram "secretas" porque, naquela época, o violão era um instrumento marginalizado por estar associado às manifestações artísticas das camadas mais baixas da população. E, naturalmente, havia o receio de que Laurindo viesse a se tornar um violonista profissional.
4 Dado extraído do jornal O Estado de S. Paulo de 9 de julho de 1997.
5 Aníbal Augusto Sardinha (1915-1955).
6 Dentre estes músicos, podemos citar nomes como Alfredo da Rocha Vianna Filho "Pixinguinha", Garoto, Dilermando Reis, Radamés Gnattali e outros menos conhecidos como Armando Neves "Armandinho", Luiz Americano, Nestor Amaral, Américo Jacomino "Canhoto", José Menezes de França "Zé Menezes" e Waltel Branco.
7 O locutor César Ladeira ficou conhecido por transmitir, ao vivo, pelo rádio, os acontecimentos da Revolução Constitucionalista de 1932.
8 As consultas foram realizadas entre os meses de junho e setembro de 2006, nos seguintes sites: Instituto Moreira Sales:
www.ims.com.br e Fundação Joaquim Nabuco: www.fundaj.br, e encontram-se catalogadas no item Obra Completa.
9 Entrevista a mim concedida na Rádio Cultura, em 30 de outubro
de 2006. A transcrição encontra-se no item Anexos II.
10 A suíte foi escrita para violão elétrico; no entanto, foi gravada com guitarra elétrica.
11 Concerto dedicado ao violonista José Menezes.
12 Cantor do Regional do Donga cujo nome verdadeiro era José Nascimento.
13 Cantora da Rádio Nacional.
14 Para saber mais sobre o assunto, ver o artigo Música Brasiliensis: Stokowsky caçado de Daniella Thompson, 2000, traduzido por Alexandre Dias em 2005. Disponível no link da internet:
http://daniellathompson.com/Texts/Stokowski/Cacando_Stokowski.ht
m. Consulta realizada em dezembro de 2006.
15 O concerto data de 1951. Sua estreia deu-se somente em 1956, nos Estados Unidos, com a Houston Symphony Orchestra e Andrés Segovia ao violão. Aliás, esse concerto, inicialmente chamado Fantasia concertante, transformou-se em concerto a pedido do próprio Segovia e a este foi dedicado. O LP de Laurindo infelizmente não contém informações referentes à data de gravação e lançamento. Entretanto, consta na capa que se trata da primeira gravação do primeiro concerto de Villa-Lobos. Desse modo, pode-se presumir que a gravação tenha sido feita ainda na década de 1950.
16 Entrevista realizada em São Paulo, no dia 29 de julho de 2006. A
transcrição encontra-se no item Anexos II.
17 Segundo o historiador Boris Fausto, a transição para o regime democrático não representou uma ruptura com o passado, mas uma mudança de rumos, mantendo-se muitas continuidades. Isto porque, embora Dutra tenha sido um dos corresponsáveis pela deposição de Getúlio, em 29 de outubro de 1945, levando, assim, o país há um processo de redemocratização, a sua vitória nas eleições à presidência da república, deu-se, em grande parte, devido ao apoio do próprio Getúlio Vargas, que colocou, à sua disposição, a maquina eleitoral montada pelo PSD - partido fundado sob os seus auspícios- a partir do prestígio que possuía entre a classe trabalhadora. Fato que mostrou o repúdio da grande massa ao antigetulismo -geralmente associado ao interesse das elites. (Fausto, 1996)
18 Além do Balneário da Urca, Laurindo também trabalhou nos Cassinos Copacabana, Atlântico e Icaraí.
19 A vida amorosa de Laurindo Almeida é um capítulo à parte. Conheceu sua primeira esposa, Evarista, no ônibus: "Laurindo começou a paquera, ela saltou na Rua Pereira da Silva, em Laranjeiras, ele foi atrás e os dois acabaram morando juntos, ele 17 e ela 19 anos." (Almeida apud Cortes, 1996). Com ela teve seu único filho legítimo: Laurindo Almeida Jr. "Quando ainda vivia com Evarista, começou a 'esticar asas' para a vizinha Lígia, uma mulher desquitada mais velha que sua esposa. Quando descobriu, Evarista rompeu com Laurindo, que passou a viver com Lígia. Antes de separar-se da segunda mulher, o músico conheceu uma bailarina portuguesa que dançava no Balneário da Urca, Maria Miguelina, que começou a namorar. Quando Lígia descobriu, desesperada, atirou-se do quinto andar onde moravam. Mas o destino da portuguesa não foi muito diferente. Os dois viviam nos Estados Unidos quando Laurindo se apaixonou pela cantora lírica Deltra Eamon. Miguelina morreu pouco depois, e até hoje não existe uma confirmação sobre a sua morte por ingestão excessiva de barbitúricos" (idem, 1996).
20 Entrevista concedida pelo museólogo e historiador da cidade de Miracatu, Paulo de Castro Laragnoit, em 25 de julho de 2006. A
transcrição encontra-se no item Anexos II. O livro a que se refere não foi publicado até o presente momento.
21 Para saber mais sobre esses filmes, ver: www.imdb.com. Consulta realizada em dezembro de 2006.
22 Essas canções podem ser ouvidas na série Igor Stravinsky Edition: The Nightingale - Mavra 35 songs, Vol.8 (CD n° SM2K 46298) reedição da Sonny Classical, de 1991.
23 Foto digitalizada do DVD Tribute to a Master. Brasil: Mablan Entertainment, 1995.
24 Os discos representam um marco na fusão do jazz com ritmos brasileiros nos Estados Unidos. No Brasil, isso já ocorria desde a década de 1920. Esse assunto será tratado nos capítulo, 2 e 3.
25 No começo dos anos 1990, Laurindo Almeida fez novamente turnês com o grupo.
26 Como já mencionado, este assunto será tratado de forma mais aprofundada nos capítulos 2 e 3.
27 Foto que pertence ao acervo particular do colecionador Ronoel Simões.